De 1990 a 2000, Daniel
de Andrade-Gaia (dangaia@pop.com.br)
viveu no Amapá, onde
documentou em preto e branco
o cotidiano do povo a quem
dedicou o livro “Amapá”,
do qual selecionou as imagens
publicadas nesta edição
de ViaPolítica. “Viventes
do Amapá, entre eles
ovnistas, sonhadores e crianças
de muitas belezas. Olhos da
floresta, pessoas das águas,
no seu vai-e-vem, conforme
as marés. Gente de
toda parte, caras e rostos
amazônicos”, escreveu
o fotógrafo.
Nascido em Rio Real, Bahia,
Daniel de Andrade cresceu
entre vaqueiros, agricultores
e fazendeiros. Ainda menino,
vendia água aos retirantes.
Quando ouvia o apito do trem,
também pensava em ir
embora para qualquer parte
do mundo. Saiu para ser padre
franciscano, por influência
da família. Desistiu
e foi estudar em Salvador.
Durante a ditadura militar,
militou na clandestinidade,
foi preso e exilado. Viveu
no Chile, Itália, França,
Alemanha, Dinamarca e Moçambique.
Estudou fotografia e cinema
na Universidade de Vincennes,
na França, e depois,
em Moçambique, ensinou
o que aprendera aos soldados
da Frente pela Libertação
de Moçambique (FRELIMO).
Lá, trabalhou para
a Agência de Informação
Moçambicana (AIM),
órgão do então
governo popular.
De volta ao Brasil, foi freelancer
e fotografou para vários
jornais. Estava em Brasília,
na luta pelas Diretas, quando
reencontrou o amigo João
Capiberibe, ex-combatente
guerrilheiro com quem se identificava.
“Era um dia chuvoso,
festejamos a vitória
de Tancredo, mas no dia seguinte
a história tinha virado
a página. Capiberibe
convidou a mim e minha mulher
Stella Petrasi para o seu
Estado, o Amapá”,
conta Daniel de Andrade em
seu livro. Em 1994, o amigo
Capiberibe foi eleito governador
do Estado, depois reeleito,
e hoje é senador.
Desde então, Daniel
de Andrade e Stella Petrasi
cultivam laços fortes
com os amapaenses. “É
um Brasil verdadeiro”,
diz o fotógrafo. “Alguns
de outros estados, pessoas
desse mundão, em busca
de nuvens para voar. Outros
vendendo sonhos, fazendo barquinhos
ou canoas de muitos paus.
Remando para qualquer lado
e em qualquer direção,
mesmo contra a maré”.