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Delírios de um plagiador
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Por Fernando Ernesto Baggio  

ViaPolítica apresenta, nesta edição, fragmento inédito do livro “Delírios de um plagiador”, de Fernando Baggio. A obra foi uma das quatro selecionadas pelo Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul para integrar a "Coleção 2000", que revela e divulga novos escritores.

Vinham correndo em minha direção, berrando o que haviam escutado em algum telejornal, repetindo palavras já pensadas por alguém interessado em lucrar com a construção do anexo número 5.431 do formigueiro que habitamos.

Parado, observei aquelas formigas transformarem-se em rinocerontes, como um dia comentou Eugène Ionesco. Permiti que meus ouvidos rebatessem seus berros e filtrassem somente o que quisessem escutar. As formigas mostravam papéis e pediam que os assinasse. Elas necessitam de um constante contato superficial, como um simples toque de antenas, palavras vazias e convenções sociais. Precisam se sentir integradas ao formigueiro, esquecendo toda a poesia e a abstração original.

Mas, o que é poesia? É lirismo? Sentimentalismo? Comunismo ou algum outro ismo? Tudo pode ser considerado poesia. Uma palavra é poesia, uma frase é poesia, flores são poesia, beijos, a lua, Poemas no Ônibus, hip-hop, o matador de passarinhos... Tudo é poesia, agradecendo em nome destes escritos. Se uma solitária palavra é considerada poesia, também há poesia num bando heterogêneo de palavras. A moda já saiu de moda. Burocracia gramatical é resquício da compartimentação positivista do conhecimento e do reducionismo científico. Os novos tempos não são neo-pós-modernos, mas sim um resgate dos valores renascentistas acrescido às preocupações ambientais.

“Como?”, respondi com a minha mais espontânea racionalidade, e os rinocerontes voltaram a repetir as palavras pensadas por outros animais. Meu cérebro ignorou aqueles berros e os transformou num imperceptível zumbido de eletrodoméstico.

Ignorei o que ocorria externamente ao meu tecido epidérmico e assegurei-me de que depois da revolução econômica virá a revolução existencial, e a nova era será bela e trágica, já que as coisas simplesmente ocorrem. Não é culpa sua, nem minha, nem do dono do formigueiro. Elas apenas acontecem como se tivessem sido enviadas de táxi pelo diretor do espetáculo e nós fôssemos os atores, o cenário, ou então fôssemos o Vigarista Jorge, que coincidentemente aproximava-se. Dizia ele:

“Creia em Arigó, o kaos personificado na relatividade sistêmica. Ele é o messias dessa terra santa. Não o persiga, pois a vida é muito mais que um amontoado de sínteses. É chuva, vento, lama!”
No final da rua, vários rinocerontes sacrificavam-se construindo mais uma pirâmide. Em troca, recebiam telefones celulares e alimentação, com pagamento parcelado em doze vezes. Recentemente conquistaram o direito de passar a segunda metade do décimo-segundo mês de cada ano no litoral, banhando-se em água salgada. A pirâmide que estão construindo será chamada Palácio do Plano Alto, e as formigas operárias auto-intitulam-se calangos. O formigueiro dos rinocerontes agora terá mais um anexo, o 5.431.

“Alto lá!”, gritou alguém. Um índio charrua e a filha do cacique Sepé Tiaraju surgem voando sobre o formigueiro, fugindo dos bandeirantes virtuais que queriam capturá-los para vender como escravos em São Paulo. O imperador Dom Pedro ordenou que o coronel da polícia, que era seu representante jurídico-comercial, aprisionasse os nativos. Em troca, ofereceu a posse das terras indígenas que ele invadiria, além da concessão de uma rede de TV, a Bandeirantes.

Saudamos os indígenas e espancamos os bandeirantes. À parte, uma menina de vestido corria com seu cachorro pelos corredores do museu comunitário. Foi ela mesma quem costurou seu vestido cor de laranja que voava ao vento junto com os seus lindos cabelos despenteados. A reconheci. Era ela quem eu esperava há tanto tempo. A beijei e senti seu corpo. Era como se ela fosse o meu corpo e todos queremos ser felizes, mesmo que a Constituição Federal imponha o contrário.

Mas eu nunca assinei constituição nenhuma, pensei eu, quando fui bruscamente interrompido por mim mesmo. Decidi ir ao banheiro antes da peça começar. Eram todos ótimos atores, principalmente os calangos, que venderam a alma aos produtores. Estes, por sua vez, transformam cultura em produto. Os publicitários também desempenham muito bem o seu absurdo papel na cadeia econômica: vender inutilidades. Os burocratas, os tecnocratas, os democratas... todos explorando formigueiros na Bacia do Rio da Prata. Representantes comerciais e empresários tentavam me convencer de que seria um bom negócio, pois movimentaria a economia e geraria renda. E berravam que a solução era atrair o capital de outros formigueiros.

“Talvez outro dia, pois a peça já está começando e os meus anseios subordinam minhas ações”, disse eu, tentando despistá-los.

A menina subiu no cavalo da filha do cacique e eles partiram para a Cachoeira da Fada. É safada essa fada, repito o que dizem no cep 20.000. Tudo é plágio, tudo é permitido e propagandeado. Percebi que os edifícios são cubos de concreto e nós moramos em gavetas. Nos locomovemos em cubos de metal com motores que poluem o ambiente. Somos os mais surreais dos animais, os que se dizem racionais. Nos enrolamos em tecidos coloridos e artificializamos nosso cheiro. Ao menos os escravos não mais são acorrentados, eles agora apenas assinam termos de contrato.

Mais sobre Fernando Ernesto Baggio

 
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