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Qual o legado dos EUA no Iraque?

A infeliz verdade pode ser que o Iraque tenha já atingido uma sinistra forma de estabilidade, onde persiste um alto nível de violência e um estado semi-desfuncional. Por Patrick Cockburn, de Counterpunch, em tradução de Luis Leiria, para Esquerda.net
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Aquilo que não ouvimos falar
sobre o Iraque
Antes da invasão americana do Iraque em 2003, a percentagem da população urbana que vivia em bairros de lata ou favelas situava-se abaixo dos 20%. Hoje em dia essa percentagem subiu para 53%. Por Adil E. Shamoo, em Foreign Policy In Focus
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Homo non naturalis
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Por Jorge Pinheiro, de Chapada dos Guimarães, Mato Grosso  

Caverna do Jari
Uma viagem ao coração da América Latina onde, no atrás de muitos atrás, o fogo jorrou de seu interior para, depois, ser moldada pelo água e pelo vento.

Meia-noite. O tempo está agradável e aproveito para comer uma bagunça dupla aqui na esquina das avenidas Marechal Deodoro com Getúlio Vargas. A fome e a ousadia turística me trouxeram até aqui, nesse início da madrugada cuiabana.

Algumas horas se passaram e estou a caminho da Chapada. Vou de rubi, sete da manhã, a partir da rodoviária.

Como a vida, o que parece nem sempre aparece, não é, pois. Rubi não, mas viação rápido chapadense pode ser. Até aqui a família chegou, por isso também é terra do Emanuel Pinheiro. Os pinheiros são pinophyta, mas a família é pinaceae. São perenes e resinosos. Tudo casca grossa, escamoso. Mas as novas gerações são bonitas, produzidos em inflorescências regulares, em espiral, anel de brotos, apertado. Desses pinheiros quero falar não. Mas daqueles que enfrentaram o tribunal da Inquisição, em 1536, junto aos demais infectos de sangue, árabes, negros, mestiços e ciganos, que o Ofício resolveu expurgar, e aos de conduta reprovável, feiticeiros e sexuais transviados. Coitados dos pinheiros, perenes, resinosos, casca grossa, escamosos, mas, sobretudo, matadores de aluguel do homem de Nazaré. E durma-se... E porque cristão-novo não fica velho, ó Manuel, sou possuído pelo desvario. Mas quem entende de pinheiro é o Murillo, patriarca dos cubas cariocas.

É, até aqui a família chegou – do paraíso ao paraíso. Qual é mais paraíso? O paulistano ou o dos Guimarães? Sem dublê, em curvas e imagens, piso no freio porque a pista não tem acostamento. Há homens, máquinas e a Mitsubishi Motors a falar de touro. A placa anuncia o Coxipó do ouro, comedourinho do gado lá das bandeiras, cheio de colonialidades e rusticidades, ao lado das ruínas do arsenal de pólvora.

Verde que te quiero verde. / Verde viento. Verdes ramas. / El barco sobre la mar / y el caballo en la montaña. / Con la sombra en la cintura / ella sueña en su baranda, / verde carne, pelo verde, / con ojos de fría plata. / Verde que te quiero verde. / Bajo la luna gitana, / las cosas le están mirando / y ella no puede mirarlas. (Federico Garcia Lorca, Romance sonâmbulo).

Um lugar – pomposamente apelidado de centro geodésico da América Latina – foi marcado pelo pessoal do general Rondon, em 1909, no campo do Ourique, onde se enforcava os contrários e se matava touros por esporte. É a atual Praça Moreira Cabral, para os cuiabanos do tempo presente, ali onde fica a Assembléia Legislativa de Mato Grosso. Mas o mirante fica mesmo na Chapada. Lá embaixo, a planície pantaneira, e ao longe o sol que vai se espreguiçando até cair de sono. Natureza para paulistano nenhum botar defeito.

Mas a caverna Aroe Jari e a Lagoa Azul ninguém imagina. Fazem parte das formações do Alto Garças e Vila Maria, na bacia do Paraná, na borda noroeste. A caverna é uma gruta de arenito de 1.550 metros de extensão, onde o homo naturalis marcou as paredes. É um cosmo pequeno do cerrado e pisca para uma percorrência inteira desse sistema do Centro-Oeste. Ver, caminhar, mas não grafitar, por favor, são momentos hippies, cheios de significações que só a Lucy no céu com diamantes explica.

Sou paulistano e isso é profissão de fé, porque considero o apóstolo e a cidade gentes finas. Com todo desrespeito à uniformidade imposta, grito que é na cidade diversa que realizo a polissemia da graça multiforme. Como a carne dos antigos tropeiros, estou na salgadeira, não sou ecologenco, embora respeite a fé. Sou desnaturado, não abraço árvore, nem chamo urubu de meu louro. Sou filho da máquina, respiro nitrogênio e vou viver 300 anos. Ciborgue. Homo non naturalis, constructo sapiens.

Compadre, quiero cambiar / mi caballo por su casa, / mi montura por su espejo, / mi cuchillo por su manta. / Compadre, vengo sangrando, / desde los montes de Cabra. / Si yo pudiera, mocito, / ese trato se cerraba. / Pero yo ya no soy yo, / ni mi casa es ya mi casa. / Compadre, quiero morir / decentemente en mi cama. / De acero, si puede ser, / con las sábanas de holanda.

Meu guia, o Zé, amacia o quilômetro longo. Homem de muitas andanças é engenhoso no falar pousado. Foi ele quem me contou que aqui as festas começaram longe, lá com os franciscanos de Assis, e vieram chegando. Invadiram os corações dos índios e dos negros. Cantigas e toadas viraram folclore, atravessaram os séculos até chegar ao colégio Buriti, usina de açúcar, a deixar para trás o morro de são Jerônimo. A matéria-prima foi a pedra canga, presente nas construções e nos caminhos que levam ao portal do Céu. Mas se há do céu, do inferno deve haver. Por isso, disse o meu guia, vamos trilhar em direção ao primeiro portal, lugar de descanso no meio do andar longo na viagem para Cuiabá. Mas quem caminha sabe ser a morte companheira de viagem, assim somos meio nobres, meio escravos, todos aventureiros, sem honra para levar as armas e os brasões assinalados. E quando levantamos a arma, para desferir o golpe mortal, o outro portal faz-se presente. E no gesto certo, o de devolvê-la à bainha, faz-se presente o portal do céu. Este é o descanso no meio do caminho, a paz necessária à viagem. Mas ambos sempre estão diante de nós, dentro de nós.

No atrás de muitos atrás, a terra jorrou o seu de dentro, metamórficas, sedimentares, vulcanizadas. História geológica do pré-cambriano e do cenozóico, mas a invasão marinha foi mais forte. Houve uma, houve duas, inundou, infiltrou a esponja do maciço. Hoje, embaixo do pé que anda há caminhos eternos de água, que navegam fora dos olhos pelas terras guaranis.

¿No ves la herida que tengo / desde el pecho a la garganta? / Trescientas rosas morenas / lleva tu pechera blanca. / Tu sangre rezuma y huele / alrededor de tu faja. / Pero yo ya no soy yo, / ni mi casa es ya mi casa. / Dejadme subir al menos / hasta las altas barandas, / dejadme subir, dejadme, / hasta las verdes barandas. / Barandales de la luna / por donde retumba el agua.

Ficam para trás as cachoeiras, cavernas, lagoas, trilhas, sítios arqueológicos, paleontológicos e os artigiani da Praça Dom Wunibaldo. Volto para o habitat, paraíso sem avatares de Vixnu, eu ciberantropo que de leme na mão faço da máquina irmão pós-natural, consciente de que constructo sapiens também é gente.

7/2/2010

Fonte: ViaPolítica/O autor

E-mail: jorge.sanctus@gmail.com

Jorge Pinheiro nasceu no Rio de Janeiro em 1945, foi dirigente estudantil secundarista e universitário. Ligou-se ao Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), de inspiração brizolista. Exilou-se no Chile, onde foi preso após a queda do governo de Salvador Allende. Ligou-se às correntes trotskistas internacionais, viveu em Portugal e, clandestinamente, no Brasil, sob a ditadura.
Foi processado pelo regime militar e, em 1979, beneficiado pela Lei da Anistia. Exerceu o jornalismo na revista Manchete e no jornal Folha de S. Paulo, e foi um dos editores do jornal alternativo Versus, em sua última etapa.
É cientista da religião e teólogo. É doutor e mestre pelo Programa de Pós-graduação da Universidade Metodista de São Paulo.
Entre seus muitos livros publicados estão Somos a imagem de Deus, ensaios de antropologia teológica (Ágape Editores, 2001); Ética e Espírito Profético, revisitando a História com Paul Tillich (Ed. Igreja sem Fronteiras, 2002); Teologia e Modernidade, Etienne Higuet (org) (Ed.Fonte Editorial, 2005), e A Forma da Religião, Etinne Higuet e Jaci Maraschin (orgs) (Ed. Universidade Metodista de São Paulo, 2006).
 
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