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Os Garibaldi como símbolo
de integração entre a América
do Sul e a Europa Mediterrânea


Elma Sant’Ana
____________________________________________________
Geógrafa, pós-graduada em Ecologia Humana
e Folclore, fundadora do Piquete das Anitas


A imensa bibliografia que existe sobre a vida e a obra de Giuseppe Garibaldi, herói de dois mundos e unificador da Itália, talvez não tenha sido suficiente para ressaltar, na Europa, perante seus atuais admiradores, a importância de seu trabalho como guerreiro e articulador político na América, especialmente no Estado do Rio Grande do Sul, justamente aquele que faz fronteira com a Argentina e o Uruguai.

Quando Giuseppe Garibaldi chegou ao Brasil, no final de 1835, mais precisamente a 25 de novembro (em 17 de agosto de 1835 partiu de Marselha direto ao Rio de Janeiro), era um jovem marinheiro, idealista e sonhador, corajoso e ousado, mas praticamente inexperiente. Sua militância era exclusivamente marinheira, pelos portos do Mediterrâneo e até um pouco mais longe. O fator determinante, o divorcium aquarium, a mudança radical, a virada na trajetória do herói, o encontro com seu destino, vai se dar exatamente com essa viagem ao Brasil, que foi o caminho definitivo de uma aventura que marcaria luminosamente a vida do italiano nascido em Nice.

Naquela época, a corte do Rio de Janeiro era um mundo de intrigas. A Banda Oriental se constitui em um Estado independente, com o nome de República Oriental do Uruguai (depois de ser província brasileira por muitos anos). E a Província do Rio Grande do Sul vive duramente a luta entre liberais e conservadores. Os primeiros sofrendo a infiltração da maçonaria de inspiração republicana. Tais maçons e muitos líderes políticos militares, descontentes com o que chamavam de caos na “corte do imperador menino”, no Rio de Janeiro, tramavam abertamente a independência da Província que seria a República Rio-grandense.

A 20 de setembro de 1835, explode uma revolução na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul: os liberais, liderados por Bento Gonçalves da Silva, contra os conservadores, que tiveram vários chefes ao longo dos dez anos que durou a luta armada. Depois de um ano de revolução intransigente, os farroupilhas desistiram da paz e proclamaram a República, em 11 de setembro de 1836, separando o Rio Grande do Sul do Brasil, com o nome de República Rio-grandense. Tentaram, ao longo de nove anos, organizar a estrutura de uma nação independente republicana, assolada por muitos problemas, mas repleta de bravura, buscando realizar um Estado completo, com os serviços públicos, o Exército e a Marinha, porque os tempos eram de guerra. Aí é que entra Garibaldi.

O exército republicano teve, antes de mais nada, forças de cavalaria, sendo, como são até hoje os rio-grandenses, famosos como cavaleiros. Mais tarde, na Itália, Garibaldi se lembrará com saudades desses centauros, como Bento Gonçalves, Antonio de Souza Netto, David Canabarro, Joaquim Teixeira Nunes e os lanceiros negros.

O problema maior era a Marinha de Guerra. Os rio-grandenses são homens do lombo do cavalo, não do dorso das ondas do mar. Ademais, a costa atlântica rio-grandense não tem portos naturais. Estaleiros navais, só em Portugal. Garibaldi era um homem do mar, e deveriam aproveitar a sua experiência. Então, para o pequeno estaleiro que possuía a República Rio-grandense, na foz do Rio Camaquã, dirige-se Garibaldi. Em 1º de setembro de 1838, Giuseppe Garibaldi é nomeado capitão-tenente, comandante da Marinha Farroupilha. Começa a construção dos dois lanchões: Farroupilha e Seival.
A ordem recebida por Garibaldi era difícil de ser cumprida: apoiar com seus lanchões as forças de David Canabarro, incumbidas de tomar Laguna, a fim de ali estabelecer um porto, uma vez que a cidade de Rio Grande estava em poder dos imperiais.

No dia 5 de julho de 1839, Garibaldi remonta o pequeno Rio Capivari, onde não podem manobrar os pesados barcos do Império, puxando sobre rodados, para a terra, os dois lanchões artilhados, com 100 juntas de bois, atravessando ásperos caminhos, em direção à Barra do Tramandaí, sob o Oceano Atlântico.

Em 29 de julho, em Santa Catarina, Garibaldi e os farrapos proclamaram a República Juliana, na gloriosa imprudência de quem sonhava transformar todas as províncias do Império Brasileiro em repúblicas autônomas, porém federadas.

Em Laguna, Garibaldi conheceu Anita e o mundo inteiro sabe o que aconteceu. O amor foi imediato e fulminante. Perduraria sem estremecimentos nos poucos anos que viveram lado a lado. Por dez anos esse amor iluminou a história de dois continentes, igualando-se aos grandes romances da História Universal. Em março de 1840, os farrapos voltam ao Rio Grande do Sul. Garibaldi e Anita vêm com eles.

Em 16 de julho, há o combate em São José do Norte, na luta por um porto. Garibaldi participa sob o comando de Bento Gonçalves.

No dia 16 de setembro de 1840, nasce o filho gaúcho de Anita e Garibaldi – Domenico Menotti Garibaldi, na localidade de São Simão, em Mostardas, na casa da família Costa. A primavera chegara mais cedo para os farrapos. Giuseppe e Anita terão outros filhos mais tarde, mas apenas Menotti terá o solo rio-grandense como berço. Diziam que quando falava na nacionalidade dos garibaldinos – muito variada, naturalmente – ele mesmo, Menotti Garibaldi, quando não seu próprio pai, o herói, não deixava de dizer que entre eles havia um brasileiro, condição que jamais esquecera.

Garibaldi e Anita assumem o compromisso de pai e mãe sem dar trégua à epopéia. Somente depois do nascimento de Menotti, Garibaldi sente a necessidade de dar, à Anita e ao filho, uma outra vida. São eles que se convencem, provavelmente sem palavras, de que a romântica revolução acabara e de que era necessário estabelecer a paz entre os farrapos e o Império. Além disso, as privações sofridas por Anita, a pobreza em que viviam e as dificuldades enfrentadas desde o nascimento do filho, fizeram Garibaldi tomar a decisão da partida para o Uruguai. Ao atravessar a fronteira, Giuseppe Garibaldi levava a futura heroína dos dois mundos – Anita, um filho de oito meses, uma formação de guerrilheiro, uma boiada minguada e a sugestão de uma lenda. Após 50 dias, percorrendo aproximadamente 800 km, Garibaldi chega a Montevidéu com a família. Estava encerrada sua participação na Guerra dos Farrapos, no dia 17 de junho de 1841.

Garibaldi e Anita saíram da história para dar nome a ruas, praças, escolas, museus, centros de tradições, piquetes de cavalaria. Monumentos levam seus nomes. No Rio Grande no Sul, Garibaldi; em Santa Catarina, Anita Garibaldi. São dois municípios que, respectivamente, em 1961, passaram a levar o nome dos heróis farroupilhas. A cidade gaúcha de Garibaldi orgulha-se de ter o herói como patrono numa justa homenagem àquele italiano que antecede a vinda dos imigrantes para nossa terra, sobretudo pela grandeza e universalidade dos seus ideais. Se o Estado de Santa Catarina é o berço de Anita, o nascimento de Menotti é patrimônio do Rio Grande.

Como símbolo de integração entre Mostardas, no Rio Grande do Sul, e Aprilia, na Itália, onde está sepultado Menotti, foi assinado um acordo de “gemellaggio” (cidades irmãs) entre essas duas cidades, tendo como justificativa a importância da família Garibaldi, o elo comum a unir esses dois municípios, estabelecendo uma identidade gêmea, através de documento oficial, para que as gerações futuras, no Sul da América e na Europa Mediterrânea saiam mais engrandecidas com o conhecimento da trilha luminosa que a família Garibaldi riscou no mapa do mundo.

Para registrar este acontecimento, há na entrada das duas cidades, Mostardas e Aprilia, uma placa de bronze, doação do “sindaco” Gianni Cosmi, com o registro do documento assinado em 26 de abril de 1996, na ocasião em que a cidade italiana, onde repousam os restos mortais do mostardense Menotti, comemorava 60 anos de fundação.

Também em Aprilia foi inaugurada uma praça, a Piazza Mostardas, onde foi plantada uma muda de figueira, com um punhado de terra da localidade de São Simão, selando um acordo de amizade entre essas duas cidades, através do nome de Menotti, como símbolo de integração.

No balneário mostardense, uma escola leva o nome da heroína Anita Garibaldi. Uma rua e um parque levam o nome de seu filho Menotti.

Capivari do Sul, um município de 4 mil habitantes, é outro exemplo de integração através da família Garibaldi. O rio Capivari foi o cenário da odisséia dos lanchões Farroupilha e Seival. O pequeno e jovem município de Capivari do Sul projetou essa odisséia num grande evento artístico, cultural e turístico, sendo apresentado em importantes solenidades, revivendo a saga garibaldina e promovendo a auto-estima daquela comunidade, que tem como base econômica a pecuária, a agricultura e o reflorestamento. Essa cidade está integrada à cidade italiana de Mentana através de um acordo de cidades irmãs. Também foram inauguradas duas ruas, Mentana e Garibaldi, pelo projeto aprovado pela Câmara Municipal.

Em Mentana (Itália), foi também inaugurada uma via – Via Capivari – Anita Garibaldi. Também possui uma escola com o nome de Giuseppe Garibaldi, que foi visitada em 1999 por uma delegação oficial de Capivari do Sul. Na ocasião os jovens estudantes puderam conhecer os usos e costumes do povo gaúcho, através de conferências e documentário fotográfico. Experimentaram, pela primeira vez, o chimarrão.

Em São José do Norte, para homenagear e lembrar o combate de 16 de julho de 1840, um dos feitos mais notáveis da Revolução Farroupilha, realiza-se todos os anos uma encenação com cavalaria no centro da cidade. A memória de Garibaldi está perpetuada em São José do Norte através de um busto de bronze que se encontra na praça principal e que foi oferecido pela colônia italiana. No Instituto Histórico e Geográfico, existe uma placa de mármore com uma inscrição homenageando Garibaldi. Em 2002, foi acesa a chama crioula em Laguna (SC) partindo esta em direção a São José do Norte no navio-balizador da Marinha do Brasil, Comandante Varella. Era a primeira Chama Ultramarina da Integração relembrando o feito dos homens da pequena esquadra rio-grandense e, em especial, Giuseppe Garibaldi, depois levada a todas as cidades do Rio Grande do Sul.

A cidade italiana de Velletri está ligada ao nome de Menotti Garibaldi. Os méritos adquiridos por ele durante a sua grande atividade parlamentar como deputado de Velletri (20 anos) e cercanias são realmente notáveis. Entre tantas realizações podemos ressaltar: a construção das ferrovias Velletri-Terracina e Roma-Segni. Mas a mais relevante foi a Cantina Experimental, uma das mais importantes da Itália, instituída em Velletri, em 1891. Em 2002, o Rio Grande do Sul recebeu a visita da representante dessa cidade italiana, que iniciou um projeto de integração com os municípios de Torres e Bento Gonçalves, buscando a união das comunidades e intercâmbio cultural e turístico. Velletri é conhecida como a cidade do vinho, assim como Bento Gonçalves, com seu famoso Vale dos Vinhedos. O projeto entre essas duas cidades faz parte de uma iniciativa sócio-cultural. Busca-se ressaltar as raízes étnicas comuns, com a promoção de políticas de interesse comum. Também integrou-se ao projeto a cidade de Garibaldi.

Em 20 de outubro de 1992, foi fundado o Piquete Anita Garibaldi. Fui uma das fundadoras desse projeto que hoje foi transformado em instituto. Trata-se de uma organização não-governamental que tem como objetivo, entre outros, promover e incentivar pesquisas e trabalhos visando pesquisar a história de Anita e Giuseppe, assim como a de seus descendentes que tiveram participação na formação histórica de suas nações, bem como incentivar a criação de centros de estudos sobre a participação da mulher na região sul do Estado, integrando-se cidades, estados, países que desenvolvam a cultura e a história garibaldina rio-grandense. Atualmente existem núcleos em Mostardas, Capivari do Sul, São Jerônimo, Vacaria, Rosário do Sul. O Piquete Anita Garibaldi desfilou em 1994, em Caprera (Itália), nas homenagens a Garibaldi, em 2 de junho.

O nome Giuseppe Garibaldi tornou-se uma lenda mundial, talvez a maior de sua época. Não foi apenas um herói nacional para seu povo, ele amou a humanidade. “Em seus pronunciamentos e escritos políticos externou pensamentos e escritos que o situavam 100 anos à frente da maioria de seus contemporâneos”, analisa o grande escritor Wolfgang Ludwig Rau.
O carisma pessoal de Giuseppe Garibaldi perpetua-se além de sua morte física. Milhares de indivíduos, isoladamente ou em agremiações, pelo mundo afora, movidos por afinidades e identidades de conceitos filosóficos, que renascem em novas gerações, continuam hoje a cultivar as tradições garibaldinas. Comprovam, dessa maneira, sua importante participação na nossa América, em especial no período da Guerra dos Farrapos, na República Catarinense, nas lutas libertárias do Uruguai e na luta pela reunificação da Itália. Faz parte da Memória Nacional.

 
 
 
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