Longe do concreto retilíneo, do petróleo, dos caixas eletrônicos e dos demais vícios que caracterizam nossa atual sociedade de consumo, existe um Brasil paradoxal que encanta através da simplicidade: em meio à Floresta Amazônica, na porção da América onde os rios ainda governam a vida dos homens, vivem seres fantásticos como o menino Damião, que se diverte trepando em pés de cupuaçus e de biribás, ao canto dos uirapurus, enquanto botos vermelho-alaranjados exibem-se às margens do Rio Madeira.
Descendente dos antigos colonizadores da região e de índios, Damião é nativo da comunidade ribeirinha de São Carlos, que se localiza a 67 km da capital de Rondônia, Porto Velho. Tal trajeto, realizado de barco pelo Rio Madeira, dura aproximadamente cinco horas e encontra-se repleto de cenários paradisíacos dignos de figurar em qualquer lista das mais belas paisagens do planeta, não apenas devido à exuberância ambiental, mas, sobretudo, pela cultura humana endêmica, crua e fascinante.
Os moradores de São Carlos, assim como o restante da população amazônica, seguem o ritmo de vida ditado pelos rios, com os quais mantêm intrínsecas relações vitais. Suas habitações, chamadas palafitas, são construídas a uma certa altura do chão, para evitar alagamentos nos períodos em que o rio transborda. Além disso, como o barco consiste no principal meio de locomoção na Amazônia, toda família possui (ou quer) a sua própria embarcação.
O Madeira nasce na Cordilheira dos Andes com o nome de Mamoré, e corre em direção à Planície Amazônica, onde recebe pela margem direita o Rio Guaporé, que traz consigo a linha divisória entre Brasil e Bolívia. O Madeira, que se constitui em um dos principais afluentes do Rio Amazonas, leva esse nome pois, no período de chuvas, seu nível sobe e inunda as margens trazendo troncos e restos das árvores da mata ciliar. Na estação seca, entre junho e novembro (período denominado de verão), as águas do rio percorrem o caminho mais ‘fácil’ em direção ao mar, formando várias praias em suas margens, além de cachoeiras em seu leito.
No inverno amazônico, entre dezembro e maio, ao mesmo tempo em que enche com as águas das chuvas, o Madeira é invadido pelas águas do Solimões e sobe cerca de 17 metros, alagando todas as cachoeiras em seu leito até formar um espelho de água que tanto invade florestas como cobre as praias e grande parte da Planície Amazônica. É nesse momento que ele deixa de ser apenas um tributário do Rio Amazonas e se torna um canal de navegação dependente da "maré" do Solimões. Concomitantemente ao aumento das chuvas, nesse período do ano ocorre degelo na Cordilheira dos Andes, contribuindo ainda mais para a subida do nível do Rio Madeira, visto que lá nasce grande parte dos seus tributários. Embora o período dessa cheia não seja muito longo, já existem projetos governamentais no sentido de explorar esse efeito de maré, que tanto poderia ser convertido em energia elétrica como também diretamente em forma de energia cinética.
Um local onde Damião adora banhar-se é o Rio Jamari, um dos principais afluentes do Madeira. Em pleno inverno amazônico, Damião atira-se na água, de cima do seu barco, e mergulha para longe, evitando nadar em águas mais profundas, onde vive o temível peixe candiru (
Vandellia cirrhosa), em formato de guarda-chuva, um pequeno “parasita” de outros peixes maiores, que é atraído pelo fluxo da urina dos banhistas e penetra na uretra, alimentando-se de sangue. O conhecimento médico acadêmico ensina que o candiru somente é removido do corpo humano através de intervenção cirúrgica. No entanto, uma tradicional cura envolve a utilização do chá de duas plantas: a xagua (
Genipa americana) e uma certa maçã, que é inserido na área afetada. Juntas, as duas plantas matam o peixe, que, então, é expelido do organismo.
No município de Candeias do Jamari, onde existia uma bela cachoeira chamada Samuel, foi construída a barragem da Hidrelétrica de Samuel, com potência de 216,0 MW. Por não possuir bacia acentuada, o Rio Jamari recebeu em seu leito um dique de 45 km de extensão de cada margem para formar o enorme lago da hidrelétrica. O início da construção da barragem ocorreu no ano de 1982. Segundo o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), a obra foi responsável pela criação dos grandes bolsões de miséria na periferia de Porto Velho, ao ter ignorado direitos e negado assistência a cerca de 650 famílias prejudicadas pela obra, além da inundação eterna de expressivas porções de florestas e ecossistemas.
Atualmente, está em andamento o agressivo megaprojeto Complexo Hidrelétrico do Rio Madeira, composto por duas usinas de grande porte: UHE Santo Antônio (3.150 MW) e UHE Jirau (3.300 MW). A primeira está orçada em cerca de R$ 9,5 bilhões, e o total, juntamente com Jirau, gira em torno de R$ 18,4 bi. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) reservou uma linha de financiamento específica para custear cerca de 70% do projeto, embora a população local indague-se sobre o que realmente há de desenvolvimento econômico e social nessa obra. Também as organizações de defesa ambiental no Brasil e no exterior (as da vizinha Bolívia também estão envolvidas nos protestos) contestam o projeto, que, mais uma vez, pode alterar profundamente o equilíbrio da região.
Ora, Rondônia tem potencial para ser auto-suficiente em energia, carece é de infra-estrutura de distribuição. A energia a ser produzida será destinada para fora do Estado. Além do mais, uma usina hidrelétrica, depois de concluída, empregará menos de trinta trabalhadores efetivos. Sua presença, entre outros problemas, como as possíveis enchentes que atormentarão a vida das populações ribeirinhas, dificultará a piracema, que é a desova dos peixes nas nascentes dos rios para a reprodução.
Independentemente do nível do impacto ambiental gerado pela construção das gigantescas barragens, como sempre as grandes empresas serão as maiores beneficiadas com as hidrelétricas nos Rios Madeira. Na realidade, elas não estabelecem qualquer relação com as comunidades locais e tratam o território brasileiro como se fosse um terreno baldio, onde vagabundo dorme. Apesar de absurda, a ação segue a linha de raciocínio há tempos utilizada pelo BNDES, que não costuma levar em conta os interesses das comunidades “do fim do mundo”, muito mais interessado na inserção global do capitalismo brasileiro.
Somados aos impactos ambientais e culturais gerados pela construção das gigantescas hidrelétricas na Bacia Amazônica, outros dois fatores contribuem para o desaparecimento da vida endêmica existente nas comunidades ribeirinhas e em seus limites: a introdução da pecuária e o cultivo de soja. Empresários rurais estão “comprando” terra de grileiros, em geral áreas da União, para criar gado solto em extensas fazendas, impelindo, assim, a população rural a superlotar as regiões periféricas de Porto Velho e demais centros urbanos da região.
Vendidas as árvores mais preciosas depois de cuidadosamente selecionadas por olheiros das madeireiras, as matas dessas áreas são derrubadas e queimadas, exterminando a vida local. Logo serão utilizadas para o plantio de pastagens, criação ou engorde de gado. Se as terras forem adequadas, serão destinadas ao plantio de soja ou arroz, após serem hipotecadas ao banco de fomento do Governo na região. Neste ritmo, e com a total cumplicidade governamental, em algum tempo o bioma Amazônia será reduzido a algumas poucas reservas biológicas, perdendo a espontaneidade cultural que floresce em seres como o menino Damião. Nem falemos dos prejuízos climáticos e da desaparição de complexas e ricas cadeias de biodiversidade, que o país nem sequer ainda conhece em sua integralidade.
Mesmo que os economistas comemorem os lucros gerados pela agroexportação, não faltam questionamentos quanto aos reais benefícios de tal política agrária: enquanto um empresário rural contribui para o superávit na balança comercial brasileira ao plantar uma extensa área de soja com o fim de exportar sua produção, ele acaba induzindo as populações nativas de tais localidades a migrarem para as favelas dos centros urbanos, somando, portanto, para o aumento da miséria e todas as suas conseqüências.
Além do mais, os lucros referentes à comercialização da produção, que anteriormente eram divididos entre os nativos, fortalecendo a economia local, poderiam muito bem ser multiplicados caso industrializássemos os produtos aqui mesmo no Brasil, em vez de sumariamente exportarmos matéria-prima bruta. Hoje, recompramos o mesmo alimento que anteriormente exportamos, arcando com o valor agregado ao processar tais produtos no exterior e, no sentido contrário, com os custos de transporte, impostos e taxas, publicidade, burocracias e intermediários, fortalecendo a dependência.
Infelizmente, nossa gestão territorial desconsidera o caráter humano nos planejamentos agrários. Damião e seus semelhantes são irrelevantes às políticas públicas que visam a desenvolver sócio-economicamente a Amazônia. Qual será o desenvolvimento que estamos buscando: o crescimento econômico de investidores externos ou mesmo nacionais ou o bem-estar das comunidades tradicionais brasileiras? Superávit primário, ou alimento para o povo? Restará aos amazônicos incluir lâmpadas em sua culinária, pois luz, ao menos, não deverá faltar. Quem sabe?