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Os farrapos negros
e a política
da escravidão
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Por Spencer L. Leitman*
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No próximo dia 31 de outubro, durante a 53ª Feira do Livro de Porto Alegre, a Laser Press Comunicação lançará a obra “Sonhos de Liberdade – o legado de Bento Gonçalves, Garibaldi e Anita”, quarto volume da Coleção Sujeito & Perspectiva, uma ação cultural desenvolvida em parceria com o Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul, com o apoio da Assembléia Legislativa gaúcha. O livro reúne o conteúdo de 15 conferências e painéis do seminário internacional realizado em Porto Alegre, em setembro de 2005, em comemoração aos 170 anos da Revolução Farroupilha e do Parlamento gaúcho e aos 130 anos da imigração italiana no Estado.

O livro, patrocinado pela Souza Cruz e pelo Banco do Estado do Rio Grande do Sul – Banrisul, no marco das celebrações internacionais do bicentenário de Giuseppe Garibaldi, terá distribuição gratuita. Entre os autores estão Annita Garibaldi Jallet, da Itália; Enrique Mena Segarra, do Uruguai; Spencer Leitman, dos Estados Unidos; e os brasileiros Voltaire Schilling, Núncia Santoro de Constantino, Yvonne Capuano, Helga Landgraf Piccolo, Eliane Colussi, Luiza Horn Iotti, Miguel Frederico do Espírito Santo, Sérgio da Costa Franco, Maria Medianeira Padoin, Cíntia Vieira Souto, Álvaro Bischoff e Elma Sant’Ana.

Nesta edição, ViaPolítica antecipa a seus leitores o trecho inicial da conferência “Os farrapos negros e a política da escravidão”, proferida pelo historiador Spencer Leitman.

O tema subjacente desta conferência é fundamental para a compreensão do desenvolvimento histórico brasileiro, visto que a escravidão e suas conseqüências, assim como nos Estados Unidos, são as contradições centrais do que foi o início do governo republicano constitucional. Os pais fundadores da nascente República do Piratini, porém, expressando as novas idéias de republicanismo, infundidos com os conceitos de egalité e fraternité, ignoraram e, portanto, maltrataram aqueles que se haviam tornado seus irmãos na guerra.

Infelizmente, não temos documentação escrita dos farrapos negros e de outros escravos da época dos farroupilhas. Na falta de seus pensamentos e experiência, precisamos confiar nos materiais daqueles que foram seus senhores. Não podemos ter mais do que esperança de dar alguma forma às sombras deixadas para trás pelos farrapos e escravos negros. Em parte, há uma responsabilidade histórica de produzir, ou pelo menos proporcionar, uma visão de como suas vidas podem ter sido, assim como as daqueles que os subjugaram.

Talvez os farrapos negros, ao entrarem nas fileiras da Revolução Farroupilha, acreditassem que as funções de combate seriam os primeiros – embora pequenos – passos rumo à igualdade.

“O general, ao analisar o tratado recentemente assinado dando fim à Revolução, interpretou seu significado como o de que todos os ex-escravos que haviam sido libertados - resultado da união às forças oposicionistas - seriam devolvidos a seus proprietários originais, incluindo, talvez, seus próprios fugitivos. Os antigos escravos que haviam recebido sua liberdade para lutar contra os revolucionários estavam, então, acampados na cidade do porto, e o general queria que eles fossem entregues a seus oficiais; claramente agitado por causa do seu iminente prejuízo econômico, ele deu prioridade à questão em seu quartel-general antes de visitar seus pares militares derrotados. Entretanto, não conseguiu convencer seu visitante a devolver seus soldados negros. A lógica do general derrotado provou ser forte demais. Ele disse que aqueles homens já não estavam mais escravizados, pois haviam sido libertados durante o curso da Revolução, antes que o tratado dando fim ao conflito fosse assinado. Além disso, precisava honrar a promessa de libertação do seu monarca. Foram, então, embarcados em um navio para serem mandados embora.”

Tudo isso pode parecer familiar à primeira vista, mas neste elenco de personagens da cena histórica acima não estavam os generais Caxias, Canabarro ou Bento Gonçalves. Tudo ocorreu sessenta e dois anos antes, no quartel-general do general George Washington, em Tappan, Nova York, em 1783. Washington, comandante das forças vitoriosas da Revolução Americana, e que logo depois seria o presidente dos Estados Unidos da América, estava lamentando a ação britânica de transferir seus soldados negros libertos, inclusive os que poderiam ter sido sua propriedade, à Nova Escócia, muito longe do seu alcance e do alcance do seu país.

Colocar ex-escravos e homens libertos em uniformes também foi controverso e politicamente sensível no Brasil. Os planos para a sua disposição após o final da Revolução Farroupilha deveriam ter provocado questões morais, constitucionais e pessoais profundas. Mas isso não aconteceu. A discussão sobre a escravidão foi limitada. As idéias de liberalismo dos farrapos não eram incompatíveis com as tradições autoritárias da época. Na América do Norte, os revolucionários haviam retirado da mesa essa questão ameaçadora e potencialmente divisória. A escravidão estava claramente em oposição aos princípios fundadores da Revolução Americana. Em primeiro lugar vinha a proteção da nova união. Os riscos de enfrentar questões que penetravam no tecido econômico e social da nação agora independente eram muito arriscados naquele momento. Também no Rio Grande do Sul nunca houve de fato a questão de “fazer a revolução e a democracia ao mesmo tempo”.

Na sessão Parlamentar de 1845, o paulista Alves Machado respondeu aos fracos questionamentos do representante de uma minoria sobre rumores relativos a emissários secretos da Corte e expedições governamentais disfarçadas rumando para o sul na conclusão da Revolução Farroupilha, o que ia contra o direito de propriedade. Apesar de a oposição estar atrás de respostas e detalhes que cercavam os acertos finais e os custos dos farrapos negros libertados com o Tratado do Ponche Verde, os dois grupos parlamentares estavam de acordo em relação à inviolabilidade da propriedade privada.

No entanto, ao conceder à oposição o direito de questionamento, Alves Machado não queria qualquer discussão ou investigação no programa de pacificação que estava ocorrendo no Rio Grande do Sul: “…acha que o que for justo mais tarde, agora não o é.” Exatamente como o general britânico havia respondido a George Washington, Machado Alves argumentou que os escravos já haviam sido libertados em 1838: “os escravos entregues pela revolução foram libertados graças ao que estatui o aviso de 19 de novembro de 1838, cuja cláusula 3 mandou que todos os escravos militarizados pelos rebeldes que se apresentassem às forças legais fossem avaliados e postos em liberdade, avaliados para pagá-los a seus donos”.

Houve um precedente histórico na Bahia durante o período de independência. Caxias, então, segundo Machado Alves, estava executando as palavras do Imperador. Em resumo, Machado Alves fechou para sempre a questão da alienação dos farrapos negros ao dizer: “Não é bom que sejam chamadas todas estas cousas a exame; porque o que se lucra hoje com isto? Nada: nada há que ganhar e muito há a perder.” A maioria aplaudiu. Com efeito, o governo imperial honrou e estendeu a interpretação do aviso de 1838, que concedia liberdade aos farrapos negros desertores. Alves Machado minimizou os números para que sua audiência mais solidária suavizasse o impacto da inviolabilidade dos direitos de propriedade, dizendo “que os escravos da revolta não tornam ao poder dos senhores e não excedem a 200, inclusos na soma os 120 que David [Canabarro] entregou no ato da Paz”.

Não importou o discurso histórico acalorado décadas depois sobre a Surpresa de Porongos e o Tratado de Ponche Verde, nem os papéis desempenhados pelo Barão de Caxias e por David Canabarro. É quase certo que os farrapos negros lanceiros e da infantaria, e muitos outros que haviam servido como escravos, que permaneceram como tal durante a Revolução Farroupilha, foram involuntariamente colocados de volta em posições de reduzida autonomia. A escravidão era um sistema incrivelmente adaptador, centrado no trabalho, na coerção e no controle. Talvez os farrapos negros, com o fim da Revolução, tenham sido levados de navio a outras províncias para trabalharem em empreendimentos do Império, ou tenham sido divididos e colocados nas fileiras da Cavalaria Ligeira de Caxias. Com medo da doutrinação política dos farrapos e da inquietação dos escravos, eles não foram devolvidos aos seus proprietários anti-separatistas. Esta era a questão de direitos de propriedade que o legislador minoritário queria trazer à baila à frente de Alves Machado.

O conceito de liberdade no sistema escravista brasileiro é ambíguo. Diferentemente do que aconteceu nos Estados Unidos, onde as linhas divisórias entre liberdade e escravidão eram bem definidas, aqui no Brasil, em 1845, corriam rumores abafados no Rio e cochichos no Rio Grande do Sul. Havia pouca pretensão no que diz respeito ao destino dos farrapos negros uma vez que a situação militar estava resolvida e eles tinham sido removidos, isolados ou colocados em um ambiente militar. Nem todos eram livres e iguais. Os farrapos negros eram tidos, por todos, como socialmente inferiores, além de potencialmente perigosos.

As contradições e falsas promessas eram correntes e visíveis, e constituíam uma ideologia tradicional aceita, confirmadas por considerações econômicas e sociais. Apesar de quase todos se beneficiarem com esse resultado, os escravos e farrapos negros, é claro, recebiam menor autonomia. Nem os antigos farrapos, nem os legalistas vitoriosos queriam o retorno de soldados negros politizados. No fim, para os farrapos estancieiros, que eram brancos, e tinham sido derrotados, o banimento dos farrapos negros deve ter servido, de certa forma, como vingança em relação aos seus competidores provinciais, de quem eles haviam sido tomados.

A Revolução Farroupilha fluiu no tempo e no espaço geográfico. Parecia se mover a passos descansados, com erupções repentinas, mas infreqüentes, que se transformavam em batalhas significativas. A maioria dos encontros militares ficou na categoria de escaramuças. Mestres da insurgência, as forças farrapas recorreram a ataques flexíveis no estilo guerrilha, manobras evasivas e conhecimento do terreno, o que permitiu que sobrevivessem. Com seus movimentos longos, especialmente nos últimos anos da guerra, eles operaram a maioria das vezes na campanha, usando técnicas para importunar e provocar o inimigo, concentrando seus esforços em acumular recrutas e suprimentos essenciais de cavalaria.

A existência militar dos farrapos foi profunda e continuamente dependente da disponibilidade de soldados negros, fossem escravos ou não. Ataques a estâncias e charqueadas legalistas eram fontes certas de escravos, homens libertos e vagabundos. Farrapos brancos da Guarda Nacional podiam receber dispensa para voltar para casa e sustentar suas famílias e fortunas, enquanto os soldados negros eram mobilizados como tropas da primeira linha.

Além disso, a resposta dos rebeldes rio-grandenses a essa constante necessidade de obter homens, cavalos e gado era a de que servia para expandir as operações dentro do Rio Grande do Sul. Eles também desenvolveram contatos com estados vizinhos, províncias e caudilhos do outro lado da longa fronteira. Afastados dos portos de Porto Alegre, Norte e Rio Grande, e das lagoas e sistemas fluviais, os farrapos contavam com apoio importante da Banda Oriental, Entre Ríos e Corrientes. Em troca de roupas, mosquetes, pistolas, espadas e, é claro, cavalos, os farrapos entregavam gado capturado. Da mesma forma, tais acordos também provaram ser negócios privados lucrativos. A vasta campanha servia de refúgio e força para os rebeldes.

Ao final da Revolução, talvez mais de 5 mil ex-escravos e homens libertos haviam servido, estavam ainda na ativa ou se encontravam potencialmente disponíveis para a resistência. Sua presença em si, como uma força motriz formidável, causava ansiedade entre os estrategistas legalistas. Muitos comandantes farrapos acreditavam que poderiam resistir indefinidamente, ou pelo menos forçar o Rio a uma paz honrada, o que lhes permitiria manter suas posições, terras e escravos. A Surpresa dos Porongos provou ser uma solução mais fácil e organizada.

Escravos eram um bem necessário, mas sacrificável, para os rebeldes. O Rio Grande do Sul teve percentuais elevados de negros e escravos, em sua maioria homens de menos de quarenta anos. Parecia sempre haver mais para fins militares, apesar de que, na prática, os farrapos protegiam seus próprios escravos do serviço militar ou estadual. Os principais alvos militares eram as charqueadas anti-separatistas em Pelotas, Piratini e redondezas, e suas estâncias por toda a província. Pelotas tinha a maior concentração de escravos, a maioria deles em idade de combate, na época estimados em 5.000. Estabelecimentos pré-industriais, fisicamente exigentes e cuidadosamente regulados, onde o trabalho era socialmente diferenciado por tarefas, incluíam carneador, servente, salgador, tropeiro, graxeiro, carpinteiro, marinheiro, campeiro e outros. Esta mão-de-obra treinada rendia tropas boas e disciplinadas.

A escravidão no contexto das charqueadas era indescritível: o ambiente exigente e severo dentro das fazendas, a brutalidade do trabalho, o abuso físico, chances mínimas para a vida em família, humilhação desumanizante, além do constante medo e uso do chicote. Charqueadas legalistas continuaram a operar durante a guerra, e guarnições legalistas eram posicionadas a fim de mantê-las a qualquer custo. Tal manufatura e comércio eram a vida da base econômica e fiscal da província. Os farrapos, privada e publicamente, negociavam gado com o inimigo, como faziam mais regularmente com Montevidéu. Para minorar as dificuldades comerciais inerentes à Guerra, em Pelotas, e seu escoadouro para o mar, Rio Grande, estancieiros farrapos organizaram suas próprias charqueadas no distrito baluarte de Jaguarão, que lhes permitia pontos alternativos de embarque em Rio Grande e Montevidéu.

As novas charqueadas de Jaguarão necessitavam, então, de mão-de-obra. O reabastecimento de escravos, mesmo nas melhores épocas, era difícil. Os mercadores de escravos do Rio sempre haviam colocado a província esparsamente povoada em último lugar na sua lista de clientes preferenciais. A fim de proteger seus investimentos e assegurar produção constante, os donos de charqueadas acharam métodos adicionais de cobrar a cooperação dos escravos através de tarefas rotativas. Não devemos, de forma alguma, subestimar ou tentar entender os horrores das charqueadas. Escapar para a vida militar nas linhas farrapas tinha que ser melhor. Armados e movendo-se no interior do Estado, as perspectivas de deserção e liberdade aumentaram.

A vida nas estâncias, para os escravos, apresentava vantagens em relação às charqueadas. Nestas, eles recebiam alguma autonomia dentro dos limites do regime escravista. O trabalho na campanha sempre teve pouca demanda. Os estancieiros desenvolveram esquemas de trabalho em suas propriedades que usavam trabalhadores escravos, livres e semilivres. Como a caça ao gado e as fronteiras das fazendas iam invadindo áreas ao norte da Banda Oriental, especialmente durante épocas de ocupação e conflito, os estancieiros agressivamente organizavam operações com suas grandes famílias, agregados, escravos e capital. Como a era do gerenciamento de terras, dedicada a uma melhor procriação de gado, instalação de cercas e pastos melhorados, ainda estava por vir, rio-grandenses sedentos por gado procuraram as terras melhores para a pastagem da Banda Oriental.

Listas de donos de terras rio-grandenses, em 1840, na Banda Oriental, mostram que quase a totalidade deles tinha escravos. Nem todos desempenhavam as atividades típicas do gaúcho; alguns cuidavam do trabalho doméstico, trabalhavam em pequenas plantações de mandioca, milho e trigo, ou faziam tarefas gerais. Um dos primeiros especialistas brasileiros em assuntos platinos, naquela época, escreveu enfaticamente que a produtividade dos fazendeiros rio-grandenses no Uruguai dependia de escravos. A vida dos estancieiros estava mais harmonizada aos ritmos naturais e menos regimentais da tradicional agricultura de plantação. Quando os farrapos arremetiam contra as fazendas legalistas, os escravos levados não eram considerados aliados em potencial a serem transformados em soldados chefiados por líderes republicanos progressivos, mas sim como instrumentos de luta. A liderança e o caráter dos farrapos podiam ser definidos pelo modo como seus novos recrutas eram tratados.

Com efeito, os farrapos estavam desenvolvendo um sistema duplo de recrutamento. Um deles, fragmentário e difícil de supervisionar, era apoiado pelo governo; o outro permitia aos comandantes pegarem tudo que necessitassem. Escravos confiscados eram uma “solução baseada no direito da guerra”. Explorados como a “Estância do Império”, os rebeldes rio-grandenses mostrariam ao Rio de Janeiro como fariam uso de seus recursos e escravos, o que eles tinham em quantidade suficiente.

* Bacharel em História pela Universidade do Estado de Nova York, em Buffalo, 1965, mestre em História pela Universidade do Texas, em Austin, 1967, e PhD pela mesma universidade em 1972, Spencer Lewis Leitman foi professor assistente da Purdue University, de 1972 a 1975. Esteve em Porto Alegre em 2005 a convite da Laser Press Comunicação para proferir a conferência “Os farrapos negros e a política da escravidão”. Dentre suas publicações, que permanecem como referência para historiadores e pesquisadores da Revolução Farroupilha, destacam-se “Raízes Sócio-Econômicas da Guerra dos Farrapos” (Rio, 1979); "O Primeiro Ciclo Brasileiro do Trigo e a Guerra dos Farrapos" (Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio, vol. 307, 1975); "Italian Revolutionaries in the Empire of Brazil” (Italian Americana, vol.2, 1976); "A Brazilian Urban System in the Nineteenth Century: Pelotas and Rio de Janeiro" In: Urbanization in the Americas from its Beginnings to the Present, (eds. Richard P. Schaedel, Jorge Hardoy e Nora Kinzer, The Hague, 1978).

 
 
       
 
 
 
 
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