| Os protagonistas italianos
da Revolução Farroupilha
Annita Garibaldi Jallet
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Advogada constitucionalista, cientista política,
bisneta de Giuseppe e Anita Garibaldi
Premissa
Uma referência sentimental
Desejo, inicialmente, referir-me ao que foi escrito
por minha tia, Annita Italia, filha de Ricciotti Garibaldi,
irmã de meu pai Sante, que, em 1932, publicou um livro
intitulado “Garibaldi in América”. Este
livro foi duramente criticado pelo finado professor Salvatore
Candido, e o motivo dessa avaliação é
que a obra teria pouco ou nada de científico. Nasceu
de uma longa viagem que Annita Italia fez ao Brasil e ao Uruguai,
percorrendo os caminhos de seus avós, Giuseppe Garibaldi
e Ana Maria Ribeiro. A autora nasceu em 1878, na Austrália.
Quando começou a viagem pela América Latina,
em 1929, já tinha 50 anos. Ela escreveu: “Foi
para mim uma viagem de recolhimento e de paixão; uma
peregrinação, quase uma consagração.”1
O seu guia, seu “Baedecker”, foram as “Memórias”
de Garibaldi, recordações do seu avô.
Quando retorna à pátria, em 1932, publica seu
livro em português e em espanhol, antes mesmo que em
italiano.
Fazendo uma ligação entre minha conferência
e as demais que integram este simpósio, quero dizer
que me expresso perante os respeitáveis historiadores
e estudiosos brasileiros com o sentimento de não poder
adicionar ao seu conhecimento mais do que um testemunho daquilo
que li na historiografia italiana, mas, sobretudo, do que
aprendi por ocasião de três viagens ao Brasil,
terra que hoje já faz parte da minha própria
identidade.
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1 GARIBALDI, Annita Italia. Garibaldi in America. Roma:
A. I. Garibaldi, 1932. p.12.
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Experiências complementares entre Brasil
e Itália na primeira metade de 1800
Acredito que seja útil lembrar, também, que,
ao nos referirmos ao Rio Grande do Sul e ao Brasil, assim
como à Itália, na primeira metade de 1800, estamos
tratando de duas situações políticas
muito instáveis, e, por isso, comparáveis em
certo sentido. O Rio Grande, no sul do Brasil, era terra de
fronteira ainda não totalmente explorada, carente de
uma cartografia completa, muito pouco povoada por grupos que
dificilmente se fundiriam em uma mesma nacionalidade. Somente
a partir de 1801 seria incorporado definitivamente ao Brasil,
mais por acordos internacionais do que por escolha. Além
disso, o próprio Brasil aspirava sua independência.
A idéia de povoar o Brasil com colonos europeus tem
origens antigas, e foi levada em consideração
justamente pelo Governo, no Rio de Janeiro, para aumentar
a escassa população, até então
predominantemente portuguesa. Uma legislação
foi criada especialmente, e emissários do Governo foram
mandados para a Europa. Outras leis foram adotadas em 1824,
tornando a imigração mais orgânica, e
atraindo, principalmente, levas de alemães. Os italianos
eram poucos até 1875, mesmo que alguns chegassem como
austríacos, antes da unificação da Itália.
De qualquer maneira, poderiam ser contados nos dedos de uma
mão.
Na primeira metade do século XIX, e também depois,
não é a grande presença de conterrâneos
que atrai uma elite italiana ao Brasil, mas fatos políticos
peculiares à Europa (basta lembrar as datas de 1814,
1821 e 1831), que obrigam algumas pessoas importantes, em
geral de origem nobre, a ir para o exílio. Quase todos,
porém, têm um passado político e levam
com eles idéias modernas e de liberdade. Eles encontram
uma boa acolhida na elite liberal dos grandes proprietários,
em luta para obter do Governo do Rio de Janeiro uma gestão
de província mais autônoma, e uma reavaliação
dos impostos exorbitantes.
Não se deve, por outro lado, omitir que os imigrados
ou exilados italianos encontraram, no Rio de Janeiro, ambientes
liberais autóctones, ligados à cultura européia,
cosmopolitas, que não esqueceram do grande sonho de
Bolívar e não eram indiferentes aos fatos da
América do Norte. Havia também uma refinada
cultura, vinculada à procura de uma identidade brasileira,
que ligava fortemente o romantismo literário e artístico
europeu àquele que, com a colaboração
também de artistas vindos da Europa, florescia no Brasil,
jogando sobre os revoltados do Rio Grande do Sul uma luz romântica,
perfeitamente exportável para a Itália2.
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2 Acontece neste momento, em Paris, uma mostra no Museu
della Vita Romantica, hospedado na casa que foi de Madame
de Staehl, voltada a um Brasil romântico, apresentando
telas de Alessandro Cicarelli (1811-1879), junto com telas
brasileiras e francesas (Nicolas Antoine Tonnay e Jean Baptiste
Debret), que fazem parte do acervo da Fundação
Estudar, de São Paulo. A mesma imagem romântica
deduz-se dos filmes que o Brasil propõe na Europa,
inspirados na “Casa das Sete Mulheres”, onde os
personagens da Revolução Farroupilha, e do século
XIX no Brasil, aparecem sempre em uma versão romântica
que coincidia com o ânimo da Europa dos tempos de Mazzini
e Garibaldi.
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A Itália: uma série de estados, um reino ao
norte, uma aspiração, mas nada em perspectiva
para as idéias liberais e unitárias. Entretanto,
ali também havia uma burguesia emergente, iluminada,
cosmopolita, sacudida de modo irreversível pela Revolução
Francesa e pela grande aventura napoleônica, cujas conseqüências
amadureceram antes, depois da Restauração, na
Espanha, que dá à América a sua primeira,
mas pequena, fornada de exilados europeus.
Os tempos da Revolução Farroupilha foram, na
Europa, anos de grande amadurecimento político, no
sentido liberal e republicano. E talvez isso explique porque
aqueles heróis que não morreram no Rio Grande
(essencialmente Garibaldi e Zambeccari) pudessem desenvolver,
na Itália, uma ação em continuidade com
seu empenho no Novo Mundo; principalmente, no caso de Garibaldi,
depois de tê-lo aperfeiçoado e ampliado com outras
experiências sul-americanas.
O Rio Grande do Sul antecipa, se é possível
fazer essa comparação, os problemas da Unificação
da Itália. Unido o Brasil, nem todos ficaram satisfeitos
com as condições dessa unificação.
Assim seria na Itália depois da Expedição
dos Mil, onde era mais difícil resolver o problema:
o sul da Itália não era, de fato, terra quase
completamente vazia, e alguém, no norte, chegou a lamentar-se
disso.
As experiências são semelhantes e complementares.
Quando se tornar uma República, em 1889, o Brasil antecederá
a Itália, e dará início a um novo mito
de Garibaldi. No mesmo momento, na Itália de Giolitti,
Garibaldi conheceria um eclipse que duraria até a II
Grande Guerra.
A presença italiana na Revolução
Farroupilha
Entre os grandes momentos dos caminhos comuns, italianos
e brasileiros, ocorre a revolução no Rio Grande
do Sul e em Santa Catarina, um evento que surpreendeu pela
pobreza dos meios, a coragem dos homens, a grandeza dos ideais.
Poucos nomes são lembrados do lado italiano: Zambeccari,
Garibaldi, Rossetti, Cuneo, Carniglia. Estes não são
árvores que escondem a floresta. Na verdade são,
tão somente, um punhado de italianos, a maioria expulsos,
e se não pobres, homens com poucos recursos ganhos
com o trabalho, capazes, porém, de mover montanhas.
Moveram-nas para contribuir às épicas guerras
de liberdade: a revolta espanhola, as jornadas francesas,
a agitação em Londres, a participação
na Revolução Farroupilha. Garibaldi, Cuneo e
alguns outros ainda participaram da independência da
República Oriental do Uruguai. Desde então,
com o cargo de general, e com uma experiência muito
particular, Garibaldi deu o lance decisivo para a Unificação
da Itália.
Na campanha pela Unificação da Itália,
Garibaldi foi o único a ter a experiência do
Rio Grande do Sul, e um dos poucos que vivenciou a do Uruguai.
Não devemos nunca esquecer disso ao explicar o mistério
do General Garibaldi e as fontes do seu mito.
Mais de 70 anos depois daquele relato de minha tia Annita
Italia, já com uma vasta historiografia sobre o tema,
posso ser mais precisa do que ela. Também é
verdade que há, em mim, um pouco de sentimento: a emoção
que senti visitando a estância de Camaquã, hóspede
dos descendentes de Bento Gonçalves, ou em frente às
antigas casas de Laguna e de seu porto, junto à árvore
à sombra da qual nasceu Menotti, o primeiro filho de
Garibaldi e de sua companheira brasileira, bem como entre
os representantes do povo dessas terras nunca ingratas e nunca
esquecidas.
Nada vale mais para mim que o orgulho por meus ascendentes
e conterrâneos, que deixaram aqui uma marca do gênio
do meu povo, tão apto, por mil razões, a unir-se
ao gênio do povo do Brasil.3
O italiano que não estava presente: Giuseppe
Mazzini
O ensinamento de Mazzini
Falar dos protagonistas da Revolução
Farroupilha implica citar alguém que não estava
presente, mas que é um dos principais atores, senão
o principal do lado italiano: Giuseppe Mazzini.
O professor Salvatore Candido, cuja obra teria que ser integralmente
citada pelo conhecimento que devemos a ele sobre as façanhas
sul-americanas de Garibaldi e de seus companheiros, expõe,
em detalhes, o papel de Mazzini, então com trinta anos,
no caso farroupilha.4 Não se pode entender o papel
dos outros protagonistas italianos sem antes expor o trabalho
de penetração das idéias de Mazzini,
desenvolvido por Giovan Battista Cuneo e por Luigi Rossetti,
em nome da “Jovem Itália”.
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3 Para um bom conhecimento da parte italiana
dos fenômenos relativos à Revolução
Farroupilha, ver Alessandro Gallante Garrone L’emigrazione
politica italiana del Risorgimento. Resenha Histórica
do Ressurgimento. Istituto Poligrafico dello Stato Roma, abril-set.
1954, pp. 223-242. Ver também Il movimento migratorio
italiano dall’unità nazionale ai giorni nostri
aos cuidados Franca Assante, Instituto Italiano para a História
dos Movimentos Sociais e das Estruturas Sociais (Nápoles,
1978).
4 Em especial, citamos, de Salvatore Candido: L’azione
mazziniana in Brasile ed il giornale “ la Giovine Italia
“ di Rio de Janeiro (1836) attraverso documenti inediti
o poco noti. Boletim da Domus mazziniana, Piza, n°2, 1968;
Giuseppe Garibaldi, corsaro riograndese (1837-1838), Instituto
para a História do Ressurgimento, 1963; La rivoluzione
riograndese nel carteggio inedito di due giornalisti mazziniani:
Luigi Rossetti e G.B. Cuneo. (1837-1840), CNR Valmartino in
Firenze, 1973, e Giuseppe Garibaldi dall’avventura marinara
riograndese (1837) al comando della flotta in Uruguay. Em
Garibaldi , Generale della libertà, Roma: Ministério
da Defesa, 1984.
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Deve-se dizer, entretanto, que o terreno era fértil
porque, entre os exilados, em grande parte carbonários
ou maçons, as idéias de liberdade e freqüentemente
de República, já estavam difundidas. Elas precisavam,
porém, de um “corpus” teórico e
de uma organização política que, por
outro lado, estavam presentes no programa de Mazzini.
Escreve Candido:
“Provavelmente quando, no verão de 1831, em Marselha,
o jovem Mazzini difundia a sua ‘Instrução
geral para os irmanados da Jovem Itália’ e, um
pouco depois, o ‘Manifesto’, onde anunciava a
próxima publicação do periódico
‘A Jovem Itália’, não poderia imaginar
e prever que a associação e a revista seriam
logo difundidas no Novo Mundo e teriam exercitado a mais viva
influência, não somente sobre os emigrados italianos,
mas também, e especialmente, sobre os movimentos latino-americanos
de libertação nacional (…).”
De fato, os simpatizantes e os irmanados são mais
numerosos entre os exilados do que na Itália, e logo
as idéias se difundiriam também através
da imprensa de outras línguas, como a espanhola e a
portuguesa.
Mazzini não imaginava que dali a pouco seria publicado,
no Rio de Janeiro, um quinzenário de rebeldes rio-grandenses
em luta contra o Império do Brasil, “O Povo”,
dirigido por seus maiores seguidores, Cuneo e Rossetti. E
as publicações no Brasil não foram as
únicas: também em Montevidéu, em Buenos
Aires, na América do Norte, e onde quer que propagassem
de modo ativo o pensamento de Mazzini.5
Os ecos mais numerosos encontravam-se em apreensivas mensagens
– providenciais para os estudiosos – que os cônsules
do Reino de Piemonte-Sardenha mandavam à Corte de Turim.
De fato, de 1835 a 1839, a polícia sarda seguia com
vivo interesse a penetração das idéias
liberais na costa atlântica da América Latina.
Escreve Candido, ainda:
“Exercita (a polícia sarda) uma vigilância
ativa nos portos para impedir que do Brasil chegassem escritos
incendiários editados naqueles países longínquos,
e também na Europa, e fossem enviados para a América
para que mais facilmente pudessem ser introduzidos no território
italiano (…).”
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5 Ver ainda MASTELLONE, Salvo. Mazzini e la Giovine Italia
1831-34. Piza: Domus mazziniana, 1960. 2 vol.
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Em 14 de abril de 1836, um sinal neste sentido chegou a Turim,
ao Conde Solaro della Margharita, Secretário de Estado
para os Negócios Exteriores. Fala-se do “Programa
de um jornal eminentemente revolucionário que os sectários
pretendem publicar em língua italiana na capital do
Brasil, de onde se propõem a enviar, depois, os exemplares
para a Itália.” Pede-se, então, a maior
vigilância para impedir a entrada na de tais escritos
no país.
Através destes despachos diplomáticos, somos
capazes de seguir, desde 7 de junho de 1834, sempre graças
à documentação obtida pelo professor
Candido, a vida e os acontecimentos de uma coletividade formada
principalmente por lígures, animada, na sua maior parte,
pelos ideais republicanos e hostis ao governo sardo. Uma verdadeira
rede que se espalha pelo mundo inteiro, mesmo que constituída
por poucas pessoas em cada lugar.
O alarme cresce quando a atenção dos jornais
mazzinianos volta-se não somente para a Itália
(organizaram-se até depósitos nos portos brasileiros
para mandar os jornais para a Europa) mas alcança também
os países onde esses são impressos. E não
é de se admirar do alerta quando a folha “A Jovem
Itália”, de 26 de março de 1836, assim
se manifesta:
“A nós italianos... nos é incumbido de
pregar as nossas doutrinas a todos os homens e especialmente
aos nossos conterrâneos em qualquer parte do mundo onde
nos encontramos, onde se unam (sic) a nós no grande
pensamento de nossa irmandade… a juventude italiana
correrá em massa para derrubar os tronos, para rechaçar
o estrangeiro opressor e nós, mesmo de longe, correremos
para participar dos perigos dos nossos irmãos.”
A ação se amplifica, essas máximas tornam-se
expressão e aviso para uma série de insurreições
contra as monarquias imperiais (Brasil) ou as ditaduras (Argentina).
Corre a idéia de que querem libertar os escravos, coisa
que Garibaldi fará logo, assim que tiver a ocasião,
em nome de idéias universais que não se esgotam
com um simples gesto de piedade humana.
As idéias republicanas e de Mazzini formam o pano de
fundo do jornal “O Povo”, que prepara amplamente
o terreno para a participação de Garibaldi,
mas também do próprio Rossetti, nas insurreições
que acontecem por toda a costa do sul do Brasil. Se Zambeccari
chegou em 1826 no Brasil, Rossetti, em 1827, Garibaldi, de
fato, desembarcou no Rio de Janeiro em janeiro de 1836. A
sua presença contribuiu para inflamar os ânimos:
ele foi anunciado como aquele que veio para praticar as idéias
de Mazzini, encarregado pelo próprio mestre para este
fim.6
Enquanto Garibaldi começava a voar com as próprias
asas no sul do Brasil, mais inclinado à ação
do que ao pensamento, Mazzini via, na Europa, a sua parábola
em queda. A atividade mazziniana havia estimulado jovens que
deveriam se tornar, em breve, figuras de primeiro plano da
política italiana. Porém, na Itália,
a falência das conspirações de 1833-1834,
geraria, assim, novos exilados políticos, entre os
quais Garibaldi, e causaria uma crise profunda de todos os
movimentos patrióticos. Por alguns anos a Jovem Itália
(e suas seções projetadas como o “Jovem
Rio Grande”) derrotada e desagregada, cessa praticamente
de existir como força organizada na Itália e
no exterior.
Giorgio Candeloro, na sua “Storia dell´Italia”
moderna, escreve que, naquele momento, houve a dispersão
da maior parte dos exilados que haviam se unido em torno de
Mazzini. Restaram os poucos que participaram da guerrilha
farroupilha. Assim aparece toda a importância da participação
de Giuseppe Garibaldi: se não tivesse a oportunidade
de começar a combater e de descobrir sua verdadeira
vocação, Garibaldi talvez se integrasse de um
modo totalmente diferente à sociedade sul-americana.
E seria pior ainda se tivesse retornado para a Itália,
como fizeram muitos na primeira anistia, ou permanecido na
Europa, talvez escondido na França como tantos perseguidos
e depois anistiados. Teria vivido em uma Itália, então,
cheia de intrigas políticas, de facções,
de conspirações carbonárias e, sobretudo,
nos tormentos de uma evolução liberal moderada
do reino, onde não teria encontrado o próprio
papel. Na Itália não havia mais nada a fazer
naqueles anos. Mazzini, por sua vez, enrijeceu, não
quis entender o tamanho da evolução em processo
e ficou fora do jogo por muito tempo, fiel somente a ele mesmo
na tempestade de suas dúvidas.
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6 Permanece uma pergunta: Salvatore Candido escreve que
o partido farroupilha era formado por gente do campo, e por
uma elite de jovens idealistas educados por doutrinários
entusiastas, entre os quais o italiano Livio Zambeccari, partidário
das idéias de Mazzini. Como nasceram os contatos e
a confiança? Sobre Livio Zambeccari, ver Tra il Reno
e la Plata, la vita di Livio Zambeccari studioso e rivoluzionario,
organizado por GAVELLI, Mirtide, TAROZZI, Fiorenza e VECCHI,
Roberto. Bolonha: Boletim do Museu do Ressurgimento, 2001.
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No verão de 1839, Mazzini comunica aos exilados italianos
na Inglaterra, na Bélgica, na Suíça,
na América, de quem ele consegue obter o endereço,
que tem a intenção de reconstituir a Jovem Itália.
Poucos aderem, espalhados pelo mundo, mas, em 1840, comunica
que recomeçam suas atividades. Na continuação
de sua correspondência com Cuneo e Rossetti, talvez
estivesse iludido quanto à consistência do movimento
entre os emigrantes. Age, entretanto, em um terreno diferente
daquele revolucionário ou puramente patriótico:
dedica-se à organização dos operários,
pensando em um partido democrático. Com este tema,
entretanto, não consegue chamar a atenção
dos italianos espalhados pelo mundo, que sonham com a libertação
da pátria. No mundo dos emigrantes, por outro lado,
a situação também mudara.
Desapareceram os antigos protagonistas das rebeliões,
como Buonarotti, e muitos exilados retornaram do exterior
por ocasião das várias anistias. Outros tenderam
a adotar a tese moderada de uma lenta mas inevitável
evolução dos acontecimentos da Itália,
e, no meio tempo, integraram-se à sociedade que os
acolhia.
Muitos dos exilados (considerando um número pequeno)
haviam, porém, seguido a tradição do
voluntariado militar e, depois de 1833-1834, participaram
dos levantes endêmicos da América Latina, além
daqueles da Espanha e Portugal.
Somente Mazzini poderia reaver alguma influência sobre
eles, através de Cuneo, que tinha se instalado em Montevidéu.
Mas foi obrigado a aceitar o fato de que poucos ainda acreditavam
no método insurrecional e, sobretudo, que ninguém
mais via em Mazzini aquele que seria capaz de encontrar soluções
práticas para a situação italiana, assim
como por sua decidida oposição à mudança
proposta por Gioberti.
A passagem de uma ação militar
Para uma ação de tipo militar, porém,
havia espaço: quem retornava da América sabia
de Garibaldi. Zambeccari, em Bologna, que não tinha
deixado a atividade patriótica, alimentava o mito de
um general vencedor. Também depois do fim da revolução
no Rio Grande do Sul, a passagem de Garibaldi no Uruguai,
longe de fazê-lo perder sua reputação,
permitia que entrasse novamente em contato com ambientes que
se comunicavam ativamente com a Europa. Montevidéu
era um grande porto, e os exilados de todos os países
eram numerosos. Também os diplomatas, oficialmente
hostis, contribuíram, com seu alarmismo, a difundir
a sua fama na Europa. Portanto, mais que Mazzini, foram o
poder de Cuneo e a correspondência dos italianos que
prepararam o retorno à Itália de um Garibaldi
já decidido a levar a ação para o terreno
militar.
Liberalismo político e a patriótica luta anti-austríaca.
Aqueles que foram obrigados a ir para o exílio procuraram,
nos momentos de união, um modo para permanecer fiéis
aos seus ideais juvenis, e tentar algo em favor da pátria
sonhada. Mas não buscaram rebeliões e conspirações.
Aqueles que partem para combater ao lado de Garibaldi fazem
parte, no máximo, da chamada Congregação
do Rio de Janeiro. Deles, sabe-se pouco. São, parece,
na Revolução Farroupilha, uns cinqüenta
italianos (número confirmado por todos os autores,
embora saibamos pouco sobre seus nomes). Levar as idéias
para o terreno da luta armada representou um formidável
salto de qualidade. Tal fato seria por muito tempo ignorado
na Europa, mas serviria de ensinamento àquele que se
tornaria o artífice do “salto de qualidade”
na Itália.
Das duas partes do mar, o papel
dos carbonários e dos maçons
Papel também relevante na concretização
das idéias de Mazzini tiveram os carbonários
e os maçons, que encontraram no sul do Brasil um terreno
fértil. Espalhados e desorganizados, também
eles encontrariam na “Jovem Itália” um
novo motivo de agregação que os reforçaria.
Entre eles identificamos, sem dúvida, Livio Zambeccari,
conselheiro e secretário de Bento Gonçalves.
Zeffiro Ciuffoletti e Sergio Moravia explicam que há
elementos de distinção entre Maçonaria
e Carbonaria. A primeira foi laica e anti-clerical, enquanto
que a segunda foi invadida por um profundo sentimento religioso
que mutuou muitos de seus símbolos com rituais da liturgia
e da história cristã. Nas filas dos carbonários,
como se sabe, a presença dos religiosos foi bastante
elevada. A Maçonaria, além disso, pelo menos
em nível estatutário, não se ocupava
de política e respeitava as instituições
monárquicas vigentes. Já a Carbonaria nascia
como instrumento de ação política e lutava
pela instauração dos governos democráticos
e constitucionais. Evidente, desde o início, foi sua
aspiração em se transformar em uma estrutura
política limpa e aberta. Apenas a virada constitucional
de 1820 o permitiu; a Carbonaria abandonou a dimensão
secreta, tornou públicas as próprias seções
e começou uma intensa obra de proselitismo em plena
liberdade. Se a maçonaria atingia uma ideologia universal
e um cosmopolitismo humanitário genérico, que
tinha a sua total referência nas várias correntes
do pensamento iluminista, a Carbonaria, ao invés, estava
impregnada das novas teorias românticas e olhava para
o ressurgimento das nacionalidades como próprio horizonte
ideal.
A Maçonaria saiu logo de cena. A Carbonaria e as outras
sociedades secretas sobreviveram pelo menos até os
movimentos de 1831, para ceder, na Europa, ao movimento democrático,
mas continuaram a ser uma trama sólida na América
Latina.
Logo após as jornadas parisienses de julho de 1830,
a Itália tornou-se novamente uma terra de conspirações
patrióticas e revolucionárias, em forte ligação
com a França, terra de exilados políticos, e
também novo berço do liberalismo. Depois do
fracasso da conspiração carbonária promovida
pelos irmãos Bonaparte, em Roma, em dezembro de 1830,
as revoluções começaram a interessar,
em fevereiro de 1831, à Itália central. Em Módena,
na Romagna, primeiro; depois entusiasmou toda a Itália
central. Os austríacos restabeleceram a ordem e enforcaram
Ciro Menotti, em Módena.
Conclui o já citado Gilles Pecout: “A revolução
de 1831, seguida em janeiro do ano seguinte por novos combates
entre revolucionários e as tropas pontifícias,
ajudadas pelos austríacos, deixaram, efetivamente,
uma marca na mentalidade italiana e internacional. O seu fracasso
é invocado habitualmente como a prova do desastre de
uma geração inteira de revolucionários,
em primeiro lugar os conspiradores e os conjurados ligados
à Carbonaria.”8
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8 PECOUT, Gilles. Il lungo Risorgimento. Milão:
Mondatori, 1999.
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Os italianos, do Rio de Janeiro ao Rio Grande do
Sul
Tensão política no Rio de Janeiro
Enquanto a Europa parecia adormecida, mas na realidade afiava
as armas para uma grande explosão, a Revolução
de 1848, que a teria sacudido em nome daqueles ideais democráticos
e tardo-românticos que afligiam também o Brasil,
o Império, que tinha levado à independência
e suscitado instituições parlamentares, havia
imposto uma ordem centralizada. Os movimentos de revolta acentuaram-se
no início dos anos 1830, mais por causas internas do
que como reflexo da situação na Europa, provocando
a abdicação do Imperador e a nomeação
de um Conselho de Regência, em consideração
à pouca idade do novo Imperador, Pedro II.
Permanecia, de qualquer maneira, um clima de tensão.
Guerras de independência e conflitos internos haviam
causado graves danos à agricultura, principal recurso
da população. Por outro lado, porém,
havia o incremento do comércio com a Europa, antes
sufocado pelo regime de monopólio que as duas potências
ibéricas haviam imposto às colônias. Com
os comerciantes e banqueiros, sobretudo ingleses, escreve
o professor Scirocco, em sua biografia de Garibaldi,9 instalaram-se
os diplomatas dos Estados europeus nas novas capitais. A fragata
De Geneys, a mesma que deveria ter levado Garibaldi se não
tivesse escapado de suas obrigações militares,
havia trazido ao Brasil o Conde Egesippo Palma di Borgofranco,
novo representante do Reino de Sardenha, em relação
oficial com o Brasil a partir de 1820. Será a mesma
fragata, com as suas freqüentes viagens, que traria a
notícia da condenação à morte
do jovem Garibaldi, que não pede perdão, e a
levar, para Marselha, a primeira carta de Garibaldi endereçada
a Luigi Canessa, carta que testemunha o fato de Garibaldi
considerá-lo verdadeiramente aquele que lhe empossou
como representante da jovem Itália.
Emigrados e exilados estabeleceram-se, sobretudo, na bacia
do Rio da Prata, na Argentina, e no futuro Uruguai. Os navios
que chegavam, principalmente da Ligúria, levavam e
traziam jornais, mas também opúsculos como os
da Jovem Itália, além das notícias dos
levantes. A necessidade do Governo de Turim de comunicar aos
seus representantes diplomáticos os fatos e os nomes
dos exilados, informações que depois eram repassadas
aos governos locais, gerou, como vimos, a primeira fonte das
nossas informações em relação
ao assunto.
Podemos, então, sustentar que os primeiros italianos
a serem levados em consideração eram aqueles
que, embora formassem um círculo restrito de pessoas,
tornaram conhecida, na Europa, a situação dos
estados americanos: os diplomatas, os comerciantes importantes,
expoentes abastados da comunidade italiana capazes, por exemplo,
de oferecer uma sustentação social aos menos
afortunados, ou de criar economicamente um jornal, uma folha
em língua italiana, para propagar idéias. Entre
as perguntas que podem ser feitas está aquela sobre
os patrocinadores, e, no nosso caso, isso torna mais relevante
a ação do segmento mais rica de nossa comunidade
no Rio de Janeiro, menos conhecida do que aqueles que, depois,
a representaram com a espada na mão.
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9 SCIROCCO, Alfonso. Garibaldi - Battaglie, amori, ideali
d’un cittadino del mondo. Roma-Bari: Laterza, 2001.
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Relações com a Itália
Com que intensidade os fatos do Brasil poderiam ser conhecidos
na Europa? Ainda sobre este ponto nos ilumina o professor
Scirocco, que nos recorda que um navio levava em média
sessenta dias para completar a viagem do Mediterrâneo
ao Brasil, mais o tempo de entrega de uma carta ou de um pacote.
Pode-se calcular que uma troca de correspondência se
fazia, mais ou menos, no arco de seis meses, escreve Scirocco.
Isto nos faz ter uma noção mais precisa das
trocas epistolares entre Mazzini e Garibaldi, entre Cuneo
e Mazzini, e explica também, em parte, como se originou
a confusão que existia há tempo nas relações
entre Mazzini e Garibaldi, Cuneo e Garibaldi, Rossetti e Mazzini.
Adaptação de Garibaldi no Rio
Quando Garibaldi chegou ao Rio de Janeiro sabia-se dele tão
somente que tinha uma condenação à morte
à revelia, por ter participado de uma rebelião
mazziniana, e isso valia todos os passaportes junto à
comunidade republicana. Mas não se sabia que tinha
sido Luigi Canessa, de Marselha, a indicá-lo como representante
da Jovem Europa, que o encontro de Taganrog com Cuneo nunca
tinha acontecido, e muito menos o encontro com Mazzini em
Gênova. Nas suas “Memórias”, Garibaldi
é pouco preciso no que diz respeito ao fato, mas hoje
a reconstituição daquele período é
bem segura.10 O professor Romano Ugolini dá uma explicação
para a distorção dos fatos: a necessidade tardia
de consagrar o mito de um jovem herói que teria sido
envolvido e iniciado nas teorias de Mazzini, já em
1833, e que seria o mensageiro capaz de se impor perante aqueles
que já exerciam um papel na comunidade dos exilados.
De fato, chegando ao Rio de Janeiro, Garibaldi não
encontra um terreno virgem.
O professor Scirocco sustenta que “o bandido condenado
pelo motim de Gênova, já personagem, homem-imagem
dos revolucionários, pela renúncia de procurar
o perdão das autoridades, poderia encontrar refúgio
seguro mais perto da sua pátria, por exemplo em Constantinopla,
onde viveu por longo tempo. Move-se em direção
à América por uma escolha precisa, não
como um exilado desiludido, mas como um patriota ardente que
quer continuar a contribuir com sua obra para o triunfo dos
ideais nacionais.”11 Os julgamentos de Ugolini e Scirocco
não coincidem, porque Scirocco cede alguma coisa ao
mito de Garibaldi, enquanto que Ugolini considera muito mais
casuais os acontecimentos de Marselha e sua partida, devida
também a uma epidemia de cólera em Marselha
e arredores. Mas o importante é que, naquele momento,
Garibaldi descobre sua vocação e também
seu talento: individualizou nas idéias de Mazzini um
alicerce, e, entre os mazzinianos, um ambiente que o acolhe,
o leva, o reconhece.
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10 Em mérito pode-se fazer uma comparação
das obras recentes de UGOLINI, Romano. Garibaldi, genesi di
un mito. Roma: Ateneo, 1982, e de SCIROCCO, Alfonso (op. cit.).
11 SCIROCCO, Alfonso. Op. cit. p. 32.
____________________________________________________________
A condenação à morte em Gênova
é a declaração de nascimento de Garibaldi.
O encontro com Luigi Rossetti, com Cuneo e depois com Zambeccari
é o início de seu protagonismo político
e militar, e é isso que nos interessa.12
Os companheiros, as ajudas
Luigi Rosseti (apelidado Olgiati) o recebe de braços
abertos e imediatamente nasce entre os dois uma centelha que
o próprio Garibaldi descreve, de modo eficaz, nas suas
“Memórias”.
“Os nossos olhos se encontraram e não parecia
ser a primeira vez, como era na realidade. Sorrimos reciprocamente
e fomos irmãos pela vida e pela vida inseparáveis.”13
No ano de 2000, Tabajara Ruas publicou nos jornais o seu belo
“Garibaldi e Rossetti”14 e contribuiu de modo
excelente ao conhecimento dessa nobre figura. Será
dada, depois, constante referência à obra de
Yvonne Capuano sobre esse ponto e muitos outros.15
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12 Entre o mito e realidade, também GREVY, Jerome.
Garibaldi. Paris: Presses de la Fondation Nationale des Sciences
Politiques, 2001.
13 GARIBALDI, Giuseppe. Memorie autobiografiche. Florença:
Barbera, 1888, p.15.
14 RUAS, Tabajara. Garibaldi e Rossetti. Organizado pela Associazione
Culturale Italiana del Rio Grande do Sul, 2000.
15 CAPUANO, Yvonne. De sonhos e utopias. Anita e Giuseppe
Garibaldi. São Paulo: Melhoramentos, 1999, e Garibaldi
o leão a liberdade. São Paulo: Totalidade, 2000.
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Existem outras personalidades fortes neste lugar, entre elas
Giuseppe Stefano Grondona. A relação entre os
dois nunca foi fácil. Também Garibaldi recorda
dele nas “Memórias”. Grondona é
qualificado por Garibaldi como “gênio quase infernal”.
Esse lígure, antigo jacobino, foi companheiro de luta
de Giacomo Mazzini, chegou ao Rio de Janeiro por volta de
1815, foi expulso em 1823, por suas idéias, e readmitido
em 1834 pelo regime liberal de Pedro II. Mesmo sendo mais
ligado à idéia da revolução universal
do que à da italiana, entra em contato com Mazzini
e obtém as publicações da Jovem Itália
que traduz, criando com meios próprios uma Sociedade
Filantrópica italiana. Em um primeiro momento, Garibaldi
o ajuda, entra em uma loja local da Maçonaria para
inserir-se no ambiente (Grondona é maçom), a
famosa “Asilo de la Vertud”. Mas Garibaldi considera-se
envolvido diretamente por Mazzini, porque o é por Canessa,
e cria-se imediatamente uma dificuldade com Grondona. Em breve,
Garibaldi deve se impor sobre Grondona, e não o perdoará
nunca. Será por isso que Grondona não conseguiu
nunca retornar à pátria?
Retornam, ao invés, em 1839, outras personagens presentes
na congregação do Rio de Janeiro, e são
os seus relatos feitos à polícia que nos iluminam
sobre muitos fatos, entre testemunhos forçados e delações.
Vincenzo Raimondi, Gian Battista Folco, sobretudo Cesare Corridi,
que tinha como apelido Pietro Carnesecchi, e poderia ser o
mesmo de Michele Lando. Ele emprestará o apelido de
Carnesecchi para Grondona, já indiciado pela polícia,
quando retornar à Itália. Qual dos dois se esconderá
na verdade sob o nome de Carnesecchi? Os pareceres não
concordam.
Uma consideração sobre a questão da idade
dos participantes da Jovem Itália. Estamos acostumados
a ver nossos heróis como muito velhos. Mas, consideremos
a idade deles em 1835: Mazzini tem 30 anos e Garibaldi tem
28. Zambeccari, que já era um grande cientista, tem
33. Giovan Battista Cuneo (apelidado de Farinata degli Oberti)
nasceu em Oneglia, em 1809, tem 26 anos, mas tinha 24 quando
foi obrigado a ir para o exílio (será um dos
poucos a morrer na Itália, em seu leito, em Florença,
em 1875, depois de ter sido eleito deputado em 1849, embora
decidisse voltar a viver na América Latina). O genovês
Luigi Rossetti, diretor, junto com Cuneo, do jornal “O
Povo”, morre combatendo próximo a Viamão,
em 24 de novembro de 1840, com pouco mais de trinta anos.
Quase um time de rapazes, diríamos hoje, de jovens
irriquietos, somente aptos para uma revolução
de farrapos… Rossetti chegou ao Rio de Janeiro em 1827;
Cuneo em 1835, com Pietro Gaggini, relojoeiro, também
condenado pelos fatos de Gênova, em 1833, e moravam
juntos. Ambos têm um bom grau de cultura: Rossetti estudou
Direito, Cuneo tem talento de jornalista e de escritor. Para
ajudar Garibaldi a se impor, e especialmente a superar sua
inferioridade cultural que poderia dar uma vantagem a Grondona,
que organiza contra ele uma verdadeira sabotagem, Cuneo cria,
em março de 1836, um jornal que intitula “A Jovem
Itália”. Seu objetivo é preparar atividades
subversivas na Itália.
Os meses de preparativos para a ação
A revolução já iniciara quando Garibaldi
chega ao Rio de Janeiro. Tendo deixado Marselha, em 8 de setembro
de 1835, chega à capital brasileira no final do ano.
No início de 1836, volta ao mar, graças aos
fundos recolhidos por Giacomo Picasso, carbonário,
comerciante bem-sucedido que parece ter oferecido quase a
soma necessária para comprar a embarcação
de vinte toneladas, batizada “Mazzini”. Os irmãos
Francesco e Luigi Zignano, grandes negociantes, também
o ajudam (o papel deles deve ser estudado), além de
Stefano, Giacomo, Paolo Antonini, de Montevidéu, e
Luigi Nascimbeni, que faz a intermediação entre
os Antonini e Rossetti, junto com Natalio Rusca.
Garibaldi começa a comerciar junto com Rossetti. As
idéias circulam. O genovês Domenico Terrizzano
batiza sua embarcação de Giovine Europa, e o
veronês, engenheiro formado na Suíça,
Luigi Dalecase (ou Delle Case) nomeia sua embarcação
de La Giovane Italia. Durante a sua estada no Rio
de Janeiro, sabemos que Garibaldi morava com Dalecasi, na
rua Fresca nº 7. Este comprometera-se na tentativa mazziniana
de 1834, em Gênova, mas conseguiu fugir e, naquele mesmo
ano, se estabeleceu na Bahia, onde preparou um navio para
viagens de longo percurso, pouco tempo após transferir-se
para o Rio de Janeiro.
As atividades subversivas dos italianos no exílio não
estavam voltadas inicialmente para a vida política
local. Eram destinadas a alimentar a sua chama patriótica,
desta vez sob a forma do Socorro Mútuo que os mantinha
unidos. Quem escrevia, como Cuneo, o fazia pela Itália.
Seria toda a solidariedade voltada ao exilado Garibaldi destinada
somente a propiciar-lhe um trabalho? É de se duvidar.
Cuneo e Rossetti descobrem no jovem Garibaldi as qualidades
do homem de ação, e este é um momento
fundamental na vida de Garibaldi.
Passa-se à ação
Garibaldi navega como comerciante há mais de um ano
quando sua vida entra em uma outra dimensão. Enquanto
amadurecia o projeto de encontrar Cuneo em Montevidéu,
incapaz de se contentar com uma tranqüila atividade de
comerciante, fica sabendo da rebelião deflagrada no
sul do Brasil. Estamos nos primeiros meses de 1837, a Província
Rio-grandense está em revolução desde
1834, mas no segundo semestre de 1836, os Imperiais levam
a melhor e prendem, depois da derrota sofrida em Fanfa, o
Coronel Bento Gonçalves e o seu secretário,
o italiano Livio Zambeccari. Este, capturado na batalha de
Fanfa no início de outubro de 1836, escreve a Cuneo
para pedir algo para ler “que contenha palavras de Liberdade”.
Bento Gonçalves era um maçom muito ativo. Tinha
organizado diversas lojas pela fronteira e, em seu projeto
político, assim como no de Zambeccari, não havia
somente a revolução política mas também
uma forte aspiração à revolução
social, que Zambeccari sonhava igualmente para a Itália.
As idéias dos exilados se cruzavam com as do Partido
Republicano da Província do Rio Grande, muito influenciado
pelos oficiais do exército. Eram idéias libertadoras
e modernas, que foram bem recebidas pela elite liberal dos
grandes proprietários, entre os quais estavam Bento
Gonçalves e boa parte de seus oficiais.
Zambeccari faz parte da segunda geração de exilados,
daqueles caçados pelos fatos de 1821. Naquele momento
ele tinha apenas 19 anos. Chega à América do
Sul em 1826, depois de uma dura experiência na Espanha
e de estudos apaixonados na França e na Inglaterra
e retoma a atividade científica e política no
Rio Grande. Em Porto Alegre filia-se a uma loja maçônica.
Na realidade é um carbonário com idéias
mazzinianas. Contribui amplamente para formar o espírito
da revolta. O encontro decisivo acontece na prisão
de Santa Cruz onde Rossetti e Garibaldi entram sem grandes
dificuldades em fevereiro de 1837, depois de uma primeira
rápida visita só de Rossetti, mas onde vieram
à tona as idéias de Garibaldi, de iniciar a
guerra corsária pela costa brasileira.
Quando chega a “autorização para navegar”
das autoridades do Rio Grande,
Garibaldi sente-se envolvido em um papel legitimado, não
de corsário, mas de capitão de um navio de guerra.
O belo dessa situação é que Garibaldi
e Rossetti, com alguns outros italianos, partem do Rio de
Janeiro para conduzir a guerra deles, sempre como comerciantes,
mas quem pode ignorar quem são?
Garibaldi parte do Rio para a guerra corsária contra
o Brasil. Tem apenas 30 anos. Será a sua primeira experiência
de comandante, e aparição dos traços
de genialidade que distinguirão as suas façanhas.
Recebe o grau de capitão-tenente, deve coordenar e
armar duas embarcações que estavam sendo construídas
no Rio Camaquã. Cada uma das embarcações
recebe uma tripulação de 35 homens: uma é
comandada por Giuseppe Garibaldi, a outra por John Griggs,
um americano também seduzido pela causa farroupilha.
Os protagonistas menos conhecidos
De Garibaldi e Rossetti já sabemos. Mas tem também
Luigi Carniglia a quem Garibaldi estima muito, e que salvou
a sua vida mais tarde em um combate no Rio da Prata. Garibaldi
chegou a desejar para ele um monumento na sua cidade de Deiva,
perto de La Spezia, e Deiva de fato erguerá um monumento
que mostra Carniglia que sustenta Garibaldi ferido. Aqui Garibaldi
também usa tons épicos nas suas “Memórias”.
Escreve: “Eu quero falar de Luigi. E por que não
deveria falar? Por ser plebeu? Por ter nascido na multidão
daqueles que trabalham para todos? Por não pertencer
à classe alta, que geralmente não trabalha para
ninguém e consome por muitos? Grande era o seu espírito,
diz Garibaldi, “ao proteger-me, ao cuidar-me como uma
criança na desventura, quando era incapaz de me mover,
fraco, ao ponto de ser abandonado por todos! No delírio
da morte sentava-se ao meu lado Luigi, com a freqüência
e a paciência de anjo: então nos deixava um momento
para chorar.” E conclui: “ainda um mártir
da liberdade, um dos tantos italianos destinados a servir
em qualquer lugar, fora da sua infeliz terra natal.”16
Tem também Eduardo Mutru, que tem 24 anos em 1834,
nativo de Nizza Marittima, marinheiro de 3ª classe a
serviço Real. Garibaldi também é de Nizza
Marittima: Mutru, condenado a morte junto com ele, é
um companheiro de juventude.
Embarcam também o genovês Pasquale Lodola, encarregado
do serviço de popa, e dois marinheiros, Giovanni Lamberti
e Giacomo Fiorentini. Este último morre em 1837, na
ponta de Jesus Maria, onde Garibaldi ficou gravemente ferido.
“Um dos melhores companheiros italianos”, define
Garibaldi. Era de La Maddalena, na Sardenha, onde Garibaldi
teria decidido estabelecer mais tarde a sua morada. Da ilha
de Capraia tinha um outro marinheiro, Antonio Lima, ou Lama.
Gabarroni, ou melhor, Giovanni Gavazzane, o João Gavarron,
que deveria ser o piloto da Mazzini, não conseguiu
embarcar. Havia também Maurizio Garibaldi, que não
era parente do nosso bom marinheiro.
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16 GARIBALDI, Giuseppe. Memorie autobiografiche. Op. cit.
pp.29-30.
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Na Congregação, ou seja, na seção
da Jovem Itália no Rio, encontrava-se também
o nome de Gris (ou melhor, Giacomo Criss, apelido de Picasso).
E assim sabemos que, em 1838, encontravam-se ainda nas prisões
brasileiras como proprietário da embarcação
Mazzini, Tersani (ou talvez o próprio Domenico Torrisano,
encontrado por Garibaldi em casa Delacazi, este também
comerciante abastado) e Vincenzo Raimondi. Este último
faz parte da geração mais velha, tendo nascido
em Finale Marina, em 1788. Havia militado nas armadas napoleônicas
e depois de várias travessias transferiu-se para a
América Latina, em 1831. Volta à pátria
em 1838, já com 50 anos. Giovan Battista Folco resulta
também na “relação” dos filiados
da Congregação do Rio, mas é pessoa rica
e talvez seja informante do Reino. Tem também Carlo
Belgrano di Oneglia e Luigi Vacani, mestre de música,
colaborador no jornal.
Diz-se que uns cinqüenta italianos participaram da Revolução
Farroupilha, e talvez alguns dos filiados da Congregação
do Rio também, porém é difícil
sabê-lo.
Na Foz do Rio Araranguá, em 15 de julho, Garibaldi
naufraga. Nas “Memórias” diz que naquele
momento os italianos eram sete. Morreram Mutru, Carniglia,
Luigi Staderini, Navona, talvez o próprio Lorenzo N.
que Garibaldi recorda nas Memórias. Quem será
Giovanni D.?
No fim da vida, Garibaldi encontrou Francesco Anzani, próximo
de São Gabriel. Nascido em Alzate, na Brianza, em 11
de novembro de 1809, com 17 anos fugia para combater na Grécia.
Fez parte do movimento republicano de Paris, em 1832, e combateu
em Portugal e Espanha nas fileiras dos constitucionais.
Depois emigra e combate com as poucas forças republicanas
que permaneceram fiéis a ele, mas logo Anzani escreveu
que não tinha mais nada a fazer, e foi encontrá-lo
em Montevidéu. Deixando o Brasil pelo Uruguai, Garibaldi
os deixou sob o comando de Napoleone Castellani, de Montevidéu,
que queria armar um navio para ajudar Garibaldi, deslocou-se
até Alegrete para fazer um acordo com Bento Gonçalves,
mas não alcançou o seu propósito. Todavia,
foi naquela ocasião que se fortaleceu o vínculo
entre Garibaldi-Anzani-Castellani e, naturalmente, Cuneo,
que levou os resultados para o Uruguai, na fase seguinte da
vida de Garibaldi.
A percepção da Revolução
Farroupilha na Itália
Perguntamo-nos por quais caminhos a epopéia
sul-americana chega à Itália, e em que época.
Quando Garibaldi retornou à Itália, no início
de 1848, sua reputação ficou garantida graças
à divulgação entre os emigrantes e, nos
ambientes oficiais, pelas relações dos representantes
do Reino na corte de Turim. É provável, porém,
que tenha sido sobretudo a aventura uruguaia a chamar a atenção,
em virtude da importância dos cargos assumidos por Garibaldi,
e pela capacidade de organização demonstrada
por ele (graças também a Francesco Anzani).
De qualquer maneira, as publicações da Jovem
Itália, de “O Povo”, alguma coisa fizeram
pelo jovem chefe. Mas foi especialmente a biografia de Cuneo,
publicada em 1850, a dar uma visão geral da sua vida
até então. Garibaldi, quando recebe o texto
em março de 1850, escreve para o autor. “Li a
biografia e vislumbrei a previsão do amigo”17.
Esta biografia será fundamental não tanto pelos
efeitos imediatos, mas pelo fato que outros autores que escreverão
sobre Garibaldi na América do Sul possam inspirar-se.
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17 Epistolario di Giuseppe Garibaldi, Vol. 1 (1834-1848),
Instituto para a História do Ressurgimento, 1973.
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Citamos somente uma passagem de Cuneo: “Toda a vida
de Garibaldi é um contínuo e fecundo sacrifício
à liberdade e à pátria. Nas suas ações
como homem privado, assim como nas de homem público,
nos alegres encontros com os amigos como nas sérias
e graves assembléias teve sempre como argumento das
suas idéias e dos seus discursos: Pátria e Unificação.”
Os sublimes anseios da sua grande alma elevaram-se àquele
altíssimo conceito; não cuidou de mais nada,
por isso foi sempre visto combater e a causa americana defender
com o mesmo ardor com o qual combateu na Lombardia e em Roma.
“Acompanhou sempre o pensamento e contínua foi
a ação.”18
Em suas “Memórias”, cuja primeira edição
foi em 1872, o próprio Garibaldi evoca muitos episódios
e as recordações dos amigos mais queridos. Giuseppe
Guerzoni, em 1882, incluirá outros elementos que esclarecerão
a cronologia dos eventos.19 O interesse dos historiadores,
porém, concentrou-se sobre os fatos italianos e, talvez
por sua posição na Itália, era melhor
que Garibaldi deixasse de lado as suas passagens de corsário
e de aventureiro.
Todavia, podemos tecer algumas considerações
gerais sobre a presença dos italianos na Revolução
Farroupilha. Os italianos foram poucos e muitos deles morreram,
mas, com o tempo, o mito de Garibaldi se expandiria na América
do Sul, ajudado pela presença de uma brasileira a seu
lado, conferindo identidade à consistente emigração
italiana, que, sucessivamente, teve participação
no povoamento do Brasil.
Mesmo tendo sido uma guerra perdida, representou para Garibaldi
uma extraordinária lição de vida. Naqueles
cinco anos, Garibaldi tornou-se ele mesmo, e não perdeu
nunca mais as características que foram a sua força
em situações muito diversas. Quando se dedicou
à redação das suas “Memórias”,
Garibaldi não se esqueceu dos seus companheiros italianos
de aventura. Recordando a morte de Rossetti, exprime-se assim:
“Não existe um ângulo da terra onde não
apareçam os ossos de um italiano generoso! E a Itália
os esquece... aqueles que fizeram bonito o seu nome no novo
mundo! Em todas as regiões do mundo! Ela sentirá
a falta...”
____________________________________________________________
18 CUNEO, Giovanni Battista. Biografia di Giuseppe Garibaldi.
Livorno: Raffaello Giusti, 1932, pp.58-59.
19 GUERZONI, Giuseppe. Garibaldi. Florença: G. Barbera,
1882, 2 vol.
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Foi um caminho estranho aquele seguido pela fama de Garibaldi,
nascida na América Latina e caída rapidamente
no esquecimento, exceto para um círculo restrito de
imigrantes.20 Mas, dali partiu para a Itália, graças
à diplomacia de todos os países presentes no
Rio da Prata e arredores, aos jornais da imigração
e à obra de Cuneo, e, sobretudo, graças ao retorno
à pátria do próprio Garibaldi, bem como
aos fatos de 1848-49.
O herói regenera-se nos fatos italianos, da República
Romana à Expedição dos Mil, o mito não
se enfraquece com Aspromonte e Mentana, e, finalmente, se
reativa com a morte, que dá lugar a uma quantidade
inacreditável de celebrações e comemorações.
Depois baixa rapidamente na Itália um silêncio
que mal se abre para algumas manifestações oficiais,
cada vez mais raras.
É o advento da República brasileira que leva
a uma reconsideração do sentido e da importância
da Revolução Farroupilha. Deste momento em diante,
inicia a construção de Garibaldi como um mito
incomparável. O herói da Revolução
Farroupilha começa a fazer parte, junto com sua esposa,
da história e da identidade do Brasil, e é um
herói com dimensão mundial. O mito expande-se
lentamente na primeira parte do século XX, explode
com o cinquentenário da morte de Garibaldi, em 1932,
e serve de propaganda ao Fascismo, a tal ponto que Mussolini
manda levar para Roma, ao Gianicolo, as cinzas de Anita sepultada
em Nice por vontade do herói, ao lado de sua mãe.21
É preciso, porém, esperar os anos que sucedem
a Segunda Guerra mundial para que autores brasileiros e italianos
comecem a se interessar pela biografia do herói, até
a explosão do centenário da morte, em 1982,
onde o conhecimento de Garibaldi no Brasil deve muito, na
Itália, à obra de Salvatore Candido, por anos
diretor do Instituto de Cultura de Montevidéu22 Não
evoco aqui a excitação dos autores brasileiros
e a minuciosa redescoberta dos fatos da Revolução
Farroupilha e dos seus protagonistas, com desdobramentos romanescos
(Manuela, Anita), que fazem parte da comunicação
cultural, veículo para a constituição
de uma identidade nacional.
____________________________________________________________
20 CARNICCI, Andrea. Garibaldi nell’Associazionismo
dell’emigrazione italiana. in I Garibaldi dopo Garibaldi,
la tradizione famigliare e l’eredità politica.
Organizado por Zeffiro Ciuffolotti, Arturo Colombo, Annita
Garibaldi Jallet. Manduria: Piero Lacaita, 2005, pp 215-144.
21 GRIMALDI, Ugoberto Alfassio. L’utilizzazione del
mito garibaldino ad opera del fascismo. In Garibaldi, generale
della libertà. op. cit. 605-614.
22 Muitas outras obras deveriam ser citadas, entre as quais:
DELLA PERUTA, Franco. Garibaldi tra mito e politica in Conservatori,
liberali e democratici nel Risorgimento. Milano: Angeli, 1989;
BENINI, A e MASINI, P.C. (a cura di) Garibaldi cento anni
dopo. Atas do encontro de estudos garibaldinos. Bergamo, março
1982; Giuseppe Garibaldi e il suo mito. Ata do II Congresso
de História do Ressurgimento italiano (Gênova,
novembro de 1982), Roma, Istituto per la storia del Risorgimento;
Simpósio internacional do Instituto Latino-Americano,
Roma. Presenza di Garibaldi in America Latina Roma, 1983.
Atas datilografadas. Ver, em especial, GARDELIN, M., L’immagine
di Garibaldi nel Rio Grande do Sul. De mais fácil leitura
são: Ivan Boris Gli anni di Garibaldi in Sud America
1836-1848. Milão: Longanesi e C. , 1970, e LAMI, Luigi.
Garibaldi e Anita corsari Mondatori Milão, 1991.
____________________________________________________________
Garibaldi e Anita na história brasileira
Tal processo continuou no tempo e, a partir de 1870, no Rio
Grande do Sul, deveu-se à assimilação
do mito garibaldino em âmbito nacional, após
a aceitação da Revolução Farroupilha
como mito nacional. Surpreende-nos, contudo, que Garibaldi,
e quase somente ele, tenha ficado vivo no culto popular. Por
quê? Creio que seja também por uma questão
de imagem, pela qual Garibaldi sempre foi favorecido: graças
a Cuneo em Montevidéu, mas também ao pintor
Gallori, e, mais tarde, na Itália, a Alexandre Dumas
e a uma profusão de artistas. O Rio Grande do Sul foi
a terra dos gaúchos, nômades que se deslocavam
à procura de trabalhos temporários nas grandes
planícies, vingadores do mais rígido individualismo
e da lei do mais forte, capazes de gestos de coragem extremos,
mas pouco acostumados à vida em sociedade. Na transfiguração
literária da figura do gaúcho, criada pela Sociedade
do Parthenon Literário, por volta dos anos de 1870,
as características do herói romântico
prevaleceram, obscurecendo a conotação primitiva...
Sobre todos esses pontos me satisfaço de retomar a
análise de Núncia Santoro de Constantino, em
seu trabalho dedicado aos italianos em Porto Alegre, com importante
bibliografia.23
O mito do gaúcho começou, então, a fazer
parte integrante do mito da Guerra dos Farrapos, fortalecendo-a
com atributos românticos e fornecendo-lhe elementos
para a formação de uma moral coletiva, que,
por sua vez, deu lugar a uma abundante produção
literária, pelo menos até 1900...
Os elementos do mito garibaldino, que chegaram à América
Latina depois de 1860, foram reelaborados, fazendo de Garibaldi
um gaúcho entre os gaúchos. Na realidade, o
mito do herói foi reinterpretado usando motivos tradicionais
que se prestavam à individuação do herói
romântico: sua chegada no Rio de Janeiro e o encontro
com Rossetti, o episódio do transporte dos navios por
terra, o naufrágio do Farroupilha... (e outros fatos
entre os quais o primeiro amor por Manuela e o encontro com
Anita), o Garibaldi que bebe mate, o Garibaldi que canta romanças
italianas.
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23 CONSTANTINO, Núncia Santoro de. Italiani a Porto
Alegre: l’invenzione di una identità. Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Ed. Fondazione
Giovanni Agnelli Luglio, dezembro de 2002.
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O físico de Garibaldi compunha-se de elementos que
vinham da Europa, mas que eram formados na América
Latina, onde foram amplificados pela aura do mito. O poncho,
os olhos azuis (ou melhor, claros) a grande barba, são
somente alguns atributos de um vasto cliché: na mitologia
rio-grandense, Garibaldi foi homem do mar, corsário
ou capitão da Marinha da República, esquecendo
a sua contribuição nas batalhas de terra.
Mas não são somente as fontes literárias
a formar o imaginário da opinião pública
rio-grandense. Na história do Rio Grande do Sul, escrita
em 1901 por João Maia, e adotada nas escolas do Estado,
Garibaldi é definido como “intrépido”,
e a coragem nos combates é o atributo que antes, e
mais do que os outros, consegue fazê-lo ser aceito como
estrangeiro no difícil contexto rio-grandense.
No momento do seu desaparecimento, os órgão
de imprensa do Rio Grande do Sul, além de evidenciar
a grandeza, voltando ao tema da coragem indomável e
do amor pela liberdade, iluminado pelo desinteresse frente
a glória e a ambição pessoal, reivindicaram-no
como seu herói.
O entusiasmo pela figura de Garibaldi era genuíno em
1882, mas ficou ainda mais evidente em 1889, quando o Rio
Grande tornou-se parte de uma República, realizando,
assim, os ideais da Revolução Farroupilha. O
governo republicano fez uma homenagem a ele, dando o seu nome
a uma localidade. No centenário do seu nascimento as
comemorações seguiram-se por todo o Estado.
De fato, o mito contribuía para formar um aparato ideológico
da nova realidade republicana, em uma relação
positiva com a Itália, de onde provinham muitos filhos
do Rio Grande. Quando se aventuraram a denegrir a imagem de
Garibaldi, foram os próprios imigrantes a defender
o herói, e encontraram o apoio do povo rio-grandense.
É necessário dizer que os companheiros de Garibaldi
foram bem mais esquecidos, por essa simplificação
dos eventos históricos que os reconduzem a um herói,
somente por sua natureza. Cabe também reconhecer o
mérito de Garibaldi de ter ligado a sua figura, em
Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, à de uma brasileira,
Anita. Salienta-se até a existência de um Garibaldi
brasileiro, o primeiro filho de Garibaldi e Anita, nascido
em Mostardas, em 1840, em condições dignas da
epopéia.24
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24 Para Menotti, o Garibaldi brasileiro, destaca-se a
obra de Elma Sant’Anna, de Porto Alegre, divulgada em
várias publicações. Elma Sant’Anna
é também artífice da irmandade entre
Mostardas e Carano, a cidade onde viveu Menotti com sua família.
____________________________________________________________
pastores, os condutores das boiadas e dos cavalos da campanha
romana, com suas grandes capas e chapéus de abas largas.
O poeta vê neles os gaúchos no meio dos quais
nasceu, e que vieram a escoltá-lo para levá-lo
onde os horizontes são ainda mais amplos.
A própria figura de Bento Gonçalves é
relevante para aquela parte do mito de Garibaldi que se formou
no Brasil, porque ele foi o caminho entre a sua terra e a
elite dos italianos: Garibaldi, mas, antes dele, Zambeccari,
que levava a Cuneo e a Rossetti. A escolha de Zambeccari como
secretário, por parte de Bento Gonçalves, diz
alguma coisa a respeito da cultura e a distinção
do espírito deste oficial, rico proprietário,
expressão elevada da cultura da sua terra. Ele é
a imagem perfeita do caudilho na qual Garibaldi sempre se
inspirará, homem livre e iluminado, herdeiro direto
do grande Bolívar. A casa de Caprera é, para
mim, a realização de um sonho de proprietário
de uma estância, livre na sua ilha, e onde, como diria
Garibaldi, “Daqui contemplo o infinito”, como
nas imensas terras americanas, de quem Caprera reúne
muito da infinita beleza.
Mas os protagonistas italianos da Revolução
Farroupilha não entraram, até agora, no mito,
que parece ter-se concentrado todo em Garibaldi, herói
romântico. Pode-se esperar que desse importante encontro
se sobrassaia a realidade de um grupo de personalidades excepcionais,
todas indispensáveis ao intento. Somente através
de sua ação coletiva – homens e idéias
– se explica que um homem que tinha respirado por 14
anos o ar do Brasil e do Uruguai possa ter sido, justamente
graças a isso, um dos maiores artífices da unificação
da Itália.
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