Uma
das jóias que me desperta
mais ciúmes, e que guardo
com carinho quase egoísta
em minha pequena biblioteca,
é “Retratos y Autorretratos”,
um ensaio fotográfico
sobre os principais escritores
da América Latina (Brasil
fora), de Sara Facio e Alicia
D’Amico, publicado pela
Crisis, de Buenos Aires,
em dezembro de 1973. O livro
documenta a intimidade de figuras
como Astúrias, Bioy Casares,
Borges, Cabrera Infante, Cortazar,
Fuentes, Neruda, Silvina Ocampo
e Mario Vargas Llosa, entre
outros.
Além de se deixar fotografar,
cada um deles redigiu uma pequena
auto-biografia, ou algum registro
impresso como pista que permite
uma passagem para seu mundo
interior. A propósito
do lançamento do romance
de Vargas Llosa, Travesuras
de la niña mala,
publicamos, também, o
auto-retrato do escritor e as
fotografias tomadas em 1969,
em Ilha Negra, Chile, que ensejaram
aquele momento de reflexão
que agora reproduzimos.
“Eu e minha imagem”,
por Mario Vargas Llosa
(fragmento de Retratos y Autorretratos,
de Sara Facio e Alicia D’Amico)
"Sempre pensei
que escrever romances é
uma cerimônia parecida
com o strip-tease. Como a mulher
que, sob os refletores de luz,
se despoja de suas roupas uma
a uma e vai mostrando seus encantos
secretos, o romancista revela
também sua intimidade
ao público através
de suas ficções.
Há duas diferenças,
sem dúvida. O que o romancista
exibe de si mesmo em seus romances
não são, geralmente,
seus encantos secretos, como
o faz a mulher, mas sim seus
demônios, aquilo que o
atormenta e que o obseca, o
mais feio de si mesmo: seus
pesadelos, seu rancor, sua rebeldia
contra o mundo.
A outra diferença é
que, em uma cerimônia
de strip-tease, no
início, a mulher está
vestida e, ao final, está
nua. Na elaboração
de um romance, o processo é
oposto: no princípio,
o romancista está nu
e, no fim, coberto. As experiências
mais cruas de sua vida, que
são o estímulo
de sua vocação
e a matéria sobre a qual
trabalha sua fantasia, vão
dissimulando-se, ocultando-se,
durante os meses ou anos que
leva a edificação
da ficção, a tal
ponto que quando ela está
em pé e se corta o cordão
umbilical que a une ao seu autor
– quer dizer, quando o
livro é publicado e começa
a viver ou morrer por sua conta
- ninguém, e o romancista
menos do que ninguém,
poderia identificar nela, com
exatidão, essas experiências
pessoais íntimas que
estão ocultas, latindo
na ficção.
Escrever um romance é
uma espécie de strip-tease
invertido e todos os romancistas
são, de certo modo, discretos
exibicionistas. Por isso, pedir
a um romancista que fale de
si próprio não
tem muito sentido: na realidade,
sua vocação o
condenou a não fazer
mais do que isso (ou assumiu
essa vocação porque
não podia fazer outra
coisa). Mas, ao mesmo tempo,
essa vocação estabeleceu
um método, uma estratégia,
para essa necessidade profundamente
despudorada de confissão
que está em sua origem,
que é o desnudar-se vestindo-se,
a de dizer a verdade mentindo,
a de falar de si falando de
outros (que, para o cúmulo,
nem sequer existem).
O mais autêntico e o mais
importante que pode dizer de
si, um romancista já
disse ou dirá em suas
ficções, através
desse oblíquo, enganoso,
ambíguo caminho da fabulação.
Os outros acidentes de sua vida
(sua cara, por exemplo) não
se relacionam com sua obra,
e não têm, portanto,
interesse algum para a literatura,
somente para a boatologia”.
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