| Palavra dos editores
Omar L. de Barros Filho e Sylvia Bojunga
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Jornalistas e editores
Na era da informação virtual e veloz, este
livro é uma provocação, quase um ato
de rebeldia. A razão disso está em seu próprio
cerne: múltiplas e, muitas vezes, contraditórias
abordagens sobre personagens e fatos que não estariam
tão presentes nos dias de hoje não fosse o intenso
trabalho dos historiadores e pesquisadores. Os vultos aos
quais nos referimos na presente obra são os relacionados
com a Revolução Farroupilha, que ajudaram a
moldar a face política do Rio Grande do Sul e do Brasil,
além de sua relação com os países
do Cone Sul do continente. Os atores desses episódios
da história do século XIX, aqui examinados sob
distintas angulações, entre eles os lendários
Bento Gonçalves, Giuseppe Garibaldi e Anita, praticamente
se incorporaram às lendas da construção
política, social e cultural da região, os dois
últimos também na mitologia das lutas pela unificação
do Estado italiano moderno.
Há 30 anos, o instigante pensador Paul Virilio sacudiu
o cenário intelectual francês com sua denúncia
contra a tirania do tempo real e da velocidade, letais armas
de guerra e poder, que hoje atingem o grau absoluto e elevam
o conhecimento a uma dimensão infinita, quando sabemos
tudo até sobre o que não aconteceu em nosso
espaço real. Quando entramos nessa hiperdimensão,
corremos o risco de perder a noção de quem somos
e, principalmente, de quem fomos, e a memória pode
deixar de ser um atributo humano necessário para a
preservação de nossa identidade individual e
coletiva.
O alerta de Virilio contribui para enfatizar ainda mais o
caráter desta obra conjunta, carregada de sentido de
humanidade, na medida em que o livro transporta o leitor para
um outro universo histórico e mítico, quando
os protagonistas regionais dos dramas nele analisados estavam
longe de se transformar, para muitos, em heróis e arquétipos
das gerações futuras. Era um tempo de “velocidades
relativas”, em que “o gaúcho andrajoso
sobre um pingo bem aparado”, como o descrito
por Euclides da Cunha, em “Os Sertões”,
fustigava a cavalo as tropas imperiais, transportava barcos
à vela sobre carretas puxadas por bois, e o legalista
reaproveitava, em seu próprio canhão, os projéteis
lançados pelo inimigo sobre as trincheiras, no cerco
de Porto Alegre.
Naquele tempo, quando as fronteiras do sul do Brasil estavam
por se definir, gastavam-se meses em uma boa conspiração,
como as que faziam por carta os dissidentes da Jovem Itália,
até que mensagens cruzassem o oceano e respostas retornassem
para alimentar a difícil e aguda argumentação
política sobre realidades e países tão
distantes, muitos em pleno processo de conformação.
O salto “para trás”, de olho na História,
ocorre justo no ano de 2007, em que a Itália, os italianos
e seus descendentes no exterior, dispersos em milhares de
comunidades em todos os continentes, assinalam a passagem
do bicentenário do nascimento do herói dos dois
mundos, o General da Unificação, Giuseppe Garibaldi.
Não foi uma coincidência. Este livro começou
a se delinear em 2005, quando, juntamente com o Memorial do
Ministério Público do Rio Grande do Sul, iniciamos
os preparativos para a realização de um grande
seminário internacional, que ocorreu de 14 a 16 de
setembro daquele ano, no teatro Dante Barone, na Assembléia
Legislativa gaúcha.
Na ocasião em que comemorávamos os 170 anos
da Revolução Farroupilha, os 170 anos do parlamento
estadual e os 130 anos da imigração italiana
no Rio Grande do Sul, compareceram ao evento, como convidados
internacionais, três relevantes conferencistas: Annita
Garibaldi Jallet, bisneta de Giuseppe e Anita, professora,
constitucionalista e pesquisadora italiana; Spencer Leitman,
historiador norte-americano e referência por seus estudos
sobre aquela etapa da vida rio-grandense, em que o fim da
escravidão era uma promessa a cumprir; e o diretor
do Museu Histórico Nacional do Uruguai, o historiador
Enrique Mena Segarra, um devotado estudioso das raízes
históricas de seu país e de suas relações
com as nações vizinhas. Agora, esta edição
reproduz, em língua portuguesa, os conteúdos
integrais das três conferências, que conferem
à obra a generosa particularidade do “olhar estrangeiro”,
mas profundamente identificado e próximo ao horizonte
local.
Na oportunidade, participaram das mesas expositoras 12 historiadores
e especialistas brasileiros que, tendo como ponto de partida
os significados regional, nacional e internacional da Revolução
Farroupilha, e suas utopias, mitos, realidades e ordenamento
jurídico, retrataram a diversidade das relações
sociais geradas pelo movimento irredentista que abalou o Império
brasileiro. Foram também focalizados, no encontro,
a presença e o destino dos primeiros imigrantes italianos
que desembarcaram no Rio Grande do Sul, em 1875, vindos, em
sua maioria, do porto de Gênova, a mesma cidade liguriana
de onde partira Giuseppe Garibaldi rumo à aventura
no Brasil, cerca de quatro décadas antes.
Em conclusão, registramos a importância fundamental
da parceria estabelecida com o Banco do Estado do Rio Grande
do Sul e a Souza Cruz, patrocinadores deste projeto cultural,
e do Ministério da Cultura, que tornaram possível
a edição deste livro. Destacamos, também,
a marcante contribuição e dedicação
dos autores e parceiros institucionais, que nos apoiaram irrestritamente.
Da mesma forma, agradecemos às centenas de participantes
inscritos no Seminário Internacional 170 Anos da Revolução
Farroupilha – o legado de Bento Gonçalves, Garibaldi
e Anita, que foram a garantia última do êxito
de nossa iniciativa.
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