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Os protagonistas italianos
da Revolução Farroupilha


Annita Garibaldi Jallet
___________________________________________________
Advogada constitucionalista, cientista política,
bisneta de Giuseppe e Anita Garibaldi


Premissa

Uma referência sentimental

Desejo, inicialmente, referir-me ao que foi escrito por minha tia, Annita Italia, filha de Ricciotti Garibaldi, irmã de meu pai Sante, que, em 1932, publicou um livro intitulado “Garibaldi in América”. Este livro foi duramente criticado pelo finado professor Salvatore Candido, e o motivo dessa avaliação é que a obra teria pouco ou nada de científico. Nasceu de uma longa viagem que Annita Italia fez ao Brasil e ao Uruguai, percorrendo os caminhos de seus avós, Giuseppe Garibaldi e Ana Maria Ribeiro. A autora nasceu em 1878, na Austrália. Quando começou a viagem pela América Latina, em 1929, já tinha 50 anos. Ela escreveu: “Foi para mim uma viagem de recolhimento e de paixão; uma peregrinação, quase uma consagração.”1 O seu guia, seu “Baedecker”, foram as “Memórias” de Garibaldi, recordações do seu avô. Quando retorna à pátria, em 1932, publica seu livro em português e em espanhol, antes mesmo que em italiano.

Fazendo uma ligação entre minha conferência e as demais que integram este simpósio, quero dizer que me expresso perante os respeitáveis historiadores e estudiosos brasileiros com o sentimento de não poder adicionar ao seu conhecimento mais do que um testemunho daquilo que li na historiografia italiana, mas, sobretudo, do que aprendi por ocasião de três viagens ao Brasil, terra que hoje já faz parte da minha própria identidade.

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1 GARIBALDI, Annita Italia. Garibaldi in America. Roma: A. I. Garibaldi, 1932. p.12.

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Experiências complementares entre Brasil
e Itália na primeira metade de 1800


Acredito que seja útil lembrar, também, que, ao nos referirmos ao Rio Grande do Sul e ao Brasil, assim como à Itália, na primeira metade de 1800, estamos tratando de duas situações políticas muito instáveis, e, por isso, comparáveis em certo sentido. O Rio Grande, no sul do Brasil, era terra de fronteira ainda não totalmente explorada, carente de uma cartografia completa, muito pouco povoada por grupos que dificilmente se fundiriam em uma mesma nacionalidade. Somente a partir de 1801 seria incorporado definitivamente ao Brasil, mais por acordos internacionais do que por escolha. Além disso, o próprio Brasil aspirava sua independência.

A idéia de povoar o Brasil com colonos europeus tem origens antigas, e foi levada em consideração justamente pelo Governo, no Rio de Janeiro, para aumentar a escassa população, até então predominantemente portuguesa. Uma legislação foi criada especialmente, e emissários do Governo foram mandados para a Europa. Outras leis foram adotadas em 1824, tornando a imigração mais orgânica, e atraindo, principalmente, levas de alemães. Os italianos eram poucos até 1875, mesmo que alguns chegassem como austríacos, antes da unificação da Itália. De qualquer maneira, poderiam ser contados nos dedos de uma mão.

Na primeira metade do século XIX, e também depois, não é a grande presença de conterrâneos que atrai uma elite italiana ao Brasil, mas fatos políticos peculiares à Europa (basta lembrar as datas de 1814, 1821 e 1831), que obrigam algumas pessoas importantes, em geral de origem nobre, a ir para o exílio. Quase todos, porém, têm um passado político e levam com eles idéias modernas e de liberdade. Eles encontram uma boa acolhida na elite liberal dos grandes proprietários, em luta para obter do Governo do Rio de Janeiro uma gestão de província mais autônoma, e uma reavaliação dos impostos exorbitantes.

Não se deve, por outro lado, omitir que os imigrados ou exilados italianos encontraram, no Rio de Janeiro, ambientes liberais autóctones, ligados à cultura européia, cosmopolitas, que não esqueceram do grande sonho de Bolívar e não eram indiferentes aos fatos da América do Norte. Havia também uma refinada cultura, vinculada à procura de uma identidade brasileira, que ligava fortemente o romantismo literário e artístico europeu àquele que, com a colaboração também de artistas vindos da Europa, florescia no Brasil, jogando sobre os revoltados do Rio Grande do Sul uma luz romântica, perfeitamente exportável para a Itália2.

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2 Acontece neste momento, em Paris, uma mostra no Museu della Vita Romantica, hospedado na casa que foi de Madame de Staehl, voltada a um Brasil romântico, apresentando telas de Alessandro Cicarelli (1811-1879), junto com telas brasileiras e francesas (Nicolas Antoine Tonnay e Jean Baptiste Debret), que fazem parte do acervo da Fundação Estudar, de São Paulo. A mesma imagem romântica deduz-se dos filmes que o Brasil propõe na Europa, inspirados na “Casa das Sete Mulheres”, onde os personagens da Revolução Farroupilha, e do século XIX no Brasil, aparecem sempre em uma versão romântica que coincidia com o ânimo da Europa dos tempos de Mazzini e Garibaldi.

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A Itália: uma série de estados, um reino ao norte, uma aspiração, mas nada em perspectiva para as idéias liberais e unitárias. Entretanto, ali também havia uma burguesia emergente, iluminada, cosmopolita, sacudida de modo irreversível pela Revolução Francesa e pela grande aventura napoleônica, cujas conseqüências amadureceram antes, depois da Restauração, na Espanha, que dá à América a sua primeira, mas pequena, fornada de exilados europeus.

Os tempos da Revolução Farroupilha foram, na Europa, anos de grande amadurecimento político, no sentido liberal e republicano. E talvez isso explique porque aqueles heróis que não morreram no Rio Grande (essencialmente Garibaldi e Zambeccari) pudessem desenvolver, na Itália, uma ação em continuidade com seu empenho no Novo Mundo; principalmente, no caso de Garibaldi, depois de tê-lo aperfeiçoado e ampliado com outras experiências sul-americanas.

O Rio Grande do Sul antecipa, se é possível fazer essa comparação, os problemas da Unificação da Itália. Unido o Brasil, nem todos ficaram satisfeitos com as condições dessa unificação. Assim seria na Itália depois da Expedição dos Mil, onde era mais difícil resolver o problema: o sul da Itália não era, de fato, terra quase completamente vazia, e alguém, no norte, chegou a lamentar-se disso.

As experiências são semelhantes e complementares. Quando se tornar uma República, em 1889, o Brasil antecederá a Itália, e dará início a um novo mito de Garibaldi. No mesmo momento, na Itália de Giolitti, Garibaldi conheceria um eclipse que duraria até a II Grande Guerra.

A presença italiana na Revolução Farroupilha

Entre os grandes momentos dos caminhos comuns, italianos e brasileiros, ocorre a revolução no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, um evento que surpreendeu pela pobreza dos meios, a coragem dos homens, a grandeza dos ideais. Poucos nomes são lembrados do lado italiano: Zambeccari, Garibaldi, Rossetti, Cuneo, Carniglia. Estes não são árvores que escondem a floresta. Na verdade são, tão somente, um punhado de italianos, a maioria expulsos, e se não pobres, homens com poucos recursos ganhos com o trabalho, capazes, porém, de mover montanhas. Moveram-nas para contribuir às épicas guerras de liberdade: a revolta espanhola, as jornadas francesas, a agitação em Londres, a participação na Revolução Farroupilha. Garibaldi, Cuneo e alguns outros ainda participaram da independência da República Oriental do Uruguai. Desde então, com o cargo de general, e com uma experiência muito particular, Garibaldi deu o lance decisivo para a Unificação da Itália.

Na campanha pela Unificação da Itália, Garibaldi foi o único a ter a experiência do Rio Grande do Sul, e um dos poucos que vivenciou a do Uruguai. Não devemos nunca esquecer disso ao explicar o mistério do General Garibaldi e as fontes do seu mito.

Mais de 70 anos depois daquele relato de minha tia Annita Italia, já com uma vasta historiografia sobre o tema, posso ser mais precisa do que ela. Também é verdade que há, em mim, um pouco de sentimento: a emoção que senti visitando a estância de Camaquã, hóspede dos descendentes de Bento Gonçalves, ou em frente às antigas casas de Laguna e de seu porto, junto à árvore à sombra da qual nasceu Menotti, o primeiro filho de Garibaldi e de sua companheira brasileira, bem como entre os representantes do povo dessas terras nunca ingratas e nunca esquecidas.

Nada vale mais para mim que o orgulho por meus ascendentes e conterrâneos, que deixaram aqui uma marca do gênio do meu povo, tão apto, por mil razões, a unir-se ao gênio do povo do Brasil.3

O italiano que não estava presente: Giuseppe Mazzini
O ensinamento de Mazzini

Falar dos protagonistas da Revolução Farroupilha implica citar alguém que não estava presente, mas que é um dos principais atores, senão o principal do lado italiano: Giuseppe Mazzini.

O professor Salvatore Candido, cuja obra teria que ser integralmente citada pelo conhecimento que devemos a ele sobre as façanhas sul-americanas de Garibaldi e de seus companheiros, expõe, em detalhes, o papel de Mazzini, então com trinta anos, no caso farroupilha.4 Não se pode entender o papel dos outros protagonistas italianos sem antes expor o trabalho de penetração das idéias de Mazzini, desenvolvido por Giovan Battista Cuneo e por Luigi Rossetti, em nome da “Jovem Itália”.

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3 Para um bom conhecimento da parte italiana dos fenômenos relativos à Revolução Farroupilha, ver Alessandro Gallante Garrone L’emigrazione politica italiana del Risorgimento. Resenha Histórica do Ressurgimento. Istituto Poligrafico dello Stato Roma, abril-set. 1954, pp. 223-242. Ver também Il movimento migratorio italiano dall’unità nazionale ai giorni nostri aos cuidados Franca Assante, Instituto Italiano para a História dos Movimentos Sociais e das Estruturas Sociais (Nápoles, 1978).

4 Em especial, citamos, de Salvatore Candido: L’azione mazziniana in Brasile ed il giornale “ la Giovine Italia “ di Rio de Janeiro (1836) attraverso documenti inediti o poco noti. Boletim da Domus mazziniana, Piza, n°2, 1968; Giuseppe Garibaldi, corsaro riograndese (1837-1838), Instituto para a História do Ressurgimento, 1963; La rivoluzione riograndese nel carteggio inedito di due giornalisti mazziniani: Luigi Rossetti e G.B. Cuneo. (1837-1840), CNR Valmartino in Firenze, 1973, e Giuseppe Garibaldi dall’avventura marinara riograndese (1837) al comando della flotta in Uruguay. Em Garibaldi , Generale della libertà, Roma: Ministério da Defesa, 1984.

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Deve-se dizer, entretanto, que o terreno era fértil porque, entre os exilados, em grande parte carbonários ou maçons, as idéias de liberdade e freqüentemente de República, já estavam difundidas. Elas precisavam, porém, de um “corpus” teórico e de uma organização política que, por outro lado, estavam presentes no programa de Mazzini.
Escreve Candido:

“Provavelmente quando, no verão de 1831, em Marselha, o jovem Mazzini difundia a sua ‘Instrução geral para os irmanados da Jovem Itália’ e, um pouco depois, o ‘Manifesto’, onde anunciava a próxima publicação do periódico ‘A Jovem Itália’, não poderia imaginar e prever que a associação e a revista seriam logo difundidas no Novo Mundo e teriam exercitado a mais viva influência, não somente sobre os emigrados italianos, mas também, e especialmente, sobre os movimentos latino-americanos de libertação nacional (…).”

De fato, os simpatizantes e os irmanados são mais numerosos entre os exilados do que na Itália, e logo as idéias se difundiriam também através da imprensa de outras línguas, como a espanhola e a portuguesa.

Mazzini não imaginava que dali a pouco seria publicado, no Rio de Janeiro, um quinzenário de rebeldes rio-grandenses em luta contra o Império do Brasil, “O Povo”, dirigido por seus maiores seguidores, Cuneo e Rossetti. E as publicações no Brasil não foram as únicas: também em Montevidéu, em Buenos Aires, na América do Norte, e onde quer que propagassem de modo ativo o pensamento de Mazzini.5

Os ecos mais numerosos encontravam-se em apreensivas mensagens – providenciais para os estudiosos – que os cônsules do Reino de Piemonte-Sardenha mandavam à Corte de Turim. De fato, de 1835 a 1839, a polícia sarda seguia com vivo interesse a penetração das idéias liberais na costa atlântica da América Latina. Escreve Candido, ainda:

“Exercita (a polícia sarda) uma vigilância ativa nos portos para impedir que do Brasil chegassem escritos incendiários editados naqueles países longínquos, e também na Europa, e fossem enviados para a América para que mais facilmente pudessem ser introduzidos no território italiano (…).”

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5 Ver ainda MASTELLONE, Salvo. Mazzini e la Giovine Italia 1831-34. Piza: Domus mazziniana, 1960. 2 vol.

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Em 14 de abril de 1836, um sinal neste sentido chegou a Turim, ao Conde Solaro della Margharita, Secretário de Estado para os Negócios Exteriores. Fala-se do “Programa de um jornal eminentemente revolucionário que os sectários pretendem publicar em língua italiana na capital do Brasil, de onde se propõem a enviar, depois, os exemplares para a Itália.” Pede-se, então, a maior vigilância para impedir a entrada na de tais escritos no país.

Através destes despachos diplomáticos, somos capazes de seguir, desde 7 de junho de 1834, sempre graças à documentação obtida pelo professor Candido, a vida e os acontecimentos de uma coletividade formada principalmente por lígures, animada, na sua maior parte, pelos ideais republicanos e hostis ao governo sardo. Uma verdadeira rede que se espalha pelo mundo inteiro, mesmo que constituída por poucas pessoas em cada lugar.

O alarme cresce quando a atenção dos jornais mazzinianos volta-se não somente para a Itália (organizaram-se até depósitos nos portos brasileiros para mandar os jornais para a Europa) mas alcança também os países onde esses são impressos. E não é de se admirar do alerta quando a folha “A Jovem Itália”, de 26 de março de 1836, assim se manifesta:

“A nós italianos... nos é incumbido de pregar as nossas doutrinas a todos os homens e especialmente aos nossos conterrâneos em qualquer parte do mundo onde nos encontramos, onde se unam (sic) a nós no grande pensamento de nossa irmandade… a juventude italiana correrá em massa para derrubar os tronos, para rechaçar o estrangeiro opressor e nós, mesmo de longe, correremos para participar dos perigos dos nossos irmãos.”

A ação se amplifica, essas máximas tornam-se expressão e aviso para uma série de insurreições contra as monarquias imperiais (Brasil) ou as ditaduras (Argentina). Corre a idéia de que querem libertar os escravos, coisa que Garibaldi fará logo, assim que tiver a ocasião, em nome de idéias universais que não se esgotam com um simples gesto de piedade humana.

As idéias republicanas e de Mazzini formam o pano de fundo do jornal “O Povo”, que prepara amplamente o terreno para a participação de Garibaldi, mas também do próprio Rossetti, nas insurreições que acontecem por toda a costa do sul do Brasil. Se Zambeccari chegou em 1826 no Brasil, Rossetti, em 1827, Garibaldi, de fato, desembarcou no Rio de Janeiro em janeiro de 1836. A sua presença contribuiu para inflamar os ânimos: ele foi anunciado como aquele que veio para praticar as idéias de Mazzini, encarregado pelo próprio mestre para este fim.6

Enquanto Garibaldi começava a voar com as próprias asas no sul do Brasil, mais inclinado à ação do que ao pensamento, Mazzini via, na Europa, a sua parábola em queda. A atividade mazziniana havia estimulado jovens que deveriam se tornar, em breve, figuras de primeiro plano da política italiana. Porém, na Itália, a falência das conspirações de 1833-1834, geraria, assim, novos exilados políticos, entre os quais Garibaldi, e causaria uma crise profunda de todos os movimentos patrióticos. Por alguns anos a Jovem Itália (e suas seções projetadas como o “Jovem Rio Grande”) derrotada e desagregada, cessa praticamente de existir como força organizada na Itália e no exterior.

Giorgio Candeloro, na sua “Storia dell´Italia” moderna, escreve que, naquele momento, houve a dispersão da maior parte dos exilados que haviam se unido em torno de Mazzini. Restaram os poucos que participaram da guerrilha farroupilha. Assim aparece toda a importância da participação de Giuseppe Garibaldi: se não tivesse a oportunidade de começar a combater e de descobrir sua verdadeira vocação, Garibaldi talvez se integrasse de um modo totalmente diferente à sociedade sul-americana. E seria pior ainda se tivesse retornado para a Itália, como fizeram muitos na primeira anistia, ou permanecido na Europa, talvez escondido na França como tantos perseguidos e depois anistiados. Teria vivido em uma Itália, então, cheia de intrigas políticas, de facções, de conspirações carbonárias e, sobretudo, nos tormentos de uma evolução liberal moderada do reino, onde não teria encontrado o próprio papel. Na Itália não havia mais nada a fazer naqueles anos. Mazzini, por sua vez, enrijeceu, não quis entender o tamanho da evolução em processo e ficou fora do jogo por muito tempo, fiel somente a ele mesmo na tempestade de suas dúvidas.

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6 Permanece uma pergunta: Salvatore Candido escreve que o partido farroupilha era formado por gente do campo, e por uma elite de jovens idealistas educados por doutrinários entusiastas, entre os quais o italiano Livio Zambeccari, partidário das idéias de Mazzini. Como nasceram os contatos e a confiança? Sobre Livio Zambeccari, ver Tra il Reno e la Plata, la vita di Livio Zambeccari studioso e rivoluzionario, organizado por GAVELLI, Mirtide, TAROZZI, Fiorenza e VECCHI, Roberto. Bolonha: Boletim do Museu do Ressurgimento, 2001.

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No verão de 1839, Mazzini comunica aos exilados italianos na Inglaterra, na Bélgica, na Suíça, na América, de quem ele consegue obter o endereço, que tem a intenção de reconstituir a Jovem Itália. Poucos aderem, espalhados pelo mundo, mas, em 1840, comunica que recomeçam suas atividades. Na continuação de sua correspondência com Cuneo e Rossetti, talvez estivesse iludido quanto à consistência do movimento entre os emigrantes. Age, entretanto, em um terreno diferente daquele revolucionário ou puramente patriótico: dedica-se à organização dos operários, pensando em um partido democrático. Com este tema, entretanto, não consegue chamar a atenção dos italianos espalhados pelo mundo, que sonham com a libertação da pátria. No mundo dos emigrantes, por outro lado, a situação também mudara.

Desapareceram os antigos protagonistas das rebeliões, como Buonarotti, e muitos exilados retornaram do exterior por ocasião das várias anistias. Outros tenderam a adotar a tese moderada de uma lenta mas inevitável evolução dos acontecimentos da Itália, e, no meio tempo, integraram-se à sociedade que os acolhia.

Muitos dos exilados (considerando um número pequeno) haviam, porém, seguido a tradição do voluntariado militar e, depois de 1833-1834, participaram dos levantes endêmicos da América Latina, além daqueles da Espanha e Portugal.

Somente Mazzini poderia reaver alguma influência sobre eles, através de Cuneo, que tinha se instalado em Montevidéu. Mas foi obrigado a aceitar o fato de que poucos ainda acreditavam no método insurrecional e, sobretudo, que ninguém mais via em Mazzini aquele que seria capaz de encontrar soluções práticas para a situação italiana, assim como por sua decidida oposição à mudança proposta por Gioberti.

A passagem de uma ação militar

Para uma ação de tipo militar, porém, havia espaço: quem retornava da América sabia de Garibaldi. Zambeccari, em Bologna, que não tinha deixado a atividade patriótica, alimentava o mito de um general vencedor. Também depois do fim da revolução no Rio Grande do Sul, a passagem de Garibaldi no Uruguai, longe de fazê-lo perder sua reputação, permitia que entrasse novamente em contato com ambientes que se comunicavam ativamente com a Europa. Montevidéu era um grande porto, e os exilados de todos os países eram numerosos. Também os diplomatas, oficialmente hostis, contribuíram, com seu alarmismo, a difundir a sua fama na Europa. Portanto, mais que Mazzini, foram o poder de Cuneo e a correspondência dos italianos que prepararam o retorno à Itália de um Garibaldi já decidido a levar a ação para o terreno militar.

Liberalismo político e a patriótica luta anti-austríaca. Aqueles que foram obrigados a ir para o exílio procuraram, nos momentos de união, um modo para permanecer fiéis aos seus ideais juvenis, e tentar algo em favor da pátria sonhada. Mas não buscaram rebeliões e conspirações.

Aqueles que partem para combater ao lado de Garibaldi fazem parte, no máximo, da chamada Congregação do Rio de Janeiro. Deles, sabe-se pouco. São, parece, na Revolução Farroupilha, uns cinqüenta italianos (número confirmado por todos os autores, embora saibamos pouco sobre seus nomes). Levar as idéias para o terreno da luta armada representou um formidável salto de qualidade. Tal fato seria por muito tempo ignorado na Europa, mas serviria de ensinamento àquele que se tornaria o artífice do “salto de qualidade” na Itália.

Das duas partes do mar, o papel
dos carbonários e dos maçons


Papel também relevante na concretização das idéias de Mazzini tiveram os carbonários e os maçons, que encontraram no sul do Brasil um terreno fértil. Espalhados e desorganizados, também eles encontrariam na “Jovem Itália” um novo motivo de agregação que os reforçaria. Entre eles identificamos, sem dúvida, Livio Zambeccari, conselheiro e secretário de Bento Gonçalves.

Zeffiro Ciuffoletti e Sergio Moravia explicam que há elementos de distinção entre Maçonaria e Carbonaria. A primeira foi laica e anti-clerical, enquanto que a segunda foi invadida por um profundo sentimento religioso que mutuou muitos de seus símbolos com rituais da liturgia e da história cristã. Nas filas dos carbonários, como se sabe, a presença dos religiosos foi bastante elevada. A Maçonaria, além disso, pelo menos em nível estatutário, não se ocupava de política e respeitava as instituições monárquicas vigentes. Já a Carbonaria nascia como instrumento de ação política e lutava pela instauração dos governos democráticos e constitucionais. Evidente, desde o início, foi sua aspiração em se transformar em uma estrutura política limpa e aberta. Apenas a virada constitucional de 1820 o permitiu; a Carbonaria abandonou a dimensão secreta, tornou públicas as próprias seções e começou uma intensa obra de proselitismo em plena liberdade. Se a maçonaria atingia uma ideologia universal e um cosmopolitismo humanitário genérico, que tinha a sua total referência nas várias correntes do pensamento iluminista, a Carbonaria, ao invés, estava impregnada das novas teorias românticas e olhava para o ressurgimento das nacionalidades como próprio horizonte ideal.

A Maçonaria saiu logo de cena. A Carbonaria e as outras sociedades secretas sobreviveram pelo menos até os movimentos de 1831, para ceder, na Europa, ao movimento democrático, mas continuaram a ser uma trama sólida na América Latina.

Logo após as jornadas parisienses de julho de 1830, a Itália tornou-se novamente uma terra de conspirações patrióticas e revolucionárias, em forte ligação com a França, terra de exilados políticos, e também novo berço do liberalismo. Depois do fracasso da conspiração carbonária promovida pelos irmãos Bonaparte, em Roma, em dezembro de 1830, as revoluções começaram a interessar, em fevereiro de 1831, à Itália central. Em Módena, na Romagna, primeiro; depois entusiasmou toda a Itália central. Os austríacos restabeleceram a ordem e enforcaram Ciro Menotti, em Módena.

Conclui o já citado Gilles Pecout: “A revolução de 1831, seguida em janeiro do ano seguinte por novos combates entre revolucionários e as tropas pontifícias, ajudadas pelos austríacos, deixaram, efetivamente, uma marca na mentalidade italiana e internacional. O seu fracasso é invocado habitualmente como a prova do desastre de uma geração inteira de revolucionários, em primeiro lugar os conspiradores e os conjurados ligados à Carbonaria.”8

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8 PECOUT, Gilles. Il lungo Risorgimento. Milão: Mondatori, 1999.

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Os italianos, do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul
Tensão política no Rio de Janeiro


Enquanto a Europa parecia adormecida, mas na realidade afiava as armas para uma grande explosão, a Revolução de 1848, que a teria sacudido em nome daqueles ideais democráticos e tardo-românticos que afligiam também o Brasil, o Império, que tinha levado à independência e suscitado instituições parlamentares, havia imposto uma ordem centralizada. Os movimentos de revolta acentuaram-se no início dos anos 1830, mais por causas internas do que como reflexo da situação na Europa, provocando a abdicação do Imperador e a nomeação de um Conselho de Regência, em consideração à pouca idade do novo Imperador, Pedro II.

Permanecia, de qualquer maneira, um clima de tensão. Guerras de independência e conflitos internos haviam causado graves danos à agricultura, principal recurso da população. Por outro lado, porém, havia o incremento do comércio com a Europa, antes sufocado pelo regime de monopólio que as duas potências ibéricas haviam imposto às colônias. Com os comerciantes e banqueiros, sobretudo ingleses, escreve o professor Scirocco, em sua biografia de Garibaldi,9 instalaram-se os diplomatas dos Estados europeus nas novas capitais. A fragata De Geneys, a mesma que deveria ter levado Garibaldi se não tivesse escapado de suas obrigações militares, havia trazido ao Brasil o Conde Egesippo Palma di Borgofranco, novo representante do Reino de Sardenha, em relação oficial com o Brasil a partir de 1820. Será a mesma fragata, com as suas freqüentes viagens, que traria a notícia da condenação à morte do jovem Garibaldi, que não pede perdão, e a levar, para Marselha, a primeira carta de Garibaldi endereçada a Luigi Canessa, carta que testemunha o fato de Garibaldi considerá-lo verdadeiramente aquele que lhe empossou como representante da jovem Itália.

Emigrados e exilados estabeleceram-se, sobretudo, na bacia do Rio da Prata, na Argentina, e no futuro Uruguai. Os navios que chegavam, principalmente da Ligúria, levavam e traziam jornais, mas também opúsculos como os da Jovem Itália, além das notícias dos levantes. A necessidade do Governo de Turim de comunicar aos seus representantes diplomáticos os fatos e os nomes dos exilados, informações que depois eram repassadas aos governos locais, gerou, como vimos, a primeira fonte das nossas informações em relação ao assunto.

Podemos, então, sustentar que os primeiros italianos a serem levados em consideração eram aqueles que, embora formassem um círculo restrito de pessoas, tornaram conhecida, na Europa, a situação dos estados americanos: os diplomatas, os comerciantes importantes, expoentes abastados da comunidade italiana capazes, por exemplo, de oferecer uma sustentação social aos menos afortunados, ou de criar economicamente um jornal, uma folha em língua italiana, para propagar idéias. Entre as perguntas que podem ser feitas está aquela sobre os patrocinadores, e, no nosso caso, isso torna mais relevante a ação do segmento mais rica de nossa comunidade no Rio de Janeiro, menos conhecida do que aqueles que, depois, a representaram com a espada na mão.

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9 SCIROCCO, Alfonso. Garibaldi - Battaglie, amori, ideali d’un cittadino del mondo. Roma-Bari: Laterza, 2001.

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Relações com a Itália

Com que intensidade os fatos do Brasil poderiam ser conhecidos na Europa? Ainda sobre este ponto nos ilumina o professor Scirocco, que nos recorda que um navio levava em média sessenta dias para completar a viagem do Mediterrâneo ao Brasil, mais o tempo de entrega de uma carta ou de um pacote. Pode-se calcular que uma troca de correspondência se fazia, mais ou menos, no arco de seis meses, escreve Scirocco. Isto nos faz ter uma noção mais precisa das trocas epistolares entre Mazzini e Garibaldi, entre Cuneo e Mazzini, e explica também, em parte, como se originou a confusão que existia há tempo nas relações entre Mazzini e Garibaldi, Cuneo e Garibaldi, Rossetti e Mazzini.

Adaptação de Garibaldi no Rio

Quando Garibaldi chegou ao Rio de Janeiro sabia-se dele tão somente que tinha uma condenação à morte à revelia, por ter participado de uma rebelião mazziniana, e isso valia todos os passaportes junto à comunidade republicana. Mas não se sabia que tinha sido Luigi Canessa, de Marselha, a indicá-lo como representante da Jovem Europa, que o encontro de Taganrog com Cuneo nunca tinha acontecido, e muito menos o encontro com Mazzini em Gênova. Nas suas “Memórias”, Garibaldi é pouco preciso no que diz respeito ao fato, mas hoje a reconstituição daquele período é bem segura.10 O professor Romano Ugolini dá uma explicação para a distorção dos fatos: a necessidade tardia de consagrar o mito de um jovem herói que teria sido envolvido e iniciado nas teorias de Mazzini, já em 1833, e que seria o mensageiro capaz de se impor perante aqueles que já exerciam um papel na comunidade dos exilados. De fato, chegando ao Rio de Janeiro, Garibaldi não encontra um terreno virgem.

O professor Scirocco sustenta que “o bandido condenado pelo motim de Gênova, já personagem, homem-imagem dos revolucionários, pela renúncia de procurar o perdão das autoridades, poderia encontrar refúgio seguro mais perto da sua pátria, por exemplo em Constantinopla, onde viveu por longo tempo. Move-se em direção à América por uma escolha precisa, não como um exilado desiludido, mas como um patriota ardente que quer continuar a contribuir com sua obra para o triunfo dos ideais nacionais.”11 Os julgamentos de Ugolini e Scirocco não coincidem, porque Scirocco cede alguma coisa ao mito de Garibaldi, enquanto que Ugolini considera muito mais casuais os acontecimentos de Marselha e sua partida, devida também a uma epidemia de cólera em Marselha e arredores. Mas o importante é que, naquele momento, Garibaldi descobre sua vocação e também seu talento: individualizou nas idéias de Mazzini um alicerce, e, entre os mazzinianos, um ambiente que o acolhe, o leva, o reconhece.

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10 Em mérito pode-se fazer uma comparação das obras recentes de UGOLINI, Romano. Garibaldi, genesi di un mito. Roma: Ateneo, 1982, e de SCIROCCO, Alfonso (op. cit.).

11 SCIROCCO, Alfonso. Op. cit. p. 32.


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A condenação à morte em Gênova é a declaração de nascimento de Garibaldi. O encontro com Luigi Rossetti, com Cuneo e depois com Zambeccari é o início de seu protagonismo político e militar, e é isso que nos interessa.12

Os companheiros, as ajudas

Luigi Rosseti (apelidado Olgiati) o recebe de braços abertos e imediatamente nasce entre os dois uma centelha que o próprio Garibaldi descreve, de modo eficaz, nas suas “Memórias”.

“Os nossos olhos se encontraram e não parecia ser a primeira vez, como era na realidade. Sorrimos reciprocamente e fomos irmãos pela vida e pela vida inseparáveis.”13

No ano de 2000, Tabajara Ruas publicou nos jornais o seu belo “Garibaldi e Rossetti”14 e contribuiu de modo excelente ao conhecimento dessa nobre figura. Será dada, depois, constante referência à obra de Yvonne Capuano sobre esse ponto e muitos outros.15

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12 Entre o mito e realidade, também GREVY, Jerome. Garibaldi. Paris: Presses de la Fondation Nationale des Sciences Politiques, 2001.

13 GARIBALDI, Giuseppe. Memorie autobiografiche. Florença: Barbera, 1888, p.15.
14 RUAS, Tabajara. Garibaldi e Rossetti. Organizado pela Associazione Culturale Italiana del Rio Grande do Sul, 2000.

15 CAPUANO, Yvonne. De sonhos e utopias. Anita e Giuseppe Garibaldi. São Paulo: Melhoramentos, 1999, e Garibaldi o leão a liberdade. São Paulo: Totalidade, 2000.

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Existem outras personalidades fortes neste lugar, entre elas Giuseppe Stefano Grondona. A relação entre os dois nunca foi fácil. Também Garibaldi recorda dele nas “Memórias”. Grondona é qualificado por Garibaldi como “gênio quase infernal”. Esse lígure, antigo jacobino, foi companheiro de luta de Giacomo Mazzini, chegou ao Rio de Janeiro por volta de 1815, foi expulso em 1823, por suas idéias, e readmitido em 1834 pelo regime liberal de Pedro II. Mesmo sendo mais ligado à idéia da revolução universal do que à da italiana, entra em contato com Mazzini e obtém as publicações da Jovem Itália que traduz, criando com meios próprios uma Sociedade Filantrópica italiana. Em um primeiro momento, Garibaldi o ajuda, entra em uma loja local da Maçonaria para inserir-se no ambiente (Grondona é maçom), a famosa “Asilo de la Vertud”. Mas Garibaldi considera-se envolvido diretamente por Mazzini, porque o é por Canessa, e cria-se imediatamente uma dificuldade com Grondona. Em breve, Garibaldi deve se impor sobre Grondona, e não o perdoará nunca. Será por isso que Grondona não conseguiu nunca retornar à pátria?

Retornam, ao invés, em 1839, outras personagens presentes na congregação do Rio de Janeiro, e são os seus relatos feitos à polícia que nos iluminam sobre muitos fatos, entre testemunhos forçados e delações. Vincenzo Raimondi, Gian Battista Folco, sobretudo Cesare Corridi, que tinha como apelido Pietro Carnesecchi, e poderia ser o mesmo de Michele Lando. Ele emprestará o apelido de Carnesecchi para Grondona, já indiciado pela polícia, quando retornar à Itália. Qual dos dois se esconderá na verdade sob o nome de Carnesecchi? Os pareceres não concordam.

Uma consideração sobre a questão da idade dos participantes da Jovem Itália. Estamos acostumados a ver nossos heróis como muito velhos. Mas, consideremos a idade deles em 1835: Mazzini tem 30 anos e Garibaldi tem 28. Zambeccari, que já era um grande cientista, tem 33. Giovan Battista Cuneo (apelidado de Farinata degli Oberti) nasceu em Oneglia, em 1809, tem 26 anos, mas tinha 24 quando foi obrigado a ir para o exílio (será um dos poucos a morrer na Itália, em seu leito, em Florença, em 1875, depois de ter sido eleito deputado em 1849, embora decidisse voltar a viver na América Latina). O genovês Luigi Rossetti, diretor, junto com Cuneo, do jornal “O Povo”, morre combatendo próximo a Viamão, em 24 de novembro de 1840, com pouco mais de trinta anos.

Quase um time de rapazes, diríamos hoje, de jovens irriquietos, somente aptos para uma revolução de farrapos… Rossetti chegou ao Rio de Janeiro em 1827; Cuneo em 1835, com Pietro Gaggini, relojoeiro, também condenado pelos fatos de Gênova, em 1833, e moravam juntos. Ambos têm um bom grau de cultura: Rossetti estudou Direito, Cuneo tem talento de jornalista e de escritor. Para ajudar Garibaldi a se impor, e especialmente a superar sua inferioridade cultural que poderia dar uma vantagem a Grondona, que organiza contra ele uma verdadeira sabotagem, Cuneo cria, em março de 1836, um jornal que intitula “A Jovem Itália”. Seu objetivo é preparar atividades subversivas na Itália.

Os meses de preparativos para a ação

A revolução já iniciara quando Garibaldi chega ao Rio de Janeiro. Tendo deixado Marselha, em 8 de setembro de 1835, chega à capital brasileira no final do ano. No início de 1836, volta ao mar, graças aos fundos recolhidos por Giacomo Picasso, carbonário, comerciante bem-sucedido que parece ter oferecido quase a soma necessária para comprar a embarcação de vinte toneladas, batizada “Mazzini”. Os irmãos Francesco e Luigi Zignano, grandes negociantes, também o ajudam (o papel deles deve ser estudado), além de Stefano, Giacomo, Paolo Antonini, de Montevidéu, e Luigi Nascimbeni, que faz a intermediação entre os Antonini e Rossetti, junto com Natalio Rusca.

Garibaldi começa a comerciar junto com Rossetti. As idéias circulam. O genovês Domenico Terrizzano batiza sua embarcação de Giovine Europa, e o veronês, engenheiro formado na Suíça, Luigi Dalecase (ou Delle Case) nomeia sua embarcação de La Giovane Italia. Durante a sua estada no Rio de Janeiro, sabemos que Garibaldi morava com Dalecasi, na rua Fresca nº 7. Este comprometera-se na tentativa mazziniana de 1834, em Gênova, mas conseguiu fugir e, naquele mesmo ano, se estabeleceu na Bahia, onde preparou um navio para viagens de longo percurso, pouco tempo após transferir-se para o Rio de Janeiro.

As atividades subversivas dos italianos no exílio não estavam voltadas inicialmente para a vida política local. Eram destinadas a alimentar a sua chama patriótica, desta vez sob a forma do Socorro Mútuo que os mantinha unidos. Quem escrevia, como Cuneo, o fazia pela Itália. Seria toda a solidariedade voltada ao exilado Garibaldi destinada somente a propiciar-lhe um trabalho? É de se duvidar. Cuneo e Rossetti descobrem no jovem Garibaldi as qualidades do homem de ação, e este é um momento fundamental na vida de Garibaldi.

Passa-se à ação

Garibaldi navega como comerciante há mais de um ano quando sua vida entra em uma outra dimensão. Enquanto amadurecia o projeto de encontrar Cuneo em Montevidéu, incapaz de se contentar com uma tranqüila atividade de comerciante, fica sabendo da rebelião deflagrada no sul do Brasil. Estamos nos primeiros meses de 1837, a Província Rio-grandense está em revolução desde 1834, mas no segundo semestre de 1836, os Imperiais levam a melhor e prendem, depois da derrota sofrida em Fanfa, o Coronel Bento Gonçalves e o seu secretário, o italiano Livio Zambeccari. Este, capturado na batalha de Fanfa no início de outubro de 1836, escreve a Cuneo para pedir algo para ler “que contenha palavras de Liberdade”.

Bento Gonçalves era um maçom muito ativo. Tinha organizado diversas lojas pela fronteira e, em seu projeto político, assim como no de Zambeccari, não havia somente a revolução política mas também uma forte aspiração à revolução social, que Zambeccari sonhava igualmente para a Itália. As idéias dos exilados se cruzavam com as do Partido Republicano da Província do Rio Grande, muito influenciado pelos oficiais do exército. Eram idéias libertadoras e modernas, que foram bem recebidas pela elite liberal dos grandes proprietários, entre os quais estavam Bento Gonçalves e boa parte de seus oficiais.

Zambeccari faz parte da segunda geração de exilados, daqueles caçados pelos fatos de 1821. Naquele momento ele tinha apenas 19 anos. Chega à América do Sul em 1826, depois de uma dura experiência na Espanha e de estudos apaixonados na França e na Inglaterra e retoma a atividade científica e política no Rio Grande. Em Porto Alegre filia-se a uma loja maçônica. Na realidade é um carbonário com idéias mazzinianas. Contribui amplamente para formar o espírito da revolta. O encontro decisivo acontece na prisão de Santa Cruz onde Rossetti e Garibaldi entram sem grandes dificuldades em fevereiro de 1837, depois de uma primeira rápida visita só de Rossetti, mas onde vieram à tona as idéias de Garibaldi, de iniciar a guerra corsária pela costa brasileira.

Quando chega a “autorização para navegar” das autoridades do Rio Grande,
Garibaldi sente-se envolvido em um papel legitimado, não de corsário, mas de capitão de um navio de guerra. O belo dessa situação é que Garibaldi e Rossetti, com alguns outros italianos, partem do Rio de Janeiro para conduzir a guerra deles, sempre como comerciantes, mas quem pode ignorar quem são?

Garibaldi parte do Rio para a guerra corsária contra o Brasil. Tem apenas 30 anos. Será a sua primeira experiência de comandante, e aparição dos traços de genialidade que distinguirão as suas façanhas. Recebe o grau de capitão-tenente, deve coordenar e armar duas embarcações que estavam sendo construídas no Rio Camaquã. Cada uma das embarcações recebe uma tripulação de 35 homens: uma é comandada por Giuseppe Garibaldi, a outra por John Griggs, um americano também seduzido pela causa farroupilha.

Os protagonistas menos conhecidos

De Garibaldi e Rossetti já sabemos. Mas tem também Luigi Carniglia a quem Garibaldi estima muito, e que salvou a sua vida mais tarde em um combate no Rio da Prata. Garibaldi chegou a desejar para ele um monumento na sua cidade de Deiva, perto de La Spezia, e Deiva de fato erguerá um monumento que mostra Carniglia que sustenta Garibaldi ferido. Aqui Garibaldi também usa tons épicos nas suas “Memórias”. Escreve: “Eu quero falar de Luigi. E por que não deveria falar? Por ser plebeu? Por ter nascido na multidão daqueles que trabalham para todos? Por não pertencer à classe alta, que geralmente não trabalha para ninguém e consome por muitos? Grande era o seu espírito, diz Garibaldi, “ao proteger-me, ao cuidar-me como uma criança na desventura, quando era incapaz de me mover, fraco, ao ponto de ser abandonado por todos! No delírio da morte sentava-se ao meu lado Luigi, com a freqüência e a paciência de anjo: então nos deixava um momento para chorar.” E conclui: “ainda um mártir da liberdade, um dos tantos italianos destinados a servir em qualquer lugar, fora da sua infeliz terra natal.”16

Tem também Eduardo Mutru, que tem 24 anos em 1834, nativo de Nizza Marittima, marinheiro de 3ª classe a serviço Real. Garibaldi também é de Nizza Marittima: Mutru, condenado a morte junto com ele, é um companheiro de juventude.

Embarcam também o genovês Pasquale Lodola, encarregado do serviço de popa, e dois marinheiros, Giovanni Lamberti e Giacomo Fiorentini. Este último morre em 1837, na ponta de Jesus Maria, onde Garibaldi ficou gravemente ferido. “Um dos melhores companheiros italianos”, define Garibaldi. Era de La Maddalena, na Sardenha, onde Garibaldi teria decidido estabelecer mais tarde a sua morada. Da ilha de Capraia tinha um outro marinheiro, Antonio Lima, ou Lama. Gabarroni, ou melhor, Giovanni Gavazzane, o João Gavarron, que deveria ser o piloto da Mazzini, não conseguiu embarcar. Havia também Maurizio Garibaldi, que não era parente do nosso bom marinheiro.

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16 GARIBALDI, Giuseppe. Memorie autobiografiche. Op. cit. pp.29-30.

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Na Congregação, ou seja, na seção da Jovem Itália no Rio, encontrava-se também o nome de Gris (ou melhor, Giacomo Criss, apelido de Picasso). E assim sabemos que, em 1838, encontravam-se ainda nas prisões brasileiras como proprietário da embarcação Mazzini, Tersani (ou talvez o próprio Domenico Torrisano, encontrado por Garibaldi em casa Delacazi, este também comerciante abastado) e Vincenzo Raimondi. Este último faz parte da geração mais velha, tendo nascido em Finale Marina, em 1788. Havia militado nas armadas napoleônicas e depois de várias travessias transferiu-se para a América Latina, em 1831. Volta à pátria em 1838, já com 50 anos. Giovan Battista Folco resulta também na “relação” dos filiados da Congregação do Rio, mas é pessoa rica e talvez seja informante do Reino. Tem também Carlo Belgrano di Oneglia e Luigi Vacani, mestre de música, colaborador no jornal.

Diz-se que uns cinqüenta italianos participaram da Revolução Farroupilha, e talvez alguns dos filiados da Congregação do Rio também, porém é difícil sabê-lo.

Na Foz do Rio Araranguá, em 15 de julho, Garibaldi naufraga. Nas “Memórias” diz que naquele momento os italianos eram sete. Morreram Mutru, Carniglia, Luigi Staderini, Navona, talvez o próprio Lorenzo N. que Garibaldi recorda nas Memórias. Quem será Giovanni D.?

No fim da vida, Garibaldi encontrou Francesco Anzani, próximo de São Gabriel. Nascido em Alzate, na Brianza, em 11 de novembro de 1809, com 17 anos fugia para combater na Grécia. Fez parte do movimento republicano de Paris, em 1832, e combateu em Portugal e Espanha nas fileiras dos constitucionais.
Depois emigra e combate com as poucas forças republicanas que permaneceram fiéis a ele, mas logo Anzani escreveu que não tinha mais nada a fazer, e foi encontrá-lo em Montevidéu. Deixando o Brasil pelo Uruguai, Garibaldi os deixou sob o comando de Napoleone Castellani, de Montevidéu, que queria armar um navio para ajudar Garibaldi, deslocou-se até Alegrete para fazer um acordo com Bento Gonçalves, mas não alcançou o seu propósito. Todavia, foi naquela ocasião que se fortaleceu o vínculo entre Garibaldi-Anzani-Castellani e, naturalmente, Cuneo, que levou os resultados para o Uruguai, na fase seguinte da vida de Garibaldi.

A percepção da Revolução Farroupilha na Itália

Perguntamo-nos por quais caminhos a epopéia sul-americana chega à Itália, e em que época. Quando Garibaldi retornou à Itália, no início de 1848, sua reputação ficou garantida graças à divulgação entre os emigrantes e, nos ambientes oficiais, pelas relações dos representantes do Reino na corte de Turim. É provável, porém, que tenha sido sobretudo a aventura uruguaia a chamar a atenção, em virtude da importância dos cargos assumidos por Garibaldi, e pela capacidade de organização demonstrada por ele (graças também a Francesco Anzani). De qualquer maneira, as publicações da Jovem Itália, de “O Povo”, alguma coisa fizeram pelo jovem chefe. Mas foi especialmente a biografia de Cuneo, publicada em 1850, a dar uma visão geral da sua vida até então. Garibaldi, quando recebe o texto em março de 1850, escreve para o autor. “Li a biografia e vislumbrei a previsão do amigo”17. Esta biografia será fundamental não tanto pelos efeitos imediatos, mas pelo fato que outros autores que escreverão sobre Garibaldi na América do Sul possam inspirar-se.

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17 Epistolario di Giuseppe Garibaldi, Vol. 1 (1834-1848), Instituto para a História do Ressurgimento, 1973.

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Citamos somente uma passagem de Cuneo: “Toda a vida de Garibaldi é um contínuo e fecundo sacrifício à liberdade e à pátria. Nas suas ações como homem privado, assim como nas de homem público, nos alegres encontros com os amigos como nas sérias e graves assembléias teve sempre como argumento das suas idéias e dos seus discursos: Pátria e Unificação.”
Os sublimes anseios da sua grande alma elevaram-se àquele altíssimo conceito; não cuidou de mais nada, por isso foi sempre visto combater e a causa americana defender com o mesmo ardor com o qual combateu na Lombardia e em Roma. “Acompanhou sempre o pensamento e contínua foi a ação.”18

Em suas “Memórias”, cuja primeira edição foi em 1872, o próprio Garibaldi evoca muitos episódios e as recordações dos amigos mais queridos. Giuseppe Guerzoni, em 1882, incluirá outros elementos que esclarecerão a cronologia dos eventos.19 O interesse dos historiadores, porém, concentrou-se sobre os fatos italianos e, talvez por sua posição na Itália, era melhor que Garibaldi deixasse de lado as suas passagens de corsário e de aventureiro.

Todavia, podemos tecer algumas considerações gerais sobre a presença dos italianos na Revolução Farroupilha. Os italianos foram poucos e muitos deles morreram, mas, com o tempo, o mito de Garibaldi se expandiria na América do Sul, ajudado pela presença de uma brasileira a seu lado, conferindo identidade à consistente emigração italiana, que, sucessivamente, teve participação no povoamento do Brasil.

Mesmo tendo sido uma guerra perdida, representou para Garibaldi uma extraordinária lição de vida. Naqueles cinco anos, Garibaldi tornou-se ele mesmo, e não perdeu nunca mais as características que foram a sua força em situações muito diversas. Quando se dedicou à redação das suas “Memórias”, Garibaldi não se esqueceu dos seus companheiros italianos de aventura. Recordando a morte de Rossetti, exprime-se assim:

“Não existe um ângulo da terra onde não apareçam os ossos de um italiano generoso! E a Itália os esquece... aqueles que fizeram bonito o seu nome no novo mundo! Em todas as regiões do mundo! Ela sentirá a falta...”

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18 CUNEO, Giovanni Battista. Biografia di Giuseppe Garibaldi. Livorno: Raffaello Giusti, 1932, pp.58-59.

19 GUERZONI, Giuseppe. Garibaldi. Florença: G. Barbera, 1882, 2 vol.

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Foi um caminho estranho aquele seguido pela fama de Garibaldi, nascida na América Latina e caída rapidamente no esquecimento, exceto para um círculo restrito de imigrantes.20 Mas, dali partiu para a Itália, graças à diplomacia de todos os países presentes no Rio da Prata e arredores, aos jornais da imigração e à obra de Cuneo, e, sobretudo, graças ao retorno à pátria do próprio Garibaldi, bem como aos fatos de 1848-49.

O herói regenera-se nos fatos italianos, da República Romana à Expedição dos Mil, o mito não se enfraquece com Aspromonte e Mentana, e, finalmente, se reativa com a morte, que dá lugar a uma quantidade inacreditável de celebrações e comemorações. Depois baixa rapidamente na Itália um silêncio que mal se abre para algumas manifestações oficiais, cada vez mais raras.

É o advento da República brasileira que leva a uma reconsideração do sentido e da importância da Revolução Farroupilha. Deste momento em diante, inicia a construção de Garibaldi como um mito incomparável. O herói da Revolução Farroupilha começa a fazer parte, junto com sua esposa, da história e da identidade do Brasil, e é um herói com dimensão mundial. O mito expande-se lentamente na primeira parte do século XX, explode com o cinquentenário da morte de Garibaldi, em 1932, e serve de propaganda ao Fascismo, a tal ponto que Mussolini manda levar para Roma, ao Gianicolo, as cinzas de Anita sepultada em Nice por vontade do herói, ao lado de sua mãe.21 É preciso, porém, esperar os anos que sucedem a Segunda Guerra mundial para que autores brasileiros e italianos comecem a se interessar pela biografia do herói, até a explosão do centenário da morte, em 1982, onde o conhecimento de Garibaldi no Brasil deve muito, na Itália, à obra de Salvatore Candido, por anos diretor do Instituto de Cultura de Montevidéu22 Não evoco aqui a excitação dos autores brasileiros e a minuciosa redescoberta dos fatos da Revolução Farroupilha e dos seus protagonistas, com desdobramentos romanescos (Manuela, Anita), que fazem parte da comunicação cultural, veículo para a constituição de uma identidade nacional.

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20 CARNICCI, Andrea. Garibaldi nell’Associazionismo dell’emigrazione italiana. in I Garibaldi dopo Garibaldi, la tradizione famigliare e l’eredità politica. Organizado por Zeffiro Ciuffolotti, Arturo Colombo, Annita Garibaldi Jallet. Manduria: Piero Lacaita, 2005, pp 215-144.

21 GRIMALDI, Ugoberto Alfassio. L’utilizzazione del mito garibaldino ad opera del fascismo. In Garibaldi, generale della libertà. op. cit. 605-614.

22 Muitas outras obras deveriam ser citadas, entre as quais: DELLA PERUTA, Franco. Garibaldi tra mito e politica in Conservatori, liberali e democratici nel Risorgimento. Milano: Angeli, 1989; BENINI, A e MASINI, P.C. (a cura di) Garibaldi cento anni dopo. Atas do encontro de estudos garibaldinos. Bergamo, março 1982; Giuseppe Garibaldi e il suo mito. Ata do II Congresso de História do Ressurgimento italiano (Gênova, novembro de 1982), Roma, Istituto per la storia del Risorgimento; Simpósio internacional do Instituto Latino-Americano, Roma. Presenza di Garibaldi in America Latina Roma, 1983. Atas datilografadas. Ver, em especial, GARDELIN, M., L’immagine di Garibaldi nel Rio Grande do Sul. De mais fácil leitura são: Ivan Boris Gli anni di Garibaldi in Sud America 1836-1848. Milão: Longanesi e C. , 1970, e LAMI, Luigi. Garibaldi e Anita corsari Mondatori Milão, 1991.


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Garibaldi e Anita na história brasileira

Tal processo continuou no tempo e, a partir de 1870, no Rio Grande do Sul, deveu-se à assimilação do mito garibaldino em âmbito nacional, após a aceitação da Revolução Farroupilha como mito nacional. Surpreende-nos, contudo, que Garibaldi, e quase somente ele, tenha ficado vivo no culto popular. Por quê? Creio que seja também por uma questão de imagem, pela qual Garibaldi sempre foi favorecido: graças a Cuneo em Montevidéu, mas também ao pintor Gallori, e, mais tarde, na Itália, a Alexandre Dumas e a uma profusão de artistas. O Rio Grande do Sul foi a terra dos gaúchos, nômades que se deslocavam à procura de trabalhos temporários nas grandes planícies, vingadores do mais rígido individualismo e da lei do mais forte, capazes de gestos de coragem extremos, mas pouco acostumados à vida em sociedade. Na transfiguração literária da figura do gaúcho, criada pela Sociedade do Parthenon Literário, por volta dos anos de 1870, as características do herói romântico prevaleceram, obscurecendo a conotação primitiva... Sobre todos esses pontos me satisfaço de retomar a análise de Núncia Santoro de Constantino, em seu trabalho dedicado aos italianos em Porto Alegre, com importante bibliografia.23

O mito do gaúcho começou, então, a fazer parte integrante do mito da Guerra dos Farrapos, fortalecendo-a com atributos românticos e fornecendo-lhe elementos para a formação de uma moral coletiva, que, por sua vez, deu lugar a uma abundante produção literária, pelo menos até 1900...

Os elementos do mito garibaldino, que chegaram à América Latina depois de 1860, foram reelaborados, fazendo de Garibaldi um gaúcho entre os gaúchos. Na realidade, o mito do herói foi reinterpretado usando motivos tradicionais que se prestavam à individuação do herói romântico: sua chegada no Rio de Janeiro e o encontro com Rossetti, o episódio do transporte dos navios por terra, o naufrágio do Farroupilha... (e outros fatos entre os quais o primeiro amor por Manuela e o encontro com Anita), o Garibaldi que bebe mate, o Garibaldi que canta romanças italianas.

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23 CONSTANTINO, Núncia Santoro de. Italiani a Porto Alegre: l’invenzione di una identità. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Ed. Fondazione Giovanni Agnelli Luglio, dezembro de 2002.


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O físico de Garibaldi compunha-se de elementos que vinham da Europa, mas que eram formados na América Latina, onde foram amplificados pela aura do mito. O poncho, os olhos azuis (ou melhor, claros) a grande barba, são somente alguns atributos de um vasto cliché: na mitologia rio-grandense, Garibaldi foi homem do mar, corsário ou capitão da Marinha da República, esquecendo a sua contribuição nas batalhas de terra.

Mas não são somente as fontes literárias a formar o imaginário da opinião pública rio-grandense. Na história do Rio Grande do Sul, escrita em 1901 por João Maia, e adotada nas escolas do Estado, Garibaldi é definido como “intrépido”, e a coragem nos combates é o atributo que antes, e mais do que os outros, consegue fazê-lo ser aceito como estrangeiro no difícil contexto rio-grandense.

No momento do seu desaparecimento, os órgão de imprensa do Rio Grande do Sul, além de evidenciar a grandeza, voltando ao tema da coragem indomável e do amor pela liberdade, iluminado pelo desinteresse frente a glória e a ambição pessoal, reivindicaram-no como seu herói.

O entusiasmo pela figura de Garibaldi era genuíno em 1882, mas ficou ainda mais evidente em 1889, quando o Rio Grande tornou-se parte de uma República, realizando, assim, os ideais da Revolução Farroupilha. O governo republicano fez uma homenagem a ele, dando o seu nome a uma localidade. No centenário do seu nascimento as comemorações seguiram-se por todo o Estado.

De fato, o mito contribuía para formar um aparato ideológico da nova realidade republicana, em uma relação positiva com a Itália, de onde provinham muitos filhos do Rio Grande. Quando se aventuraram a denegrir a imagem de Garibaldi, foram os próprios imigrantes a defender o herói, e encontraram o apoio do povo rio-grandense.

É necessário dizer que os companheiros de Garibaldi foram bem mais esquecidos, por essa simplificação dos eventos históricos que os reconduzem a um herói, somente por sua natureza. Cabe também reconhecer o mérito de Garibaldi de ter ligado a sua figura, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, à de uma brasileira, Anita. Salienta-se até a existência de um Garibaldi brasileiro, o primeiro filho de Garibaldi e Anita, nascido em Mostardas, em 1840, em condições dignas da epopéia.24

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24 Para Menotti, o Garibaldi brasileiro, destaca-se a obra de Elma Sant’Anna, de Porto Alegre, divulgada em várias publicações. Elma Sant’Anna é também artífice da irmandade entre Mostardas e Carano, a cidade onde viveu Menotti com sua família.

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pastores, os condutores das boiadas e dos cavalos da campanha romana, com suas grandes capas e chapéus de abas largas. O poeta vê neles os gaúchos no meio dos quais nasceu, e que vieram a escoltá-lo para levá-lo onde os horizontes são ainda mais amplos.

A própria figura de Bento Gonçalves é relevante para aquela parte do mito de Garibaldi que se formou no Brasil, porque ele foi o caminho entre a sua terra e a elite dos italianos: Garibaldi, mas, antes dele, Zambeccari, que levava a Cuneo e a Rossetti. A escolha de Zambeccari como secretário, por parte de Bento Gonçalves, diz alguma coisa a respeito da cultura e a distinção do espírito deste oficial, rico proprietário, expressão elevada da cultura da sua terra. Ele é a imagem perfeita do caudilho na qual Garibaldi sempre se inspirará, homem livre e iluminado, herdeiro direto do grande Bolívar. A casa de Caprera é, para mim, a realização de um sonho de proprietário de uma estância, livre na sua ilha, e onde, como diria Garibaldi, “Daqui contemplo o infinito”, como nas imensas terras americanas, de quem Caprera reúne muito da infinita beleza.

Mas os protagonistas italianos da Revolução Farroupilha não entraram, até agora, no mito, que parece ter-se concentrado todo em Garibaldi, herói romântico. Pode-se esperar que desse importante encontro se sobrassaia a realidade de um grupo de personalidades excepcionais, todas indispensáveis ao intento. Somente através de sua ação coletiva – homens e idéias – se explica que um homem que tinha respirado por 14 anos o ar do Brasil e do Uruguai possa ter sido, justamente graças a isso, um dos maiores artífices da unificação da Itália.

 
 
 
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