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8. Qual o impacto do resto do mundo sobre os Bric e quão independentes podem ser eles do resto da economia mundial?
Um exercício desse tipo, tendente a enfatizar o impacto dos Bric na futura economia mundial, não pode deixar de considerar o impacto da economia mundial – em primeiro lugar de seus principais atores – sobre os próprios Bric, individualmente considerados, pois este aspecto é ainda mais decisivo do que o exercício em questão. Com efeito, a despeito de teses sobre o “descolamento” dos principais emergentes, entre eles os Bric, do ciclo econômico dos países do G7 e dos demais avançados, o fato é que esse impacto é muito mais decisivo do que admitido normalmente. Não se trata, tão somente, de mercados de consumo e de fontes de investimento direto, ainda que apenas esses vetores já sejam relevantes para os próprios ciclos econômicos dos emergentes e outros países em desenvolvimento.
Na verdade, a economia mundial não se apresenta apenas como um conjunto de espaços (reais ou virtuais) de intercâmbio de bens e serviços, com os quais cada unidade nacional pode ter maior ou menor interação física. Mesmo na hipótese de uma osmose dinâmica entre cada economia nacional com essa interface internacional relativamente complexa, ela não esgota as características fundamentais da economia moderna. Esta é, no seu aspecto mais essencial, basicamente um espaço para o intercâmbio de
idéias, e nesse sentido, a dominação intelectual do chamado Ocidente desenvolvido deve continuar a se exercer durante o futuro previsível e imaginável.
Quando se observa o panorama geral da economia mundial, uma conclusão parece inevitável: as mesmas forças que transformaram o mundo desde o século XVI continuam a moldar o mundo contemporâneo e aquele previsível no horizonte, não só pelos fluxos de bens e serviços, mas também pelas formas de organização econômica e, sobretudo, pela produção de idéias e conceitos que sustentam os fluxos reais. Desse ponto de vista, não se pode, ainda, conceber uma suposta independência dos países em desenvolvimento do núcleo central da economia mundial. Aliás, o próprio conceito de “países em desenvolvimento”, ou de economias centrais e “periféricas” pode ser posto em dúvida para fins de uma análise isenta de supostos ideológicos.
Não caberia, nos limites deste ensaio, discutir os preconceitos filosóficos e de organização “mental” que presidiram à construção política do mundo contemporâneo, tanto porque essa construção tem sólidos fundamentos na realidade: existem, sim, países “centrais” e “periféricos”; existem, sim economias “dominantes” e outras que são “dominadas” ou “dependentes”. Mas essas dicotomias simplistas e redutoras não esgotam a realidade formada a partir das grandes navegações dos séculos XIV e XV e, depois, aquela constituída pela unificação econômica do mundo a partir do século XIX (provisoriamente interrompida, durante breves 70 anos, por um experimento socialista “alternativo”).
O que cabe, neste momento, é reafirmar o entendimento de que os Bric e os demais países emergentes não têm um itinerário e um destino econômico distintos do que seria possível conceber para os pólos mais avançados da economia mundial, que são os que dão os parâmetros fundamentais pelos quais se organiza essa economia, num processo dinâmico que não é dominado exclusivamente por nenhum centro específico, mas que possui vários centros de “produção” e de disseminação de idéias e de conhecimento prático, através dos quais é tecida a teia da economia mundial.
Brasília, 26 de agosto de 2008
(a continuar na próxima edição)