São Paulo – Já faz alguns anos que eu carrego um montão de histórias sobre e dos índios nhambiquara. E sempre fui mostrando por aí, contando para um e para outro, tentando sensibilizar as almas urbanas para a sabedoria que estas histórias poderiam despertar em nós, abrindo nosso espírito para aprender, respeitar e conviver com o que é diferente. Assim, eu, que sempre trabalhei contando histórias através do teatro, da dança, do cinema e do rádio, virei contadora de histórias, com escola na tradição oral.
Meus amigos aqui da cidade estão sempre curiosos em saber como eu conheci os nhambiquara e como são suas histórias. Encontrei os nhambiquaras, pela primeira vez, em 1985. Cheguei num pequena aldeia bastante distante da cidade e da estrada, onde encontrei um grande amigo e quase-pai, o nhambiquara Lídio. (Ele usa enfeites de taquara e pena no beiço superior e no septo nasal, que são furados num ritual. Durante este ritual todos os homens desenvolvem a coragem e a resistência à dor.)
Muito carinhoso e sorridente, ele me perguntou:
- O que você faz na cidade?
Sem ter tempo de refletir muito, minha resposta saiu abrupta:
- Conto histórias pro meu povo.
Como é que eu podia explicar o que é teatro, por exemplo, ou romance, ou conto, ou poesia? Os povos indígenas contam a sua história através da tradição oral. Ou seja, as cenas e imagens são guardadas no corpo, nos gestos, na memória. Eles vão transmitindo os ensinamentos através do contar e recontar as coisas, como aconteceram no princípio, antigamente, como gostam de repetir. E, às vezes, encontramos uma ou mais versões da mesma história, porque cada contador acrescenta o seu próprio jeito de viver, de sentir, de contar e de acreditar no que conta.
Foi o início de nossa amizade. Todos os fins de tarde o papai Lídio, reunia sua gente e ficava me contando histórias do povo nhambiquara. E eu contava e cantava as histórias daqui.
Conversávamos a nosso modo, meio por gestos, meio em português, porque eu entendia pouco do idioma. Algumas histórias que me foram contadas pelo papai Lídio e sua gente eu pude captar; e meio a meu jeito, meio do jeito nhambiquara, eu vou contar para vocês.
Métodos
Histórias: já estamos no terceiro método.
O primeiro: conta para a família e depois para mim em português, com um índio ajudando o paizão Lídio.
O segundo: Lídio ouve as histórias na língua Nambi e depois transmite para mim em português.
O terceiro: Um índio - o do brinco, o da perna linda e de cara feia - por ser mais velho, conta a história para Jair que escreve e depois vem contar pra mim; estou esperando. Começou, mas ele não consegue decifrar o que escreveu. É esta aqui...
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As narrativa da mitologia nhambiquara e as fotos abaixo foram colhidas por Julia Pascali, em 1985.
Os desenhos foram coletados pela pesquisadora Ana Maria Ribeiro Costa e por Julia Pascali, na década de 1980, entre as crianças nhambiquara.