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Memória, mito e identidade:
farroupilhas e italianos
no Rio Grande do Sul


Núncia Santoro de Constantino
________________________________________________________
Doutora em História Social, docente e pesquisadora do Programa de Pós-graduação
em História da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul



É bem conhecida e faz parte da História Regional a participação de italianos na Revolução Farroupilha. Tal participação, entretanto, está praticamente restrita à narrativa da presença de Garibaldi, Anzani, Rosseti e Zambeccari, sendo que, no primeiro, estão condensadas as maiores atenções, personagem de primeira grandeza na memória coletiva, verdadeiro mito e símbolo de uma identidade étnica entre imigrantes também no Brasil meridional.

Desde 1840, há traços de italianos na Província. Por volta de 1870, formam comunidade, pois os membros de uma comunidade têm um projeto comum, como explica Basbaum.1 Assim, desejam auxiliar-se mutuamente e preservar traços culturais da origem comum; por isso fundam associações em várias cidades rio-grandenses, sendo a primeira sociedade estabelecida em Bagé, no ano de 1871.

Mas, quem eram esses senhores italianos que fundavam sociedades para o mútuo socorro e quais os fatores que impulsionaram sua vinda para o Rio Grande do Sul?

Diz Spencer Leitman que, desde a década de 1830, os italianos controlavam o sistema de navegação interna do Rio da Prata e eram membros fixos das tripulações dos barcos de cabotagem na América do Sul.2

Avé-Lallemant, lembrando o ano de 1858, escreve que se deslocava de Itaqui para Uruguaiana, sendo comodoro do barco “(...) um velho marinheiro italiano de Livorno que, por quase quarenta anos, navegava o Rio Uruguai, conhecendo suas particularidades.”3

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1 BASBAUM, Leôncio. História e Consciência Social. São Paulo: Global, 1982. p.145-50.

2 LEITMAN, Spencer. “Revolucionários Italianos no Império do Brasil”. In: PESAVENTO, Sandra et al. A Revolução Farroupilha: história e interpretação. Porto Alegre: Mercado Aberto, p.100-101.

3 AVÉ-LALLEMANT, Robert. Viagem pela Província do Rio Grande do Sul: 1858. Belo Horizonte: Itatiaia, 1981. p.292.

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Muitos dos italianos, cuja presença registrava-se no Brasil meridional, eram lígures, súditos dos príncipes de Savóia, do Piemonte, e foram se estabelecendo como comerciantes nos núcleos urbanos fronteiriços. Escrevendo sobre a invasão das forças paraguaias a São Borja, o Cônego Gay, testemunha ocular, registra as violências sofridas pelo comerciante genovês Francisco Bergallo.4

Costa Franco, desenvolvendo estudo sobre os italianos da fronteira do Rio Grande, afirma que essa presença foi registrada bem antes de 18755. Naquele ano, começaram a ser ocupadas as colônias demarcadas por ordem do governo, seja imperial, seja provincial. O mesmo autor registra que as relações comerciais de fronteira sempre representaram forte atrativo para os estrangeiros, que encontravam amplas possibilidades em comunidades enriquecidas com a pecuária ou com a indústria do charque, mas onde faltavam praticamente todos os produtos de consumo, em zonas que demandavam cada vez mais esses produtos porque rapidamente se urbanizavam.6

O Conde D’Eu dirigia-se a Uruguaiana, para a rendição dos paraguaios, finda a Guerra da Tríplice Aliança. Em diário de viagem, narra sua passagem por Santana do Livramento, em outubro de 1865. Lembra que ali havia cerca de 2.000 habitantes; só a metade eram brasileiros; no mais, eram uruguaios, argentinos e europeus. Dentre os europeus, pareceu-lhe predominarem os italianos que, em suas lojas, exibiam bustos do Rei Vittorio Emanuelle, que recém unificara a Itália com seus exércitos piemonteses. Onde havia um bilhar, em Santana, o Príncipe leu a tabuleta “Hotel Garibaldi”, não deixando dúvida quanto à origem do seu proprietário.7

Também sabemos que foram muitos os militares ou elementos militarizados italianos que participaram da Revolução Farroupilha e que acabaram por fixar-se na Província.

Segundo Spencer Leitman, a participação na revolução desenvolveu-se a partir da Congrega Giovane Italia, fundada no Rio de Janeiro por republicanos italianos, em torno de 1830. Também Buenos Aires e Montevidéu possuíam núcleos importantes de italianos, exilados políticos, soldados e comerciantes.8

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4 GAY. João Pedro. Invasão paraguaia na fronteira brasileira do Uruguai. Porto Alegre: IEL/ EST; Caxias do Sul: Universidade de Caxias do Sul, 1980. p. 39.

5 FRANCO, Sérgio da Costa. “Imigração Italiana na Fronteira Rio-Grandense”. In: Boletim da Biblioteca Pública do Estado, Porto Alegre, n.1,v.2, 1975. p.11.

6 Id. Ibid.

7 CONDE D’EU. Viagem Militar ao Rio Grande do Sul. Belo Horizonte: Itatiaia, São Paulo: Universidade de São Paulo, 1981. p. 126.

8 LEITMAN, Spencer. Op. Cit. p.100-101.


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Logo, desde o início do século XIX, registrou-se efetivamente uma presença italiana no sul do Brasil, tornando-se mais notada na década de 1830, a partir da Revolução Farroupilha. Além de Garibaldi, Rossetti ou Zambeccari, sabe-se que foram muitos os italianos envolvidos no movimento revolucionário. Matru, Cuneo, Carniglia, Valerini, Staderini, Torrisan, entre outros, deixaram registro de sua passagem em território rio-grandense. Muitos permaneceram na Província, como Azzarini ou Obino, companheiros de Garibaldi.

A fixação destes peninsulares nas cidades rio-grandenses deveu-se, em grande parte, ao processo de urbanização que se verificava nessas cidades e, especialmente, em Porto Alegre.

Na década de 1870, apareceram, na capital, nítidos sinais de modernização. Introduzidos o transporte público e a iluminação pública a gás, fez-se a ligação com a zona de colonização alemã, com a construção do primeiro trecho de estrada de ferro na Província.

Herbert Smith, naturalista norte-americano, deixaria impressões sobre a cidade, correspondentes ao ano de 1881. Causaram-lhe admiração as ruas largas, limpas e bem pavimentadas, o grande número de estabelecimentos comerciais, que considerou comparáveis aos de Nova Iorque. Quanto à produção de manufaturas, acreditou ser mais importante do que a de qualquer outra cidade brasileira.9

Na década de 1880, outra inovação foi implantada na capital: a Companhia Telefônica inaugurou seus serviços, empreendida com capitais rio-grandenses. Porto Alegre crescera muito, praticamente duplicara a população entre 1872 e 1900, aumento que, em grande parte, resultou do ingresso de estrangeiros que, no período, foram predominantemente italianos. Havia uma crescente demanda para imigrantes que desempenhavam atividades tipicamente urbanas, como artistas, artesãos, artífices, além de comerciantes.

Sendo assim, é possível afirmar que, em grande maioria, os italianos que se encontravam nas cidades gaúchas, e que fundavam associações, eram comerciantes ou proprietários de pequenas manufaturas; havia alguns artistas, como músicos, pintores e escultores; havia muitos fotógrafos também. Fundaram uma sociedade em Porto Alegre, em 1877, a Vittorio Emanuelle II, homenageando o rei.

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9 ENCICLOPÉDIA DOS MUNICÍPIOS BRASILEIROS. Rio de Janeiro, IBGE, 1959. v. XXXIV. p.68.

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Um movimento pela Unidade Italiana iniciara já na primeira metade do século XIX, de tendência republicana e liberal. Giuseppe Mazzini, do exílio, conclamava os italianos e recomendava sucessivas insurreições. A sociedade clandestina que fundara, Giovine Itália, expandia-se e possuía representantes na cidade do Rio de Janeiro.

O jovem Garibaldi esteve entre os propagandistas da primeira hora; tentou inclusive a malograda insurreição de Gênova. Derrotados os mazzinianos, Garibaldi foi condenado à morte aviltante e, foragido em Marselha, decidiu atravessar o oceano. Seu destino é o Rio de Janeiro, onde encontrará muitos companheiros de luta.

O decênio seguinte coincide com a presença de Cavour junto aos soberanos do Piemonte, tecendo uma complicada política externa que resultou na proclamação do Reino da Itália, em 1861.

Revolucionário no Brasil e no Uruguai, Garibaldi retornara à Itália dois anos antes, em 1859. Roma vive, então, sua breve temporada republicana, mas Mazzini e Garibaldi são derrotados. Em seguida, aliado e com a cumplicidade de Cavour, Garibaldi organiza a chamada “Expedição dos mil”, cujos soldados voluntários ficaram conhecidos como os “camisas vermelhas”.

A massa popular esteve ausente do movimento de unificação, constituído por intelectuais, comerciantes, estudantes universitários que “(...) foram os primeiros a unir-se aos voluntários de Garibaldi.”10 Porque Garibaldi, representando a facção de esquerda, tomava conta da cena. Mas, antes que se verificasse a anexação de Roma pela direita, Garibaldi já está retirado em Caprera. Em setembro de 1877, dessa ilha, escreve uma mensagem para o Brasil, para o Rio Grande do Sul:

“Miei cari amici,
Grazie per il pregiato titolo di vostro presidente onorario.
Riccordo con gratitudini l’ospitalità ricevuta tra la generosa popolazione del Rio Grande. Sempre vostro,
G. Garibaldi.”11

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10 SMITH, Mack. Storia d’Italia. Roma-Bari: Laterza, 2000. p. 17.

11 Cinquentenario della Colonizazione Italiana nello Stato del Rio Grande del Sul: 1875-1925. Porto Alegre: Globo; Roma: Ministerto degli Affari Esteri d’Italia, 1925. p.365.


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Agradecia aos membros da diretoria da Sociedade “Vittorio Emanuele II” que o nomearam Presidente Honorário. Alguns desses membros eram remanescentes dos batalhões farroupilhas, outros da Legião Garibaldina no Uruguai: Viale, Ratto, Raffo, Piccardo, Azzarini, Obino. Competia a esses homens liderar a construção de uma italianidade, assumiam a responsabilidade pela imagem da Nuova Italia no Brasil meridional.

A idéia do “herói dos dois mundos” foi ganhando força. Se o culto garibaldino prosperou, se até o republicanismo norte-americano encontrava um símbolo para imigrantes em Garibaldi, imagine-se entre uruguaios e brasileiros do sul que puderam contar com ele ao vivo e a cores.

Sabe-se da importância das agremiações na construção de uma identidade étnica. O grupo representado pela sociedade italiana acionava estratégias.12
As grandes concentrações embandeiradas fizeram visível o grupo étnico, como acontecia nas festividades de 20 de setembro, data nacional italiana. Neste primeiro momento, há predominância de um nacionalismo militar-patriótico entre os expoentes da comunidade.

A Vittorio Emanuelle II, como outras sociedades italianas, reforçou traços culturais através de símbolos, como o general Garibaldi, cujo nome já estava glorificado na Itália. Torna-se a figura predileta nas comunidades de imigrantes, representado com a farda de general ou com o uniforme dos “camisas vermelhas”.

É uma primeira representação, e o ateliê fotográfico de Calegari vende quadros com a fotografia de Garibaldi pintada a óleo, multiplicando sua imagem com a camisa vermelha. O quadro estará na parede da casa dos italianos, como símbolo de patriótica italianidade, pois, então, os imigrantes têm finalmente uma pátria-mãe.

Lançada a pedra fundamental de sua mais antiga associação, o edifício próprio da “Vittorio” seria inaugurado em 1904. Imponente construção neoclássica, com mármore na fachada e sacadas de ferro. As três portas de cima guarnecidas por bustos do rei Vittorio Emanuelle, de Mazzini e de Garibaldi, heróis do Ressurgimento.

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12 OSPITAL, María Silvia & CONSTANTINO, Núncia Santoro de. Construção da Identidade e associações Italianas: La Plata e Porto Alegre (1880-1920). Porto Alegre: Estudos Ibero-Americanos, 1999, v. XXV, n.2. p.131-146.

13 CALDRE E FIÃO, José Antonio do Vale. A Divina Pastora. Porto Alegre: RBS, 1992. p. 42-3.


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uma outra identidade, diante de novas realidades que surgiam.
Ao tempo da Guerra do Paraguai, precisamente em 1868, um grupo de intelectuais fundara o “Partenon Literário”. Iniciou-se a exaltação da temática gauchesca, houve apologias aos heróis da Revolução Farroupilha, que, de movimento bárbaro e sedicioso, “dissensão civil de traidores que dilacerava a pátria”, como escreveu Caldre e Fião13, passou a ser narrado, no final do século, como gesta de heróis. O Partenon veiculava um movimento romântico e tardio, valorizava o gaúcho como figura do nativo puro, na trilha de José de Alencar, que publica o romance “O Gaúcho”, idealizando o “centauro dos pampas”.14

Enquanto isso, era feita a República e, antes que eclodisse a Revolução de 1893, surgiram sérias questões envolvendo súditos italianos.

O cônsul vai relatando tais questões e solicita providências a Roma. Comenta a ação do Correio Católico, que “há muito tempo costumava publicar artigos desfavoráveis à Itália e às suas instituições. Em outubro de 1892, chamou Garibaldi de cão, afirmando que a Itália estava reduzida a uma espelunca de ladrões”.15 O cônsul adverte sobre a violenta tomada de posição pela “colônia” e sobre a hostilidade de grande parte dessa “colônia” contra o Partido Republicano.16

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14 OLIVEN, Rubem Jorge. A parte e o todo: a diversidade cultural no Brasil-Nação. Petrópolis: Vozes, 1992. p. 51.

15 “Da molto tempo era solito inserire articoli sfavorevoli all’Italia e alle sue istituizioni. Nell’ottobre del 1892 diede l’appellativo di cane a Garibaldi, sostenendo che l’Italia era ridotta ad una spelonca di ladri”

16 Serie Politica P, Brasile, pacco 279 (1881-1920) busta 280. Roma: Archivio Storico Ministero degli Affari Esteri.

17 Tribunal do Juri 1884-85. Arquivo Público do Rio Grande do Sul.

18 PINTO, Celi Regina. Um projeto político alternativo (RS: 1889-1930). Porto Alegre: L&PM, 1986. p.36.


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Em setembro de 1895, o “Volksblatt”, publicado em alemão e dirigido por jesuítas, está insultando a Itália na sua data nacional, como “(...) país desprezível, decadente, torpe, miserável...”. Os italianos são chamados de “(...) bandidos, homens sem moral, guiados por instintosvis”. Afinal, a data nacional festejava a perda de Roma pelo Papa e o clero católico posicionava-se. Alguns líderes da “colônia” organizam uma marcha no centro de Porto Alegre, com centenas de trabalhadores italianos descalços e esfarrapados gritando “morras” aos jesuítas e ao Papa; a turba enfurecida empastela a gráfica que publicava o jornal, na Rua dos Andradas.

Abre-se um processo judicial. Antigas testemunhas oculares foram mudando os depoimentos registrados na Polícia; a ação foi considerada improcedente por falta de provas.17 Os tempos eram outros, e bem outros.

A Revolução Farroupilha terminara e Castilhos estava no governo. Ideólogo do Partido Republicano, seguia Comte quando defendia “pequenas pátrias”, para melhor organizar a sociedade. “(...) provisoriamente organizadas sob uma federação...”18 Antes da proclamação da República, já defendia a celebração do dia 20 de setembro, eclosão da Revolução Farroupilha, como o “Dia do Gaúcho”. Ao promulgar uma Constituição Estadual, definiu como insígnias oficiais aquelas “(...) do pavilhão tricolor da malograda República Rio-grandense”.19

Italianos e gaúchos festejavam a mesma data por razões diferentes.

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19 OLIVEN, Rubem. Op.Cit. p. 73.

20 DE BONI, Luís A. & COSTA, Rovilio. Os Italianos do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: EST; Caxias do Sul: Universidade de Caxias/ Correio Riograndense, 1984. p. 68.

21 OLIVEN, Rubem. Op. Cit,p P.70.

22 CINQUANTENARIO DELLA COLONIZZAZIONE. Op. Cit. p. 407.


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Em 1898, Castilhos foi substituído por Borges de Medeiros, que, ao tomar posse, deixou claras as suas intenções de reativar a imigração, com parecer favorável aos imigrantes italianos. As antigas colônias do interior passaram a ser cuidadosamente protegidas e incentivadas pelo governo estadual. Verificou-se um rápido desenvolvimento na região colonial. Costa e De Boni escrevem que Borges de Medeiros foi o responsável pelos melhores períodos da colonização; ordenou a abertura de estradas e a construção de escolas, e favoreceu a ocupação de terras novas.20

A inspiração regionalista logo se faz notar nessas colônias. Em 1890, as duas primeiras são desmembradas de Montenegro, formando o município de Bento Gonçalves. Em 1900, a outra colônia mais antiga, Conde D’Eu, é emancipada como município de Garibaldi.

Fora exaltada a temática gaúcha pelos literatos do Partenon Literário. E, logo no final do século XIX, surgiria a primeira agremiação tradicionalista: o Grêmio Gaúcho de Porto Alegre, criado em 1898 por Cezimbra Jacques.21

A Revolução Farroupilha assumia o primeiro plano na narrativa histórica rio-grandense, com destaque a Garibaldi. No herói dos dois mundos demonstrava-se a magnitude dos ideais farroupilhas e a profunda ligação dos italianos com o Rio Grande.

Em 1883, fora aberto o trecho inicial da Rua Garibaldi. Em 1907, no dia do centenário de nascimento de Garibaldi, a antiga Praça da Concórdia, na Cidade Baixa, recebeu o nome do general. Em 1913, estava inaugurado, na mesma praça, o monumento erigido com fundos da campanha liderada por expoentes do grupo italiano.22 A representação de Garibaldi já não está sendo feita com a farda habitual. Garibaldi agora é o revolucionário farroupilha e já aparece na companhia de Anita, a mãe corajosa, a mulher guerreira.

Grandes festejos marcaram o cinqüentenário da colonização no Rio Grande do Sul, em 1925. Um álbum recebeu financiamento do Governo italiano e foi publicado na Editora Globo, cujo proprietário era o italiano Bertaso. Nas primeiras páginas, estampam-se as mensagens de Borges de Medeiros e de Benito Mussolini; o então ministro do Exterior do Reino d’Itália desenvolvia uma intensa ação diplomática, buscando cooptar imigrantes, que, em larga medida, ascendiam socialmente.

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23 FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1993. p. 244-255.

24 GUTFREIND, Ieda. Historiografia rio-grandense. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 1992. p.11, 23.

25 OLIVEN, Rubem. Op. Cit. p. 60.


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Organiza o álbum Mansueto Bernardi, autor do primeiro texto. O título é: “Gli Italiani e la Republica di Piratiny”. Na verdade, Mansueto era um intelectual a representar italianos, pois nascera na Itália, de onde viera com três meses de idade e crescera em Veranópolis. Foi um dos fundadores da Revista do Globo; dedicou-se ao estudo de escritores gaúchos; era membro destacado do Partido Republicano Riograndense, num tempo de nacionalismo exacerbado.

Em plena década dos vinte, depois da Semana de Arte Moderna, havia um certo “espírito de época”, ou aquilo que Foucault chamou de “dispositivo”, definido como um conjunto de estratégias que sustentam diferentes tipos de saber, e que são por esses sustentadas.23 Nesse dispositivo há uma concepção de regionalismo tradicionalista como manifestação modernista.
Lembra Gutfreind que, apesar de ser limitado o ambiente cultural no Rio Grande do Sul, notou-se no período uma certa efervescência cultural, sendo que o mais importante acontecimento foi a refundação do Instituto Histórico e Geográfico, logo em 1920, aglutinando importante grupo de intelectuais.24

Em todos os sentidos, as mudanças se aceleravam desde o final da Primeira Guerra. A Revolução de 30 é uma forma de expressão desse conjunto de transformações; explode no sul, mais precisamente em Porto Alegre, e seu líder é um gaúcho. O “Rio Grande em pé pelo Brasil” foi a frase proferida por Getúlio Vargas, ao final do discurso que inaugurava a revolução. E continuou sempre salientando a liderança do Rio Grande na regeneração do Brasil.25

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26 GUTFREIND, Ieda. Op. Cit. p.115.

27 Segundo Flores, Garibaldi entra em contato com os revolucionários em 1836, já deflagrada a guerra. Anita conheceu-o em 1839, quando da invasão de Laguna. Os lanchões Seival e Farroupilha foram construídos sob a fiscalização do irmão de Bento Gonçalves, o juiz de paz José. Esses lanchões subiram o Rio Capivari, de onde foram puxados por juntas de bois até a barra do Rio Tramandaí, em percurso de cerca de 50 milhas. O Seival, comandado por Grigs, fez-se ao largo, mas o Farroupilha, comandado por Mutru, levando a bordo Garibaldi, sossobrou, morrendo muita gente, como recorda Garibaldi nas suas memórias autobiográficas.

28 ROSA, Othelo. Vultos da Epopéia Farroupilha. Porto Alegre: Globo, 1935. LAYTANO, Dante. História da República Rio-Grandense (1835-1845). Porto Aegre: Globo, 1936. DOCCA, Emilio de Souza. O Sentido Brasileiro da Revolução Farroupilha. Porto Alegre: Globo, 1935. SPALDING, Walter. Os Farrapos. Porto Alegre: Sulina, s/d.

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Ficava, portanto, reforçada a tendência regionalista. O lançamento da obra de Alfredo Varella sobre a Revolução Farroupilha, em 1933, alimenta essa tendência, mesmo que estivesse isolada, em matriz que defendia a influência platina na formação cultural do Rio Grande. Predominava uma corrente contaminada pelo nacionalismo, representada por Souza Docca, Othelo Rosa e Aurélio Porto, ganhando força à medida que se aproximava o centenário da Revolução Farroupilha, festejado com grandiosidade em 193526. No antigo Campo da Redenção, construiu-se o parque que receberia a exposição internacional e que passou a se chamar Parque Farroupilha.

As abordagens em torno de Garibaldi e de sua trajetória no Rio Grande do Sul serão recorrentes, para exaltar a amplitude dos ideais farroupilhas. Seu esforço no comando da estropiada esquadra farroupilha é descrito com entusiasmo pelos membros do Instituto Histórico, na década de 1930. Othelo Rosa exalta o personagem, descreve a passagem de Garibaldi pelo Rio Grande como epopéia; Dante de Laytano, filho de italianos, enaltece o idealismo garibaldino e destaca a famosa travessia dos lanchões por terra.27

Até mesmo Souza Docca, mais contido, descreverá essa travessia dos barcos Seival e Farroupilha, desde Camaquã até Tramandaí. Ele reconhece heroísmo em Garibaldi, mas traz alguns elementos novos, criticando autores como Antonio Pereira Pinto, Américo Brasiliense ou Vittorio Buccelli, por excesso laudatório. Em outras palavras, busca depurar aspectos lendários, na trilha da tradição positivista. Spalding vai ainda mais além, apontando razões econômicas que motivaram Garibaldi a abandonar a revolução: em 1841, sai da cena farroupilha, depois de acertar as contas com os chefes revolucionários. Retira-se para o Uruguai, transpondo a fronteira com grande tropa de gado que recebeu como pagamento por serviços prestados.28
É inaugurado o monumento a Bento Gonçalves, em Porto Alegre, durante 1935; surge o obelisco comemorativo à Revolução Farroupilha, em Garibaldi; o busto de Garibaldi na mesma cidade fora inaugurado anteriormente, em 1932, obra de Antonio Caringi.

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29 CONSTANTINO, Núncia Santoro de. “Tempo de Guerra e Narrativa”. In: História: debates e tendências. Passo Fundo: Universidade de Passo Fundo, 2004.

30 CERVO, Amado Luiz. “As relações diplomáticas entre o Brasil e a Itália desde 1861”. In: DE BONI, Luis A.(Org) A presença Italiana no Brasil. Porto Alegre; Torino: EST; Fondazione Giovanni Agnelli, 1990. p.29.

31 OLIVEN, Rubem. Op. Cit. p. 99.


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Com variações, a imagem de Garibaldi permanece no primeiro plano da historiografia rio-grandense. A declaração de guerra ao Eixo, em fevereiro de 1942, não altera tal imagem e beneficia o grupo italiano no Rio Grande do Sul. Sabe-se que os italianos aqui foram tratados com certa “amabilidade”, se comparados aos alemães.29

Finda a guerra, as medidas para recompor a amizade estremecida não tardam. Mesmo antes da assinatura dos tratados, um decreto libera os bens confiscados aos italianos. Em outubro de 1946, já se encontrava assinada a Declaração de Amizade e de Cooperação entre Brasil e Itália.30 Tanto a guerra foi um acidente de percurso que, entre 1941 e 1950, a imigração italiana no Brasil aumentava cinco vezes. E a imagem de Garibaldi continuava sendo mantida como aquela do herói de dois mundos, inclusive do nosso.

Nos recentes anos setenta, percebe-se um movimento revisionista que destaca um Garibaldi corsário. Mas, nos anos oitenta, festejou-se o sesquicentenário da Revolução Farroupilha, com importante movimento para reviver tradições regionais, com o surgimento de centenas de entidades tradicionalistas, de festivais de música nativista, com consumo de cantores e discos, livros, bailões; com a publicidade fazendo referência a valores gaúchos.31 Tal movimento invade as cidades, onde os jovens reaprendem a tomar mate e vestem o poncho.

A Revolução Farroupilha está sendo novamente narrada, desta vez em perspectiva bem mais crítica, em trabalhos de natureza acadêmica, acompanhando os programas de pós-graduação que vêm sendo implantados. Garibaldi é herói multifacetado, humano, insinuante, conquistador, a cara do ator Tiago Lacerda no seriado “A casa das sete mulheres”, veiculado pela Rede Globo de TV.

Uma das novidades surgidas nos últimos tempos diz respeito à incorporação de Anita nas narrativas históricas, como um capítulo à parte, resultado da ampla discussão possível a partir dos progressos do feminismo ou da história de gênero. Anita passa a ser contada com os olhos do presente, tão diferente da companheira dos anos trinta, cheia de lacunas reveladoras do preconceito.

Hoje há movimento que reforça a italianidade. Milhares de oriundi buscam o passaporte italiano. O Brasil transforma-se em país de emigração.

São estes emigrantes que dançam a chimarrita na piazza, que até vendem churrasco na Itália. Como fizeram seus avós, reconstroem uma identidade no país de imigração. Garibaldi está sendo “repaginado” para dizer novamente que lutou pela democracia com os brasileiros meridionais. Que vestiu poncho e que reconheceu nos gaúchos homens valentes e hospitaleiros.

Como últimas palavras, lembro que somente personagens de grande porte servem a diferentes propósitos sociais, em diferentes tempos. Garibaldi é forte e viveu intensamente; por isso continua como referência e resistirá ao esquecimento.

Referências bibliográficas

AVÉ-LALLEMANT, Robert. Viagem pela Província do Rio Grande do Sul: 1858. Belo Horizonte: Itatiaia, 1981.

BASBAUM, Leôncio. História e Consciência Social. São Paulo: Global, 1982.

BONI, Luis A. (Org) A presença Italiana no Brasil. Porto Alegre; Torino: EST; Fondazione Giovanni Agnelli, 1990.

CALDRE E FIÃO, José Antonio do Vale. A Divina Pastora. Porto Alegre: RBS, 1992.

CERVO, Amado Luiz. As relações diplomáticas entre o Brasil e a Itália desde 1861. In: DE Cinquentenario della Colonizazione Italiana nello Stato del Rio Grande del Sul: 1875-1925. Porto Alegre: Globo; Roma: Ministerto degli Affari Esteri d’Italia, 1925.

CONDE D’EU. Viagem Militar ao Rio Grande do Sul. Belo Horizonte: Itatiaia, São Paulo: Universidade de São Paulo, 1981.

CONSTANTINO, Núncia Santoro de. Tempo de Guerra e Narrativa. In: História: debates e tendências. Passo Fundo: Universidade de Passo Fundo, 2004.

DE BONI, Luís A. & COSTA, Rovilio. Os Italianos do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: EST; Caxias do Sul: Universidade de Caxias/ Correio Riograndense, 1984.

DOCCA, Emilio de Souza. O Sentido Brasileiro da Revolução Farroupilha. Porto Alegre: Globo, 1935.

ENCICLOPÉDIA DOS MUNICÍPIOS BRASILEIROS. Rio de Janeiro, IBGE, 1959, v. XXXIV.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1993.

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O
LIVEN, Rubem Jorge. A parte e o todo: a diversidade cultural no Brasil

 
 
 
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