| A Revolução
Farroupilha e o Uruguai 1
Enrique Mena Segarra
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Historiador, Diretor do Museu Histórico Nacional
do Uruguai
Ao iniciar, quero dizer que meu ponto de vista é o
uruguaio. Creio que minha melhor contribuição
para este seminário é transmitir-lhes algumas
noções sobre a história de meu país,
a partir de um enfoque conceitual, às vezes cronológico.
Pelo que li, trata-se de uma história um pouco alterada
e maltratada em alguns textos brasileiros.
Há uma relação dialética entre
o Rio Grande do Sul e o Uruguai dada pela história.
São povos vinculados pela geografia, pelo regime econômico
e pelos costumes. No Rio Grande do Sul, há uma história
luso-brasileira. No Uruguai, transparece o lado hispano e
rio-pratense. Uma terra de fronteiras que encostam umas nas
outras, mas também se chocam, e que a história
por vezes une.
Quando começou a Revolução Farroupilha,
o governo do Uruguai era presidido pelo general Manuel Oribe.
Recordemos que o país tinha apenas sete anos de independência
e cinco de vida constitucional. Mas, vamos aos antecedentes
imediatos, de 1835. Refiro-me à revolução
de Artigas, que começou em 1811, e teve como meta a
implantação do federalismo, ou seja, a organização
das províncias emancipadas da Espanha, em pé
de igualdade e com laços federativos. A revolução
oriental conduzida por Artigas, entretanto, derivou rapidamente
ao radicalismo.
Iria Artigas querer uma independência das terras que
depois seriam chamadas de República Oriental do Uruguai?
Jamais. Esse nunca foi seu desejo. Além disso, quando
foi estabelecida a República, e ele, em seu longo exílio
paraguaio de 30 anos, foi convidado a voltar para sua pátria,
essa, então isolada, já não era a pátria
que ele almejara.
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1 Texto transcrito e traduzido do espanhol para o português
da conferência proferida no Seminário Internacional
“170 Anos da Revolução Farroupilha –
o Legado de Bento Gonçalves, Garibaldi e Anita”
e revisado pelo autor.
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Artigas projetou a união federal de todas as províncias.
Provavelmente, contava-se entre elas o Rio Grande. Sabemos
que Artigas tinha aliados no Rio Grande. Mas estamos muito
mal informados com relação às entidades
envolvidas e a profundidade dessas relações.
Isso deve valer como um simples ponto de referência
que permanece em aberto para pesquisas mais aprofundadas.
No ano de 1815, no plano social e econômico, concretizou-se
o regulamento da Província Oriental para a repartição
das terras. Isso era uma novidade para a revolução
hispano-americana e só encontra parâmetro na
primeira etapa da revolução mexicana, na época
de Hidalgo. Cabe dizer que, quando ocorre a invasão
lusitana, no ano de 1816, o temor à expansão
desse republicanismo radical na região não era
apenas um pretexto: era uma causa real.
Outras causas são também conhecidas. Uma delas
era o velho desígnio português de chegar ao Rio
da Prata, considerado como fronteira natural, se é
que existe realmente algo natural em matéria de fronteiras.
Eu penso que não. Mas, somando-se a isso, surge o temor
do contágio através de uma ideologia que alterava
as próprias bases da estrutura social. Em pouco tempo,
o general Carlos Frederico Lecor, à frente de suas
tropas, tomou Montevidéu. Começa, então,
o período Cisplatino, chamado assim na história
uruguaia, que compreende a etapa de 1817 a 1828, durante o
qual a Província Oriental teve primeiro o governo português
e, depois, o brasileiro, como resultado da independência
do Brasil.
Como foi recebida a invasão portuguesa? Aqui nós
temos um fator principal: o general Lecor e seus homens são
bem-vindos a Montevidéu, apesar da intensa resistência
a eles na Campanha. Por que foram bem recebidos? Porque a
classe alta sentia-se afetada pela revolução
radical na base de sua subsistência, que era a propriedade
de terras. Quando essa revolução começa
a distribuir terras, nenhum proprietário se sente seguro,
dadas as limitações que essas divisões
acarretariam. E, além disso, esse patriciado, como
se chamava a classe alta em Montevidéu, alimentava
grandes esperanças em uma abertura comercial que possibilitasse
o protagonismo nas trocas com a Europa. Isso quer dizer que,
inicialmente, havia colaboração da classe alta,
enquanto que, na Campanha, no campo oriental do Uruguai, muitos
patriotas combatiam os portugueses em uma guerra sangrenta.
O término dessa guerra permitiu o surgimento de um
personagem determinante durante um quarto de século
ou mais, a figura de Fructuoso Rivera. Ele foi o último
dirigente militar, o último caudilho de fato, que manteve
a resistência oriental. Ele se rende a Lecor, mas de
uma forma negociada, mediante um pacto. O acordo se deu na
Convenção de Tres Arboles, que foi seguida pelo
encontro de Guadalupe, no qual ele mesmo ficou cara-a-cara
com Lecor para consolidar as bases pactuadas.
Mas que bases eram essas? Por um lado, a promessa dos portugueses
de respeitar a situação rural da forma como
se encontrava. Por outro, havia a posição pessoal
de Rivera. Por quê? O caudilho inseria-se entre o governo
português e o povo “criollo” da Campanha.
Esse caudilho comandaria em nome do rei de Portugal, e, dessa
forma, estenderia sua proteção aos proprietários
que receberam terras de Artigas. Como é possível
perceber, essa proteção, porém, era condicionada
à fidelidade ao novo caudilho, Rivera. Aquele que não
acatasse sua autoridade, não teria sua proteção.
O elemento protetor é essencial na relação
entre o caudilho e a massa.
O processo da etapa Cisplatina levou a uma grande reticência,
que foi crescendo entre o patriciado de Montevidéu,
que não encontrou os benefícios que almejava.
Os historiadores uruguaios e rio-grandenses podem me corrigir
se eu estiver errado, mas o fato é que, ao começar
a invasão portuguesa, havia 13 estaleiros no Rio Grande
do Sul. Já no ano de 1825, havia 120. Isso demonstrava
uma grande drenagem do gado oriental em direção
ao Rio Grande. Os benefícios comerciais que o patriciado
de Montevidéu achava que poderia encontrar, portanto,
não se concretizaram.
Hoje sabemos bem como eram as relações entre
Portugal e a Grã-Bretanha. A praça foi dominada
pelos comerciantes ingleses, e não pelos orientais
e uruguaios, nem sequer pelos portugueses. Criou-se, então,
um ambiente propício para a cruzada dos “33”,
que começou com um desembarque, em abril de 1825. Qual
era o objetivo? Aqui está um ponto-chave, que até
no Uruguai às vezes é mal compreendido, sobretudo
do ponto de vista das festas e comemorações
patrióticas. O que buscavam essas pessoas em 1825?
Quem era o alvo de suas proclamações?
Lavalleja, no ato de pisar as terras de sua pátria,
se dirige aos “argentinos orientais”, ou seja,
“argentinos do leste”. O objetivo da Revolução
de 1825 concretizou-se nas leis ditadas pela Assembléia
de Florida, no dia 25 de agosto do mesmo ano. Ao meu ver,
é algo que se considera erroneamente em meu país
como o Dia da Independência Nacional. Foi uma independência,
mas provinciana, e não nacional.
Em ato simultâneo, nessa sessão da Assembléia,
ditou-se uma primeira lei que é a de independência.
Independência do rei de Portugal, imperador do Brasil,
ou de qualquer outro soberano do universo? O Brasil, obviamente,
já era independente, de modo que havia uma alteração
na ordem política. Mas, estávamos, de certa
forma, sob a égide da independência brasileira.
A segunda lei é a da união com as Províncias
Unidas do Rio da Prata, a que “sempre pertenceu em nome
dos laços mais sagrados que o mundo conhece”.
Esse era o pensamento da Assembléia, não um
mero fingimento como alguns sempre falavam – a verdadeira
independência provincial. É através de
cada uma delas que se dá a integração
original nas Províncias Unidas do Rio da Prata. Primeiro
veio a batalha de Rincón, em que Rivera derrotou dois
oficiais brasileiros. E, depois, a grande batalha “criolla”
de Sarandi, no dia 12 de outubro de 1825, em que Lavalleja
e Rivera derrotaram Bento Gonçalves e Bento Manuel
Ribeiro, que, então, combatiam sob o pavilhão
brasileiro. Esse acontecimento militar motivou o Congresso
de Buenos Aires a aprovar a lei de incorporação
da Província Oriental às Províncias Unidas,
aceitando, assim, as leis de 25 de agosto. O fato provocou
uma guerra entre as Províncias Unidas e o Império.
O exército que se formou sob o comando de Martín
Rodriguez, para atuar na campanha contra o Brasil, ganhou
o nome de Exército Republicano, não por casualidade.
Esse exército disseminou o ideário republicano
no Rio Grande do Sul e, dessa maneira, durante o transcurso
da guerra, Lavalleja e o sacerdote José Antonio Caldas,
brasileiro republicano, vincularam-se aos dirigentes liberais
rio-grandenses, civis e militares. O que buscava Lavalleja
com essas vinculações, com esses nexos? Ele
queria provocar a secessão da Província do Rio
Grande, certamente para integrá-la sob o laço
federal. Isso se confirmaria no ano de 1828.
Rivera, por sua vez, apegou-se à revolução
de 1825 de uma forma até anedótica, pitoresca.
Ele sempre manteve a “sua independência”.
Até o ponto que fugiu da Província Oriental
e refugiou-se em Entre Ríos, na Argentina. Tanto Lavalleja
como o governo portenho supunham que Rivera convivia de alguma
forma com os imperiais. E realmente havia uma convivência,
mas não era com eles e sim com os rio-grandenses. Por
um lado, Lavalleja; por outro, Rivera, procuravam a mesma
coisa, embora cada um a seu modo.
Quando, em 1828, Rivera invade as missões orientais
e as ocupa, reúne um congresso em São Borja,
que declara sua independência e incorporação
às Províncias Unidas do Rio da Prata. Ou seja,
o mesmo modelo político que havia sido utilizado no
ano de 1825 na Província Oriental. Naquele momento,
Rivera supunha que esse exemplo poderia se estender a todo
o Rio Grande. Confirmando essa idéia, o diplomata britânico
Lord Ponsonby informava a George Canning que “a maioria
dos rio-grandenses estava ansiosa por se insurgir contra o
imperador”.
Não houve plebiscito para saber quem desejava se integrar
às Províncias Unidas ou se tornar independente,
se a maioria ou a minoria. Embora rivais entre si, os dois
caudilhos principais do Uruguai concordavam com o propósito
de propiciar a secessão do Rio Grande. E isso por razões
permanentes, que iam além da conjuntura bélica
que encontraram. Havia o temor em relação à
enorme magnitude do Brasil e, portanto, de sua influência
incontestável sobre os países vizinhos. Isso
ocorria pela facilidade de trânsito entre as províncias
brasileiras e a oriental, de forma que uma expansão
brasileira seria, em primeiro lugar, meridional.
Tanto foi assim que, muito posteriormente, no ano de 1864,
em que mais uma vez ocorreram crises nas relações
entre o Uruguai e o Brasil, foi publicado, em Montevidéu,
um folheto de 47 páginas intitulado “Verdadeiro
perigo das Repúblicas do Prata”. Em sua maior
parte, esse texto é uma explicação histórica
que sublinha o risco de ter uma fronteira com o império
brasileiro, e insiste na conveniência de incentivar
a independência do Rio Grande. Essa idéia, portanto,
perdurou por décadas.
Mas, como reflexo de uma complexa relação de
poder militar e equilíbrio de forças, a diplomacia
britânica trabalhava para obter a paz e terminar com
o conflito que obstaculizava o desenvolvimento de seu comércio.
Isso levou à Convenção Preliminar de
Paz, de 28 de agosto de 1828, que teve como parte fundamental
a independência de um novo Estado, que foi chamado de
Estado de Montevidéu, mas que, na Constituição
de 1830, seria chamado de Estado Oriental do Uruguai e, depois,
pelo uso, de República Oriental. Foi um Estado que
nasceu em circunstâncias anormais. E, quero frisar bem:
sem limites estabelecidos, isto é, com uma indeterminação
geográfica. Não se sabia onde acabava a soberania
oriental e onde começava a soberania dos vizinhos.
Isso não era problema com as Províncias Unidas,
com a Argentina, porque ali estava o Rio Uruguai como delimitador.
Mas, onde era o limite terrestre com o Brasil? Não
estava fixado. A Convenção Preliminar de Paz
não definia isso. Portanto, a nascente diplomacia uruguaia
tinha como objetivo essencial estabelecer um favorável
tratado de limites. Mas até que ponto isso seria possível?
Até que linha? Até a linha de Santo Ildefonso?
Definir os limites era o objetivo da diplomacia uruguaia.
Esse mesmo fato complicou nossas relações além
das fronteiras porque não era possível, então,
pensar apenas em relações bilaterais com o Brasil.
O Rio Grande detinha personalidade e interesses próprios
que o convertiam em fator que sempre deveria ser levado em
conta.
Tais fatos nos conduzem a outro ponto crucial para nossa história:
nascemos para a vida independente sem um sentimento de nacionalidade.
Claramente, em toda a região, os estados precederam
as nações. Existia um sentimento nacional em
todo o Brasil, desde o Pará até o Rio Grande,
desde Pernambuco até o Mato Grosso? Suspeito que não.
E garanto que tampouco havia um sentimento de nacionalidade
na Argentina, e menos ainda no Uruguai. Deu-se ali um fenômeno
próprio daquela epoca: as alianças entre partidos
mais ou menos afins em suas orientações, que
passavam por cima de fronteiras puramente teóricas,
quando não inexistentes.
Em 1842, em plena Guerra Grande, quando era de se supor que
nosso país, independente há 14 anos, tivesse
uma nacionalidade mais consolidada, Rivera, o presidente do
Uruguai, e o governador da Província de Corrientes,
Pedro Ferré, em troca de correspondência, dão-se
mutuamente o tratamento de “estimado compatriota”.
Poderia um presidente do Uruguai se dirigir a um hierárquico
argentino como compatriota? Claro que não! E mais,
em 1835, quando Oribe assumiu o poder, escreveu ao coronel
Correa Morales, que era agente do governo de Rosas em Montevidéu,
dizendo-lhe: “Você sabe que sou federal de coração”.
Referia-se ao federalismo do partido argentino. Seria como
mesclar soberanias e simpatias políticas num coquetel
totalmente insosso, que não poderia ser ingerido. Isso
era o que acontecia. Não havia um sentimento nacional
generalizado.
Dessa maneira, a época nos dá um estranho espetáculo
das alianças partidárias trans-fronteiriças.
Alianças de farrapos com orientais, de caramurus e
orientais, ou federalistas argentinos e “blancos”
orientais, de unitários argentinos e “colorados”
orientais, segundo as divisões e orientações
que existiam também dentro do nosso país. Ou
seja, um entrecruzamento de lealdades, passando por cima das
fronteiras hipotéticas.
Desde o princípio, porém, existia desconfiança.
Em março de 1829, encontramos uma carta de Pedro Trápani,
que se dirigia a Lavalleja. Mas, antes de falar dela quero
dizer uma palavra sobre Trápani. Ele era o cérebro
de Lavalleja, o seu guru político. Lavalleja não
era um homem de muita visão e nem de largos horizontes.
Era, sim, um grande guerreiro, que lutava com bravura. Mas
Trápani pensava politicamente por ele. No sentido ideológico,
foi o verdadeiro pai da independência oriental, fato
que, lamentavelmente, é tão esquecido em nosso
país. Trápani escreveu para Lavalleja sobre
um reforço de tropas imperiais dirigidas ao Rio Grande
e Santa Catarina. Diziam, no Rio de Janeiro, “que o
imperador sabia que Fructuoso e Tomás García
de Zúñiga seguiam seu plano de agregar as províncias
de São Pedro e Rio Pardo ao Estado Oriental. Não
sei se isso era verdade ou apenas conversa”.
Pouco depois, Trápani insiste no mesmo tema: “essas
tropas (...) embora algum dia pudessem servir contra nós,
agora servem para conter seus próprios súditos
em ordem, guardar suas fronteiras e evitar que a anarquia
se introduza em seus domínios, pois sempre esperam
que logo os orientais se tornarão anárquicos
e montoneros. Deus queira que tal coisa não aconteça”.
Mas aconteceu, lamentavelmente.
A grande habilidade política de Rivera permitiu-lhe
assumir a primeira presidência constitucional do Uruguai.
Quase ocorreu uma guerra civil, quando a Constituição
ainda não havia sido jurada. Então, termina
a disputa do chamado “pacto dos compadres”, porque
Lavalleja e Rivera eram compadres entre si. Rivera foi padrinho
de casamento de Lavalleja.
Conforme o acordo dos generais, em 18 de julho de 1830, foi
promulgada a Constituição da República.
Lavalleja, então, ficou como governador provisório
até que entrassem em jogo as instituições
determinadas pela Constituição. Rivera ficou
como comandante-geral da Campanha. Quem ganhou foi Rivera,
pelas condições e forma como as eleições
ocorriam naqueles tempos. Tanto é assim que os deputados
do interior sempre eram mais numerosos que os de Montevidéu
por razões constitucionais. Se os deputados de Montevidéu
eram por Lavalleja, os do interior eram por Rivera. Os do
interior, por pressão, foram escolhidos a partir do
compromisso de apoiar Rivera. Então, ele foi escolhido
pela Assembléia Geral. Essa dicotomia entre o campo
e a cidade se mantém até hoje.
Durante sua gestão na presidência, Rivera privilegiou
aqueles que, como ele, haviam servido ao Império, o
chamado Círculo Imperial, ou Assembléia Imperial,
na etapa Cisplatina. Desta forma, foram marginalizados os
patriotas de 1825, que reconheciam Lavalleja como caudilho.
Ele, então, insurgiu-se em armas, em 1832, e, a partir
deste momento, restabeleceu seus contatos com os liberais
do Rio Grande. Formulou uma série de promessas que
somente poderia cumprir se vencesse Rivera, o que não
sucedeu. De qualquer modo, encontrou no Rio Grande base logística
e apoio armado.
Do outro lado do Rio da Prata, crescia, de maneira avassaladora,
a influência daquele que seria a figura de proa nos
acontecimentos futuros, o governador de Buenos Aires, Juan
Manuel de Rosas. Rivera, por sua vez, mantinha íntimos
laços com os emigrados unitários de Lavalle.
Quando Lavalleja volta a invadir, em 1834, seu exército
é chamado de “Restaurador”.
Cumpridos os quatro anos do mandato presidencial, que terminaram
em outubro de 1834, surgiu um lapso de tempo que resultou
do fato de que o presidente deveria ser escolhido em uma sessão
da Câmara no dia 1° de março de 1835. Nesse
interregno, Rivera se fez designar comandante-geral da Campanha,
cargo que o convertia em verdadeiro presidente paralelo, já
que controlava todas as tropas que estavam fora de Montevidéu.
Verdadeiramente havia um outro mandatário.
No dia 1º de março de 1835, o general Manuel Oribe
foi eleito por unanimidade da Assembléia Geral como
o segundo presidente da República. Não é
verdade que devesse sua eleição à influência
de Rivera, como este pretendeu depois. Oribe venceu porque
o patriciado que integrava as câmaras queria um governo
de ordem, sem revoluções e, além disso,
um governo honesto.
Entretanto, com uma mistura de carisma e idoneidade, Rivera
nunca soube diferenciar entre os fundos do Estado e os seus
próprios fundos. Na época, um tribunal de contas
encontrou 174 motivos para ações contra
a gestão financeira de Rivera.
Oribe foi o primeiro presidente que assumiu o governo do Uruguai
com um plano orgânico para um país independente,
ou seja, com uma idéia, uma arquitetura própria.
Para isso, era necessário que o Uruguai se desligasse
dos conflitos que agitavam a Argentina e o Brasil. Ele reorganizou
as finanças que estavam em estado desastroso desde
a gestão de Rivera. A aposentadoria, a universidade,
tudo necessitava ser organizado no país. Mas isso dependia
de duas circunstâncias que não se concretizaram.
A primeira era a unidade do poder. E ali estava Rivera. A
segunda, manter-se neutro nos conflitos de fronteira. Nada
disso foi possível.
A ampla maioria da opinião pública uruguaia
simpatizava com a Revolução Farroupilha. Em
setembro ou outubro de 1835, Lavalleja escreveu ao presidente
Oribe: “Confesso a V. que sou muito amigo do Coronel
Bentos [como se diz no Uruguai, ele se refere a Bento Gonçalves,]
que celebrarei infinitamente o êxito da revolução
que ele empreendeu. Em primeiro lugar, porque com isso deve
ganhar a causa da liberdade e o sistema americano; em
segundo, porque teremos como vizinho um estado pequeno, igual
às nossas forças, ao qual não podemos
temer. Não (seria) assim se o império permanecesse
de pé, pois sempre haveria ambiciosos que quisessem
nos colocar sob o jugo, que à força de tantos
sacrifícios soubemos romper. É por isso que
não tenho porque negar a minha opinião, pois
eu acho que deve ser a de todos os meus compatriotas. Já
que não é dado proteger a uma porção
de americanos que querem ser livres, deixemos que eles
conquistem então o precioso bem. E não vamos
nos intrometer em suas questões, e guardemos a neutralidade
que nos convém.”
Assim mesmo, Lavalleja continuava com seus contatos rio-grandenses.
Isso ele demonstrava numa carta de dezembro de 1835, que recebeu
do rio-grandense José Gonçalves de Vasconcelos
Jardim, que dizia:
“As reflexões de Vossa Excelência sobre
os acontecimentos ocorridos nesta capital, o modo de pensar
de Vossa Excelência acerca deles, os seus sentimentos,
tudo patente ao caráter ilustre do americano que arrancou
das garras do despotismo o brioso Estado Oriental do Uruguai.
Sim, meu bom amigo, eu me congratulo com Vossa Excelência
pelo triunfo que alcançou a causa da liberdade nesta
provincia, tanto tempo vítima do despotismo e caprichos
de dois perversos à toda prova.”
Oribe, cujo distanciamento com Rivera era cada vez maior,
por razões já mencionadas, pretendeu sinceramente
manter a neutralidade. Naquela época, porém,
manter a neutralidade era impossível. Como controlar
uma fronteira de centenas de quilômetros, mais do que
flutuante e pouco habitada? Ele precisaria de milhares de
soldados para isso. Uma das medidas de Oribe havia reduzido
o exército para economizar recursos do orçamento
militar. Além disso, Oribe não tinha nenhuma
relação com os caudilhos rio-grandenses. Tampouco
era um caudilho. Ele sugeriu, então, a Almeida Vasconcellos,
encarregado de negócios do Brasil em Montevidéu,
que os governos legais do Uruguai e do Rio Grande ajudassem
um ao outro diante das tentativas revolucionárias de
ambos os lados.
Em outubro, Oribe marchou pessoalmente à fronteira
de Cerro Largo pois, naturalmente, desconfiava das intenções
de Rivera e de Lavalleja. Lá, encontrou-se com o comandante-geral
da Campanha. Uma testemunha, que depois seria o famoso Andrés
Lamas, secretário de Rivera, disse que pareciam dois
acampamentos inimigos porque Rivera, na época, andava
revivendo velhos sonhos regionalistas. Alimentava a idéia
de uma regionalização que tivesse como eixo
o Estado Oriental, com seu porto de Montevidéu, e que
abrangesse o Rio Grande do Sul e a Mesopotâmia argentina,
as provincias de Entre Ríos e Corrientes. E não
falava de Missiones, porque havia perdido seu caráter
de província nos últimos anos.
Em meados de 1836, Rivera levantou-se em armas contra o governo
de Oribe. Recebeu a cooperação armada dos unitários
argentinos exilados, liderados pelo general Lavalle. Assim,
surgem as duas bandeiras, a branca, por Oribe, e a vermelha,
por Rivera. Foi na batalha de Carpinteria que, pela primeira
vez, enfrentaram-se em combates as duas divisas, em setembro
de 1836. Rivera e Lavalle refugiaram-se no Rio Grande, acompanhados
de 400 homens, que, então, entraram para o serviço
imperial. Mas Rivera sempre jogou com duas cartas, de forma
que voltou a entrar em contato com os dirigentes farrapos,
sobretudo quando Bento Manuel Ribeiro abraçou
a causa revolucionária. Em Piratini, o coronel argentino
Martiniano Chilavert, delegado de Rivera, negociou com José
Mariano de Mattos uma fórmula de cooperação
militar (junho de 1837). E não devemos esquecer que
grupos de combatentes farrapos entravam e saiam permanentemente
do territorio uruguaio.
Na mesma época, aproximadamente, o governo de Oribe
resolveu estabelecer negociações com o governo
do Rio de Janeiro, enviando para lá Carlos G. Villademoros.
Suas instruções encaminhavam para a assinatura
de um tratado de limites que reconhecesse os direitos territoriais
do Uruguai, até pelo menos a linha do Rio Ibiqüí,
se não fosse possível atingir a linha de Santo
Ildefonso. Posteriormente a este, poderiam assinar um tratado
de aliança que estabeleceria a colaboração
de ambos os governos, uruguaio e brasileiro, contra os seus
respectivos revolucionários. Esse tratado de aliança
era o que interessava ao chanceler imperial. Ou seja, existia
uma inversão de prioridades. Para o Uruguai, primeiro
o tratado de limites e depois o tratado de alianças.
Para o Brasil, primeiro o tratado de alianças e depois
o tratado de limites. As negociações foram árduas.
Abria-se a possibilidade de um acordo quando chegou ao Rio
de Janeiro uma notícia horrível. Rivera não
somente havia invadido o Uruguai, mas também havia
derrotado as forças do governo de Oribe na batalha
de Yucutujá, em 1837. Isso marcava a instabilidade
do governo uruguaio, que provocou, logicamente, o desinteresse
do governo imperial na negociação, prevendo
que o governo uruguaio pudesse cair a qualquer momento.
Por outro lado, a aliança entre Rivera e os farrapos
pareceu se consolidar em agosto de 1838, com a assinatura
de um tratado redigido pelo mesmo Andrés Lamas, firmado
por Chilavert e de Mattos, representantes das partes, no arroio
Cangüé, no acampamento de Rivera. Pelos termos,
a República Rio-grandense reconhecia o sublevado Rivera
como única autoridade existente no Uruguai. Por sua
vez, Rivera reconhecia a independência do Rio Grande
e se manifestava em estado de guerra contra seus inimigos.
Não era pouco. Rivera prometia, além disso,
que faria imediatamente um tratado de aliança ofensivo
e defensivo com o governo de Piratini. Foram acrescentadas
várias cláusulas de ordem militar, que “arrumavam”
as fronteiras que juridicamente nem existiam, dado que permitiam
a passagem, sem obstáculos, do exército de Rivera
para o Rio Grande, e do exército farrapo para a República
Oriental.
É provável que, naquela data, grande parte da
Campanha já estivesse sob o controle de Rivera. Mas
existiam dois artigos secretos adicionais no acordo com os
farrapos. O segundo deles dizia o seguinte: “O general-em-chefe
defensor da Constituição [assim se intitulava
Rivera] obriga-se por si, para o povo e o exército
a quem representa, a não descer jamais da cadeira da
Presidência nos termos marcados pela lei sem passar
imediatamente a ocupar o lugar de comandante-geral da Campanha
da República Oriental com as atribuições
conferidas até aqui legalmente a este emprego e nunca
menos, a fim de que possa suceder, ao seu turno, o seu próprio
sucessor na cadeira da Presidência quando este dela
descer; e assim sucessivamente passará de presidente
a comandante-geral da Campanha a presidente, por todo o tempo
que durasse a atual guerra gloriosamente sustentada pelo povo
rio-grandense.”
Aqui surge o conceito de Rivera sobre poder político,
um conceito patrimonial. Ele se considerava o governante natural
do Uruguai, e não queria violar demais a Constituição,
porque as violações repetidas são mal
vistas. Ele colocava vários fantoches que manipulava
e se intitulava como General da Campanha.
Na batalha de Palmar, no ano de 1838, Oribe foi derrotado
por Rivera e Lavalle, e se viu reduzido a Montevidéu.
Ali recebeu um último e inesperado golpe. A França
estava em conflito com o governador Rosas, de Buenos Aires.
A frota do almirante Leblanc precisava de uma base com rapidez.
Então, ele estava impedido de estabelecer a Argentina
como base de suas operações, que não
poderia ser outra senão Montevidéu. De maneira
agressiva, Leblanc exigiu que o presidente Oribe lhe permitisse
utilizar o porto de Montevidéu para suas operações
militares. Oribe não concordou.
Se Oribe tivesse cedido, seu governo teria se salvado. Mas
negou-se a trair a causa americana com a qual estava profundamente
envolvido, em troca de uma possível ajuda francesa
contra Rivera. A causa americana, entretanto, acabava resultando
em muitos benefícios para o imperialismo europeu. Na
ocasião, a França seguia a saga da Inglaterra,
e passara a acentuar suas ações coloniais desde
1830, quando conquistou a Argélia. Em 1838, combateu
com o México na chamada Guerra dos Pastéis e,
no mesmo ano, atacou a Confederação Argentina.
Assim, os franceses, ao desembarcarem em Montevidéu,
provocaram a queda de Oribe, que se refugiou em Buenos Aires,
onde Rosas o reconheceu como presidente legal, em outubro
de 1838. A França financiou Rivera, que ocupou o poder,
acompanhado de seus aliados: os unitários, os franceses
e os farrapos. Os unitários estavam dentro do
seu exército formando as unidades melhor organizadas
ao mando de Lavalle. Além disso, os militares e civis
argentinos sustentavam em Montevidéu a chamada Comissão
Argentina, que tinha muita influência na imprensa e
nos meios políticos do Partido Colorado, formado por
Rivera. Os franceses mantinham a frota dentro de Montevidéu.
Se quisessem, teriam destruído a cidade, e, além
disso, sustentavam Rivera financeiramente. Ele conseguiu extrair
dos franceses a fabulosa soma de 100 mil francos. Poderia
romper com os unitários? Não. Poderia romper
com os franceses? Não. Poderia romper com os farrapos?
Sim! Assim o fez, começando, em seguida, uma tratativa
com o governo imperial para deles se desligar.
Contudo, as pressões dos franceses e dos unitários
foram muito fortes sobre Rivera. Em fevereiro de 1839, ele
teve que declarar guerra ao governador Rosas, em conflito
com a França, assim intervindo diretamente nas guerras
civis da Confederação Argentina.
Rivera, entretanto, sempre quis fazer a paz. Ele não
tinha nenhum interesse verdadeiro na guerra contra Rosas.
O Uruguai já havia limitado suas ambições
em relação ao tema. Mas Rivera acabou atingido
por uma desgraça, porque Lavalle organizara-se, em
Montevidéu, para atacar Rosas, contando com a conivência
de importantes políticos.
Tal manobra foi chamada por Rivera, em uma carta indignada,
de “a famosa manganeta do perverso Lavalle”. “Manganeta”
significa um ardil, o famoso engano de Lavalle, que, antigamente,
era tão seu amigo e colaborador. A guerra transferiu-se
para o território argentino. Novamente surgia uma outra
contradição, porque o general Oribe, que continuava
ostentando a condição de presidente da República
Oriental do Uruguai, foi designado por Rosas como comandante-em-chefe
do Exército Unido de Vanguarda da Confederação
Argentina.
Era a Guerra Grande. Outra vez enfrentavam-se Rivera e Oribe.
Curiosamente, dois homens que se intitulavam presidentes do
Uruguai combatiam no território argentino, situação
que perdurou até a terrível batalha de Arroyo
Grande, em dezembro de 1842. Foi uma epopéia trágica
para Lavalle. Perseguido por Oribe, derrotado nas batalhas
de Quebracho Herrado e de Famaillá, na Província
de Tucumán, Lavalle fugiu e morreu, de uma forma que
nunca ninguém conseguiu esclarecer. Com tudo isso,
a atenção se desviou dos acontecimentos do Rio
Grande, enquanto havia um outro cenário em primeiro
plano.
Um acontecimento pessoal, nesse período, vinculou a
cidade de Montevidéu com os fatos rio-grandenses. No
início de 1842, Giuseppe Garibaldi chegara a Montevidéu
e se colocara à disposição do governo
Colorado. Vinha acompanhado por Anita e pelo pequeno Menotti.
Ele já havia visitado as costas orientais em 1837,
quando exercia sua carta de corsário em nome da República
de Piratini.
Em fevereiro de 1843, o exército de Oribe, composto
por uruguaios e argentinos, no começo mais argentinos
que uruguaios, estabeleceu o sítio de Montevidéu.
Naquele momento, os farrapos já estavam na defensiva
e em seu ocaso. Não mais poderiam influenciar no Rio
da Prata, nem sua aliança era desejável para
nenhum dos lados em choque. No entanto, a convivência
econômica continuava. Como exemplo, o governador de
Entre Ríos, Urquiza, grande latifundiário e
fiel a Rosas, vendia gado aos farrapos por meio de um representante
em Montevidéu. Em troca, pedia charque, que passava
por Montevidéu antes de chegar ao seu destino final,
que era alimentar o exército imperial. Esse era um
negócio muito próspero.
Assim, o futuro protagonista da influência brasileira
no Rio da Prata será o império. Mas com uma
ressalva, como anunciou no Rio de Janeiro, em 1844, o ministro
uruguaio Francisco Magariños: “O governo brasileiro
não se atreve a se comprometer no exterior sem haver
terminado a luta na Província de São Pedro”.
Isso significava que, para o governo no Rio de Janeiro, era
necessário vencer em definitivo a resistência
farroupilha. Depois sim, teriam o caminho livre, para reunificar
todo o território do Brasil, sob o mando do governo
carioca. O império se preparava para influenciar sobre
os conflitos platinos, como em pouco tempo passou a ocorrer.
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