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Passado e futuro em
duas edições especiais

Dois livros lançados neste mês miram em sentidos opostos: um revê o passado enquanto o outro projeta o futuro. Ambos são contribuições importantes para compreender melhor o presente. Por Omar L. de Barros Filho, de Porto Alegre
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As Leis – o Curta

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Por Luiz Rosemberg Filho & Sindoval Aguiar

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“Nunca entendi la cámara como un fusil. Existen otras maneras de hacer cine político con una fuerte carga ideológica” .
Jean-Luc Godard

Rio de Janeiro – Filme curto, de alguns minutos, contendo a velocidade para entendimentos. Estréia auspiciosa e em alta dose de um cinema de inversão. História de uma realidade invertida, onde seres humanos são tratados como objetos e gostam. E, com tal adestramento, passam a fazer Leis para sua proteção. Leis de portas bem abertas para ninguém entrar. E de olhos bem fechados para melhor enxergar. São cidadãos reciclados e terceirizados do mundo inteiro. De qualquer país. Uma geografia de todos, em constante expansão, como o universo. Só que este país expande para dentro e para fora, formando galáxias. Se se cortam as caudas, crescem novamente. Depois de virarem ONGs, com as caudas cortadas.

Filme de linguagem brechtiana. Narrativa anticinema convencional. E anti-hollywoodiano, na construção de uma cinematografia anti-exótica e menos colonizada, em país exótico e bem colonizado, que questiona o poder e a ideologia vigente. O senso comum e o bom senso. E o consenso, o que só pode acontecer quando há movimentos democráticos em aparelhos de hegemonia. Mas, em realidade invertida, poder e ideologia ficam invertidos também e viram cristais de rocha. Solo ressequido.



No lugar onde o filme se passa, o ciclo de modernidade contaminou e corrompeu tudo. Tudo foi comprado a dinheiro e transformado em objeto para o mercado. Sem uso e sem troca. Só culto, paixão e fetiche. Satisfação de desejos imediatos. E onde idéias não entram. As Leis protegem. É um lugar onde a existência social transforma tudo em objetos, sem tempo e sem memória. E sem consciência. Sem humanidade. Mas, com Leis.

Como é filme de um replicante, é muito auspicioso e muito gramsciano. Um aparelho de hegemonia pode nascer até do fascismo. “As Leis”, este tal filme, nos confirma também isso. Mesmo sendo realizado com os valores invertidos da rede, o filme a inverte e adverte. Tudo pode mudar. É só acreditar nos movimentos, e invertê-los, transformando-os em humanidade. Estes são os movimentos, em segundo plano, do filme, que precisam ser invertidos. Com Leis ou sem leis. E os aparelhos hegemônicos, os que formam consenso e que o filme discute bastante, podem ajudar nesses movimentos.

O filme tem princípio, meio e fim. Mas pode, também, ser visto do fim, para o meio e para o princípio. Desde que o espectador saiba que no início era a imagem, o mito, depois veio o verbo, a linguagem. Porque, no princípio, era o eu sozinho. Depois é que veio o eu e mais outro e outros. E todos esses eus longínquos e distantes eram a natureza, na organização e formação de suas próprias naturezas. Planta, caça e pesca. Água, terra e céu. E fogo. Fogo que aquece e fogo que enternece. E veio o fogo que incendeia. Para acabar com a paz e dominar. Cercando, explorando e exterminando. E vieram deuses e demônios. Ciclos de poder e ideologia. E Leis para tudo legitimar, invertido!

E agora estamos no ciclo mais elevado e ajustado das Leis. Desajustando e enredando. As tais Leis do controle dos meios de produção, que transformam sujeitos em objetos; sem objeção. Uma síntese de movimentos transformados em lógica do individualismo, vulgo, mercado! E esse filme, desse jovem diretor replicante, parece isso. Uma coisa louca e enlouquecedora dos espectadores, como eu. Como nós. Como aqueles que não querem virar objetos descartáveis. Nem celulares com câmeras, telefone, internet, metralhadoras e o cacete. Estes objetos que controlam, dominam, vigiam e punem. E nos tornam apaixonados e sem idéias. Nossos irmãos objetos! E desumanizantes!

Pode ser também um filme cacete, porque, hoje, ninguém quer saber de nada. Caiu na rede, nem peixe é. É só objeto! Mas tudo pode ser legal desde que a lógica seja a do mercado. O juiz absoluto de seres transformados em objetos. Este é um filme que pode nos enredar. No universo das Corporações transnacionais privilegiando o individualismo, restou-nos a violência coletiva em tempo real. De barreiras puníveis e intranspuníveis. Físicas e metafísicas, que esse curta transgride e ultrapassa com imagens carregadas por outras linguagens. De entendimentos e de domínios mais públicos. A de outra realidade possível. Ainda utópica, por enquanto. A força e o prestígio de um bom filme e de um bom cinema estão acima das Leis, como este belo filme de Milton Quadros.

16/8/2008

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