| Os italianos no Rio Grande
do Sul:
130 anos de história
Luiza Horn Iotti
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Doutora em História do Brasil, professora
do Departamento
de História e Geografia da Universidade de Caxias do
Sul
O fenômeno migratório que, no final do século
XIX e início do século XX, movimentou milhares
de europeus em direção à América,
vinculou-se às mudanças estruturais que ocorriam
“no mundo ocidental, em decorrência da expansão
do capitalismo, e às novas formas de produção
que então serão adotadas.”1 A imigração
italiana, ocorrida no Rio Grande do Sul, a partir de 1875,
inseriu-se nesse contexto. Foi um movimento populacional que
se encadeou a interesses, tanto do governo brasileiro quanto
do italiano.
No caso do Brasil, a vinda de imigrantes italianos relacionou-se
ao processo de substituição da mão-de-obra
escrava e à política de imigração
e colonização do governo brasileiro. Núncia
Santoro de Constantino ressalta que,
“A inserção da economia brasileira
no mercado internacional viria proporcionar, entre outras
coisas, a maciça imigração durante o
século XIX. Tornou-se necessário um suprimento
de mão-de-obra diversificada para alimentar o crescimento
verificado no setor comercial e financeiro, tanto sob o aspecto
quantitativo, como sob o aspecto da qualificação.
Foi preciso prover os espaços vazios que surgiram em
decorrência do rápido processo de urbanização,
prover a mão-de-obra para a crescente lavoura do café
que se ressentia da escassez do elemento escravo. Era necessário,
ainda, povoar e colonizar diversas áreas improdutivas,
especialmente na região sul do país onde se
encontrava o principal eixo econômico [...]”.2
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1 GIRON, Loraine. A imigração italiana no Rio
Grande do Sul: fatores determinantes. IN: LANDO, Aldair M.
et al. RS: imigração & colonização.
Porto Alegre: Mercado Aberto, 1980, p. 47.
2 CONSTANTINO, Núncia Santoro de. O italiano da esquina:
imigrantes na sociedade porto-alegrense. Porto Alegre: EST,
1991, p. 53.
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No caso da Itália, a emigração vinculou-se,
inicialmente, ao descarte do excedente populacional, expulso
do processo produtivo, em função do desenvolvimento
de relações capitalistas de produção,
efetivado pelo recém instaurado Estado unitário.
No século XIX, a unificação italiana
e a incorporação da península ao sistema
capitalista não incluíram as camadas populares.
Os camponeses foram expulsos da terra. O pequeno artesanato
foi parcialmente destruído. A indústria mostrou-se
incapaz de absorver a mão-de-obra disponível.
Assim, uma parcela significativa da população
italiana foi buscar, em outros países, as condições
de vida que sua pátria lhe negava. No total, 24 milhões
de peninsulares partiram da Itália, entre 1869 e 1962,
para diferentes regiões do mundo.
O governo dos dois países, como forma de garantir o
sucesso do empreendimento e o atendimento dos seus interesses,
procurou acompanhar e controlar as atividades dos imigrantes
aqui estabelecidos.
O acompanhamento do governo italiano realizou-se através
dos representantes diplomáticos, adidos do Ministério
dos Negócios Exteriores da Itália. Diplomatas,
embaixadores, cônsules e agentes consulares constituíram
os nexos, a mediação entre o governo italiano
e os emigrantes estabelecidos no exterior. Foram responsáveis,
entre outras coisas, pela execução da política
emigratória traçada pelo Estado italiano. Por
política emigratória entende-se “o conjunto
de normas e de atos, e os princípios que os inspiram,
através dos quais o Estado interfere no processo de
transferência de pessoas em busca de trabalho no exterior”.3
O acompanhamento do governo brasileiro efetivou-se, sobretudo,
a partir da promulgação da Lei de Terras, de
18 de setembro de 1850, que garantiu ao Estado o controle
do “processo da legalização e legitimação
da terra, bem como o da aplicação de recursos
na introdução de imigrantes”4. Até
a República, em 1889, o Império monopolizou
a direção do processo colonizador. E, apesar
de subsidiar empreendimentos particulares, não abria
mão do controle geral do mesmo. Importante ressaltar
que a política imigratória brasileira, na maior
parte das vezes, oscilou entre a colonização
e a importação de braços para a lavoura,
sendo enfatizada ora uma, ora outra, conforme o grupo social
que estivesse no poder.
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4 IANNI, Constantino. Homens sem paz. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1972, p. 194.
5 GIRON, Loraine; BERGAMASCHI, Heloísa. Colônia:
um conceito controverso. Caxias do Sul: EDUCS, 1996, p. 26.
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A imigração italiana para o Rio Grande do Sul
foi iniciativa do governo imperial brasileiro. O movimento
tinha como objetivo “importar mão-de-obra”
européia e vender as terras devolutas do Império,
visando aumentar tanto a população como a produção
agrícola. A passagem da Europa ao Rio Grande do Sul
era financiada pelas autoridades brasileiras. Os lotes e os
eventuais subsídios governamentais – ferramentas,
sementes, alimentos etc. – deveriam ser pagos no prazo
de cinco a dez anos.
Inicialmente considerada pouco expressiva, a imigração
italiana se intensificou a partir de 1882, conforme pode ser
observado no quadro a seguir.
Imigrantes italianos entrados no RS entre 1882 e
18895
Ano |
Total imigrantes |
Italianos |
% Italianos |
| 1982 |
3.549 |
3.205 |
90,30 |
| 1983 |
4.402 |
3.735 |
84,89 |
| 1984 |
1.985 |
1.345 |
67,75 |
| 1985 |
8.286 |
7.600 |
91,72 |
| 1986 |
3.354 |
2.352 |
70,12 |
| 1987 |
5.326 |
4.362 |
81,90 |
| 1988 |
4.927 |
4.241 |
86,07 |
| 1989 |
9.787 |
7.578 |
77,43 |
| Total |
41.616 |
34.418 |
82,70 |
|
Fonte: CENNI, Franco. Italianos no Brasil. 3.ed.
São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo,
2003, p. 174.
A partir dos dados apresentados, pode-se constatar que,
de 1875 a 1889, o Rio Grande do Sul recebeu, aproximadamente,
40 mil imigrantes, provenientes sobretudo da Lombardia, do
Vêneto e do Tirol, atraídos ao Novo Mundo pelo
sonho da terra. Conde D’Eu (Garibaldi), Dona Isabel
(Bento Gonçalves) e Caxias foram as três primeiras
colônias italianas no Rio Grande do Sul. Em 1877, foi
organizada uma quarta colônia, Silveira Martins, em
terras próximas a Santa Maria, na região central
do Estado.
A maioria dos imigrantes chegados ao sul do Brasil partiu
do porto de Gênova. A travessia, que durava pouco mais
de um mês, era feita em navios sobrecarregados. As doenças
eram freqüentes e a mortalidade elevada6. Do Rio
de Janeiro, após a quarentena na Casa dos Imigrantes,
os viajantes eram transportados em vapores para Porto Alegre,
numa viagem de dez ou mais dias. Ao chegarem à capital,
eram alojados em um prédio precário ou dormiam
nas ruas e praças próximas7. A seguir, os que
se dirigiam a Dona Isabel, Conde D’Eu e Caxias, partiam
da capital em pequenas embarcações, que navegavam
pelo Caí por sete e mais horas. Os destinados a Silveira
Martins faziam boa parte da viagem de trem8. No final da viagem,
os recém-chegados eram alojados no barracão
dos imigrantes, ou enviados aos lotes coloniais, se já
demarcados9.
As medidas básicas das colônias eram a légua,
o travessão e o lote rural10. A légua era um
quadrilátero de 5.500 metros de lado, cortado no sentido
longitudinal por caminhos estreitos e irregulares de uns 6
a 13 km, abertos no meio da mata – os travessões11
ou linhas. A medição e a demarcação
das colônias e dos lotes coloniais eram feitas por engenheiros
agrimensores. O regulamento da Lei de Terras, de 1854, ordenara
a demarcação dos lotes coloniais. Em geral,
as léguas possuíam 132 lotes12, irregulares
quanto ao tamanho, de 5 a 60 ha., à fertilidade, ao
acesso aos mercados e à água.
Todas as colônias possuíam demarcadas suas sedes
coloniais, onde se localizavam a administração
e os serviços e artesanatos necessários à
economia rural. Eram erguidas no centro da colônia,
se possível em um terreno plano e elevado13. Para tal,
abria-se uma clareira na mata, quando necessário. Em
Caxias, aproveitou-se uma clareira aberta pela população
indígena da região. A área das sedes
era dividida, em xadrez, por avenidas e travessas perpendiculares.
Os quarteirões, de 100 metros, eram ocupados pelas
praças e logradouros públicos ou divididos em
lotes urbanos (20 x 50 ou 40 x 60 metros). Deve-se ao mesmo
padrão de fundação dos diversos núcleos
coloniais a semelhante paisagem urbana das cidades da região.
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5 Segundo Cenni (2003, p. 175), “faltam elementos correspondentes
aos sete primeiros anos, de 1875 a 1881, que fonte alguma
registra”.
6 MANFROI, Olívio. A colonização italiana
no Rio Grande do Sul: implicações econômicas,
políticas e culturais. Porto Alegre: Grafosul, Instituto
Estadual do Livro, 1975, p. 101- 106; DE BONI, Luis A.; COSTA,
Rovílio. Os italianos no Rio Grande do Sul. 3. ed.
Caxias do Sul: UCS/EST, 1984, p. 96-98; DE BONI; COSTA. Far
la Mérica. Porto Alegre: Riocell, 1991, p. 92-100.
7 MANFROI, op. cit., p. 108-110.
8 DE BONI; COSTA, op. cit., p. 102-105.
9 Ibid., p. 105.
10 Ibid., p. 53.
11 “Um travessão podia ter somente 36 lotes (dezoito
de cada lado da estrada) como no Vitor Emanuel, da 7ª
Légua [da colônia Caxias], ou 114 lotes como
no seu vizinho Thompson Flores, da 9ª Légua: neste
as terras eram consideradas melhores e, por isto, fracionadas
em unidades menores, isto é, do mesmo cumprimento porém
mais estreitas e, pois, de menor superfície. E é
por essa razão que num mesmo núcleo colonial
os lotes variavam de tamanho ou superfície [...]”.
(AZEVEDO, Thales de. Italianos e gaúchos: os anos pioneiros
da colonização italiana no Rio Grande do Sul.
Porto Alegre: A Nação/Instituto Estadual do
Livro,
1975, p. 169)
12 Ibid., p. 62.
13 MANFROI, op. cit., p. 114.
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Os imigrantes, ao chegarem ao seu lote, dedicavam-se à
abertura de clareiras nas matas e construíam abrigos
provisórios de pau-a-pique, cobertos de galhos. Era
um momento difícil. O pinhão, a caça
e a coleta ajudaram os colonos nos primeiros tempos. Algumas
vezes, a venda da madeira e, eventualmente, o trabalho assalariado,
durante quinze dias por mês, na abertura de estradas
e caminhos, financiaram os colonos até a primeira colheita.
O imigrante Paulo Rossato, de 27 anos, recém-chegado
à sua colônia, escreveu, aos seus familiares
italianos, em 24 de abril de 1884, uma carta descrevendo os
primeiros trabalhos na sua colônia:
“Inicialmente toma-se uma foice de cabo comprido
e cortam-se os caniços e as plantas pequenas. [...]
Depois, cortam-se todas as árvores maiores. E, depois
de cortadas, deixam-nas lá por um mês, após
o qual é posto fogo. Queimam-se as folhas, os caniços
e os ramos mais finos. As toras menores e os galhos são
então colocados em montes e queimados. [...] Depois,
semeia-se o trigo entre as toras, cobrindo-o com a enxada
[...]”.14
O imigrante construía uma casa provisória
para abrigar sua família nos primeiros tempos. Posteriormente,
uma maior de pedra, madeira ou alvenaria. As coberturas eram
de tabuinhas de pinheiro – scàndole
–, inicialmente e, a seguir, de telhas ou de zinco.
Às vezes, decoravam-nas com lambrequins –
ornato de recortes de madeira para beira de telhados. Para
diminuir o isolamento, a residência era erguida junto
à linha, à beira do caminho. Paulo Rossato,
sete meses depois de chegar ao Brasil, já em sua colônia,
iniciou o desmatamento de parte de suas terras e a construção
de residência, escrevendo sobre ela, aos seus pais,
afirmava:
“[...] agora estou eu mesmo fazendo uma casa, e espero
mudar-me para ela a 20 de agosto. Construo em minha colônia,
na qual atualmente estou fazendo a derrubada do mato para
semear bastante milho. [...] Haverei de construir a casa com
quatro metros de largura por cinco de comprimento, pois não
posso mais do que isso [...] e depois construiremos outra
maior”.15 Ibid., p. 58.
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14 DE BONI, 1977, op. cit., p. 35.
15 Ibid., p. 58.
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O lote era a unidade de base da economia familiar colonial.
Praticava-se uma divisão etária, sexual e familiar
das tarefas. Os homens responsabilizavam-se pelos trabalhos
ligados à agricultura e ao trato dos animais de maior
porte. As mulheres, das tarefas caseiras e do cuidado da pequena
criação. Entretanto, elas intervinham, ativamente,
ao lado dos homens, nos trabalhos agrícolas. Segundo
suas forças, as crianças trabalhavam desde os
oito anos. Havia igualmente tarefas artesanais masculinas
e femininas.
A área dos lotes coloniais era ocupada pelo potreiro;
pelo parreiral – localizado nas encostas, próximo
à residência –; e pelas terras agricultáveis.
Alternava-se o plantio do milho com culturas de inverno, como
centeio, cevada, trigo. Plantava-se arroz, batata, feijão,
aveia. Criavam-se galinhas e porcos. Uma pequena produção
de vinho, cachaça, graspa, banha, toucinho, salame,
presunto, manteiga e queijo abasteciam a família e
os centros urbanos próximos.
Árvores frutíferas eram plantadas em todo o
lote: pereiras, laranjeiras, bergamoteiras, caquizeiros, marmeleiros,
figueiras. Os frutos eram consumidos “in natura”
ou transformados em geléias e compotas. Parte dessa
produção podia ser escoada para o mercado local.
Os instrumentos básicos de trabalho eram o arado e
a enxada. Uma carroça, uma junta de bois, uma mula
ou cavalo, uma slita – meio de transporte,
sem rodas, semelhante a um trenó –, uma vaca
leiteira eram igualmente imprescindíveis à economia
colonial. Mudas trazidas da Itália ou obtidas em São
Sebastião do Caí permitiram que parreirais fossem
plantados ali, onde era possível. Muito logo, os imigrantes
contaram com um vinho de discutível qualidade para
consumo próprio. As pipas eram armazenadas nos porões
e mantinham-se cheias apenas durante os primeiros meses do
ano, devido ao desconhecimento das técnicas de conservação.
A seguir, cresceu a qualidade dos varietais e dos vinhos,
devido a uma crescente e rendosa produção para
o comércio16.
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16 PELLANDA, op. cit., p. 53-54; RAMBO, Balduino. A zona
de colonização italiana - estudo geográfico.
IN: Álbum comemorativo do 75 aniversário da
colonização italiana no Rio Grande do Sul. Porto
Alegre: Globo, 1950, p. 143- 144.
17 Encontro social entre vizinhos, que se realizava à
noite, depois da reza do terço, onde se contavam histórias,
conversava, trabalhava e cantava.
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O isolamento era rompido quando se reuniam para rezar. Rezavam
o rosário sob uma árvore ou na casa de algum
morador, por ocasião de uma festa ou de um enterro
ou, ainda, na cozinha quando se encontravam para o filó17.
Em todas as linhas, os moradores reuniram-se em mutirões
e construíram capelas de madeira, pedra ou alvenaria,
que decoravam primorosamente: altares e imagens em madeira,
janelas com vidros coloridos, alfaias de metal e até
um sino de bronze no campanário. O fantasma da solidão
no meio da mata foi se distanciando.
De uma maneira geral, o imigrante italiano era católico
e religioso. As igrejas, escolas, seminários, capelas
e jornais clericais foram as principais instituições
culturais e políticas, sobretudo no mundo rural. A
capela congregava. Cada uma delas era consagrada a um santo
padroeiro. Uma vez por ano, os moradores da região
reuniam-se para homenageá-lo. Eram as sagras. São
Roque, São Valentim, São Pedro, São Marcos,
Santa Justina, Santa Corona e tantos outros. Os colonos organizavam-se
em comunidades em torno das capelas e elegiam diretorias,
os “fabriqueiros”, que coordenavam as atividades
religiosas e sociais das linhas.
Na fase inicial, o isolamento das colônias fez com que
se produzisse quase tudo o que era necessário para
o consumo local. O comerciante vendia o que o colono não
produzia - sal, ferramentas, tecidos, etc. - e comprava o
excedente colonial, distribuindo-o em mercados próximos
e distantes. Em cada travessão, em cada núcleo
colonial surgiram ferreiros, seleiros, funileiros, pedreiros,
oleiros, sapateiros, alfaiates, marceneiros. Serrarias e moinhos
foram levantados para beneficiarem grãos e madeiras.
Mascates percorriam as linhas, levando mercadorias e novidades;
tropeiros e carreteiros, com suas mulas bruaqueiras e carretas,
levavam e traziam produtos entre os centros consumidores e
os portos fluviais, personagens conhecidos neste mundo medido
em estações, em safras. O contato com os gaúchos
possibilitou trocas de mercadorias, de conhecimentos e de
costumes.
A casa de comércio da linha, o baratilho ou venda,
articulava-se com o comércio de maior porte dos centros
urbanos regionais e estes “exportavam” para centros
urbanos maiores. Os agricultores entregavam suas reservas
monetárias aos comerciantes das linhas, em troca de
juros baixos. As grandes casas comerciais realizaram o que
os colonos não conseguiram, isto é, acumular
capitais.
A vitivinicultura transformou-se: o vinho produzido artesanalmente,
na cantina caseira, passou a ser fabricado por estabelecimentos
vinícolas, que foram montando verdadeiro complexo de
atividades, desde parreirais até tanoarias, vidrarias,
empalhamento de garrafões.
Os pais dotavam os filhos com terras e as filhas com o enxoval,
que consistia em uma máquina de costura, uma arca com
roupas, uma vaca ou uma mula. O costume do minorato18, aliado
ao constante fluxo de entrada de imigrantes, esgotou rapidamente
os lotes disponíveis. Logo, a economia colonial atravessou
o rio das Antas em direção ao norte do Estado
surgindo novos núcleos, entre eles, Antônio Prado,
Alfredo Chaves, Guaporé, Encantado.
A migração foi intensa nas primeiras décadas
do século passado. Inicialmente, dentro do próprio
Rio Grande do Sul e, posteriormente, para o oeste de Santa
Catarina e norte do Paraná. Os netos e bisnetos dos
que fizeram a longa viagem não pararam por aí,
alguns chegaram até a Amazônia.
As vilas transformaram-se em cidades, em municípios;
o telégrafo, o telefone e as estradas de ferro ligaram-nas
ao século XX. Os caminhos percorridos por carretas
e mulas foram melhorados e neles puderam transitar caminhões
e automóveis, levando e trazendo mercadorias. Balsas,
pontes e túneis superaram as barreiras impostas pela
natureza.
Os lampiões foram substituídos pelas lâmpadas
elétricas e as vozes do rádio ecoaram livremente.
O ruído dos motores e a fumaça lançada
ao ar pelas chaminés das fábricas anunciavam
novos tempos.
Em julho de 1910, a ligação de trem entre Caxias
e Porto Alegre ensejou as melhores condições
para o desenvolvimento econômico da região, pondo
fim ao problema dos transportes, que estrangulava o comércio
e a produção colonial.
A acumulação comercial de riquezas produzidas
pela economia agrícola e artesanal financiou a industrialização
da região.
A Iª Guerra Mundial (1914-18) propiciou o nascimento
de empresas de maior porte, devido à interrupção
da importação de peças e ferramentas
para a produção local. Na década de 20,
a Região Colonial encontrava-se integrada à
economia nacional e internacional.
Os primeiros imigrantes italianos chegaram há pouco
mais de cem anos. Cultivaram campos, criaram gado, construíram
fábricas, multiplicaram-se. Seus descendentes estão
presentes em todos os municípios do Rio Grande do Sul,
junto com os alemães, os poloneses, os portugueses,
os índios, os negros, os espanhóis, os judeus
e as outras etnias que constituíram o povo gaúcho.
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18 Costume consuetudinário, através do qual
o filho homem mais moço herda a propriedade, em troca
do cuidado dos pais.
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