Fotógrafo Jorge Aguiar mais uma vez surpreende com imagens captadas com uma lata na periferia de Paris, e depois reveladas e copiadas com uso de pó de café, sabão
em pó e gelatina de sobremesa. O resultado está em exposição em Novo Hamburgo, na Grande Porto Alegre.
Ao completar 35 anos de carreira, o fotógrafo Jorge Aguiar segue em busca da superação das fronteiras da beleza e dos mistérios da fotografia. Quando se dirige ao passado, seu olhar encontra as antigas técnicas do pinhole – o buraco da agulha –, que ele oferece a grupos de jovens em situação de risco como uma oportunidade de emancipação, uma chance de abraçar a profissão e documentar as realidades culturais e sociais nas comunidades.
Mas, quando se volta ao presente, Jorge Aguiar transforma-se em um flâneur, que ousa fotografar com uma lata a periferia de Paris, e depois rompe com os limites estéticos ao desrespeitar as barreiras químicas tradicionais do trabalho em laboratório. O resultado do cruzamento dessas linhas aparentemente contrárias está na exposição “Imagens Ancestrais”, que reúne dez fotografias parisienses captadas com uma lata em substituição ao equipamento convencional.
Após obter as imagens em negativo, Aguiar, então, surpreende com um processo alternativo de desenvolvimento químico de revelação, que emprega produtos como os prosaicos pó de café e sabão em pó. O filme, claro, sofre com a violência química. Depois vem a cópia em papel (quem ainda lembra dela neste mundo digital?). Sobre este material, Aguiar coloca tiras de gelatina de sobremesa (!), aqui usadas como filtros coloridos. Reveladas as cópias, elas são digitalizadas e sobrepostas várias vezes. Do deslocamento das imagens resulta o trabalho agora exposto no Centro Cultural Albano Hartz, em Novo Hamburgo, na região metropolitana de Porto Alegre.
Aguiar é protagonista de uma carreira pouca típica e desacomodada, agora que o “moderno” e o “novo” mudaram de sentido. Rebelde e antimítico, foge dos estereótipos. Para ele, a fotografia é, no fundamento, um ato pedagógico de revelação das diversidades culturais do mundo, janelas abertas para a realidade dos outros. À frente da ONG Photo da Lata, luta para amortecer as pressões sociais das periferias aflitas no poeirão das vilas e nos lixões urbanos. Na solidão do laboratório, é um pesquisador sempre de olho em soluções originais e de baixo custo. Por sua dedicação às oficinas de fotografia, cujo método criou e desenvolveu, recebeu da Unesco um prêmio de Direitos Humanos, em 2003.