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Garibaldi e a Revolução Farroupilha


Alvaro Bischoff e Cíntia Vieira Souto
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Historiadores do Memorial do Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul


A Revolução Farroupilha insere-se no contexto das revoluções liberais ocorridas no Brasil no período regencial — iniciado com o fim do primeiro reinado, em 7 de abril de 1831, até a “maioridade” de D. Pedro II, em 1840. Considerado por muitos contemporâneos como marco efetivo da independência nacional, o 7 de abril, episódio da abdicação do autocrata Pedro I, teve origens1 na Revolução Francesa de 1830, que depôs Carlos X, um Bourbon, iniciando a monarquia “burguesa” de Luís Felipe:

“A Revolução de 1830 na França, tendo produzido um efeito de choque elétrico no país, inspirou, como uma solução de transação que foi, uma reformulação dos planos dos revolucionários brasileiros que tornasse possível, sob a bandeira nativista, uma composição com os amplos setores, que iam do monarquista liberal ao constitucionalista conservador”2.

Na França, a revolução teve como objetivo consolidar o poder burguês ao mesmo tempo em que continha os radicalismos populares, daí o seu caráter de “transação”; no Brasil, a deposição de Pedro I estava envolta em questões que diziam respeito à consolidação da independência e à formação do Estado nacional. Abria-se, dessa forma, um período comumente conhecido como o “avanço liberal” — medidas que aumentaram, por um lapso de tempo, a autonomia local das províncias. Faziam parte desse período o Código de Processo Criminal — que será importante, posteriormente, na atuação dos juízes de paz na Revolução Farroupilha —, a criação da Guarda-Nacional e o Ato Adicional de 1834.

O Código de Processo Criminal, publicado em 29 de novembro de 1832, foi um dos mais importantes instrumentos da descentralização:

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1 Trata-se de influências no plano das idéias. Para uma análise das estruturas econômicas, que fogem ao escopo deste trabalho, leia-se, por exemplo, NOVAIS, Fernando A. Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial : 1777-1808. 4. ed. São Paulo: Hucitec, 1986.

2 HOLANDA, Sérgio Buarque. História Geral da Civilização Brasileira: Dispersão e Unidade. Tomo II, 2º vol. 5º ed., p.9.


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“Tornava a autoridade judiciária independente do poder administrativo, submetendo-a à eleição. Estendia a jurisdição criminal à competência dos juízes de paz, também eleitos. O promotor, o juiz municipal e o juiz de órfãos – que até então tinham sido nomeados pelo governo central – passaram a ser escolhidos a partir de uma lista tríplice proposta pela Câmara Municipal”.3

A criação da Guarda-Nacional, ato contínuo ao 7 de abril, tinha inspiração claramente francesa. A lei da Guarda-Nacional francesa foi promulgada em 22 de março de 1831, e “já a 9 de maio do mesmo ano o projeto oferecido ao legislativo [brasileiro], será em linhas gerais o aprovado em agosto”. 4
Conforme Castro:

“A Guarda-Nacional, como corporação paramilitar, atuou como reforço do poder civil, tornando-se o sustentáculo do governo instaurado com o 7 de abril, e é a Aurora Fluminense, como jornal de situação que proclama: a Guarda-Nacional é inteiramente filha da Revolução de 7 de abril”.5


Por fim, o Ato Adicional — mudanças constitucionais aprovadas pela Lei de 12 de outubro de 1832, mas somente levadas a efeito pela legislatura de 1834-1837 — trazia como principais alterações a supressão do Conselho de Estado e a criação das Assembléias Legislativas Provinciais, com poderes legislativos.

Conforme registrou o presidente deposto pelos revolucionários farroupilhas na província do Rio Grande do Sul, Fernandes Braga, “pode-se dizer, sem medo de errar, que Bento Gonçalves fez a revolta com os juízes de paz, o código do processo e a lei da guarda-nacional6”. Aos três elementos mencionados, acrescentaríamos a criação das Assembléias Provinciais.

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3 COSTA, Emília Viotti da. Da Monarquia a República: Momentos Decisivos. 7ª ed. São Paulo: Fundação Editora da Unesp, 1998, p.153.

4 HOLANDA, Sérgio Buarque de Holanda. In: CASTRO, Jeanne Berrance de. A Milícia Cidadã: A Guarda-Nacional de 1831 a 1850. São Paulo: Ed. Nacional, 1979, p.XIX.

5 CASTRO, Op. cit., p. 18.

6 Citado por WIEDERSPAHN, Henrique Oscar. O General Farroupilha João Manuel de Lima e Silva (1835-1837). Porto Alegre: Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes, 1984.


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Reforçando a tese, Bento Gonçalves, bem como diversas lideranças farroupilhas, era deputado na Assembléia Provincial e, ainda, comandante-geral da Guarda-Nacional no Rio Grande do Sul; a deposição do presidente Fernandes Braga e a denegação de posse de seu substituto José de Araújo Ribeiro foram levadas a efeito pela Assembléia Legislativa com o concurso dos juízes de paz:

“(...)Veio à Mesa um ofício do Juiz Municipal e Chefe de Polícia interino desta cidade, participando que, em todos os distritos da mesma, se estavam reunindo os seus moradores, pedindo aos juízes de paz respectivos que se suste a posse do bacharel José de Araújo Ribeiro, nomeado Presidente da Província, até que o Governo Central aprove a Resolução de 20 de setembro e confirme as medidas tomadas depois dela”.7

Iniciada em 20 de setembro de 1835, os revolucionários farroupilhas consideravam sua revolução como continuidade do 7 de abril. Em proclamação datada de 25 de setembro de 1835, apregoava Bento Gonçalves:

“ (...) correstes enfim às armas para sustentar em sua pureza os princípios políticos que nos conduziram ao sempre memorável sete de abril, dia glorioso da nossa regeneração e total independência8.

Com a entrada das tropas farroupilhas em Porto Alegre e a fuga do então presidente da província Fernandes Braga para a cidade de Rio Grande, em 20 de setembro de 1835, a revolta se estenderia, com interregnos militares, até fevereiro de 1845.

Dessa forma, não deixa de parecer irônico o fato de a descentralização promovida pelas reformas liberais terem instrumentalizado as revoltas regenciais, em especial a Revolução Farroupilha, cujo argumento fundamental sempre foi a excessiva centralização do governo central!

O elemento impulsionador das reformas ocorridas no Brasil a partir do 7 de abril foi, como já referido, a Revolução de Julho de 1830 na França. A mesma revolução que seria o elo que ligou o destino de Giuseppe Garibaldi à América do Sul e, em especial, ao Rio Grande do Sul:

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7 Ata da Assembléia Provincial de 09/12/1835.

8 Coletânea de documentos de Bento Gonçalves da Silva 1835-1845. Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, Porto Alegre: Comissão Executiva do Sesquicentenário da Revolução Farroupilha, 1985, p. 268.


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“(...) a revolução parisiense de julho, que conduz ao trono Luís Felipe, a revolução belga de agosto e a da Polônia em novembro reanimam o tradicional centro revolucionário de Paris, que volta a ser a capital de todos os exilados”9.

De fato, a queda de Carlos X em julho de 1830 — era o representante da restauração de 1815 — provocou uma onda revolucionária na Europa, atingindo a Itália em fevereiro de 183110. Foi também a revolução na França que inspirou os seguidores de Mazzinni e da “Jovem Itália”, com promessas não cumpridas de Luís Felipe, na sua primeira tentativa de libertar a Itália do domínio austríaco. É o próprio Garibaldi, em suas “Memórias”, que atesta:

“Minha ventura foi ainda maior naquele instante em que ouvi pronunciada a palavra pátria, em que vislumbrei no horizonte um primeiro faro aceso pela Revolução Francesa de 1830. Existiam, então, homens que dedicavam-se à redenção da Itália!”11 (grifos nossos)

Após a revolução, a ordem. O esperado apoio do governo francês não ocorreu. Para evitar uma radicalização, a França apoiou a Áustria: “No exterior a França deseja a paz: a sua lealdade repulsa injustas desconfianças: ela não é agressiva, mas não consentirá ser atacada em seus direitos”12.

Diversas sociedades secretas foram fundadas por ex-revolucionários franceses em apoio às “revoluções irmãs”, logradas pela atitude reacionária de Luís Felipe. Tais sociedades recebiam exilados políticos de outros países, em especial, os carbonários italianos, entre eles Garibaldi13.

O dilema enfrentado pela regência no período pós-revolução no Brasil era o dilema francês, vejamos:

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9 GALLO, Max. Garibaldi – A Força do Destino. São Paulo: Scritta, 1996, p. 52
10 BERGERON, Louis, et al. História Universal Siglo XIX – La época de las revoluciones europeas 1780-1848. V.26 Século XIX. Madri: Espanha Editores, 1976, p. 253.

11 DUMAS, Alexandre. Memórias de Garibaldi. Porto Alegre: L&PM, 2002, p. 33.

12 O Observador, Rio Grande, 24/04/1833, nº93. Transcrição de matéria publicada no Jornal Aurora Fluminense do Rio de Janeiro sobre a situação política na França no ano de 1833.

13 GOUBERT, Pierre. História Concisa da França. V.2. Portugal: Publicações Europa-América, 1996, p. 63.


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“A França está fatigada de conspirações: ela tem em horror o despotismo e a anarquia; quer os verdadeiros princípios da revolução de Julho que apartam ao mesmo tempo as tradições de uma república, e as doutrinas de uma restauração, que repele com igual energia”14.

Garibaldi percebia com clareza o estreitamento do regime de julho:

“Na França de 1833, clamores como este [de Mazzini] não eram lançados impunemente. Pouco tempo depois de eu ter-lhe sido apresentado e de haver-lhe afiançado a minha adesão, Mazzini, o eterno proscrito, foi forçado a abandonar a França e a buscar exílio em Genebra”15.

Garibaldi, condenado à morte em sua terra natal, fugiu para a França, onde acabou preso. Conseguindo evadir-se do cárcere e embarcou para o Brasil. O ano era 1834. Iniciava, dessa forma, em terras americanas, a sua jornada de aventureiro, corsário e guerreiro.

Foi na capital do Império brasileiro que Garibaldi entrou em contato com a Revolução Farroupilha. O líder farroupilha, Bento Gonçalves, e seu secretário Tito Zambeccari, foram aprisionados no Rio Grande do Sul, após a batalha de Fanfa, em 1836, e levados ao Rio de Janeiro. Ambos estavam recolhidos ao forte Santa Cruz. Zambeccari, à semelhança de Garibaldi, era mais um italiano exilado no Brasil. A aproximação entre os dois foi inevitável. Por sua prática como marinheiro no Mediterrâneo, Garibaldi recebeu uma carta de corsário farroupilha - uma autorização para o apresamento de navios, civis e militares, da Marinha brasileira. Em terras americanas, Garibaldi iniciava sua vida de revolucionário:

“Eu vi corpos de tropas mais numerosos, batalhas mais disputadas, mas nunca vi em nenhuma parte homens mais valentes nem cavaleiros mais brilhantes que os da cavalaria Rio-grandense, em cujas fileiras comecei a desprezar o perigo e a combater dignamente pela causa sagrada das gentes!”16


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14 O Observador, Rio Grande, 24/04/1833, nº93. Transcrição de matéria publicada no Jornal Aurora Fluminense do Rio de Janeiro sobre a situação política na França no ano de 1833.

15 DUMAS, Alexandre. Memórias..., 2002, p.35.

16 Carta de Garibaldi a Domingos José de Almeida, datada de 10 de setembro de 1859. In: Correio do Povo, Porto Alegre, 20/09/1975
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Em que pese ter atuado também como soldado da infantaria, foi como comandante da esquadra rio-grandense que ficaram celebrizados os principais episódios da participação de Garibaldi na Revolução Farroupilha. Para mencionar alguns: o transporte de barcos – lanchões17 – por terra até a foz do Rio Tramandaí, já que a saída para o mar pela Lagoa dos Patos estava sob o domínio dos imperiais; a tomada de Laguna; a anexação de Santa Catarina e fundação da República Juliana, seu romance com Ana Maria de Jesus Ribeiro, futuramente Anita Garibaldi; concluindo sua participação em 1841, quando se retirou para o Uruguai.

O maior historiador da Revolução Farroupilha, Alfredo Varella, assim definiu a atuação de Garibaldi na Revolução Farroupilha: “Em verdade, parece que, com a presença de Garibaldi, menos tivemos a de um egrégio mortal, do que a de um desses benignos deuses do paganismo, cultuado antanho”.18

De fato, em todos os festejos cívicos que anualmente celebram a Revolução Farroupilha, Garibaldi é lembrado com veneração, colocado lado a lado com Bento Gonçalves, Antônio de Souza Neto e David Canabarro. No Rio Grande do Sul e em Santa Catarina há clubes e centros de tradição gaúcha em homenagem a Garibaldi; em todas as cidades, praticamente, há uma rua com o seu nome em homenagem a sua atuação na revolução farroupilha.

Serão homenagens merecidas ou há algum exagero nisso tudo? Em outras palavras, terá tido, realmente, tamanha importância a atuação de Garibaldi na Revolução Farroupilha? Onde acaba a história e onde começa o mito? Para responder a essa pergunta, algumas considerações são necessárias.
Primeiramente, o jovem Garibaldi, com então menos de trinta anos, era um entre centenas de outros estrangeiros que tomaram parte na Revolução Farroupilha. Muitos morreram, anônimos, no campo de batalha, outros logo caíram no esquecimento. Em geral, os estrangeiros, que lutaram em ambas as facções, quando aprisionados pelos inimigos eram logo “passados em armas”, pela sua condição de mercenários.

No caso particular da marinha rio-grandense — provavelmente a maior fragilidade dos revoltosos — o “engajamento” era, na maior parte, forçado. Uma espécie de pena imposta a criminosos19.

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17 Lanchão: barco de pequeno calado.

18 VARELLA, Alfredo. História da Grande Revolução: o ciclo farroupilha no Brasil. Porto Alegre: Ed. Globo, V.5, 1933, p. 292.

19 MARKUN, Paulo. Op. cit, p.113.

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O que, então, diferenciou Garibaldi dos demais estrangeiros, incluindo muitos italianos, que lutaram ao lado dos farroupilhas? Garibaldi abandonou a Revolução Farroupilha no ano de 1841, emigrando para o Uruguai. Ao retornar para a Europa, em 1849, retomou sua luta para a unificação da Itália. Já em 1860 conquistou Nápoles e a Sicília, tornando-se mundialmente famoso. A esse tempo, Garibaldi já não era um mero corsário, mas, sim, um general.
Dessa forma, o herói Garibaldi, por muitos venerado, não é o corsário farroupilha, mas, sim, o general da unificação italiana. Outro elemento que diferenciou Garibaldi dos seus demais companheiros foi o fato de ter escrito seu livro de “Memórias”, que recebeu diversas edições, dentre as quais, a mais famosa foi a publicada por Alexandre Dumas, de 1860. Assim, os diversos estudos acerca da atuação de Garibaldi, que serviram para criar a sua imagem heróica, têm como principal fonte suas próprias memórias! Acrescente-se a isso que a versão editada por Dumas foi, em muitos aspectos, romanceada, não correspondendo os relatos aos fatos ocorridos. Isso fica mais claro quando comparamos os documentos da Revolução Farroupilha, disponíveis no Arquivo Histórico do Estado do Rio Grande do Sul, com aquilo que é narrado em suas “Memórias”. Vejamos, por exemplo, como Garibaldi relata sua relação com Bento Gonçalves, o chefe farroupilha:

“No dia em que nos encontramos pela primeira vez, convidou-me para o seu banquete frugal; e conversávamos com tanta familiaridade como se fôssemos companheiros de infância e iguais em posição”.20

Os chefes civis e militares farroupilhas, em sua maioria, eram estancieiros e escravocratas. Não havia espaço, nos postos de comando, para outros segmentos sociais. Garibaldi, um entre tantos estrangeiros a se bater por um causa que não era a sua, não era visto como um igual. A situação dos estrangeiros foi muito bem descrita por outro italiano, amigo de Garibaldi, a pegar em armas na Revolução Farroupilha:

“O General Canabarro escreveu ao Ministro José Mariano de Matos, lastimando que Garibaldi fosse o Comandante da Esquadrilha e eu o Secretário do Governo. Os guerreiros estimam que o estrangeiro combata ao seu lado, mas os letrados não gostam de ver um estrangeiro sentado ao mesmo escritório”.21 (grifos nossos)

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20 DUMAS, Alexandre. Memórias de Garibaldi. Estado do Rio Grande do Sul, 1907, p. 70.

21 Carta de Luigi Rossetti a Domingos José de Almeida, datada de 11/08/1839. Arquivo Histórico do RS, Coleção Alfredo Varela, maço 51, Caixa 15.

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Outro episódio, ainda que historicamente pouco relevante, mas significativo ao demonstrar como Garibaldi era visto com desconfiança pelos chefes farroupilhas, foi o namoro de Garibaldi com Manoela, sobrinha de Bento Gonçalves. Assim lemos nas “Memórias”:

“Uma dessas jovens, Manoela, era a senhora absoluta do meu coração: sem esperança de poder possuí-la, ainda assim não poderia deixar de a amar. Era desposada de um dos filhos de Bento Gonçalves”.22


Bento Gonçalves não permitiu o romance, disse a Garibaldi que Manoela estava prometida ao seu filho Joaquim. Não era verdade. Bento Gonçalves recebia Garibaldi em sua casa, mas considerava-o um aventureiro, um homem indigno de desposar uma sinhazinha de família tradicional como Manoela. Uma carta de Otacílio Ferreira, sobrinho de Manoela esclarecia a situação:

“O suposto noivado com seu primo, filho de Bento Gonçalves, não passou de um pretexto de seus pais para recusarem o pedido de Garibaldi, pois embora o recebessem em seu lar e o cumulassem de gentilezas não deixavam de considerá-lo como aventureiro, motivo pelo qual opuseram-se ao casamento”.23


Manoela de Paula Ferreira morreu solteira, aos 84 anos, em Pelotas. Era conhecida como “a noiva de Garibaldi”.

Mais adiante, em suas “Memórias”, Garibaldi destacou a valentia e honradez de seus companheiros marinheiros:

“Durante todo o tempo que fui corsário dei ordem à minha gente para a vida, honra e fortuna dos passageiros ser respeitada... ia dizer debaixo de pena de morte, mas não devo dizer tal, porque não tendo até hoje ninguém infringido as minhas ordens, não tenho tido ninguém que punir.”24

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22 DUMAS, Alexandre. Memórias de Garibaldi. Estado do Rio Grande do Sul, 1907, p. 76.

23 Cincoentenário da morte de José Garibaldi. Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul. II trimestre, ano XII. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1932, p. 254-256.


24 DUMAS, Alexandre. Memórias de Garibaldi. Estado do Rio Grande do Sul, 1907, p.48.

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Uma carta de José da Silva Brandão, datada do ano de 1839, ao ministro da Fazenda da República Rio-Grandense, Domingos José de Almeida, apresenta uma situação bastante diferente:

“Exmo. Patrício, Amigo e Sr. O Garibaldi tem-se visto em apuros com a canalha que tem por marinheiros, que estão em uma escandalosa insubordinação e com planos de traição para se passarem para o inimigo, pois pretenderam, em uma noite em que ele se achava doente, agarrá-lo, metê-lo a bordo de um lanchão e levarem-no de presente ao inimigo (...)” 25 (grifos nossos)

Episódio significativo da passagem de Garibaldi na Revolução, por todos enaltecida, foi a travessia dos lanchões, Seival e Farroupilha, da Lagoa dos Patos até as praias de Tramandaí, para então auxiliar David Canabarro que marchava por terra para tomar Santa Catarina:

“Os habitantes gozaram então de um espetáculo curioso e desusado, isto é, verem dois navios em cima de duas carretas, e puxados por duzentos bois, atravessarem cinqüenta e quatro milhas, isto é, dezoito léguas, sem a menor dificuldade, sem o mais pequeno incidente”.26

Contudo, a travessia dos lanchões, como de resto praticamente toda a atividade corsária de Garibaldi, muito pouco contribuiu para a consolidação da República Rio-grandense. O barco comandado por Garibaldi foi a pique poucas horas após chegar ao mar, causando prejuízos aos projetos farroupilhas em Santa Catarina. É o que relatou David Canabarro a Bento Gonçalves:

“Garibaldi perdeu as instruções e mais papéis que o acompanhavam, quando felizmente pode só escapar na praia, onde os restos do ‘Farroupilha’ indicam seu desastroso fim; é preciso pois que mandeis instruções para a Marinha, cartas de corso e decretos que marcam a repartição das presas”.27

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25 Carta de J. S. Brandão a Domingos José de Almeida, datada de 1839, Anais do Arquivo Histórico do RS, vol.5, CV-2980.

26 DUMAS, Alexandre. Memórias de Garibaldi. Estado do Rio Grande do Sul, 1907, p.83.

27 Carta de David Canabarro a Bento Gonçalves, datada de 14/08/1839. AAHRGS, vol. 6, CV - 3340.


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“Garibaldi já fez quatro presas mas desafortunadamente duas delas foram separadas do [barco] Caçapava, que os conduzia por um temporal e uma foi retomada pelo inimigo”.28

Malograda a expedição a Santa Catarina, que em novembro de 1839 foi retomada pelos imperiais, Garibaldi retornou ao Rio Grande do Sul. Trazia junto Ana Maria de Jesus Ribeiro, que, abandonando o marido para seguir o aventureiro italiano, passou à história com o nome de Anita Garibaldi. Nas “Memórias”, Garibaldi omite o fato de Anita ser casada quando ele a conheceu.

Em 1841, com o declínio da Revolução Farroupilha, Garibaldi resolve abandonar o campo de batalha e emigrar para o Uruguai, alegando em suas “Memórias” ter ganho dispensa pelo presidente da República, bem como cerca de 900 cabeças de boi pela sua participação na revolução:

“(...) numa estância, chamada Curral de Pedras, com o beneplácito do ministro das Finanças, eu conseguira reunir, em cerca de 20 dias e à custa de um indizível esforço, algo em torno de novecentos animais – que eram completamente selvagens”.29


Não há evidências de que Garibaldi tenha recebido de fato autorização para deixar a revolução. Aliás, na bibliografia e documentos pesquisados não encontramos menção a esse tipo de autorização, quer seja para estrangeiros ou nacionais. Também é pouco crível que, em função das dificuldades financeiras por que sempre passou a República Rio-grandense, fossem destinadas 900 cabeças de bois para quem estivesse deixando o campo de batalha. Uma interpretação possível para esse episódio é que as tais mil cabeças de bois seriam destinadas a Fructuoso Rivera em pagamento pelo fornecimento de bens, provavelmente armas, enviados do Uruguai aos Farroupilhas:

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28 Carta de Luigi Rossetti a Domingos José de Almeida, datada de 30/10/1839. Arquivo Histórico do RS, CV-8.044, maço 51.

29 DUMAS, Alexandre. Memórias de Garibaldi. Estado do Rio Grande do Sul, 1907, p. 143.


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“Para D. Fructuoso Rivera. São Gabriel, 6 de abril de 1841. Respeitável Sr. de meu maior apreço. Ao conduto do Capitão-tenente José Garibaldi segue para essa uma tropa de mil reses de saladeiro que V.Exa. se servirá mandar receber e dispor para seu produto, e, depois de pagas as despesas de condução, a aplicar para pagamento de parte da importância dos objetos entregues ao Capitão Joaquim Pereira Fagundes; esta tropa vai em nome do dito Capitão-tenente por me parecer não devê-lo fazer diretamente a V. Exª. Pelo Sr. Matos, próximo a partir para essa, serei mais extenso. De V. Ex.ª amigo o mais obrigado”.30

Garibaldi, conforme os relatos de suas “Memórias”, nunca entregou os bois a Rivera. Chegando ao Uruguai, Garibaldi teria ainda se dirigido à legação brasileira de Montevidéu pedindo anistia ao Imperador Dom Pedro II, mesmo havendo pedidos dos farroupilhas para que este retornasse ao Rio Grande do Sul31.

No ano de 1845 o tratado de Ponche Verde colocou fim à Revolução Farroupilha, encerrando uma luta que durante aproximadamente 10 anos dividiu o Rio Grande do Sul entre farroupilhas e imperiais. Garibaldi, a esse tempo, ainda estava no Uruguai onde permaneceria até 1849, ano em que retornou a Europa para finalmente lutar pela unificação de sua Itália, ficando mundialmente conhecido como o condottiere.

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30 Carta de Domingos José de Almeida a Dom Fructuoso Rivera, datada de 06/04/1841. AAHRGS, V.3, CV-1598.
31 Anais do III Congresso Sul-riograndense de História e Geografia. Porto Alegre: o Globo, 1940, 3º vol.pp.1515-1517.

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A consolidação do Segundo Reinado com o Imperador D. Pedro II, fez com que episódio farroupilha entrasse em esquecimento. Somente em fins do século XIX, com o movimento republicano, a Revolução Farroupilha e a República Rio-grandense foram novamente trazidas a lume; dessa vez, como forma de propaganda. Os jovens republicanos do Partido Republicano Rio-grandense (PRR) apresentaram-se como seguidores dos ideais farroupilhas. Surgiram, então, os primeiros estudos sobre a Revolução Farroupilha, em editoriais dos jornais republicanos, como “A Federação”, ou através de livros, como “A História da República Rio-grandense” (1881) de Joaquim Francisco de Assis Brasil e “A Revolução de 1835 no Rio Grande do Sul” (1882), de Ramiro Frota Barcellos, ambos republicanos históricos. Nessa mesma época a imigração italiana para o Rio Grande do Sul se acentuava; importantes cidades floresciam na zona colonial italiana, cuja influência econômica e política rapidamente se acentuava. Era preciso estabelecer um elo entre o novo regime, a República, e o imigrantes italianos. Garibaldi foi o elo perfeito. Garibaldi passou, então, da condição de mero coadjuvante da revolução à condição de herói, lado a lado, como já referimos, no panteão dos revolucionários, com Bento Gonçalves, Antônio de Souza Neto e David Canabarro.

Analisando o contexto político do final do século XIX, associada à importância da imigração italiana no Rio Grande do Sul fica bastante evidente o processo de construção do mito Garibaldi, como um instrumento de propaganda política. Como exemplo mais evidente dessa junção temos o jornal republicano do município de Caxias do sul, em que aparecem, na primeira página, no alto, Bento Gonçalves ao lado de Garibaldi, ambos segurando um coroa de flores com o dístico: “A união faz a força”, na parte de baixo a figura do então governador Borges de Medeiros. Surgia, dessa maneira, o mito do herói dos dois mundos.

Bibliografia

Anais do III Congresso Sul-Riograndense de História e Geografia. Porto Alegre: O Globo, 1940, 3º vol.

BERGERON, Louis, et al. História Universal Siglo XIX – La época de las revoluciones europeas 1780-1848. V.26 Século XIX. Madri: Espanha Editores, 1976.

Cincoentenário da morte de José Garibaldi. Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul. II trimestre, ano XII. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1932.

Coletânea de documentos de Bento Gonçalves da Silva 1835-1845. Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, Porto Alegre: Comissão Executiva do Sesquicentenário da Revolução Farroupilha, 1985.

COSTA, Emília Viotti da. Da Monarquia a República: Momentos Decisivos. São Paulo: Fundação Editora da Unesp, 1998, 7ª ed.

DUMAS, Alexandre. Memórias de Garibaldi. Porto Alegre: L&PM, 2002.

DUMAS, Alexandre. Memórias de Garibaldi. Estado do Rio Grande do Sul, 1907.

GALLO, Max. Garibaldi – A Força do Destino. São Paulo: Scritta, 1996.

GOUBERT, Pierre. História Concisa da França. Portugal: Publicações Europa-América, 1996, V.2.

HOLANDA, Sérgio Buarque. História Geral da Civilização Brasileira: Dispersão e Unidade. Tomo II, 2º vol. 5º ed.

HOLANDA, Sérgio Buarque de Holanda. In.: CASTRO, Jeanne Berrance de. A Milícia Cidadã: A Guarda-Nacional de 1831 a 1850. São Paulo: Ed. Nacional, 1979.

MARKUN, Paulo. Anita Garibaldi, a heroína brasileira. São Paulo: Senac, 2003.

VARELLA, Alfredo. História da Grande Revolução: o ciclo farroupilha no Brasil. Porto Alegre: Ed. Globo, 1933, V.5.

WIEDERSPAHN, Henrique Oscar. O General Farroupilha João Manuel de Lima e Silva (1835-1837). Porto Alegre: Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes, 1984.

Fontes

Atas da Assembléia Provincial do Rio Grande do Sul

Carta de Domingos José de Almeida a Dom Fructuoso Rivera, datada de 06/04/1841. Anais do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, V.3, Coleção
Alfredo Varela-1598.

Carta de J. S. Brandão a Domingos José de Almeida, datada de 1839, Anais do
Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, vol.5, CV-2980.

Carta de David Canabarro a Bento Gonçalves, datada de 14/08/1839. Anais do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, vol. 6, CV-3340.

Carta de Luigi Rossetti a Domingos José de Almeida, datada de 11/08/1839. Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, Coleção Alfredo Varella, maço 51, Caixa 15.

Carta de Luigi Rossetti a Domingos José de Almeida, datada de 30/10/1839.
Arquivo Histórico do RS, CV-8.044, maço 51.

Jornal Correio do Povo – Porto Alegre – RS – (Museu de Comunicação Social
Hipólito José da Costa – MCSHJC)

Jornal O Observador – Rio Grande – (MCSHJC)

 
 
 
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