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Foto de Julia Pascali |
Um canto nhambiquara
Meus olhos se deslocaram
se fixaram no umbigo
olham pra dentro pro-fundo
pras entranhas femininas
se comunicam com a Terra
encontram amigas e irmãs
paridas por este ventre
em forma de comoção.
Neste tempo geológico
minha garganta se abre
vomita um novo sentido
de morte, de vida, prazer.
A língua fica de fora
estirada
esticada
quase toca a vagina
lambendo o novo momento
que as mãos querem agarrar.
Agarram mesmo, esse urro
que salta roncando e grave.
Rrrrroca, Rrrrroca, Rrroca.
O bicho de mim se aproxima
e os céus eu toco daqui.
Os movimentos são firmes
mais grosso o sangue que pulsa
mais duro de se sentir
mais pleno no seu viver
se adensa, se plasma à Terra
pra daquidaí juntar-se ao pó.
(Inspiração)
Ouço flautas que amplificam
o respirar da espécie,
às vezes se mostram raivosas,
esbravejantes até,
outros sons já se elevando
da criança e da mulher.
Alguns passos são tão espalmados
que do solo não se afastam
se arrastam masculamente
deixando um rastro marcado
a arrancar do centro da Terra
a gravidade do ser.
Já as mulheres vão leve
aos pulinhos lamentando
espalmando suas mãos
pelo Universo afora
a arrebanhar mil fluidos
do ar que preenche o ser.
As crianças aprendizes
ensaiam passos com risos
e mostram pra todos os Deuses
seus pais
suas mães
indo daqui pralí.
(Por Julia Pascali)
Canto nhambiquara, gravado por Julia Pascali, em 1985.
Um choque de culturas
Por Omar L. de Barros Filho
O poema Um canto nhambiquara transcrito acima foi redigido pela pesquisadora e performer Julia Pascali em 1986, depois de presenciar a Festa da Moça, um ritual de iniciação feminino, quando a menina fica reclusa numa pequena maloca até sua saída já como mulher. Agora, a cerimônia de passagem figura como parte de um trabalho acadêmico em que Pascali apresenta o testemunho de uma trajetória de vida, cujas experiências, pesquisas, participações e proposições no campo das artes, especialmente o teatro, ganharam novo olhar e conduta a partir do contato com a cultura indígena e as artes e filosofia orientais.
O choque cultural resultou, agora, em uma tese de doutorado de Pascali, intitulada “Em prol de cravar júbilo nos corações dormentes: construção poética de uma percepção”, que terá sua defesa pública dia 16 de dezembro de 2008, no Instituto de Artes da UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas), sob orientação do diretor teatral e professor Marcio Aurélio Pires de Almeida. Por pura coincidência, o multifacetado trabalho de Pascali surge em pleno centenário de nascimento do pensador francês Claude Lévi-Strauss http://www.viapolitica.com.br/outro_olhar_ed_97.php , que revelou, a um espantado mundo acadêmico europeizado, a saga da existência física e cultural dos nhambiquaras em território brasileiro.
“Minha pesquisa foi iniciada a partir de inquietações no campo de identidade, militância e consciência. A metodologia foi configurada no próprio caminho e guiada pelas mestras intuição e comunhão, musas do ser enquanto ator.” – explica Pascali. “Os caminhos trilhados apresentaram desde a infância até os primeiros espetáculos, tendências a mesclar arte e vida.” Até que, com a imersão nos universos indígena e oriental, redirecionou-se o olhar e a conduta de Pascali, partindo da espetacularização para as proposições e artes integradas e participativas.
O texto, que sintetiza seus estudos, à maneira de testemunho, apresenta, além de sua reflexão, o cotejamento com teóricos, poemas, registros de época e histórias, ilustrados com fotos e desenhos. O percurso de produção da tese permitiu a descoberta de um novo plano: o processamento e organização dessa experiência como um rito de passagem, como uma vivência a ser oferecida como conhecimento, apontando para o teatro enquanto forma de conhecimento.
Descreve Pascali: “A viagem foi patrocinada pela intensa necessidade de ampliar níveis de conhecimento e consciência, pela profunda disposição em servir com maior lucidez à espécie humana, rumo ao instante pleno, à vivência da presença a ponto do olvido dos termos passado e futuro.”Artes integradas e participativas, performance, vida e arte, oriente-ocidente, estado de presença, teatro e conhecimento são alguns dos temas que guiaram tanto a redação da tese quanto as proposições artística da pesquisadora.
Fotos do missionário Vicente Cañas (in memorian): Julia Pascali dançando, em 1986, acompanhada por flautas dos enauenê-nauê. Vicente Cañas escolheu viver como e entre estes índios. Quando ocorreu o encontro de Pascali e Cañas, em 1986, no rio Juruena, em Mato Grosso, ele previu seu assassinato, o que realmente ocorreu no ano seguinte, em maio. A questão ficou impune por 19 anos, presa no atoleiro judicial. Poucos foram os punidos. Vicente Cañas “Kiwixi” morreu defendendo a causa indígena, a sensibilidade para o belo e o respeito à sabedoria indígena.
Fonte: ViaPolítica/Julia Pascali