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Chile: antes de perder a memória

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Por Sylvia Bojunga

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Depois do terremoto, para nós, viajantes estrangeiros apaixonados pelo país, restam os poemas e romances que trouxemos na bagagem, os vinhos, a música e os registros fotográficos de uma pacífica passagem pelo Chile.

Quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
– o dia amanheceu ensolarado em Valparaíso, litoral do Chile. Desde as primeiras horas do dia, famílias inteiras, equipadas com toalhas, cadeiras de praia, banquinhos, lanches, muitas bebidas, guarda-sóis e carrinhos de bebê, acomodavam-se nos locais mais altos, com a melhor visão do mar. Aguardavam a tão anunciada queima de fogos do Ano Novo, que marcava também o início das comemorações pelo bicentenário da independência nacional. À meia-noite, quando as águas do Pacífico se iluminaram com o reflexo da lua cheia e da explosão de cores que pipocavam nos céus de Valparaíso a Viña del Mar, eu já não era mais uma estrangeira, una brasileña solamente. Estava mergulhada na emoção coletiva: “Viva Chile!!!”

Semanas antes, eu tinha cruzado o Atlântico em uma nau de três mastros e duzentas e quarenta toneladas, desde o porto de Cádiz, na Espanha, em dias e noites intermináveis, sentindo medo, sede e fome, até alcançar terra firme no cristalino mar do Caribe. No porto de Cartagena, vi tesouros do Novo Mundo sendo embarcados rumo à Europa. “Essa terra não é para mulheres e pessoas delicadas”, me diziam. Depois de conhecer a cidade do Panamá, enfrentei os perigos da floresta até alcançar o reino do inca Atahualpa e a magnífica cidade de Cuzco, no Peru. Foi então que me somei à caravana que seguiria rumo ao Sul, por terra, atravessando o deserto de Atacama para chegar a um dos vales mais belos e férteis do mundo, protegido pela cordilheira dos Andes. Foi lá que fundamos, com o espanhol Pedro de Valdivia e sua companheira Inés Suárez, o que viria a ser a belíssima cidade de Santiago do Chile.

Fiz essa viagem inesquecível em exatos três dias, devorando as 368 páginas da edição em espanhol do romance Inés del alma mia (Inês da minha alma), de Isabel Allende, já traduzido para mais de 20 idiomas. As façanhas dos conquistadores do Chile é reconstituída, a passo e a muito sangue, nessa magnífica obra baseada em pesquisas históricas e documentais, enriquecidas pela intuição feminina da autora e sua capacidade de nos transportar a uma outra época, a um outro mundo. É a voz da própria Inés Suárez (1507-1580) que narra sua epopeia e nos leva a conhecer as raízes e a identidade do povo chileno. Visitar o país à luz de sua história tem outro sabor, permite conhecê-lo e compreendê-lo com um outro olhar...

Sábado, 27 de fevereiro de 2010 – às 3h34, horário local de verão, um terremoto de magnitude 8.8 na Escala Richter sacode a região central do Chile, matando mais de 500 pessoas, segundo os dados mais recentes, e abalando diretamente a vida de cerca de 17 milhões de habitantes do país. A força do grande terremoto e de todos os outros tremores que o sucederam, criou, então, um hiato entre o presente e o futuro. Quanto ao passado, é preciso recuperá-lo, ao mesmo tempo em que o trabalho de reconstrução dos bens materiais se intensifica. Para as vidas que se perderam enterradas sob os escombros ou afogadas pelo maremoto que atingiu o litoral, resta apenas sobreviver na memória, tal como os fundadores da nação e, porque não dizer, suas vítimas nativas.

Para o atormentado povo chileno é hora, portanto, de iniciar uma nova saga. Para nós, viajantes estrangeiros apaixonados pelo país, sobram os poemas de Neruda e Gabriela Mistral, os romances de Isabel Allende e Roberto Bolaño que trouxemos na bagagem, os vinhos, a música do Inti Illimani e as fotos de uma pacífica e amorosa passagem por um país que teima em continuar a viver e sonhar.

Os registros de viagem aqui publicados foram feitos por Sylvia Bojunga e Omar L. de Barros Filho de 26/12/2009 a 6/01/2010

 
 
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7/3/2010

Fonte: ViaPolítica/A autora

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