Como o navegador e escritor
W. Rio Apa aproximou-se
de ideias anarquistas depois da
aposentadoria, viajou o Brasil
para disseminar suas teorias e
conquistou punks e alternativos
de diferentes linhagens. Texto e
vídeo de Sebastião Ribeiro
Em plena Avenida Paulista, aquela frase, pronunciada com manifesta intenção homicida, se transformou num projétil impregnado de hostilidade e racismo. Por Helio Jose Maduro da Silva, de Taubaté, São Paulo
Porto Alegre – O Cine.Sangre é uma redezinha embrionária que se comunica no tempo presente... Há alguns meses, durante o FLô, percebemos que o número de filmes livres realizados no Rio Grande do Sul aumentou muito no festival. Pela lista cine8 já vínhamos percebendo que são vários coletivos novinhos a realizar filmes que estão fora de um circuito que se convencionou resumir como 'curtas gaúchos', estes que chegam a um público mais passivo, num formato mais padronizado, via televisão aberta, criando uma idéia um tanto segmentada, menos diversificada do cinema realizado no Estado.
Seria preciso levar ao público esta boa novidade, de que o circuito que corre por fora é quente, ferve, passa pelos mais diferentes tipos de festivais do planeta – ou mesmo alguns que desprezam festivais – que infestam feito praga os pampas, com curtas experimentais, vídeo-arte, filmes lineares, trash movies, desconstruídos, invencionices.
Ou seja, não existe 'curta gaúcho', mas sim cineastas que fazem cine no Rio Grande do Sul, com idéias e linguagens particulares, tanto no modo de produção, quanto na estética, quanto no modelo de exibição e difusão. Esta consciência cosmopolita nos atira no mundo com mais possibilidades, menos medos ou ranços. E seria demais podermos falar disto, trocar, reunir.
Durante o FLô, em mesas de bar ou nos foyers, realizadores de outras cidades gaúchas puxaram o assunto de uma redezinha, nos moldes das mochilagens que fazemos pelo país e pelo mundo afora. Não estive muito animada naquele tempo porque já tentamos antes e a politicagem acaba sempre esfriando, engessando a mobilização, dando uma cara muito 'político-partidária' aos ajuntamentos. Não se pode negar que o Rio Grande ainda é muito difícil em relação às experimentações, novas linguagens, jeitos mais livres de exibir... e ainda estamos nublados de heróis, estátuas a cavalo e artistas que são artistas porque têm uma marca após o pré-nome... Muito complicado, mas nada impossível quando o sangue ferve e as pessoas estão aí, vivas e criando.
Somos isso e pronto! Desistir de procurar o público é que não se pode, daí quando voltei de uma das mochilagens do primeiro semestre, já meio de malas prontas pra morar em definitivo no Rio, pra facilitar as viagens a outros estados, o povo de Dois Irmãos cobrou do FLô as mochilagens gaúchas. Foi um despertar! Deu uma vontade...
Simples! Lançamos um convite, via lista Cine8, a todos os núcleos que quisessem participar da função. Enviamos aos diretores de entidades ligadas aos curtas, mas eles não repassaram, o que talvez ajudasse, mas tudo bem.
Pensei em Cine.Sangre porque nunca somos frios e porque somos 'desorganizados'. Ou seja, ninguém sonha ficar numa mesa dando discurso pra uma platéia, um degrau acima dos outros, 'dirigindo' as cabeças. Este desenho das salas de reunião é desanimador. Aqui todos querem as mesmas coisas, sets, sessões, a vida de cinema, tocar um público... e todos querem ou já exibem além de produzir filmes e outras artes. Todos sabem que 'poder' é um vocábulo que precisa ser bem pensado quando temos sangue nas veias e necessidade de nos expressarmos. E para complementar as semelhanças, ninguém pensa que cinema é pra ser apenas visto, mas sabemos que nossos filmes precisam ser colocados de cabeça pra baixo, remexidos, sentidos, comentados, até vaiados... o que seja, desde que a gente se comunique entre nós mesmos e com um provável público. Mas público ativo, não alguém que espera pelo que diz a mídia, que aceita, que apenas compre. É um sonho animador.
Por tudo isso, o Cine.Sangre é simples, sem frescura ou pose. É direto como todas as redes livres de cinema no planeta. Quem gosta da idéia vem e traz os seus filmes e vamos trocando conhecimentos e sensações e pensando lugares pra exibir. Cada qual se relaciona como quer. Por exemplo, o povo de Gravataí e o Cinema8ito estão namorando mais no sentido de co-produção de filmes. Já com Canoas e Dois Irmãos a troca é no sentido de exibição e por aí vai...
É bom deixar claro o diferencial da nossa geração enquanto coletivos de artistas que não esperam um milagre com o filme na gaveta. A gente começa fazendo filmes, quando nos damos por conta já estamos planejando exibições. É o artista contemporâneo, e a internet tem tudo a ver com isto. Ainda assim – curioso isto! – a única mostra fixa de curtas que temos atualmente no Rio Grande é a do Porto Lume, uma quinta por mês na Mário Quintana... É preciso então fazermos mais mostras coletivas.
Vamos ver se o Cine.Sangre, embora algo tão novinho e sem pretensões de poder constituído, consegue ser o estopim. Que muitas sessões de cinema livre apareçam pelos pampas. Que as pessoas desliguem a TV e saiam pra debater e se divertir com os curtas das salas de cultura. Que as pessoas busquem na internet por curtas realizados no Rio Grande e que não são obrigatoriamente meros 'curtas gaúchos'. São curtas muitas vezes fora do padrão ou assinados por filhos mal comportados? Ah, mesmo assim vem pra cá. O que é que tem?!
Neste primeiro Cine.Sangre somos oito coletivos que atuam em cinco cidades gaúchas, e as portas estão abertas, dá pra chegar em cima da hora com o DVD na mão, exibir, comentar e brindar conosco!
O Programa da Mostra está também no www.flo.cinema.com.br.
Pensamos fazer um blog sem limites, onde todos os coletivos podem falar e divulgar o que bem quiserem, sem filtro de alguma diretoria e reuniões maçantes sobre as vírgulas.