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9. O que esse conjunto de economias emergentes e de novos poderes regionais ou mundiais significa em termos geoeconômicos ou geoestratégicos no médio e longo prazos?
Qualquer que seja a conformação futura da economia mundial, os Bric, assim como todas as outras economias, maduras, emergentes ou ainda em “hibernação”, são partes integrantes de qualquer paisagem geoeconômica ou geopolítica que se possa conceber. Essa é uma realidade que independe de estudos por especialistas e que não tem a ver com o “ajuntamento” artificial de quatro, ou mais, países num novo bloco, supostamente homogêneo, por agregação arbitrária de um desses especialistas em processos econômicos. Todas as economias, em maior ou menor grau, têm um papel a cumprir no sistema econômico mundial. Mas, obviamente, como ocorre no mundo da política de poder, algumas economias são “mais iguais” do que outras, e entre estas se situam os Bric, países capazes de impactar, seletivamente, um ou outro aspecto das relações econômicas internacionais, sem que sua ação seja coordenada ou intencional.
Economistas acadêmicos, como outros cientistas sociais, tendem a simplificar a realidade a pretexto de racionalizar processos que necessitam de uma explicação mais complexa ou elaborada. O conceito “Bric”, em sua aparente novidade, é uma dessas
trouvailles interessantes que passam a ocupar espaços informativos e a mente dos jornalistas, impedindo, talvez, que análises mais elaboradas sejam conduzidas de modo responsável e, talvez até, excitando a imaginação de líderes políticos em busca de alguma idéia nova, mesmo desinteressante. O conceito Bric pode ter essa função.
Mas o que esse conceito representa, verdadeiramente, em acréscimo à, ou fora da virtude heurística de organizar – eventualmente simplificando – uma análise mais complexa sobre as novas configurações do sistema mundial? Independentemente de suas conseqüências práticas, em termos de reorganização parcial da economia mundial e, a partir daí, seus inevitáveis reflexos nos planos estratégico, político e até militar, o conceito também tem a capacidade de induzir espíritos preocupados com a realidade de uma “velha” hegemonia a alimentar a idéia de uma “ruptura de sistema”, ou seja, a eliminação, ou talvez a substituição, dessa antiga hegemonia.
Esta é, talvez, a conseqüência mais visível da proposta de transposição de um conceito virtual da análise econômica – conduzida pelos economistas do Goldman Sachs – para a realidade tangível da vida político-diplomática, sob a forma de uma proposta tendente a converter o Bric num grupo efetivo de coordenação de políticas (e eventuais ações) no plano mundial. Estimulados pela honrosa distinção que lhes foi gratuitamente oferecida por um “aprendiz de feiticeiro” econômico, que viu neles os substitutos designados dos velhos
hegemons, líderes políticos dos Bric começam a se encantar com a idéia de encarnar uma nova realidade política que, bafejada pela propaganda também gratuita dos meios de comunicação, esperava tão somente por sua formalização adequada.
Essa institucionalização, concebida informalmente, num primeiro momento, entre alguns protagonistas dos Bric, assumiu, em maio de 2008, um formato mais estruturado, quase parecido a um “grupo”, termo que, entretanto, não é utilizado no comunicado liberado em nome dos quatro “Bric countries” em 16 de maio, em Ecaterimburgo, Rússia. Na declaração, os ministros de relações exteriores dos Bric sublinham, em primeiro lugar, seus “interesses comuns” e a “coincidência ou similaridade de abordagens em relação aos problemas urgentes do desenvolvimento global”, para depois concordar com a tarefa de construir “um sistema internacional fundado no predomínio do direito (
rule of law) e na diplomacia multilateral”. O resto do texto é ocupado pelo diplomatês habitual da agenda internacional; mas no ponto que mais interessavam o Brasil e a Índia, qual seja, seu eventual acesso ao Conselho de Segurança da ONU, a linguagem é mais cuidadosamente formulada: “Os Ministros da Rússia e da China reiteraram que seus países dão importância ao status da Índia e do Brasil nos assuntos internacionais, e compreendem e apóiam as aspirações da Índia e do Brasil em desempenhar um maior papel nas Nações Unidas.” Ou seja, nada além de compreensão e apoio, sem que no entanto esse apoio se traduza em votos efetivos no processo de reforma da Carta da ONU.
Independentemente, porém, do grau efetivo de “coincidência ou similaridade” dos Bric quanto a seus “interesses comuns”, o fato é que esse exercício intelectual deslanchou um processo de efetiva coordenação entre quatro grandes emergentes, que prometem exercer o seu
quantum de poder econômico a serviço de causas políticas ainda não de todo claras, mas que poderiam significar a conformação de uma “nova geografia econômica internacional”; talvez, até, uma “mudança no eixo do poder mundial”, segundo formulações já ouvidas de alguns dentre eles. Com efeito, o que pode estar subjacente à formalização do Bric seria o não tão secreto desejo de alterar a balança de poder, em termos de influência econômica e política mundial por certo, mas talvez também no plano do equilíbrio militar, o “definidor de última instância” do poder mundial.
Historicamente, são raras as tentativas de alteração pacífica do equilíbrio do poder mundial, na medida em que os beneficiários do
status quo tendem a resistir às demandas dos contestadores por novos espaços no quadro dessa mesma ordem. Caso as expectativas não sejam atendidas, os contestadores podem se decidir pela mudança dessa ordem, se possível por meios pacíficos, se necessário por métodos violentos. A Alemanha imperial empreendeu, por duas vezes, entre 1870 e 1918, uma tentativa de alterar o equilíbrio do poder na Europa, com sucesso pleno na primeira vez e um quase sucesso na segunda vez, não fosse pela intervenção dos EUA nos campos do norte da França, em 1917. A partir de 1938, com a anexação da Áustria e de parte da Tchecoslováquia, a Alemanha nazista deu início, em cooperação com a Itália fascista e o Japão militarista, à mais ousada tentativa de alterar pela força a ordem mundial; os três poderes contestadores estiveram próximos de realizar suas metas expansionistas, não fosse pela resistência do Reino Unido e pelo poderio econômico americano (em 1939, a URSS apoiou, indireta mas voluntariamente, essa tentativa de eliminação dos velhos
hegemons, mas acabou vítima, ela também, do expansionismo nazista).
Contidos, derrotados e radicalmente transformados os contestadores fascistas do entre-guerras, a geopolítica do poder mundial passou a ser dominada, a partir de 1947, pelo expansionismo de tipo soviético, sem, contudo, chegar-se ao enfrentamento direto com a superpotência americana, em vista da mudança brutal nas ferramentas militares em função do vetor nuclear, ele mesmo uma arma de última instância. Os conflitos se deram, então, por procuração, cada lado contabilizando avanços e recuos nos teatros periféricos que passaram a concentrar o essencial do “grande jogo”. Essa “terceira guerra mundial” terminou sem que o
hegemon conservador tivesse logrado vitória; a derrota do lado economicamente mais débil se deu, na verdade, por auto-implosão de um socialismo esclerosado e incapaz de competir no plano da eficiência produtiva. Depois da derrocada espetacular da URSS e do momento “unipolar”, do qual os EUA emergiram como única superpotência efetiva, o mundo parece caminhar para uma nova fase de transição, na qual se assiste a um declínio relativo dos EUA e à ascensão (China), reafirmação (Rússia) ou emergência de novos atores (Índia, Brasil, União Européia), que poderão redistribuir as cartas nos novos cenários estratégicos.
Existem fundadas dúvidas, entre os analistas, sobre se o mundo entra em uma era de competição entre novos candidatos a
hegemon – dos quais o mais falado seria a China pós-socialista – ou se estão sendo lançadas as bases de uma paz não-kantiana. Esta seria a estabilidade fundada, não sobre a convivência pacífica entre repúblicas democráticas, mas sobre a mútua tolerância entre grandes potências, dado o impasse estratégico produzido pela arma nuclear. O fato é que dentre os poderes emergentes que poderiam entrar na nova equação estratégica figuram pelo menos dois Bric, por acaso ex-socialistas e ainda dominados por sistemas políticos autoritários e agitados por problemas étnicos e territoriais em suas fronteiras próximas e territórios próprios.
Brasília, 26 de agosto de 2008
(a continuar na próxima edição)