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Porto Alegre sitiada
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Porto Alegre sitiada


Sérgio da Costa Franco 1
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Procurador de Justiça aposentado e historiador


Com alguma surpresa, porque a Revolução Farroupilha não é um assunto de minha preferência, fui convidado para este painel. Tenho pesquisado mais sobre a vida republicana do Rio Grande do Sul, a Revolução Federalista, a Velha República e, depois, a história urbana de Porto Alegre. Entretanto, minha atenção foi despertada para um capítulo pouco estudado da Revolução Farroupilha, que foi o sítio ao qual a cidade de Porto Alegre foi submetida durante quatro anos. Rigorosamente, foram três sítios com duas interrupções, mas que tiveram marcante influência na vida da cidade, cujo desenvolvimento foi paralisado de 1836 até 1840. É um capítulo pouco estudado.

E por quê? Especialmente porque tivemos, na história da Revolução Farroupilha, uma história de glorificação dos farrapos. É curioso, mas essa parte da historiografia gaúcha é marcada pelo mito, pelo imaginário, pelo interesse político. Cabe aqui fazer uma análise dos motivos.

Fim da Revolução Farroupilha. Em 1845, fez-se a paz. Foi muito hábil a pacificação realizada por Caxias, de extrema eficácia, porque, em seguida, as fileiras se misturaram. Farrapos que tinham sido até ministros da República Rio-grandense passaram para o partido dos conservadores, e velhos legalistas com tradição, como o Conde de Porto Alegre, foram integrados depois ao partido dos liberais. O Partido Liberal teve como chefe de uma de suas facções no Rio Grande do Sul o Conde de Porto Alegre e, de outra, o General Osório. Ambos lutaram na Revolução Farroupilha ao lado dos imperiais.

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1 Texto transcrito da palestra proferida no Seminário Internacional “170 Anos da Revolução Farroupilha
– o Legado de Bento Gonçalves, Garibaldi e Anita” e revisado pelo autor.


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Salvo os generais, Caxias manteve todos os oficiais do exército da República Rio-grandense em seus postos, pagaram-se as dívidas contraídas por ela e, de um modo geral, os atos praticados pela República foram respeitados. Quem estudar a história da Assembléia Legislativa Provincial verá que se fez silêncio depois da pacificação em 1845, ninguém mais falou da Revolução Farroupilha, e isso durante 30 anos, de 1845 até 1875, aproximadamente. A Revolução Farroupilha foi um capítulo arquivado.

Quem foi o autor do primeiro livro que surgiu? Tristão de Alencar Araripe, um legalista. A obra era “A guerra civil do Rio Grande do Sul”, o autor era um cearense, funcionário do Governo, que veio ao Rio Grande do Sul e o conheceu como presidente da província. Havia uma espécie de contrição pela longa e desastrosa guerra civil.

Foram os jovens estudantes da faculdade de Direito de São Paulo, Julio de Castilhos, Alcides Lima, Assis Brasil e outros que começaram a manifestar interesse pela história da República Rio-grandense e pela história farroupilha. Há uma carta muito interessante, que está no arquivo do Instituto Histórico, dirigida pelo então estudante Julio de Castilhos, ainda em São Paulo, para Apolinário Porto Alegre, pedindo a ele que estudasse e divulgasse a história da Revolução Farroupilha. Lá, eles fundaram o Clube 20 de setembro, com esse interesse específico. Em 1880, quando é publicado um livro de Assis Brasil sobre a história da República Rio-grandense, começa a nascer o interesse político por sua história. Mas não era um interesse científico, com a devida preocupação de objetividade que deve ser o aspecto dominante da historiografia.

O estudo sobre a Revolução Farroupilha nasceu em função da propaganda republicana e da fundação do Partido Republicano. Quando vitoriosa a República, o hino, a bandeira e as armas da República Rio-grandense passaram a ser oficiais. Então, o Rio Grande do Sul incorporou oficialmente o patrocínio da história da República Rio-grandense, um caso raro. A outra exceção, creio, foi Pernambuco, que tem como bandeira a da Confederação do Equador. Mas, de todos os pensamentos federalistas que surgiram durante a Regência apenas o do Rio Grande do Sul se consolidou no imaginário regional e se oficializou, por assim dizer.

Surgiu, então, uma história oficial de culto aos farrapos, mas ignorando o lado dos adversários, que não foi inexpressivo. Porto Alegre, Rio Grande, Pelotas e São José do Norte mantiveram-se fiéis à integridade do Império, e não acompanharam e secundaram os líderes da Revolução Farroupilha. O fato se explica porque todo o comércio do Rio Grande do Sul se dirigia ao Brasil, e não podia perder o mercado brasileiro sob o ponto de vista econômico. Em conseqüência, a fundação da República Rio-grandense é um paradoxo, já que não tinha fundamento nem objetividade econômica.

Isso traduz toda essa digressão e responde à pergunta de porque o sítio de Porto Alegre é um assunto arquivado em nossa historiografia. Além disso, temos aqui o estranho caso de cultuar como heróis justamente aqueles que atacaram a cidade com violência. O general Neto, que assestou seus canhões sobre ela e a bombardeou repetidamente durante vários meses, hoje é nome de rua em Porto Alegre. O general Bento Gonçalves, que também bombardeou a cidade e tentou atacá-la várias vezes, também é nome de rua.

Já Francisco Pedro de Abreu, o Barão do Jacuí, que muitas vezes salvou Porto Alegre da fome, trazendo gado para abastecer a cidade quando estava sitiada, não tem seu nome em uma rua sequer dentro de Porto Alegre. Francisco Pedro de Abreu foi exemplo de um dos maiores combatentes de toda a guerra civil, de grande habilidade tática e especialista em surpresas.
Derrotou, individualmente, todos os comandantes rebeldes com suas incursões, e terminou sepultando a Revolução Farroupilha no combate de Porongos. Da mesma forma, o major Jorge Mazarredo, comandante do 8º Batalhão de Caçadores, que morreu em combate na Várzea (hoje Parque Farroupilha), mostrou valentia e muito brio. Ambos não receberam qualquer homenagem da cidade. Por sua vez, o coronel-brigadeiro Francisco Xavier da Cunha, que comandou a cidade durante longo tempo, e depois morreu no Passo de Santa Vitória, na divisa com Santa Catarina, nunca foi lembrado na capital. Tive o cuidado de olhar todo o elenco das ruas de Porto Alegre para ver se aparecia alguma menção aos comandantes legalistas. Apenas o Conde de Porto Alegre, que depois foi chefe político, líder do Partido Liberal, é tratado diferentemente, e isso explica a homenagem que lhe foi feita. Foi a primeira pessoa que recebeu uma estátua em praça pública em Porto Alegre.

Os fatos mostram quanto a nossa historiografia é distorcida. Ela é decididamente inclinada a enfeitar a memória dos farroupilhas e denegrir a memória dos legalistas. Mas o assunto não me interessava tanto sob esse aspecto, não sou afeiçoado à história militar, mas sim pelo ponto de vista da história da cidade.

Porto Alegre foi conquistada pelos farroupilhas em 20 de setembro de 1835, mas mantiveram-na apenas por nove meses, até junho de 1836. Em seu domínio, mostraram-se inábeis e atritaram-se logo com o comércio da capital. Em certos meios, havia uma obsessão anti-lusitana, no que pontificava Pedro Boticário, que era um agitador muito demagogo e chegou a apresentar um projeto para expulsar todos os portugueses de Porto Alegre. Isso representava expulsar todo o comércio da época, que ainda não tinha sido dominado pelos alemães, e se mantinha como um comércio decididamente português.

Ocorreu, então, que a Câmara Municipal se esvaziou, porque havia, pelo menos, três vereadores que eram fortes comerciantes portugueses ameaçados de expulsão. Eles trataram de tirar férias em Rio Grande, onde era mais tranqüilo. As agitações e, sobretudo, o clima de radicalismo criado por Pedro Boticário e sua facção terminaram indispondo a capital, ou grande parte da população, contra seus ocupantes. Isso explica a facilidade com que os legalistas retomaram Porto Alegre em junho de 1836.

Os oficiais que estavam presos articularam-se com alguns que estavam em liberdade, retomaram o quartel do 8º Batalhão de Caçadores, dominaram a guarnição e tomaram conta da cidade. Os farroupilhas procuraram reconquistá-la imediatamente, mas não conseguiram. Já nos últimos dias de junho, Bento Gonçalves dirigiu uma proclamação, ameaçou severamente a guarnição legalista e a cidade, mas ela não se assustou. Porto Alegre já estava sob o comando de alguns velhos marechais bastante experientes, como Francisco das Chagas Santos e João de Deus Mena Barreto, com longo tirocínio na guerra da Cisplatina, alguns desde a expedição de Dom Diogo de Souza, em 1812. Eram militares testados, não se assustaram com a intimação e resistiram, mesmo com grande inferioridade numérica. A cidade tinha aproximadamente 300 homens em armas, mas desde logo abriram-se trincheiras. Ainda que sem artilharia, a população ajudou a resistência e, apesar do violento ataque no dia 30 de junho, os farroupilhas não conseguiram retomá-la. O primeiro sítio prosseguiu até setembro de 1836, durou três meses, sendo que os ataques mais severos foram em 30 de junho e 20 de julho, mas em ambos os casos Porto Alegre resistiu.

O bloqueio não era apenas por terra, mas também pelo setor do lago, no Guaíba. Os farrapos trouxeram embarcações, e com elas obstaculizaram o comércio da cidade através da Lagoa dos Patos, ao fortificarem o estreito de Itapuã. Em conseqüência, até fins de agosto, Porto Alegre ficou completamente isolada do sul da Província, sem poder receber recursos bélicos e auxílio militar de Rio Grande, que mantinha contato com o resto do Brasil.

Mas, em agosto, organiza-se a retomada de Itapuã. Caiu então o fortim que os farrapos tinham estabelecido. Também a ilha do Junco, onde haviam se fortificado, foi retomada pelos legais e, com isso, foi restabelecida a comunicação com a Lagoa dos Patos e com o porto de Rio Grande. Em fins de julho, chegara um reforço importante: Bento Manoel Ribeiro, que começara como farrapo e depois aderira aos legalistas. Ele surgiu defronte à cidade, onde hoje é Guaíba, com uma força de 800 homens. Socorreu Porto Alegre que, naquele momento, encontrava-se numa situação difícil. Trouxe armas, gente, munição e alimentos.

Naquele momento havia grande escassez de carne na cidade, as dificuldades de abastecimento já se fizeram sentir desde o primeiro sítio. Com a chegada do Bento Manoel, Bento Gonçalves, que dirigia o cerco à cidade, pretendeu escapar de uma possível marcha de flanco e de um envolvimento pela retaguarda, e então retirou-se e aliviou o sítio. Na retirada, ele tentou passar o Rio Jacuí, rumo ao sul da Província, e, na batalha de Fanfa, foi vencido e aprisionado, juntamente com grande parte da cúpula dos farroupilhas, em 4 de outubro de 1836.

Deu-se, então, um intervalo de cerca de oito meses, em que a cidade ficou livre de cerco. Até maio de 1837, foram oito meses de intervalo do sítio, mas isso não representou o fim dos problemas. A cidade já tinha cavado trincheiras, e daí foi estabelecido um sistema de entrincheiramento. Duas plantas, de 1836 e 1837, mostram a cidade sitiada e seu sistema de defesa.
O segundo sítio estendeu-se de fins de abril de 1837 até fevereiro de 1838. Um pesado ataque farroupilha ocorreu em 20 de junho de 1837. A cidade tinha recebido reforços e artilharia, e estabelecido cerca de 22 bocas de fogo. Foram montados 15 baluartes. A cidade nunca teve muralha, o que havia eram trincheiras, valas profundas de quatro metros de profundidade. Nos intervalos estavam os baluartes artilhados, com um ou dois canhões em cada um deles. Os baluartes começavam na rua Coronel Vicente, na esquina com a Voluntários da Pátria, subiam até o alto da Santa Casa, passavam por trás da Santa Casa, onde é a Rua Avaí. Hoje, a cidade está toda desfigurada pela abertura da Perimetral, mas as fortificações seguiam em direção ao Pão dos Pobres, onde estava o limite extremo da linha de entrincheiramento.

Após o intervalo do sítio, que levou oito meses, os farrapos voltaram a atacar a capital. Houve, na ocasião, um cerco bem mais agressivo porque o general Antônio Souza Neto trouxe artilharia de campanha e chegou com 1.400 homens, que atacaram repetidamente a cidade. A defesa era composta por 700 infantes, 250 cavalarianos e os civis, voluntários, que tiveram grande importância porque, a qualquer sinal de ataque, os paisanos locais apareciam nas trincheiras e se apresentavam para a luta.

Uma das principais fontes que utilizei em meu estudo foi uma espécie de diário de um paisano, um português que era comerciário e foi, em certos momentos, vice-cônsul do Reino da Sardenha. Seu nome era Antônio Barreto de Queirós. Ele produziu um manuscrito interessante, minucioso ao extremo. Acredito que ele dava ao texto um caráter jornalístico e mandava para o Jornal do Comércio do Rio de Janeiro, como um diário de todos os acontecimentos ocorridos no interior da cidade sitiada. Embora muito prolixo, o diário apresenta observações sobre o caráter da política local, sobre os comandantes, e o que ele entendia serem erros de tática ou estratégia, além de muitas observações e comentários de natureza política. Era um antiliberal declarado, mas, apesar disso, seu diário é bem interessante e informativo.

Num ataque, em 20 de junho de 1837, sete pessoas morreram e 15 casas foram arruinadas, algumas destruídas, outras incendiadas. A verdade é que a artilharia, tanto a dos rebeldes quanto a dos legalistas, era pouco eficiente. Registrei algo interessante nesse diário. O autor observava que, às vezes, não convinha atirar com os canhões de defesa da cidade porque as balas era reaproveitadas pelos atacantes, já que eram do mesmo calibre. Confirmei a afirmação através de uma correspondência do capitão da guarnição, que dizia ser interessante usar apenas os obuses que eram de maior calibre e não correspondiam à artilharia dos farrapos, e, portanto, os projéteis não podiam ser reaproveitados.

A artilharia era fraca, mas produzia alguns danos materiais. A população escondia-se, fugia do ponto de alcance dos canhões rebeldes e, assim, evitavam-se males maiores. O número de mortos e feridos sempre foi pequeno, mas ocorreram vários ataques. Na ocasião, o general Neto tinha convicção de que era importante tomar Porto Alegre, mas ele foi ineficaz nesse ponto e nunca conseguiu vencer as defesas dos legalistas. Como base de apoio aos ataques, manobras e incursões, ele fundou um forte, uma construção fortificada em um agrupamento de casas, onde instalou seu grupo de atacantes.

Esse foi o único vestígio que ficou incorporado à linguagem da cidade de Porto Alegre, que é a estrada do Forte, uma ligação do Passo da Areia com a Avenida Protásio Alves, na Vila Jardim. Ali, na Rua Saturnino de Brito, numa pequena elevação, existia o forte construído pelo general Neto. Restaram apenas as marcas verbais, e aparentemente nenhum vestígio material. Arqueólogos talvez descubram alguma coisa nos locais onde esses baluartes foram montados, mas até hoje não me consta que tenham encontrado coisa alguma. Mas o forte do general Neto legou o nome à Estrada do Forte, que hoje é a Avenida do Forte. Mas, para escapar a uma manobra de flanco planejada pelos legalistas, que contornaria suas forças e cortaria sua retirada, os farroupilhas deixaram suas posições no cerco, dando uma trégua no sítio à cidade no período de fevereiro a junho de 1838.

O terceiro sítio, de junho de 1838 a dezembro de 1840, foi o mais longo e mais frouxo porque foi um cerco praticado à distância, primeiro por Bento Gonçalves, e depois por David Canabarro. Eles mantinham seus quartéis em Gravataí, São Leopoldo e Viamão, portanto relativamente distantes de Porto Alegre. Do período, fica a impressão de que a tomada da cidade deixara de ser um objetivo estratégico, e fora substituída pela preocupação em reter as forças legalistas em Porto Alegre. Como a revolução se deslocara mais para o interior do Estado, parece que, para os rebeldes, o mais importante era manter uma força numerosa em Porto Alegre, evitando que se deslocasse para o interior da Província no enfrentamento das forças farroupilhas. E alcançaram esse objetivo porque os legais permaneceram aqui em grande número.

Mais de 2.000 homens vieram para cá, incluindo batalhões da Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro. Na época, a guarnição de Porto Alegre teria, segundo Tasso Fragoso, 1.350 homens de infantaria, 131 de cavalaria, 94 de artilharia, mais 500 homens das guarnições das trincheiras, nas baterias que, em geral, eram servidas pelo batalhão provisório e por voluntários.

No terceiro sítio não ocorreram ataques frontais à cidade, ao entrincheiramento. Ao contrário, foram os legais que partiram para o combate fora das trincheiras. Os sitiados promoveram várias incursões, combates na Azenha, na Chácara das Bananeiras, na região da Aparício Borges, dos atuais quartéis da Brigada Militar, e em Viamão, onde Luigi Rossetti morreu em combate. Ele foi o grande jornalista da Revolução Farroupilha, e redigiu o jornal “O Povo”.

Daí em diante, até dezembro de 1840, quando se retiram as forças de David Canabarro, que tratou de enfrentar a incursão do general Labatut, que vinha pela Serra, e depois as de Bento Gonçalves, a revolução se aproximou mais da paz. O presidente Alvares Machado e Bento Gonçalves trataram uma conferência de pacificação, e o cerco tornou-se mais simbólico do que outra coisa. O período dos sítios de Porto Alegre terminou em dezembro de 1840. O que temos a destacar nesse período: primeiro, as dificuldades de abastecimento da cidade, a escassez de carne, de charque (disso há várias queixas repetidas na Câmara Municipal, daí a necessidade de racionamento e as encomendas especiais). Além disso, as reclamações dirigidas a Rio Grande para que mandasse os navios, que tinham que vir em comboio.

Isso representava uma grande dificuldade, porque os comboios deveriam ser guarnecidos por embarcações da Marinha. Os barcos de Garibaldi, corsários farroupilhas, atuavam na Lagoa dos Patos e tinham sua base na foz do Camaquã. Havia, também, severos controles da navegação fluvial, para reprimir o contrabando, porque o comércio era feito clandestinamente, através de sitiados em acordo com os farrapos. Eram necessários inúmeros documentos de controle, por exemplo, para que um barco saísse da cidade. Era preciso levar um salvo conduto assinado pelo chefe da polícia, e esse foi outro fato marcante no período dos cercos.

Porto Alegre foi, de certa forma, salva por São Leopoldo, que abastecia regularmente a população da cidade através do Rio dos Sinos. Os farrapos desde logo perderam seus barcos, já no primeiro sítio. Depois, eles, que tinham se adonado de algumas embarcações, perderam o controle do rio e de seus acessos, e isso permitiu a ligação com São Leopoldo, quando o abastecimento melhorou.

Cabe notar que a imprensa esteve em grande atividade durante todo o período do sítio. Inúmeros jornais – todos favoráveis ao Governo – foram publicados na época legalista. Havia também uma cultura dos manifestos, nossos arquivos estão cheios de proclamações. Cada oficial, ao assumir o comando da guarnição, baixava uma proclamação; os governadores, quando assumiam, também baixavam suas proclamações, que circulavam dentro e fora das trincheiras.

Quanto à atividade política, deve-se dizer que a Assembléia Legislativa Provincial não funcionou em 1838 e 1839, por não ter havido eleições até 1846. Mas, em 1840, houve vários julgamentos do Tribunal do Júri, quando o cerco ainda não havia cessado. Encontrei sessões do Júri, de setembro de 1840, momento em que a cidade ainda estava sob sítio, mesmo que um tanto distante, frouxo, mas sob sítio.

Assim defendida, a cidade viveu até findar a Revolução Farroupilha. O término do sítio, sob o ponto de vista da história de Porto Alegre, foi um acontecimento, porque logo a cidade começaria a se expandir e iniciaria a regularização da Avenida Independência, da Cristóvão Colombo, da Azenha. Foi uma grande expansão urbana que a cidade viveu a partir de 1844, depois de ter sido reprimida durante quatro anos. Nesse momento, ela começa a se projetar para fora da área das trincheiras, que finalmente foram desfeitas.

 
 
 
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