Comentários dos alunos do Centro Unificado Profissional (CUP), de Jacarepaguá, transcritos por Sergio Santeiro, publicados originalmente no Jornal de Ipanema – Rio de Janeiro, semana de 19 a 25 de agosto de 1977 (Ano XI, n° 193, pág. 9)
 

No meu primeiro dia de aula neste período encontro uma turma nova a quem expus a estrutura do curso e a minha expectativa de funcionamento. Em seguida, projetei-lhes o meu último trabalho, "Primeiros Cantos", feito a 7 de junho passado [1977], um filme de 4 minutos em que o autor interpreta uma seleção de seus poemas.

Após a projeção, pedi que pusessem no papel as suas impressões a respeito, sem maiores esclarecimentos. Era à queima-roupa.

Pediram-me que passasse de novo o filme, o que foi feito. Depois escreveram, uns mais, outros menos, mas o curioso ao ver o resultado foi eu achar que, juntados, os depoimentos formavam um corpo comum em que as partes integravam-se como se fossem complementares: um retrato do grupo. Transcrevo o trabalho:

Para mim se tornou difícil de uma análise, o que posso dizer: como você mesmo disse, foi um filme elaborado em poucos dias e com o propósito de lançamento em um festival. Você relata o filme, numa forma de poesia marginal satirizando o dia a dia. Aquilo que as pessoas têm no seu interior de oculto, de estranho, de reprimido. Em cada ato uma mensagem, em cada espaço um pensamento.

O intérprete é o próprio autor do texto - surpresa - ótimo - de início choca - depois choca mais ainda - pessoal - de dentro pra fora - só verdades (dele) - trágico - cômico - agressivo - louco - figurino 
calça verde - camisa amarela estampada - lenço no pescoço - cara de sonso - muito boa expressão corporal - texto declamado - gostei, porque é uma coisa dele sentida e dita por ele mesmo.

Em determinado momento do filme o fundo branco se transforma numa sala de cinema branca. Desta vez, o ator, o autor, enfim, a pessoa está lá ao vivo, sujeita aos acidentes e delírios, às modulações da voz e do corpo. Soltamente desafiando a prisão costumeira, denunciando 
a gaiola e a tentativa de quebrá-la.

Os ombros estão tensos mas a câmera sabe o que quer e vai registrando. A luz chega ao malabarismo lírico de formar asas em aves de rapina que não sabem voar.

Acho bonito e bom fazer um filme assim, um manuscrito para além das falhas da caligrafia, ortografia, um filme para si mesmo mas ao mesmo tempo impessoal já que vivemos todos sob certos fantasmas-comuns.

O texto interpretado pelo próprio autor valorizou bastante o filme. O autor tenta mostrar a realidade da vida interiormente. Realmente é um filme que choca.

Apesar de alguns pontos que ficaram vagos, o filme remete uma idéia política onde o simbolismo mistura-se à poesia. É um tanto agressivo que dá pra chocar a primeira vez.

A linguagem simbólica foi usada e esse é um meio razoavelmente prático pra dizer o que se sente e o que se tem na cabeça. As imagens e expressões assustam, agridem mas são claras. Para mim o texto foi mais importante e inteligente.

Assumir atos, palavras e verdades suas é sem dúvida honesto e satisfatório. Nada é novo em termos de informação para aqueles que possuem ainda uma conscientização da realidade.

A partir do momento em que o visual é bem individual, não deixa margem a críticas, pelo menos do meu modo de ver. Os 4 minutos existentes são super importantes na vida de cada indivíduo. Tanto dá para um "sim" como para um "não".

Talvez até mesmo esse tempo tenha sido curto para idéias tão sentidas, mas o que valeu de fato, na minha opinião, foi sem dúvida a vontade de mostrar você, com  suas idéias, que não são desconhecidas, como já disse, mas cotidianas para todos nós. Mas acho melhor ainda calar.

Caí em 1° de abril! Inspira! Em sendo o filme ou "um" filme uma experiência muito pessoal fica difícil interpretá-lo, principalmente sendo um filme de S.S. Quando o filme acabou, a minha única vontade, ou melhor, expressão, foi fazer um filme sobre S.S. (de roteiro já  iniciado). Daí, você pode ver o estado de loucura.

Porque já não é a primeira vez que eu tento interpretar um filme seu e não consigo, ou melhor, tenho medo. Medo de interpretá-lo como um filme político e desabafante ao mesmo tempo e não sê-lo. Simplesmente. Quando você faz um filme (os seus filmes) deixa margem às interpretações mais diversas. O que é filmesia para você? Uma poesia filmada mecanicamente. Um filme poético.
P.S: O filme entrou muito docemente, não consegui sentir nenhum tipo de agressão.

Achei interessante como foram colocadas as coisas, ou seja, abertamente e tudo aquilo que o autor pensa sobre o assunto abordado. Particularmente não me agrada o filme pela maneira que foi feito, 
talvez o autor tenha seus motivos, não sei. É uma fita meio louca. É só.

Que felicidade pra mim ver este filme. A tua verdade brotou da tua garganta. O ponto mais importante pra mim basicamente é este: a tua apresentação, colocando-se pelo aveS.S.o como indivíduo, aliás você tem essa coragem, e como documentarista, o que eu acho da maior 
importância.

Não quero falar em termos de produção, é legal. O que você passou, os elementos sociais presentes nestes 4 minutos, que intensidade. Que vida trágica-mágica.

É! Acho que não há muito o que falar. Você fez seu filme, curtiu e acho que não tem que ser discutido ou comentado. Tem que ser visto, transado.

Seu recado tá dado e acredito que foi bem captado. Vai ficar na cabeça das pessoas como uma coisa muito forte e que tem que ser muito pensada.

Assim de cara, é só isso. Não se tem muito mais coisa pra dizer. Vimos e sentimos. Agora vamos pensar e tentar chegar até onde você tenha tentado chegar. Nossa, enrolou tudo!

Um filme pessoal, isto é, um desabafo que foge a uma forja definida. O filme não se dispõe a agradar ou a desagradar e sim registrar pensamentos que podem ser percebidos, aceitos ou ignorados.

Não existe fantasia visual, o fato de tudo ser dito diretamente em forma declamatória faz com que a compreensão esteja mais no verbo.

Sendo o autor o próprio intérprete há a possibilidade de conhecimento mais aproximado da obra completa.

É como uma peça de teatro em que o autor se mostra em função da censura. O que está nos limites é falado. As frases entrecortadas funcionam a partir de que é dado um toque em certos assuntos chaves que unidos significam o estado de tensão que provoca esse momento de desabafo.

O clima é sombrio, interior. A indumentária é a fantasia, é auto-incorporada e que não entra em harmonia com o tom da declamação. Acho bom que o cinema não fique restrito ao padrão considerado pela censura.

Esse filme abre um novo campo, e torna menos distante o cinema de quem gosta dele, e tem alguma coisa para dizer.

1ª mostragem: - N A D A. Bom fazer filme, né? Falar e mostrar o que se tem por dentro, o que não se mostra por fora. Agora, - se vão entender ou não - são outros papos.
Aliás, não tem muita importância desde o momento em que podemos dizer - mostrar. Dizer: ninguém entendeu nada, seria exagero de minha parte, mas todo o mundo entendeu tudo que você não pode nem imaginar. Pode? Documentário seu do que vai dentro e do que te cerca. Foi?
2ª mostragem: Bom, depois das explicações acerca do figurino, as coisas se reforçaram, as idéias se firmaram. Sério, muito sério, as coisas que se dizem e nem sempre se ouve - escuta. Atenção!

O filme principia, antes de tudo, sobre a expectativa que existe diante da situação do povo brasileiro, sendo ele (o filme) satirizador e artístico. Ele aborda um desabafo traduzido literariamente para que possa conscientizar a mentalidade das classes sócio-econômicas, mesmo que não possa ser levado a um circuito livre de cinemas.

O filme "Primeiros Cantos" localiza a paixão de um cineasta brasileiro, tido como marginal, a paixão diante da vida, vida também filmada, pesquisada e evocada por todos os seus prismas, e que ganha, no cinema brasileiro, um papel de destaque e respeito.

Mais sobre Sergio Santeiro
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