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Mazzini, Garibaldi, Verdi
e a Unificação Italiana


Voltaire Schilling
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Diretor do Memorial do Rio Grande do Sul


Introdução

A unificação nacional italiana, alcançada depois de uma luta de quase trinta anos (1831-1861), sonhada por tantos homens e mulheres ilustres do passado, foi um movimento político e cultural sui generis na medida em que contou com a participação das mais diversas personalidades daquela época, entre elas, um intelectual, um extraordinário homem de ação e um grande compositor: os três Giuseppi: Mazzini, Garibaldi e Verdi. Esse episódio da luta pela unificação, que muitos consideram como as mais belas páginas da Itália Moderna, foi chamado de Il Risorgimento, o Renascimento ou o Ressurgimento, ocasião em que o antigo espírito nacional dos povos peninsulares, que formavam a Itália, em uníssono, voltou a reclamar por sua independência e liberdade.

Giuseppe Mazzini, o profeta da Itália

Nascido em Gênova, em 22 de maio de 1805, em meio a uma família estreitamente vinculada aos carbonários, os jacobinos italianos do início do século 19, Giuseppe Mazzini, ao longo da sua vida de patriota, empunhou a bandeira da unificação da Itália, país que então era apenas uma expressão geográfica, religiosa e cultural, mas não um estado poderoso como a França ou a Espanha. Em 1831, no exílio em Marselha, ele fundou o movimento Giovine Italia, a Jovem Itália, com a intenção de mobilizar a opinião dos seus concidadãos para a nobre causa de constituir uma nação “Una, Independente, Libera, Repubblicana”. Compôs, com os outros dois Giuseppi, seus contemporâneos, Verdi e Garibaldi, o músico e o revolucionário, a trindade que encarnou a paixão por uma Itália livre, enfim, do controle do Imperador estrangeiro e independente do Papa católico.

A primeira unidade: a romana

Em tempos remotos, alguns séculos antes de Cristo, a península italiana foi unificada pela primeira vez por Roma, depois de uma série de batalhas travadas pelos filhos da “loba” contra seus vizinhos (sabinos, volscos, etruscos, samnitas, celtas, gregos etc...). Estima-se que esse processo de integração tenha encerrado ao redor do ano 262 a.C., ao final das guerras movidas contra as cidades gregas da Itália meridional, quando o Senado romano pôde proclamar-se “Senhor da bota”.

O nome “Itália”, que até então somente servia para designar as terras do sul, difundiu-se por toda a península. Junto com a vitória, o idioma do Lácio, o verso de Virgílio e Ovídio, a fala latina, tornaram-se a língua dominante por toda parte, reforçando ainda mais a sensação de integração entre os peninsulares. Esse fator de coesão interna foi fundamental para explicar o sucesso dos romanos na guerra contra Cartago, quando a península viu-se invadida por Aníbal Barca, em 216 a.C., durante a Segunda Guerra Púnica, ocasião em que o general cartaginês, com todo o seu gênio militar, quase nenhum auxílio obteve dos vizinhos de Roma para alcançar submetê-la.

A soberania de Roma estendeu-se, então, do vale do Rio Pó, ao norte, até Brundisium, bem ao sul, tendo enquadrado todos os povos itálicos, ou promovendo alguns deles à posição de aliati, situação reforçada ao final da República, quando boa parte dos peninsulares foi promovida à cidadania romana. Tal iniciativa foi tomada, por primeiro, ainda que de forma modesta, no tempo da ditadura de Júlio César (50-44 a.C.), reafirmada e ampliada pela Constituo Antonina (ou Édito do imperador Caracala), de 212, que fizera de todos os habitantes do império cidadãos com iguais direitos aos dos romanos.

Durante os sete séculos seguintes – do III até o V a.C. – graças à integração cultural, jurídica e política capitaneada por Roma, e reforçada pelo Edictum Perpetuum do imperador Adriano, de 131, a península reconheceu basicamente a autoridade legal dos Césares sobre todo o território itálico, até que as invasões bárbaras que assolaram Roma, entre 410 e 476, determinaram-lhe o fim da unidade.

O espelho estraçalhado

O desaparecimento do Império Romano provocou uma involução política na península. Todo o território itálico, a partir do século V, fragmentou-se como se fora um espelho caído, estraçalhado. Cada região, por minúscula que fosse, para desespero de tantos patriotas do futuro, tornou-se então um paese, um país, indiferente ou hostil ao que se passava com seus vizinhos. A península inteira voltou, assim, aos tempos pré-romanos, reforçando ainda mais aquilo que chamaram “a mentalidade do campanário”, a não ser senão “uma expressão geográfica”, como a definiu o príncipe Metternich.

Nem mesmo com as agressões externas comandadas pelos sarracenos, normandos ou germanos, durante a Idade Média, nem mais tarde, no Renascimento, ocasião em que, desde 1494, na época da geração de Maquiavel, viu-se palco infeliz de disputas entre os poderosos reis da França e da Espanha, a Itália foi capaz de fazer uma frente nacional para expulsar os estrangeiros. Ao contrário, cada célula que compunha aquele corpo político pulverizado, cada comuna ou cidade, cada condado ou principado, procurava tirar proveito da presença dos estranhos para usá-los contra seus rivais mais próximos. Milão opunha-se à Veneza; esta, à Gênova. Florença estranhava-se com Pisa. Chegou-se, por várias vezes, ao extremo de algum tirano ou de uma família patrícia apoiar-se num invasor para fazê-lo agir contra seus próprios concidadãos, como, certa vez, foi o caso dos Médicis, de Florença.

Palco de eternas rivalidades

Tal instituição da cizânia colaborou em muito para fazer da península a terra mais invadida da Europa, atraindo, para dentro de si, as forças da cobiça e da rapinagem internacional, que promoveram o vale do Rio Pó como a região preferencial para que batalhas memoráveis fossem lá travadas. Nada mais fácil, aos invasores, do que penetrarem em um território dividido entre 60 cidades que se intrigavam sem parar umas contra as outras.

Agravou-se, ainda mais, a situação de fraqueza interna pelo fato de haver ainda, ao longo do Medievo, duas forças cosmopolitas tentando imperar sobre a Itália: o Sacro Império Romano-germano (fundado por Otão, o Grande, em 962) e a Igreja Católica (reconhecida como oficial por Teodósio, em 390), pois tanto o imperador como o papa da Igreja Universal rivalizavam-se na liderança da república da cristandade. A coroa e a mitra, o poder secular e o poder espiritual, nesse momento em acordo, a maior parte em desacordo, travaram uma longa guerra, nem sempre diplomática, pela hegemonia da Itália e sobre o restante da cristandade européia.

A rivalidade foi tão intensa que se traduziu na formação dos dois grandes partidos dos tempos medievais: os guelfos (a favor do Papa) e os gibelinos (seguidores do Imperador). O Papado, na contramão da pregação de Cristo, se viu constrangido a recorrer às armas para defender o trono de São Pedro de usurpadores e aventureiros impostos de fora pelo imperador ou qualquer outro rei. Portanto, durante séculos a fio, a Itália viu-se assim fragmentada, atomizada, não somente pelos pequenos corpos políticos – a rivalidade entre as cidades-estado –, como também entre os grandes corpos institucionais daquela época, o Império e o Papado.

O desespero da inteligência italiana

Evidentemente, tal situação causava desespero e desânimo entre os pensadores, artistas e intelectuais da Itália daqueles tempos. Dante, exilado e desconsolado com sua pátria natal, implorou, por carta, que o imperador alemão Henrique IV, que marchava em direção à Itália, em 1314, estendesse suas operações até a Toscana, com o objetivo de restabelecer o poder dos seus partidários. Chegou até a redigir um ensaio político, “Da Monarquia”, escrito entre 1310-14, propondo o acerto entre o Império e o Papado para que, sob a hegemonia do poder secular, a Itália voltasse a gozar de paz e tranqüilidade com um comando forte, ainda que fosse de um imperador estrangeiro. Tudo inútil.

Tempos depois, em 1347, foi a vez de Petrarca aproximar-se do tribuno romano Cola di Rienzo, na expectativa de que seu plano, de formação de uma confederação de tiranos, viesse a dar uma forma qualquer de unidade à península. Petrarca, imbuído pelo patriotismo, propôs-se, num primeiro momento, a celebrar a grandeza romana passada, como uma emulação para o presente infeliz, escolhendo para personagem símbolo de um possível renascer italiano o general romano Cipião, o africano (poema “África”), desaparecido no século II a.C., o homem que afastara o perigo de Roma cair em mãos inimigas e que derrubara Anibal na batalha de Zama, em 202 a.C. Num outro, Petrarca, por igual, enalteceu a pátria na “Canzone all´Italia”, de 1346.

A mesma preocupação moveu Maquiavel, o vigoroso e tido por amoral escritor florentino, na sua expectativa exposta no derradeiro capítulo do Il Principe (O Príncipe, de 1513), de que surgisse na Itália, invadida e humilhada da sua época, um príncipe resoluto, um líder corajoso e varonil que a unisse para resgatá-la dos “barbari”, como ele denominava os reis vindos de fora que faziam da sua pátria um palco de destruições, rapinagens, saques e atrocidades sem fim. Segundo suas próprias palavras:

“Não se deve, pois, deixar passar essa ocasião, a fim de que a Itália conheça, depois de tanto tempo, um seu redentor. Nem posso exprimir com que amor ele seria recebido em todas aquelas províncias que têm sofrido por essas invasões estrangeiras, com que sede de vingança, com que obstinada fé, com que piedade e com que lágrimas... Que italiano lhe negaria um favor? A todos repugna esse bárbaro domínio.”


Maquiavel encerra o célebre texto com a chave de ouro de um patriótico verso de Petrarca, que dizia:

“Virtude contra furor/Tomará armas; e faça o combater curto/ Que o antigo valor/ Nos itálicos corações inda não é morto”.

Todos eles, esses impressionantes nomes das letras itálicas, frustraram-se porque a unificação, o tão esperado abraço fraterno entre os italianos, clamado em prosa e verso, somente terminou por ocorrer séculos depois de seu desaparecimento. O melancólico Giacomo Leopardi, ainda em 1818 (no canto All´ Itália), em tom de desconsolo, dizia ver “os muros, o arco, a coluna, a estátua e o ermo/as torres dos antepassados” – os visíveis símbolos da magnitude da Roma antiga –, “mas não via mais a glória nem os louros e os ferros em que tinham sido forjados os nossos antigos antepassados”.

Os tempos se passaram e a Itália que, segundo Francesco Fiorentino, filósofo falecido em 1884, esboçara o seu primeiro Risorgimento no século 15, pelas artes (Botticelli, Leonardo, Alberdi, Miguel Ângelo etc.) e, depois, no século 16, pela ciência (Bruno, Telésio e Galileu), estava ainda bem distante de chegar à unificação, visto que este Risorgimento dei Umanismo não conseguiu ser alcançado pela política.1

A Revolução Francesa e a idéia nacional

Precisou a Itália esperar pelos efeitos da Revolução Francesa de 1789, para que seus anseios de liberdade e unificação se vissem renascidos. Adormecido por séculos, sonho de poetas, o legítimo sentimento de voltar a formar uma pátria foi reavivado pelos feitos espetaculares de um jovem general republicano de apenas 27 anos, nascido na Córsega, de família italiana, Napoleone Buonaparte (que, mais tarde, ao estudar em Paris, afrancesou para Napoleon Bonaparte), que se tornara o comandante-em-chefe dos exércitos franceses do fronte da Itália.

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1 Conforme Prota, o Risorgimento possuía objetivo altamente civil, político e educativo: pôr a cultura a serviço da independência e liberdade da Itália, formar nos italianos uma consciência nacional e política, dar-lhes um sentido das virtudes civis. Valendo-se de um diálogo profundo com Hegel, Spaventa, Croce e Gentile, notabilizaram-se pelas reflexões elaboradas sobre a temática do espírito, que constitui o eixo peculiar do pensamento filosófico italiano.

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Derrotando os austríacos em combates memoráveis no Piemonte e na Lombardia, durante sua campanha de 1796-1797, tomando Milão, onde mandou hastear a bandeira republicana tricolor (verde-branca-vermelha), Napoleão incendiou a imaginação italiana como ninguém mais o fizera até então.

“Guerreiro invencível” – disse dele o poeta Ugo Foscolo, na sua ode a Napoleão –, “Venceu e a Itália gritou sua liberdade”. Foscolo viu no general francês o punhal de Bruto erguendo-se contra a tirania de César (o imperador austríaco).

No ano de 1797, Bonaparte fundou, entre tantas outras, a República Cisalpina (formada pela Lombardia e partes dos estados pontifícios). Rebatizou-a, mais tarde, como a República Italiana, situação que durou até 1804. Essa ação fez com que a região se tornasse o futuro embrião do Estado Nacional Italiano.

Ainda que, bem depois, em 1815, Napoleão fosse derrotado, o sincero desejo de reconquistar a autonomia, a semente do nacionalismo havia sido deixada encravada fundo na alma de muitos italianos, particularmente dos que habitavam as regiões do Norte: os da Lombardia e do Veneto, devido à situação de ocupação que viviam, sendo súditos do monarca de Viena (o Sacro Império Romano-germano, cujo soberano era o imperador austríaco, havia assegurado “seus direitos” sobre boa parte do norte da Itália desde o Tratado de Rastatt, de 1714).

Por outro lado, o culto à idéia de uma comunidade unida em torno de uma mesma língua, religião e cultura, cujo arremate final conduziria à formação de um inquebrantável Estado-nacional, já começara a ser celebrada pelos intelectuais românticos, ainda no século 18. Foi sobre essa base que se sedimentou o princípio político dos revolucionários de 1789, preocupados em constituir uma nação unida e soberana que espelhasse a vontade geral popular, substituindo as antigas divisões e hierarquias feudais que ainda pairavam na geográfica política da Europa. O mito do estado étnico, como observou Ernst Cassirer, foi a principal contribuição do romantismo político, e sua manifestação mais radical deu-se durante a Revolução de 1848. Não sem motivos chamada de “a Primavera dos Povos”, já que se tornou a sementeira da formação futura dos estados da Polônia, Tchecoslováquia, Hungria, e, claro, da Itália.

Mazzini agitador e revolucionário

Ao longo de sua vida como agitador e insuflador de rebeliões patrióticas, poucas vezes Giuseppe Mazzini pôs os pés na Itália. Tanto assim que seus seguidores o denominaram de L´Esule, o Exilado. Desde o momento em que foi condenou à morte, em ausência, quando souberam que instigara um levante militar na Sardenha, em 1833, ele tomou a precaução de viver bem longe da pátria, de preferência em Londres, onde se aproximou muito de Thomas Carlyle e dos socialistas lá refugiados. A essência do mazzinismo e do Partito d´Azione, o Partido da Ação, liderado por ele, era provocar uma insurreição popular que levasse rapidamente à queda do regime dos reis e dos padres e que se implantasse, na Itália, uma república soberana. Um dos seus lemas era o dito carbonário “Anima di fuoco in tempra di ferro” (Alma de fogo temperada no ferro).

Ainda que incansável, nunca se preocupou muito com a organização dos complôs que planejava ou estimulava através dos seus escritos. Parecia acreditar na combustão popular espontânea, desde que ativada por um pequeno e seleto grupo de homens decididos. De certo modo, ainda que bem mais cauteloso, ele foi a versão italiana do blanquismo (do revolucionário Louis Blanqui, que sempre que podia, mal saído de uma prisão, se alçava contra os governos da França).

Talvez fosse isso, sua aposta na improvisação e na intuição revolucionária, que o levou a polemizar, em diversas ocasiões, com Marx e Engels, no seu exílio em Londres, pois estes, como bons alemães, acreditavam na organização e na demorada preparação antes de se lançarem nas tarefas da insurreição. Viu-se ele como um profeta crente nas virtudes do voluntarismo e no efeito místico da pátria. Todavia, o desentendimento maior entre Mazzini e Marx deu-se por ocasião da fundação da 1ª Internacional Socialista (1864-1871), pois o alemão resolveu “refazer” o Estatuto Primeiro, dando-lhe um cunho “classista”, o que desgastou a posição de Mazzini a favor da integração da classe média no movimento. Em represália, Engels exortou os trabalhadores italianos a se afastarem do mazzinismo, do que nada de efetivo resultou.

Com os episódios dramáticos que se seguiram à Revolução de 1848, Mazzini pôde voltar à Itália para cair bem em meio ao tumulto provocado pela fuga do Papa Pio IX e a proclamação da República Romana, em 1849. Participou na elaboração da Constituição e foi eleito para o Parlamento Nacional como representante de Turim.

Entrementes, o papa apelou aos regimes católicos da Europa para que interviessem militarmente para restaurá-lo no trono em Roma. Um exército francês, sob comando do general Oudinot, desembarcando em Óstia, cercou então a capital, forçando Garibaldi a organizar uma heróica, mas inútil resistência. Desmantelada a república, Mazzini viu-se obrigado a retornar a Londres para mais uma longa temporada de exílio. As duas outras tentativas de acertar um golpe republicano, visando a reverter a perda de Roma, uma em Mántua (1852) e outra em Milão (1853), fracassaram.

Todavia, o derradeiro esforço para obter sucesso pela via revolucionária acabou numa tragédia de grandes proporções. Em 2 de julho de 1857, o mazzinista Carlo Pisacane, que, vindo de Gênova e passando por Ponza, desembarcara no Mezzogiorno, na costa napolitana, com 300 seguidores, para surpreender as autoridades bourbônicas com uma ação revolucionária, foi cercado e trucidado pelos camponeses da região, num lugarejo chamado Sanza, suspeitando que eles fossem bandidos “Eran trecento eran giovani e forti e sono morti...”, disse deles num poema da época. Dele, então, escreveram dois dos opositores do Profeta: Il profeta ha perduto l´ultima scintilla Del suo fatale prestigio. A Mazzini politico si può cantare il Requiem aeternam” (O profeta perdeu sua última centelha do seu fatal prestígio. Ao Mazzini político pode-se cantar o Requiem aeternam).

Cavour supera Mazzini

Com o desastre que acometeu Pisacane, encerraram-se as possibilidades de os mazzinistas servirem como a vanguarda do processo nacional italiano. O insucesso da política de Mazzini e o exílio forçado de Garibaldi em Nova York, em 1850, abriram as portas para a política do Conde de Cavour, primeiro-ministro do Piemonte e funcionário da Casa Sabóia. Por meio do Partido Moderado, Cavour liderou o processo seguinte da unificação nacional. Cavour, ao contrário de Mazzini, tinha um estado por detrás e não grupos desorganizados de patriotas.

Aos republicanos e democratas italianos do Partido da Ação só restaram duas alternativas: colocar-se a reboque da estratégia de Cavour (uma complicada articulação de uma frente interclassista com apoio de potências estrangeiras antiaustríacas, alternando batalhas com negociação) ou, simplesmente, isolar-se de tudo.

A tão estimada esperança dell´ Ideale, da Causa, depositada numa rebelião popular, tão ao gosto do socialismo romântico, um só golpe que abalasse o rei e o papa, teve que ceder à prioridade da unificação acima de tudo, feita por quem fosse, pois, para ele, Roma era o motor da história italiana vocacionada a ambições universais, visto que a Itália seria a herdeira direta da grandeza dos tempos dos Césares. Porém, tal ressurreição da Itália não se faria através de um império opressor, mas colocando-a “unida, republicana e libertada”, como um centro exemplar, um facho luminoso ao redor do qual os demais povos da Europa, todos convertidos ao ideal republicano, deveriam formar uma confederação de estados livres.

Mazzini nunca foi um nacionalista de horizontes estreitos, já que enxergara sempre o movimento italiano no quadro geral da emancipação daqueles ainda submetidos por impérios estrangeiros.

Com a adesão de Garibaldi – que até então era o mais audaz condottiero dos republicanos – à causa do Vitório Emanuel II e de Cavour, em 1859, a sorte fora lançada. Em nome da primazia da unificação sobre a importância do regime político que a Itália adotaria no futuro, o Partido da Ação concordou em acatar os Moderados.

Solidão e glória de Mazzini

Quando finalmente foi eleito para o Parlamento nacional, criado em seguida à vitória do Piemonte na 2ª Guerra de Independência Italiana (1859), Mazzini, em fidelidade aos seus princípios republicanos, renunciou à deputação por se negar a ter que prestar juramento de fidelidade ao monarca da Itália (Vitório Emanuel II do Piemonte tornara-se o Vitório Emanuel I da Itália). Os herdeiros do mazzinismo tiveram que esperar por mais de 80 anos para que a Itália se convertesse numa república, fato que somente ocorreu ao término da Segunda Guerra Mundial, em 1946. Mazzini – o Grande Conspirador – que morreu solitário e frustrado em Pisa, em 10 de março de 1872, hoje goza do respeito dos italianos e é tido como o verdadeiro pai da pátria. Quando ocorreu a celebração do centenário da curtíssima República Romana, a de 1849, ergueram-lhe um estupendo monumento em Roma.

Garibaldi, o homem-vulcão

Giuseppe Garibaldi, “o herói de dois mundos”, como mundialmente consagrou-se, foi um dos mais notáveis líderes de homens do século 19, e o mais famoso italiano que se conhece na história contemporânea. Dotado de uma coragem pessoal assombrosa, nada lhe parecia ser impossível. Fugido da Europa em 1836, no Brasil, lutou na Revolução Farroupilha (1837-1840) e, no Uruguai, comandou a Legião Italiana durante o longo cerco de Montevidéu (1845-1851). Retornando a sua velha pátria, ainda desunida, com seus companheiros camisas vermelhas, lutou por sua unificação, alcançada somente em 1861.

Escapando da Europa

“Na América eu servi – e servi sinceramente – à causa dos povos. Assim fui adversário do Absolutismo.”
Giuseppe Garibaldi – Memórias, 1859.

Uma epidemia de cólera em Marselha, na França, e a existência de uma sentença de morte do monarca do Piemonte pesando sobre ele, fez com que Giuseppe Garibaldi resolvesse tomar outros ares. Bom marinheiro, militante carbonário, admirador de Mazzini e do movimento Jovem Itália, partindo de Nantes, a bordo do Nautonier, não demorou em desembarcar no Rio de Janeiro, em 1836. De imediato, deixou-se subjugar, como Saint-Hilaire antes dele, pelo impressionante espetáculo da baía da Guanabara, maldizendo não ser poeta. Encontrou por lá uma ativa colônia de exilados italianos, uma das tantas que existiam espalhadas pelas cidades da América, depois do insucesso do levante nacionalista contra o domínio austríaco e das monarquias ultraconservadoras da Itália. No meio deles, exilados, estava Luiggi Rossetti, um carbonário que fazia as vezes de jornalista e corsário, combinação comum naqueles tempos. Foi Rossetti quem levou Garibaldi a fazer uma visita a Tito Livio Zambeccari, um preso ilustre, homem de sete instrumentos, ajudante de Bento Gonçalves, ambos encarcerados na Fortaleza de Santa Cruz no Rio de Janeiro, após a derrota dos farrapos na ilha do Fanfa, no Rio Jacuí, no Rio Grande do Sul. Além das afinidades itálicas, cabe ressaltar que os carbonários eram bastante próximos dos maçons, doutrina seguida por Zambeccari, formando um mundo de contatos subterrâneos, devido às suas inúmeras lojas espalhadas pelos quatro cantos, muito úteis nas conspirações anti-absolutistas.

Corsário farroupilha

Decidiram os dois, com o consentimento de Zambeccari, arrumar um barco e, a partir de janeiro de 1837, lançar-se ao mar como corsários. O que conseguiram foi uma sumaca de dois mastros, que batizaram de “Mazzini”, dedicada à interceptação dos que navegavam sob a bandeira do Império Austríaco, inimigo dos italianos irredentos. Caçados pela marinha imperial, navegaram para o Rio da Prata em busca de abrigo. Foi dali, partindo das vizinhanças de Montevidéu, que a dupla Rossetti e Garibaldi, cavalgando em vinte corcéis, alcançou Piratini, sede da revolução das lanças. Sua adesão aos gaúchos insurretos contra o regime dos Braganças parecia-lhes a continuidade, em outro país, em outro continente, da luta que moviam ao absolutismo dos Habsburgos na Europa.

Na ausência de Bento Gonçalves, de quem depois ficariam amigos, encantaram-se com a figura de Domingos José de Almeida, o cérebro que organizava a República Sul-rio-grandense. Nenhum dos dois, porém, perdeu tempo. Trazendo alguns operários da Banda Oriental, eles trataram de construir, num estaleiro, nas beiras da Lagoa dos Patos, uma minúscula flotilha para poder, pelo menos, atazanar os Caramurus pró-Império, comandados por Greenfell, cuja superioridade nas águas era abrumadora. Os farroupilhas, gente do campo, da estância e do laço, viam o mar com estranheza. Coube, assim, a Garibaldi, guerreiro anfíbio, bom na terra, melhor na água, assumir o papel de almirante da revolução.

Garibaldi, almirante da revolução

Sua missão era abrir um fronte, bem mais ao norte, nas águas de Santa Catarina, para apoiar a causa republicana em outras paragens. Deu-se, então, o grande feito de transportar os lanchões, por terra, da área da lagoa até o mar, de Capivari à Lagoa Tomás José, próximo a Tramandaí. Atreladas aos duzentos bois que o general Canabarro requisitara, as enormes carretas de dois eixos e doze rodas, atravessando os baixios alagados assolados pelos ventos da região, por seis dias, num trajeto de 104 quilômetros, arrastaram o Seival e o Farroupilha até o oceano. Dali em diante, no mar, onde uma boa parte dos marinheiros afogou-se num infeliz naufrágio, Garibaldi atingiu Laguna, para integrar-se à República Juliana do general Canabarro (proclamada em julho de 1839), afundar navios do Império, e encontrar o amor da bravíssima Anita, no Morro da Barra, mulher que largou tudo a fim de seguir aquele corsário doido.

Esmorecida a revolução no pampa, o infatigável condottiero emigrou de volta ao Uruguai, continuando lá, na chamada Grande Guerra, a lutar contra Oribes, um aliado da tirania do portenho Juan Manuel Rosas. Arregimentando uns 400 patrícios seus, organizou a Legião Itália, uma tropa de choque uniformizada com uma camicia rossa (a cor vermelha era usada nas charqueadas para atenuar a má impressão visual do sangue dos animais). Quando ele retornou a Itália, na esteira dos acontecimentos revolucionários de 1848, já fixara o seu uniforme: botas, poncho e a camisa vermelha, o símbolo mor das brigadas garibaldinas, os Mille, os heróis do Risorgimento na luta pela emancipação definitiva da península.

O guerreiro aposentado

Quando a nação italiana conquistou sua unidade, em 1861, sentindo-se com a missão cumprida, como se fora um vulcão cuja lavra secara depois de incontáveis erupções, Garibaldi retirou-se em direção à pequena ilha de Caprera. Lá faleceu, em 1882, sete anos antes de a república ser afinal proclamada no Brasil. Nunca, todavia, Garibaldi esqueceu das aventuras passa das em meio às temeridades machas da cavalaria rio-grandense, “a melhor do mundo”, como ele testemunhou, a brava gente que, certa vez, lamentou não dispor na Itália – de “uns 300 deles” – a fim de pôr mais facilmente os opressores dos povos a correr.

Garibaldi e a Legião Italiana

No ano de 1843, formou-se em Montevidéu, por empenho do condottiero Giuseppe Garibaldi que lá se encontrava exilado, um singular corpo revolucionário: a Legião Italiana. Tratava-se de uma pequena força de 400 homens, todos eles voluntários, que, fugidos da Itália, haviam procurado abrigo no Rio da Prata. Cinco anos depois, uma parte deles, liderados por Garibaldi, embarcou de volta para a Itália, com o objetivo de participar da revolução de 1848, a “Primavera dos Povos”. Poucos grêmios militares tiveram destinos tão estranhos, aventureiros e gloriosos como os que fizeram parte da Legião Italiana.

Garibaldi em Montevidéu

“L’insofferenza delle popolazioni italiane al dominio straniero, che fosse al colmo, già era manifesto in tutte le corrispondenze che giungevano nel Plata. L’idea del ritorno in patria e la speranza di poter offrire il nostro braccio alla sua redenzione da molto tempo facevan palpitare l’anime nostre”.(Que o sofrimento do povo itálico submetido ao domínio estrangeiro tivesse chegado ao seu limite, já se encontrava manifesto em toda a correspondência que chegava ao Prata. A idéia de um retorno à pátria e a esperança de poder oferecer o nosso braço a sua redenção, há muito tempo fazia palpitar a nossa alma.)
Giuseppe Garibaldi – Memórias


Licenciando-se da Revolução Farroupilha em abril de 1841, ocasião em que Bento Gonçalves cedeu-lhe, em agradecimento pelos serviços prestados, uma partilha de 900 bois, Giuseppe Garibaldi e sua mulher, Anita, puseram-se, a duras penas, a tropear a manada por 650 quilômetros a caminho de Montevidéu. O casal, inexperiente no ofício, após 50 dias de cavalgada, chegou à capital uruguaia com somente 300 couros. Em pouco tempo estavam reduzidos à pobreza, morando nos limites da modéstia. Garibaldi, já precedido por sua fama de homem legendário, não tardou a enturmar-se com a numerosa colônia de exilados italianos que por lá se encontravam e o tratavam como herói.

Provisoriamente, aceitou uma colocação de professor, mas teve também que se atarefar na venda de bugigangas para, batendo de casa em casa, reforçar o magro orçamento doméstico. Paradoxalmente, sua situação alterou-se quando a cidade de Montevidéu foi posta a sítio pela marinha argentina. Parecia que as guerras saíam ao encalço de Garibaldi onde ele estivesse. A armada inimiga, comandada pelo Almirante Brown, atravessando o Rio da Prata, viera em auxílio do caudilho Manuel Oribe, chefe do partido blanco e inimigo do presidente Fructuoso Rivera, cacique dos colorados (dois partidos que viviam envolvidos às turras em guerras civis).

Era o início do período que, na história uruguaia, ficou conhecido como a Grande Guerra (1843-1851), o longo conflito entre blancos e colorados pelo controle político da República Oriental do Uruguai, que recém se tornara independente, em 1831. Uma guerra que opôs os dois caudilhos, Oribe e Rivera, ensangüentando o pampa uruguaio com a morte dos patriotas. Estando a capital ameaçada, pois a cavalaria e a infantaria de Oribe mantinham-na cercada por um cinturão de acampamentos e bivaques, não demorou para que o governo uruguaio, sabedor dos feitos de Garibaldi na travessia do Capivari e na tomada de Laguna, lhe oferecesse um elevado posto na marinha nacional (praticamente inexistente).

Líder de homens, agradecido pela acolhida dos orientais, o famoso guerrilheiro não podia se negar a colocar-se ao lado do governo que o prestigiara e que estava passando por maus bocados. Em pouco tempo, arregimentou seus conterrâneos e formou a Legião Italiana, que se tornaria lendária na história do Prata e da própria Itália 2. Para uniformizar a sua gente, ele recorreu a um lote de camisas vermelhas (camicia rossa) que seria enviado às charqueadas argentinas e que terminaria parando nas docas do porto de Montevidéu. Desde então, aquela cor imortalizou os combatentes garibaldinos.

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2 A Legião Italiana, grupo de homens unidos ao redor de um líder, lutando por uma causa em comum, fez escola. Reforçou a idéia, defendida pelo revolucionário francês Auguste Blanqui, por Lênin e por Che Guevara, dos que afirmavam que o sucesso de uma revolução depende muito mais da decisão de uns poucos homens do que da vontade das massas.


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Guerreiro anfíbio, Garibaldi saía-se bem no leme dos barcos e empunhando o sabre nas cargas de cavalaria. Os combates que a Legião Italiana travou na Grande Guerra dos uruguaios, como se deu na batalha do Salto de Santo Antônio, devido ao número escasso de gente que a compunha (de 400 a 600 homens no máximo), serviram mais de diversionismo para aliviar a pressão sobre a capital do que como um resultado efetivo que pudesse alterar as posições de Oribe ou o rumo da guerra.

Quando arrefeceu um pouco a pressão sobre a capital, Garibaldi recebeu a notícia, vinda da Itália, de que os povos europeus estavam se insurgindo por todas as partes. Convencendo Anita a embarcar, prontamente ajuntou os seus magros pertences para, atravessando o Oceano Atlântico, ir aderir ao movimento rebelde, desejando fazer parte da Revolução de 1848. Entrementes, enquanto Garibaldi lutava na Itália, a Grande Guerra uruguaia seguiu até 1851, quando o Império do Brasil declarou guerra ao ditador Rosas (que apoiava Oribe), intervindo abertamente no conflito.

Derrotada a coligação Oribe-Rosas, uma paz temporária foi acertada entre os blancos e os colorados do Uruguai.

De volta à Itália

Pouco tempo depois de seu desembarque em Gênova, Garibaldi, vestindo a camisa vermelha e bombachas (pantal turchin), tendo um poncho branco sobre elas, acompanhado por um reduzido núcleo de 86 camisas-vermelhas da Legião Italiana, os montevideanos, rumou para Roma, onde foi eleito deputado da Assembléia Nacional, a primeira a reunir italianos de todas as partes. Foi um dos instigadores da República Romana, aclamada em 9 de fevereiro de 1849, visando pôr fim ao poder secular que o papado exercia sobre uma parte das terras italianas – os estados pontifícios. Até um triunvirato, com a presença do incansável líder republicano Giuseppe Mazzini, foi eleito para dirigir a nova república. A plataforma, inspirada no lema “Igualdade, Liberdade, Humanidade”, era unificar a Itália, afastar o poder clerical dos assuntos civis e livrar a nação da ingerência estrangeira (os austríacos ocupavam o norte da Itália, as províncias da Lombardia e do Vêneto, e também a Toscana).

Logo, porém, a situação se inverteu. As forças da repressão comandadas pelos austríacos lideraram um contra-ataque ao Reino do Piemonte (a cabeça do projeto de uma Itália unificada), derrotando o seu exército na batalha de Novara, em março de 1849, ação que terminou por sepultar as esperanças dos patriotas italianos. Todas as conquistas obtidas entre 1848 e 1849 mostraram-se nuvem de fumaça, evaporando-se na presença dos canhões e dos mosquetes da contra-revolução.

O Papa Pio IX, por sua vez, lançara um manifesto reclamando a devolução dos seus territórios expropriados pela república revolucionária. Atendendo ao seu apelo, a França de Luís Napoleão, o sobrinho de Bonaparte, enviou, em abril de 1849, um exército com 30 mil homens para ocupar Roma, com a missão de desfazer a república e devolver o poder ao papa. Garibaldi e seus homens da Legião Italiana foram os únicos a resistir dentro da cidade. Na praça de São Pedro, ele arenga aos seus homens perfilados na sua frente:

“Onde nós estivermos, estará Roma. Mas lembrem-se de que vocês não terão nem suas casas confortáveis, nem seus cafés, nem seus jantares. Vocês dormirão freqüentemente sob as estrelas, e algumas vezes sob a chuva... Saio de Roma. Aquele que quiser continuar a guerra contra o estrangeiro venha comigo. Não ofereço nem salário, nem acantonagem, nem provisão. Ofereço fome, sede, marchas forçadas, batalhas e morte.”
(Garibaldi, a força do destino, de Max Gallo, p. 149.)


Fuga e novo exílio

Seguido por 1.500 combatentes, Garibaldi, para não ter que se render ao general Oudinot, que entrara em Roma em junho de 1849, decide pela retirada para o norte, em direção à Veneza. Acompanha-o a sua inseparável Anita, grávida de cinco meses. Perseguidos pelos franceses e austríacos, escalando os montes Apeninos, refugiam-se na minúscula República de San Marino, que lhes dá asilo. Nada o detém. Tomando fôlego, escapa do cerco e navega num barco pesqueiro pelo Mar Adriático até o pequeno porto de Magnavacca, na embocadura do Rio Pó, triste local onde Anita vem a falecer no dia 1º de agosto de 1849.

Garibaldi, então viúvo, engendra outra fuga espetacular. Vários dos seus homens da Legião são capturados e fuzilados, enquanto ele, cruzando a Itália a pé, do Adriático ao Tirreno, caminha por 37 dias, escapando dos inimigos até conseguir novamente partir rumo ao exílio. Tenta ir para Tunis, na África do Norte, mas, visto como “homem-do-diabo”, ninguém quer dar-lhe abrigo. Em 1850, ele decide rumar para os Estados Unidos (curiosamente, embarca num navio chamado Waterloo, a batalha final de Napoleão).

Quando o guerreiro deu as costas para as terras da Europa, era um homem derrotado, um fora-da-lei. Perdera Anita, sua companheira de ideais e de lutas, enquanto que seus três filhos ficaram ao encargo da mãe dele, em Nice, cidade onde nascera em 1807. Os seus companheiros camisas-vermelhas, por sua vez, estavam dispersos, presos ou mortos. Decepcionado com a falta de entusiasmo do povo miúdo da Itália, a negativa dos humildes em combater a seu lado para implantar um regime melhor, nacional e democrático, recordou-se da bravura dos cavaleiros farroupilhas, dos guerreiros rio-grandenses que pareciam não temer nada, nem a morte.

No campo da política italiana, tudo regressara à situação anterior. O papa voltara a assumir o poder temporal, os austríacos e os franceses continuaram mandando na Itália, e o país permanecia tão dividido como antes de 1848. Toda a luta dos patriotas revelara-se infrutífera. Tudo parecia ter-se acabado.

Garibaldi não tinha mais os 28 anos de quando atravessou o oceano pela primeira vez para chegar ao Brasil e, em seguida ir lutar com os Farroupilhas. Era um homem maduro, um viúvo de 43 anos, cheio de cicatrizes, e que não sabia direito o que iria fazer na América. No entanto, o destino novamente buscou Garibaldi do exílio distante para alçá-lo em aventuras ainda maiores. No dia em que desembarcou em Nova York, a edição do NY Times de 30 de julho de 1850, registrou:

“neste dia chegou , vindo de Liverpool, o Waterloo com Garibaldi a bordo, personalidade de renome mundial, herói de Montevidéu e defensor de Roma. Todos aqueles que conhecem o seu caráter cavalheiresco e os serviços que prestou à causa da liberdade lhe reservarão a acolhida que lhe é devida.”

Verdi e a unidade italiana

Num pesado dia do inverno de Milão, 27 de janeiro de 1901, o povo saiu às ruas para prestar uma das mais belas e espontâneas homenagens ao maior compositor italiano de todos os tempos. Giuseppe Verdi morrera aos 87 anos. Com lágrimas nos olhos, naquela data infeliz, milhares de pessoas, sentindo-se na orfandade, vendo o féretro desfilar, cantaram em coro uma das suas mais celebradas passagens: Va, pensiero. Com ele, sepultou-se também uma das mais comoventes e heróicas páginas da história da Itália Moderna.

A Itália sofrida

“E chegará um dia em que já não se falará de melodia, de harmonia, de escola italiana ou alemã, do futuro ou passado etc. Então, talvez, poderá estabelecer-se o reino da música.”

Maquiavel, ao encerrar o Il Principe (O Príncipe, cap.XXVI, 1521), livro que o perpetuou, exortou para que surgisse na Itália do seu tempo - invadida por forças estrangeiras e dilacerada por brigas internas entre as cidades rivais - um príncipe forte, um bravo, “um redentor”, que, além de afastar “os bárbaros”, restituísse-lhe a integridade perdida desde os tempos dos romanos. Ninguém atendeu ao seu apelo.

Ainda na metade do século 19, mais de trezentos anos após sua morte, a ditosa pátria de Dante e de Petrarca encontrava-se praticamente na mesma situação, a de ser “uma expressão geográfica” dominada por um império estrangeiro (o dos Habsburgos austríacos, que controlavam parte das províncias do norte), por uma dinastia estrangeira (a dos Bourbons espanhóis, que reinavam sobre as do sul) e pelo papado (chefe de uma instituição universal, a Igreja Católica, que mantinha a podestá, o domínio, sobre as províncias centrais, os ditos Estados Pontifícios).

Um patriotismo tribal

Além disso, na intrincada geografia político-cultural itálica, predominavam o paroquialismo, o campanilismo, a crença arraigada da população de que o seu paese, o verdadeiro país, era o lugarejo onde nasciam, no qual batizavam seus filhos, o do dialeto que falavam, e de onde tiravam o sustento. Era-lhes indiferente o destino dos vizinhos, o que facilitava a continuidade da hegemonia estrangeira. Tal atitude levou o historiador napolitano Luigi Blanch a dizer que o patriotismo dos italianos lembrava o dos gregos antigos, parecendo-se mais com um “patriotismo tribal” do que algo próximo à moderna devoção à pátria.

Somente nos seus poros, aqui e ali, como no reino do Piemonte, fronteiro à França, onde o Conde de Cavour suspirava por uma Itália liberta, havia o desejo de alinhar o país aos demais estados europeus, unificados há muito tempo atrás.

Divisão política da Itália pré-1861

Estado
Capital
Siuação política
Reino do Piemonte
Turim
Reino do Piemonte (Victor Emanuel I, Conde de Cavour como 1º ministro)
Lombardia
Milão
Província do império Austro- húngaro (Dinastia Habsburgo)
República de Veneza
Veneza
Governo dos Doges, tutelada pelo império Austro-húngaro
Reino das Duas Sicílias
Nápoles
Reino dos Bourbons
(ramo espanhol)
Estados Pontifícios
Roma
Governo do Papado
Grão-ducado da Toscana
Florença
Grão-duque d’Áustria
Ducado de Parma
Parma
Duque de Parma
Ducado de Módena
Módena
Duque de Módena

Os três Giuseppi

Ocorreu que o tão esperado e valoroso príncipe, o restaurador da integridade italiana perdida (descartando-se a inadequada e anti-heróica figura do Conde de Cavour), não tomou corpo num homem só. Em termos simbólicos, pode-se dizer que o messias da Itália contemporânea assumiu, isso sim, a forma de três Giuseppi (Josés): Giuseppe Mazzini (1805-1872), Giuseppe Garibaldi (1807-1882) e Giuseppe Verdi (1813-1901). Um pelas idéias, outro pelas armas e o último por meio da música, dotaram o povo peninsular da teoria, da espada e do hino, para que, nas esteiras do Risorgimento, vissem concluído o sonho da unificação nacional.

Foi a ação dos três, em campos distintos, mas complementares, que inspirou os italianos a se recomporem, depois de quatorze séculos de divisionismo, para virem a formar um só corpo político.

O Risorgimento 3

A idéia de que a Itália deveria, de algum modo, livrar-se do destino cativo que a infelicitava desde a época de Maquiavel, começou a tomar vulto no final do século 18 e princípio do 19. Os ideais da Revolução Francesa de 1789 – com sua proposta de um estado-nação constituído pela soberania popular, oposta ao reino dos príncipes – chegaram à Itália junto com os bivaques do exército do general Napoleão Bonaparte, que ocupou o norte do país em 1796 e 1797. Mesmo com a derrota posterior do império francês, em 1815, a semente da independência dos italianos havia sido lançada.

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3 A popularização da palavra Risorgimento decorreu da fundação do jornal “Il Risorgimento”, em Turim, em 1847, tendo como um de seus redatores-chefe o Conde de Cavour.

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A guerra desencadeada pelas choupanas contra os palácios (como, metaforicamente, designou-se a luta do liberalismo moderno, nacional e democrático, contra o conservadorismo absolutista), mesmo com a frustração gerada pelas expectativas maiores da Revolução Francesa, estava longe de se encerrar. O risorgimento foi o resultado disso.

Se o primeiro renascimento, o dos séculos 15 e 16, emancipara o homem italiano da estética medieval, desembaraçando-o da arte dos godos, o segundo renascimento (denominado Risorgimento) foi um movimento político que ambicionava livrá-lo do domínio estrangeiro (dos Habsburgos da Áustria e dos Bourbons da Espanha). Se os tutores do primeiro renascimento foram artistas como Leonardo da Vinci, Miguel Ângelo e Rafael Sanzzio, os do segundo renascimento foram homens como Mazzini, Garibaldi e Verdi.

A Itália cindida

A terra de Dante, ainda no século 19, estava cindida não só em dois grandes campos histórico-culturais distintos (o norte urbano-industrial, “europeizado” e liberal-progressista, oposto ao sul agrário, camponês, bizantino-sarraceno, e tradicionalista), mas também em torno de qual estratégia política deveria ser adotada a fim de alcançar a unificação. O Conde de Cavour, o primeiro-ministro do Reino do Piemonte (1852-1860), e mola propulsora da unificação, acreditava que a integração nacional dependia de uma complicada operação de engenharia diplomática-militar, na qual mesclavam-se medidas visando a obter apoio internacional para a unificação, com operações militares de vulto (participação do Piemonte na Guerra da Criméia ao lado das potências ocidentais em 1855, seguida da guerra contra o Império Austro-húngaro, em 1859-60).

O universo de Cavour era o das embaixadas e gabinetes palacianos, em conluios secretos com generais, bispos e outros chefes de estado, tendo ao seu lado a burguesia não muito numerosa, nem muito empenhada da Itália da época. Como regime ideal a ser adotado no futuro Reino da Itália, o ardiloso ministro piemontês projetava aquele já existente no seu próprio reino (uma estável monarquia amparada num parlamento e no rei Vitório Emanuel II).

O mazzinismo

Oposto ao projeto de unificação constituído “de cima”, tramado pela elite liberal-conservadora liderada por Cavour, havia um outro, “vindo de baixo”, defendido pelo líder patriota, o professor Giuseppe Mazzini. Este grande devoto da unificação era um ex-integrante da sociedade dos carbonários, que, a exemplo dos jacobinos franceses na época da Primeira República da França (1792-1794), esperava que a futura unificação resultasse de um grande levante popular, se bem que estimulado e dirigido pela intelligentsia italiana. O seu mundo, bem ao contrário do de Cavour, era o dos conchavos clandestinos nas “catacumbas republicanas”, dos pátios das universidades, das redações dos jornais radicais, freqüentados por escritores, advogados, estudantes e professores, que seguiam Mazzini com devoção apostólica, certos da ação definitiva de il popolo.

A Giovine Italia

Como fator catalisador, agregando a juventude e a intelligentsia em seu projeto, ele fundara, em 1831, a Giovine Italia (em Marselha, na França), que, além de substituir os Carbonários (organização patriótica secreta), teria a função de agitar o ambiente peninsular para a causa unitarista.

O regime político de sua preferência, como não poderia deixar de ser, era uma república democrática, o que fez com que Mazzini fosse visto como um radical extremista. Isso levou a outra facção dos unitaristas, a liberal-conservadora de Cavour, a condená-lo à morte. Observa-se que o mazzinismo não deve ser visto apenas no seu contexto peninsular, porque ele, adepto à causa da Europa, imaginava uma confederação de estados europeus convertidos ao republicanismo popular, do qual a Giovine Italia era apenas uma célula, que, gradativamente, iria incorporar outros movimentos até atingir a unidade final do Velho Mundo.

Oscilando entre ambos, entre Cavour (a quem detestava) e Mazzini (de quem desconfiava), achava-se Garibaldi, o condottiero da unificação, líder dos mille, sempre metido em aventuras, misturado com seus companheiros camisas-vermelhas em acampamentos militares, bem longe dos gabinetes ou das redações, e cuja preferência política pessoal, dada sua impaciência para com os procedimentos parlamentares, era por uma ditadura popular com matizes socialistas, que ele, afinal, terminou por não levar a cabo.

Alternativas políticas dos unitaristas

Conde de Cavour
Giuseppe Mazzini
Giuseppe Garibaldi
Monarquia
República democrática.
Ditadura popular.
Constitucional-
parlamentar.
 
Unificação obtida por meio de acordos diplomáticos e guerras localizadas.
Unificação resultante de um levante nacional-popular.
Unificação consolidada por ações militares espetaculares.

O nascer de um patriota

De certa forma, vendo-se em retrospecto, dos citados ninguém poderia ser mais patriota do que Giuseppe Verdi. Quando veio ao mundo, em Roncole di Busseto, um lugarejo de nada no Ducado de Parma, em 9 de outubro de 1813, o seu registro de nascimento foi lavrado com um nome francês (Joseph Fortunin François) porque a região ainda estava dominada pela administração napoleônica. Nem um ano tinha quando sua frágil existência esteve seriamente ameaçada, em 1814, pois a soldadesca austro-russa, expulsando os franceses de Parma, invadira a sua aldeia natal entregando-se ao massacre da população civil. Luísa, sua mãe, com o bebê Pepe no colo, conseguiu salvar-se, refugiando-se no alto de uma torre.

Portanto, foi em meio aos registros de franceses em fuga, seguida de tiros e espadas de tedescos e de russos, que Verdi, filho de um modesto taberneiro local, veio ao mundo, assumindo, logo que teve consciência, a tarefa de livrar a Itália dos estrangeiros que tanto a desgraçavam, com as estranhas armas do bel canto e da batuta de maestro.

A música e o nacionalismo

O século 19, mais do que qualquer outro, viu o espírito nacionalista adonar-se da música, especialmente naquelas regiões e culturas da Europa que se encontravam oprimidas ou entregues à confusão. Confluíram para essa politização da música, as estéticas românticas que, desde os tempos do filósofo alemão Herder (morto em 1803), mandava os artistas procurarem inspiração nas raízes da cultura popular (abandonando os cânones da cultura clássica) e a ideologia liberal, que só reconhecia como governo legítimo àquele que viesse do apoio ou do consentimento do povo (e não mais das dinastias).

Chopin na Polônia, Liszt na Hungria, Smetana na Boêmia, Wagner na Alemanha e Verdi na Itália, foram as maiores expressões musicais desse despertar dos sentimentos populares que repudiavam os impérios multiculturais e étnicos que governavam a Europa de então (os dos Romanov, Habsburgos, Bourbons, e outros menores). Muitos desses compositores e concertistas fizeram das óperas autênticos comícios patrióticos, procurando, com isso, agitar a opinião pública ou incitá-la à rebelião.

Ópera e política

“A ópera séria é quase sempre política por natureza e uma interpretação política das mudanças estilísticas...”
Charles Rosen, “A Geração Romântica”, São Paulo, 2000


Diga-se que, nessa politização da música erudita, os compositores foram auxiliados pela significativa alteração ocorrida na ópera. No transcorrer do século 19, verificou-se a sua transformação, de uma arte eminentemente aristocrática (que passou todo o século 18 exaltando o absolutismo e a magnificência da corte), numa forma popular, entregue a enaltecer a proeminência do mundo burguês. A Revolução Liberal de 1830, a que depôs o último dos Bourbons em Paris, assinalou o momento histórico da ruptura do gênero com as temáticas que antes eram tão ao gosto da nobreza. Um dos casos mais extremados dessa simbiose, entre ópera e a política da época, aconteceu em Bruxelas, na estréia da “La multe de Portici” (A muda de Portici) de Auber. Na noite de 25 de agosto de 1830, ao ver no palco os napolitanos em franca rebeldia, o público não deixou por menos: bastou ser encerrado o acorde final para que, tomado de entusiasmo, o povo saísse pelas ruas da capital, num insurgente tumulto, a reclamar a independência da Bélgica.

A trombeta de Josué

Enquanto Richard Wagner, por exemplo, abeberou-se nas antigas lendas germânicas da época pré-cristã, encontrando nelas um denominador comum entendido e aceito por todos os alemães, Verdi recorreu ao Antigo Testamento (Nabucco), a feitos dos tempos das Cruzadas (Os Lombardos na primeira cruzada), a heroínas nacionais de outros países (Joana d’Árc) ou à literatura de Shakespeare (Othelo, Mcbeth, Fallsfat) e de Victor Hugo (Rigoletto). Ao dar vida musical a uma série de libretos, procurou sempre acentuar uma conotação política por meio dos excepcionais recursos artísticos de que era dotado. Verdi, ainda que seguindo a trilha de Bellini, mais do que nenhum outro compositor daquele século, fez da ópera um instrumento de combate pela libertação nacional, recheando suas composições com apelos à luta direta (como no “Di quella Pira”, no Il Trovatore).

Metaforicamente, poderia dizer-se que seus vigorosos e comoventes corais, grandiosos, heróicos, foram as trombetas de Josué com que ele esperava reconquistar a prometida terra itálica das mãos profanas dos reis estrangeiros, o que fez com que a censura saísse em seu encalço por toda parte.

A ópera e o teatro grego

Deste modo, graças a Verdi e à agitação do Risorgimento, as casas de espetáculo da Itália inteira ativaram-se, como que substitutas das assembléias populares, nas quais a burguesia e o povo, os camarotes, o mezanino e a platéia, em uníssono, confraternizavam no repúdio ao cativeiro. Os grandes espetáculos musicais de efeito mágico que ele orquestrou, reproduziam, de certa forma, o clima do antigo teatro grego, o da tragédia ática, que, conforme se sabe, também serviu de recurso para que a comunidade dos cidadãos discutisse o seu futuro (A força do destino,1862). Ele foi o principal responsável – na esfera operística – por criar um clima propício à difusão dos ideais de uma Itália unificada, ganhando, dessa maneira, o coração do povo. Despertou, por todo o país, explorando o conflito entre a afetividade extremada e a harmonia e o autodomínio, recorrendo à rudeza e à “vulgaridade e insensatez”, o sentimento de italianità, de italianidade, necessário a que cada paisano superasse o sentimento paroquial em favor do nacional.

Va pensiero, hino da unificação

Depois de alguns fracassos iniciais como compositor, acompanhados de situações de aviltada pobreza (em dois meses perdeu a mulher e dois filhos pequenos), a partir de 1839, o jovem ex-organista e maestro di cappella da aldeia de Roncoli di Busseto conseguiu afirmar-se na regência do famoso Teatro La Scala, de Milão, onde pulsava um intenso sentimento pró-independência. A Lombardia, província italiana do império austro-húngaro, aspirava à liberdade. Eis que o sinal da futura insurreição dos italianos foi dado por umas poucas estrofes inspiradas no Velho Testamento, que narram os sofrimentos do povo judeu durante o cativeiro da Babilônia (um curto, sentimental e poético trecho que o povo consagrou como Va, pensiero!). Verdi disse, bem depois do sucesso alcançado, que fora por puro acaso que vira aqueles versos. Ao ter deixado cair o libreto Nabuchodonosor, de Solera, seu autor, sobre uma mesa, ele abrira-se justamente na passagem do Coro dos Hebreus, cujo saudoso e belo lamento tocou tão fundo os italianos (e em todos aqueles que, pelo mundo afora, sentiam sua pátria espezinhada).

A “Marselhesa” dos italianos

Houve, desde o princípio, uma imediata associação entre as desgraças dos judeus no Eufrates (escravizados pelo rei Nabucodonossor da Babilônia), com as que a maioria dos italianos sofria naquele momento. No dia da estréia da ópera Nabucco, o 9 de março de 1842, encerrado o último verso (IIIª Parte, cena IV), no qual os prisioneiros pediam inspiração para resistir com coragem as aflições, a Itália sentiu que ali nascia uma versão muito própria, totalmente sua, da “Marselhesa”.

Desde então, Va, pensiero consagrou-se como hino da unificação italiana, enquanto o nome de Verdi circulou entre os patriotas como um anagrama (Vittorio Emmanuel Rè d’Italia). A meta unitária, afinal, somente atingiu êxito dezenove anos depois, em 1861, quando Vitório Emanuel II, do Piemonte, foi proclamado rei da Itália (Roma somente integrou-se a ele em 1871, depois da retirada das tropas francesas que protegiam o papa).

Letra do Va, pensiero.
Ópera “Nabuco” (1842)

Parte Terza

Scena IV:

Le sponde dell’Eufrate. Ebrei incatenati e costretti al lavoro.

Coro (Ebrei)

a, pensiero, sull’ali dorate,
Va, ti posa sui clivi, sui colli
Ove olezzano tepide e molli
L’aure dolci del suolo natal!
Del Giordano le rive saluta,
Di Sïon le torri atterrate...
Oh mia patria sì bella e perduta!
Oh membranza sì cara e fatal!
Arpa d’ôr dei fatidici vati
Perchè muta dal salice pendi?
Le memorie nel petto raccendi,

Ci favella del tempo che fu!
O simìle di Solima ai fati
Traggi un suono di crudo lamento,
O t’ispiri il Signore un concento
Che ne infonda al patire virtù,
che ne infonda al patire virtù,
che ne infonda al patire virtù, al patire virtù!

Nas margens do eufrates. Hebreus acorrentados e obrigados a trabalhar.

Hebreus

Vai, pensamento, em asas douradas,
Vai, pousa nos declives, nas colinas,
Onde exalam mornas e suaves
As auras doces do solo natal!
Do Jordão saúda as margens,
De Sïon as torres destruídas...
Oh pátria minha, tão bela e perdida!
Oh lembrança tão querida e fatal!
Harpa de ouro dos fatídicos vaticínios
Porque muda do salgueiro pendes?
As memórias no peito reaivas,
Nos falas de um tempo que se foi!
Ou semelhante a Solima nos fatos,
Suscites um som de lamento cru,
Ou te inspire o Senhor uma melodia
Que infunda virtude no padecer.
Que infunda virtude no padecer
Que infunda virtude no padecer, ao padecer virtude!

Verdi è morto!

No final de 1900, Verdi, com 87 anos, queixando-se da solidão e das amarguras da velhice, deixou a sua propriedade de Santa Agnes no interior e hospedou-se em Milão. Provavelmente, intuindo a aproximação de seus dias finais, quis estar perto do teatro Scala, onde, mais de 60 anos antes, iniciara sua espetacular carreira. A polícia providenciou para que o trânsito de charretes e carroças não o perturbasse no seu descanso no Grand Hotêl et de Milano, no qual ele veio a falecer depois de cinco dias de coma, em 27 de janeiro de 1901. Morte que provocou uma comoção nacional: Verdi è morto! Verdi è morto! O grito ecoou por toda a Itália, deixando em todos a sensação de orfandade, pois o pai da unificação já não estava mais entre eles. A consagração maior deu-se em seguida. A passagem do féretro, levando o corpo de Verdi pelas ruas de Milão, atraiu uma multidão fantástica (estimou-se em 200 mil pessoas). Na sua marcha solene para a Casa di Reposo, onde ficaria sepultado com sua esposa Giuseppina Streponi, o povo inteiro em lágrimas pôs-se a cantar Va, pensiero, sull’ali dorate.... Vai, pensamento, nas asas douradas...

As obras de Verdi

Primeiras obras

Oberto, 1839 (Milan)

Un Giorno di Regno, 1840 (Milan)

Nabucco, 1842 (Milan)

I Lombardi alla prima Crociata, 1843 (Milan)

Ernani, 1844 (Venice)

I Due Foscari, 1844 (Rome)

Giovanna d’Arco, 1845 (Milan)

Alzira, 1845 (Naples)

Attila, 1846 (Venice)

Macbeth I, 1847 (Florence)

I Masnadieri, 1847 (London)

Jérusalem (I Lombardi revised), 1847 (Paris)

Il Corsaro, 1848 (Trieste)

La Battaglia di Legnano, 1849 (Rome)

Luisa Miller, 1849 (Naples)

Stiffelio, 1850 (Trieste)

Rigoletto, 1850 (Venice)

Il Trovatore, 1853 (Rome)

La Traviata, 1853 (Venice)

Obras intermediárias

Les Vepres Siciliennes, 1855 (Paris)

Simon Boccanegra I, 1857 (Venice)

Aroldo (Stiffelio revised), 1857 (Rimini)

Un Ballo in Maschera, 1859 (Rome)

La Forza del Destino I, 1862 (St. Petersburg)

Macbeth II, 1865 (Paris)

Don Carlos, 1867 (Paris)

La Forza del Destino II, 1869 (Milan)

Aida, 1871 (Cairo)

Simon Boccanegra II, 1881 (Milan)

Don Carlo II, 1884 (Milan)

Obras tardias

Otello, 1887 (Milan)

Falstaff, 1893 (Milan)

Dois herdeiros de Verdi

Dois outros grandes artistas italianos no nosso século foram seus herdeiros: Federico Fellini e Bernardo Bertolucci (parmesão como Verdi). Cada um ao seu modo, são os sucessores de Verdi, ainda que na cinematografia, arte que nascia no mesmo momento em que o grande maestro faleceu. Expressaram ambos, nos seus inúmeros filmes, o sentido plástico de magnificência e sentimentalismo do velho Verdi. Essa ligação estética e emocional deles com o compositor é a razão de Fellini encenar o coro do Va, pensiero num período apreemiante de pátria em perigo do La Nave Va (A nave vai), e de Bertolucci iniciar o seu monumental Novecento (1900) com a cena do sofrido lamento: Verdi è morto! Verdi è morto! Em verdade, ele não morreu. Verdi perpetuou-se para sempre nas vozes do seu povo e de boa parte da memória do mundo.

Bibliografia

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