Por meio da fotografia, adolescentes de Canoas exercitam olhar crítico sobre seu cotidiano e a cidade. Por Marilia Schmitt Fernandes e Redação de ViaPolítica
Um universo sensual habitado por mulheres dignas dos melhores sonhos adolescentes, materializa-se agora em Siena. Mas parece destino à jaula em tempos de Silvio Berlusconi e ‘bunga-bunga’. Por Irene Hdez. Velasco, de Roma, para El Mundo, de Madri
Michael Moore, o mais famoso documentarista social, foi ao centro de Nova York para falar ao movimento ‘Occupy Wall-Street’, que ocupa a zona próxima da Bolsa, para contestar um mundo esmagado pela lógica financeira global.
Veja abaixo o filme de Andre Moreau: 1º de Maio - Dia Internacional do Trabalhador
(Se não for possível carregar o vídeo na janela acima, clique aqui)
Lembro-me que há alguns anos, 22, tive a honra de documentar o 1° de Maio, em seu centenário, 1986, na palavra de Luis Carlos Prestes, um dos maiores, senão o maior tribuno de nossa história.
Tivemos que correr, pouco antes decidira fazer seu discurso memorável não no Rio, no Campo de São Cristóvão, e sim na Sé, em São Paulo. Deslocamo-nos e equipe para lá no virar da noite anterior. Rumores de golpe. Imagine nós cercados a filmar. E foi demais. Depois da Sé, mais
uma corrida até São Bernardo, onde refez sua fala.
Ficou pronto em 87: Encontro com Prestes será exibido no Canal Brasil, programa É Tudo Verdade, que vê e revê o documentário brasileiro. Por mim ficaria honrado, por ele ficarão os espectadores.
Tantos anos depois, sou obrigado a me deparar com outro 1º de Maio, como sabemos tem todo ano, só que chuvoso, triste, e não pela chuva.
Estou a participar da Pastoral Idea, sob a condução do Andre Moreau, abrimos uma comunidade no Orkut, para a necessária comunicação e interlocução com o mundo.
E foi o Andre que gravou esse outro 1° de Maio, o atual, o triste, o chuvoso. Nele, vemos e vocês podem ver aqui no Kino Kaos, como é dura a desgraça que contemplamos – impotentes, indiferentes, complacentes, inoperantes.
Nele, vemos d. Edilza, 70 anos, após um avc, que por intimação da Secretaria de Segurança e Direitos Humanos de Niterói, deve desmontar às pressas, sob pena de apreensão, sua barraca de ambulante no dia internacional do trabalhador.
Os ambulantes, categoria confusa, espalhada aos quatro cantos das cidades, extraordinária oferta de mão-de-obra, reprimida pela "legalidade" do sistema capitalista, e achacada por suas polícias.
Suprema crueldade do sistema: opõe o povo ao povo para defender os bens alheios, como no Buñuel de Los Hurdes, escrito na lousa da escola miserável como lição: Respetad los bienes ajenos.
Não esquecer tampouco de Pasolini e sua militante e combativa lucidez no 68 italiano, quando se defrontavam estudantes e policiais nas ruas de sua Roma, que o atropelou e massacrou na periferia que tanto amava.
Dizia ele, numa equação difícil mas reveladora: os estudantes são classe média, esse terror, os policiais, são o povo. Nada é pior, nem a burguesia, esperta e escondida, que a classe média: biombo e executora da opressão de classe, média beneficiária, e quando se mexe, mexe-se
pelos opressores e não pelos oprimidos.
É quem pratica com as suas mãos a violência e o ódio de classe. Os burgueses não, não sujam suas mãos empelicadas, mandam os capangas.
Entre nós, no capitalismo periférico, a desídia é maior. Aqui a confusão é geral. Botar ordem no progresso para que seja para todos é a tarefa mais que imediata, inadiável. E como fazer?
De volta ao nosso 1º de Maio, o triste, o chuvoso. Na volta da malsinada 2ª Guerra quando o pior aconteceu: a vitória mundial da esquerda foi surrupiada, criminosamente, pela direita, pela traição, pela delação. De Gaulle, do seu confortável exílio, para impedir que Paris fosse libertada pela Resistência, entrega junto com os americanos, a quem entregou a França, Jean Moulin aos nazistas.
No Brasil, seu maior carrasco, Getúlio Vargas, institui aos ex-combatentes uma modesta compensação, podem os deficientes viver do comércio nas ruas como ambulantes. Apenas um reconhecimento de que todos temos o direito ao trabalho, inequivocamente, não como concessão do estado, de governos ou de sistemas.
O direito à vida e à sobrevivência de cada um e o dever de estados, governos e sistemas de garanti-lo é um dos poucos méritos universais da consciência contemporânea, se não o foi desde outros tempos.
E o nosso 1° de Maio, o triste, o chuvoso, aí está para envergonhar-nos a todos. Como se permite que a velha senhora se agrida em nome do abuso de poder de nossos políticos dirigentes, neste caso o municipal?
E é no município que moramos, que vivemos e que assistimos a tragédias cotidianas, onde achamos que virando o rosto não mais vão nos incomodar. Mas, do outro lado, para que viremos o rosto, o que vocês acham que vai nos encarar cada vez mais desnudadamente senão a violência e a opressão dos que democraticamente escolhemos como algozes, senão de nós
mesmos, algozes de nossos semelhantes mais empenhados em fazer valer a vida?
Vejam só, imaginem o impossível, quem nos ensina a vida não é quem a esbanja, é quem a sofre. Quem a faz valer a partir do quase nada que insiste em fazer valer.
Noutro momento deste pequeno e necessaríssimo filme, acompanha-se a senhora até sua casa, sua choupana, remendada de papelão, a que se sobe por uma inacreditável pirambeira, que ela desce e sobe a cada dia, para na sua barraca juntar mais uns trocados para comprar os remédios
que sua condição impõe.
E lá está ela, em sua fala final no filme, a pedir a benção de Deus para todos nós. O que fazer?
A autoridade imediata que, segundo Graciliano Ramos, é o pior agente da repressão apenas faz cumprir as ordens superiores para desmontar a barraca. A senhora não se enquadra nas exigências da proteção aos deficientes. Ela não é deficiente! Vejam por si mesmos, julguem
por si mesmos!
E nem precisaria. Não tem ela o direito de buscar se sustentar minimamente? Mas, escapando do flagelo geral, limitando-nos ao flagelo específico, o deste 1° de Maio, chuvoso e triste, podemos assistir ao amparo que lhe dá o colega, junto com ela desmontando a barraca e
subindo até sua casa.
O que fazer? Procuramos o ouvidor municipal. Há um conflito de opiniões entre os cidadãos envolvidos e a Secretaria. Fomos bem acolhidos, em tese. Mas ficamos sabendo que as ordens persistem, a agressão da Prefeitura persiste.
A Secretaria de Segurança e Direitos Humanos é quem manda no cumprimento das normas. Manda mal. A responsabilidade e a culpa pela repressão, menos que na mão que abate, está nas mãos de quem manda. E quem manda no município é o prefeito.
Está, pois, publicamente responsabilizado pela violência e repressão aos ambulantes deficientes na Visconde de Uruguai o excelentíssimo senhor prefeito de Niterói, Godofredo Pinto, do PT, todo o PT, os que o cercam, os que o apóiam e os que o elegeram, que tiveram a ousadia de
comemorar o 1° de Maio de 2008, triste e chuvoso, agredindo d. Edilza, como se pode ver no filme que o Andre Moreau nos apresenta nesta página.