A infeliz verdade pode ser que o Iraque tenha já atingido uma sinistra forma de estabilidade, onde persiste um alto nível de violência e um estado semi-desfuncional. Por Patrick Cockburn, de Counterpunch, em tradução de Luis Leiria, para Esquerda.net
Antes da invasão americana do Iraque em 2003, a percentagem da população urbana que vivia em bairros de lata ou favelas situava-se abaixo dos 20%. Hoje em dia essa percentagem subiu para 53%. Por Adil E. Shamoo, em Foreign Policy In Focus
Mário Nascimento, em segundo plano, como assistente de direção em Viva a Morte, curta dirigido por Omar L. de Barros Filho
Porto Alegre – O Jaime Lerner me pede pra falar sobre o Marião num parágrafo para o boletim da APTC, e a primeira sensação que me vem à mente é a impossibilidade de conter em tão pequeno frasco uma figura enorme como nosso companheiro que agora se vai para os estúdios celestiais onde as filmagens prescindem das câmeras.
A imagem que fica é tão distante; não o rosto distorcido de olhos abertos para dentro, terno cinza coberto de flores amarelas num quadro trágico emoldurado em madeira escura, mas sim aquele neoíssimo realismo da figura envolta num macacão jeans que irrompe adentro nossa sala de primeiranistas da Famecos - final dos ‘70 - pra falar das eleições para o CAAP; cabelos longos, voz tão larga quanto os gestos desenhados a partir do discurso político e de uma verdade corporal muito própria, cativante; leal como se mostraria tantas vezes desde então, amigo de fé, irmão, camarada. A política como centro, o cinema por meio e o homem por fim.
Mário nunca teve dúvida sobre como seria seu cinema. Vigoroso, corajoso e bravo, seu espírito guerreiro era aveludado pela extrema elegância, delicadeza e carisma. Afetuoso, demonstrava no cinema a mesma generosidade que na vida, e tantas vezes trabalhamos juntos, desde os primeiros 8mm nas aulas do Aníbal e do Carlos Gerbase, num grupo com a Regina Giavarina e a Magda Cunha. Ele já rodava documentários em 8mm no Campo da Tuca - uns 30 anos antes desse tipo de filme entrar na moda pela mão das ricas produtoras. Ele fazia na raça. Depois em Caxias, outubro de 82, faria junto com Jair Torelly e Paulo Soccol a obraprima menos vista do planeta, o super-8 Cio da Terra (ver trecho do clip Pavão Myzterioso, no Cio da Terra*).
Dali pra frente foi cinema na veia. O Grupo Cinema de Combate, entrincheirados nos sofás do saguão do Majestic nas assembléias de fundação da APTC, Viva a Morte como assistente de Omar L. de Barros Filho, o Matico; a Clip lá na zona sul na casa do Assis Hoffman; a Enygma TVC, em sociedade comigo e com Adriana Borba; o Gato, do Saturnino, lá no Norte, o Snake muitos anos depois; recordo tudo meio fora da ordem, pois quem lembra certinho é porque não estava lá, como diz o Peninha sobre o Cio da Terra.
Mais recente foi a parceria que fizemos, ele como roteirista e eu diretor, no episódio Maria da Conceição, a Santa da Vila, do Histórias Extraordinárias, aliás roteiro brilhante do Marião, que criou uma rapperentista genial e propiciou um dos trabalhos meus como diretor de que mais gosto.
Na política, voltamos a estar juntos ao sermos convocados por amigos para fundar uma chapa para a APTC, eu de presidente e ele como vice. Claro que ao assumirmos os amigos que nos convocaram foram se afastando e no fim ficamos nós dois mais a Lisiane Cohen e o Beto Mattos, e na segunda parte do mandato o Mário assumiu como presidente da APTC (Betinho Baum me afirma ter sido isso de meados de 2004 a meados de 2005).
Mais recente ainda é o curta Um Aceno na Garoa, roteiro e direção do Mário sobre o conto do Faraco, peça delicada e contundente, valioso brilhante em sua simplicidade e força, filme pouco visto como a maior parte do trabalho do Marião.
Fica sim um gosto amargo. De ver um colega brilhante, conhecedor do métier, com tantas ideias e tanto a expressar através do seu cinema, partir assim sem que sua obra tenha recebido a dimensão devida, bruscamente interrompida. Mas ele nunca chorava pelo leite derramado, preferia apontar suas lentes para o coração do problema e enfrentar mais uma batalha com seus sonhos, sua máquina de escrever, a câmera e a moviola.
Mário Alberto Nascimento, meu grande colega e querido amigo. A impermanência às vezes é mesmo uma grande cagada de jacu, meu velho. Que a terra te seja leve. Adeus.
Leva a admiração e a saudade eterna do amigo Rogério Brasil Ferrari.
* Cenas do filme Cio da Terra, super-8mm dirigido por Jair Torelly, com fotografia de Mário Nascimento, rodado em 1982, em Caxias do Sul, Rio Grande do Sul. O clip apresenta o som de um trecho da apresentação de Ednardo com cenas do evento.http://www.youtube.com/watch?v=e-51bJngLsA
Sobre o autor:
Rogério Brasil Ferrari nasceu em Porto Alegre, em 1962.
É jornalista e técnico cinematográfico, nas funções de roteirista, diretor e montador.
Realizou como diretor os curta-metragens Vicious (1988), Paulo e Ana Luiza em Porto Alegre (1998) e Snake (2001); além de quatro episódios para a série de documentários da RBS TV Histórias Extraordinárias: Maria da Conceição, a Santa da Vila (2003); Os Crimes da Rua do Arvoredo (2004); O Queixinho da Merência (2005) e A Tragédia da Rua da Praia (2006), entre outros trabalhos.
Foi supervisor de pós-produção de Adyós, General (direção de Omar L. de Barros Fº); co-roteirista no longa Netto Perde Sua Alma, de Beto Souza e Tabajara Ruas;
montador do documentário em longa-metragem Porto Alegre, Meu Canto no Mundo, de Cícero Aragón, entre outros.
Atualmente é diretor dos programas de TV independentes "Gente Nossa" (Band/RS, sábado 11:30) e "Encontro" (Canal 20 NET Poa, 4ª feira 22:30), e realiza a montagem do documentário Cio da Terra, de Cacá Nazário e Éber Marzulo.
Encontra-se em fase de preparação do seu primeiro longa-metragem, Sonata, adaptação do conto de Erico Veríssimo, com produção de Lígia Walper e Tabajara Ruas.
Para saber as novidades sobre o trabalho de Rogério Brasil Ferrari, siga http://twitter.com/EnygmaFilmes