Por meio da fotografia, adolescentes de Canoas exercitam olhar crítico sobre seu cotidiano e a cidade. Por Marilia Schmitt Fernandes e Redação de ViaPolítica
Um universo sensual habitado por mulheres dignas dos melhores sonhos adolescentes, materializa-se agora em Siena. Mas parece destino à jaula em tempos de Silvio Berlusconi e ‘bunga-bunga’. Por Irene Hdez. Velasco, de Roma, para El Mundo, de Madri
Michael Moore, o mais famoso documentarista social, foi ao centro de Nova York para falar ao movimento ‘Occupy Wall-Street’, que ocupa a zona próxima da Bolsa, para contestar um mundo esmagado pela lógica financeira global.
É lamentável, mas
devo declarar que a situação
atual do que deveria ser nosso “estado
democrático de direito”
não existe. Nem é
democrático tampouco é
de direito. Por quê?
Democrático
- Um País que é governado
por medidas provisórias,
em que o Congresso se omite vergonhosamente
de sua obrigação
de legislar; em que há parlamentares
que não fazem a mínima
questão de votar, transferindo
esse direito ao líder de
sua bancada, com o que descumprem
sua obrigação primeira
que é a de votar, que trabalham
apenas dois ou três dias por
semana, apesar da alta remuneração
e de todas as mordomias, que deixam
de punir seus pares quando esses
são flagrados cometendo irregularidades
vergonhosas, em que o parlamentar
“vende” sua obrigação
de comparecer ao Congresso a um
suplente qualquer, fraudando, pois,
a confiança dos que votaram
nele, e tudo o mais que se sabe,
não merece ser chamado de
democrático.
De direito –
Que direito? Quando qualquer cidadão
que precise da justiça para
buscar seus direitos tem que esperar
muitos meses, por vezes muitos anos,
para obter uma decisão judicial
final! Em que se abusa da figura
da “sentença final
transitada em julgado” para
adiar quase que “ad infinitum”
uma pena que deveria ter sido aplicada
rapidamente (como é o caso
de assassinos confessos, que aguardam
em liberdade uma sentença
final, apesar de serem confessos).
Quando um juiz de qualquer das três
instâncias resolve desconhecer
a lei e prolatar uma sentença
ao arrepio de claro dispositivo
legal! Em que aos ricos e endinheirados
se facilitam toda a sorte de recursos
judiciais e os coitados dos pobres,
“ladrões de galinha”
como são chamados, são
presos e esquecidos em presídios
imundos, superlotados, sendo tratados
como animais! Isso não configura
um estado de direito.
Não, efetivamente, não
vivemos em um “estado democrático
de direito”. Vivemos em uma
selva, em que alguns tudo podem
e a outros não se admite
direito algum.
E agora, dentro de poucas horas,
seremos “obrigados”
a votar; votação múltipla,
para cinco funções
distintas: Presidente da República,
Governador de Estado, Senador, Deputados
Federais e Estaduais.
Em primeiro lugar, votar em uma
máquina em cuja confiabilidade
poucos acreditam; os especialistas
em informática nos dizem
que as máquinas podem ser
fraudadas. Os Tribunais Eleitorais
dizem que são à prova
de manipulação. Em
quem acreditar, quando se sabe que,
além de todas as outras mazelas,
o nível de corrupção
no Brasil é um dos maiores
do mundo?
Em segundo lugar, votar em candidatos
que não foram escolhidos
para o serem pelos principais interessados,
os eleitores. Foram escolhidos em
conchavos, razão pela qual
tão logo eleitos se desligam
dos eleitores (é até
motivo de surpresa quando um eleitor
declara em quem votou na eleição
anterior; não se lembra mais!).
Em candidatos que são criminosos
sabidos (não necessariamente
matadores de pessoas, mas certamente
assassinos da moralidade), que “compram”
sua indicação de um
partido qualquer, pois podem trocar
de partido a qualquer momento depois
de eleitos.
Talvez seja um pouco forte o termo
que usarei para expressar meu sentimento,
mas é de nojo. Sim, nojo!
Em 1954, com a Capital da República
ainda no Rio de Janeiro, não
havia mordomias para deputados e
senadores (e ministros de Estado).
Cada um vivia em sua casa ou apartamento,
viajava a seu estado de origem por
sua conta, não dispunha de
gabinetes com dezenas de assessores.
O maior escândalo com um parlamentar
ocorrera quando o então deputado
Barreto Pinto deixou-se fotografar
trajando a parte superior de seu
corpo com uma casaca e a parte inferior
apenas com uma cueca, razão
pela qual teve seu mandato cassado.
Época em que um candidato
a deputado incentivava o eleitor
a “consulte seu passado e
votarás nele”; os eleitores
consultaram seu passado e não
votaram nele (Jurandir Pires Ferreira,
do Rio de Janeiro).
Quando, no mesmo ano, um político
denunciou a existência de
“um mar de lama no governo”,
levando o chefe da segurança
do Presidente Vargas a tentar assassinar
esse político (Carlos Lacerda),
atingindo o alvo apenas no pé,
mas matando uma pessoa que o acompanhava
(Major da Aeronáutica Rubens
Vaz), o que causou tanta vergonha
ao Presidente da República
que ele veio a se suicidar!
É de se perguntar: algum
político atual tem vergonha
na cara? E se suicidaria por algo
que um auxiliar direto seu tivesse
feito? A negativa será, certamente,
a resposta às duas perguntas.
E isso porque nenhum cidadão
atualmente militando na política
(com as poucas exceções
de praxe, que comprovam a regra)
tem vergonha na cara, para inclusive
assumir a responsabilidade do que
ele, ou um amigo, ou auxiliar direto
seu, tenha feito.
Tanto que agora, apesar de termos
mais do que um mar, mas sim um oceano
de lama, mesmo que apanhado em flagrante,
o político negará
sua responsabilidade, dizendo que
está sendo acusado injustamente,
que o bode não é bode
mas, sim, um cordeiro manso.
Rouba-se deslavadamente neste País.
Seja via ambulâncias, seja
via ONGs de fachada, seja via super-faturamento,
seja como for.
Por isso, o “país do
futuro” de Stefan Zweig continua
adiando esse futuro indefinidamente.
Por isso o Brasil, que tem riquezas
naturais como nenhum outro país
do mundo, que tem um clima privilegiado,
que não sofre das catástrofes
da natureza, cujo povo miscigenado
pode viver em perfeita harmonia,
sem distinção de raça,
nacionalidade, grau de instrução
ou qualquer outra diferença,
não avança.
Se um voto nulo consciente representasse
o que deveria, isto é, repúdio
do eleitor à situação
atual, com metade mais um dos votos
obrigando à anulação
da eleição, obrigando
à realização
de uma nova, com outros candidatos,
estou certo de que tais votos seriam
dados, eis que meu sentimento é
compartilhado por parcela significativa
dos eleitores. Mas não, no
Brasil não existe forma de
protestar contra a situação
e os candidatos atuais. Nossos políticos
foram suficientemente espertos (esperteza
é o que não falta
aos brasileiros, quando querem!)
para evitar tal situação.
O mesmo ocorre com os votos em branco
e com o quorum para validar uma
eleição.
Somos, então, obrigados a
votar naquele que acharmos “menos
ruim”, o que é muito
triste.
Até agora, generalizei. Sinto-me
na obrigação, porém,
de ser específico para finalizar.
Eleger um Presidente (no caso, reeleger)
que não sabe nada de nada
do que ocorre à sua volta,
na sala contígua à
sua, mas que sabia de tudo o que
o governo antecedente tinha feito
de supostamente errado, denunciando
os fatos com veemência; que,
quando demite um ministro amigo
por falcatruas cometidas pelo mesmo
chama-o de pessoa muito boa, acaricia-o
com outros elogios (“quase
irmão”, grande companheiro
e outras mesuras); que derrama dinheiro
para ONGs de fachada, que servem
tão só para enriquecimento
dos cupinchas (perdoem o termo!)
do candidato ou de seus asseclas;
que se jacta por ter nascido analfabeto
– como acontece com todos
nós, e de não ter
estudado dizendo, inclusive, que
“ler é muito chato”;
que sabidamente tem ojeriza à
verdadeira democracia e que, em
conseqüência, cultiva
a amizade de ditadores, e tudo o
mais que se sabe, enfim, eleger
um homem com essas características
é sinal de que algo está
muito errado, com os eleitores absolutamente
anestesiados e, por isso, servindo
de coniventes.
Daí o nojo que, sinto, me
acometerá se o pior (a reeleição)
vier a ocorrer.