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A Revolução Farroupilha e os italianos:
o federalismo e a fronteira


Maria Medianeira Padoin
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Doutora em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul,
professora adjunta do Departamento de História e vice-coordenadora do Mestrado em Integração Latino-americana da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).


A Revolução Farroupilha é o fato histórico que maior atenção mereceu pela historiografia regional, tanto de caráter tradicional como revisionista ou crítica. Desta forma, a produção histórica, desde o final do século XIX, esteve especialmente sob influência do Instituto Histórico e Geográfico, do Partido Republicano Rio-grandense (PRR) e do Movimento Tradicionalista Gaúcho, caracterizando-se, até meados dos anos 80, do século XX, pela continuidade da visão positivista e pelo enaltecimento do nacionalismo (brasilidade) do povo rio-grandense, procurando negar ou omitir a relevância que teve a participação de estrangeiros nesse movimento e as relações permitidas e motivadas pelo fato de o território do Rio Grande localizar-se no espaço fronteiriço platino.

Essa visão está relacionada ao processo de implantação e consolidação da República no Brasil e do estado nacional moderno brasileiro, no qual a pacificação e a definitiva posse das terras do sul e de seus limites políticos, bem como do controle e subjugação de seus habitantes a um “único” poder central eram fundamentais. Essa preocupação, demonstrada e acentuada especialmente no período do governo de Getúlio Vargas1 (1930-45 e 1950-52), em que sua política nacionalista influenciou na produção histórica (e em sua divulgação) como forma ideológica de convencimento e atrelamento do poder regional ao projeto nacional.

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1 Getúlio Vargas formou-se na estrutura política do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR); pertence à segunda geração, onde o positivismo estava presente com um discurso e prática da conciliação, do centralismo e do nacionalismo.

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Com isso, compreende-se, de certa forma, a pouca preocupação, nos estudos históricos, em privilegiar a atuação e a influência de personagens não brasileiros, como também a intensidade das relações políticas vivenciadas no espaço fronteiriço platino (território que abarca, principalmente hoje, o Rio Grande do Sul, o Uruguai, Buenos Aires e as províncias litorâneas da Argentina), pois, de certa forma, admiti-las reforçaria o caráter separatista e internacional dos movimentos transcorridos no sul, como foi o caso da Revolução Farroupilha. Assim, “desqualificaria-se” o rio-grandense no palco da construção da identidade nacional e na conseqüente participação dos benefícios oriundos do poder central brasileiro. Afirma-se, então, que ser gaúcho2 é ser brasileiro em primeiro lugar, por opção ou por raízes portuguesas-açorianas e não platinas (entendidas como espanholas)3.

Porém, mesmo sem ater-se ou dar maior atenção à participação de estrangeiros, ou ao “internacionalismo” característico dos diversos movimentos políticos do século XIX, principalmente os que ocorreram em espaços fronteiriços, como o platino, os autores tradicionais4 trazem dados, indicações de fontes documentais e preciosos indícios que podem ser averiguados e investigados pelos historiadores, permitindo o aprofundamento, a reflexão, o debate e a revisão histórica.

Nesse sentido, principalmente os estudos realizados a partir da década de 80, do século XX, possibilitaram a revisão e o surgimento de novos elementos e visões históricas, nos quais a temática da Revolução Farroupilha também foi privilegiada. Isso decorre, principalmente, da criação e desenvolvimento dos cursos de Pós-Graduação no Brasil, em que, no Rio Grande do Sul, foram priorizadas as temáticas regionais que permitiram maior acesso às fontes e ao incentivo à pesquisa em arquivos brasileiros e de outros países, como os da Argentina e do Uruguai.

Ao trabalharmos a Revolução Farroupilha, a partir de um olhar que a explica como sendo mais uma variável do processo emancipacionista no século XIX, no espaço fronteiriço platino, destacamos um personagem que também está presente na documentação (correspondências, diários), nos jornais da época e nos livros sobre o tema, ou seja, o italiano Tito Lívio Zambeccari, especialmente nos anos que precederam e iniciaram a referida revolução.

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2 Termo que, no século XX, passou a designar todo o nascido no Rio Grande do Sul, ou seja, o rio-grandense. Porém, tem sua origem no personagem ou elemento social que se dedicava à caça e trabalho com o gado na região dos pampas uruguaios, rio-grandenses e argentinos.

3 Aqui tem-se como exemplo os autores: Moyses Vellinho, Dante de Laytano, Coelho de Souza Neto, Moacyr Flores, entre outros.

4 Exemplos: Dante de Laytano, Moacyr Flores, Morivalde Cavet Fagundes, Coelho de Souza e Walter Spalding.


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A atuação e presença de italianos no Rio Grande do Sul, em especial no período da Revolução Farroupilha, ainda é um tema de estudo a ser mais investigado. A partir disso, pretende-se, com este ensaio, demonstrar qual o espaço reservado na historiografia sobre Tito Lívio Zambeccari e quais as informações trabalhadas. Assim, apresentar-se-á um breve relato sobre o contexto histórico e a inserção de Tito Lívio na história brasileira, para passar para a revisão e síntese bibliográfica.

Do final do século XVIII ao final da primeira metade do século XIX, o Brasil vivenciou diversos movimentos de caráter liberal com pretensões autonomistas ou emancipacionistas. A independência política do Brasil de Portugal, em 1822, e a convocação de uma Assembléia Constituinte motivaram o surgimento de expectativas, especialmente das elites liberais, na organização de um estado monárquico federal. Porém, a outorga da Constituição brasileira, em 1824, como também a evolução dos acontecimentos, demonstraram a preponderância de um centralismo político-administrativo, concentrando-se as decisões da construção do novo estado de acordo com os interesses da elite regional do Rio de Janeiro e São Paulo.

Na tentativa de amenizar as insatisfações regionais, foi elaborado o Ato Adicional de 1834, que procurou permitir uma maior autonomia administrativa para as províncias. Mas a decepção com tais medidas e o crescimento das exigências fiscais e de impostos pelo centro, levou, por exemplo, a elite sulina a unir-se, em 1835, e declarar guerra ao Império brasileiro, bem como, em 1836, a proclamar a independência, através da constituição da República Rio-Grandense. Tal movimento, segundo Alfredo Varella5, teve características semelhantes aos movimentos emancipacionistas ocorridos no Vice-Reino do Prata, especialmente na região banhada pela Bacia Platina.

A elite farroupilha, composta por estancieiros, charqueadores, militares, comerciantes e sacerdotes, nascidos ou não no Rio Grande, no início da guerra manteve-se unida, porém, nos anos 40, demonstrou divergências internas na disputa pelo poder regional, constituindo-se em duas tendências: o grupo da maioria e o da minoria. O primeiro foi comandado por Bento Gonçalves da Silva, Domingos José de Almeida e Mariano Mattos; o segundo era representado por David Canabarro e Antônio Vicente da Fontoura.

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5 Política Brasileira – interna e externa. Porto: Chardrox, 1929.

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O grupo da maioria possuía um projeto de construção de um estado republicano federal, admitindo vincular-se ao Brasil e demais províncias ou estados vizinhos (Uruguai e províncias litorâneas da Confederação Argentina) através de uma Confederação, garantindo, desta forma a sua independência política. Já o grupo da minoria, que esteve no comando da revolução e da República Rio-grandense a partir de 1843, propunha uma reforma no estado monárquico brasileiro, defendendo um federalismo entendido enquanto maior autonomia provincial, ou seja, propunham uma efetiva descentralização administrativa e não o fim da Monarquia.

A divisão dessa elite regional foi muito bem explorada pelo Império, representado especialmente na figura de Caxias, que propõe uma paz aos farrapos, e que foi aceita pelo grupo da minoria. O tratado de Ponche Verde, assinado em fevereiro de 1845, é construído como um fato glorioso na história do Rio Grande do Sul, pois os farrapos aceitaram o acordo de paz, isto é, a paz não foi decorrência da derrota nos campos de batalha. Desta forma, essa visão é trabalhada e explorada pela historiografia como comprovação de que os rio-grandenses não eram separatistas e sim patriotas brasileiros acima de tudo. Segundo os escritos do autor Dante de Laytano: “... fomos independentes sem o querermos ser (1983, p.84); “... os revolucionários farroupilhas eram brasileiros em primeiro lugar” (1983, p.83), e no de Coelho de Souza: “A separação era um meio e não foi por isso que o Rio Grande do Sul foi menos brasileiro que antes.” (1972, p.68)

O tratado de paz entre o Império e os farroupilhas vem demonstrar o interesse de manutenção e/ou expansão dos limites fronteiriços do Império brasileiro em relação ao sul, que necessitava da elite rio-grandense e de seus agregados como soldados, pois esse período, que se estenderá por quase todo o século XIX, é de constante instabilidade e guerras no espaço platino.
A partir disso, observa-se que é de vital importância, ao se estudar a história do Brasil e, mais especificamente a do sul, levar-se em consideração que o Rio Grande do Sul pertence a um espaço fronteiriço, que é entendido como espaço social e economicamente construído, que adquiriu um perfil de região, não homogênea, enquanto espaço de circulação de homens, de idéias, de culturas e de mercadorias; ou seja, adquiriu um sentido “transnacional”, pois não se associa a meras delimitações físicas e políticas. Ao estudar a região ou espaço fronteiriço platino, leva-se em consideração a abrangência territorial, o tempo e o contexto histórico.

O espaço fronteiriço caracterizava-se pela entrada e saída de mercadorias, de pessoas, e assim também de livros, favorecendo a formação de uma mentalidade ou cultura resultante da divulgação, propagação e frutificação de idéias oriundas das universidades européias – especialmente as de Coimbra e de Salamanca -, e também das universidades, faculdades, colégios, seminários do continente americano. Os sacerdotes, os leigos juristas, os biólogos, os diplomatas e os maçons6, sendo que muitos desses fundem-se na mesma pessoa, foram verdadeiros mentores e divulgadores dos ideários de liberdade, igualdade e fraternidade, dos ideários autonomistas, separatistas e também centralistas na região, bem como do Direito das Gentes.

Assim sendo, o espaço fronteiriço platino possibilitou a consciência de autonomia, de liberdade e de necessidade da força e da proteção, aspectos presentes na vida da campanha rio-grandense, que se constituíram em fatores que colaboraram na adesão às idéias federalistas no conturbado processo de construção dos estados nacionais. Foi um espaço, por excelência e não exclusivo, de fermentação de projetos federalistas, que apresentaram propostas de organização de um Estado Federal (monárquico ou republicano), de Confederação de Estados, ou ainda como mero discurso ideológico contra o centralismo do Estado Unitário. Nesse sentido, os jornais “O Continentino”, “O Republicano” e “O Povo” foram divulgadores dessas idéias, e possuem textos dos italianos Tito Lívio Zambeccari e Rosseti.

A emigração política para o continente americano está vinculada aos acontecimentos históricos da Europa entre o fim do século XVIII e o início do século XIX. As revoluções italianas tiveram início depois da queda de Napoleão e perduraram de 1820 a 1860, até a unificação italiana de 1861 e a incorporação de Veneza, em 1866, e de Roma, em 1870. Nesse período tiveram atuações especiais as sociedades secretas de inspiração carbonária e mazziniana.

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6 Podiam ser comerciantes, militares que traziam livros, periódicos etc. Eram verdadeiros divulgadores de seus ideais iluministas. Mas é necessário fazermos uma ressalva: a maçonaria não é una, especialmente quando tratamos de ideários políticos.

7 CANDIDO, Salvatore. La emigración política italiana a la América Latina (1820-1870). In: JAHRBUCH fur Geschichte von Staat, Wirtschaft und gesellschaft Lateinamerikas, n.13, 1976, p.220.


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Nos anos 20, do século XIX, Bernardino Rivadavia, um liberal “argentino” apaixonado pela Revolução Francesa, como ministro de Guerra e das Relações Exteriores do presidente Martín Rodríguez (1821-1824), e depois como presidente (1826-27), incentivou a imigração italiana como uma forma de fazer frente à força “montonera gaucha” (exércitos irregulares provinciais vinculados a chefes locais) e com o fim de trazer da Europa “cerebros para la naciente Universidad de Buenos Aires y las actividades culturales argentinas”7, ou seja, queria fazer de Buenos Aires um centro cultural como as grandes cidades européias. Os vínculos maçônicos fizeram que os encontrassem mais facilmente, especialmente entre os exilados políticos. Vieram muitos italianos na chamada “imigração política”: médicos, químicos e artistas contratados para organizar a vida cultural portenha8.

Quase todos esses contratados por Rivadavia eram exilados políticos, porém, entraram muitos outros entusiasmados com a possibilidade de construir uma nova vida e de colocar em prática seus ideais políticos em um contexto de nascentes e/ou novos estados. Segundo Spencer Leitman,9 outro motivo que teria atraído tantos italianos fugitivos políticos foi a motivação recebida através de cartas e a divulgação do sucesso econômico obtido por outros italianos que viviam no espaço platino. E é nessa imigração espontânea que se encontra o nome de Lívio Zambeccari.

Imigrantes italianos são encontrados em Buenos Aires, Montevidéu e no Rio de Janeiro, em núcleos consideráveis. Já no início dos anos 30, os italianos controlavam o sistema de navegação interna do Rio da Prata e eram membros fixos das tripulações dos barcos de comércio costal de cabotagem da América do Sul. Devido ao número de italianos, especialmente nessas regiões portuárias, Leitman informa que, no Rio de Janeiro, havia a “Congrega della Giovane Itália”, organizada por Giuseppe Stefano Grandona com o fim de auxiliar os exilados políticos. Tal associação estava relacionada às operações marítimas e ao comércio portuário, facilitando o contato entre os exilados e a sua circulação nas regiões de Buenos Aires e Montevidéu. Assim, através das atividades marítimas, circulavam informações, idéias, projetos com influência, especialmente das idéias de Mazzini.

A emigração política organizada ou espontânea ocorreu para toda a América e também se destacará no Brasil, quando, por exemplo, em torno de 60 homens, que participaram de movimentos revolucionários na Itália e foram presos na fortaleza de “Civita Castelhana”, aceitaram a proposta de virem para o Brasil para trabalharem em uma colônia agrícola na Bahia, chegando em 9 de fevereiro de 1837, alguns acompanhados de familiares. Muitos desses participaram do movimento de 1838, contra o governo imperial brasileiro, querendo tornar a Bahia um estado livre (CANDIDO, 1976, p.224). E na Revolução Farroupilha, segundo dados coletados de autores que trabalham essa temática, assim como nas fontes encontradas no Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, calcula-se que participaram em torno de 50 italianos.

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8 Alguns nomes citados por Luce Fabbri Cressatti: Pedro Carta Molino, Carlo Enrico Pellegrini, Pedro de Angelis, Carlos Jose Ferrarris, Mossotti, entre outros.

9 Revolucionários Italianos no Império do Brasil. In: PESAVENTO, Sandra Jatahy (org.). A Revolução Farroupilha : história & interpretação. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985. pp.98-109.


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Muitos italianos, como Luigi Nascimbene, Napoleone Castellini e Natalio Rusca, eram comerciantes de gado e de seus derivados junto aos rio-grandenses e uruguaios para os portos de Montevidéu e do Rio de Janeiro. Segundo Spencer Leitman, “sem os italianos, especialmente aqueles bem relacionados em Montevidéu, seria muito difícil praticar o extremamente necessário comércio de gado com o Uruguai, os rebanhos de gado eram trocados por suprimentos de guerra”,10 referindo-se sobretudo ao período da Revolução Farroupilha.

Pode-se observar que o século XIX foi um período de intenso movimento migratório e político também na América do Sul, onde o processo emancipacionista e de construção dos novos estados atraía a atenção e a participação de personagens oriundos dos mais diversos locais, engajados na defesa de ideais e projetos políticos. Assim, a circulação de homens, no Brasil e na região platina, ocorria não só por interesses econômicos e/ou de mercados, mas por interesses ideológicos e/ou crenças ou vínculos políticos, religiosos e/ou maçônicos. Como já foi afirmado, Lívio Zambeccari foi um exemplo disso.

O Conde Lívio Zambeccari (30.6.1802 – 30.4.1862) nasceu em Bolonha, descendente de família nobre, e possuía uma formação superior que o levou à simpatia pelo pensamento político liberal. Quando tinha 18 anos, ocorreu o movimento de Riego, em Cádiz, provocando revoltas em diversas regiões italianas. Bolonha pertencia aos estados Pontifícios e vivenciava um movimento de caráter conspiratório, porém, mais ameno que em outras regiões. Nessa época, Zambeccari, recém filiado à carbonária, é enviado ao reino de Nápoles. Com a derrota desse movimento em Piemonte, e a perseguição a todos os participantes, inclusive com penas que previam a morte, Zambeccari foge para a Espanha, local que ainda permanecia sublevado, com carta de recomendação da Carbonária.

Com a derrota desses movimentos, que propagavam a liberdade e a independência dos regimes tirânicos frente às forças da Santa Aliança, Zambeccari foi para a Inglaterra e a França, onde, mesmo tendo curso superior na área jurídica, resolveu dedicar-se ao estudo das ciências naturais, especialmente a mineralogia. Assim, fugindo de sua condenação por participar de tais movimentos e de apoiar as idéias de Mazzini11, passou então pela Espanha, Inglaterra, França e foi, em 1826, para a América do Sul. Viveu em Buenos Aires, Montevidéu e, posteriormente, no Rio Grande do Sul.

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10 LEITMAN, Spencer, op. cit., p.104.

11 Segundo Mazzini (apud Nascimbene, 1986, p.27), “Era necessário que o impulso para que houvesse um Risorgimento da Itália não se limitasse à ação (...) política e militante (...) de poucos indivíduos ou de estratos sociais restritos, se não que fora uma corrente ampla e profunda de renovação espiritual, de caráter religioso e moral antes de tudo, fundamentada sobre uma fé sólida e profunda em Deus e na Humanidade, depositária da lei divina do progresso, fé que devia investir e arrastar a todo o povo”. [Tradução nossa do espanhol]


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Segundo Luce Fabbri Cressatti12, Zambeccari chegou ao porto de Montevidéu em 1826, com carta de apresentação para Oribe, que lhe encaminhou para a cidade de Durazno, onde se encontrou com Juan Lavalleja e permaneceu por alguns meses, antes de partir para Buenos Aires. Nesse período, a Banda Oriental ou a Cisplatina, que pertencia ao Império do Brasil, estava sublevada e dividida entre os que apoiavam o Império e os que desejavam a independência ou a união às Províncias Unidas do Rio da Prata. Como a Banda Oriental resolve, no Congresso de Florida, somar-se às províncias Unidas, o Império do Brasil declara guerra aos mesmos. Nesse intento, Lavalleja comandou os 33 Orientais com o apoio de Fructuoso Rivera e do presidente Rivadavia pelas Províncias Unidas do Rio da Prata. Porém, o conflito evoluiu para a independência da Banda Oriental, em 1828.

Zambeccari ficou encarregado de organizar a comunidade italiana, que vivia em Buenos Aires, para arrecadar fundos para as famílias dos mortos ou feridos, como também festejos de apoio ao governo através de apresentação teatral e de cantos. Desta forma, a letra do “Inno alla Libertá” ou “Himmo a la Libertad”, em italiano (e, após, traduzido para o espanhol), com letra de Zambeccari e música de Estevan Massini, inspirado no canto de Vincenzo Monti (escrito em 1799, por ocasião da execução de Luís XVI),13 foi vendido entre a população. Transcreve-se o Hino a seguir:

INNO ALLA LIBERTÁ.

Libertade bel dono de Numi
Liberta che deI Cielo sei figIia,
I imortali tu guida, e consiglia
L’orbe accendi dcl sacro tuo ardor,
Ma del Plata le spoode ridenti
Fian per sempre tua gloria e tuo regou
Ed éterno Luo templo ben degno
Sia de figli del sud, l’alto cuor.


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12 Italianos en Brasil y en el Plata en tiempo de Garibaldi. in: Revista Garibaldi. Montevidéu: Asociación Cultural Garibaldina de Montevideo, n.3, 1988., pp.94-95.

13 Informação encontrada em CRESSATTI, Luce Fabbri, op.cit.


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Invan s’adira, e freme
Lo stuol de rei tirauni
Indarno a nostri danni
L’ira gli presta ardir:
Vengan, vedran qual altro
Sveglia valor nel petto,
Di patria un dulce affetto
Di gloria un bel desir.

Vili Sechiavi, si invano tentate
Brandir l’armi né campi di morte
Solo avezzo a portar te ritorte,
Vostro braccio, trattarle non sá:
Ramentate di Sparta i guerrieri
Ramentate di Persia le genti,
Ugual fato v’attende, o strumenti
Del Tiranno che leggi vi dá.

Patria adorata e cara,
I figli tuoi nó mai
Impallidir vedrai
Degli empi al minacciar:
Per Libertade, o morte
Pugnano e fra ruine.
Di nuovi allori il Crine
Sapranno coronar.

Dellefurie sull’are temute
Gli argentini snudondo l’acciaro,
Odio eterno ai tiranni giuraro,
E quel giuro ripetono ognor:
Nasceranno le spiche nel Cielo,
Star vedrasi pria stabile il vento,
Ma nó mai che né petti fia spento
E que odio, c di patria l’amor.
L. Zambeccari14

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14 CRESSATTI, Luce Fabbri. Italianos en Brasil y en el Plata en tiempo de Garibaldi. In: Revista Garibaldi. Montevidéu, n.3, 1988, p.97.

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Observa-se, na letra do Hino, a presença de idéias liberais, onde a defesa da igualdade e da liberdade tem caráter internacionalista e humanitário; portanto, acreditava-se que deveria ser propagado em todos os cantos da Terra e assumido como uma missão “moral universal”.

Lívio Zambeccari, por ocasião da posse de Rosas (1829), no poder da Província de Buenos Aires, partiu para o Rio Grande do Sul, onde foi recebido por Bento Gonçalves da Silva, amigo de Juan Lavalleja. Porém, continuou mantendo contato através de viagens constantes entre o porto de Buenos Aires e o Rio Grande do Sul, que, conforme Ferratti, eram explicadas por seus negócios e estudos na área das ciências naturais. Ficou mais permanentemente no Rio Grande do Sul, em especial em Porto Alegre, a partir de 1833.

Salvatore Candido, salientando a importância da presença de Zambeccari no amadurecimento político da elite rio-grandense, especialmente daqueles diretamente vinculados com o início da Revolução Farroupilha (1835-1845), afirma:

... donde con fecunda y conciente actividad periodística llegaría a ser uno de los inspiradores y teóricos de la revolución republicana que levantaría aquella província en la encarnizada lucha contra el Imperio por su libertad e independencia .Volverá después a Italia y participará hasta 1860 [...] en guerras y revoluciones ...15

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15 CANDIDO, Salvatore, Op.cit., pp.222.
16 Correspondência de Manuel Alves da Silva Caldeira a Alfredo Varela, 5 de maio de 1895, Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, CV-3099, pp.334-335.

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Entre suas atividades, Zambeccari participou de medições de terras realizadas na colônia alemã de São Leopoldo, tornando-se amigo de Hermann Von Salish, que muito auxiliou os farroupilhas na Revolução. Autores como Calvet Fagundes, Dante de Laytano e Yvonne Capuano, mesmo sem se aprofundarem sobre a atuação de Zambeccari, afirmam que ele foi o intelectual de maior influência na época, pois não só atuou na organização de estratégias políticas do início da revolução e da guerra, como realizou traduções de autores europeus, principalmente através de seus escritos nos jornais, como “O Continentino”, vinculado à Loja “Filantropia e Liberdade”, e, mais tarde, no jornal “O Republicano”. Também desenhou mapas cartográficos da cidade de Porto Alegre e pintou quadros e aquarelas com cenários rio-grandenses, especialmente dos combates. Segundo Alfredo Varella, Zambeccari ainda projetou a bandeira tricolor dos republicanos farroupilhas (verde, amarela e vermelha), em Buenos Aires. Tal afirmação também encontra base no documento pertencente ao Processo dos Farrapos, no depoimento de Manuel Lobo Ferreira Barreto:

Estando em Buenos Aires no mês de outubro de 1835, ali falara com um espanhol morador naquela cidade, onde ele mesmo testemunha, estivera hospedado, de nome Dom Carlos Huergo, e que lhe dissera a ele testemunha que naquela cidade, antes da revolução de 20 de setembro, se havia preparado uma bandeira para a República que os Revolucionários pretendiam estabelecer na Província do Rio Grande e que essa bandeira lhe afirmava, a ele testemunha, o dito Dom Carlos e outros membros da família, que tinha sido mandada fazer delineada por um italiano de nome Lívio Zambeccari, o qual se intitulava visconde e que este mesmo italiano sabe ele testemunha viera e fora conduzido a esta Província pelo mesmo Francisco Modesto Franco, em sua embarcação denominada Bela Angélica, para dirigir como sempre dirigiu a revolução desta Província, desde o dia 20 de setembro de 1835 até 4 de outubro de 1836, em que ele, dito Zambeccari, foi preso junto com o Coronel Bento Gonçalves, de quem o mesmo italiano foi sempre inseparável17.

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17 In: Processo dos Farrapos, v.1, pp.226-227.

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Entre os autores traduzidos por Zambeccari e que irão influenciar a elite farroupilha, estão Padre Lamennais (“As palavras de um crente”, publicada na França em 1834, e traduzida em 1835), Juan Sismondi (“Novos princípios da economia política”) e Mazzini. Zambeccari defendia a liberdade através da república e da federação, e proclamava a soberania dos “povos” (províncias, local, no mesmo sentido do termo espanhol “pueblos”) contra a tirania dos governantes, ideais que aparecem nas correspondências, proclamações e textos dos pertencentes ao grupo da maioria farroupilha, chefiado por Bento Gonçalves da Silva e Domingos José de Almeida.

Morivalde Calvet Fagundes18 (1984, p.66) registra que o Jornal “O Recopilador Liberal”, que pertencia a Manuel Ruedas, Calvet e Zambeccari, já em 1832 pregava os ideais federalistas:

... o Continentista, de Sá Brito e de Calvet, publicou um longo artigo de fundo, defendendo o sistema federativo com uma linguagem violentamente revolucionária, onde, com fundamentos ideológicos democráticos, defendia os princípios pelos quais fora feita a Revolução de 20 de setembro. Esse trabalho foi atribuído por alguns a Zambeccari ...19

Nos Anais do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, Coleção Varela20, também encontramos um relato do farroupilha Manuel Alves da Silva Caldeira, tratando da organização do plano da revolução. Diz que: “... Zambeccari, Bento Gonçalves, Onofre e Calvet é que tratavam do assunto da república, sendo Zambeccari a primeira cabeça que planejava a marcha que se devia ter mais tarde [sobre Porto Alegre]...”. E, mais adiante, continua “(...) era um homem muito científico e um perfeito republicano”, referindo-se a Zambeccari.

A presença atuante de Zambeccari e sua participação como elemento pertencente à liderança farroupilha poderá ser averiguada por ocasião de sua prisão junto a Bento Gonçalves da Silva e Onofre Pires na Ilha de Fanfa: “(...) que os liberais detidos em Porto Alegre viram, pela manhã de 7 de outubro, baixar pela escotilha aos infectos porões da Presiganga, onde se achavam, o ex-comandante da Divisão do Norte (Onofre), o secretário de Bento Gonçalves, Zambeccari ...”21.

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18 CALVET FAGUNDES, Morivalde, op. cit, pp. 66.

19 Ibidem., pp. 106-107.

20 Correspondência de Manuel Alves da Silva Caldeira para Alfredo Varela, 5 de maio de 1895, CV-3099, v.5, p. 336.

21 CALVET FAGUNDES, Morivalde, op. cit, pp.170

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Fagundes Calvet informa que Lívio Zambeccari, na prisão (de Santa Cruz passou para a de São João e por fim a de Lages), elaborou uma carta geográfica do Rio Grande do Sul, a partir de outros mapas já existentes, acrescidos de seu conhecimento oriundo das muitas viagens feitas, especialmente com Bento Gonçalves. Tal mapa foi impresso na “litografia Larrée, então existente à rua do Ouvidor, 66, com impressão de J.L. Coelho”22. Também na prisão trabalhou em traduções e na escrita de matérias para folhetos ou jornais liberais do Rio de Janeiro.

Zambeccari também foi quem, na prisão de Santa Cruz, convidou Rossetti e Giuseppe Garibaldi a prestarem serviços à causa republicana dos farroupilhas no Rio Grande do Sul, apresentando os mesmos a Bento Gonçalves da Silva.
Os rio-grandenses presos conseguiram fugir da prisão, com apoio da maçonaria. Zambeccari, porém, por problemas de saúde e por não saber nadar, conforme registros da época, não conseguiu esse intento, permanecendo mais três anos na prisão. Foi liberto em 2 de dezembro de 1839, por anistia concedida pelo governo imperial, na condição que logo que saísse da prisão abandonasse o país. Do Brasil vai para a Inglaterra e, de lá, para a França e a Itália, onde continuou a luta por seus ideais e em defesa da república.

Destacando a participação de Zambeccari, como as de Rossetti e Garibaldi na Revolução Farroupilha, tem-se citação de um dos líderes da Revolução, Domingos José de Almeida, transcrita do Jornal “O Povo”: “Os senhores engenheiros e artilheiros têm tido um procedimento que se não compadece com os defensores de princípios; cuidam que nadamos em ouro; não é fácil encontrarmos muitos Zambeccaris, Rossettis e Garibaldis...”

Podemos observar, portanto, que a experiência européia da luta pela valorização das regiões, que poderiam se unir por suas aproximações culturais, através de laços que garantissem a sua liberdade ou a sua autonomia (federalismo), e não a centralização, encontraram eco nas lutas pela independência das províncias e regiões no Continente Americano. Com isso, tais realidades aproximaram e motivaram os sonhos e ideais de muitos homens, nos quais destacamos os italianos, que para cá vieram e participaram, nesse momento, do processo de construção dos estados nacionais na América, e nesse espaço fronteiriço platino.

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22 CALVET FAGUNDES, Morivalde, op. cit, pp.176.

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Assim, percebe-se que a temática que envolve a emigração para a América do Sul, e nesse caso para a região platina e para o Brasil, neste ano de 2005, em que se completam os 130 anos da imigração italiana para o sul do Brasil (enquanto projeto político do governo do Império brasileiro de criar colônias) e os 170 anos da Revolução Farroupilha, merece ainda mais atenção, por marcar tanto o processo histórico de formação do Rio Grande do Sul como o de sua identidade cultural e regional, percebidos na denominação de municípios de regiões de colonização italiana, com personagens da Revolução Farroupilha, como Bento Gonçalves, Garibaldi e Caxias.

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