Morre em São Paulo, aos 66 anos, o artista Rubens Gerchman, múltiplo, desbravador, generoso. Mais um velho amigo que se foi, é natural, todos nós estamos indo. Só espero que com menos dor.
Cânceres, doenças incuráveis, desafios que a ciência vai vencendo como pode. E ficamos nós à espera do quanto vamos sobreviver: a vida é o que vai entre a aparição e a desaparição. E o que fazemos com ela. Como gastá-la sem nos gastarmos além do necessário.
Ficam as saudades. Quase diria saudades alegres do convívio, talvez nem sempre extenso, mas intenso. Fomos parceiros desde que ele assumiu o Instituto de Belas Artes, no Parque Lage, transformando-o em Escola de Artes Visuais, desempoeirando-o, desvetustualizando-o, não é que seja mais moderno, é mais contemporâneo, e me convidou a dar aulas de cinema.
Era 1975. Estava eu a dar aulas de cinema em Jacarepaguá, no CUP - Centro Unificado Profissional; em Niterói, na Universidade Federal Fluminense (UFF), e agora no Parque Lage, na Escola de Artes Visuais, um cenário estupendo do palacete aos jardins, e em todos estes lugares, por sorte ou destino, cercado de amigos e talentos.
E em cada lugar o devido formato: aulas livres, como também na Cinemateca do MAM, ou talvez mais contidas na faculdade privada ou na universidade pública. Passava de uma a outra com a circunstância de nesta época morar a poucos quarteirões da Escola, que é o meu maior sonho de consumo, distar a pé do meu local de trabalho e prazer.
Como construir o meu curso seguindo o espírito do diretor, que mantinha os da casa que encontrara e atraía novos parceiros notáveis, como o Roberto Magalhães, em desenho; o Gastão Manoel Henrique, o escultor, em 3 D; e o meu inesquecível fotógrafo Roberto Maia, em fotografia, além de braço direito na gestão administrativa.
Sim, porque além da arte, não se monta um tal centro de excelência artística ainda mais sob a tutela do governo do estado, mesmo a convite, e naqueles ainda tenebrosos dias, sem os problemas de gestão. Como se pode com tão pouco gerar tanto, e foi o que foi?
Concebi então o meu curso como uma Oficinema: uma oficina de cinema. Estávamos ali não para ensinar como se faz um filme, mas como se faz o cinema. Importante era precipitar nossos clientes que, de início, somavam uns setenta, no afã de fazer cinema.
Como o samba, cinema não se aprende na escola. A escola é convívio na mesma direção, é o encontro de desejosos de fazer a mesma coisa. Junto ao que se poderia chamar de aulas, tentativas de inserção dos novatos no universo em que se faziam os filmes no espaço em que viviam, muitos revoltados com o descarte pelo professor do cinema estrangeiro, aquele que não é feito por nós e nem será por eles, os aspirantes. Fundamental era a sessão semanal de filmes: um cineclube.
Foi o Cineave, com a logo própria, desenhada por um dos meus notáveis estudantes, muitos já eram poetas, fotógrafos, gráficos, um carimbo em tinta vermelha, e nosso símbolo, também por eles escolhido: uma pomba.
E vocês não vão acreditar que, um belo dia, para abrir a sessão sempre noturna, a menos que chovesse no famoso terraço do palacete de dona Bezanssoni Lage, de quem se dizia que os mais felizes ainda ouviam sua cantoria ecoando nos salões, menos eu, surgiram com uma pomba na gaiola que soltamos ao ar antes do filme.
Em outro dia, melhor, em outra noite, vocês também não vão acreditar que ao ar livre, no terraço, uma lua esplendorosa insistia em entrar e sair de trás das nuvens, igualmente iluminando ou não a tela que exibi, como sempre, segundo um cartaz de divulgação do cineclube: todas as quintas feiras, às vinte e trinta horas - bons ou maus, filmes brasileiros.
E, naquela época, preferíamos exibir alguns dos filmes independentes pouco ou nada exibidos, inclusive porque a maioria era proibida pela censura. E aí, se me permitem, eu cantava de galo: aqui é uma instância do governo estadual sobre a qual não pode prevalecer a instância federal, que era o serviço de censura.
Imagina, em três ou quatro anos, toda semana, exibimos uma enormidade de filmes, desde Humberto Mauro, o independente radical dos anos trinta, aos nossos colegas de então. Finalidade: ambientar nossos estudantes com o cinema, para que eles pudessem fazer e não só como os estrangeiros, aqueles que eles e nós só podemos ver, e cá entre nós, muito pouco entender.
Após o filme, era de se esperar o debate, os comentários, as conversas, que pouco prosperavam. É claro, considerando a novidade que os filmes eram, apenas uma sessão era insuficiente para desvendarmos juntos a fina iguaria raramente servida.
Aulas às terças e quintas. Às terças, escolha do filme, convite ao diretor, e preparação dos materiais de divulgação, cartazetes em duplo ofício, para serem espalhados pela cidade, e programetes, distribuídos na entrada. A respeito, lembro um curioso episódio.
Uns e outros, cartazes e programas, impressos a tinta em um mimeógrafo elétrico na sala do diretor. Um dia volta o encarregado do dia meio atônito:
– O diretor proibiu a impressão!
– Quem? - disse eu - O Rubens?
Fui até lá, na sala dele, diante o inesperado da cena. Mal entrei, vira-se o Rubens para mim:
– Retalho de jornal pregado com fita durex, e você quer que eu imprima, isso lá é arte final?
Curvei-me ao mestre, mas pedi que ele fosse lá explicar à turma qual o busílis.
Lá foi ele, iniciado em 57 no Liceu de Artes e Ofícios, que é, para mim, a única forma possível do ensino de artes – a artesania. Lá foi ele, operário gráfico da Manchete. Lá foi ele, com o pai, a fazê-lo recortar as letras como depois no chumbo. Lá foi ele, afável e rigoroso, pintor e gráfico, a exaltar e a ensinar a mestria das formas no papel.
Desfeito o susto, ele mesmo recompôs o original com um ou dois toques, foi lá, imprimiu, e voltou a mostrar à turma boquiaberta com o talento e a gentileza do diretor. É curioso como o Rubens podia e era profissionalmente duro, e era pessoalmente carinhoso.
Fui parceiro seu também ao escrever "Rostos na Multidão", para o seu livro na Funarte, junto ao seu parceiromaior, o nosso amigo, o poeta Armando Freitas Filho, ilustrado por ele. No meu texto, lembrava-me, vizinho que fui em Copacabana, de ver sua exposição na Galeria Relevo, do Jean Boghici, um mago do mercado de arte, em 64, acho. Conheci primeiro a obra que o autor.
Dele, do Rubens, ganhei um cartaz, como os do Cineave, em vermelho sobre o papel, para o meu filme "Universidade Fluminense", em 76: também um filme-aula. E dele ganhei o convite de escrever para o seu cartaz memorável, "Os Desaparecidos", quando consegui fazer jus à encomenda com um longo poema, impresso no verso, e declamado por mim em vídeo gravado no Centro Unificado Profissional, e por ele levado ao Moma de Nova Iorque.
Passearmos entre as cidades, os lugares, as galerias, as escolas, os museus, a cinemateca, os amigos, os artistas, os colegas, os bares, encontros não previamente agendados, e permanentes enquanto durou a nossa escola.
Faltou completar: as sessões modestamente cobradas visavam a um pequeno caixa para financiar pequenos filmes. Em super 8, foram três. Um colhido na imprensa, um pintor, César Francisco, popular, do morro. Um colhido na biblioteca, um pintor, Ismael Nery, erudito, do asfalto. Um, social, colhido na Maré, do alagado.
Ainda fruto daquele tempo, um em 16 mm, o famoso Rocinha 77, esfuziantes planos correndo nas vielas da favela. E um em 35mm, o Morto no Exílio, a tragédia de Frei Tito, recriada ficcionalmente com Nelson Xavier, ao invés de mim, como queria o seu autor, que entrei em crise no primeiro dia de filmagem, imagina, até posso entrar no personagem, o diabo era sair dele, sabendo eu e abalando-me inevitavelmente por dentro com o seu significado.
Ainda posso incluir o meu "Primeiros Cantos", de 77, como demonstração para todas as escolas que vesti, de como era possível fazer um filme naquela época e daquele jeito: quase sem nada. Lições dadas, lições findas.
Posso contar o final de nossa experiência conjunta de ensino das artes. Estávamos já no quarto ano. Tínhamos passado pela tragédia do incêndio no MAM, quando todos nos mobilizamos, em especial o Rubens, foi lá que sumiu praticamente toda a obra de Torres Garcia, o grande pintor uruguaio, que entre outras coisas promoveu a inversão do mapa da América, nosso norte é o sul, recuperada não por acaso em nossos dias pela Telesur.
Um dia, ao chegar na Escola, estava o Rubens preocupado. Estavam a querer demiti-lo. Um dia ou outro antes, o Rubens tinha expulso, aos gritos, uma guarnição da Polícia Militar que tentava entrar na Escola, atrás de um estudante dado aos eflúvios da expansão da mente. Eu não estava na hora, mas posso imaginar o Rubens saindo de sua sala, de dedo em riste:
– Na minha escola não se vai prender ninguém.
Os guardas, claro, recuaram. Mas pousa na mesa do governador de estado uma denúncia imperiosa do comando da polícia militar. Mesmo constrangido, naqueles tempos, não havia alternativa. Não sei se pra consolo, ou estouvado que sou, palpitei:
– Rubens, tão importante como começar é saber quando sair.
Nem sei se ele ouviu, mas foi assim que saímos daqueles memoráveis momentos que abrigaram a grande efervescência artística e cultural em que foi o Parque Lage, como o Rubens queria, um centro de resistência do que pode politicamente a arte. Para ser política, para ser resistência, primeiro tem que ser arte, tem que estar disposta à livre experiência dos sentidos, magistralmente materializada em formas, objetos ou pensamentos.
Algumas vezes depois o Rubens sempre quis compor um livro que reunisse o que houve lá, uma grande tarefa. Tenho a impressão, e o faço por isso, que em alguma parte da minha parte, é o que acabei de fazer, em resumo, um relatório do tanto que gostei de fazermos juntos nessa parte de nossas vidas.
Reencontramo-nos algumas vezes dos 70 pra cá. Deu-me o seu livro "Gerchman", de 94, com a dedicatória: "Para Sergio Santeiro amigo e companheiro de sempre o carinho de R. Gerchman". Acredito.
A ele, como sou folgado, dei um pequeno quadro, de minha lavra, o palacete ao fundo, ele à frente, e um gramado. Ele com o palacete da Escola atrás e com um brutal erro de perspectiva do gramado, o que lhe arrancou um generoso e complacente sorriso.
Somos artistas, fomos parceiros, e guardo sua lembrança, perto ou longe, com as alegres saudades de que falava.
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