| Memória, mito e
identidade:
farroupilhas e italianos
no Rio Grande do Sul
Núncia Santoro de Constantino
________________________________________________________
Doutora em História Social, docente e pesquisadora
do Programa de Pós-graduação
em História da Pontifícia Universidade Católica
do Rio Grande do Sul
É bem conhecida e faz parte da História Regional
a participação de italianos na Revolução
Farroupilha. Tal participação, entretanto, está
praticamente restrita à narrativa da presença
de Garibaldi, Anzani, Rosseti e Zambeccari, sendo que, no
primeiro, estão condensadas as maiores atenções,
personagem de primeira grandeza na memória coletiva,
verdadeiro mito e símbolo de uma identidade étnica
entre imigrantes também no Brasil meridional.
Desde 1840, há traços de italianos na Província.
Por volta de 1870, formam comunidade, pois os membros de uma
comunidade têm um projeto comum, como explica Basbaum.1
Assim, desejam auxiliar-se mutuamente e preservar traços
culturais da origem comum; por isso fundam associações
em várias cidades rio-grandenses, sendo a primeira
sociedade estabelecida em Bagé, no ano de 1871.
Mas, quem eram esses senhores italianos que fundavam sociedades
para o mútuo socorro e quais os fatores que impulsionaram
sua vinda para o Rio Grande do Sul?
Diz Spencer Leitman que, desde a década de 1830, os
italianos controlavam o sistema de navegação
interna do Rio da Prata e eram membros fixos das tripulações
dos barcos de cabotagem na América do Sul.2
Avé-Lallemant, lembrando o ano de 1858, escreve que
se deslocava de Itaqui para Uruguaiana, sendo comodoro do
barco “(...) um velho marinheiro italiano de Livorno
que, por quase quarenta anos, navegava o Rio Uruguai, conhecendo
suas particularidades.”3
____________________________________________________________
1 BASBAUM, Leôncio. História e Consciência
Social. São Paulo: Global, 1982. p.145-50.
2 LEITMAN, Spencer. “Revolucionários Italianos
no Império do Brasil”. In: PESAVENTO, Sandra
et al. A Revolução Farroupilha: história
e interpretação. Porto Alegre: Mercado Aberto,
p.100-101.
3 AVÉ-LALLEMANT, Robert. Viagem pela Província
do Rio Grande do Sul: 1858. Belo Horizonte: Itatiaia, 1981.
p.292.
____________________________________________________________
Muitos dos italianos, cuja presença registrava-se
no Brasil meridional, eram lígures, súditos
dos príncipes de Savóia, do Piemonte, e foram
se estabelecendo como comerciantes nos núcleos urbanos
fronteiriços. Escrevendo sobre a invasão das
forças paraguaias a São Borja, o Cônego
Gay, testemunha ocular, registra as violências sofridas
pelo comerciante genovês Francisco Bergallo.4
Costa Franco, desenvolvendo estudo sobre os italianos da fronteira
do Rio Grande, afirma que essa presença foi registrada
bem antes de 18755. Naquele ano, começaram a ser ocupadas
as colônias demarcadas por ordem do governo, seja imperial,
seja provincial. O mesmo autor registra que as relações
comerciais de fronteira sempre representaram forte atrativo
para os estrangeiros, que encontravam amplas possibilidades
em comunidades enriquecidas com a pecuária ou com a
indústria do charque, mas onde faltavam praticamente
todos os produtos de consumo, em zonas que demandavam cada
vez mais esses produtos porque rapidamente se urbanizavam.6
O Conde D’Eu dirigia-se a Uruguaiana, para a rendição
dos paraguaios, finda a Guerra da Tríplice Aliança.
Em diário de viagem, narra sua passagem por Santana
do Livramento, em outubro de 1865. Lembra que ali havia cerca
de 2.000 habitantes; só a metade eram brasileiros;
no mais, eram uruguaios, argentinos e europeus. Dentre os
europeus, pareceu-lhe predominarem os italianos que, em suas
lojas, exibiam bustos do Rei Vittorio Emanuelle, que recém
unificara a Itália com seus exércitos piemonteses.
Onde havia um bilhar, em Santana, o Príncipe leu a
tabuleta “Hotel Garibaldi”, não deixando
dúvida quanto à origem do seu proprietário.7
Também sabemos que foram muitos os militares ou elementos
militarizados italianos que participaram da Revolução
Farroupilha e que acabaram por fixar-se na Província.
Segundo Spencer Leitman, a participação na revolução
desenvolveu-se a partir da Congrega Giovane Italia,
fundada no Rio de Janeiro por republicanos italianos, em torno
de 1830. Também Buenos Aires e Montevidéu possuíam
núcleos importantes de italianos, exilados políticos,
soldados e comerciantes.8
____________________________________________________________
4 GAY. João Pedro. Invasão paraguaia na
fronteira brasileira do Uruguai. Porto Alegre: IEL/ EST; Caxias
do Sul: Universidade de Caxias do Sul, 1980. p. 39.
5 FRANCO, Sérgio da Costa. “Imigração
Italiana na Fronteira Rio-Grandense”. In: Boletim da
Biblioteca Pública do Estado, Porto Alegre, n.1,v.2,
1975. p.11.
6 Id. Ibid.
7 CONDE D’EU. Viagem Militar ao Rio Grande do Sul. Belo
Horizonte: Itatiaia, São Paulo: Universidade de São
Paulo, 1981. p. 126.
8 LEITMAN, Spencer. Op. Cit. p.100-101.
____________________________________________________________
Logo, desde o início do século XIX, registrou-se
efetivamente uma presença italiana no sul do Brasil,
tornando-se mais notada na década de 1830, a partir
da Revolução Farroupilha. Além de Garibaldi,
Rossetti ou Zambeccari, sabe-se que foram muitos os italianos
envolvidos no movimento revolucionário. Matru, Cuneo,
Carniglia, Valerini, Staderini, Torrisan, entre outros, deixaram
registro de sua passagem em território rio-grandense.
Muitos permaneceram na Província, como Azzarini ou
Obino, companheiros de Garibaldi.
A fixação destes peninsulares nas cidades rio-grandenses
deveu-se, em grande parte, ao processo de urbanização
que se verificava nessas cidades e, especialmente, em Porto
Alegre.
Na década de 1870, apareceram, na capital, nítidos
sinais de modernização. Introduzidos o transporte
público e a iluminação pública
a gás, fez-se a ligação com a zona de
colonização alemã, com a construção
do primeiro trecho de estrada de ferro na Província.
Herbert Smith, naturalista norte-americano, deixaria impressões
sobre a cidade, correspondentes ao ano de 1881. Causaram-lhe
admiração as ruas largas, limpas e bem pavimentadas,
o grande número de estabelecimentos comerciais, que
considerou comparáveis aos de Nova Iorque. Quanto à
produção de manufaturas, acreditou ser mais
importante do que a de qualquer outra cidade brasileira.9
Na década de 1880, outra inovação foi
implantada na capital: a Companhia Telefônica inaugurou
seus serviços, empreendida com capitais rio-grandenses.
Porto Alegre crescera muito, praticamente duplicara a população
entre 1872 e 1900, aumento que, em grande parte, resultou
do ingresso de estrangeiros que, no período, foram
predominantemente italianos. Havia uma crescente demanda para
imigrantes que desempenhavam atividades tipicamente urbanas,
como artistas, artesãos, artífices, além
de comerciantes.
Sendo assim, é possível afirmar que, em grande
maioria, os italianos que se encontravam nas cidades gaúchas,
e que fundavam associações, eram comerciantes
ou proprietários de pequenas manufaturas; havia alguns
artistas, como músicos, pintores e escultores; havia
muitos fotógrafos também. Fundaram uma sociedade
em Porto Alegre, em 1877, a Vittorio Emanuelle II, homenageando
o rei.
____________________________________________________________
9 ENCICLOPÉDIA DOS MUNICÍPIOS BRASILEIROS.
Rio de Janeiro, IBGE, 1959. v. XXXIV. p.68.
____________________________________________________________
Um movimento pela Unidade Italiana iniciara já na
primeira metade do século XIX, de tendência republicana
e liberal. Giuseppe Mazzini, do exílio, conclamava
os italianos e recomendava sucessivas insurreições.
A sociedade clandestina que fundara, Giovine Itália,
expandia-se e possuía representantes na cidade do Rio
de Janeiro.
O jovem Garibaldi esteve entre os propagandistas da primeira
hora; tentou inclusive a malograda insurreição
de Gênova. Derrotados os mazzinianos, Garibaldi foi
condenado à morte aviltante e, foragido em Marselha,
decidiu atravessar o oceano. Seu destino é o Rio de
Janeiro, onde encontrará muitos companheiros de luta.
O decênio seguinte coincide com a presença de
Cavour junto aos soberanos do Piemonte, tecendo uma complicada
política externa que resultou na proclamação
do Reino da Itália, em 1861.
Revolucionário no Brasil e no Uruguai, Garibaldi retornara
à Itália dois anos antes, em 1859. Roma vive,
então, sua breve temporada republicana, mas Mazzini
e Garibaldi são derrotados. Em seguida, aliado e com
a cumplicidade de Cavour, Garibaldi organiza a chamada “Expedição
dos mil”, cujos soldados voluntários ficaram
conhecidos como os “camisas vermelhas”.
A massa popular esteve ausente do movimento de unificação,
constituído por intelectuais, comerciantes, estudantes
universitários que “(...) foram os primeiros
a unir-se aos voluntários de Garibaldi.”10 Porque
Garibaldi, representando a facção de esquerda,
tomava conta da cena. Mas, antes que se verificasse a anexação
de Roma pela direita, Garibaldi já está retirado
em Caprera. Em setembro de 1877, dessa ilha, escreve uma mensagem
para o Brasil, para o Rio Grande do Sul:
“Miei cari amici,
Grazie per il pregiato titolo di vostro presidente onorario.
Riccordo con gratitudini l’ospitalità ricevuta
tra la generosa popolazione del Rio Grande. Sempre vostro,
G. Garibaldi.”11
____________________________________________________________
10 SMITH, Mack. Storia d’Italia. Roma-Bari: Laterza,
2000. p. 17.
11 Cinquentenario della Colonizazione Italiana nello Stato
del Rio Grande del Sul: 1875-1925. Porto Alegre: Globo; Roma:
Ministerto degli Affari Esteri d’Italia, 1925. p.365.
____________________________________________________________
Agradecia aos membros da diretoria da Sociedade “Vittorio
Emanuele II” que o nomearam Presidente Honorário.
Alguns desses membros eram remanescentes dos batalhões
farroupilhas, outros da Legião Garibaldina no Uruguai:
Viale, Ratto, Raffo, Piccardo, Azzarini, Obino. Competia a
esses homens liderar a construção de uma
italianidade, assumiam a responsabilidade pela imagem
da Nuova Italia no Brasil meridional.
A idéia do “herói dos dois mundos”
foi ganhando força. Se o culto garibaldino prosperou,
se até o republicanismo norte-americano encontrava
um símbolo para imigrantes em Garibaldi, imagine-se
entre uruguaios e brasileiros do sul que puderam contar com
ele ao vivo e a cores.
Sabe-se da importância das agremiações
na construção de uma identidade étnica.
O grupo representado pela sociedade italiana acionava estratégias.12
As grandes concentrações embandeiradas fizeram
visível o grupo étnico, como acontecia nas festividades
de 20 de setembro, data nacional italiana. Neste primeiro
momento, há predominância de um nacionalismo
militar-patriótico entre os expoentes da comunidade.
A Vittorio Emanuelle II, como outras sociedades italianas,
reforçou traços culturais através de
símbolos, como o general Garibaldi, cujo nome já
estava glorificado na Itália. Torna-se a figura predileta
nas comunidades de imigrantes, representado com a farda de
general ou com o uniforme dos “camisas vermelhas”.
É uma primeira representação, e o ateliê
fotográfico de Calegari vende quadros com a fotografia
de Garibaldi pintada a óleo, multiplicando sua imagem
com a camisa vermelha. O quadro estará na parede da
casa dos italianos, como símbolo de patriótica
italianidade, pois, então, os imigrantes têm
finalmente uma pátria-mãe.
Lançada a pedra fundamental de sua mais antiga associação,
o edifício próprio da “Vittorio”
seria inaugurado em 1904. Imponente construção
neoclássica, com mármore na fachada e sacadas
de ferro. As três portas de cima guarnecidas por bustos
do rei Vittorio Emanuelle, de Mazzini e de Garibaldi, heróis
do Ressurgimento.
____________________________________________________________
12 OSPITAL, María Silvia & CONSTANTINO, Núncia
Santoro de. Construção da Identidade e associações
Italianas: La Plata e Porto Alegre (1880-1920). Porto Alegre:
Estudos Ibero-Americanos, 1999, v. XXV, n.2. p.131-146.
13 CALDRE E FIÃO, José Antonio do Vale. A Divina
Pastora. Porto Alegre: RBS, 1992. p. 42-3.
____________________________________________________________
uma outra identidade, diante de novas realidades que surgiam.
Ao tempo da Guerra do Paraguai, precisamente em 1868, um grupo
de intelectuais fundara o “Partenon Literário”.
Iniciou-se a exaltação da temática gauchesca,
houve apologias aos heróis da Revolução
Farroupilha, que, de movimento bárbaro e sedicioso,
“dissensão civil de traidores que dilacerava
a pátria”, como escreveu Caldre e Fião13,
passou a ser narrado, no final do século, como gesta
de heróis. O Partenon veiculava um movimento romântico
e tardio, valorizava o gaúcho como figura do nativo
puro, na trilha de José de Alencar, que publica o romance
“O Gaúcho”, idealizando o “centauro
dos pampas”.14
Enquanto isso, era feita a República e, antes que eclodisse
a Revolução de 1893, surgiram sérias
questões envolvendo súditos italianos.
O cônsul vai relatando tais questões e solicita
providências a Roma. Comenta a ação do
Correio Católico, que “há muito tempo
costumava publicar artigos desfavoráveis à Itália
e às suas instituições. Em outubro de
1892, chamou Garibaldi de cão, afirmando que a Itália
estava reduzida a uma espelunca de ladrões”.15
O cônsul adverte sobre a violenta tomada de posição
pela “colônia” e sobre a hostilidade de
grande parte dessa “colônia” contra o Partido
Republicano.16
____________________________________________________________
14 OLIVEN, Rubem Jorge. A parte e o todo: a diversidade
cultural no Brasil-Nação. Petrópolis:
Vozes, 1992. p. 51.
15 “Da molto tempo era solito inserire articoli sfavorevoli
all’Italia e alle sue istituizioni. Nell’ottobre
del 1892 diede l’appellativo di cane a Garibaldi, sostenendo
che l’Italia era ridotta ad una spelonca di ladri”
16 Serie Politica P, Brasile, pacco 279 (1881-1920) busta
280. Roma: Archivio Storico Ministero degli Affari Esteri.
17 Tribunal do Juri 1884-85. Arquivo Público do Rio
Grande do Sul.
18 PINTO, Celi Regina. Um projeto político alternativo
(RS: 1889-1930). Porto Alegre: L&PM, 1986. p.36.
____________________________________________________________
Em setembro de 1895, o “Volksblatt”, publicado
em alemão e dirigido por jesuítas, está
insultando a Itália na sua data nacional, como “(...)
país desprezível, decadente, torpe, miserável...”.
Os italianos são chamados de “(...) bandidos,
homens sem moral, guiados por instintosvis”. Afinal,
a data nacional festejava a perda de Roma pelo Papa e o clero
católico posicionava-se. Alguns líderes da “colônia”
organizam uma marcha no centro de Porto Alegre, com centenas
de trabalhadores italianos descalços e esfarrapados
gritando “morras” aos jesuítas e ao Papa;
a turba enfurecida empastela a gráfica que publicava
o jornal, na Rua dos Andradas.
Abre-se um processo judicial. Antigas testemunhas oculares
foram mudando os depoimentos registrados na Polícia;
a ação foi considerada improcedente por falta
de provas.17 Os tempos eram outros, e bem outros.
A Revolução Farroupilha terminara e Castilhos
estava no governo. Ideólogo do Partido Republicano,
seguia Comte quando defendia “pequenas pátrias”,
para melhor organizar a sociedade. “(...) provisoriamente
organizadas sob uma federação...”18 Antes
da proclamação da República, já
defendia a celebração do dia 20 de setembro,
eclosão da Revolução Farroupilha, como
o “Dia do Gaúcho”. Ao promulgar uma Constituição
Estadual, definiu como insígnias oficiais aquelas “(...)
do pavilhão tricolor da malograda República
Rio-grandense”.19
Italianos e gaúchos festejavam a mesma data por razões
diferentes.
____________________________________________________________
19 OLIVEN, Rubem. Op.Cit. p. 73.
20 DE BONI, Luís A. & COSTA, Rovilio. Os Italianos
do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: EST; Caxias do Sul: Universidade
de Caxias/ Correio Riograndense, 1984. p. 68.
21 OLIVEN, Rubem. Op. Cit,p P.70.
22 CINQUANTENARIO DELLA COLONIZZAZIONE. Op. Cit. p. 407.
____________________________________________________________
Em 1898, Castilhos foi substituído por Borges de Medeiros,
que, ao tomar posse, deixou claras as suas intenções
de reativar a imigração, com parecer favorável
aos imigrantes italianos. As antigas colônias do interior
passaram a ser cuidadosamente protegidas e incentivadas pelo
governo estadual. Verificou-se um rápido desenvolvimento
na região colonial. Costa e De Boni escrevem que Borges
de Medeiros foi o responsável pelos melhores períodos
da colonização; ordenou a abertura de estradas
e a construção de escolas, e favoreceu a ocupação
de terras novas.20
A inspiração regionalista logo se faz notar
nessas colônias. Em 1890, as duas primeiras são
desmembradas de Montenegro, formando o município de
Bento Gonçalves. Em 1900, a outra colônia mais
antiga, Conde D’Eu, é emancipada como município
de Garibaldi.
Fora exaltada a temática gaúcha pelos literatos
do Partenon Literário. E, logo no final do século
XIX, surgiria a primeira agremiação tradicionalista:
o Grêmio Gaúcho de Porto Alegre, criado em 1898
por Cezimbra Jacques.21
A Revolução Farroupilha assumia o primeiro plano
na narrativa histórica rio-grandense, com destaque
a Garibaldi. No herói dos dois mundos demonstrava-se
a magnitude dos ideais farroupilhas e a profunda ligação
dos italianos com o Rio Grande.
Em 1883, fora aberto o trecho inicial da Rua Garibaldi. Em
1907, no dia do centenário de nascimento de Garibaldi,
a antiga Praça da Concórdia, na Cidade Baixa,
recebeu o nome do general. Em 1913, estava inaugurado, na
mesma praça, o monumento erigido com fundos da campanha
liderada por expoentes do grupo italiano.22 A representação
de Garibaldi já não está sendo feita
com a farda habitual. Garibaldi agora é o revolucionário
farroupilha e já aparece na companhia de Anita, a mãe
corajosa, a mulher guerreira.
Grandes festejos marcaram o cinqüentenário da
colonização no Rio Grande do Sul, em 1925. Um
álbum recebeu financiamento do Governo italiano e foi
publicado na Editora Globo, cujo proprietário era o
italiano Bertaso. Nas primeiras páginas, estampam-se
as mensagens de Borges de Medeiros e de Benito Mussolini;
o então ministro do Exterior do Reino d’Itália
desenvolvia uma intensa ação diplomática,
buscando cooptar imigrantes, que, em larga medida, ascendiam
socialmente.
____________________________________________________________
23 FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio
de Janeiro: Graal, 1993. p. 244-255.
24 GUTFREIND, Ieda. Historiografia rio-grandense. Porto Alegre:
Editora da Universidade/UFRGS, 1992. p.11, 23.
25 OLIVEN, Rubem. Op. Cit. p. 60.
____________________________________________________________
Organiza o álbum Mansueto Bernardi, autor do primeiro
texto. O título é: “Gli Italiani e la
Republica di Piratiny”. Na verdade, Mansueto era um
intelectual a representar italianos, pois nascera na Itália,
de onde viera com três meses de idade e crescera em
Veranópolis. Foi um dos fundadores da Revista do Globo;
dedicou-se ao estudo de escritores gaúchos; era membro
destacado do Partido Republicano Riograndense, num tempo de
nacionalismo exacerbado.
Em plena década dos vinte, depois da Semana de Arte
Moderna, havia um certo “espírito de época”,
ou aquilo que Foucault chamou de “dispositivo”,
definido como um conjunto de estratégias que sustentam
diferentes tipos de saber, e que são por esses sustentadas.23
Nesse dispositivo há uma concepção de
regionalismo tradicionalista como manifestação
modernista.
Lembra Gutfreind que, apesar de ser limitado o ambiente cultural
no Rio Grande do Sul, notou-se no período uma certa
efervescência cultural, sendo que o mais importante
acontecimento foi a refundação do Instituto
Histórico e Geográfico, logo em 1920, aglutinando
importante grupo de intelectuais.24
Em todos os sentidos, as mudanças se aceleravam desde
o final da Primeira Guerra. A Revolução de 30
é uma forma de expressão desse conjunto de transformações;
explode no sul, mais precisamente em Porto Alegre, e seu líder
é um gaúcho. O “Rio Grande em pé
pelo Brasil” foi a frase proferida por Getúlio
Vargas, ao final do discurso que inaugurava a revolução.
E continuou sempre salientando a liderança do Rio Grande
na regeneração do Brasil.25
____________________________________________________________
26 GUTFREIND, Ieda. Op. Cit. p.115.
27 Segundo Flores, Garibaldi entra em contato com os revolucionários
em 1836, já deflagrada a guerra. Anita conheceu-o em
1839, quando da invasão de Laguna. Os lanchões
Seival e Farroupilha foram construídos sob a fiscalização
do irmão de Bento Gonçalves, o juiz de paz José.
Esses lanchões subiram o Rio Capivari, de onde foram
puxados por juntas de bois até a barra do Rio Tramandaí,
em percurso de cerca de 50 milhas. O Seival, comandado por
Grigs, fez-se ao largo, mas o Farroupilha, comandado por Mutru,
levando a bordo Garibaldi, sossobrou, morrendo muita gente,
como recorda Garibaldi nas suas memórias autobiográficas.
28 ROSA, Othelo. Vultos da Epopéia Farroupilha. Porto
Alegre: Globo, 1935. LAYTANO, Dante. História da República
Rio-Grandense (1835-1845). Porto Aegre: Globo, 1936. DOCCA,
Emilio de Souza. O Sentido Brasileiro da Revolução
Farroupilha. Porto Alegre: Globo, 1935. SPALDING, Walter.
Os Farrapos. Porto Alegre: Sulina, s/d.
____________________________________________________________
Ficava, portanto, reforçada a tendência regionalista.
O lançamento da obra de Alfredo Varella sobre a Revolução
Farroupilha, em 1933, alimenta essa tendência, mesmo
que estivesse isolada, em matriz que defendia a influência
platina na formação cultural do Rio Grande.
Predominava uma corrente contaminada pelo nacionalismo, representada
por Souza Docca, Othelo Rosa e Aurélio Porto, ganhando
força à medida que se aproximava o centenário
da Revolução Farroupilha, festejado com grandiosidade
em 193526. No antigo Campo da Redenção, construiu-se
o parque que receberia a exposição internacional
e que passou a se chamar Parque Farroupilha.
As abordagens em torno de Garibaldi e de sua trajetória
no Rio Grande do Sul serão recorrentes, para exaltar
a amplitude dos ideais farroupilhas. Seu esforço no
comando da estropiada esquadra farroupilha é descrito
com entusiasmo pelos membros do Instituto Histórico,
na década de 1930. Othelo Rosa exalta o personagem,
descreve a passagem de Garibaldi pelo Rio Grande como epopéia;
Dante de Laytano, filho de italianos, enaltece o idealismo
garibaldino e destaca a famosa travessia dos lanchões
por terra.27
Até mesmo Souza Docca, mais contido, descreverá
essa travessia dos barcos Seival e Farroupilha, desde Camaquã
até Tramandaí. Ele reconhece heroísmo
em Garibaldi, mas traz alguns elementos novos, criticando
autores como Antonio Pereira Pinto, Américo Brasiliense
ou Vittorio Buccelli, por excesso laudatório. Em outras
palavras, busca depurar aspectos lendários, na trilha
da tradição positivista. Spalding vai ainda
mais além, apontando razões econômicas
que motivaram Garibaldi a abandonar a revolução:
em 1841, sai da cena farroupilha, depois de acertar as contas
com os chefes revolucionários. Retira-se para o Uruguai,
transpondo a fronteira com grande tropa de gado que recebeu
como pagamento por serviços prestados.28
É inaugurado o monumento a Bento Gonçalves,
em Porto Alegre, durante 1935; surge o obelisco comemorativo
à Revolução Farroupilha, em Garibaldi;
o busto de Garibaldi na mesma cidade fora inaugurado anteriormente,
em 1932, obra de Antonio Caringi.
____________________________________________________________
29 CONSTANTINO, Núncia Santoro de. “Tempo
de Guerra e Narrativa”. In: História: debates
e tendências. Passo Fundo: Universidade de Passo Fundo,
2004.
30 CERVO, Amado Luiz. “As relações diplomáticas
entre o Brasil e a Itália desde 1861”. In: DE
BONI, Luis A.(Org) A presença Italiana no Brasil. Porto
Alegre; Torino: EST; Fondazione Giovanni Agnelli, 1990. p.29.
31 OLIVEN, Rubem. Op. Cit. p. 99.
____________________________________________________________
Com variações, a imagem de Garibaldi permanece
no primeiro plano da historiografia rio-grandense. A declaração
de guerra ao Eixo, em fevereiro de 1942, não altera
tal imagem e beneficia o grupo italiano no Rio Grande do Sul.
Sabe-se que os italianos aqui foram tratados com certa “amabilidade”,
se comparados aos alemães.29
Finda a guerra, as medidas para recompor a amizade estremecida
não tardam. Mesmo antes da assinatura dos tratados,
um decreto libera os bens confiscados aos italianos. Em outubro
de 1946, já se encontrava assinada a Declaração
de Amizade e de Cooperação entre Brasil e Itália.30
Tanto a guerra foi um acidente de percurso que, entre 1941
e 1950, a imigração italiana no Brasil aumentava
cinco vezes. E a imagem de Garibaldi continuava sendo mantida
como aquela do herói de dois mundos, inclusive do nosso.
Nos recentes anos setenta, percebe-se um movimento revisionista
que destaca um Garibaldi corsário. Mas, nos anos oitenta,
festejou-se o sesquicentenário da Revolução
Farroupilha, com importante movimento para reviver tradições
regionais, com o surgimento de centenas de entidades tradicionalistas,
de festivais de música nativista, com consumo de cantores
e discos, livros, bailões; com a publicidade fazendo
referência a valores gaúchos.31 Tal movimento
invade as cidades, onde os jovens reaprendem a tomar mate
e vestem o poncho.
A Revolução Farroupilha está sendo novamente
narrada, desta vez em perspectiva bem mais crítica,
em trabalhos de natureza acadêmica, acompanhando os
programas de pós-graduação que vêm
sendo implantados. Garibaldi é herói multifacetado,
humano, insinuante, conquistador, a cara do ator Tiago Lacerda
no seriado “A casa das sete mulheres”, veiculado
pela Rede Globo de TV.
Uma das novidades surgidas nos últimos tempos diz respeito
à incorporação de Anita nas narrativas
históricas, como um capítulo à parte,
resultado da ampla discussão possível a partir
dos progressos do feminismo ou da história de gênero.
Anita passa a ser contada com os olhos do presente, tão
diferente da companheira dos anos trinta, cheia de lacunas
reveladoras do preconceito.
Hoje há movimento que reforça a italianidade.
Milhares de oriundi buscam o passaporte italiano.
O Brasil transforma-se em país de emigração.
São estes emigrantes que dançam a chimarrita
na piazza, que até vendem churrasco na Itália.
Como fizeram seus avós, reconstroem uma identidade
no país de imigração. Garibaldi está
sendo “repaginado” para dizer novamente que lutou
pela democracia com os brasileiros meridionais. Que vestiu
poncho e que reconheceu nos gaúchos homens valentes
e hospitaleiros.
Como últimas palavras, lembro que somente personagens
de grande porte servem a diferentes propósitos sociais,
em diferentes tempos. Garibaldi é forte e viveu intensamente;
por isso continua como referência e resistirá
ao esquecimento.
Referências bibliográficas
AVÉ-LALLEMANT, Robert. Viagem pela Província
do Rio Grande do Sul: 1858. Belo Horizonte: Itatiaia,
1981.
BASBAUM, Leôncio. História e Consciência
Social. São Paulo: Global, 1982.
BONI, Luis A. (Org) A presença Italiana no Brasil.
Porto Alegre; Torino: EST; Fondazione Giovanni Agnelli, 1990.
CALDRE E FIÃO, José Antonio do Vale. A Divina
Pastora. Porto Alegre: RBS, 1992.
CERVO, Amado Luiz. As relações diplomáticas
entre o Brasil e a Itália desde 1861. In: DE Cinquentenario
della Colonizazione Italiana nello Stato del Rio Grande del
Sul: 1875-1925. Porto Alegre: Globo; Roma: Ministerto
degli Affari Esteri d’Italia, 1925.
CONDE D’EU. Viagem Militar ao Rio Grande do
Sul. Belo Horizonte: Itatiaia, São Paulo: Universidade
de São Paulo, 1981.
CONSTANTINO, Núncia Santoro de. Tempo de Guerra
e Narrativa. In: História: debates e tendências.
Passo Fundo: Universidade de Passo Fundo, 2004.
DE BONI, Luís A. & COSTA, Rovilio. Os Italianos
do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: EST; Caxias do Sul:
Universidade de Caxias/ Correio Riograndense, 1984.
DOCCA, Emilio de Souza. O Sentido Brasileiro da Revolução
Farroupilha. Porto Alegre: Globo, 1935.
ENCICLOPÉDIA DOS MUNICÍPIOS BRASILEIROS.
Rio de Janeiro, IBGE, 1959, v. XXXIV.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio
de Janeiro: Graal, 1993.
FRANCO, Sérgio da Costa. “Imigração
Italiana na Fronteira Rio-Grandense”. In: Boletim
da Biblioteca Pública do Estado, Porto Alegre,
1975, n.1, v.2.
GAY. João Pedro. Invasão paraguaia na fronteira
brasileira do Uruguai. Porto Alegre: IEL/ EST; Caxias
do Sul: Universidade de Caxias do Sul, 1980.
GUTFREIND, Ieda. Historiografia rio-grandense. Porto
Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 1992.
LAYTANO, Dante. História da República
Rio-Grandense (1835-1845). Porto Alegre: Globo, 1936.
LEITMAN, Spencer. Revolucionários Italianos no Império
do Brasil. In: PESAVENTO, Sandra et al. A Revolução
Farroupilha: história e interpretação.
Porto Alegre: Mercado Aberto.
OLIVEN, Rubem Jorge. A parte e o todo: a diversidade
cultural no Brasil
|