| Os farrapos negros e
a política da escravidão
Spencer L. Leitman
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Bacharel em História pela Universidade
do Estado de Nova York,
mestre e PhD em História pela Universidade do Texas
O tema subjacente desta conferência é fundamental
para a compreensão do desenvolvimento histórico
brasileiro, visto que a escravidão e suas conseqüências,
assim como nos Estados Unidos, são as contradições
centrais do que foi o início do governo republicano
constitucional. Os pais fundadores da nascente República
do Piratini, porém, expressando as novas idéias
de republicanismo, infundidos com os conceitos de egalité
e fraternité, ignoraram e, portanto, maltrataram
aqueles que se haviam tornado seus irmãos na guerra.
Infelizmente, não temos documentação
escrita dos farrapos negros e de outros escravos da época
dos farroupilhas. Na falta de seus pensamentos e experiência,
precisamos confiar nos materiais daqueles que foram seus senhores.
Não podemos ter mais do que esperança de dar
alguma forma às sombras deixadas para trás pelos
farrapos e escravos negros. Em parte, há uma responsabilidade
histórica de produzir, ou pelo menos proporcionar,
uma visão de como suas vidas podem ter sido, assim
como as daqueles que os subjugaram.
Talvez os farrapos negros, ao entrarem nas fileiras da Revolução
Farroupilha, acreditassem que as funções de
combate seriam os primeiros – embora pequenos –
passos rumo à igualdade.
O general, ao analisar o tratado recentemente assinado dando
fim à Revolução, interpretou seu significado
como o de que todos os ex-escravos que haviam sido libertados
– resultado da união às forças
oposicionistas – seriam devolvidos a seus proprietários
originais, incluindo, talvez, seus próprios fugitivos.
Os antigos escravos que haviam recebido sua liberdade para
lutar contra os revolucionários estavam, então,
acampados na cidade do porto, e o general queria que eles
fossem entregues a seus oficiais; claramente agitado por causa
do seu iminente prejuízo econômico, ele deu prioridade
à questão em seu quartel-general antes de visitar
seus pares militares derrotados. Entretanto, não conseguiu
convencer seu visitante a devolver seus soldados negros. A
lógica do general derrotado provou ser forte demais.
Ele disse que aqueles homens já não estavam
mais escravizados, pois haviam sido libertados durante o curso
da Revolução, antes que o tratado dando fim
ao conflito fosse assinado. Além disso, precisava honrar
a promessa de libertação do seu monarca. Foram,
então, embarcados em um navio para serem mandados embora.1
Tudo isso pode parecer familiar à primeira vista, mas
neste elenco de personagens da cena histórica acima
não estavam os generais Caxias, Canabarro ou Bento
Gonçalves. Tudo ocorreu sessenta e dois anos antes,
no quartel-general do general George Washington, em Tappan,
Nova York, em 1783. Washington, comandante das forças
vitoriosas da Revolução Americana, e que logo
depois seria o presidente dos Estados Unidos da América,
estava lamentando a ação britânica de
transferir seus soldados negros libertos, inclusive os que
poderiam ter sido sua propriedade, à Nova Escócia,
muito longe do seu alcance e do alcance do seu país.
Colocar ex-escravos e homens libertos em uniformes também
foi controverso e politicamente sensível no Brasil.
Os planos para a sua disposição após
o final da Revolução Farroupilha deveriam ter
provocado questões morais, constitucionais e pessoais
profundas. Mas isso não aconteceu. A discussão
sobre a escravidão foi limitada. As idéias de
liberalismo dos farrapos não eram incompatíveis
com as tradições autoritárias da época.
Na América do Norte, os revolucionários haviam
retirado da mesa essa questão ameaçadora e potencialmente
divisória. A escravidão estava claramente em
oposição aos princípios fundadores da
Revolução Americana. Em primeiro lugar vinha
a proteção da nova união. Os riscos de
enfrentar questões que penetravam no tecido econômico
e social da nação agora independente eram muito
arriscados naquele momento. Também no Rio Grande do
Sul nunca houve de fato a questão de “fazer a
revolução e a democracia ao mesmo tempo”.2
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1HOCHSCHILD, Adam. Bury the Chains. Boston, 2005, pp.
101-103.
2 ELLIS, Joseph J.. Founding Brothers. Nova York, 2002, pp.
116-117; PICCOLO, Helga Iracema Landgraf. A guerra dos farrapos
e a construção do estado nacional. In: PESAVENTO,
Sandra (org.). A Revolução Farroupilha: história
& interpretação. Porto Alegre, 1985, p.
59. Os melhores estudos sobre a escravidão no Rio Grande
do Sul são as obras de Mário Maestri, em particular
O escravo no Rio Grande do Sul e A charqueada e a gênese
do escravismo gaúcho (Caxias do Sul, 1984); e O escravo
gaúcho: resistência e trabalho (Porto Alegre,
1993). Outro trabalho interessante, especificamente sobre
a escravidão durante o período farroupilha é
de Margareth Marchiori Bakos, A escravidão negra e
os farroupilhas, In: A Revolução Farroupilha,
pp. 79-97.
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Na sessão parlamentar de 1845, o paulista
Alves Machado respondeu aos fracos questionamentos do representante
de uma minoria sobre rumores relativos a emissários
secretos da Corte e expedições governamentais
disfarçadas rumando para o sul na conclusão
da Revolução Farroupilha, o que ia contra o
direito de propriedade. Apesar de a oposição
estar atrás de respostas e detalhes que cercavam os
acertos finais e os custos dos farrapos negros libertados
com o Tratado do Ponche Verde, os dois grupos parlamentares
estavam de acordo em relação à inviolabilidade
da propriedade privada.
No entanto, ao conceder à oposição o
direito de questionamento, Alves Machado não queria
qualquer discussão ou investigação no
programa de pacificação que estava ocorrendo
no Rio Grande do Sul: “… acha que o que for justo
mais tarde, agora não o é.” Exatamente
como o general britânico havia respondido a George Washington,
Machado Alves argumentou que os escravos já haviam
sido libertados em 1838: “os escravos entregues pela
Revolução foram libertados graças ao
que estatui o aviso de 19 de novembro de 1838, cuja cláusula
3 mandou que todos os escravos militarizados pelos rebeldes
que se apresentassem às forças legais fossem
avaliados e postos em liberdade, avaliados para pagá-los
a seus donos”.
Houve um precedente histórico na Bahia durante o período
de independência. Caxias, então, segundo Machado
Alves, estava executando as palavras do imperador. Em resumo,
Machado Alves fechou para sempre a questão da alienação
dos farrapos negros ao dizer: “Não é bom
que sejam chamadas todas estas cousas a exame; porque o que
se lucra hoje com isto? Nada: nada há que ganhar e
muito há a perder.” A maioria aplaudiu. Com efeito,
o governo imperial honrou e estendeu a interpretação
do aviso de 1838, que concedia liberdade aos farrapos negros
desertores. Alves Machado minimizou os números para
que sua audiência mais solidária suavizasse o
impacto da inviolabilidade dos direitos de propriedade, dizendo
“que os escravos da revolta não tornam ao poder
dos senhores e não excedem a 200, inclusos na soma
os 120 que David [Canabarro] entregou no ato da Paz”.3
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3 VARELLA, Alfredo. História da grande revolução:
o ciclo farroupilha no Brasil. (Porto Alegre, 1933), vol.
VI, pp.507-509; ver também LEITMAN, Spencer L. The
Black Ragamuffins, In: The Americas, vol. XXX111, janeiro
de 1977, n.3, pp.504-518.
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Não importou o discurso histórico
acalorado décadas depois sobre a Surpresa de Porongos
e o Tratado de Ponche Verde, nem os papéis desempenhados
pelo Barão de Caxias e por David Canabarro. É
quase certo que os farrapos negros, lanceiros e da infantaria,
e muitos outros que haviam servido como escravos, e que permaneceram
como tais durante a Revolução Farroupilha, foram
involuntariamente colocados de volta em posições
de reduzida autonomia. A escravidão era um sistema
incrivelmente adaptador, centrado no trabalho, na coerção
e no controle. Talvez os farrapos negros, com o fim da revolução,
tenham sido levados de navio a outras províncias para
trabalharem em empreendimentos do Império, ou tenham
sido divididos e colocados nas fileiras da Cavalaria Ligeira
de Caxias. Com medo da doutrinação política
dos farrapos e da inquietação dos escravos,
eles não foram devolvidos aos seus proprietários
anti-separatistas. Esta era a questão de direitos de
propriedade que o legislador minoritário queria trazer
à baila à frente de Alves Machado.4
O conceito de liberdade no sistema escravista brasileiro é
ambíguo.
Diferentemente do que aconteceu nos Estados Unidos, onde as
linhas divisórias entre liberdade e escravidão
eram bem definidas, aqui no Brasil, em 1845, corriam rumores
abafados no Rio de Janeiro e cochichos no Rio Grande do Sul.
Havia pouca pretensão no que diz respeito ao destino
dos farrapos negros uma vez que a situação militar
estava resolvida e eles tinham sido removidos, isolados ou
colocados em um ambiente militar. Nem todos eram livres e
iguais. Os farrapos negros eram tidos, por todos, como socialmente
inferiores, além de potencialmente perigosos.
As contradições e falsas promessas eram correntes
e visíveis, e constituíam uma ideologia tradicional
aceita, confirmadas por considerações econômicas
e sociais. Apesar de quase todos se beneficiarem com esse
resultado, os escravos e farrapos negros, é claro,
recebiam menor autonomia. Nem os antigos farrapos, nem os
legalistas vitoriosos queriam o retorno de soldados negros
politizados. No fim, para os farrapos estancieiros, que eram
brancos, e tinham sido derrotados, o banimento dos farrapos
negros deve ter servido, de certa forma, como vingança
em relação aos seus competidores provinciais,
de quem eles haviam sido tomados.5
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4 Como exemplo desse debate, ver: VARELLA, Alfredo. História
da grande revolução. Porto Alegre, 1933, seis
volumes; SPALDING, Walter. A epopéia farroupilha: pequena
história da grande revolução. Rio de
Janeiro, 1963 (com farta documentação da época
de 1835-1845); e DOCCA, E.F. de Souza. O sentido brasileiro
na Revolução Farroupilha. Porto Alegre, 1935.
Sobre os farrapos negros, ver BENTO, Claudio Moreira. A Revolução
Farroupilha: corpo dos lanceiros negros farroupilhas. In:
www.resenet.com.br.
5 BENTO, Claudio Moreira. O negro e descendentes na sociedade
do Rio Grande do Sul, 1635-1975. Porto Alegre, 1976. A posição
final dos farrapos negros permanece obscura. Caxias, em ofício
de 4 de março de1845, ordenou que os farrapos negros
ainda em armas fossem agregados aos Corpos de Cavalaria de
Linha. Entretanto, ainda restavam dúvidas em relação
ao destino final de todos aqueles que haviam servido. Manoel
Felisardo de Souza e Mello, May 24, 1848, Arquivo Nacional,
IJ 6471. Ver os vigorosos e aviltantes comentários
de Caxias, em 1846, então um Conde, quando escreveu:
“a última classe da sociedade, desgraçada
de todas as luzes da religião e da civilização
e por causa tão animais, e mesquinhas, como a inteligência
dos bugres selvagens, e dos escravos africanos que as cometem,”
In: BAKOS, Margareth Markiori. A escravidão negra e
os farroupilhas. p. 96.
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A Revolução Farroupilha fluiu
no tempo e no espaço geográfico. Parecia se
mover a passos descansados, com erupções repentinas,
mas infreqüentes, que se transformavam em batalhas significativas.
A maioria dos encontros militares ficou na categoria de escaramuças.
Mestres da insurgência, as forças farrapas recorreram
a ataques flexíveis no estilo guerrilha, manobras evasivas
e conhecimento do terreno, o que permitiu que sobrevivessem.
Com seus movimentos longos, especialmente nos últimos
anos da guerra, eles operaram a maioria das vezes na campanha,
usando técnicas para importunar e provocar o inimigo,
concentrando seus esforços em acumular recrutas e suprimentos
essenciais de cavalaria.6
A existência militar dos farrapos foi profunda e continuamente
dependente da disponibilidade de soldados negros, fossem escravos
ou não. Ataques a estâncias e charqueadas legalistas
eram fontes certas de escravos, homens libertos e vagabundos.
Farrapos brancos da Guarda Nacional podiam receber dispensa
para voltar para casa e sustentar suas famílias e fortunas,
enquanto os soldados negros eram mobilizados como tropas da
primeira linha.
Além disso, a resposta dos rebeldes rio-grandenses
a essa constante necessidade de obter homens, cavalos e gado
era a de que servia para expandir as operações
dentro do Rio Grande do Sul. Eles também desenvolveram
contatos com estados vizinhos, províncias e caudilhos
do outro lado da longa fronteira. Afastados dos portos de
Porto Alegre, Norte e Rio Grande, e das lagoas e sistemas
fluviais, os farrapos contavam com apoio importante da Banda
Oriental, Entre Ríos e Corrientes. Em troca de roupas,
mosquetes, pistolas, espadas e, é claro, cavalos, os
farrapos entregavam gado capturado. Da mesma forma, tais acordos
também provaram ser negócios privados lucrativos.
A vasta campanha servia de refúgio e força para
os rebeldes.
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6 A melhor abordagem breve sobre os farroupilhas continua
sendo a de Walter Spalding, em “A epopéia farroupilha:
pequena história da grande revolução”.
Entretanto, a mais completa, embora mais tortuosa e mais controversa,
é a dos vários trabalhos de Alfredo Varella,
incluindo o monumental estudo de seis volumes, “História
da grande revolução”.
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Ao final da revolução, talvez
mais de 5.000 ex-escravos e homens libertos haviam servido,
estavam ainda na ativa, ou se encontravam potencialmente disponíveis
para a resistência. Sua presença em si, como
uma força motriz formidável, causava ansiedade
entre os estrategistas legalistas. Muitos comandantes farrapos
acreditavam que poderiam resistir indefinidamente, ou, pelo
menos, forçar o Rio de Janeiro a uma paz honrada, o
que lhes permitiria manter suas posições, terras
e escravos. A Surpresa dos Porongos provou ser uma solução
mais fácil e organizada.7
Escravos eram um bem necessário, mas sacrificável,
para os rebeldes. O Rio Grande do Sul teve percentuais elevados
de negros e escravos, em sua maioria homens de menos de quarenta
anos. Parecia sempre haver mais para fins militares, apesar
de que, na prática, os farrapos protegiam seus próprios
escravos do serviço militar ou estadual. Os principais
alvos militares eram as charqueadas anti-separatistas em Pelotas,
Piratini e redondezas, e suas estâncias por toda a província.
Pelotas tinha a maior concentração de escravos,
a maioria deles em idade de combate, na época estimados
em 5.000. Estabelecimentos pré-industriais, fisicamente
exigentes e cuidadosamente regulados, onde o trabalho era
socialmente diferenciado por tarefas, incluíam carneador,
servente, salgador, tropeiro, graxeiro, carpinteiro, marinheiro,
campeiro e outros. Essa mão-de-obra treinada rendia
tropas boas e disciplinadas.8
A escravidão, no contexto das charqueadas, era indescritível:
o ambiente exigente e severo dentro das fazendas, a brutalidade
do trabalho, o abuso físico, chances mínimas
para a vida em família, humilhação desumanizante,
além do constante medo e uso do chicote. Charqueadas
legalistas continuaram a operar durante a guerra, e guarnições
legalistas eram posicionadas a fim de mantê-las a qualquer
custo. Tal manufatura e comércio eram a base da vida
econômica e fiscal da província. Os farrapos,
privada e publicamente, negociavam gado com o inimigo, como
faziam mais regularmente com Montevidéu. Para minorar
as dificuldades comerciais inerentes à guerra, em Pelotas,
e seu escoadouro para o mar, Rio Grande, estancieiros farrapos
organizaram suas próprias charqueadas no distrito baluarte
de Jaguarão, que lhes permitia pontos alternativos
de embarque em Rio Grande e Montevidéu.
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7 Claudio Moreira Bento, em “O negro” (p.160),
seguindo Antônio José Gonçalves Chaves,
em “Memórias economo-políticas sobre a
administração pública do Brasil”
(1822), reeditado por J.B. Hafkemeyer, na Revista do Instituto
Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul,
11:11-111, 1922, pp.3-185, calculou o número de pretos
e mulatos na Província, livre ou escravos, como algo
em torno da metade da população total ou um
pouco mais de 50.000, dos quais 18.000 eram escravos. Após
a revolução, o tenente-coronel José Gomes
Portinho escreveu anotações sobre o trabalho
de Tristão de Alencar Araripe, “Guerra civil
do Rio Grande do Sul: memória acompanhada de documentos”,
(Revista do Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro, XL111:2, 1880,115-364; XLV:1,1882,35-236; XLV1:2,1883,165-564;
XLV11:1,1884, 47-238.) Ver as anotações paralelas
de Portinho marginal notation, in Alfredo Varela Collection,
Arquivo Historico do Rio Grande do Sul, LXX11 (1880, p.192,
p.86). Portinho reivindicou que os rebeldes rio-grandenses
poderiam ter erguido um exército de cerca de 6.000
libertos.
8 Ver WEIMER, Gunter. O trabalho escravo no Rio Grande do
Sul. Porto Alegre, 1991; e LIMA, Solimar Oliveira. Triste
pampa: resistência e punição de escravos
em fontes judiciárias no Rio Grande do Sul 1818-1833.
Porto Alegre, 1997.
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As novas charqueadas de Jaguarão necessitavam,
então, de mão-de-obra. O reabastecimento de
escravos, mesmo nas melhores épocas, era difícil.
Os mercadores de escravos do Rio de Janeiro sempre haviam
colocado a província esparsamente povoada em último
lugar na sua lista de clientes preferenciais. A fim de proteger
seus investimentos e assegurar produção constante,
os donos de charqueadas encontraram métodos adicionais
de cobrar a cooperação dos escravos através
de tarefas rotativas. Não devemos, de forma alguma,
subestimar ou tentar entender os horrores das charqueadas.
Escapar para a vida militar nas linhas farrapas tinha que
ser melhor. Armados e movendo-se no interior do Estado, as
perspectivas de deserção e liberdade aumentaram.9
A vida nas estâncias, para os escravos, apresentava
vantagens em relação às charqueadas.
Nestas, eles recebiam alguma autonomia dentro dos limites
do regime escravista. O trabalho na campanha sempre teve pouca
demanda. Os estancieiros desenvolveram esquemas de trabalho
em suas propriedades que usavam trabalhadores escravos, livres
e semilivres. Como a caça ao gado e as fronteiras das
fazendas iam invadindo áreas ao norte da Banda Oriental,
especialmente durante épocas de ocupação
e conflito, os estancieiros agressivamente organizavam operações
com suas grandes famílias, agregados, escravos e capital.
Como a era do gerenciamento de terras, dedicada a uma melhor
procriação de gado, instalação
de cercas e pastos melhorados, ainda estava por vir, rio-grandenses
sedentos por gado procuraram terras melhores para pastagens
na Banda Oriental.10
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9 Ver LEITMAN, Spencer L. Slave cowboys in the cattle lands
of southern Brazil, 1800-1850. In: Revista de História,
n.101, São Paulo, 1975, pp.167-177.
10 MAESTRI, Mário. O escravo, pp.36-39.
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Listas de donos de terras rio-grandenses, em
1840, na Banda Oriental, mostram que quase a totalidade deles
tinha escravos. Nem todos desempenhavam as atividades típicas
do gaúcho; alguns cuidavam do trabalho doméstico,
trabalhavam em pequenas plantações de mandioca,
milho e trigo, ou faziam tarefas gerais. Um dos primeiros
especialistas brasileiros em assuntos platinos, naquela época,
escreveu enfaticamente que a produtividade dos fazendeiros
rio-grandenses no Uruguai dependia de escravos. A vida dos
estancieiros estava mais harmonizada aos ritmos naturais e
menos regimentais da tradicional agricultura de plantação.
Quando os farrapos arremetiam contra as fazendas legalistas,
os escravos levados não eram considerados aliados em
potencial a serem transformados em soldados chefiados por
líderes republicanos progressivos, mas sim como instrumentos
de luta. A liderança e o caráter dos farrapos
podiam ser definidos pelo modo como seus novos recrutas eram
tratados.11
Com efeito, os farrapos estavam desenvolvendo um sistema duplo
de recrutamento. Um deles, fragmentário e difícil
de supervisionar, era apoiado pelo governo; o outro permitia
aos comandantes pegarem tudo que necessitassem. Escravos confiscados
eram uma “solução baseada no direito da
guerra”. Explorados como a “Estância do
Império”, os rebeldes rio-grandenses mostrariam
ao Rio de Janeiro como fariam uso de seus recursos e escravos,
o que eles tinham em quantidade suficiente.12
Algumas áreas onde a rebelião havia se movido
em fluxos e refluxos estavam agora totalmente despovoadas
de escravos. Apelando à generosidade patriótica
de seus cidadãos, o governo republicano esperava que
os estancieiros farrapos entregassem voluntariamente seus
próprios escravos para uso militar. Mas eles estavam
hesitantes em fazê-lo. Um bem-sucedido estancieiro/charqueador
foi o ascendente Domingos José de Almeida, talvez ele
mesmo um mulato. Ministro do Tesouro dos farrapos e patrocinador
do jornal rio-grandense O Povo, Almeida levou muitos de seus
habilidosos escravos para Montevidéu, onde esperava
montar novas operações. Isso protegeria as propriedades
recebidas como prêmios durante a guerra e, ao mesmo
tempo, colheria benefícios, já que cada vez
mais gado confiscado era levado a Montevidéu. Esses
acordos de negócios, que envolviam seu devedor principal
e seu cunhado, eram “cheios de contingências”
em função de sua posição dentro
do governo farrapo. Seus planos falharam e, ao final da guerra,
ele havia perdido quase todos os escravos.13
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11 O diplomata brasileiro era Duarte da Ponte Ribeiro, em
“As relações do Brasil com as repúblicas
do Rio da Prata de 1829 a 1843” (Rio de Janeiro, 1936).
12 Rascunho de um official encarregado do recrutamento, Coleção
Varella, VC, XXXV.
13 Ver LEITMAN, Spencer L. The Black Ragamuffins. In: The
Americas, vol. XXX111, janeiro de 1977, n.3.
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O decreto militar farrapo de 20 de abril de
1838, que criava o Depósito Geral do Recrutamento,
mostrou a dificuldade de se juntarem grupos social e racialmente
diferentes. Objetivos contraditórios e totalmente irrealistas
alimentaram ressentimentos e insatisfação entre
os novos e oprimidos recrutas. Acima de tudo, o decreto exigia
dos comandantes de campo “inspirar nos recrutas, por
todos os meios ao seu alcance, o amor e a adesão à
causa sagra da da Independência e Liberdade
de sua Pátria”. Novos recrutas aderiam às
escolas de cavalaria, infantaria e artilharia. Os instrutores
ensinavam a arte da guerra, virtudes morais, cívicas
e militares. Inicialmente, os membros da Guarda Nacional recusaram-se
a se associar às tropas de negros da primeira linha,
temendo a perda de autoridade e da habilidade de entrar e
sair da vida militar conforme suas necessidades econômicas.
Recrutas brancos que haviam aderido voluntariamente e faziam
parte de uma classe mais alta podiam se juntar a qualquer
corporação. Uma segunda seleção
dos mais qualificados entre índios, escravos e homens
libertos entrava para o famoso 1º Corpo de Lanceiros
Negros, que foi completamente segregado e provido com todos
os oficiais brancos. Assim como outras tropas farrapas, eles
eram pobremente alimentados, vestidos e armados. Em 1839,
dos cerca de 4.500 soldados nos exércitos farrapos,
em torno de 1.000 eram negros. Aqueles considerados inferiores
na escala social, ou menos capazes, serviriam nos “Corpos
de Infantaria e Caçadores”.14
A maioria dos escravos confiscados das fazendas, portanto,
ia para o Corpo de Lanceiros, enquanto a maior parte daqueles
tirados das charqueadas, geralmente sem habilidades com cavalos,
era alistada na infantaria. Conforme a guerra se arrastava,
o percentual de escravos e homens libertos no exército
sem dúvida aumentava; os outros componentes militares
tornavam-se menos ativos, desertavam ou trocavam de lado.
Durante o longo curso da Revolução, a administração
farrapa, decreto após decreto, espalhava a retórica
da liberdade, mas criava uma mistura inflamada de vingança,
ganância, ressentimento social e racial e patriotismo
mal-colocado. Tais atos fizeram com que os legalistas perdessem
seus direitos à propriedade e seus privilégios,
degradando, também, a propriedade humana. Antigas desavenças
tornaram-se atos de represália, fazendo com que o gado
confiscado fosse levado para além da fronteira de Montevidéu,
ou de volta às charqueadas próximas dos portos
lacustres através de linhas legalistas.
Alguns comandantes farrapos participavam do empreendimento
da Revolução como guerreiros mercadores. “Nada
há que contenha os traficantes, sendo o único
ideal ganhar dinheiro.”15
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14 BENTO, Claudio Moreira. O exército farrapo e os
seus chefes. Rio de Janeiro, 1993, v 2.
15 VARELLA, Alfredo. História da grande revolução:
o ciclo farroupilha no Brasil. Porto Alegre, 1933, vol.VI,
p.467.
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Além disso, o decreto de 12 de novembro
de 1836 ajudou a formar a consciência revolucionária
e também, em parte, a diferenciar os amigos dos inimigos
ao adotar o laço nacional tricolor. As cores serviam
para distinguir e separar seguidores farrapos dos legalistas,
bandidos e desertores do exército. Homens libertos
também usavam o laço tricolor. Os escravos confiscados
das propriedades legalistas, mas que não eram levados
às frentes de guerra, não o usavam.
Os farrapos valorizavam os ideais de governo sólido
e eficiente. Como a mais fidedigna depositária da liberdade,
a Guarda Nacional espelhou o entusiasmo e o heroísmo
de 20 de setembro de 1835, quando o comandante da Guarda Nacional
da província, Bento Gonçalves da Silva, entrou
triunfantemente em Porto Alegre. A Guarda servia de instrumento
para a construção, a conservação
e a expansão do apoio político local. Em teoria,
era composta de cidadãos comuns de todas as camadas
sociais, e que faziam a sociedade funcionar; mas, é
claro, excluía os escravos. A administração
ficou sob a jurisdição do ministro da Justiça,
apesar de que, em tempos de guerra, suas unidades poderiam
ser incorporadas ao exército, como aconteceu com o
sistema de milícia que substituíra em 1831.
Tornou-se a maneira que os liberais parlamentares do Rio de
Janeiro tinham para conter o exército indisciplinado
dos idos de 1820, e um modo de exercer controle social no
interior. Sob a proteção de seus comandantes,
os pobres e sem-posses seriam mantidos fora de suas fileiras
e retidos como mão-de-obra local. Além disso,
a Guarda Nacional criava cidadãos-soldados que sustentavam
o compromisso cívico, protegiam a liberdade individual
e garantiam a responsabilidade política. Havia uma
ligação essencial ao fato de carregarem armas
e aos privilégios da cidadania. Pensadores liberais
temiam que a manutenção de exércitos
enfraquecesse a liberdade.16
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16 Sobre a Guarda Nacional e a política brasileira,
ver o excelente trabalho de BARMAN, Roderick J. Brazil, the
forging of a Nation, 1798-1852. Stanford, 1988.
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Mais adiante, o decreto farrapo de 4 de outubro
de 1837, considerava que homens para o alistamento na Guarda
Nacional eram “cidadãos de boa conduta, robustez,
patriotismo e adesão à causa republicana”.
Apesar de problemas evidentes em levantar tropas, isenções
constituíam a ordem do dia e eram dadas àqueles
que apresentavam como substitutos ao serviço “um
escravo alforriado”. Também ficavam isentos filhos
de mulheres viúvas, administradores de fazendas com
mil cabeças ou mais sob sua responsabilidade, administradores
de fazendas e oficinas com mais de seis escravos, arrieiros,
e outros pequenos artesãos que possuíam lojas.
Para melhor proteger suas extensas estâncias, isenções
eram dadas aos peões, conforme o tamanho de seus rebanhos.
Este número variava de um a quatro peões para
rebanhos que tinham entre uma e 3.000 cabeças, até
sete a doze peões com rebanhos entre oito e 20.000
cabeças. Para os legalistas, sua terra, sua propriedade,
seus bens, e, acima de tudo, seus escravos estavam desprotegidos,
e conseqüentemente, considerados caça justa e
aberta. Recrutadores e dignitários farrapos procurando
substitutos usavam armas, ameaças e vinganças
pessoais para expandirem suas fileiras.
Até 1838, os dignitários da Guarda Nacional
haviam sido eleitos e vinham dos setores econômicos
mais influentes da província. Normalmente, eles eram
estancieiros importantes que freqüentemente substituíam
ou dominavam oficiais civis em função de que
seus poderes políticos e econômicos estavam aumentando.
A organização apresentava a estratificação
social tradicional, conexões familiares e políticas.
Já que a Guarda era dividida em duas categorias distintas,
ativos e da reserva, permitindo que o excedente de homens
mais respeitáveis se tornassem oficiais da reserva.
A longa lista de dispensas os protegia do serviço de
forma que pudessem melhor atender a seus interesses, sem negar-lhes
os privilégios que a posição oferecia.17
Os estancieiros receberam bem a instituição
da Guarda também por outros motivos. Talvez, até
mais do que em outros lugares do Império, os estancieiros
rio-grandenses enfrentassem condições desfavoráveis
que poderiam acabar em desordem social. Há anos, o
Rio Grande do Sul estava à disposição
de Portugal, e depois do Brasil, para armas e tropas na defesa
das fronteiras. Má administração e má
apropriação de recursos do exército,
entre outras formas de corrupção, prejudicaram
a capacidade de os estancieiros controlarem por si mesmos
o interior. Durante as Guerras Cisplatinas, um longo serviço
de guerra havia incorporado a milícia ao exército
regular, o que a manteve distante de seu próprio propósito.
O prestígio e o poder associados à Guarda deram
aos comandantes precedência sobre a administração
civil, embora muitos simplesmente usurpassem todos os poderes,
conforme a necessidade, em suas jurisdições.
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17 Ver debates em LEITMAN, Spencer L. The Black Ragamuffins,
e BENTO, Claudio Moreira. O exército farrapo e os seus
chefes.
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Já que o estancieiro exigia uma força
de trabalho compatível, e um sistema ordeiro de vida
política, a Guarda lhe dava a oportunidade de usar
uma opção militar para controlar os gaúchos
legalmente libertos, outros vagabundos indisciplinados e os
arrieiros – estes essenciais, mas de idéias independentes.
Eles, por sua vez, para proteção, se ligaram
a estancieiros importantes como seus patrões. A capacidade
de os comandantes distribuírem posições
dentro desta estrutura recentemente formalizada fortificou
sua base de clientes e lhes permitiu entrelaçá-los
em suas ligações familiares e pessoais. Isso
resultou em uma força política dinâmica
às vésperas da revolução e chegou
a ajudar na ignição das aspirações
políticas de homens como Bento Gonçalves e Bento
Manuel Ribeiro.
Em outubro de 1836, a fim de proceder à guerra mais
completamente, embora Bento Gonçalves tivesse sido
preso após a derrota em Fanfa, o governo republicano
inicialmente tentou desenvolver um exército mais estruturado
sob a direção de João Manoel de Lima
e Silva e José Mariano de Mattos, os quais tinham treinado
anos antes na Academia Real Militar do Rio. Quatro brigadas
foram criadas. José Mariano de Mattos comandou a 3ª
Brigada, que incluía o 1º Corpo de Lanceiros Negros
da primeira linha. Porém, três anos mais tarde,
em outubro de 1839, sob pressão militar, o exército
foi novamente reorganizado para refletir melhor sua ligação
com a força fundadora da Revolução, a
Guarda Nacional, e com o tipo de guerrilha sendo praticada.
A cavalaria da Guarda Nacional estava completamente dominada,
composta principalmente por homens e oficiais dos distritos
do interior. Neste exército mais móvel, ocorreriam
as depredações militares dos farrapos. Nem todos
os oficiais farrapos fizeram a aposta cega do novo governo,
e nem todos foram leais, o que se demonstra pelas deserções
de Bento Manoel Ribeiro. No entanto, ficou visível
nos últimos estágios da Revolução
que os oficiais da Guarda Nacional estavam mais leais a seus
distritos locais, onde tinham interesses econômicos
e sociais tradicionais, do que ao governo em Piratini, o qual
estava cada vez mais sob ataque. Ao final da guerra, muitos
aproveitaram novas oportunidades oferecidas por Caxias e pelo
Rio de Janeiro.
A unidade militar dos farrapos era tênue. Circulares
militares solicitavam que os oficiais contivessem abusos.
Entretanto, não havia uma prestação de
contas estruturada. Em dezembro de 1837, o governo republicano
tentou evitar o uso particular de escravos confiscados, os
quais deveriam ter sido entregues ao exército regular.
O ministro farrapo da guerra, José da Silva Brandão,
buscou regularizar procedimentos e dar força ao novo
governo. Suas razões eram dúbias: primeiramente,
ele não queria que os comandantes lutassem entre si
pelos restos da guerra; em segundo lugar, queria convencer
os legalistas e os neutros dos benefícios a serem obtidos
com o governo republicano.18
De alguma forma, havia uma hierarquia (ou sistema) de autoridade
em cascata, com os níveis mais baixos da administração
farrapa aptos a defenderem-se das solicitações,
exigências e ordens de seus superiores imediatos. Às
vezes, o governo não era informado do que ocorria localmente.
Ninguém, por sua vez, nos níveis (postos, cargos)
mais altos da liderança farrapa, tinha controle absoluto
e inconteste sobre a administração e o exército,
à exceção, talvez, de Bento Gonçalves
no estágio eufórico inicial da Revolução.
Os legalistas rotularam as ações farrapas como
arbitrárias e opressivas. Mas eles precisavam encontrar
estratégias para responder ao recrutamento forçado,
aparentemente bem-sucedido, empregado pelos republicanos.
Os legalistas precisavam manter a lealdade e o suporte militar
local e dos poucos que ainda estavam em cima do muro. Uma
série de contramedidas foram tomadas, especificamente
direcionadas aos farrapos negros. Escravos lutando pelos rebeldes,
capturados em combate, sofreram muitas chibatadas e foram
expulsos da província e, ao final da Revolução,
devolvidos aos seus proprietários de direito. Motivado
também por medo de agitação social, o
governo imperial decidiu libertar escravos farrapos em armas
se eles se apresentassem às autoridades legais. Não
se permitiria que permanecessem na província.19
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18 José da Silva Brandão para Serafim Gonçalves
Moreira, 28 de fevereiro de 1838 (cópia de circular),
Coleção de Alfredo Ferreira Rodrigues, Arquivo
Histórico do Rio Grande do Sul, “Documentos para
a história da revolução de 1835,”
v.11.
19 Bernardo Pereira da Vasconcellos para Antônio Elisiario
de Miranda e Brito, Rio de Janeiro, 19 de novembro de 1838,
AHRGS, Avisos da Justiça. A tentativa legalista de
parar e punir os farrapos conduziu os rebeldes rio-grandenses
a um forte decreto de resposta, em 11 de maio de 1839, em
Caçapava. Em suma, ele demonstrava o quanto os farrapos
precisavam desesperadamente manter seus soldados e, em particular,
a importância dos farrapos negros. “Libertar os
cativos aptos para a profissão das armas, oficinas
e colonização, a fim de acelerar, de pronto,
a emancipação dessa parte infeliz do gênero
humano.” O decreto prosseguia: “O presidente da
República, para reivindicar os direitos inalienáveis
da humanidade, não consentira que o homem livre rio-grandense
de qualquer cor com que os acidentes da natureza o tenham
distinguido sofra impune e não vingado, o indigno,
bárbaro, aviltante e afrontoso tratamento.” Já
o decreto de 16 de maio de 1839, de Caçapava, avisava
os farrapos negros que eles retornariam à servidão
caso tentassem desertar.
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A Revolução Farroupilha produziu
alguns militares extraordinários, mas também
exigiu pensadores que pudessem gerar idéias novas e
excitantes e escritores que pudessem explicá-las lucidamente.
O movimento possuía republicanos notáveis locais
e do exterior. Zambeccari, Rossetti, Mariano de Mattos e Luiz
José dos Reis Alpoim estavam entre os nascidos fora
da província. Entre os ativistas da província,
estavam Sá Britto, Pedro José de Almeida, Marciano
Pereira Ribeiro e Bento Gonçalves, que serviram como
a expressão ideal da Revolução Farroupilha.
Antes de setembro, a província possuía diversos
jornais combativos, os quais continham materiais e opiniões
avançadas sobre republicanismo e federação.
Farrapos iluminados antes e durante a revolução
desafiaram as alegações de superioridade econômica
e intelectual do Rio de Janeiro e do Império, dessa
forma, implicitamente, levantando a questão da igualdade
de todos os homens, o que deveria incluir negros e mulatos.
Na verdade, os mulatos gravitavam em números na direção
do incipiente e mais liberal Partido Farroupilha no início
da década de 1830. 20
Na Convenção Constitucional farrapa em 1841,
José Mariano de Mattos decidiu que, se os republicanos
quisessem vencer a guerra, precisariam de tropas em massa
ou estariam lutando por uma causa perdida. Ele apresentou
uma proposta para a abolição total da escravidão,
tentando traduzir em prática o liberalismo e o republicanismo
que havia herdado. Sua proposta foi derrotada. Uma minoria
barulhenta na Convenção, liderada por Antonio
Vicente, considerava José Mariano de Mattos um mulato
vil e fraco. Além disso, achavam, ele e seu amigo miserável,
Bento Gonçalves, dois demônios desprezados por
todos os homens decentes. A abolição teria “o
fim sinistro de tudo confundir para, no início da geral
consternação, roubar-nos mais amplamente e evadir-se
para o país vizinho”.21
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20 “Manifesto do coronel Bento Gonçalves da Silva
justificando a arrancada de 20 de setembro de 1835”
In: SPALDING, Walter. A epopéia farroupilha: pequena
história da grande revolução. Rio de
Janeiro, 1963. pp.283-291. Bento Gonçalves apresentou
os argumentos mais abrangentes sobre o porquê de os
farrapos acreditarem que eram forçados a se rebelar.
Nesses manifesto, ele especificamente se refere à violação
das sagradas garantias de habeas corpus de Mariano de Mattos
e a “escandalosa introdução de africanos.”
Apesar do aparente ataque ao comércio de escravos,
(mas não à escravidão propriamente),
Bento Gonçalves não explora mais esse tema e
junta, na mesma frase, um ataque à introdução
de dinheiro do cobre, que era um grande tema em todo o Brasil
na década de 1830. Indiretamente, Bento Gonçalves
estava atacando o que muitos acreditavam ser a influência
da classe portuguesa no Rio de Janeiro (ver SPALDING, Walter.
A epopéia farroupilha: pequena história da grande
revolução. p.85). Portanto, parece que ele estava
se referindo à manipulação do tráfico
comercial do Rio de Janeiro em vez da do Rio Grande do Sul,
ou à ascendência do Rio em todos os assuntos
comerciais. Para mais, ver, LEITMAN L. Spencer. A Brazilian
urban system in the nineteenth century: Pelotas and Rio de
Janeiro. In: Urbanization in the Americas from its beginnings
to the present, eds. Richard P. Schaedel et. al., The Hague,
1978, pp. 491-503.
21 VARELLA, Alfredo. História da grande revolução:
o ciclo farroupilha no Brasil. Porto Alegre, 1933, vol.VI,
p.17.
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Embora o projeto constitucional da República
Rio-grandense fosse um documento progressista para sua época,
com referências a novas práticas, proteções,
linguagens e instituições, ele não incluía
novos participantes. Entretanto, o governo farrapo e sua tentativa
constitucional valiam mais do que o exposto pela condenação
histórica de Araripe muitos anos depois: “Tudo
estava subordinado à turbulência, e essa república
não passava de um arraial ambulante militar”.
Os líderes farrapos, tanto os de mentalidade militar,
quanto os de fortes ideais republicanos, provavelmente concordariam
com uma solução que lhes permitisse serem obedientes
ao Rio de Janeiro se tivessem tido um reino mais livre localmente,
apoiado por garantias constitucionais. Como parte de um movimento
político mais amplo, o projeto constitucional não
ofuscou líderes individuais fortes que estavam no campo
junto às tropas. Os que podiam votar e servir segundo
a nova constituição proposta tinham propriedades
e escolaridade. Os homens libertos estavam especificamente
excluídos do voto. A Convenção Constitucional
fracassou ao final em decorrência de discordâncias
internas sobre a questão delicada do confisco de propriedades
legalistas.22
Sem reforços dramáticos no número de
escravos, ou assistência militar substancial de caudilhos
uruguaios não confiáveis, a Revolução
estava se transformando em uma série de encontros esporádicos,
tentando se evadir de um exército legalista revigorado
sob o comando apto do Barão de Caxias. Caxias foi o
primeiro dos generais-presidentes da província a exercer
uma liderança militar e política eficaz no Rio
Grande do Sul. Ele demonstrou um compromisso político
com os legalistas da região, levando o exército
ao campo para desgastar as cada vez mais fracas forças
farrapas. Distanciando-se de maneira arrojada dos que lhe
haviam precedido, Caxias aplicou pressão constante
para evitar que os farrapos reabastecessem a revolução
através da fronteira, ao mesmo tempo construindo suas
próprias reservas de homens, materiais e, em particular,
cavalos. Além disso, Caxias cultivou um relacionamento
forte com o Ministério da Guerra, no Rio de Janeiro.
Ele percebeu que o poder provincial não era puramente
militar, mas fiscal. O governo no Rio, por sua vez, aceitou
ter encontrado em Caxias sua última melhor esperança
para derrotar a Revolução Farroupilha, concordando
com suas constantes solicitações de financiamento.
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22 RUSSOMANNO, Victor. História constitucional do Rio
Grande do Sul: esboço (1835-1930), Pelotas, 1932, p.
82.
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No início de 1844, Caxias conhecia as
dificuldades que os farrapos tinham em fomentar uma guerra
de confronto. Ele já havia recebido diversas súplicas
de paz e realizado trocas de prisioneiros, tinha informações
sobre as divisões internas e intrigas entre os líderes
farrapos, e conhecia suas disputas com os caudilhos uruguaios.
O mais acessível, David Canabarro, era então
o general-comandante dos farrapos, removendo os primeiros
heróis da Revolução, Bento Gonçalves
e Sousa Netto, a papéis mais secundários. Com
base em notícias mandadas por Bento Manoel, agora lutando
pelo Império na zona de operações de
Alegrete, Caxias sabia que Canabarro tinha somente “400
negros e esses mal-montados”.23
A força de guerra e as reservas de cavalos dos farrapos
estavam gradualmente se esvaindo, e esses sinais positivos
eram motivo para continuar com a campanha. Mas Caxias era
um estudante de guerrilha e contra-revolução.
Muito embora ele tivesse seis mil tropas no campo, controlasse
todos os portos, as guarnições militares ao
longo da fronteira e as pequenas cidades da Campanha, e estivesse
perseguindo Canabarro, Caxias ainda precisava de um único
golpe para esclarecer a todos os farrapos que eles não
podiam mais manter suas forças cambaleantes. Havia
farrapos cansados e impacientes com vontade de voltar à
vida provincial sob o Império, se recebessem garantias
de local e posição, especialmente de reintegração
ao exército.
A resposta foi a Surpresa de Porongos, após a qual
veio a assinatura da Paz de Ponche Verde, em 1º de março
de 1845. O artigo 4 libertou escravos farrapos que haviam
lutado por rebeldes recentemente derrotados. Surpreendentemente,
a Corte havia recompensado escravos que haviam tomado armas
contra o Império e que tinham sido capturados entre
os mais leais ao Rio de Janeiro. Araripe deu aos farrapos
crédito por não terem abandonado seus compatriotas
negros e, ao mesmo tempo, elogiou o senso de justiça
do Rio ao concordar com esta perigosa cláusula que
determinava um precedente, atacava a propriedade privada e
a base do sistema escravista brasileiro.
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23 De Caxias ao ministro da Guerra, em 2 de Janeiro de
1844, em ARARIPE, Guerra civil, XLVII: 2, p. 179.
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Deve-se compreender que os líderes farrapos
viviam em uma sociedade predominantemente não branca:
escravos, homens libertos, índios, mulatos e mestiços.
Assim, embora buscassem poder local e a remoção
do que consideravam impostos regionalmente injustos e onerosos,
eles não necessariamente queriam cortar laços
com o Rio de Janeiro, até porque, depois de tudo, esta
cidade e o Império eram e permaneceriam seus principais
parceiros comerciais. Desde o início, os rebeldes mantinham
a instituição da monarquia em grande respeito.
Para alguns, o problema ainda estava na influência regressiva
inaceitável de Portugal sobre a Corte. Além
disso, os farrapos temiam mudanças radicais, as quais
poderiam alterar a ordem hierárquica social.
Embora a retórica da revolução parecesse
radical, democrática e às vezes separatista,
os rebeldes rio-grandenses realmente queriam um forte poder
local. Talvez eles não tivessem iniciado uma revolta
se o Rio de Janeiro tivesse enviado presidentes provinciais
que defendessem e apoiassem os partidários do poder
local. No início da década de 1830, os rio-grandenses
haviam visto uma série de reformas políticas
serem paralisadas com a chegada de presidentes provinciais
empenhados em exercer os poderes do Governo central.
Após a abdicação de D. Pedro I, em abril
de 1831, em favor de seu jovem filho, para que este fosse
supervisionado por uma regência mais aberta a interesses
regionais, o Rio de Janeiro havia entrado em um período
de relativa reforma. Foram criados o Código de Processo
Criminal, dando funções policiais e judiciais
aos juízes de paz, e a Guarda Nacional. Além
disso, houve o Ato Adicional de 1834, que pareceu centralizar
o poder nas assembléias provinciais, as quais, à
época, pela primeira vez, defendiam melhor os interesses
regionais. No entanto, os presidentes destas assembléias
ainda eram nomeados no Rio de Janeiro.
A Revolução Farroupilha não levou novas
classes sociais à política nem ofereceu expectativas
à população escrava. Pouco ou nada foi
dito sobre o tratamento e a incorporação dos
negros, e inclusive dos indígenas, em um sistema mais
democrático e humano. Deve-se ressaltar, entretanto,
a força e a perseverança da política
local. Mesmo assim, esperava-se mais do Rio Grande do Sul,
com suas características e história ímpares:
individualismo endurecido pela fronteira, casas maçônicas,
jornais republicanos, alguns com editores em cujas terras
não havia escravidão, e oficiais que lutaram
junto com os farrapos negros. Quando homens lutam juntos por
sua nação sob a mesma bandeira, eles devem se
tornar uma fraternidade.
Mesmos os mazzinianos italianos, com seu fervor ideológico,
ignoraram os escravos e outros povos sem posses. Garibaldi
apontou com orgulho suas habilidades de luta, mas silenciou
sobre seu espaço e futuro na sociedade. Nem os seguidores
da Jovem Itália perturbaram as tradições,
costumes e história brasileiros. O espaço dos
farrapos negros foi resultado de circunstância, e não
de crença ideológica. As atividades e técnicas
dos Zambeccaris e Rossettis ampliaram o espírito revolucionário
farrapo e o conectaram a tendências revolucionárias
então atuais na Europa. Desde o início, no Prospecto
Nº1, Vol. 1, o porta-voz revolucionário “O
Povo” afirmou que “o poder que dirige a revolução
tem que preparar os ânimos dos cidadãos aos sentimentos
de fraternidade, modéstia, igualdade e desinteressado
e ardente amor da Pátria”. Os italianos, escrevendo,
aconselhando, atuando como soldados e servindo como intermediários
comerciais eram mais nacionalistas que revolucionários
sociais. Sua posição combinava nacionalismo
romântico com liberalismo constitucional. Sua interpretação
para o poderoso significado de irmandade era para homens da
mesma cor e classe. Havia pouco ou nada escrito sobre a inclusão
de escravos ou outros grupos na nova ordem republicana que
nascia na Campanha.24
Os italianos estavam combatendo a monarquia com seu legado
de tirania. A Revolução Farroupilha seria a
chama nacionalista que se incendiaria e se espalharia às
outras províncias dominadas opressivamente pelo Rio
de Janeiro, criando um estado republicano federalista. Eles
confiavam no apelo emocional da pátria e da virtude
republicana. Em um editorial de “O Povo” foi publicado
o seguinte: “Não somos uma horda de salteadores
(...) Aqui o direito de propriedade é garantido, os
bens dos próprios dissidentes são respeitados,
há amor à ordem e à liberdade individual”,
referindo-se às diferenças entre rio-grandenses
e cabanos de Panelas de Miranda e Jacuípe.25
Os farrapos estavam apelando tanto a seus próprios
seguidores quanto aos outros na província. A Guerra
dos Cabanos e a Cabanagem haviam rapidamente se transformado
de feudos partidários em movimentos de agitação
social. Seria necessário resguardar-se destes e de
outros movimentos que continham insurreição
racial, como o Male, em Salvador. Expressões típicas
de Mazzini, de nacionalismo de estado-nação,
coincidiam perfeitamente com o respeito farrapo pelo poder
local e por seus interesses econômicos. Os emigrantes
italianos e os farrapos conheciam os perigos inerentes aos
levantes em massa de negros.
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24 Sobre os italianos, ver CANDIDO, Salvatore. Giuseppe
garibaldi: corsaro riograndense. Turim, 1964; e LEITMAN, Spencer
L. Italian Revolutionaries in the Empire of Brazil. In: Italian
Americana, v.2, n.2, 1976, pp. 143-156.
25 O Povo, v.1, n.21 (editorial).
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Há um legado histórico nas experiências
dos farrapos negros. Ideologicamente, eles poderiam ser considerados
parte de um período heróico onde não
há vencedores nem vencidos. O louvor, tanto a legalistas
quanto a farrapos, continua firme até hoje. A maioria
lembra da Guerra dos Farrapos como uma revolução
popular que promoveu expressões modernas de republicanismo
e federalismo. Tendências separatistas foram sumariamente
derrotadas. Mesmo com as mortes e todo o sofrimento, a revolução
não chegou a excessos fratricidas de outras guerras
regionais e civis. Se os farrapos negros deixaram a servidão,
fizeram-no da mesma forma como seus ancestrais nela haviam
entrado, com quase nada além das roupas nas suas costas,
ou talvez um novo uniforme militar dado pelo Império,
ou trabalhando como escravos privilegiados nas fazendas imperiais
de Santa Cruz.
A cláusula da Paz de Ponche Verde, entretanto, pelo
menos do modo como foi escrita, transformando escravos em
homens libertos, integrou uma tendência na história
brasileira, a da criação de uma ampla classe
de negros livres como parte do sistema multirracial do país.
Além disso, facilitou ao Rio de Janeiro a libertação
de 20 mil escravos para que esses lutassem na Guerra do Paraguai,
de 1865 a 1870. Para ter tropas e entrar na guerra, o governo
nacional precisou oferecer a promessa de liberdade. O exército,
em oposição crescente ao sistema escravista,
passou a ter números consideráveis de negros
e mulatos nas fileiras inferiores. Tal oposição
começou a se infiltrar na classe nacional de oficiais,
o que acelerou o processo da abolição no Brasil,
em 1888.
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