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O homem que vende ideias no varal

No varal do vendedor de camisetas, Che Guevara vale o mesmo do que um Big Mac. Vender a imagem do ícone guerrilheiro é parte da vida do ambulante Richard Nunes, que guarda um diploma de fisioterapeuta. Texto e vídeo de Letícia Duarte para a série Anônimo Brasil.

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Paradoxos
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Por Juan Gelman  

O presidente W.Bush ameaçou com uma intervenção militar no Paquistão. Surpreendente: o general ditador Pervez Musharraz - sempre entretido em violar os direitos humanos dos paquistaneses - foi e é o melhor aliado que a Casa Branca tem na região. Mas a ameaça não nasce da vontade de impor a "democracia e a liberdade" também ali: uma coisa são as ditaduras e outra os regimes autoritários, como se dizia em Washington durante as ditaduras militares do Cone Sul. Eram regimes autoritários certamente, e nada mais.

Ocorreu que o Conselho Nacional de Inteligência (CNI), integrado pelos 16 organismos de espionagem dos EUA, divulgou dia 17, terça-feira, alguns resumos da Avaliação Nacional de Inteligência sobre a "guerra anti-terrorista", que destaca uma imprevista conseqüência das invasões do Iraque e Afeganistão: as zonas tribais do noroeste do Paquistão se converteram em santuário dos Talibãs e da Al Qaeda, "que reorganizou elementos chave de sua capacidade de ataque" contra os EUA (www.dni.gov/press, julho de 2007). Se isso é assim, o argumento bushista de que o Iraque é a fonte principal do terrorismo universal é falso. Não seria novidade.

O Waziristão, área paquistanesa montanhosa, lindeira com o Afeganistãoo, é habitada por cerca de 800.000 pashtuns, que vivem em aldeias governadas por líderes dos diferentes clãs da tribo, e não poucos simpatizam com os talibãs afegãos, que, em sua maioria, pertencem à mesma sociedade tribal.

A matança da Mesquita Vermelha de Islamabad em meados de julho, que Musharraf ordenou, levou os pashtuns a romper com este acordo de outubro de 2006: eles se comprometiam a não atacar os militares paquistaneses e a impedir os cruzamentos de fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão, e ele a retirar as tropas que havia enviado à zona por pressões da Casa Branca.

Também Michael McConnell, diretor do CNI, anunciou que os EUA não descartam uma incursão militar no Waziristão (CNN, 22/07/2007), e isso provocou uma irada resposta das autoridades paquistanesas: qualificaram a idéia de "mal concebida, irresponsável e perigosa" (Herald Sun, 24/07/2007). Finalmente, Musharraf apoiara W. Bush desde o próprio 11/09, e seus efetivos conseguiram deter e executar mais terroristas da Al Qaeda que todos os serviços de espionagens ocidentais reunidos.

A ajuda norte-americana ao Paquistão alcançou a soma de 10 bilhões de dólares desde os atentados das Torres Gêmeas, colocando-o em segundo lugar, depois de Israel. Nesse quesito, Bush pressiona para que o Congresso aprove 300 milhões de dólares adicionais, com o objetivo de converter os corpos paquistaneses de fronteira, uma herança colonial, em uma força contra-insurgente moderna. Mas a maioria de seus 80.000 homens são pashtuns e ajudam os talibãs e alcaidistas a passar de um país ao outro (Boston Globe, 22/07/07).

Os dirigentes democratas culpam Musharraf por não tomar as medidas necessárias para impedi-lo, e omitem o fato de que a ocupação do Iraque e Afeganistão originou esse fato. É mais fácil criticar as políticas alheias que as próprias. Uma manobra de transferência de responsabilidades.

Invadir o Paquistão, ainda que só fosse bombardear o Waziristão, teria repercussões previsíveis. "Provocaria mais desordens em todo o Paquistão e o mundo árabe aumentaria a insurgência contra as tropas dos EUA", assinalou Seth Jones, especialista do Rand Institute, um think-tank objetivista, onde os "falcões-galinha" fazem ninho (IPS, 20/07/07)..

O contexto é claro: a ocupação do Iraque debilitou todos os regimes árabes do Oriente Médio que apóiam os EUA - Jordânia, Líbano, Arábia Saudita -, e ainda no Egito e na Turquia cresce o ressentimento da opinião pública contra a superpotência. Há, então, sinais de que a Casa Branca não bombardeará os pashtuns nem recortará seu apoio a uma ditadura militar que, mediante golpe de Estado, se instalou no poder em 1999.

Diz-se em Washington que Musharraf se propõe a democratizar o Paquistão e que prometeu eleições livres e transparentes para fins deste ano, mas poucos acreditam em que o general se absterá de meter a mão nas urnas (Financial Times, 23/07/07). Se levarem até o fim seria pour la galerie de um teatro vazio.

Na quinta-feira da semana passada, Tony Snow, porta-voz da Casa Branca, entrou em sintonia com a estimativa do CNI e disse:" Não há dúvidas que é necessário tomar medidas mais agressivas" no Paquistão (Reuters, 18/07/07). Na segunda-feira desta semana baixou o tom:" Creio que flutuava a idéia, ou ao menos uma intenção, ou de algum modo uma tendência, de que íamos invadir o Paquistão" (New York Times, 24/07/07). E o leitor observa que logo recordou:" Sempre mantivemos a opção de atacar alvos criminosos, mas também somos conscientes de que o Paquistão tem um governo soberano". Para a Casa Branca, o respeito à soberania alheia é apenas um conceito de aplicação variável.

01.08.2007

Fonte: La Bitacora de Gelman
http://juangelman.com/wordpress/2007/07/26/paradojas/

Traduzido do espanhol para o português por Omar L. de Barros Filho, editor de ViaPolitica e membro de Tlaxcala, a rede de tradutores para a diversidade lingüística.
 
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