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Apresentação
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Por Fausto Giudice, jornalista, escritor e tradutor
 

Os aviões pertenciam à Legião Condor alemã e à Aviação Legionária italiana. A palavra chave era Operação Rügen.

Dois homens contribuíram de modo decisivo para converter Guernica em símbolo: George Steer e Pablo Picasso.

O primeiro era um jovem jornalista de 27 anos, nascido na África do Sul, correspondente de guerra do diário londrino The Times e firme partidário da causa republicana e basca. A Espanha não era seu primeiro teatro de guerra. Em 1935 tinha sido enviado especial à Etiópia, então chamada Abissínia, submetida a uma feroz agressão italiana ordenada por Mussolini — o ditador com manias de grandeza —, que, assim, a golpes de crimes de guerra, tornava realidade seus sonhos imperiais. Na Etiópia já havia bombardeado a população civil inerte. Na Etiópia, o Ocidente democrático já traíra um povo agredido pelo fascismo.

George Steer chegou a Guernica horas depois do bombardeio, e nessa mesma noite telegrafou sua reportagem sobre a cidade mártir, que foi publicada na manhã seguinte no The Times e no The New York Times, e foi reproduzida pela imprensa de muitos países. Esse artigo foi o que alertou ao mundo e provocou manifestações de protesto nas ruas de Londres e Nova Iorque, o que resultou em uma contra-ofensiva propagandística dos franquistas e seus aliados, a Alemanha nazi e a Itália fascista. Nesses países, a imprensa e o rádio gritavam contra as “hordas bolcheviques” que, segundo eles, haviam incendiado Guernica antes de evacuá-la. Suas mentiras foram rapidamente refutadas. O relato que a História guardou foi o de George Steer, a quem foi dedicada uma rua em Guernica, onde, em abril de 2006, foi inaugurado um busto do repórter.

O outro, com 56 anos, era um pintor famoso, estabelecido na França. Apoiava a causa republicana frente à rebelião franquista. Descrito pelos Renseignements Généraux (a polícia política francesa) como “um anarquista suspeito sob o ponto de vista nacional” e “um pintor supostamente moderno” — por tais razões lhe foi negada a naturalização francesa em abril de 1940 — se posiciona, de imediato, para a tarefa. O resultado é uma pintura monumental de oito metros de largura por três e meio de altura, em preto e branco, que foi exposta no pavilhão espanhol da Exposição Universal. Como disse Picasso: “A pintura não é feita para decorar as casas. É um instrumento de guerra ofensiva e defensiva contra o inimigo”.

Guernica é uma lição pendente. Os autores daquele crime de guerra, começando pelo chefe da Legião Condor, tenente-coronel Wolfram von Richthofen, foram aclamados como heróis na Alemanha nazi, e os que ainda vivem desfrutam de uma aprazível aposentadoria e concedem entrevistas com um descaramento inusitado. O bombardeio da cidade santa dos bascos foi uma experiência de campo para avaliar a capacidade da aviação alemã em destruir eficazmente uma cidade. Como afirmou Hermann Göring no julgamento de Nuremberg: “A guerra civil espanhola me ofereceu a oportunidade de provar minha jovem aviação, e permitiu aos meus homens ganhar experiência”.

Esse crime de guerra não foi o primeiro nem o último do século XX. Em 1915, Winston Churchill ordenou os primeiros bombardeios com armas químicas contra populações civis no Iraque. Depois de Guernica, houve outras cidades mártires como Coventry, Hamburgo, Dresden, Hiroshima e Nagasaki. Depois da Espanha, toda a Europa. Depois da Europa, Ásia, da Palestina à Coréia, do Vietname ao Camboja.

As Guernicas de hoje se chamam Gaza, Tel Afar, Faluja, Samarra e Najaf, assim como Grosny ou Kandahar. Os aviões que cospem as bombas mortíferas já não levam a cruz de ferro, mas as insígnias dos países “democráticos”. O lugar dos “inimigos vermelhos de Deus” contra os quais diziam lutar Franco, Hitler e Mussolini para salvar o Ocidente, é ocupado hoje pelos “islamitas” e o “eixo do mal”, que, segundo Bush, autêntico Hitler de nossos dias, vai de Havana a Pyongyang, passando por Caracas, Beirute, Damasco, Cartum e Teerã. E a “comunidade internacional”, ontem paralisada diante do martírio da Etiópia e da Espanha, hoje em dia, frente ao martírio da Palestina, Iraque e Afeganistão, está pior que paralisada, é cúmplice das centenas de Guernicas que se repetem ante nossos olhos cansados, dia após dia.

Leiam a reportagem de George Steer. Diz o essencial em poucas palavras.

Traduzido por Omar L. de Barros Filho, diretor de redação de ViaPolítica, no Brasil, e membro de Tlaxcala


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