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A Revolução Farroupilha e o Uruguai 1


Enrique Mena Segarra
_________________________________________________
Historiador, Diretor do Museu Histórico Nacional do Uruguai


Ao iniciar, quero dizer que meu ponto de vista é o uruguaio. Creio que minha melhor contribuição para este seminário é transmitir-lhes algumas noções sobre a história de meu país, a partir de um enfoque conceitual, às vezes cronológico. Pelo que li, trata-se de uma história um pouco alterada e maltratada em alguns textos brasileiros.

Há uma relação dialética entre o Rio Grande do Sul e o Uruguai dada pela história. São povos vinculados pela geografia, pelo regime econômico e pelos costumes. No Rio Grande do Sul, há uma história luso-brasileira. No Uruguai, transparece o lado hispano e rio-pratense. Uma terra de fronteiras que encostam umas nas outras, mas também se chocam, e que a história por vezes une.

Quando começou a Revolução Farroupilha, o governo do Uruguai era presidido pelo general Manuel Oribe. Recordemos que o país tinha apenas sete anos de independência e cinco de vida constitucional. Mas, vamos aos antecedentes imediatos, de 1835. Refiro-me à revolução de Artigas, que começou em 1811, e teve como meta a implantação do federalismo, ou seja, a organização das províncias emancipadas da Espanha, em pé de igualdade e com laços federativos. A revolução oriental conduzida por Artigas, entretanto, derivou rapidamente ao radicalismo.

Iria Artigas querer uma independência das terras que depois seriam chamadas de República Oriental do Uruguai? Jamais. Esse nunca foi seu desejo. Além disso, quando foi estabelecida a República, e ele, em seu longo exílio paraguaio de 30 anos, foi convidado a voltar para sua pátria, essa, então isolada, já não era a pátria que ele almejara.

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1 Texto transcrito e traduzido do espanhol para o português da conferência proferida no Seminário Internacional “170 Anos da Revolução Farroupilha – o Legado de Bento Gonçalves, Garibaldi e Anita” e revisado pelo autor.

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Artigas projetou a união federal de todas as províncias. Provavelmente, contava-se entre elas o Rio Grande. Sabemos que Artigas tinha aliados no Rio Grande. Mas estamos muito mal informados com relação às entidades envolvidas e a profundidade dessas relações. Isso deve valer como um simples ponto de referência que permanece em aberto para pesquisas mais aprofundadas.

No ano de 1815, no plano social e econômico, concretizou-se o regulamento da Província Oriental para a repartição das terras. Isso era uma novidade para a revolução hispano-americana e só encontra parâmetro na primeira etapa da revolução mexicana, na época de Hidalgo. Cabe dizer que, quando ocorre a invasão lusitana, no ano de 1816, o temor à expansão desse republicanismo radical na região não era apenas um pretexto: era uma causa real.

Outras causas são também conhecidas. Uma delas era o velho desígnio português de chegar ao Rio da Prata, considerado como fronteira natural, se é que existe realmente algo natural em matéria de fronteiras. Eu penso que não. Mas, somando-se a isso, surge o temor do contágio através de uma ideologia que alterava as próprias bases da estrutura social. Em pouco tempo, o general Carlos Frederico Lecor, à frente de suas tropas, tomou Montevidéu. Começa, então, o período Cisplatino, chamado assim na história uruguaia, que compreende a etapa de 1817 a 1828, durante o qual a Província Oriental teve primeiro o governo português e, depois, o brasileiro, como resultado da independência do Brasil.

Como foi recebida a invasão portuguesa? Aqui nós temos um fator principal: o general Lecor e seus homens são bem-vindos a Montevidéu, apesar da intensa resistência a eles na Campanha. Por que foram bem recebidos? Porque a classe alta sentia-se afetada pela revolução radical na base de sua subsistência, que era a propriedade de terras. Quando essa revolução começa a distribuir terras, nenhum proprietário se sente seguro, dadas as limitações que essas divisões acarretariam. E, além disso, esse patriciado, como se chamava a classe alta em Montevidéu, alimentava grandes esperanças em uma abertura comercial que possibilitasse o protagonismo nas trocas com a Europa. Isso quer dizer que, inicialmente, havia colaboração da classe alta, enquanto que, na Campanha, no campo oriental do Uruguai, muitos patriotas combatiam os portugueses em uma guerra sangrenta.

O término dessa guerra permitiu o surgimento de um personagem determinante durante um quarto de século ou mais, a figura de Fructuoso Rivera. Ele foi o último dirigente militar, o último caudilho de fato, que manteve a resistência oriental. Ele se rende a Lecor, mas de uma forma negociada, mediante um pacto. O acordo se deu na Convenção de Tres Arboles, que foi seguida pelo encontro de Guadalupe, no qual ele mesmo ficou cara-a-cara com Lecor para consolidar as bases pactuadas.

Mas que bases eram essas? Por um lado, a promessa dos portugueses de respeitar a situação rural da forma como se encontrava. Por outro, havia a posição pessoal de Rivera. Por quê? O caudilho inseria-se entre o governo português e o povo “criollo” da Campanha. Esse caudilho comandaria em nome do rei de Portugal, e, dessa forma, estenderia sua proteção aos proprietários que receberam terras de Artigas. Como é possível perceber, essa proteção, porém, era condicionada à fidelidade ao novo caudilho, Rivera. Aquele que não acatasse sua autoridade, não teria sua proteção. O elemento protetor é essencial na relação entre o caudilho e a massa.

O processo da etapa Cisplatina levou a uma grande reticência, que foi crescendo entre o patriciado de Montevidéu, que não encontrou os benefícios que almejava. Os historiadores uruguaios e rio-grandenses podem me corrigir se eu estiver errado, mas o fato é que, ao começar a invasão portuguesa, havia 13 estaleiros no Rio Grande do Sul. Já no ano de 1825, havia 120. Isso demonstrava uma grande drenagem do gado oriental em direção ao Rio Grande. Os benefícios comerciais que o patriciado de Montevidéu achava que poderia encontrar, portanto, não se concretizaram.

Hoje sabemos bem como eram as relações entre Portugal e a Grã-Bretanha. A praça foi dominada pelos comerciantes ingleses, e não pelos orientais e uruguaios, nem sequer pelos portugueses. Criou-se, então, um ambiente propício para a cruzada dos “33”, que começou com um desembarque, em abril de 1825. Qual era o objetivo? Aqui está um ponto-chave, que até no Uruguai às vezes é mal compreendido, sobretudo do ponto de vista das festas e comemorações patrióticas. O que buscavam essas pessoas em 1825? Quem era o alvo de suas proclamações?

Lavalleja, no ato de pisar as terras de sua pátria, se dirige aos “argentinos orientais”, ou seja, “argentinos do leste”. O objetivo da Revolução de 1825 concretizou-se nas leis ditadas pela Assembléia de Florida, no dia 25 de agosto do mesmo ano. Ao meu ver, é algo que se considera erroneamente em meu país como o Dia da Independência Nacional. Foi uma independência, mas provinciana, e não nacional.

Em ato simultâneo, nessa sessão da Assembléia, ditou-se uma primeira lei que é a de independência. Independência do rei de Portugal, imperador do Brasil, ou de qualquer outro soberano do universo? O Brasil, obviamente, já era independente, de modo que havia uma alteração na ordem política. Mas, estávamos, de certa forma, sob a égide da independência brasileira.

A segunda lei é a da união com as Províncias Unidas do Rio da Prata, a que “sempre pertenceu em nome dos laços mais sagrados que o mundo conhece”. Esse era o pensamento da Assembléia, não um mero fingimento como alguns sempre falavam – a verdadeira independência provincial. É através de cada uma delas que se dá a integração original nas Províncias Unidas do Rio da Prata. Primeiro veio a batalha de Rincón, em que Rivera derrotou dois oficiais brasileiros. E, depois, a grande batalha “criolla” de Sarandi, no dia 12 de outubro de 1825, em que Lavalleja e Rivera derrotaram Bento Gonçalves e Bento Manuel Ribeiro, que, então, combatiam sob o pavilhão brasileiro. Esse acontecimento militar motivou o Congresso de Buenos Aires a aprovar a lei de incorporação da Província Oriental às Províncias Unidas, aceitando, assim, as leis de 25 de agosto. O fato provocou uma guerra entre as Províncias Unidas e o Império. O exército que se formou sob o comando de Martín Rodriguez, para atuar na campanha contra o Brasil, ganhou o nome de Exército Republicano, não por casualidade.

Esse exército disseminou o ideário republicano no Rio Grande do Sul e, dessa maneira, durante o transcurso da guerra, Lavalleja e o sacerdote José Antonio Caldas, brasileiro republicano, vincularam-se aos dirigentes liberais rio-grandenses, civis e militares. O que buscava Lavalleja com essas vinculações, com esses nexos? Ele queria provocar a secessão da Província do Rio Grande, certamente para integrá-la sob o laço federal. Isso se confirmaria no ano de 1828.

Rivera, por sua vez, apegou-se à revolução de 1825 de uma forma até anedótica, pitoresca. Ele sempre manteve a “sua independência”. Até o ponto que fugiu da Província Oriental e refugiou-se em Entre Ríos, na Argentina. Tanto Lavalleja como o governo portenho supunham que Rivera convivia de alguma forma com os imperiais. E realmente havia uma convivência, mas não era com eles e sim com os rio-grandenses. Por um lado, Lavalleja; por outro, Rivera, procuravam a mesma coisa, embora cada um a seu modo.

Quando, em 1828, Rivera invade as missões orientais e as ocupa, reúne um congresso em São Borja, que declara sua independência e incorporação às Províncias Unidas do Rio da Prata. Ou seja, o mesmo modelo político que havia sido utilizado no ano de 1825 na Província Oriental. Naquele momento, Rivera supunha que esse exemplo poderia se estender a todo o Rio Grande. Confirmando essa idéia, o diplomata britânico Lord Ponsonby informava a George Canning que “a maioria dos rio-grandenses estava ansiosa por se insurgir contra o imperador”.

Não houve plebiscito para saber quem desejava se integrar às Províncias Unidas ou se tornar independente, se a maioria ou a minoria. Embora rivais entre si, os dois caudilhos principais do Uruguai concordavam com o propósito de propiciar a secessão do Rio Grande. E isso por razões permanentes, que iam além da conjuntura bélica que encontraram. Havia o temor em relação à enorme magnitude do Brasil e, portanto, de sua influência incontestável sobre os países vizinhos. Isso ocorria pela facilidade de trânsito entre as províncias brasileiras e a oriental, de forma que uma expansão brasileira seria, em primeiro lugar, meridional.

Tanto foi assim que, muito posteriormente, no ano de 1864, em que mais uma vez ocorreram crises nas relações entre o Uruguai e o Brasil, foi publicado, em Montevidéu, um folheto de 47 páginas intitulado “Verdadeiro perigo das Repúblicas do Prata”. Em sua maior parte, esse texto é uma explicação histórica que sublinha o risco de ter uma fronteira com o império brasileiro, e insiste na conveniência de incentivar a independência do Rio Grande. Essa idéia, portanto, perdurou por décadas.

Mas, como reflexo de uma complexa relação de poder militar e equilíbrio de forças, a diplomacia britânica trabalhava para obter a paz e terminar com o conflito que obstaculizava o desenvolvimento de seu comércio. Isso levou à Convenção Preliminar de Paz, de 28 de agosto de 1828, que teve como parte fundamental a independência de um novo Estado, que foi chamado de Estado de Montevidéu, mas que, na Constituição de 1830, seria chamado de Estado Oriental do Uruguai e, depois, pelo uso, de República Oriental. Foi um Estado que nasceu em circunstâncias anormais. E, quero frisar bem: sem limites estabelecidos, isto é, com uma indeterminação geográfica. Não se sabia onde acabava a soberania oriental e onde começava a soberania dos vizinhos. Isso não era problema com as Províncias Unidas, com a Argentina, porque ali estava o Rio Uruguai como delimitador.

Mas, onde era o limite terrestre com o Brasil? Não estava fixado. A Convenção Preliminar de Paz não definia isso. Portanto, a nascente diplomacia uruguaia tinha como objetivo essencial estabelecer um favorável tratado de limites. Mas até que ponto isso seria possível? Até que linha? Até a linha de Santo Ildefonso? Definir os limites era o objetivo da diplomacia uruguaia. Esse mesmo fato complicou nossas relações além das fronteiras porque não era possível, então, pensar apenas em relações bilaterais com o Brasil. O Rio Grande detinha personalidade e interesses próprios que o convertiam em fator que sempre deveria ser levado em conta.

Tais fatos nos conduzem a outro ponto crucial para nossa história: nascemos para a vida independente sem um sentimento de nacionalidade. Claramente, em toda a região, os estados precederam as nações. Existia um sentimento nacional em todo o Brasil, desde o Pará até o Rio Grande, desde Pernambuco até o Mato Grosso? Suspeito que não. E garanto que tampouco havia um sentimento de nacionalidade na Argentina, e menos ainda no Uruguai. Deu-se ali um fenômeno próprio daquela epoca: as alianças entre partidos mais ou menos afins em suas orientações, que passavam por cima de fronteiras puramente teóricas, quando não inexistentes.

Em 1842, em plena Guerra Grande, quando era de se supor que nosso país, independente há 14 anos, tivesse uma nacionalidade mais consolidada, Rivera, o presidente do Uruguai, e o governador da Província de Corrientes, Pedro Ferré, em troca de correspondência, dão-se mutuamente o tratamento de “estimado compatriota”. Poderia um presidente do Uruguai se dirigir a um hierárquico argentino como compatriota? Claro que não! E mais, em 1835, quando Oribe assumiu o poder, escreveu ao coronel Correa Morales, que era agente do governo de Rosas em Montevidéu, dizendo-lhe: “Você sabe que sou federal de coração”. Referia-se ao federalismo do partido argentino. Seria como mesclar soberanias e simpatias políticas num coquetel totalmente insosso, que não poderia ser ingerido. Isso era o que acontecia. Não havia um sentimento nacional generalizado.

Dessa maneira, a época nos dá um estranho espetáculo das alianças partidárias trans-fronteiriças. Alianças de farrapos com orientais, de caramurus e orientais, ou federalistas argentinos e “blancos” orientais, de unitários argentinos e “colorados” orientais, segundo as divisões e orientações que existiam também dentro do nosso país. Ou seja, um entrecruzamento de lealdades, passando por cima das fronteiras hipotéticas.

Desde o princípio, porém, existia desconfiança. Em março de 1829, encontramos uma carta de Pedro Trápani, que se dirigia a Lavalleja. Mas, antes de falar dela quero dizer uma palavra sobre Trápani. Ele era o cérebro de Lavalleja, o seu guru político. Lavalleja não era um homem de muita visão e nem de largos horizontes. Era, sim, um grande guerreiro, que lutava com bravura. Mas Trápani pensava politicamente por ele. No sentido ideológico, foi o verdadeiro pai da independência oriental, fato que, lamentavelmente, é tão esquecido em nosso país. Trápani escreveu para Lavalleja sobre um reforço de tropas imperiais dirigidas ao Rio Grande e Santa Catarina. Diziam, no Rio de Janeiro, “que o imperador sabia que Fructuoso e Tomás García de Zúñiga seguiam seu plano de agregar as províncias de São Pedro e Rio Pardo ao Estado Oriental. Não sei se isso era verdade ou apenas conversa”.

Pouco depois, Trápani insiste no mesmo tema: “essas tropas (...) embora algum dia pudessem servir contra nós, agora servem para conter seus próprios súditos em ordem, guardar suas fronteiras e evitar que a anarquia se introduza em seus domínios, pois sempre esperam que logo os orientais se tornarão anárquicos e montoneros. Deus queira que tal coisa não aconteça”. Mas aconteceu, lamentavelmente. 

A grande habilidade política de Rivera permitiu-lhe assumir a primeira presidência constitucional do Uruguai. Quase ocorreu uma guerra civil, quando a Constituição ainda não havia sido jurada. Então, termina a disputa do chamado “pacto dos compadres”, porque Lavalleja e Rivera eram compadres entre si. Rivera foi padrinho de casamento de Lavalleja.

Conforme o acordo dos generais, em 18 de julho de 1830, foi promulgada a Constituição da República. Lavalleja, então, ficou como governador provisório até que entrassem em jogo as instituições determinadas pela Constituição. Rivera ficou como comandante-geral da Campanha. Quem ganhou foi Rivera, pelas condições e forma como as eleições ocorriam naqueles tempos. Tanto é assim que os deputados do interior sempre eram mais numerosos que os de Montevidéu por razões constitucionais. Se os deputados de Montevidéu eram por Lavalleja, os do interior eram por Rivera. Os do interior, por pressão, foram escolhidos a partir do compromisso de apoiar Rivera. Então, ele foi escolhido pela Assembléia Geral. Essa dicotomia entre o campo e a cidade se mantém até hoje.

Durante sua gestão na presidência, Rivera privilegiou aqueles que, como ele, haviam servido ao Império, o chamado Círculo Imperial, ou Assembléia Imperial, na etapa Cisplatina. Desta forma, foram marginalizados os patriotas de 1825, que reconheciam Lavalleja como caudilho. Ele, então, insurgiu-se em armas, em 1832, e, a partir deste momento, restabeleceu seus contatos com os liberais do Rio Grande. Formulou uma série de promessas que somente poderia cumprir se vencesse Rivera, o que não sucedeu. De qualquer modo, encontrou no Rio Grande base logística e apoio armado.

Do outro lado do Rio da Prata, crescia, de maneira avassaladora, a influência daquele que seria a figura de proa nos acontecimentos futuros, o governador de Buenos Aires, Juan Manuel de Rosas. Rivera, por sua vez, mantinha íntimos laços com os emigrados unitários de Lavalle. Quando Lavalleja volta a invadir, em 1834, seu exército é chamado de “Restaurador”.

Cumpridos os quatro anos do mandato presidencial, que terminaram em outubro de 1834, surgiu um lapso de tempo que resultou do fato de que o presidente deveria ser escolhido em uma sessão da Câmara no dia 1° de março de 1835. Nesse interregno, Rivera se fez designar comandante-geral da Campanha, cargo que o convertia em verdadeiro presidente paralelo, já que controlava todas as tropas que estavam fora de Montevidéu. Verdadeiramente havia um outro mandatário.

No dia 1º de março de 1835, o general Manuel Oribe foi eleito por unanimidade da Assembléia Geral como o segundo presidente da República. Não é verdade que devesse sua eleição à influência de Rivera, como este pretendeu depois. Oribe venceu porque o patriciado que integrava as câmaras queria um governo de ordem, sem revoluções e, além disso, um governo honesto.
Entretanto, com uma mistura de carisma e idoneidade, Rivera nunca soube diferenciar entre os fundos do Estado e os seus próprios fundos. Na época, um tribunal de contas encontrou 174 motivos para ações contra a gestão financeira de Rivera.

Oribe foi o primeiro presidente que assumiu o governo do Uruguai com um plano orgânico para um país independente, ou seja, com uma idéia, uma arquitetura própria. Para isso, era necessário que o Uruguai se desligasse dos conflitos que agitavam a Argentina e o Brasil. Ele reorganizou as finanças que estavam em estado desastroso desde a gestão de Rivera. A aposentadoria, a universidade, tudo necessitava ser organizado no país. Mas isso dependia de duas circunstâncias que não se concretizaram. A primeira era a unidade do poder. E ali estava Rivera. A segunda, manter-se neutro nos conflitos de fronteira. Nada disso foi possível.

A ampla maioria da opinião pública uruguaia simpatizava com a Revolução Farroupilha. Em setembro ou outubro de 1835, Lavalleja escreveu ao presidente Oribe: “Confesso a V. que sou muito amigo do Coronel Bentos [como se diz no Uruguai, ele se refere a Bento Gonçalves,] que celebrarei infinitamente o êxito da revolução que ele empreendeu. Em primeiro lugar, porque com isso deve ganhar a causa da liberdade e o sistema americano; em segundo, porque teremos como vizinho um estado pequeno, igual às nossas forças, ao qual não podemos temer. Não (seria) assim se o império permanecesse de pé, pois sempre haveria ambiciosos que quisessem nos colocar sob o jugo, que à força de tantos sacrifícios soubemos romper. É por isso que não tenho porque negar a minha opinião, pois eu acho que deve ser a de todos os meus compatriotas. Já que não é dado proteger a uma porção de americanos que querem ser livres, deixemos que eles conquistem então o precioso bem. E não vamos nos intrometer em suas questões, e guardemos a neutralidade que nos convém.”

Assim mesmo, Lavalleja continuava com seus contatos rio-grandenses. Isso ele demonstrava numa carta de dezembro de 1835, que recebeu do rio-grandense José Gonçalves de Vasconcelos Jardim, que dizia:

“As reflexões de Vossa Excelência sobre os acontecimentos ocorridos nesta capital, o modo de pensar de Vossa Excelência acerca deles, os seus sentimentos, tudo patente ao caráter ilustre do americano que arrancou das garras do despotismo o brioso Estado Oriental do Uruguai. Sim, meu bom amigo, eu me congratulo com Vossa Excelência pelo triunfo que alcançou a causa da liberdade nesta provincia, tanto tempo vítima do despotismo e caprichos de dois perversos à toda prova.”

Oribe, cujo distanciamento com Rivera era cada vez maior, por razões já mencionadas, pretendeu sinceramente manter a neutralidade. Naquela época, porém, manter a neutralidade era impossível. Como controlar uma fronteira de centenas de quilômetros, mais do que flutuante e pouco habitada? Ele precisaria de milhares de soldados para isso. Uma das medidas de Oribe havia reduzido o exército para economizar recursos do orçamento militar. Além disso, Oribe não tinha nenhuma relação com os caudilhos rio-grandenses. Tampouco era um caudilho. Ele sugeriu, então, a Almeida Vasconcellos, encarregado de negócios do Brasil em Montevidéu, que os governos legais do Uruguai e do Rio Grande ajudassem um ao outro diante das tentativas revolucionárias de ambos os lados.

Em outubro, Oribe marchou pessoalmente à fronteira de Cerro Largo pois, naturalmente, desconfiava das intenções de Rivera e de Lavalleja. Lá, encontrou-se com o comandante-geral da Campanha. Uma testemunha, que depois seria o famoso Andrés Lamas, secretário de Rivera, disse que pareciam dois acampamentos inimigos porque Rivera, na época, andava revivendo velhos sonhos regionalistas. Alimentava a idéia de uma regionalização que tivesse como eixo o Estado Oriental, com seu porto de Montevidéu, e que abrangesse o Rio Grande do Sul e a Mesopotâmia argentina, as provincias de Entre Ríos e Corrientes. E não falava de Missiones, porque havia perdido seu caráter de província nos últimos anos.

Em meados de 1836, Rivera levantou-se em armas contra o governo de Oribe. Recebeu a cooperação armada dos unitários argentinos exilados, liderados pelo general Lavalle. Assim, surgem as duas bandeiras, a branca, por Oribe, e a vermelha, por Rivera. Foi na batalha de Carpinteria que, pela primeira vez, enfrentaram-se em combates as duas divisas, em setembro de 1836. Rivera e Lavalle refugiaram-se no Rio Grande, acompanhados de 400 homens, que, então, entraram para o serviço imperial. Mas Rivera sempre jogou com duas cartas, de forma que voltou a entrar em contato com os dirigentes farrapos, sobretudo quando Bento Manuel Ribeiro abraçou a causa revolucionária. Em Piratini, o coronel argentino Martiniano Chilavert, delegado de Rivera, negociou com José Mariano de Mattos uma fórmula de cooperação militar (junho de 1837). E não devemos esquecer que grupos de combatentes farrapos entravam e saiam permanentemente do territorio uruguaio.

Na mesma época, aproximadamente, o governo de Oribe resolveu estabelecer negociações com o governo do Rio de Janeiro, enviando para lá Carlos G. Villademoros. Suas instruções encaminhavam para a assinatura de um tratado de limites que reconhecesse os direitos territoriais do Uruguai, até pelo menos a linha do Rio Ibiqüí, se não fosse possível atingir a linha de Santo Ildefonso. Posteriormente a este, poderiam assinar um tratado de aliança que estabeleceria a colaboração de ambos os governos, uruguaio e brasileiro, contra os seus respectivos revolucionários. Esse tratado de aliança era o que interessava ao chanceler imperial. Ou seja, existia uma inversão de prioridades. Para o Uruguai, primeiro o tratado de limites e depois o tratado de alianças. Para o Brasil, primeiro o tratado de alianças e depois o tratado de limites. As negociações foram árduas.

Abria-se a possibilidade de um acordo quando chegou ao Rio de Janeiro uma notícia horrível. Rivera não somente havia invadido o Uruguai, mas também havia derrotado as forças do governo de Oribe na batalha de Yucutujá, em 1837. Isso marcava a instabilidade do governo uruguaio, que provocou, logicamente, o desinteresse do governo imperial na negociação, prevendo que o governo uruguaio pudesse cair a qualquer momento.

Por outro lado, a aliança entre Rivera e os farrapos pareceu se consolidar em agosto de 1838, com a assinatura de um tratado redigido pelo mesmo Andrés Lamas, firmado por Chilavert e de Mattos, representantes das partes, no arroio Cangüé, no acampamento de Rivera. Pelos termos, a República Rio-grandense reconhecia o sublevado Rivera como única autoridade existente no Uruguai. Por sua vez, Rivera reconhecia a independência do Rio Grande e se manifestava em estado de guerra contra seus inimigos. Não era pouco. Rivera prometia, além disso, que faria imediatamente um tratado de aliança ofensivo e defensivo com o governo de Piratini. Foram acrescentadas várias cláusulas de ordem militar, que “arrumavam” as fronteiras que juridicamente nem existiam, dado que permitiam a passagem, sem obstáculos, do exército de Rivera para o Rio Grande, e do exército farrapo para a República Oriental.

É provável que, naquela data, grande parte da Campanha já estivesse sob o controle de Rivera. Mas existiam dois artigos secretos adicionais no acordo com os farrapos. O segundo deles dizia o seguinte: “O general-em-chefe defensor da Constituição [assim se intitulava Rivera] obriga-se por si, para o povo e o exército a quem representa, a não descer jamais da cadeira da Presidência nos termos marcados pela lei sem passar imediatamente a ocupar o lugar de comandante-geral da Campanha da República Oriental com as atribuições conferidas até aqui legalmente a este emprego e nunca menos, a fim de que possa suceder, ao seu turno, o seu próprio sucessor na cadeira da Presidência quando este dela descer; e assim sucessivamente passará de presidente a comandante-geral da Campanha a presidente, por todo o tempo que durasse a atual guerra gloriosamente sustentada pelo povo rio-grandense.”    

Aqui surge o conceito de Rivera sobre poder político, um conceito patrimonial. Ele se considerava o governante natural do Uruguai, e não queria violar demais a Constituição, porque as violações repetidas são mal vistas. Ele colocava vários fantoches que manipulava e se intitulava como General da Campanha.

Na batalha de Palmar, no ano de 1838, Oribe foi derrotado por Rivera e Lavalle, e se viu reduzido a Montevidéu. Ali recebeu um último e inesperado golpe. A França estava em conflito com o governador Rosas, de Buenos Aires. A frota do almirante Leblanc precisava de uma base com rapidez. Então, ele estava impedido de estabelecer a Argentina como base de suas operações, que não poderia ser outra senão Montevidéu. De maneira agressiva, Leblanc exigiu que o presidente Oribe lhe permitisse utilizar o porto de Montevidéu para suas operações militares. Oribe não concordou.

Se Oribe tivesse cedido, seu governo teria se salvado. Mas negou-se a trair a causa americana com a qual estava profundamente envolvido, em troca de uma possível ajuda francesa contra Rivera. A causa americana, entretanto, acabava resultando em muitos benefícios para o imperialismo europeu. Na ocasião, a França seguia a saga da Inglaterra, e passara a acentuar suas ações coloniais desde 1830, quando conquistou a Argélia. Em 1838, combateu com o México na chamada Guerra dos Pastéis e, no mesmo ano, atacou a Confederação Argentina.

Assim, os franceses, ao desembarcarem em Montevidéu, provocaram a queda de Oribe, que se refugiou em Buenos Aires, onde Rosas o reconheceu como presidente legal, em outubro de 1838. A França financiou Rivera, que ocupou o poder, acompanhado de seus aliados: os unitários, os franceses e os farrapos. Os unitários estavam dentro do seu exército formando as unidades melhor organizadas ao mando de Lavalle. Além disso, os militares e civis argentinos sustentavam em Montevidéu a chamada Comissão Argentina, que tinha muita influência na imprensa e nos meios políticos do Partido Colorado, formado por Rivera. Os franceses mantinham a frota dentro de Montevidéu. Se quisessem, teriam destruído a cidade, e, além disso, sustentavam Rivera financeiramente. Ele conseguiu extrair dos franceses a fabulosa soma de 100 mil francos. Poderia romper com os unitários? Não. Poderia romper com os franceses? Não. Poderia romper com os farrapos? Sim! Assim o fez, começando, em seguida, uma tratativa com o governo imperial para deles se desligar.

Contudo, as pressões dos franceses e dos unitários foram muito fortes sobre Rivera. Em fevereiro de 1839, ele teve que declarar guerra ao governador Rosas, em conflito com a França, assim intervindo diretamente nas guerras civis da Confederação Argentina.

Rivera, entretanto, sempre quis fazer a paz. Ele não tinha nenhum interesse verdadeiro na guerra contra Rosas. O Uruguai já havia limitado suas ambições em relação ao tema. Mas Rivera acabou atingido por uma desgraça, porque Lavalle organizara-se, em Montevidéu, para atacar Rosas, contando com a conivência de importantes políticos.

Tal manobra foi chamada por Rivera, em uma carta indignada, de “a famosa manganeta do perverso Lavalle”. “Manganeta” significa um ardil, o famoso engano de Lavalle, que, antigamente, era tão seu amigo e colaborador. A guerra transferiu-se para o território argentino. Novamente surgia uma outra contradição, porque o general Oribe, que continuava ostentando a condição de presidente da República Oriental do Uruguai, foi designado por Rosas como comandante-em-chefe do Exército Unido de Vanguarda da Confederação Argentina.

Era a Guerra Grande. Outra vez enfrentavam-se Rivera e Oribe. Curiosamente, dois homens que se intitulavam presidentes do Uruguai combatiam no território argentino, situação que perdurou até a terrível batalha de Arroyo Grande, em dezembro de 1842. Foi uma epopéia trágica para Lavalle. Perseguido por Oribe, derrotado nas batalhas de Quebracho Herrado e de Famaillá, na Província de Tucumán, Lavalle fugiu e morreu, de uma forma que nunca ninguém conseguiu esclarecer. Com tudo isso, a atenção se desviou dos acontecimentos do Rio Grande, enquanto havia um outro cenário em primeiro plano.

Um acontecimento pessoal, nesse período, vinculou a cidade de Montevidéu com os fatos rio-grandenses. No início de 1842, Giuseppe Garibaldi chegara a Montevidéu e se colocara à disposição do governo Colorado. Vinha acompanhado por Anita e pelo pequeno Menotti. Ele já havia visitado as costas orientais em 1837, quando exercia sua carta de corsário em nome da República de Piratini.

Em fevereiro de 1843, o exército de Oribe, composto por uruguaios e argentinos, no começo mais argentinos que uruguaios, estabeleceu o sítio de Montevidéu. Naquele momento, os farrapos já estavam na defensiva e em seu ocaso. Não mais poderiam influenciar no Rio da Prata, nem sua aliança era desejável para nenhum dos lados em choque. No entanto, a convivência econômica continuava. Como exemplo, o governador de Entre Ríos, Urquiza, grande latifundiário e fiel a Rosas, vendia gado aos farrapos por meio de um representante em Montevidéu. Em troca, pedia charque, que passava por Montevidéu antes de chegar ao seu destino final, que era alimentar o exército imperial. Esse era um negócio muito próspero.

Assim, o futuro protagonista da influência brasileira no Rio da Prata será o império. Mas com uma ressalva, como anunciou no Rio de Janeiro, em 1844, o ministro uruguaio Francisco Magariños: “O governo brasileiro não se atreve a se comprometer no exterior sem haver terminado a luta na Província de São Pedro”. Isso significava que, para o governo no Rio de Janeiro, era necessário vencer em definitivo a resistência farroupilha. Depois sim, teriam o caminho livre, para reunificar todo o território do Brasil, sob o mando do governo carioca. O império se preparava para influenciar sobre os conflitos platinos, como em pouco tempo passou a ocorrer.

 
 
 
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