Como o navegador e escritor
W. Rio Apa aproximou-se
de ideias anarquistas depois da
aposentadoria, viajou o Brasil
para disseminar suas teorias e
conquistou punks e alternativos
de diferentes linhagens. Texto e
vídeo de Sebastião Ribeiro
Livro relata que o protesto de uma pacata e desconhecida jovem, antes da célebre Rosa Parks, deu origem às lutas pela igualdade dos direitos civis e pelo fim da discriminação racial nos EUA, nos anos 60. Por Edson Cadette, de Nova York
A entrada do dia 21 de junho, com vórtices propícios para a iluminação, foi marcada pela premiação do longa Corumbiara,de Vincent Carelli, no FICA - Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, na Cidade de Goiás, dando a medida de que a consciência da espécie humana está de fato se expandindo em várias dimensões.
Alguns sinais nos ajudam a perceber quando estamos diante de uma obra-prima:
imagens e sentimentos despertados perduram, remetendo-nos constantemente à contemplação vivida; a alma é tocada e profundamente modificada; um estado de suspensão nos acomete coletivamente; lágrimas e sorrisos brotam espontaneamente; a compreensão atinge todos os nervos, músculos e células, atingindo campos transpessoais numa comunhão cósmica...
Todos estes sentimentos me atingiram diante da exibição do filme Corumbiara, de Vincent Carelli.
Desde a realização do documentário (envolvendo 20 anos de vida, militância e filmagens), passando pelo processo de seleção e de premiação neste e em outros festivais e mostras, Corumbiara constrói um caminho que assalta e chacoalha as consciências – dos que fizeram o filme, dos que o selecionaram e dos que contemplam essa obra de arte nascida na alma de Vincent Carelli e sua equipe. Com seu relato de experiência, ao sabor de testemunho, Vincent incorpora a coragem necessária a todos nós neste momento histórico, e, como heróis gregos que eram expostos quando crianças no alto da montanha em prol da humanidade, ele se revela (e nos expõe) à emoção de escolher o caminho do coração.
Desde 1986, Vincent filmou os passos de Marcelo Santos, Alemão e equipe, na busca de contato com índios isolados – no Norte do Mato Grosso e Sul de Rondônia –, que foram sendo exterminados, reduzidos e confinados, ao sabor do desmatamento e privatização, em terras cada vez menores e ameaçadas. Acompanhar a busca, os momentos de primeiro contato com os índios Kuniê e Akunsu, encontros e filmagens vividos por “brancos” e “índios” nos emociona profundamente, e este sentimento nos faz pensar sobre as fronteiras internas que precisamos eliminar (nossos próprios parâmetros, metas filosóficas e políticas, ilusões mentais), e externas, para amar e respeitar o próximo.
Numa atitude de ética profunda, Vincent Carelli, com a câmera quase dentro da maloca, ao invés de invadir a privacidade do “índio do buraco”, procurado durante anos, recua, eliminando fronteiras de toda ordem, propiciando uma celebração cósmica no reencontro humano. Um recuo em sua ação como repórter de seu tempo, revela um avanço em direção à ética.
Quando, no primeiro encontro entre a equipe e os Kuniê, e as mãos dos que buscam e dos que são encontrados se juntam, a espécie é regada por uma corrente de amorosidade, persistência, curiosidade, receio, ousadia e confiança exterminando a divisão que, tardiamente, insiste em nomear “brancos” e “índios”.
Quando a doce guerreira mãe e pajé Kuniê cura os males das pessoas, dos lugares, dos espíritos, somos levados aos primórdios dos tempos, ao tempo sem tempo, onde o divino e o profano agem em uníssono nos atos de criação.
Nossa gratidão a todos os integrantes da equipe, a todos os que participaram da construção deste ato e às histórias que contornam os encontros de Corumbiara. Obrigada, Vincent Carelli.
Em outros tempos, os Hunikui não podiam falar a sua língua nem praticar as suas danças. Hoje, os professores indígenas estão trabalhando para revitalizar a cultura. Veja aqui, o documentário Uma Escola Hunikui