| Mazzini, Garibaldi, Verdi
e a Unificação Italiana
Voltaire Schilling
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Diretor do Memorial do Rio Grande do Sul
Introdução
A unificação nacional italiana, alcançada
depois de uma luta de quase trinta anos (1831-1861), sonhada
por tantos homens e mulheres ilustres do passado, foi um movimento
político e cultural sui generis na medida
em que contou com a participação das mais diversas
personalidades daquela época, entre elas, um intelectual,
um extraordinário homem de ação e um
grande compositor: os três Giuseppi: Mazzini, Garibaldi
e Verdi. Esse episódio da luta pela unificação,
que muitos consideram como as mais belas páginas da
Itália Moderna, foi chamado de Il Risorgimento,
o Renascimento ou o Ressurgimento, ocasião em que o
antigo espírito nacional dos povos peninsulares, que
formavam a Itália, em uníssono, voltou a reclamar
por sua independência e liberdade.
Giuseppe Mazzini, o profeta da Itália
Nascido em Gênova, em 22 de maio de 1805, em meio
a uma família estreitamente vinculada aos carbonários,
os jacobinos italianos do início do século 19,
Giuseppe Mazzini, ao longo da sua vida de patriota, empunhou
a bandeira da unificação da Itália, país
que então era apenas uma expressão geográfica,
religiosa e cultural, mas não um estado poderoso como
a França ou a Espanha. Em 1831, no exílio em
Marselha, ele fundou o movimento Giovine Italia, a Jovem Itália,
com a intenção de mobilizar a opinião
dos seus concidadãos para a nobre causa de constituir
uma nação “Una, Independente, Libera,
Repubblicana”. Compôs, com os outros dois
Giuseppi, seus contemporâneos, Verdi e Garibaldi, o
músico e o revolucionário, a trindade que encarnou
a paixão por uma Itália livre, enfim, do controle
do Imperador estrangeiro e independente do Papa católico.
A primeira unidade: a romana
Em tempos remotos, alguns séculos antes de Cristo,
a península italiana foi unificada pela primeira vez
por Roma, depois de uma série de batalhas travadas
pelos filhos da “loba” contra seus vizinhos (sabinos,
volscos, etruscos, samnitas, celtas, gregos etc...). Estima-se
que esse processo de integração tenha encerrado
ao redor do ano 262 a.C., ao final das guerras movidas contra
as cidades gregas da Itália meridional, quando o Senado
romano pôde proclamar-se “Senhor da bota”.
O nome “Itália”, que até então
somente servia para designar as terras do sul, difundiu-se
por toda a península. Junto com a vitória, o
idioma do Lácio, o verso de Virgílio e Ovídio,
a fala latina, tornaram-se a língua dominante por toda
parte, reforçando ainda mais a sensação
de integração entre os peninsulares. Esse fator
de coesão interna foi fundamental para explicar o sucesso
dos romanos na guerra contra Cartago, quando a península
viu-se invadida por Aníbal Barca, em 216 a.C., durante
a Segunda Guerra Púnica, ocasião em que o general
cartaginês, com todo o seu gênio militar, quase
nenhum auxílio obteve dos vizinhos de Roma para alcançar
submetê-la.
A soberania de Roma estendeu-se, então, do vale do
Rio Pó, ao norte, até Brundisium, bem ao sul,
tendo enquadrado todos os povos itálicos, ou promovendo
alguns deles à posição de aliati,
situação reforçada ao final da República,
quando boa parte dos peninsulares foi promovida à cidadania
romana. Tal iniciativa foi tomada, por primeiro, ainda que
de forma modesta, no tempo da ditadura de Júlio César
(50-44 a.C.), reafirmada e ampliada pela Constituo Antonina
(ou Édito do imperador Caracala), de 212, que fizera
de todos os habitantes do império cidadãos com
iguais direitos aos dos romanos.
Durante os sete séculos seguintes – do
III até o V a.C. – graças à integração
cultural, jurídica e política capitaneada por
Roma, e reforçada pelo Edictum Perpetuum do
imperador Adriano, de 131, a península reconheceu basicamente
a autoridade legal dos Césares sobre todo o território
itálico, até que as invasões bárbaras
que assolaram Roma, entre 410 e 476, determinaram-lhe o fim
da unidade.
O espelho estraçalhado
O desaparecimento do Império Romano provocou
uma involução política na península.
Todo o território itálico, a partir do século
V, fragmentou-se como se fora um espelho caído, estraçalhado.
Cada região, por minúscula que fosse, para desespero
de tantos patriotas do futuro, tornou-se então um paese,
um país, indiferente ou hostil ao que se passava com
seus vizinhos. A península inteira voltou,
assim, aos tempos pré-romanos, reforçando ainda
mais aquilo que chamaram “a mentalidade do campanário”,
a não ser senão “uma expressão
geográfica”, como a definiu o príncipe
Metternich.
Nem mesmo com as agressões externas comandadas
pelos sarracenos, normandos ou germanos, durante a Idade Média,
nem mais tarde, no Renascimento, ocasião em que, desde
1494, na época da geração de Maquiavel,
viu-se palco infeliz de disputas entre os poderosos reis da
França e da Espanha, a Itália foi capaz de fazer
uma frente nacional para expulsar os estrangeiros. Ao contrário,
cada célula que compunha aquele corpo político
pulverizado, cada comuna ou cidade, cada condado ou principado,
procurava tirar proveito da presença dos estranhos
para usá-los contra seus rivais mais próximos.
Milão opunha-se à Veneza; esta, à Gênova.
Florença estranhava-se com Pisa. Chegou-se, por várias
vezes, ao extremo de algum tirano ou de uma família
patrícia apoiar-se num invasor para fazê-lo agir
contra seus próprios concidadãos, como, certa
vez, foi o caso dos Médicis, de Florença.
Palco de eternas rivalidades
Tal instituição da cizânia colaborou
em muito para fazer da península a terra mais invadida
da Europa, atraindo, para dentro de si, as forças da
cobiça e da rapinagem internacional, que promoveram
o vale do Rio Pó como a região preferencial
para que batalhas memoráveis fossem lá travadas.
Nada mais fácil, aos invasores, do que penetrarem em
um território dividido entre 60 cidades que se intrigavam
sem parar umas contra as outras.
Agravou-se, ainda mais, a situação de fraqueza
interna pelo fato de haver ainda, ao longo do Medievo,
duas forças cosmopolitas tentando imperar sobre a Itália:
o Sacro Império Romano-germano (fundado por Otão,
o Grande, em 962) e a Igreja Católica (reconhecida
como oficial por Teodósio, em 390), pois tanto o imperador
como o papa da Igreja Universal rivalizavam-se na liderança
da república da cristandade. A coroa e a mitra, o poder
secular e o poder espiritual, nesse momento em acordo, a maior
parte em desacordo, travaram uma longa guerra, nem sempre
diplomática, pela hegemonia da Itália e sobre
o restante da cristandade européia.
A rivalidade foi tão intensa que se traduziu
na formação dos dois grandes partidos dos tempos
medievais: os guelfos (a favor do Papa) e os
gibelinos (seguidores do Imperador). O Papado, na contramão
da pregação de Cristo, se viu constrangido a
recorrer às armas para defender o trono de São
Pedro de usurpadores e aventureiros impostos de fora pelo
imperador ou qualquer outro rei. Portanto, durante séculos
a fio, a Itália viu-se assim fragmentada, atomizada,
não somente pelos pequenos corpos políticos
– a rivalidade entre as cidades-estado –, como
também entre os grandes corpos institucionais daquela
época, o Império e o Papado.
O desespero da inteligência italiana
Evidentemente, tal situação causava desespero
e desânimo entre os pensadores, artistas e intelectuais
da Itália daqueles tempos. Dante, exilado e desconsolado
com sua pátria natal, implorou, por carta, que o imperador
alemão Henrique IV, que marchava em direção
à Itália, em 1314, estendesse suas operações
até a Toscana, com o objetivo de restabelecer o poder
dos seus partidários. Chegou até a redigir um
ensaio político, “Da Monarquia”, escrito
entre 1310-14, propondo o acerto entre o Império e
o Papado para que, sob a hegemonia do poder secular, a Itália
voltasse a gozar de paz e tranqüilidade com um comando
forte, ainda que fosse de um imperador estrangeiro. Tudo inútil.
Tempos depois, em 1347, foi a vez de Petrarca aproximar-se
do tribuno romano Cola di Rienzo, na expectativa
de que seu plano, de formação de uma confederação
de tiranos, viesse a dar uma forma qualquer de unidade à
península. Petrarca, imbuído pelo patriotismo,
propôs-se, num primeiro momento, a celebrar a grandeza
romana passada, como uma emulação para o presente
infeliz, escolhendo para personagem símbolo de um possível
renascer italiano o general romano Cipião, o africano
(poema “África”), desaparecido no século
II a.C., o homem que afastara o perigo de Roma cair em mãos
inimigas e que derrubara Anibal na batalha de Zama, em 202
a.C. Num outro, Petrarca, por igual, enalteceu a pátria
na “Canzone all´Italia”, de 1346.
A mesma preocupação moveu Maquiavel, o
vigoroso e tido por amoral escritor florentino, na sua expectativa
exposta no derradeiro capítulo do Il Principe
(O Príncipe, de 1513), de que surgisse na Itália,
invadida e humilhada da sua época, um príncipe
resoluto, um líder corajoso e varonil que a unisse
para resgatá-la dos “barbari”,
como ele denominava os reis vindos de fora que faziam da sua
pátria um palco de destruições, rapinagens,
saques e atrocidades sem fim. Segundo suas próprias
palavras:
“Não se deve, pois, deixar passar essa ocasião,
a fim de que a Itália conheça, depois de tanto
tempo, um seu redentor. Nem posso exprimir com que amor ele
seria recebido em todas aquelas províncias que têm
sofrido por essas invasões estrangeiras, com que sede
de vingança, com que obstinada fé, com que piedade
e com que lágrimas... Que italiano lhe negaria um favor?
A todos repugna esse bárbaro domínio.”
Maquiavel encerra o célebre texto com a chave de ouro
de um patriótico verso de Petrarca, que dizia:
“Virtude contra furor/Tomará armas; e faça
o combater curto/ Que o antigo valor/ Nos itálicos
corações inda não é morto”.
Todos eles, esses impressionantes nomes das letras itálicas,
frustraram-se porque a unificação, o tão
esperado abraço fraterno entre os italianos, clamado
em prosa e verso, somente terminou por ocorrer séculos
depois de seu desaparecimento. O melancólico Giacomo
Leopardi, ainda em 1818 (no canto All´ Itália),
em tom de desconsolo, dizia ver “os muros, o arco, a
coluna, a estátua e o ermo/as torres dos antepassados”
– os visíveis símbolos da magnitude da
Roma antiga –, “mas não via mais a
glória nem os louros e os ferros em que tinham sido
forjados os nossos antigos antepassados”.
Os tempos se passaram e a Itália que, segundo
Francesco Fiorentino, filósofo falecido em 1884, esboçara
o seu primeiro Risorgimento no século 15,
pelas artes (Botticelli, Leonardo, Alberdi, Miguel Ângelo
etc.) e, depois, no século 16, pela ciência (Bruno,
Telésio e Galileu), estava ainda bem distante de chegar
à unificação, visto que este Risorgimento
dei Umanismo não conseguiu ser alcançado
pela política.1
A Revolução Francesa e a idéia
nacional
Precisou a Itália esperar pelos efeitos da Revolução
Francesa de 1789, para que seus anseios de liberdade e unificação
se vissem renascidos. Adormecido por séculos, sonho
de poetas, o legítimo sentimento de voltar a formar
uma pátria foi reavivado pelos feitos espetaculares
de um jovem general republicano de apenas 27 anos, nascido
na Córsega, de família italiana, Napoleone Buonaparte
(que, mais tarde, ao estudar em Paris, afrancesou para Napoleon
Bonaparte), que se tornara o comandante-em-chefe dos exércitos
franceses do fronte da Itália.
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1 Conforme Prota, o Risorgimento possuía objetivo
altamente civil, político e educativo: pôr a
cultura a serviço da independência e liberdade
da Itália, formar nos italianos uma consciência
nacional e política, dar-lhes um sentido das virtudes
civis. Valendo-se de um diálogo profundo com Hegel,
Spaventa, Croce e Gentile, notabilizaram-se pelas reflexões
elaboradas sobre a temática do espírito, que
constitui o eixo peculiar do pensamento filosófico
italiano.
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Derrotando os austríacos em combates memoráveis
no Piemonte e na Lombardia, durante sua campanha de 1796-1797,
tomando Milão, onde mandou hastear a bandeira republicana
tricolor (verde-branca-vermelha), Napoleão incendiou
a imaginação italiana como ninguém mais
o fizera até então.
“Guerreiro invencível” – disse dele
o poeta Ugo Foscolo, na sua ode a Napoleão –,
“Venceu e a Itália gritou sua liberdade”.
Foscolo viu no general francês o punhal de Bruto erguendo-se
contra a tirania de César (o imperador austríaco).
No ano de 1797, Bonaparte fundou, entre tantas outras,
a República Cisalpina (formada pela Lombardia e partes
dos estados pontifícios). Rebatizou-a, mais tarde,
como a República Italiana, situação que
durou até 1804. Essa ação fez com que
a região se tornasse o futuro embrião do Estado
Nacional Italiano.
Ainda que, bem depois, em 1815, Napoleão fosse derrotado,
o sincero desejo de reconquistar a autonomia, a semente do
nacionalismo havia sido deixada encravada fundo na alma de
muitos italianos, particularmente dos que habitavam as regiões
do Norte: os da Lombardia e do Veneto, devido à situação
de ocupação que viviam, sendo súditos
do monarca de Viena (o Sacro Império Romano-germano,
cujo soberano era o imperador austríaco, havia assegurado
“seus direitos” sobre boa parte do norte da Itália
desde o Tratado de Rastatt, de 1714).
Por outro lado, o culto à idéia de uma comunidade
unida em torno de uma mesma língua, religião
e cultura, cujo arremate final conduziria à formação
de um inquebrantável Estado-nacional, já começara
a ser celebrada pelos intelectuais românticos, ainda
no século 18. Foi sobre essa base que se sedimentou
o princípio político dos revolucionários
de 1789, preocupados em constituir uma nação
unida e soberana que espelhasse a vontade geral popular, substituindo
as antigas divisões e hierarquias feudais que ainda
pairavam na geográfica política da Europa. O
mito do estado étnico, como observou Ernst Cassirer,
foi a principal contribuição do romantismo político,
e sua manifestação mais radical deu-se durante
a Revolução de 1848. Não sem motivos
chamada de “a Primavera dos Povos”, já
que se tornou a sementeira da formação futura
dos estados da Polônia, Tchecoslováquia, Hungria,
e, claro, da Itália.
Mazzini agitador e revolucionário
Ao longo de sua vida como agitador e insuflador
de rebeliões patrióticas, poucas vezes Giuseppe
Mazzini pôs os pés na Itália. Tanto assim
que seus seguidores o denominaram de L´Esule,
o Exilado. Desde o momento em que foi condenou à morte,
em ausência, quando souberam que instigara um levante
militar na Sardenha, em 1833, ele tomou a precaução
de viver bem longe da pátria, de preferência
em Londres, onde se aproximou muito de Thomas Carlyle e dos
socialistas lá refugiados. A essência do mazzinismo
e do Partito d´Azione, o Partido da Ação,
liderado por ele, era provocar uma insurreição
popular que levasse rapidamente à queda do regime dos
reis e dos padres e que se implantasse, na Itália,
uma república soberana. Um dos seus lemas era o dito
carbonário “Anima di fuoco in tempra di ferro”
(Alma de fogo temperada no ferro).
Ainda que incansável, nunca se preocupou muito com
a organização dos complôs que planejava
ou estimulava através dos seus escritos. Parecia acreditar
na combustão popular espontânea, desde que ativada
por um pequeno e seleto grupo de homens decididos. De certo
modo, ainda que bem mais cauteloso, ele foi a versão
italiana do blanquismo (do revolucionário Louis Blanqui,
que sempre que podia, mal saído de uma prisão,
se alçava contra os governos da França).
Talvez fosse isso, sua aposta na improvisação
e na intuição revolucionária, que o levou
a polemizar, em diversas ocasiões, com Marx e Engels,
no seu exílio em Londres, pois estes, como bons alemães,
acreditavam na organização e na demorada preparação
antes de se lançarem nas tarefas da insurreição.
Viu-se ele como um profeta crente nas virtudes do voluntarismo
e no efeito místico da pátria. Todavia, o desentendimento
maior entre Mazzini e Marx deu-se por ocasião da fundação
da 1ª Internacional Socialista (1864-1871), pois o alemão
resolveu “refazer” o Estatuto Primeiro, dando-lhe
um cunho “classista”, o que desgastou a posição
de Mazzini a favor da integração da classe média
no movimento. Em represália, Engels exortou os trabalhadores
italianos a se afastarem do mazzinismo, do que nada de efetivo
resultou.
Com os episódios dramáticos que se seguiram
à Revolução de 1848, Mazzini pôde
voltar à Itália para cair bem em meio ao tumulto
provocado pela fuga do Papa Pio IX e a proclamação
da República Romana, em 1849. Participou na elaboração
da Constituição e foi eleito para o Parlamento
Nacional como representante de Turim.
Entrementes, o papa apelou aos regimes católicos da
Europa para que interviessem militarmente para restaurá-lo
no trono em Roma. Um exército francês, sob comando
do general Oudinot, desembarcando em Óstia, cercou
então a capital, forçando Garibaldi a organizar
uma heróica, mas inútil resistência. Desmantelada
a república, Mazzini viu-se obrigado a retornar a Londres
para mais uma longa temporada de exílio. As duas outras
tentativas de acertar um golpe republicano, visando a reverter
a perda de Roma, uma em Mántua (1852) e outra em Milão
(1853), fracassaram.
Todavia, o derradeiro esforço para obter sucesso pela
via revolucionária acabou numa tragédia de grandes
proporções. Em 2 de julho de 1857, o mazzinista
Carlo Pisacane, que, vindo de Gênova e passando por
Ponza, desembarcara no Mezzogiorno, na costa napolitana,
com 300 seguidores, para surpreender as autoridades bourbônicas
com uma ação revolucionária, foi cercado
e trucidado pelos camponeses da região, num lugarejo
chamado Sanza, suspeitando que eles fossem bandidos “Eran
trecento eran giovani e forti e sono morti...”,
disse deles num poema da época. Dele, então,
escreveram dois dos opositores do Profeta: Il profeta
ha perduto l´ultima scintilla Del suo fatale prestigio.
A Mazzini politico si può cantare il Requiem aeternam”
(O profeta perdeu sua última centelha do seu
fatal prestígio. Ao Mazzini político pode-se
cantar o Requiem aeternam).
Cavour supera Mazzini
Com o desastre que acometeu Pisacane, encerraram-se as possibilidades
de os mazzinistas servirem como a vanguarda do processo nacional
italiano. O insucesso da política de Mazzini e o exílio
forçado de Garibaldi em Nova York, em 1850, abriram
as portas para a política do Conde de Cavour, primeiro-ministro
do Piemonte e funcionário da Casa Sabóia. Por
meio do Partido Moderado, Cavour liderou o processo seguinte
da unificação nacional. Cavour, ao contrário
de Mazzini, tinha um estado por detrás e não
grupos desorganizados de patriotas.
Aos republicanos e democratas italianos do Partido da Ação
só restaram duas alternativas: colocar-se a reboque
da estratégia de Cavour (uma complicada articulação
de uma frente interclassista com apoio de potências
estrangeiras antiaustríacas, alternando batalhas com
negociação) ou, simplesmente, isolar-se de tudo.
A tão estimada esperança dell´ Ideale,
da Causa, depositada numa rebelião popular, tão
ao gosto do socialismo romântico, um só golpe
que abalasse o rei e o papa, teve que ceder à prioridade
da unificação acima de tudo, feita por quem
fosse, pois, para ele, Roma era o motor da história
italiana vocacionada a ambições universais,
visto que a Itália seria a herdeira direta da grandeza
dos tempos dos Césares. Porém, tal ressurreição
da Itália não se faria através de um
império opressor, mas colocando-a “unida, republicana
e libertada”, como um centro exemplar, um facho luminoso
ao redor do qual os demais povos da Europa, todos convertidos
ao ideal republicano, deveriam formar uma confederação
de estados livres.
Mazzini nunca foi um nacionalista de horizontes estreitos,
já que enxergara sempre o movimento italiano no quadro
geral da emancipação daqueles ainda submetidos
por impérios estrangeiros.
Com a adesão de Garibaldi – que até então
era o mais audaz condottiero dos republicanos –
à causa do Vitório Emanuel II e de Cavour, em
1859, a sorte fora lançada. Em nome da primazia da
unificação sobre a importância do regime
político que a Itália adotaria no futuro, o
Partido da Ação concordou em acatar os Moderados.
Solidão e glória de Mazzini
Quando finalmente foi eleito para o Parlamento nacional,
criado em seguida à vitória do Piemonte na 2ª
Guerra de Independência Italiana (1859), Mazzini, em
fidelidade aos seus princípios republicanos, renunciou
à deputação por se negar a ter que prestar
juramento de fidelidade ao monarca da Itália (Vitório
Emanuel II do Piemonte tornara-se o Vitório Emanuel
I da Itália). Os herdeiros do mazzinismo tiveram que
esperar por mais de 80 anos para que a Itália se convertesse
numa república, fato que somente ocorreu ao término
da Segunda Guerra Mundial, em 1946. Mazzini – o Grande
Conspirador – que morreu solitário e frustrado
em Pisa, em 10 de março de 1872, hoje goza do respeito
dos italianos e é tido como o verdadeiro pai da pátria.
Quando ocorreu a celebração do centenário
da curtíssima República Romana, a de 1849, ergueram-lhe
um estupendo monumento em Roma.
Garibaldi, o homem-vulcão
Giuseppe Garibaldi, “o herói de dois
mundos”, como mundialmente consagrou-se, foi um dos
mais notáveis líderes de homens do século
19, e o mais famoso italiano que se conhece na história
contemporânea. Dotado de uma coragem pessoal assombrosa,
nada lhe parecia ser impossível. Fugido da Europa em
1836, no Brasil, lutou na Revolução Farroupilha
(1837-1840) e, no Uruguai, comandou a Legião Italiana
durante o longo cerco de Montevidéu (1845-1851). Retornando
a sua velha pátria, ainda desunida, com seus companheiros
camisas vermelhas, lutou por sua unificação,
alcançada somente em 1861.
Escapando da Europa
“Na América eu servi – e servi sinceramente
– à causa dos povos. Assim fui adversário
do Absolutismo.”
Giuseppe Garibaldi – Memórias, 1859.
Uma epidemia de cólera em Marselha, na França,
e a existência de uma sentença de morte do monarca
do Piemonte pesando sobre ele, fez com que Giuseppe Garibaldi
resolvesse tomar outros ares. Bom marinheiro, militante carbonário,
admirador de Mazzini e do movimento Jovem Itália, partindo
de Nantes, a bordo do Nautonier, não demorou
em desembarcar no Rio de Janeiro, em 1836. De imediato, deixou-se
subjugar, como Saint-Hilaire antes dele, pelo impressionante
espetáculo da baía da Guanabara, maldizendo
não ser poeta. Encontrou por lá uma ativa colônia
de exilados italianos, uma das tantas que existiam espalhadas
pelas cidades da América, depois do insucesso do levante
nacionalista contra o domínio austríaco e das
monarquias ultraconservadoras da Itália. No meio deles,
exilados, estava Luiggi Rossetti, um carbonário que
fazia as vezes de jornalista e corsário, combinação
comum naqueles tempos. Foi Rossetti quem levou Garibaldi a
fazer uma visita a Tito Livio Zambeccari, um preso ilustre,
homem de sete instrumentos, ajudante de Bento Gonçalves,
ambos encarcerados na Fortaleza de Santa Cruz no Rio de Janeiro,
após a derrota dos farrapos na ilha do Fanfa, no Rio
Jacuí, no Rio Grande do Sul. Além das afinidades
itálicas, cabe ressaltar que os carbonários
eram bastante próximos dos maçons, doutrina
seguida por Zambeccari, formando um mundo de contatos subterrâneos,
devido às suas inúmeras lojas espalhadas pelos
quatro cantos, muito úteis nas conspirações
anti-absolutistas.
Corsário farroupilha
Decidiram os dois, com o consentimento de Zambeccari,
arrumar um barco e, a partir de janeiro de 1837, lançar-se
ao mar como corsários. O que conseguiram foi uma sumaca
de dois mastros, que batizaram de “Mazzini”, dedicada
à interceptação dos que navegavam sob
a bandeira do Império Austríaco, inimigo dos
italianos irredentos. Caçados pela marinha imperial,
navegaram para o Rio da Prata em busca de abrigo. Foi dali,
partindo das vizinhanças de Montevidéu, que
a dupla Rossetti e Garibaldi, cavalgando em vinte corcéis,
alcançou Piratini, sede da revolução
das lanças. Sua adesão aos gaúchos insurretos
contra o regime dos Braganças parecia-lhes a continuidade,
em outro país, em outro continente, da luta que moviam
ao absolutismo dos Habsburgos na Europa.
Na ausência de Bento Gonçalves, de quem
depois ficariam amigos, encantaram-se com a figura de Domingos
José de Almeida, o cérebro que organizava a
República Sul-rio-grandense. Nenhum dos dois, porém,
perdeu tempo. Trazendo alguns operários da Banda Oriental,
eles trataram de construir, num estaleiro, nas beiras da Lagoa
dos Patos, uma minúscula flotilha para poder, pelo
menos, atazanar os Caramurus pró-Império, comandados
por Greenfell, cuja superioridade nas águas era abrumadora.
Os farroupilhas, gente do campo, da estância e do laço,
viam o mar com estranheza. Coube, assim, a Garibaldi, guerreiro
anfíbio, bom na terra, melhor na água, assumir
o papel de almirante da revolução.
Garibaldi, almirante da revolução
Sua missão era abrir um fronte, bem mais ao norte,
nas águas de Santa Catarina, para apoiar a causa republicana
em outras paragens. Deu-se, então, o grande feito de
transportar os lanchões, por terra, da área
da lagoa até o mar, de Capivari à Lagoa Tomás
José, próximo a Tramandaí. Atreladas
aos duzentos bois que o general Canabarro requisitara, as
enormes carretas de dois eixos e doze rodas, atravessando
os baixios alagados assolados pelos ventos da região,
por seis dias, num trajeto de 104 quilômetros, arrastaram
o Seival e o Farroupilha até o oceano. Dali em diante,
no mar, onde uma boa parte dos marinheiros afogou-se num infeliz
naufrágio, Garibaldi atingiu Laguna, para integrar-se
à República Juliana do general Canabarro (proclamada
em julho de 1839), afundar navios do Império, e encontrar
o amor da bravíssima Anita, no Morro da Barra, mulher
que largou tudo a fim de seguir aquele corsário doido.
Esmorecida a revolução no pampa, o infatigável
condottiero emigrou de volta ao Uruguai, continuando
lá, na chamada Grande Guerra, a lutar contra Oribes,
um aliado da tirania do portenho Juan Manuel Rosas. Arregimentando
uns 400 patrícios seus, organizou a Legião Itália,
uma tropa de choque uniformizada com uma camicia rossa (a
cor vermelha era usada nas charqueadas para atenuar a má
impressão visual do sangue dos animais). Quando ele
retornou a Itália, na esteira dos acontecimentos revolucionários
de 1848, já fixara o seu uniforme: botas, poncho e
a camisa vermelha, o símbolo mor das brigadas garibaldinas,
os Mille, os heróis do Risorgimento
na luta pela emancipação definitiva da península.
O guerreiro aposentado
Quando a nação italiana conquistou sua unidade,
em 1861, sentindo-se com a missão cumprida, como se
fora um vulcão cuja lavra secara depois de incontáveis
erupções, Garibaldi retirou-se em direção
à pequena ilha de Caprera. Lá faleceu, em 1882,
sete anos antes de a república ser afinal proclamada
no Brasil. Nunca, todavia, Garibaldi esqueceu das aventuras
passa das em meio às temeridades machas da cavalaria
rio-grandense, “a melhor do mundo”, como ele testemunhou,
a brava gente que, certa vez, lamentou não dispor na
Itália – de “uns 300 deles” –
a fim de pôr mais facilmente os opressores dos povos
a correr.
Garibaldi e a Legião Italiana
No ano de 1843, formou-se em Montevidéu, por empenho
do condottiero Giuseppe Garibaldi que lá se encontrava
exilado, um singular corpo revolucionário: a Legião
Italiana. Tratava-se de uma pequena força de 400 homens,
todos eles voluntários, que, fugidos da Itália,
haviam procurado abrigo no Rio da Prata. Cinco anos depois,
uma parte deles, liderados por Garibaldi, embarcou de volta
para a Itália, com o objetivo de participar da revolução
de 1848, a “Primavera dos Povos”. Poucos grêmios
militares tiveram destinos tão estranhos, aventureiros
e gloriosos como os que fizeram parte da Legião Italiana.
Garibaldi em Montevidéu
“L’insofferenza delle popolazioni italiane
al dominio straniero, che fosse al colmo, già era manifesto
in tutte le corrispondenze che giungevano nel Plata. L’idea
del ritorno in patria e la speranza di poter offrire il nostro
braccio alla sua redenzione da molto tempo facevan palpitare
l’anime nostre”.(Que o sofrimento do povo itálico
submetido ao domínio estrangeiro tivesse chegado ao
seu limite, já se encontrava manifesto em toda a correspondência
que chegava ao Prata. A idéia de um retorno à
pátria e a esperança de poder oferecer o nosso
braço a sua redenção, há muito
tempo fazia palpitar a nossa alma.)
Giuseppe Garibaldi – Memórias
Licenciando-se da Revolução Farroupilha em abril
de 1841, ocasião em que Bento Gonçalves cedeu-lhe,
em agradecimento pelos serviços prestados, uma partilha
de 900 bois, Giuseppe Garibaldi e sua mulher, Anita, puseram-se,
a duras penas, a tropear a manada por 650 quilômetros
a caminho de Montevidéu. O casal, inexperiente no ofício,
após 50 dias de cavalgada, chegou à capital
uruguaia com somente 300 couros. Em pouco tempo estavam reduzidos
à pobreza, morando nos limites da modéstia.
Garibaldi, já precedido por sua fama de homem legendário,
não tardou a enturmar-se com a numerosa colônia
de exilados italianos que por lá se encontravam e o
tratavam como herói.
Provisoriamente, aceitou uma colocação de professor,
mas teve também que se atarefar na venda de bugigangas
para, batendo de casa em casa, reforçar o magro orçamento
doméstico. Paradoxalmente, sua situação
alterou-se quando a cidade de Montevidéu foi posta
a sítio pela marinha argentina. Parecia que as guerras
saíam ao encalço de Garibaldi onde ele estivesse.
A armada inimiga, comandada pelo Almirante Brown, atravessando
o Rio da Prata, viera em auxílio do caudilho Manuel
Oribe, chefe do partido blanco e inimigo do presidente Fructuoso
Rivera, cacique dos colorados (dois partidos que viviam envolvidos
às turras em guerras civis).
Era o início do período que, na história
uruguaia, ficou conhecido como a Grande Guerra (1843-1851),
o longo conflito entre blancos e colorados pelo controle político
da República Oriental do Uruguai, que recém
se tornara independente, em 1831. Uma guerra que opôs
os dois caudilhos, Oribe e Rivera, ensangüentando o pampa
uruguaio com a morte dos patriotas. Estando a capital ameaçada,
pois a cavalaria e a infantaria de Oribe mantinham-na cercada
por um cinturão de acampamentos e bivaques, não
demorou para que o governo uruguaio, sabedor dos feitos de
Garibaldi na travessia do Capivari e na tomada de Laguna,
lhe oferecesse um elevado posto na marinha nacional (praticamente
inexistente).
Líder de homens, agradecido pela acolhida dos orientais,
o famoso guerrilheiro não podia se negar a colocar-se
ao lado do governo que o prestigiara e que estava passando
por maus bocados. Em pouco tempo, arregimentou seus conterrâneos
e formou a Legião Italiana, que se tornaria lendária
na história do Prata e da própria Itália
2. Para uniformizar a sua gente, ele recorreu a um lote de
camisas vermelhas (camicia rossa) que seria enviado às
charqueadas argentinas e que terminaria parando nas docas
do porto de Montevidéu. Desde então, aquela
cor imortalizou os combatentes garibaldinos.
____________________________________________________________
2 A Legião Italiana, grupo de homens unidos ao redor
de um líder, lutando por uma causa em comum, fez escola.
Reforçou a idéia, defendida pelo revolucionário
francês Auguste Blanqui, por Lênin e por Che Guevara,
dos que afirmavam que o sucesso de uma revolução
depende muito mais da decisão de uns poucos homens
do que da vontade das massas.
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Guerreiro anfíbio, Garibaldi saía-se bem no
leme dos barcos e empunhando o sabre nas cargas de cavalaria.
Os combates que a Legião Italiana travou na Grande
Guerra dos uruguaios, como se deu na batalha do Salto de Santo
Antônio, devido ao número escasso de gente que
a compunha (de 400 a 600 homens no máximo), serviram
mais de diversionismo para aliviar a pressão sobre
a capital do que como um resultado efetivo que pudesse alterar
as posições de Oribe ou o rumo da guerra.
Quando arrefeceu um pouco a pressão sobre a capital,
Garibaldi recebeu a notícia, vinda da Itália,
de que os povos europeus estavam se insurgindo por todas as
partes. Convencendo Anita a embarcar, prontamente ajuntou
os seus magros pertences para, atravessando o Oceano Atlântico,
ir aderir ao movimento rebelde, desejando fazer parte da Revolução
de 1848. Entrementes, enquanto Garibaldi lutava na Itália,
a Grande Guerra uruguaia seguiu até 1851, quando o
Império do Brasil declarou guerra ao ditador Rosas
(que apoiava Oribe), intervindo abertamente no conflito.
Derrotada a coligação Oribe-Rosas, uma paz temporária
foi acertada entre os blancos e os colorados do Uruguai.
De volta à Itália
Pouco tempo depois de seu desembarque em Gênova, Garibaldi,
vestindo a camisa vermelha e bombachas (pantal turchin),
tendo um poncho branco sobre elas, acompanhado por um reduzido
núcleo de 86 camisas-vermelhas da Legião Italiana,
os montevideanos, rumou para Roma, onde foi eleito
deputado da Assembléia Nacional, a primeira a reunir
italianos de todas as partes. Foi um dos instigadores da República
Romana, aclamada em 9 de fevereiro de 1849, visando pôr
fim ao poder secular que o papado exercia sobre uma parte
das terras italianas – os estados pontifícios.
Até um triunvirato, com a presença do incansável
líder republicano Giuseppe Mazzini, foi eleito para
dirigir a nova república. A plataforma, inspirada no
lema “Igualdade, Liberdade, Humanidade”, era unificar
a Itália, afastar o poder clerical dos assuntos civis
e livrar a nação da ingerência estrangeira
(os austríacos ocupavam o norte da Itália, as
províncias da Lombardia e do Vêneto, e também
a Toscana).
Logo, porém, a situação se inverteu.
As forças da repressão comandadas pelos austríacos
lideraram um contra-ataque ao Reino do Piemonte (a cabeça
do projeto de uma Itália unificada), derrotando o seu
exército na batalha de Novara, em março de 1849,
ação que terminou por sepultar as esperanças
dos patriotas italianos. Todas as conquistas obtidas entre
1848 e 1849 mostraram-se nuvem de fumaça, evaporando-se
na presença dos canhões e dos mosquetes da contra-revolução.
O Papa Pio IX, por sua vez, lançara um manifesto reclamando
a devolução dos seus territórios expropriados
pela república revolucionária. Atendendo ao
seu apelo, a França de Luís Napoleão,
o sobrinho de Bonaparte, enviou, em abril de 1849, um exército
com 30 mil homens para ocupar Roma, com a missão de
desfazer a república e devolver o poder ao papa. Garibaldi
e seus homens da Legião Italiana foram os únicos
a resistir dentro da cidade. Na praça de São
Pedro, ele arenga aos seus homens perfilados na sua frente:
“Onde nós estivermos, estará Roma.
Mas lembrem-se de que vocês não terão
nem suas casas confortáveis, nem seus cafés,
nem seus jantares. Vocês dormirão freqüentemente
sob as estrelas, e algumas vezes sob a chuva... Saio de Roma.
Aquele que quiser continuar a guerra contra o estrangeiro
venha comigo. Não ofereço nem salário,
nem acantonagem, nem provisão. Ofereço fome,
sede, marchas forçadas, batalhas e morte.”
(Garibaldi, a força do destino, de Max Gallo, p. 149.)
Fuga e novo exílio
Seguido por 1.500 combatentes, Garibaldi, para não
ter que se render ao general Oudinot, que entrara em Roma
em junho de 1849, decide pela retirada para o norte, em direção
à Veneza. Acompanha-o a sua inseparável Anita,
grávida de cinco meses. Perseguidos pelos franceses
e austríacos, escalando os montes Apeninos, refugiam-se
na minúscula República de San Marino, que lhes
dá asilo. Nada o detém. Tomando fôlego,
escapa do cerco e navega num barco pesqueiro pelo Mar Adriático
até o pequeno porto de Magnavacca, na embocadura do
Rio Pó, triste local onde Anita vem a falecer no dia
1º de agosto de 1849.
Garibaldi, então viúvo, engendra outra fuga
espetacular. Vários dos seus homens da Legião
são capturados e fuzilados, enquanto ele, cruzando
a Itália a pé, do Adriático ao Tirreno,
caminha por 37 dias, escapando dos inimigos até conseguir
novamente partir rumo ao exílio. Tenta ir para Tunis,
na África do Norte, mas, visto como “homem-do-diabo”,
ninguém quer dar-lhe abrigo. Em 1850, ele decide rumar
para os Estados Unidos (curiosamente, embarca num navio chamado
Waterloo, a batalha final de Napoleão).
Quando o guerreiro deu as costas para as terras da Europa,
era um homem derrotado, um fora-da-lei. Perdera Anita, sua
companheira de ideais e de lutas, enquanto que seus três
filhos ficaram ao encargo da mãe dele, em Nice, cidade
onde nascera em 1807. Os seus companheiros camisas-vermelhas,
por sua vez, estavam dispersos, presos ou mortos. Decepcionado
com a falta de entusiasmo do povo miúdo da Itália,
a negativa dos humildes em combater a seu lado para implantar
um regime melhor, nacional e democrático, recordou-se
da bravura dos cavaleiros farroupilhas, dos guerreiros rio-grandenses
que pareciam não temer nada, nem a morte.
No campo da política italiana, tudo regressara à
situação anterior. O papa voltara a assumir
o poder temporal, os austríacos e os franceses continuaram
mandando na Itália, e o país permanecia tão
dividido como antes de 1848. Toda a luta dos patriotas revelara-se
infrutífera. Tudo parecia ter-se acabado.
Garibaldi não tinha mais os 28 anos de quando atravessou
o oceano pela primeira vez para chegar ao Brasil e, em seguida
ir lutar com os Farroupilhas. Era um homem maduro, um viúvo
de 43 anos, cheio de cicatrizes, e que não sabia direito
o que iria fazer na América. No entanto, o destino
novamente buscou Garibaldi do exílio distante para
alçá-lo em aventuras ainda maiores. No dia em
que desembarcou em Nova York, a edição do NY
Times de 30 de julho de 1850, registrou:
“neste dia chegou , vindo de Liverpool, o Waterloo
com Garibaldi a bordo, personalidade de renome mundial, herói
de Montevidéu e defensor de Roma. Todos aqueles que
conhecem o seu caráter cavalheiresco e os serviços
que prestou à causa da liberdade lhe reservarão
a acolhida que lhe é devida.”
Verdi e a unidade italiana
Num pesado dia do inverno de Milão, 27 de janeiro de
1901, o povo saiu às ruas para prestar uma das mais
belas e espontâneas homenagens ao maior compositor italiano
de todos os tempos. Giuseppe Verdi morrera aos 87 anos. Com
lágrimas nos olhos, naquela data infeliz, milhares
de pessoas, sentindo-se na orfandade, vendo o féretro
desfilar, cantaram em coro uma das suas mais celebradas passagens:
Va, pensiero. Com ele, sepultou-se também
uma das mais comoventes e heróicas páginas da
história da Itália Moderna.
A Itália sofrida
“E chegará um dia em que já não
se falará de melodia, de harmonia, de escola italiana
ou alemã, do futuro ou passado etc. Então, talvez,
poderá estabelecer-se o reino da música.”
Maquiavel, ao encerrar o Il Principe (O Príncipe,
cap.XXVI, 1521), livro que o perpetuou, exortou para que surgisse
na Itália do seu tempo - invadida por forças
estrangeiras e dilacerada por brigas internas entre as cidades
rivais - um príncipe forte, um bravo, “um redentor”,
que, além de afastar “os bárbaros”,
restituísse-lhe a integridade perdida desde os tempos
dos romanos. Ninguém atendeu ao seu apelo.
Ainda na metade do século 19, mais de trezentos anos
após sua morte, a ditosa pátria de Dante e de
Petrarca encontrava-se praticamente na mesma situação,
a de ser “uma expressão geográfica”
dominada por um império estrangeiro (o dos Habsburgos
austríacos, que controlavam parte das províncias
do norte), por uma dinastia estrangeira (a dos Bourbons espanhóis,
que reinavam sobre as do sul) e pelo papado (chefe de uma
instituição universal, a Igreja Católica,
que mantinha a podestá, o domínio,
sobre as províncias centrais, os ditos Estados Pontifícios).
Um patriotismo tribal
Além disso, na intrincada geografia político-cultural
itálica, predominavam o paroquialismo, o campanilismo,
a crença arraigada da população de que
o seu paese, o verdadeiro país, era o lugarejo onde
nasciam, no qual batizavam seus filhos, o do dialeto que falavam,
e de onde tiravam o sustento. Era-lhes indiferente o destino
dos vizinhos, o que facilitava a continuidade da hegemonia
estrangeira. Tal atitude levou o historiador napolitano Luigi
Blanch a dizer que o patriotismo dos italianos lembrava o
dos gregos antigos, parecendo-se mais com um “patriotismo
tribal” do que algo próximo à moderna
devoção à pátria.
Somente nos seus poros, aqui e ali, como no reino do Piemonte,
fronteiro à França, onde o Conde de Cavour suspirava
por uma Itália liberta, havia o desejo de alinhar o
país aos demais estados europeus, unificados há
muito tempo atrás.
Divisão política da Itália pré-1861
Estado |
Capital |
Siuação
política |
Reino do Piemonte |
Turim |
Reino do Piemonte (Victor Emanuel I, Conde de
Cavour como 1º ministro) |
Lombardia |
Milão |
Província do império Austro- húngaro
(Dinastia Habsburgo) |
República de Veneza |
Veneza |
Governo dos Doges, tutelada pelo império
Austro-húngaro |
Reino das Duas Sicílias |
Nápoles |
Reino dos Bourbons
(ramo espanhol) |
Estados Pontifícios
|
Roma |
Governo do Papado |
Grão-ducado da Toscana |
Florença |
Grão-duque d’Áustria |
Ducado de Parma |
Parma |
Duque de Parma |
Ducado de Módena |
Módena |
Duque de Módena |
|
Os três Giuseppi
Ocorreu que o tão esperado e valoroso príncipe,
o restaurador da integridade italiana perdida (descartando-se
a inadequada e anti-heróica figura do Conde de Cavour),
não tomou corpo num homem só. Em termos simbólicos,
pode-se dizer que o messias da Itália contemporânea
assumiu, isso sim, a forma de três Giuseppi (Josés):
Giuseppe Mazzini (1805-1872), Giuseppe Garibaldi (1807-1882)
e Giuseppe Verdi (1813-1901). Um pelas idéias, outro
pelas armas e o último por meio da música, dotaram
o povo peninsular da teoria, da espada e do hino, para que,
nas esteiras do Risorgimento, vissem concluído
o sonho da unificação nacional.
Foi a ação dos três, em campos distintos,
mas complementares, que inspirou os italianos a se recomporem,
depois de quatorze séculos de divisionismo, para virem
a formar um só corpo político.
O Risorgimento 3
A idéia de que a Itália deveria, de algum modo,
livrar-se do destino cativo que a infelicitava desde a época
de Maquiavel, começou a tomar vulto no final do século
18 e princípio do 19. Os ideais da Revolução
Francesa de 1789 – com sua proposta de um estado-nação
constituído pela soberania popular, oposta ao reino
dos príncipes – chegaram à Itália
junto com os bivaques do exército do general Napoleão
Bonaparte, que ocupou o norte do país em 1796 e 1797.
Mesmo com a derrota posterior do império francês,
em 1815, a semente da independência dos italianos havia
sido lançada.
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3 A popularização da palavra Risorgimento
decorreu da fundação do jornal “Il Risorgimento”,
em Turim, em 1847, tendo como um de seus redatores-chefe o
Conde de Cavour.
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A guerra desencadeada pelas choupanas contra os palácios
(como, metaforicamente, designou-se a luta do liberalismo
moderno, nacional e democrático, contra o conservadorismo
absolutista), mesmo com a frustração gerada
pelas expectativas maiores da Revolução Francesa,
estava longe de se encerrar. O risorgimento foi o
resultado disso.
Se o primeiro renascimento, o dos séculos 15 e 16,
emancipara o homem italiano da estética medieval, desembaraçando-o
da arte dos godos, o segundo renascimento (denominado
Risorgimento) foi um movimento político que ambicionava
livrá-lo do domínio estrangeiro (dos Habsburgos
da Áustria e dos Bourbons da Espanha). Se os tutores
do primeiro renascimento foram artistas como Leonardo da Vinci,
Miguel Ângelo e Rafael Sanzzio, os do segundo renascimento
foram homens como Mazzini, Garibaldi e Verdi.
A Itália cindida
A terra de Dante, ainda no século 19, estava cindida
não só em dois grandes campos histórico-culturais
distintos (o norte urbano-industrial, “europeizado”
e liberal-progressista, oposto ao sul agrário, camponês,
bizantino-sarraceno, e tradicionalista), mas também
em torno de qual estratégia política deveria
ser adotada a fim de alcançar a unificação.
O Conde de Cavour, o primeiro-ministro do Reino do Piemonte
(1852-1860), e mola propulsora da unificação,
acreditava que a integração nacional dependia
de uma complicada operação de engenharia diplomática-militar,
na qual mesclavam-se medidas visando a obter apoio internacional
para a unificação, com operações
militares de vulto (participação do Piemonte
na Guerra da Criméia ao lado das potências ocidentais
em 1855, seguida da guerra contra o Império Austro-húngaro,
em 1859-60).
O universo de Cavour era o das embaixadas e gabinetes palacianos,
em conluios secretos com generais, bispos e outros chefes
de estado, tendo ao seu lado a burguesia não muito
numerosa, nem muito empenhada da Itália da época.
Como regime ideal a ser adotado no futuro Reino da Itália,
o ardiloso ministro piemontês projetava aquele já
existente no seu próprio reino (uma estável
monarquia amparada num parlamento e no rei Vitório
Emanuel II).
O mazzinismo
Oposto ao projeto de unificação constituído
“de cima”, tramado pela elite liberal-conservadora
liderada por Cavour, havia um outro, “vindo de baixo”,
defendido pelo líder patriota, o professor Giuseppe
Mazzini. Este grande devoto da unificação era
um ex-integrante da sociedade dos carbonários, que,
a exemplo dos jacobinos franceses na época da Primeira
República da França (1792-1794), esperava que
a futura unificação resultasse de um grande
levante popular, se bem que estimulado e dirigido pela
intelligentsia italiana. O seu mundo, bem ao contrário
do de Cavour, era o dos conchavos clandestinos nas “catacumbas
republicanas”, dos pátios das universidades,
das redações dos jornais radicais, freqüentados
por escritores, advogados, estudantes e professores, que seguiam
Mazzini com devoção apostólica, certos
da ação definitiva de il popolo.
A Giovine Italia
Como fator catalisador, agregando a juventude e a intelligentsia
em seu projeto, ele fundara, em 1831, a Giovine Italia
(em Marselha, na França), que, além de substituir
os Carbonários (organização patriótica
secreta), teria a função de agitar o ambiente
peninsular para a causa unitarista.
O regime político de sua preferência, como não
poderia deixar de ser, era uma república democrática,
o que fez com que Mazzini fosse visto como um radical extremista.
Isso levou a outra facção dos unitaristas, a
liberal-conservadora de Cavour, a condená-lo à
morte. Observa-se que o mazzinismo não deve ser visto
apenas no seu contexto peninsular, porque ele, adepto à
causa da Europa, imaginava uma confederação
de estados europeus convertidos ao republicanismo popular,
do qual a Giovine Italia era apenas uma célula,
que, gradativamente, iria incorporar outros movimentos até
atingir a unidade final do Velho Mundo.
Oscilando entre ambos, entre Cavour (a quem detestava) e Mazzini
(de quem desconfiava), achava-se Garibaldi, o condottiero
da unificação, líder dos mille,
sempre metido em aventuras, misturado com seus companheiros
camisas-vermelhas em acampamentos militares, bem longe dos
gabinetes ou das redações, e cuja preferência
política pessoal, dada sua impaciência para com
os procedimentos parlamentares, era por uma ditadura popular
com matizes socialistas, que ele, afinal, terminou por não
levar a cabo.
Alternativas políticas dos unitaristas
Conde de Cavour |
Giuseppe Mazzini |
Giuseppe Garibaldi |
Monarquia |
República democrática. |
Ditadura popular. |
Constitucional-
parlamentar. |
|
|
Unificação obtida
por meio de acordos diplomáticos e guerras
localizadas. |
Unificação resultante
de um levante nacional-popular. |
Unificação consolidada
por ações militares espetaculares. |
|
O nascer de um patriota
De certa forma, vendo-se em retrospecto, dos citados ninguém
poderia ser mais patriota do que Giuseppe Verdi. Quando veio
ao mundo, em Roncole di Busseto, um lugarejo de nada no Ducado
de Parma, em 9 de outubro de 1813, o seu registro de nascimento
foi lavrado com um nome francês (Joseph Fortunin François)
porque a região ainda estava dominada pela administração
napoleônica. Nem um ano tinha quando sua frágil
existência esteve seriamente ameaçada, em 1814,
pois a soldadesca austro-russa, expulsando os franceses de
Parma, invadira a sua aldeia natal entregando-se ao massacre
da população civil. Luísa, sua mãe,
com o bebê Pepe no colo, conseguiu salvar-se, refugiando-se
no alto de uma torre.
Portanto, foi em meio aos registros de franceses em fuga,
seguida de tiros e espadas de tedescos e de russos, que Verdi,
filho de um modesto taberneiro local, veio ao mundo, assumindo,
logo que teve consciência, a tarefa de livrar a Itália
dos estrangeiros que tanto a desgraçavam, com as estranhas
armas do bel canto e da batuta de maestro.
A música e o nacionalismo
O século 19, mais do que qualquer outro,
viu o espírito nacionalista adonar-se da música,
especialmente naquelas regiões e culturas da Europa
que se encontravam oprimidas ou entregues à confusão.
Confluíram para essa politização da música,
as estéticas românticas que, desde os tempos
do filósofo alemão Herder (morto em 1803), mandava
os artistas procurarem inspiração nas raízes
da cultura popular (abandonando os cânones da cultura
clássica) e a ideologia liberal, que
só reconhecia como governo legítimo àquele
que viesse do apoio ou do consentimento do povo (e não
mais das dinastias).
Chopin na Polônia, Liszt na Hungria, Smetana na Boêmia,
Wagner na Alemanha e Verdi na Itália, foram as maiores
expressões musicais desse despertar dos sentimentos
populares que repudiavam os impérios multiculturais
e étnicos que governavam a Europa de então (os
dos Romanov, Habsburgos, Bourbons, e outros menores). Muitos
desses compositores e concertistas fizeram das óperas
autênticos comícios patrióticos, procurando,
com isso, agitar a opinião pública ou incitá-la
à rebelião.
Ópera e política
“A ópera séria é quase sempre
política por natureza e uma interpretação
política das mudanças estilísticas...”
Charles Rosen, “A Geração Romântica”,
São Paulo, 2000
Diga-se que, nessa politização da música
erudita, os compositores foram auxiliados pela significativa
alteração ocorrida na ópera. No transcorrer
do século 19, verificou-se a sua transformação,
de uma arte eminentemente aristocrática (que passou
todo o século 18 exaltando o absolutismo e a magnificência
da corte), numa forma popular, entregue a enaltecer a proeminência
do mundo burguês. A Revolução Liberal
de 1830, a que depôs o último dos Bourbons em
Paris, assinalou o momento histórico da ruptura do
gênero com as temáticas que antes eram tão
ao gosto da nobreza. Um dos casos mais extremados dessa simbiose,
entre ópera e a política da época, aconteceu
em Bruxelas, na estréia da “La multe de Portici”
(A muda de Portici) de Auber. Na noite de 25 de agosto
de 1830, ao ver no palco os napolitanos em franca rebeldia,
o público não deixou por menos: bastou ser encerrado
o acorde final para que, tomado de entusiasmo, o povo saísse
pelas ruas da capital, num insurgente tumulto, a reclamar
a independência da Bélgica.
A trombeta de Josué
Enquanto Richard Wagner, por exemplo, abeberou-se nas antigas
lendas germânicas da época pré-cristã,
encontrando nelas um denominador comum entendido e aceito
por todos os alemães, Verdi recorreu ao Antigo Testamento
(Nabucco), a feitos dos tempos das Cruzadas (Os Lombardos
na primeira cruzada), a heroínas nacionais de outros
países (Joana d’Árc) ou à literatura
de Shakespeare (Othelo, Mcbeth, Fallsfat) e de Victor Hugo
(Rigoletto). Ao dar vida musical a uma série de libretos,
procurou sempre acentuar uma conotação política
por meio dos excepcionais recursos artísticos de que
era dotado. Verdi, ainda que seguindo a trilha de Bellini,
mais do que nenhum outro compositor daquele século,
fez da ópera um instrumento de combate pela libertação
nacional, recheando suas composições com apelos
à luta direta (como no “Di quella Pira”,
no Il Trovatore).
Metaforicamente, poderia dizer-se que seus vigorosos e comoventes
corais, grandiosos, heróicos, foram as trombetas de
Josué com que ele esperava reconquistar a prometida
terra itálica das mãos profanas dos reis estrangeiros,
o que fez com que a censura saísse em seu encalço
por toda parte.
A ópera e o teatro grego
Deste modo, graças a Verdi e à agitação
do Risorgimento, as casas de espetáculo da
Itália inteira ativaram-se, como que substitutas das
assembléias populares, nas quais a burguesia e o povo,
os camarotes, o mezanino e a platéia, em uníssono,
confraternizavam no repúdio ao cativeiro. Os grandes
espetáculos musicais de efeito mágico que ele
orquestrou, reproduziam, de certa forma, o clima do antigo
teatro grego, o da tragédia ática, que, conforme
se sabe, também serviu de recurso para que a comunidade
dos cidadãos discutisse o seu futuro (A força
do destino,1862). Ele foi o principal responsável –
na esfera operística – por criar um clima propício
à difusão dos ideais de uma Itália unificada,
ganhando, dessa maneira, o coração do povo.
Despertou, por todo o país, explorando o conflito entre
a afetividade extremada e a harmonia e o autodomínio,
recorrendo à rudeza e à “vulgaridade e
insensatez”, o sentimento de italianità,
de italianidade, necessário a que cada paisano
superasse o sentimento paroquial em favor do nacional.
Va pensiero, hino da unificação
Depois de alguns fracassos iniciais como compositor,
acompanhados de situações de aviltada pobreza
(em dois meses perdeu a mulher e dois filhos pequenos), a
partir de 1839, o jovem ex-organista e maestro di cappella
da aldeia de Roncoli di Busseto conseguiu afirmar-se na regência
do famoso Teatro La Scala, de Milão, onde pulsava um
intenso sentimento pró-independência. A Lombardia,
província italiana do império austro-húngaro,
aspirava à liberdade. Eis que o sinal da futura insurreição
dos italianos foi dado por umas poucas estrofes inspiradas
no Velho Testamento, que narram os sofrimentos do povo judeu
durante o cativeiro da Babilônia (um curto, sentimental
e poético trecho que o povo consagrou como Va, pensiero!).
Verdi disse, bem depois do sucesso alcançado, que fora
por puro acaso que vira aqueles versos. Ao ter deixado cair
o libreto Nabuchodonosor, de Solera, seu autor,
sobre uma mesa, ele abrira-se justamente na passagem
do Coro dos Hebreus, cujo saudoso e belo lamento tocou tão
fundo os italianos (e em todos aqueles que, pelo mundo afora,
sentiam sua pátria espezinhada).
A “Marselhesa” dos italianos
Houve, desde o princípio, uma imediata associação
entre as desgraças dos judeus no Eufrates (escravizados
pelo rei Nabucodonossor da Babilônia), com as que a
maioria dos italianos sofria naquele momento. No dia da estréia
da ópera Nabucco, o 9 de março de 1842,
encerrado o último verso (IIIª Parte, cena IV),
no qual os prisioneiros pediam inspiração para
resistir com coragem as aflições, a Itália
sentiu que ali nascia uma versão muito própria,
totalmente sua, da “Marselhesa”.
Desde então, Va, pensiero consagrou-se como hino da
unificação italiana, enquanto o nome de Verdi
circulou entre os patriotas como um anagrama (Vittorio
Emmanuel Rè d’Italia). A meta unitária,
afinal, somente atingiu êxito dezenove anos depois,
em 1861, quando Vitório Emanuel II, do Piemonte, foi
proclamado rei da Itália (Roma somente integrou-se
a ele em 1871, depois da retirada das tropas francesas que
protegiam o papa).
Letra do Va, pensiero.
Ópera “Nabuco” (1842)
Parte Terza
Scena IV:
Le sponde dell’Eufrate. Ebrei incatenati e costretti
al lavoro.
Coro (Ebrei)
a, pensiero, sull’ali dorate,
Va, ti posa sui clivi, sui colli
Ove olezzano tepide e molli
L’aure dolci del suolo natal!
Del Giordano le rive saluta,
Di Sïon le torri atterrate...
Oh mia patria sì bella e perduta!
Oh membranza sì cara e fatal!
Arpa d’ôr dei fatidici vati
Perchè muta dal salice pendi?
Le memorie nel petto raccendi,
Ci favella del tempo che fu!
O simìle di Solima ai fati
Traggi un suono di crudo lamento,
O t’ispiri il Signore un concento
Che ne infonda al patire virtù,
che ne infonda al patire virtù,
che ne infonda al patire virtù, al patire virtù!
Nas margens do eufrates. Hebreus acorrentados e obrigados
a trabalhar.
Hebreus
Vai, pensamento, em asas douradas,
Vai, pousa nos declives, nas colinas,
Onde exalam mornas e suaves
As auras doces do solo natal!
Do Jordão saúda as margens,
De Sïon as torres destruídas...
Oh pátria minha, tão bela e perdida!
Oh lembrança tão querida e fatal!
Harpa de ouro dos fatídicos vaticínios
Porque muda do salgueiro pendes?
As memórias no peito reaivas,
Nos falas de um tempo que se foi!
Ou semelhante a Solima nos fatos,
Suscites um som de lamento cru,
Ou te inspire o Senhor uma melodia
Que infunda virtude no padecer.
Que infunda virtude no padecer
Que infunda virtude no padecer, ao padecer virtude!
Verdi è morto!
No final de 1900, Verdi, com 87 anos, queixando-se
da solidão e das amarguras da velhice, deixou a sua
propriedade de Santa Agnes no interior e hospedou-se em Milão.
Provavelmente, intuindo a aproximação de seus
dias finais, quis estar perto do teatro Scala, onde, mais
de 60 anos antes, iniciara sua espetacular carreira. A polícia
providenciou para que o trânsito de charretes e carroças
não o perturbasse no seu descanso no Grand Hotêl
et de Milano, no qual ele veio a falecer depois de cinco
dias de coma, em 27 de janeiro de 1901. Morte que provocou
uma comoção nacional: Verdi è morto!
Verdi è morto! O grito ecoou por toda a Itália,
deixando em todos a sensação de orfandade, pois
o pai da unificação já não estava
mais entre eles. A consagração maior deu-se
em seguida. A passagem do féretro, levando o corpo
de Verdi pelas ruas de Milão, atraiu uma multidão
fantástica (estimou-se em 200 mil pessoas). Na sua
marcha solene para a Casa di Reposo, onde ficaria
sepultado com sua esposa Giuseppina Streponi, o povo inteiro
em lágrimas pôs-se a cantar Va, pensiero,
sull’ali dorate.... Vai, pensamento, nas asas douradas...
As obras de Verdi
Primeiras obras
Oberto, 1839 (Milan)
Un Giorno di Regno, 1840 (Milan)
Nabucco, 1842 (Milan)
I Lombardi alla prima Crociata, 1843 (Milan)
Ernani, 1844 (Venice)
I Due Foscari, 1844 (Rome)
Giovanna d’Arco, 1845 (Milan)
Alzira, 1845 (Naples)
Attila, 1846 (Venice)
Macbeth I, 1847 (Florence)
I Masnadieri, 1847 (London)
Jérusalem (I Lombardi revised), 1847 (Paris)
Il Corsaro, 1848 (Trieste)
La Battaglia di Legnano, 1849 (Rome)
Luisa Miller, 1849 (Naples)
Stiffelio, 1850 (Trieste)
Rigoletto, 1850 (Venice)
Il Trovatore, 1853 (Rome)
La Traviata, 1853 (Venice)
Obras intermediárias
Les Vepres Siciliennes, 1855 (Paris)
Simon Boccanegra I, 1857 (Venice)
Aroldo (Stiffelio revised), 1857 (Rimini)
Un Ballo in Maschera, 1859 (Rome)
La Forza del Destino I, 1862 (St. Petersburg)
Macbeth II, 1865 (Paris)
Don Carlos, 1867 (Paris)
La Forza del Destino II, 1869 (Milan)
Aida, 1871 (Cairo)
Simon Boccanegra II, 1881 (Milan)
Don Carlo II, 1884 (Milan)
Obras tardias
Otello, 1887 (Milan)
Falstaff, 1893 (Milan)
Dois herdeiros de Verdi
Dois outros grandes artistas italianos no nosso
século foram seus herdeiros: Federico Fellini e Bernardo
Bertolucci (parmesão como Verdi). Cada um ao seu modo,
são os sucessores de Verdi, ainda que na cinematografia,
arte que nascia no mesmo momento em que o grande maestro faleceu.
Expressaram ambos, nos seus inúmeros filmes, o sentido
plástico de magnificência e sentimentalismo do
velho Verdi. Essa ligação estética e
emocional deles com o compositor é a razão de
Fellini encenar o coro do Va, pensiero num período
apreemiante de pátria em perigo do La Nave Va (A nave
vai), e de Bertolucci iniciar o seu monumental Novecento
(1900) com a cena do sofrido lamento: Verdi è morto!
Verdi è morto! Em verdade, ele não morreu.
Verdi perpetuou-se para sempre nas vozes do seu povo e de
boa parte da memória do mundo.
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