Por meio da fotografia, adolescentes de Canoas exercitam olhar crítico sobre seu cotidiano e a cidade. Por Marilia Schmitt Fernandes e Redação de ViaPolítica
Um universo sensual habitado por mulheres dignas dos melhores sonhos adolescentes, materializa-se agora em Siena. Mas parece destino à jaula em tempos de Silvio Berlusconi e ‘bunga-bunga’. Por Irene Hdez. Velasco, de Roma, para El Mundo, de Madri
Michael Moore, o mais famoso documentarista social, foi ao centro de Nova York para falar ao movimento ‘Occupy Wall-Street’, que ocupa a zona próxima da Bolsa, para contestar um mundo esmagado pela lógica financeira global.
“Nunca entendi la cámara como un fusil. Existen otras maneras de hacer cine político con una fuerte carga ideológica” .
Jean-Luc Godard
Rio de Janeiro – Filme curto, de alguns minutos, contendo a velocidade para entendimentos. Estréia auspiciosa e em alta dose de um cinema de inversão. História de uma realidade invertida, onde seres humanos são tratados como objetos e gostam. E, com tal adestramento, passam a fazer Leis para sua proteção. Leis de portas bem abertas para ninguém entrar. E de olhos bem fechados para melhor enxergar. São cidadãos reciclados e terceirizados do mundo inteiro. De qualquer país. Uma geografia de todos, em constante expansão, como o universo. Só que este país expande para dentro e para fora, formando galáxias. Se se cortam as caudas, crescem novamente. Depois de virarem ONGs, com as caudas cortadas.
Filme de linguagem brechtiana. Narrativa anticinema convencional. E anti-hollywoodiano, na construção de uma cinematografia anti-exótica e menos colonizada, em país exótico e bem colonizado, que questiona o poder e a ideologia vigente. O senso comum e o bom senso. E o consenso, o que só pode acontecer quando há movimentos democráticos em aparelhos de hegemonia. Mas, em realidade invertida, poder e ideologia ficam invertidos também e viram cristais de rocha. Solo ressequido.
No lugar onde o filme se passa, o ciclo de modernidade contaminou e corrompeu tudo. Tudo foi comprado a dinheiro e transformado em objeto para o mercado. Sem uso e sem troca. Só culto, paixão e fetiche. Satisfação de desejos imediatos. E onde idéias não entram. As Leis protegem. É um lugar onde a existência social transforma tudo em objetos, sem tempo e sem memória. E sem consciência. Sem humanidade. Mas, com Leis.
Como é filme de um replicante, é muito auspicioso e muito gramsciano. Um aparelho de hegemonia pode nascer até do fascismo. “As Leis”, este tal filme, nos confirma também isso. Mesmo sendo realizado com os valores invertidos da rede, o filme a inverte e adverte. Tudo pode mudar. É só acreditar nos movimentos, e invertê-los, transformando-os em humanidade. Estes são os movimentos, em segundo plano, do filme, que precisam ser invertidos. Com Leis ou sem leis. E os aparelhos hegemônicos, os que formam consenso e que o filme discute bastante, podem ajudar nesses movimentos.
O filme tem princípio, meio e fim. Mas pode, também, ser visto do fim, para o meio e para o princípio. Desde que o espectador saiba que no início era a imagem, o mito, depois veio o verbo, a linguagem. Porque, no princípio, era o eu sozinho. Depois é que veio o eu e mais outro e outros. E todos esses eus longínquos e distantes eram a natureza, na organização e formação de suas próprias naturezas. Planta, caça e pesca. Água, terra e céu. E fogo. Fogo que aquece e fogo que enternece. E veio o fogo que incendeia. Para acabar com a paz e dominar. Cercando, explorando e exterminando. E vieram deuses e demônios. Ciclos de poder e ideologia. E Leis para tudo legitimar, invertido!
E agora estamos no ciclo mais elevado e ajustado das Leis. Desajustando e enredando. As tais Leis do controle dos meios de produção, que transformam sujeitos em objetos; sem objeção. Uma síntese de movimentos transformados em lógica do individualismo, vulgo, mercado! E esse filme, desse jovem diretor replicante, parece isso. Uma coisa louca e enlouquecedora dos espectadores, como eu. Como nós. Como aqueles que não querem virar objetos descartáveis. Nem celulares com câmeras, telefone, internet, metralhadoras e o cacete. Estes objetos que controlam, dominam, vigiam e punem. E nos tornam apaixonados e sem idéias. Nossos irmãos objetos! E desumanizantes!
Pode ser também um filme cacete, porque, hoje, ninguém quer saber de nada. Caiu na rede, nem peixe é. É só objeto! Mas tudo pode ser legal desde que a lógica seja a do mercado. O juiz absoluto de seres transformados em objetos. Este é um filme que pode nos enredar. No universo das Corporações transnacionais privilegiando o individualismo, restou-nos a violência coletiva em tempo real. De barreiras puníveis e intranspuníveis. Físicas e metafísicas, que esse curta transgride e ultrapassa com imagens carregadas por outras linguagens. De entendimentos e de domínios mais públicos. A de outra realidade possível. Ainda utópica, por enquanto. A força e o prestígio de um bom filme e de um bom cinema estão acima das Leis, como este belo filme de Milton Quadros.