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Por meio da fotografia, adolescentes de Canoas exercitam olhar crítico sobre seu cotidiano e a cidade. Por Marilia Schmitt Fernandes e Redação de ViaPolítica

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Paralaxe  
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Teses sobre a destruição do mundo (II)

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Por Halley Margon V. Jr., do Rio de Janeiro

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London burning with boredom now...”

The Clash

(a)

London calling, diz a música.

Quando o vazio vem à tona explode como uma bolha de alta pressão. Provoca danos sem deixar rastros, nem perspectiva. Mesmo assim, a detonação talvez nos soe melhor que a paralisia, porque a paralisia tem o sabor da morte. Morte em vida, cheia de pus e contaminação. Londres está chamando. Mas chamando para onde? Londres apenas queima.

London’s burning, diz a música.

A cidade está queimando de tédio, diz a letra, de tédio e prosperidade.

(b)

As evidências do desaparecimento do mundo são tantas que nem parecem que são o que são, porque elas também se esvaziam tão logo se constituem, tão velozes quando a substituição permanente de mercadorias na grande feira universal – onde todos os conteúdos se esvaem assombrados pela névoa branca do fetichismo.

(c)

Não há vozes para serem ouvidas, exceto a do grande murmúrio (milhões de vozes informes amontoadas como os restos de um campo de extermínio). Uniforme e avassalador. É como se fosse um ruminar incessante. Visível, mas sem forma. A trilha sonora do inferno.

(d)

Vez ou outra, messias e visionários saem às ruas querendo emitir sinais de alerta tão evidentes quanto atabalhoados. Parecem ter consciência de que jamais serão ouvidos. E mesmo assim, lançam-nos ao vento ou ao mar, tentando aproveitar o movimento das marés, ou não tentando nada, porque são quase sempre muito pouco práticos. E têm razão. Para que ser prático se todos os resultados deram no que deram? É preferível apenas delirar. Ou nada é preferível. De fato é disso que se trata: quando tudo é excesso e sobra, quando tudo está disponível, nada mais é preferível.

(e)

Você tenta imaginar como será possível um mundo sem ponto de fuga. Ou não será. Não é. Jamais poderia ser. Desmoronaria ao primeiro sopro. E ele, de fato, já há muito se desfez, viu sumirem seus contornos – ou nem viu.

(f)

Você, então, crê na cabala. Em números, em datas cabalísticas. 1666, por exemplo, não seria um desses números? Separadas pelo espaço quase exato de um século três vultosos eventos abalaram o Velho Mundo. Em 1755, o terremoto de Lisboa. E, para você que acredita em datas fatídicas, simbolizando coisas e presságios, a terra começou a tremer exatamente na hora da missa do dia 1 de novembro de 1755 – Dia de Todos os Santos. Mais ou menos exatos (sic!) cem anos antes, o incêndio que durante três dias e três noites destruiu Londres. A data? Aquela ali de cima, 1666. Note-se que de ambas as catástrofes resultaram obras monumentais de reconstrução e, no caso de Lisboa, modernização, liberada pelo maquiavélico e todo poderoso Marquês de Pombal, a de Londres pelo arquiteto Cristopher Wren – vale lembrar que após o fogaréu a cidade do século XVII também se viu agitada por saques e badernas, como agora.

Não muito longe dali, outros cem anos antes, em 1570, uma “violenta tempestade procedente do noroeste... varreu as defesas do mar do Norte numa faixa imensa, de Flandres ao litoral dinamarquês”.

Os homens de então acreditavam em augúrios e, além disso, se emocionavam. Comovido, o historiador P.C. Hooft escreveu sobre “a dimensão do desastre: em toda a extensão da terra inundada morreram não menos de 100 mil”. Hooft, que, sim, acreditava em pressentimentos (e maus agouros), “estabeleceu ligação entre os distúrbios dos céus e os do Estado”. O historiador moderno, por sua vez, lembra que também os espanhóis (católicos e inimigos dos holandeses), “consideravam tal calamidade... castigo pelas blasfêmias calvinistas... enquanto os protestantes a julgavam presságio de levantes que estavam por vir”.

A grande inundação que atingiu a Holanda, no entanto, não foi esta. Foi a de 1421, no dia de Santa Isabel (5 de novembro). Nesse dia, “o mar já inundara quinhentos quilômetros quadrados até Heusden... Relatos mais antigos falam de 100 mil mortos e 72 vilarejos destruídos – um apocalipse marítimo...”.

Mas este, infelizmente, não serve à nossa referência às tais das datas cabalísticas.

(g)

Há um evento, porém, que quem sabe nos aproxime desses tumultos que agora assustam a City londrina (projetada por Wren para substituir parte da cidade destruída pelo fogo no século XVII): uma sublevação de marujos, ocorrida em Liverpool, em 1775 (apenas duas décadas, portanto, após o terremoto de Lisboa), quase que ignorada pela historiografia oficial, tomou conta da área do porto e logo da cidade, deixando em alvoroço todo o reino e centro nervoso do nascente capitalismo.

Quem eram e por que se rebelaram os marujos de Liverpool?

Eram os trabalhadores rasos do tráfico de escravos da África Ocidental para a América, aqueles que, nas palavras do historiador Marcus Rediker, constituíam a terceira das três grandes peças que compunham a economia do navio negreiro (sendo as outras duas o capitão e, é claro, a vítima da máquina infernal que se abateu sobre 12 milhões de pessoas, a mercadoria escravo).

O que aconteceu com eles?

Na noite de 25 de agosto de 1775, os marujos do Derby, navio negreiro ancorado no porto de Liverpool, ao ficarem sabendo que o salario pelo qual tinham sido contratados seria reduzido porque, segundo o capitão, “havia muita mão de obra disponível”, iniciaram um pequeno incidente que nos próximos dias acabaria por se transformar, primeiro numa greve e em seguida numa verdadeira insurreição urbana. No decorrer dessa inesperada revolta contra os comerciantes que os contratavam para ir à África catar escravos os marujos da cidade portuária, uma das mais importantes do sistema do tráfico, tratarão de aterrorizar “os moradores abastados, às vezes ameaçando-os com armas, ‘solicitando’ dinheiro, que seria usado para enterrar os que tinham sido mortos”.

“Quando os marujos chegaram (na casa de um dos grandes comerciantes locais) um grupo deles começou a atirar na rua (seus) bens... Eles pegavam móveis caros e os despedaçavam, tiravam armários com gavetas cheias de finas peças de vestuário e as ‘rasgavam em pedaços’, destruíam vasos de porcelana e documentos em pergaminho. Jogavam fora colchões de plumas, travesseiros, etc, rasgavam-nos e atiravam as plumas no ar’...”.

(h)

Uma das reações mais curiosas quando algo como uma rebelião se inicia é cobrar que tenha ordem, que revele limites e bons modos, que se mostre civilizada: todas, repito, todas as insurreições contra a ordem ou contra o que quer que seja carrega na sua própria natureza um quantum inevitável de caos, desordem, anarquia, ausência de propósitos e confusão. Elas são, em primeiro lugar, exatamente uma ruptura na epiderme asséptica da civilização e do bom comportamento. Esperar o contrário disso é de uma hipocrisia (ou de um cinismo) cujo despropósito é significativamente maior.

(i)

Vez ou outra os enlouquecidos (e eles são muito mais que parecem ser) saem às ruas (muito menos que seria de se esperar) como que para alertar que nem tudo está tão bem no mundo próspero. A fúria se torna visível. Ao contrário da superfície perfeitamente lisa das mercadorias, das embalagens que as escondem e da publicidade que as vendem, sua aparência não é nada boa. No caso dos tumultos que em agosto assustaram a City londrina, parecem ter sido tão cheios de ruído quanto os acordes de uma banda punk, tão desarranjados quanto uma apresentação do Joe Strummer.

(j)

Parafraseando o poeta Heinrich Heine, os felizardos do mundo próspero talvez tenham que se acostumar com a ideia de que, sim, venceram, mas estarão para todo o sempre rodeados de cadáveres (não exatamente os dos amigos).

20/8/2011

Fonte: ViaPolítica/O autor

Halley Margon V. Jr é escritor e arquiteto. Nasceu em Catalão, Goiás, em 1956. Na década de 70 colaborou com o jornal Versus, de São Paulo. Hoje reside no Rio de Janeiro. Lançou, recentemente, seu primeiro romance. Trata-se de Paisagem com cavalo [Rio de Janeiro, Ed. 7Letras, 160 páginas, R$ 33,00

Site:
http://www.7letras.com.br/

E-mail:
halleymargon@globo.com

 

 

 
       
 
 
 
 
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