http://diplomatizzando.blogspot.com
www.pralmeida.org
pralmeida@mac.com
O diplomata Paulo Roberto de Almeida lançará, nos primeiros dias de outubro, a segunda edição de seu livro “O estudo das relações internacionais do Brasil” (LGE Editora). ViaPolítica antecipa aqui o prefácio à obra, revista e reestruturada.
Prefácio à segunda edição
Os historiadores, em geral, mas sobretudo os de tradição francesa, conhecem bem a distinção entre história factual, ou
événementielle, e história analítica, ou interpretativa. A primeira derivava seus métodos da boa cepa rankeana – aquela do
wie es eigentlich geweseni, ou seja, contar a história como ela tinha se passado, realmente –, ao passo que a segunda, que recusou certa legitimidade à primeira com o desenvolvimento da chamada
école des Annales, tomou impulso sobretudo a partir das influências antropológicas, sociológicas e propriamente marxistas, ou seja, relativamente economicistas, sobre os novos modos de
racconter l’histoire. Essas influências se tornaram determinantes, e talvez mesmo “ditatorialmente” dominantes nas últimas décadas, nas técnicas de pesquisa, nos métodos de coleta dos dados elementares do devir histórico e, à mais forte razão, nas formas de interpretação da “matéria bruta” dessa nova história, que é constituída pelos documentos, por certo, mas também pela própria tradição oral dos homens, pelas suas “pegadas” no lodo do tempo, pelos vestígios das civilizações materiais hoje desaparecidas. As novas formas de contar a história se afirmaram, com maior ênfase, na interpretação e nas construções analíticas em torno dos processos de longa duração – tão caros a Fernand Braudel –, distinguindo-os das conjunturas históricas de transformação – de que falava Ernest Labrousse – e, sobretudo, dos eventos circunstanciais e fortuitos da vida dos homens, ou mesmo determinados pelos grandes heróis da história, como ainda se compraziam, depois de Carlyle, tantos historiadores factualistas do século XIX e do início do século XX.
Hoje em dia, com a integração dessas várias abordagens, essas distinções perderam muito do seu ar de novidade ou de rebeldia em relação a “velhos métodos” do passado, ao passo que a história factual ganhou, em contrapartida, novos ares de nobreza, com o
essor das formas mais ou menos biográficas ou de micro-abordagem adotadas por muitos “novos” historiadores. Ressente-se, sobretudo, uma perda indefensável nos “saberes” acumulados pelos mais jovens, representada pela repetição quase mecânica desses “modos de produção” e desses “processos de transformação estrutural” que correspondem a uma vulgata deformada do conhecimento clássico possuído pelos antigos defensores da história social, já que poucos jovens, atualmente, conhecem os fatos básicos da história, o encadeamento dos eventos, a sucessão de batalhas, reuniões diplomáticas e tratados que compõem, afinal de contas, o cerne mesmo de determinados processos históricos de transformação.
Este livro foi construído mentalmente ao longo de muitos anos de contato do autor com os dados básicos da vida econômica e material, com os documentos históricos típicos das chancelarias – os tratados internacionais – e na leitura atenta dos episódios políticos por eles descritos, pensando, justamente, na matéria prima da história, nos fatos básicos, nos eventos elementares, nos processos materiais que dão sentido à evolução do mundo contemporâneo. É por esse motivo que a temporalidade e a cronologia assumem nele uma parte considerável da informação apresentada, a ponto de se poder dizer que as cronologias, e a própria bibliografia, que reúne o material de referência aqui utilizado, constituem suas partes mais importantes, ou pelo menos aquelas que sustentam os desenvolvimentos analíticos dos primeiros capítulos.
Procedi, nesta segunda edição, a uma inversão relevante na ordem da primeira edição, composta em 1998, publicada no ano seguinte e, ao que parece, rapidamente esgotada nos dois ou três anos que se seguiram. O antigo capítulo quarto, relativo à produção brasileira em relações internacionais, tornou-se agora o capítulo inaugural,
et pour cause: é ele que dá sentido ao título original, aliás preservado – com a adição de um subtítulo que informa sobre as motivações do autor – e é ele que consolida o essencial de uma “acumulação” muito pouco “primitiva” de leituras e de consultas aos próprios autores aqui apresentados, uma vez que ele pretende, e talvez consiga, reunir o essencial da “manufatura” brasileira nesse campo relativamente novo de estudos multidisciplinares. Ele vem em primeiro lugar porque pode facilmente sustentar a pergunta básica: “o que se deve ler para conhecer essa área?”
Creio ter realizado, nesse primeiro capítulo, assim como nas cronologias e na própria bibliografia, um
racconto storico eminentemente factualista e linear sobre aquilo que de mais importante se deveria conhecer, tanto em termos de fatos como de autores e obras, ademais de uma avaliação qualitativa a propósito das relações internacionais do Brasil. Tanto essas seções, como os demais capítulos analíticos e interpretativos, condensam muitos anos – talvez algumas décadas – de pesquisa, de estudo e de redação paciente e cuidadosa de trabalhos diversos sobre a história diplomática, sobre as relações exteriores, atuais, do Brasil, e sobre as relações econômicas internacionais de modo geral. O contato, não só com os arquivos, mas também com a documentação de uso corrente e, mais importante, a presença em muitos foros de discussão e negociação de alguns desses eventos e processos interessando às relações internacionais do Brasil – quer seja pelo lado da integração, do sistema multilateral de comércio ou ainda das finanças internacionais – me permitiram um conhecimento de primeira mão, se ouso dizer, de alguns dos episódios ou processos aqui descritos com alguma brevidade.
Por isso mesmo hão de perdoar-me os colegas de profissão que também se dedicam às lides acadêmicas e os muitos pesquisadores profissionais – aqui nominalmente arrolados nas dezenas de páginas da bibliografia –, se a compilação de meus trabalhos,
in fine, contempla um volume exponencialmente maior do que o número forçosamente seletivo que eu tive de fazer dos seus trabalhos: tratava-se, por um lado e numa atitude
pro domo, de compilar, justamente, o que de mais importante fui acumulando nessas últimas duas décadas de produção exclusivamente “internacionalista” – e este livro era uma oportunidade única de fazê-lo – e, por outro lado, de oferecer uma espécie de balanço intelectual de minha própria produção que, de resto, é muito pouco analisada no capítulo pertinente:
encore, et pour cause: on n’est jamais un bon critique de soi même!
O que se vai ler, portanto, é uma versão inteiramente revista, em alguns casos remanejada, em outros simplesmente atualizada, do livro preparado algo rapidamente oito anos atrás, quando sequer tive oportunidade de lançá-lo adequadamente no Brasil, uma vez que estava me preparando para partir para minha mais recente missão no exterior. Ao longo desses anos enveredei por alguns outros caminhos – como a análise do sistema financeiro e monetário internacional, por exemplo, ou ainda um balanço da contribuição dos brasilianistas para as ciências sociais do Brasil –, mas jamais deixei de acumular leituras, dados, análises e interpretações sobre os aspectos mais relevantes das relações internacionais do Brasil. Essa é a matéria prima de minhas pesquisas e reflexões nas últimas duas décadas e creio que este livro oferece, justamente, uma síntese do conhecimento acumulado desde então.
Não que ele contenha toda a produção elaborada nesse terreno ao longo do período coberto, longe disso. Mas ele tem a pretensão de oferecer, pelo menos, uma informação sobre o que se afigura essencial para se apreender os elementos cruciais de nossa interface externa ao longo da história, fornecendo pistas, indicações e roteiros para pesquisas ulteriores nesse campo e para o aprofundamento do conhecimento em todas as áreas porventura aqui tocadas.
Creio, sinceramente, que se trata de uma contribuição honesta, e o mais das vezes objetiva, para a apreensão deste panorama complexo que são as relações internacionais de um país tão contraditório como é o Brasil: um gigante industrial e, ao mesmo tempo, um anão tecnológico; uma grande potência econômica pela sua produção bruta, mas com os pés de barro em virtude de uma população singularmente deseducada e socialmente marcada por terríveis iniqüidades distributivas; um grande fornecedor mundial de muitas matérias primas essenciais para o funcionamento, a todo vapor, das “fornalhas do capitalismo” e um pretenso
global trader conspicuamente ausente dos setores mais dinâmicos do comércio mundial.
O Brasil é tudo isso e ainda é um país que desarma as interpretações fáceis. Quão errado estava Mário de Andrade ao saudar alegremente, nos anos vinte do século passado, o desenvolvimento da sociologia entre nós, dizendo que ela era a “arte de salvar rapidamente o Brasil” (salvá-lo de si mesmo, talvez, mais do que de qualquer “ameaça internacional”, como acreditam alguns, equivocadamente). Nossos principais problemas, longe de serem o resultado de uma hipotética “exploração externa” – aos quase duzentos anos de autonomia, isto seria, de toda forma, uma demonstração cabal de incompetência –, são mais exatamente “tupiniquins”, como queriam os modernistas de cem anos atrás, ou seja, eles são propriamente
made in Brazil, como a jabuticaba e o jeitinho.
Este livro, portanto, não se destina a “salvar” o Brasil de nenhuma ameaça externa, por mais sociológicas e “internacionalistas” que sejam as análises aqui contidas (até por deformação acadêmica e profissional). Em todo caso, ele busca, honestamente, informar os brasileiros – e talvez até alguns estudiosos estrangeiros – sobre algumas das características e alguns dos componentes de nossa evolução histórica no terreno da política externa e das relações internacionais, com ênfase em seus aspectos econômicos e institucionais. Espero ter colaborado, ao melhor de minhas capacidades, para o avanço desse campo ainda relativamente recente de estudo e de pesquisa no Brasil, cujos progressos foram suficientemente notáveis, desde a primeira edição desta obra, para justificar um incremento significativo na bibliografia registrada e na informação que tinha sido processada e analisada até o final da década anterior.
Não poderia concluir sem deixar meu registro de agradecimento a todos aqueles que comigo colaboraram, nas diversas etapas deste trabalho de levantamento e avaliação da produção brasileira em relações internacionais. Muitos colegas de trabalho, tanto na diplomacia quanto na academia, os quais me eximo de citar para não cometer injustiças, foram especialmente solícitos em fornecer-me bibliografias atualizadas. Alguns também me passaram cópias de seus próprios trabalhos, o que facilitou a revisão da produção acumulada desde a primeira edição desta obra e justificou, inclusive, o acréscimo de um subtítulo a esta nova edição, correspondendo inteiramente ao seu espírito e motivação. Vivian Cristina Müller, bacharel em direito da Unimep, concedeu-me acesso à sua monografia sobre o ensino do Direito nos cursos de relações internacionais, o que me dispensou de pesquisa equivalente para a obtenção de dados atualizados quanto ao número e a localização desses muitos cursos, autorizados ou em funcionamento. As diretoras executiva e administrativa da empresa de consultoria, baseada em Brasília, Pacta Internacional, Carolina Valente e Raquel Vaz, organizadoras da III Conferência Mundial para as Relações Internacionais, foram de verdade as responsáveis pelo fato deste livro ter sido preparado em nova edição em tempo hábil para ser lançado nesse evento.
Meus familiares, finalmente – ou antes, e certamente acima, de tudo –, Carmen Lícia, Pedro Paulo e Maíra, foram extremamente compreensivos com uma dedicação exagerada aos trabalhos de redação e de revisão deste livro, por dias e dias seguidos, mas a quem devo, sobretudo, a felicidade de poder desfrutar de um ambiente saudável e condizente com as melhores práticas do trabalho intelectual: a eles, junto com um humilde pedido de desculpas pelas muitas ausências, todo o meu amor, carinho e o sincero reconhecimento.
Concluo,
à la Cervantes, como o quixotesco personagem de um escritor tão nômade e aventureiro quanto sempre foram os diplomatas:
Vale!