Mensagem do
Ministério Público
Ricardo Vaz Seelig
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Procurador de Justiça
Ministério Público do Estado do Rio Grande
do Sul
É com grande satisfação que
o Ministério Público do Estado do Rio
Grande do Sul participa da organização
desta obra, resultado do Seminário Internacional
“170 Anos da Revolução Farroupilha”,
realizado em setembro de 2005, ocasião em que
assinalamos, também, os 170 anos do parlamento
gaúcho e os 130 anos da imigração
italiana em nosso Estado.
Fruto da conjugação de profícua
parceria com a Assembléia Legislativa e importantes
apoiadores culturais e institucionais, o empreendimento
reafirmou o papel que as instituições
desejam desempenhar na promoção e proteção
do patrimônio histórico e cultural, missão,
aliás, conferida pela Constituição
ao Ministério Público.
O evento alcançou grande repercussão na
mídia e no meio acadêmico, tendo contado
centenas de inscritos que lotaram o Teatro Dante Barone,
em face da reunião de uma verdadeira plêiade
de estudiosos que se debruçaram sobre um dos
mais expressivos episódios de nossa história,
não só regional como nacional.
Os conferencistas e painelistas convidados, dentre os
mais expressivos conhecedores da matéria, discorreram
sobre temas como a participação do negro
e da mulher na Revolução Farroupilha,
o seu contexto político e ideológico,
a gestação dos mitos farroupilhas, a participação
de estrangeiros como Garibaldi e a relação
da Guerra dos Farrapos com a vizinha República
Oriental do Uruguai.
A presente edição, coletânea dos
textos integrais de tais conferências e palestras,
entre tantos méritos, possibilita a abertura
de um espaço de reflexão e discussão
séria e profunda sobre a nossa história
e cultura, marcos edificantes onde se assentam a nossa
identidade e personalidade como povo.
Ao chancelar, pois, a publicação dos anais
desse grande encontro, o Ministério Público
do Estado do Rio Grande do Sul espera haver contribuído
para o debate sobre os elementos fundantes de nossa
identidade regional, bem como sobre o fato de que a
construção do modo de ser da sociedade
gaúcha e nacional não é resultado
apenas do consenso e de projetos vitoriosos, mas também
do choque de homens e idéias, reveladores da
multifária identidade deste país continental.
Palavra dos editores
Omar L. de Barros Filho e Sylvia Bojunga
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Jornalistas e editores
Na era da informação virtual e veloz,
este livro é uma provocação, quase
um ato de rebeldia. A razão disso está
em seu próprio cerne: múltiplas e, muitas
vezes, contraditórias abordagens sobre personagens
e fatos que não estariam tão presentes
nos dias de hoje não fosse o intenso trabalho
dos historiadores e pesquisadores. Os vultos aos quais
nos referimos na presente obra são os relacionados
com a Revolução Farroupilha, que ajudaram
a moldar a face política do Rio Grande do Sul
e do Brasil, além de sua relação
com os países do Cone Sul do continente. Os atores
desses episódios da história do século
XIX, aqui examinados sob distintas angulações,
entre eles os lendários Bento Gonçalves,
Giuseppe Garibaldi e Anita, praticamente se incorporaram
às lendas da construção política,
social e cultural da região, os dois últimos
também na mitologia das lutas pela unificação
do Estado italiano moderno.
Há 30 anos, o instigante pensador Paul Virilio
sacudiu o cenário intelectual francês com
sua denúncia contra a tirania do tempo real e
da velocidade, letais armas de guerra e poder, que hoje
atingem o grau absoluto e elevam o conhecimento a uma
dimensão infinita, quando sabemos tudo até
sobre o que não aconteceu em nosso espaço
real. Quando entramos nessa hiperdimensão, corremos
o risco de perder a noção de quem somos
e, principalmente, de quem fomos, e a memória
pode deixar de ser um atributo humano necessário
para a preservação de nossa identidade
individual e coletiva.
O alerta de Virilio contribui para enfatizar ainda mais
o caráter desta obra conjunta, carregada de sentido
de humanidade, na medida em que o livro transporta o
leitor para um outro universo histórico e mítico,
quando os protagonistas regionais dos dramas nele analisados
estavam longe de se transformar, para muitos, em heróis
e arquétipos das gerações futuras.
Era um tempo de “velocidades relativas”,
em que “o gaúcho andrajoso sobre um pingo
bem aparado”, como o descrito por Euclides da
Cunha, em “Os Sertões”, fustigava
a cavalo as tropas imperiais, transportava barcos à
vela sobre carretas puxadas por bois, e o legalista
reaproveitava, em seu próprio canhão,
os projéteis lançados pelo inimigo sobre
as trincheiras, no cerco de Porto Alegre.
Naquele tempo, quando as fronteiras do sul do Brasil
estavam por se definir, gastavam-se meses em uma boa
conspiração, como as que faziam por carta
os dissidentes da Jovem Itália, até que
mensagens cruzassem o oceano e respostas retornassem
para alimentar a difícil e aguda argumentação
política sobre realidades e países tão
distantes, muitos em pleno processo de conformação.
O salto “para trás”, de olho na História,
ocorre justo no ano de 2007, em que a Itália,
os italianos e seus descendentes no exterior, dispersos
em milhares de comunidades em todos os continentes,
assinalam a passagem do bicentenário do nascimento
do herói dos dois mundos, o General da Unificação,
Giuseppe Garibaldi. Não foi uma coincidência.
Este livro começou a se delinear em 2005, quando,
juntamente com o Memorial do Ministério Público
do Rio Grande do Sul, iniciamos os preparativos para
a realização de um grande seminário
internacional, que ocorreu de 14 a 16 de setembro daquele
ano, no teatro Dante Barone, na Assembléia Legislativa
gaúcha.
Na ocasião em que comemorávamos os 170
anos da Revolução Farroupilha, os 170
anos do parlamento estadual e os 130 anos da imigração
italiana no Rio Grande do Sul, compareceram ao evento,
como convidados internacionais, três relevantes
conferencistas: Annita Garibaldi Jallet, bisneta de
Giuseppe e Anita, professora, constitucionalista e pesquisadora
italiana; Spencer Leitman, historiador norte-americano
e referência por seus estudos sobre aquela etapa
da vida rio-grandense, em que o fim da escravidão
era uma promessa a cumprir; e o diretor do Museu Histórico
Nacional do Uruguai, o historiador Enrique Mena Segarra,
um devotado estudioso das raízes históricas
de seu país e de suas relações
com as nações vizinhas. Agora, esta edição
reproduz, em língua portuguesa, os conteúdos
integrais das três conferências, que conferem
à obra a generosa particularidade do “olhar
estrangeiro”, mas profundamente identificado e
próximo ao horizonte local.
Na oportunidade, participaram das mesas expositoras
12 historiadores e especialistas brasileiros que, tendo
como ponto de partida os significados regional, nacional
e internacional da Revolução Farroupilha,
e suas utopias, mitos, realidades e ordenamento jurídico,
retrataram a diversidade das relações
sociais geradas pelo movimento irredentista que abalou
o Império brasileiro. Foram também focalizados,
no encontro, a presença e o destino dos primeiros
imigrantes italianos que desembarcaram no Rio Grande
do Sul, em 1875, vindos, em sua maioria, do porto de
Gênova, a mesma cidade liguriana de onde partira
Giuseppe Garibaldi rumo à aventura no Brasil,
cerca de quatro décadas antes.
Em conclusão, registramos a importância
fundamental da parceria estabelecida com o Banco do
Estado do Rio Grande do Sul e a Souza Cruz, patrocinadores
deste projeto cultural, e do Ministério da Cultura,
que tornaram possível a edição
deste livro. Destacamos, também, a marcante contribuição
e dedicação dos autores e parceiros institucionais,
que nos apoiaram irrestritamente. Da mesma forma, agradecemos
às centenas de participantes inscritos no Seminário
Internacional 170 Anos da Revolução Farroupilha
– o legado de Bento Gonçalves, Garibaldi
e Anita, que foram a garantia última do êxito
de nossa iniciativa.
Os protagonistas italianos
da Revolução Farroupilha
Annita Garibaldi Jallet
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Advogada constitucionalista, cientista
política,
bisneta de Giuseppe e Anita Garibaldi
Premissa
Uma referência sentimental
Desejo, inicialmente, referir-me ao que foi
escrito por minha tia, Annita Italia, filha de Ricciotti
Garibaldi, irmã de meu pai Sante, que, em 1932,
publicou um livro intitulado “Garibaldi in América”.
Este livro foi duramente criticado pelo finado professor
Salvatore Candido, e o motivo dessa avaliação
é que a obra teria pouco ou nada de científico.
Nasceu de uma longa viagem que Annita Italia fez ao
Brasil e ao Uruguai, percorrendo os caminhos de seus
avós, Giuseppe Garibaldi e Ana Maria Ribeiro.
A autora nasceu em 1878, na Austrália. Quando
começou a viagem pela América Latina,
em 1929, já tinha 50 anos. Ela escreveu: “Foi
para mim uma viagem de recolhimento e de paixão;
uma peregrinação, quase uma consagração.”1
O seu guia, seu “Baedecker”, foram as “Memórias”
de Garibaldi, recordações do seu avô.
Quando retorna à pátria, em 1932, publica
seu livro em português e em espanhol, antes mesmo
que em italiano.
Fazendo uma ligação entre minha conferência
e as demais que integram este simpósio, quero
dizer que me expresso perante os respeitáveis
historiadores e estudiosos brasileiros com o sentimento
de não poder adicionar ao seu conhecimento mais
do que um testemunho daquilo que li na historiografia
italiana, mas, sobretudo, do que aprendi por ocasião
de três viagens ao Brasil, terra que hoje já
faz parte da minha própria identidade.
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1 GARIBALDI, Annita Italia. Garibaldi in America.
Roma: A. I. Garibaldi, 1932. p.12.
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Experiências complementares entre Brasil
e Itália na primeira metade de 1800
Acredito que seja útil lembrar, também,
que, ao nos referirmos ao Rio Grande do Sul e ao Brasil,
assim como à Itália, na primeira metade
de 1800, estamos tratando de duas situações
políticas muito instáveis, e, por isso,
comparáveis em certo sentido. O Rio Grande, no
sul do Brasil, era terra de fronteira ainda não
totalmente explorada, carente de uma cartografia completa,
muito pouco povoada por grupos que dificilmente se fundiriam
em uma mesma nacionalidade. Somente a partir de 1801
seria incorporado definitivamente ao Brasil, mais por
acordos internacionais do que por escolha. Além
disso, o próprio Brasil aspirava sua independência.
A idéia de povoar o Brasil com colonos europeus
tem origens antigas, e foi levada em consideração
justamente pelo Governo, no Rio de Janeiro, para aumentar
a escassa população, até então
predominantemente portuguesa. Uma legislação
foi criada especialmente, e emissários do Governo
foram mandados para a Europa. Outras leis foram adotadas
em 1824, tornando a imigração mais orgânica,
e atraindo, principalmente, levas de alemães.
Os italianos eram poucos até 1875, mesmo que
alguns chegassem como austríacos, antes da unificação
da Itália. De qualquer maneira, poderiam ser
contados nos dedos de uma mão.
Na primeira metade do século XIX, e também
depois, não é a grande presença
de conterrâneos que atrai uma elite italiana ao
Brasil, mas fatos políticos peculiares à
Europa (basta lembrar as datas de 1814, 1821 e 1831),
que obrigam algumas pessoas importantes, em geral de
origem nobre, a ir para o exílio. Quase todos,
porém, têm um passado político e
levam com eles idéias modernas e de liberdade.
Eles encontram uma boa acolhida na elite liberal dos
grandes proprietários, em luta para obter do
Governo do Rio de Janeiro uma gestão de província
mais autônoma, e uma reavaliação
dos impostos exorbitantes.
Não se deve, por outro lado, omitir que os imigrados
ou exilados italianos encontraram, no Rio de Janeiro,
ambientes liberais autóctones, ligados à
cultura européia, cosmopolitas, que não
esqueceram do grande sonho de Bolívar e não
eram indiferentes aos fatos da América do Norte.
Havia também uma refinada cultura, vinculada
à procura de uma identidade brasileira, que ligava
fortemente o romantismo literário e artístico
europeu àquele que, com a colaboração
também de artistas vindos da Europa, florescia
no Brasil, jogando sobre os revoltados do Rio Grande
do Sul uma luz romântica, perfeitamente exportável
para a Itália2.
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2 Acontece neste momento, em Paris, uma mostra no
Museu della Vita Romantica, hospedado na casa que foi
de Madame de Staehl, voltada a um Brasil romântico,
apresentando telas de Alessandro Cicarelli (1811-1879),
junto com telas brasileiras e francesas (Nicolas Antoine
Tonnay e Jean Baptiste Debret), que fazem parte do acervo
da Fundação Estudar, de São Paulo.
A mesma imagem romântica deduz-se dos filmes que
o Brasil propõe na Europa, inspirados na “Casa
das Sete Mulheres”, onde os personagens da Revolução
Farroupilha, e do século XIX no Brasil, aparecem
sempre em uma versão romântica que coincidia
com o ânimo da Europa dos tempos de Mazzini e
Garibaldi.
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A Itália: uma série de estados, um reino
ao norte, uma aspiração, mas nada em perspectiva
para as idéias liberais e unitárias. Entretanto,
ali também havia uma burguesia emergente, iluminada,
cosmopolita, sacudida de modo irreversível pela
Revolução Francesa e pela grande aventura
napoleônica, cujas conseqüências amadureceram
antes, depois da Restauração, na Espanha,
que dá à América a sua primeira,
mas pequena, fornada de exilados europeus.
Os tempos da Revolução Farroupilha foram,
na Europa, anos de grande amadurecimento político,
no sentido liberal e republicano. E talvez isso explique
porque aqueles heróis que não morreram
no Rio Grande (essencialmente Garibaldi e Zambeccari)
pudessem desenvolver, na Itália, uma ação
em continuidade com seu empenho no Novo Mundo; principalmente,
no caso de Garibaldi, depois de tê-lo aperfeiçoado
e ampliado com outras experiências sul-americanas.
O Rio Grande do Sul antecipa, se é possível
fazer essa comparação, os problemas da
Unificação da Itália. Unido o Brasil,
nem todos ficaram satisfeitos com as condições
dessa unificação. Assim seria na Itália
depois da Expedição dos Mil, onde era
mais difícil resolver o problema: o sul da Itália
não era, de fato, terra quase completamente vazia,
e alguém, no norte, chegou a lamentar-se disso.
As experiências são semelhantes e complementares.
Quando se tornar uma República, em 1889, o Brasil
antecederá a Itália, e dará início
a um novo mito de Garibaldi. No mesmo momento, na Itália
de Giolitti, Garibaldi conheceria um eclipse que duraria
até a II Grande Guerra.
A presença italiana na Revolução
Farroupilha
Entre os grandes momentos dos caminhos comuns,
italianos e brasileiros, ocorre a revolução
no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, um evento
que surpreendeu pela pobreza dos meios, a coragem dos
homens, a grandeza dos ideais. Poucos nomes são
lembrados do lado italiano: Zambeccari, Garibaldi, Rossetti,
Cuneo, Carniglia. Estes não são árvores
que escondem a floresta. Na verdade são, tão
somente, um punhado de italianos, a maioria expulsos,
e se não pobres, homens com poucos recursos ganhos
com o trabalho, capazes, porém, de mover montanhas.
Moveram-nas para contribuir às épicas
guerras de liberdade: a revolta espanhola, as jornadas
francesas, a agitação em Londres, a participação
na Revolução Farroupilha. Garibaldi, Cuneo
e alguns outros ainda participaram da independência
da República Oriental do Uruguai. Desde então,
com o cargo de general, e com uma experiência
muito particular, Garibaldi deu o lance decisivo para
a Unificação da Itália.
Na campanha pela Unificação da
Itália, Garibaldi foi o único a ter a
experiência do Rio Grande do Sul, e um dos poucos
que vivenciou a do Uruguai. Não devemos nunca
esquecer disso ao explicar o mistério do General
Garibaldi e as fontes do seu mito.
Mais de 70 anos depois daquele relato de minha tia Annita
Italia, já com uma vasta historiografia sobre
o tema, posso ser mais precisa do que ela. Também
é verdade que há, em mim, um pouco de
sentimento: a emoção que senti visitando
a estância de Camaquã, hóspede dos
descendentes de Bento Gonçalves, ou em frente
às antigas casas de Laguna e de seu porto, junto
à árvore à sombra da qual nasceu
Menotti, o primeiro filho de Garibaldi e de sua companheira
brasileira, bem como entre os representantes do povo
dessas terras nunca ingratas e nunca esquecidas.
Nada vale mais para mim que o orgulho por meus ascendentes
e conterrâneos, que deixaram aqui uma marca do
gênio do meu povo, tão apto, por mil razões,
a unir-se ao gênio do povo do Brasil.3
O italiano que não estava presente:
Giuseppe Mazzini
O ensinamento de Mazzini
Falar dos protagonistas da Revolução
Farroupilha implica citar alguém que não
estava presente, mas que é um dos principais
atores, senão o principal do lado italiano: Giuseppe
Mazzini.
O professor Salvatore Candido, cuja obra teria que ser
integralmente citada pelo conhecimento que devemos a
ele sobre as façanhas sul-americanas de Garibaldi
e de seus companheiros, expõe, em detalhes, o
papel de Mazzini, então com trinta anos, no caso
farroupilha.4 Não se pode entender o papel dos
outros protagonistas italianos sem antes expor o trabalho
de penetração das idéias de Mazzini,
desenvolvido por Giovan Battista Cuneo e por Luigi Rossetti,
em nome da “Jovem Itália”.
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3 Para um bom conhecimento da parte italiana
dos fenômenos relativos à Revolução
Farroupilha, ver Alessandro Gallante Garrone L’emigrazione
politica italiana del Risorgimento. Resenha Histórica
do Ressurgimento. Istituto Poligrafico dello Stato Roma,
abril-set. 1954, pp. 223-242. Ver também Il movimento
migratorio italiano dall’unità nazionale
ai giorni nostri aos cuidados Franca Assante, Instituto
Italiano para a História dos Movimentos Sociais
e das Estruturas Sociais (Nápoles, 1978).
4 Em especial, citamos, de Salvatore Candido: L’azione
mazziniana in Brasile ed il giornale “ la Giovine
Italia “ di Rio de Janeiro (1836) attraverso documenti
inediti o poco noti. Boletim da Domus mazziniana, Piza,
n°2, 1968; Giuseppe Garibaldi, corsaro riograndese
(1837-1838), Instituto para a História do Ressurgimento,
1963; La rivoluzione riograndese nel carteggio inedito
di due giornalisti mazziniani: Luigi Rossetti e G.B.
Cuneo. (1837-1840), CNR Valmartino in Firenze, 1973,
e Giuseppe Garibaldi dall’avventura marinara riograndese
(1837) al comando della flotta in Uruguay. Em Garibaldi
, Generale della libertà, Roma: Ministério
da Defesa, 1984.
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Deve-se dizer, entretanto, que o terreno era fértil
porque, entre os exilados, em grande parte carbonários
ou maçons, as idéias de liberdade e freqüentemente
de República, já estavam difundidas. Elas
precisavam, porém, de um “corpus”
teórico e de uma organização política
que, por outro lado, estavam presentes no programa de
Mazzini.
Escreve Candido:
“Provavelmente quando, no verão de 1831,
em Marselha, o jovem Mazzini difundia a sua ‘Instrução
geral para os irmanados da Jovem Itália’
e, um pouco depois, o ‘Manifesto’, onde
anunciava a próxima publicação
do periódico ‘A Jovem Itália’,
não poderia imaginar e prever que a associação
e a revista seriam logo difundidas no Novo Mundo e teriam
exercitado a mais viva influência, não
somente sobre os emigrados italianos, mas também,
e especialmente, sobre os movimentos latino-americanos
de libertação nacional (…).”
De fato, os simpatizantes e os irmanados são
mais numerosos entre os exilados do que na Itália,
e logo as idéias se difundiriam também
através da imprensa de outras línguas,
como a espanhola e a portuguesa.
Mazzini não imaginava que dali a pouco seria
publicado, no Rio de Janeiro, um quinzenário
de rebeldes rio-grandenses em luta contra o Império
do Brasil, “O Povo”, dirigido por seus maiores
seguidores, Cuneo e Rossetti. E as publicações
no Brasil não foram as únicas: também
em Montevidéu, em Buenos Aires, na América
do Norte, e onde quer que propagassem de modo ativo
o pensamento de Mazzini.5
Os ecos mais numerosos encontravam-se em apreensivas
mensagens – providenciais para os estudiosos –
que os cônsules do Reino de Piemonte-Sardenha
mandavam à Corte de Turim. De fato, de 1835 a
1839, a polícia sarda seguia com vivo interesse
a penetração das idéias liberais
na costa atlântica da América Latina. Escreve
Candido, ainda:
“Exercita (a polícia sarda) uma vigilância
ativa nos portos para impedir que do Brasil chegassem
escritos incendiários editados naqueles
países longínquos, e também na
Europa, e fossem enviados para a América para
que mais facilmente pudessem ser introduzidos no território
italiano (…).”
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5 Ver ainda MASTELLONE, Salvo. Mazzini e la Giovine
Italia 1831-34. Piza: Domus mazziniana, 1960. 2 vol.
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Em 14 de abril de 1836, um sinal neste sentido chegou
a Turim, ao Conde Solaro della Margharita, Secretário
de Estado para os Negócios Exteriores. Fala-se
do “Programa de um jornal eminentemente revolucionário
que os sectários pretendem publicar em língua
italiana na capital do Brasil, de onde se propõem
a enviar, depois, os exemplares para a Itália.”
Pede-se, então, a maior vigilância para
impedir a entrada na de tais escritos no país.
Através destes despachos diplomáticos,
somos capazes de seguir, desde 7 de junho de 1834, sempre
graças à documentação obtida
pelo professor Candido, a vida e os acontecimentos de
uma coletividade formada principalmente por lígures,
animada, na sua maior parte, pelos ideais republicanos
e hostis ao governo sardo. Uma verdadeira rede que se
espalha pelo mundo inteiro, mesmo que constituída
por poucas pessoas em cada lugar.
O alarme cresce quando a atenção dos jornais
mazzinianos volta-se não somente para a Itália
(organizaram-se até depósitos nos portos
brasileiros para mandar os jornais para a Europa) mas
alcança também os países onde esses
são impressos. E não é de se admirar
do alerta quando a folha “A Jovem Itália”,
de 26 de março de 1836, assim se manifesta:
“A nós italianos... nos é incumbido
de pregar as nossas doutrinas a todos os homens e especialmente
aos nossos conterrâneos em qualquer parte do mundo
onde nos encontramos, onde se unam (sic) a nós
no grande pensamento de nossa irmandade… a juventude
italiana correrá em massa para derrubar os tronos,
para rechaçar o estrangeiro opressor e nós,
mesmo de longe, correremos para participar dos perigos
dos nossos irmãos.”
A ação se amplifica, essas máximas
tornam-se expressão e aviso para uma série
de insurreições contra as monarquias imperiais
(Brasil) ou as ditaduras (Argentina). Corre a idéia
de que querem libertar os escravos, coisa que Garibaldi
fará logo, assim que tiver a ocasião,
em nome de idéias universais que não se
esgotam com um simples gesto de piedade humana.
As idéias republicanas e de Mazzini formam o
pano de fundo do jornal “O Povo”, que prepara
amplamente o terreno para a participação
de Garibaldi, mas também do próprio Rossetti,
nas insurreições que acontecem por toda
a costa do sul do Brasil. Se Zambeccari chegou em 1826
no Brasil, Rossetti, em 1827, Garibaldi, de fato, desembarcou
no Rio de Janeiro em janeiro de 1836. A sua presença
contribuiu para inflamar os ânimos: ele foi anunciado
como aquele que veio para praticar as idéias
de Mazzini, encarregado pelo próprio mestre para
este fim.6
Enquanto Garibaldi começava a voar com as próprias
asas no sul do Brasil, mais inclinado à ação
do que ao pensamento, Mazzini via, na Europa, a sua
parábola em queda. A atividade mazziniana havia
estimulado jovens que deveriam se tornar, em breve,
figuras de primeiro plano da política italiana.
Porém, na Itália, a falência das
conspirações de 1833-1834, geraria, assim,
novos exilados políticos, entre os quais Garibaldi,
e causaria uma crise profunda de todos os movimentos
patrióticos. Por alguns anos a Jovem Itália
(e suas seções projetadas como o “Jovem
Rio Grande”) derrotada e desagregada, cessa praticamente
de existir como força organizada na Itália
e no exterior.
Giorgio Candeloro, na sua “Storia dell´Italia”
moderna, escreve que, naquele momento, houve a dispersão
da maior parte dos exilados que haviam se unido em torno
de Mazzini. Restaram os poucos que participaram da guerrilha
farroupilha. Assim aparece toda a importância
da participação de Giuseppe Garibaldi:
se não tivesse a oportunidade de começar
a combater e de descobrir sua verdadeira vocação,
Garibaldi talvez se integrasse de um modo totalmente
diferente à sociedade sul-americana. E seria
pior ainda se tivesse retornado para a Itália,
como fizeram muitos na primeira anistia, ou permanecido
na Europa, talvez escondido na França como tantos
perseguidos e depois anistiados. Teria vivido em uma
Itália, então, cheia de intrigas políticas,
de facções, de conspirações
carbonárias e, sobretudo, nos tormentos de uma
evolução liberal moderada do reino, onde
não teria encontrado o próprio papel.
Na Itália não havia mais nada a fazer
naqueles anos. Mazzini, por sua vez, enrijeceu, não
quis entender o tamanho da evolução em
processo e ficou fora do jogo por muito tempo, fiel
somente a ele mesmo na tempestade de suas dúvidas.
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6 Permanece uma pergunta: Salvatore Candido escreve
que o partido farroupilha era formado por gente do campo,
e por uma elite de jovens idealistas educados por doutrinários
entusiastas, entre os quais o italiano Livio Zambeccari,
partidário das idéias de Mazzini. Como
nasceram os contatos e a confiança? Sobre Livio
Zambeccari, ver Tra il Reno e la Plata, la vita di Livio
Zambeccari studioso e rivoluzionario, organizado por
GAVELLI, Mirtide, TAROZZI, Fiorenza e VECCHI, Roberto.
Bolonha: Boletim do Museu do Ressurgimento, 2001.
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No verão de 1839, Mazzini comunica aos exilados
italianos na Inglaterra, na Bélgica, na Suíça,
na América, de quem ele consegue obter o endereço,
que tem a intenção de reconstituir a Jovem
Itália. Poucos aderem, espalhados pelo mundo,
mas, em 1840, comunica que recomeçam suas atividades.
Na continuação de sua correspondência
com Cuneo e Rossetti, talvez estivesse iludido quanto
à consistência do movimento entre os emigrantes.
Age, entretanto, em um terreno diferente daquele revolucionário
ou puramente patriótico: dedica-se à organização
dos operários, pensando em um partido democrático.
Com este tema, entretanto, não consegue chamar
a atenção dos italianos espalhados pelo
mundo, que sonham com a libertação da
pátria. No mundo dos emigrantes, por outro lado,
a situação também mudara.
Desapareceram os antigos protagonistas das rebeliões,
como Buonarotti, e muitos exilados retornaram do exterior
por ocasião das várias anistias. Outros
tenderam a adotar a tese moderada de uma lenta mas inevitável
evolução dos acontecimentos da Itália,
e, no meio tempo, integraram-se à sociedade que
os acolhia.
Muitos dos exilados (considerando um número pequeno)
haviam, porém, seguido a tradição
do voluntariado militar e, depois de 1833-1834, participaram
dos levantes endêmicos da América Latina,
além daqueles da Espanha e Portugal.
Somente Mazzini poderia reaver alguma influência
sobre eles, através de Cuneo, que tinha se instalado
em Montevidéu. Mas foi obrigado a aceitar o fato
de que poucos ainda acreditavam no método insurrecional
e, sobretudo, que ninguém mais via em Mazzini
aquele que seria capaz de encontrar soluções
práticas para a situação italiana,
assim como por sua decidida oposição à
mudança proposta por Gioberti.
A passagem de uma ação militar
Para uma ação de tipo militar,
porém, havia espaço: quem retornava da
América sabia de Garibaldi. Zambeccari, em Bologna,
que não tinha deixado a atividade patriótica,
alimentava o mito de um general vencedor. Também
depois do fim da revolução no Rio Grande
do Sul, a passagem de Garibaldi no Uruguai, longe de
fazê-lo perder sua reputação, permitia
que entrasse novamente em contato com ambientes que
se comunicavam ativamente com a Europa. Montevidéu
era um grande porto, e os exilados de todos os países
eram numerosos. Também os diplomatas, oficialmente
hostis, contribuíram, com seu alarmismo, a difundir
a sua fama na Europa. Portanto, mais que Mazzini, foram
o poder de Cuneo e a correspondência dos italianos
que prepararam o retorno à Itália de um
Garibaldi já decidido a levar a ação
para o terreno militar.
Liberalismo político e a patriótica luta
anti-austríaca. Aqueles que foram obrigados a
ir para o exílio procuraram, nos momentos de
união, um modo para permanecer fiéis aos
seus ideais juvenis, e tentar algo em favor da pátria
sonhada. Mas não buscaram rebeliões e
conspirações.
Aqueles que partem para combater ao lado de Garibaldi
fazem parte, no máximo, da chamada Congregação
do Rio de Janeiro. Deles, sabe-se pouco. São,
parece, na Revolução Farroupilha, uns
cinqüenta italianos (número confirmado por
todos os autores, embora saibamos pouco sobre seus nomes).
Levar as idéias para o terreno da luta armada
representou um formidável salto de qualidade.
Tal fato seria por muito tempo ignorado na Europa, mas
serviria de ensinamento àquele que se tornaria
o artífice do “salto de qualidade”
na Itália.
Das duas partes do mar, o papel
dos carbonários e dos maçons
Papel também relevante na concretização
das idéias de Mazzini tiveram os carbonários
e os maçons, que encontraram no sul do Brasil
um terreno fértil. Espalhados e desorganizados,
também eles encontrariam na “Jovem Itália”
um novo motivo de agregação que os reforçaria.
Entre eles identificamos, sem dúvida, Livio Zambeccari,
conselheiro e secretário de Bento Gonçalves.
Zeffiro Ciuffoletti e Sergio Moravia explicam que há
elementos de distinção entre Maçonaria
e Carbonaria. A primeira foi laica e anti-clerical,
enquanto que a segunda foi invadida por um profundo
sentimento religioso que mutuou muitos de seus símbolos
com rituais da liturgia e da história cristã.
Nas filas dos carbonários, como se sabe, a presença
dos religiosos foi bastante elevada. A Maçonaria,
além disso, pelo menos em nível estatutário,
não se ocupava de política e respeitava
as instituições monárquicas vigentes.
Já a Carbonaria nascia como instrumento de ação
política e lutava pela instauração
dos governos democráticos e constitucionais.
Evidente, desde o início, foi sua aspiração
em se transformar em uma estrutura política limpa
e aberta. Apenas a virada constitucional de 1820 o permitiu;
a Carbonaria abandonou a dimensão secreta, tornou
públicas as próprias seções
e começou uma intensa obra de proselitismo em
plena liberdade. Se a maçonaria atingia uma ideologia
universal e um cosmopolitismo humanitário genérico,
que tinha a sua total referência nas várias
correntes do pensamento iluminista, a Carbonaria, ao
invés, estava impregnada das novas teorias românticas
e olhava para o ressurgimento das nacionalidades como
próprio horizonte ideal.
A Maçonaria saiu logo de cena. A Carbonaria e
as outras sociedades secretas sobreviveram pelo menos
até os movimentos de 1831, para ceder, na Europa,
ao movimento democrático, mas continuaram a ser
uma trama sólida na América Latina.
Logo após as jornadas parisienses de julho de
1830, a Itália tornou-se novamente uma terra
de conspirações patrióticas e revolucionárias,
em forte ligação com a França,
terra de exilados políticos, e também
novo berço do liberalismo. Depois do fracasso
da conspiração carbonária promovida
pelos irmãos Bonaparte, em Roma, em dezembro
de 1830, as revoluções começaram
a interessar, em fevereiro de 1831, à Itália
central. Em Módena, na Romagna, primeiro; depois
entusiasmou toda a Itália central. Os austríacos
restabeleceram a ordem e enforcaram Ciro Menotti, em
Módena.
Conclui o já citado Gilles Pecout: “A revolução
de 1831, seguida em janeiro do ano seguinte por novos
combates entre revolucionários e as tropas pontifícias,
ajudadas pelos austríacos, deixaram, efetivamente,
uma marca na mentalidade italiana e internacional. O
seu fracasso é invocado habitualmente como a
prova do desastre de uma geração inteira
de revolucionários, em primeiro lugar os conspiradores
e os conjurados ligados à Carbonaria.”8
____________________________________________________________
8 PECOUT, Gilles. Il lungo Risorgimento. Milão:
Mondatori, 1999.
____________________________________________________________
Os italianos, do Rio de Janeiro ao Rio Grande
do Sul
Tensão política no Rio de Janeiro
Enquanto a Europa parecia adormecida, mas na realidade
afiava as armas para uma grande explosão, a Revolução
de 1848, que a teria sacudido em nome daqueles ideais
democráticos e tardo-românticos que afligiam
também o Brasil, o Império, que tinha
levado à independência e suscitado instituições
parlamentares, havia imposto uma ordem centralizada.
Os movimentos de revolta acentuaram-se no início
dos anos 1830, mais por causas internas do que como
reflexo da situação na Europa, provocando
a abdicação do Imperador e a nomeação
de um Conselho de Regência, em consideração
à pouca idade do novo Imperador, Pedro II.
Permanecia, de qualquer maneira, um clima de tensão.
Guerras de independência e conflitos internos
haviam causado graves danos à agricultura, principal
recurso da população. Por outro lado,
porém, havia o incremento do comércio
com a Europa, antes sufocado pelo regime de monopólio
que as duas potências ibéricas haviam imposto
às colônias. Com os comerciantes e banqueiros,
sobretudo ingleses, escreve o professor Scirocco, em
sua biografia de Garibaldi,9 instalaram-se os diplomatas
dos Estados europeus nas novas capitais. A fragata De
Geneys, a mesma que deveria ter levado Garibaldi se
não tivesse escapado de suas obrigações
militares, havia trazido ao Brasil o Conde Egesippo
Palma di Borgofranco, novo representante do Reino de
Sardenha, em relação oficial com o Brasil
a partir de 1820. Será a mesma fragata, com as
suas freqüentes viagens, que traria a notícia
da condenação à morte do jovem
Garibaldi, que não pede perdão, e a levar,
para Marselha, a primeira carta de Garibaldi endereçada
a Luigi Canessa, carta que testemunha o fato de Garibaldi
considerá-lo verdadeiramente aquele que lhe empossou
como representante da jovem Itália.
Emigrados e exilados estabeleceram-se, sobretudo, na
bacia do Rio da Prata, na Argentina, e no futuro Uruguai.
Os navios que chegavam, principalmente da Ligúria,
levavam e traziam jornais, mas também opúsculos
como os da Jovem Itália, além das notícias
dos levantes. A necessidade do Governo de Turim de comunicar
aos seus representantes diplomáticos os fatos
e os nomes dos exilados, informações que
depois eram repassadas aos governos locais, gerou, como
vimos, a primeira fonte das nossas informações
em relação ao assunto.
Podemos, então, sustentar que os primeiros italianos
a serem levados em consideração eram aqueles
que, embora formassem um círculo restrito de
pessoas, tornaram conhecida, na Europa, a situação
dos estados americanos: os diplomatas, os comerciantes
importantes, expoentes abastados da comunidade italiana
capazes, por exemplo, de oferecer uma sustentação
social aos menos afortunados, ou de criar economicamente
um jornal, uma folha em língua italiana, para
propagar idéias. Entre as perguntas que podem
ser feitas está aquela sobre os patrocinadores,
e, no nosso caso, isso torna mais relevante a ação
do segmento mais rica de nossa comunidade no Rio de
Janeiro, menos conhecida do que aqueles que, depois,
a representaram com a espada na mão.
____________________________________________________________
9 SCIROCCO, Alfonso. Garibaldi - Battaglie, amori,
ideali d’un cittadino del mondo. Roma-Bari: Laterza,
2001.
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Relações com a Itália
Com que intensidade os fatos do Brasil poderiam
ser conhecidos na Europa? Ainda sobre este ponto nos
ilumina o professor Scirocco, que nos recorda que um
navio levava em média sessenta dias para completar
a viagem do Mediterrâneo ao Brasil, mais o tempo
de entrega de uma carta ou de um pacote. Pode-se calcular
que uma troca de correspondência se fazia, mais
ou menos, no arco de seis meses, escreve Scirocco. Isto
nos faz ter uma noção mais precisa das
trocas epistolares entre Mazzini e Garibaldi, entre
Cuneo e Mazzini, e explica também, em parte,
como se originou a confusão que existia há
tempo nas relações entre Mazzini e Garibaldi,
Cuneo e Garibaldi, Rossetti e Mazzini.
Adaptação de Garibaldi no Rio
Quando Garibaldi chegou ao Rio de Janeiro sabia-se dele
tão somente que tinha uma condenação
à morte à revelia, por ter participado
de uma rebelião mazziniana, e isso valia todos
os passaportes junto à comunidade republicana.
Mas não se sabia que tinha sido Luigi Canessa,
de Marselha, a indicá-lo como representante da
Jovem Europa, que o encontro de Taganrog com Cuneo nunca
tinha acontecido, e muito menos o encontro com Mazzini
em Gênova. Nas suas “Memórias”,
Garibaldi é pouco preciso no que diz respeito
ao fato, mas hoje a reconstituição daquele
período é bem segura.10 O professor Romano
Ugolini dá uma explicação para
a distorção dos fatos: a necessidade tardia
de consagrar o mito de um jovem herói que teria
sido envolvido e iniciado nas teorias de Mazzini, já
em 1833, e que seria o mensageiro capaz de se impor
perante aqueles que já exerciam um papel na comunidade
dos exilados. De fato, chegando ao Rio de Janeiro, Garibaldi
não encontra um terreno virgem.
O professor Scirocco sustenta que “o bandido condenado
pelo motim de Gênova, já personagem, homem-imagem
dos revolucionários, pela renúncia de
procurar o perdão das autoridades, poderia encontrar
refúgio seguro mais perto da sua pátria,
por exemplo em Constantinopla, onde viveu por longo
tempo. Move-se em direção à América
por uma escolha precisa, não como um exilado
desiludido, mas como um patriota ardente que quer continuar
a contribuir com sua obra para o triunfo dos ideais
nacionais.”11 Os julgamentos de Ugolini e Scirocco
não coincidem, porque Scirocco cede alguma coisa
ao mito de Garibaldi, enquanto que Ugolini considera
muito mais casuais os acontecimentos de Marselha e sua
partida, devida também a uma epidemia de cólera
em Marselha e arredores. Mas o importante é que,
naquele momento, Garibaldi descobre sua vocação
e também seu talento: individualizou nas idéias
de Mazzini um alicerce, e, entre os mazzinianos, um
ambiente que o acolhe, o leva, o reconhece.
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10 Em mérito pode-se fazer uma comparação
das obras recentes de UGOLINI, Romano. Garibaldi, genesi
di un mito. Roma: Ateneo, 1982, e de SCIROCCO, Alfonso
(op. cit.).
11 SCIROCCO, Alfonso. Op. cit. p. 32.
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A condenação à morte em Gênova
é a declaração de nascimento de
Garibaldi. O encontro com Luigi Rossetti, com Cuneo
e depois com Zambeccari é o início de
seu protagonismo político e militar, e é
isso que nos interessa.12
Os companheiros, as ajudas
Luigi Rosseti (apelidado Olgiati) o recebe de braços
abertos e imediatamente nasce entre os dois uma centelha
que o próprio Garibaldi descreve, de modo eficaz,
nas suas “Memórias”.
“Os nossos olhos se encontraram e não parecia
ser a primeira vez, como era na realidade. Sorrimos
reciprocamente e fomos irmãos pela vida e pela
vida inseparáveis.”13
No ano de 2000, Tabajara Ruas publicou nos jornais o
seu belo “Garibaldi e Rossetti”14 e contribuiu
de modo excelente ao conhecimento dessa nobre figura.
Será dada, depois, constante referência
à obra de Yvonne Capuano sobre esse ponto e muitos
outros.15
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12 Entre o mito e realidade, também GREVY,
Jerome. Garibaldi. Paris: Presses de la Fondation Nationale
des Sciences Politiques, 2001.
13 GARIBALDI, Giuseppe. Memorie autobiografiche. Florença:
Barbera, 1888, p.15.
14 RUAS, Tabajara. Garibaldi e Rossetti. Organizado
pela Associazione Culturale Italiana del Rio Grande
do Sul, 2000.
15 CAPUANO, Yvonne. De sonhos e utopias. Anita e Giuseppe
Garibaldi. São Paulo: Melhoramentos, 1999, e
Garibaldi o leão a liberdade. São Paulo:
Totalidade, 2000.
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Existem outras personalidades fortes neste lugar, entre
elas Giuseppe Stefano Grondona. A relação
entre os dois nunca foi fácil. Também
Garibaldi recorda dele nas “Memórias”.
Grondona é qualificado por Garibaldi como “gênio
quase infernal”. Esse lígure, antigo jacobino,
foi companheiro de luta de Giacomo Mazzini, chegou ao
Rio de Janeiro por volta de 1815, foi expulso em 1823,
por suas idéias, e readmitido em 1834 pelo regime
liberal de Pedro II. Mesmo sendo mais ligado à
idéia da revolução universal do
que à da italiana, entra em contato com Mazzini
e obtém as publicações da Jovem
Itália que traduz, criando com meios próprios
uma Sociedade Filantrópica italiana. Em um primeiro
momento, Garibaldi o ajuda, entra em uma loja local
da Maçonaria para inserir-se no ambiente (Grondona
é maçom), a famosa “Asilo de la
Vertud”. Mas Garibaldi considera-se envolvido
diretamente por Mazzini, porque o é por Canessa,
e cria-se imediatamente uma dificuldade com Grondona.
Em breve, Garibaldi deve se impor sobre Grondona, e
não o perdoará nunca. Será por
isso que Grondona não conseguiu nunca retornar
à pátria?
Retornam, ao invés, em 1839, outras personagens
presentes na congregação do Rio de Janeiro,
e são os seus relatos feitos à polícia
que nos iluminam sobre muitos fatos, entre testemunhos
forçados e delações. Vincenzo Raimondi,
Gian Battista Folco, sobretudo Cesare Corridi, que tinha
como apelido Pietro Carnesecchi, e poderia ser o mesmo
de Michele Lando. Ele emprestará o apelido de
Carnesecchi para Grondona, já indiciado pela
polícia, quando retornar à Itália.
Qual dos dois se esconderá na verdade sob o nome
de Carnesecchi? Os pareceres não concordam.
Uma consideração sobre a questão
da idade dos participantes da Jovem Itália. Estamos
acostumados a ver nossos heróis como muito velhos.
Mas, consideremos a idade deles em 1835: Mazzini tem
30 anos e Garibaldi tem 28. Zambeccari, que já
era um grande cientista, tem 33. Giovan Battista Cuneo
(apelidado de Farinata degli Oberti) nasceu em Oneglia,
em 1809, tem 26 anos, mas tinha 24 quando foi obrigado
a ir para o exílio (será um dos poucos
a morrer na Itália, em seu leito, em Florença,
em 1875, depois de ter sido eleito deputado em 1849,
embora decidisse voltar a viver na América Latina).
O genovês Luigi Rossetti, diretor, junto com Cuneo,
do jornal “O Povo”, morre combatendo próximo
a Viamão, em 24 de novembro de 1840, com pouco
mais de trinta anos.
Quase um time de rapazes, diríamos hoje, de jovens
irriquietos, somente aptos para uma revolução
de farrapos… Rossetti chegou ao Rio de Janeiro
em 1827; Cuneo em 1835, com Pietro Gaggini, relojoeiro,
também condenado pelos fatos de Gênova,
em 1833, e moravam juntos. Ambos têm um bom grau
de cultura: Rossetti estudou Direito, Cuneo tem talento
de jornalista e de escritor. Para ajudar Garibaldi a
se impor, e especialmente a superar sua inferioridade
cultural que poderia dar uma vantagem a Grondona, que
organiza contra ele uma verdadeira sabotagem, Cuneo
cria, em março de 1836, um jornal que intitula
“A Jovem Itália”. Seu objetivo é
preparar atividades subversivas na Itália.
Os meses de preparativos para a ação
A revolução já iniciara quando
Garibaldi chega ao Rio de Janeiro. Tendo deixado Marselha,
em 8 de setembro de 1835, chega à capital brasileira
no final do ano. No início de 1836, volta ao
mar, graças aos fundos recolhidos por Giacomo
Picasso, carbonário, comerciante bem-sucedido
que parece ter oferecido quase a soma necessária
para comprar a embarcação de vinte toneladas,
batizada “Mazzini”. Os irmãos Francesco
e Luigi Zignano, grandes negociantes, também
o ajudam (o papel deles deve ser estudado), além
de Stefano, Giacomo, Paolo Antonini, de Montevidéu,
e Luigi Nascimbeni, que faz a intermediação
entre os Antonini e Rossetti, junto com Natalio Rusca.
Garibaldi começa a comerciar junto com Rossetti.
As idéias circulam. O genovês Domenico
Terrizzano batiza sua embarcação de Giovine
Europa, e o veronês, engenheiro formado na Suíça,
Luigi Dalecase (ou Delle Case) nomeia sua embarcação
de La Giovane Italia. Durante a sua estada
no Rio de Janeiro, sabemos que Garibaldi morava com
Dalecasi, na rua Fresca nº 7. Este comprometera-se
na tentativa mazziniana de 1834, em Gênova, mas
conseguiu fugir e, naquele mesmo ano, se estabeleceu
na Bahia, onde preparou um navio para viagens de longo
percurso, pouco tempo após transferir-se para
o Rio de Janeiro.
As atividades subversivas dos italianos no exílio
não estavam voltadas inicialmente para a vida
política local. Eram destinadas a alimentar a
sua chama patriótica, desta vez sob a forma do
Socorro Mútuo que os mantinha unidos. Quem escrevia,
como Cuneo, o fazia pela Itália. Seria toda a
solidariedade voltada ao exilado Garibaldi destinada
somente a propiciar-lhe um trabalho? É de se
duvidar. Cuneo e Rossetti descobrem no jovem Garibaldi
as qualidades do homem de ação, e este
é um momento fundamental na vida de Garibaldi.
Passa-se à ação
Garibaldi navega como comerciante há mais de
um ano quando sua vida entra em uma outra dimensão.
Enquanto amadurecia o projeto de encontrar Cuneo em
Montevidéu, incapaz de se contentar com uma tranqüila
atividade de comerciante, fica sabendo da rebelião
deflagrada no sul do Brasil. Estamos nos primeiros meses
de 1837, a Província Rio-grandense está
em revolução desde 1834, mas no segundo
semestre de 1836, os Imperiais levam a melhor e prendem,
depois da derrota sofrida em Fanfa, o Coronel Bento
Gonçalves e o seu secretário, o italiano
Livio Zambeccari. Este, capturado na batalha de Fanfa
no início de outubro de 1836, escreve a Cuneo
para pedir algo para ler “que contenha palavras
de Liberdade”.
Bento Gonçalves era um maçom muito ativo.
Tinha organizado diversas lojas pela fronteira e, em
seu projeto político, assim como no de Zambeccari,
não havia somente a revolução política
mas também uma forte aspiração
à revolução social, que Zambeccari
sonhava igualmente para a Itália. As idéias
dos exilados se cruzavam com as do Partido Republicano
da Província do Rio Grande, muito influenciado
pelos oficiais do exército. Eram idéias
libertadoras e modernas, que foram bem recebidas pela
elite liberal dos grandes proprietários, entre
os quais estavam Bento Gonçalves e boa parte
de seus oficiais.
Zambeccari faz parte da segunda geração
de exilados, daqueles caçados pelos fatos de
1821. Naquele momento ele tinha apenas 19 anos. Chega
à América do Sul em 1826, depois de uma
dura experiência na Espanha e de estudos apaixonados
na França e na Inglaterra e retoma a atividade
científica e política no Rio Grande. Em
Porto Alegre filia-se a uma loja maçônica.
Na realidade é um carbonário com idéias
mazzinianas. Contribui amplamente para formar o espírito
da revolta. O encontro decisivo acontece na prisão
de Santa Cruz onde Rossetti e Garibaldi entram sem grandes
dificuldades em fevereiro de 1837, depois de uma primeira
rápida visita só de Rossetti, mas onde
vieram à tona as idéias de Garibaldi,
de iniciar a guerra corsária pela costa brasileira.
Quando chega a “autorização para
navegar” das autoridades do Rio Grande,
Garibaldi sente-se envolvido em um papel legitimado,
não de corsário, mas de capitão
de um navio de guerra. O belo dessa situação
é que Garibaldi e Rossetti, com alguns outros
italianos, partem do Rio de Janeiro para conduzir a
guerra deles, sempre como comerciantes, mas quem pode
ignorar quem são?
Garibaldi parte do Rio para a guerra corsária
contra o Brasil. Tem apenas 30 anos. Será a sua
primeira experiência de comandante, e aparição
dos traços de genialidade que distinguirão
as suas façanhas. Recebe o grau de capitão-tenente,
deve coordenar e armar duas embarcações
que estavam sendo construídas no Rio Camaquã.
Cada uma das embarcações recebe uma tripulação
de 35 homens: uma é comandada por Giuseppe Garibaldi,
a outra por John Griggs, um americano também
seduzido pela causa farroupilha.
Os protagonistas menos conhecidos
De Garibaldi e Rossetti já sabemos. Mas tem também
Luigi Carniglia a quem Garibaldi estima muito, e que
salvou a sua vida mais tarde em um combate no Rio da
Prata. Garibaldi chegou a desejar para ele um monumento
na sua cidade de Deiva, perto de La Spezia, e Deiva
de fato erguerá um monumento que mostra Carniglia
que sustenta Garibaldi ferido. Aqui Garibaldi também
usa tons épicos nas suas “Memórias”.
Escreve: “Eu quero falar de Luigi. E por que não
deveria falar? Por ser plebeu? Por ter nascido na multidão
daqueles que trabalham para todos? Por não pertencer
à classe alta, que geralmente não trabalha
para ninguém e consome por muitos? Grande era
o seu espírito, diz Garibaldi, “ao proteger-me,
ao cuidar-me como uma criança na desventura,
quando era incapaz de me mover, fraco, ao ponto de ser
abandonado por todos! No delírio da morte sentava-se
ao meu lado Luigi, com a freqüência e a paciência
de anjo: então nos deixava um momento para chorar.”
E conclui: “ainda um mártir da liberdade,
um dos tantos italianos destinados a servir em qualquer
lugar, fora da sua infeliz terra natal.”16
Tem também Eduardo Mutru, que tem 24 anos em
1834, nativo de Nizza Marittima, marinheiro de 3ª
classe a serviço Real. Garibaldi também
é de Nizza Marittima: Mutru, condenado a morte
junto com ele, é um companheiro de juventude.
Embarcam também o genovês Pasquale Lodola,
encarregado do serviço de popa, e dois marinheiros,
Giovanni Lamberti e Giacomo Fiorentini. Este último
morre em 1837, na ponta de Jesus Maria, onde Garibaldi
ficou gravemente ferido. “Um dos melhores companheiros
italianos”, define Garibaldi. Era de La Maddalena,
na Sardenha, onde Garibaldi teria decidido estabelecer
mais tarde a sua morada. Da ilha de Capraia tinha um
outro marinheiro, Antonio Lima, ou Lama. Gabarroni,
ou melhor, Giovanni Gavazzane, o João Gavarron,
que deveria ser o piloto da Mazzini, não conseguiu
embarcar. Havia também Maurizio Garibaldi, que
não era parente do nosso bom marinheiro.
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16 GARIBALDI, Giuseppe. Memorie autobiografiche.
Op. cit. pp.29-30.
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Na Congregação, ou seja, na seção
da Jovem Itália no Rio, encontrava-se também
o nome de Gris (ou melhor, Giacomo Criss, apelido de
Picasso). E assim sabemos que, em 1838, encontravam-se
ainda nas prisões brasileiras como proprietário
da embarcação Mazzini, Tersani (ou talvez
o próprio Domenico Torrisano, encontrado por
Garibaldi em casa Delacazi, este também comerciante
abastado) e Vincenzo Raimondi. Este último faz
parte da geração mais velha, tendo nascido
em Finale Marina, em 1788. Havia militado nas armadas
napoleônicas e depois de várias travessias
transferiu-se para a América Latina, em 1831.
Volta à pátria em 1838, já com
50 anos. Giovan Battista Folco resulta também
na “relação” dos filiados
da Congregação do Rio, mas é pessoa
rica e talvez seja informante do Reino. Tem também
Carlo Belgrano di Oneglia e Luigi Vacani, mestre de
música, colaborador no jornal.
Diz-se que uns cinqüenta italianos participaram
da Revolução Farroupilha, e talvez alguns
dos filiados da Congregação do Rio também,
porém é difícil sabê-lo.
Na Foz do Rio Araranguá, em 15 de julho, Garibaldi
naufraga. Nas “Memórias” diz que
naquele momento os italianos eram sete. Morreram Mutru,
Carniglia, Luigi Staderini, Navona, talvez o próprio
Lorenzo N. que Garibaldi recorda nas Memórias.
Quem será Giovanni D.?
No fim da vida, Garibaldi encontrou Francesco Anzani,
próximo de São Gabriel. Nascido em Alzate,
na Brianza, em 11 de novembro de 1809, com 17 anos fugia
para combater na Grécia. Fez parte do movimento
republicano de Paris, em 1832, e combateu em Portugal
e Espanha nas fileiras dos constitucionais.
Depois emigra e combate com as poucas forças
republicanas que permaneceram fiéis a ele, mas
logo Anzani escreveu que não tinha mais nada
a fazer, e foi encontrá-lo em Montevidéu.
Deixando o Brasil pelo Uruguai, Garibaldi os deixou
sob o comando de Napoleone Castellani, de Montevidéu,
que queria armar um navio para ajudar Garibaldi, deslocou-se
até Alegrete para fazer um acordo com Bento Gonçalves,
mas não alcançou o seu propósito.
Todavia, foi naquela ocasião que se fortaleceu
o vínculo entre Garibaldi-Anzani-Castellani e,
naturalmente, Cuneo, que levou os resultados para o
Uruguai, na fase seguinte da vida de Garibaldi.
A percepção da Revolução
Farroupilha na Itália
Perguntamo-nos por quais caminhos a epopéia
sul-americana chega à Itália, e em que
época. Quando Garibaldi retornou à Itália,
no início de 1848, sua reputação
ficou garantida graças à divulgação
entre os emigrantes e, nos ambientes oficiais, pelas
relações dos representantes do Reino na
corte de Turim. É provável, porém,
que tenha sido sobretudo a aventura uruguaia a chamar
a atenção, em virtude da importância
dos cargos assumidos por Garibaldi, e pela capacidade
de organização demonstrada por ele (graças
também a Francesco Anzani). De qualquer maneira,
as publicações da Jovem Itália,
de “O Povo”, alguma coisa fizeram pelo jovem
chefe. Mas foi especialmente a biografia de Cuneo, publicada
em 1850, a dar uma visão geral da sua vida até
então. Garibaldi, quando recebe o texto em março
de 1850, escreve para o autor. “Li a biografia
e vislumbrei a previsão do amigo”17. Esta
biografia será fundamental não tanto pelos
efeitos imediatos, mas pelo fato que outros autores
que escreverão sobre Garibaldi na América
do Sul possam inspirar-se.
____________________________________________________________
17 Epistolario di Giuseppe Garibaldi, Vol. 1 (1834-1848),
Instituto para a História do Ressurgimento, 1973.
____________________________________________________________
Citamos somente uma passagem de Cuneo: “Toda
a vida de Garibaldi é um contínuo e fecundo
sacrifício à liberdade e à pátria.
Nas suas ações como homem privado, assim
como nas de homem público, nos alegres encontros
com os amigos como nas sérias e graves assembléias
teve sempre como argumento das suas idéias e
dos seus discursos: Pátria e Unificação.”
Os sublimes anseios da sua grande alma elevaram-se àquele
altíssimo conceito; não cuidou de mais
nada, por isso foi sempre visto combater e a causa americana
defender com o mesmo ardor com o qual combateu na Lombardia
e em Roma. “Acompanhou sempre o pensamento e contínua
foi a ação.”18
Em suas “Memórias”, cuja primeira
edição foi em 1872, o próprio Garibaldi
evoca muitos episódios e as recordações
dos amigos mais queridos. Giuseppe Guerzoni, em 1882,
incluirá outros elementos que esclarecerão
a cronologia dos eventos.19 O interesse dos historiadores,
porém, concentrou-se sobre os fatos italianos
e, talvez por sua posição na Itália,
era melhor que Garibaldi deixasse de lado as suas passagens
de corsário e de aventureiro.
Todavia, podemos tecer algumas considerações
gerais sobre a presença dos italianos na Revolução
Farroupilha. Os italianos foram poucos e muitos deles
morreram, mas, com o tempo, o mito de Garibaldi se expandiria
na América do Sul, ajudado pela presença
de uma brasileira a seu lado, conferindo identidade
à consistente emigração italiana,
que, sucessivamente, teve participação
no povoamento do Brasil.
Mesmo tendo sido uma guerra perdida, representou para
Garibaldi uma extraordinária lição
de vida. Naqueles cinco anos, Garibaldi tornou-se ele
mesmo, e não perdeu nunca mais as características
que foram a sua força em situações
muito diversas. Quando se dedicou à redação
das suas “Memórias”, Garibaldi não
se esqueceu dos seus companheiros italianos de aventura.
Recordando a morte de Rossetti, exprime-se assim:
“Não existe um ângulo da terra onde
não apareçam os ossos de um italiano generoso!
E a Itália os esquece... aqueles que fizeram
bonito o seu nome no novo mundo! Em todas as regiões
do mundo! Ela sentirá a falta...”
____________________________________________________________
18 CUNEO, Giovanni Battista. Biografia di Giuseppe Garibaldi.
Livorno: Raffaello Giusti, 1932, pp.58-59.
19 GUERZONI, Giuseppe. Garibaldi. Florença: G.
Barbera, 1882, 2 vol.
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Foi um caminho estranho aquele seguido pela fama de
Garibaldi, nascida na América Latina e caída
rapidamente no esquecimento, exceto para um círculo
restrito de imigrantes.20 Mas, dali partiu para a Itália,
graças à diplomacia de todos os países
presentes no Rio da Prata e arredores, aos jornais da
imigração e à obra de Cuneo, e,
sobretudo, graças ao retorno à pátria
do próprio Garibaldi, bem como aos fatos de 1848-49.
O herói regenera-se nos fatos italianos, da República
Romana à Expedição dos Mil, o mito
não se enfraquece com Aspromonte e Mentana, e,
finalmente, se reativa com a morte, que dá lugar
a uma quantidade inacreditável de celebrações
e comemorações. Depois baixa rapidamente
na Itália um silêncio que mal se abre para
algumas manifestações oficiais, cada vez
mais raras.
É o advento da República brasileira que
leva a uma reconsideração do sentido e
da importância da Revolução Farroupilha.
Deste momento em diante, inicia a construção
de Garibaldi como um mito incomparável. O herói
da Revolução Farroupilha começa
a fazer parte, junto com sua esposa, da história
e da identidade do Brasil, e é um herói
com dimensão mundial. O mito expande-se lentamente
na primeira parte do século XX, explode com o
cinquentenário da morte de Garibaldi, em 1932,
e serve de propaganda ao Fascismo, a tal ponto que Mussolini
manda levar para Roma, ao Gianicolo, as cinzas de Anita
sepultada em Nice por vontade do herói, ao lado
de sua mãe.21 É preciso, porém,
esperar os anos que sucedem a Segunda Guerra mundial
para que autores brasileiros e italianos comecem a se
interessar pela biografia do herói, até
a explosão do centenário da morte, em
1982, onde o conhecimento de Garibaldi no Brasil deve
muito, na Itália, à obra de Salvatore
Candido, por anos diretor do Instituto de Cultura de
Montevidéu22 Não evoco aqui a excitação
dos autores brasileiros e a minuciosa redescoberta dos
fatos da Revolução Farroupilha e dos seus
protagonistas, com desdobramentos romanescos (Manuela,
Anita), que fazem parte da comunicação
cultural, veículo para a constituição
de uma identidade nacional.
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20 CARNICCI, Andrea. Garibaldi nell’Associazionismo
dell’emigrazione italiana. in I Garibaldi dopo
Garibaldi, la tradizione famigliare e l’eredità
politica. Organizado por Zeffiro Ciuffolotti, Arturo
Colombo, Annita Garibaldi Jallet. Manduria: Piero Lacaita,
2005, pp 215-144.
21 GRIMALDI, Ugoberto Alfassio. L’utilizzazione
del mito garibaldino ad opera del fascismo. In Garibaldi,
generale della libertà. op. cit. 605-614.
22 Muitas outras obras deveriam ser citadas, entre as
quais: DELLA PERUTA, Franco. Garibaldi tra mito e politica
in Conservatori, liberali e democratici nel Risorgimento.
Milano: Angeli, 1989; BENINI, A e MASINI, P.C. (a cura
di) Garibaldi cento anni dopo. Atas do encontro de estudos
garibaldinos. Bergamo, março 1982; Giuseppe Garibaldi
e il suo mito. Ata do II Congresso de História
do Ressurgimento italiano (Gênova, novembro de
1982), Roma, Istituto per la storia del Risorgimento;
Simpósio internacional do Instituto Latino-Americano,
Roma. Presenza di Garibaldi in America Latina Roma,
1983. Atas datilografadas. Ver, em especial, GARDELIN,
M., L’immagine di Garibaldi nel Rio Grande do
Sul. De mais fácil leitura são: Ivan Boris
Gli anni di Garibaldi in Sud America 1836-1848. Milão:
Longanesi e C. , 1970, e LAMI, Luigi. Garibaldi e Anita
corsari Mondatori Milão, 1991.
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Garibaldi e Anita na história brasileira
Tal processo continuou no tempo e, a partir de 1870,
no Rio Grande do Sul, deveu-se à assimilação
do mito garibaldino em âmbito nacional, após
a aceitação da Revolução
Farroupilha como mito nacional. Surpreende-nos, contudo,
que Garibaldi, e quase somente ele, tenha ficado vivo
no culto popular. Por quê? Creio que seja também
por uma questão de imagem, pela qual Garibaldi
sempre foi favorecido: graças a Cuneo em Montevidéu,
mas também ao pintor Gallori, e, mais tarde,
na Itália, a Alexandre Dumas e a uma profusão
de artistas. O Rio Grande do Sul foi a terra dos gaúchos,
nômades que se deslocavam à procura de
trabalhos temporários nas grandes planícies,
vingadores do mais rígido individualismo e da
lei do mais forte, capazes de gestos de coragem extremos,
mas pouco acostumados à vida em sociedade. Na
transfiguração literária da figura
do gaúcho, criada pela Sociedade do Parthenon
Literário, por volta dos anos de 1870, as características
do herói romântico prevaleceram, obscurecendo
a conotação primitiva... Sobre todos esses
pontos me satisfaço de retomar a análise
de Núncia Santoro de Constantino, em seu trabalho
dedicado aos italianos em Porto Alegre, com importante
bibliografia.23
O mito do gaúcho começou, então,
a fazer parte integrante do mito da Guerra dos Farrapos,
fortalecendo-a com atributos românticos e fornecendo-lhe
elementos para a formação de uma moral
coletiva, que, por sua vez, deu lugar a uma abundante
produção literária, pelo menos
até 1900...
Os elementos do mito garibaldino, que chegaram à
América Latina depois de 1860, foram reelaborados,
fazendo de Garibaldi um gaúcho entre os gaúchos.
Na realidade, o mito do herói foi reinterpretado
usando motivos tradicionais que se prestavam à
individuação do herói romântico:
sua chegada no Rio de Janeiro e o encontro com Rossetti,
o episódio do transporte dos navios por terra,
o naufrágio do Farroupilha... (e outros fatos
entre os quais o primeiro amor por Manuela e o encontro
com Anita), o Garibaldi que bebe mate, o Garibaldi que
canta romanças italianas.
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23 CONSTANTINO, Núncia Santoro de. Italiani a
Porto Alegre: l’invenzione di una identità.
Pontifícia Universidade Católica do Rio
Grande do Sul. Ed. Fondazione Giovanni Agnelli Luglio,
dezembro de 2002.
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O físico de Garibaldi compunha-se de elementos
que vinham da Europa, mas que eram formados na América
Latina, onde foram amplificados pela aura do mito. O
poncho, os olhos azuis (ou melhor, claros) a grande
barba, são somente alguns atributos de um vasto
cliché: na mitologia rio-grandense, Garibaldi
foi homem do mar, corsário ou capitão
da Marinha da República, esquecendo a sua contribuição
nas batalhas de terra.
Mas não são somente as fontes literárias
a formar o imaginário da opinião pública
rio-grandense. Na história do Rio Grande do Sul,
escrita em 1901 por João Maia, e adotada nas
escolas do Estado, Garibaldi é definido como
“intrépido”, e a coragem nos combates
é o atributo que antes, e mais do que os outros,
consegue fazê-lo ser aceito como estrangeiro no
difícil contexto rio-grandense.
No momento do seu desaparecimento, os órgão
de imprensa do Rio Grande do Sul, além de evidenciar
a grandeza, voltando ao tema da coragem indomável
e do amor pela liberdade, iluminado pelo desinteresse
frente a glória e a ambição pessoal,
reivindicaram-no como seu herói.
O entusiasmo pela figura de Garibaldi era genuíno
em 1882, mas ficou ainda mais evidente em 1889, quando
o Rio Grande tornou-se parte de uma República,
realizando, assim, os ideais da Revolução
Farroupilha. O governo republicano fez uma homenagem
a ele, dando o seu nome a uma localidade. No centenário
do seu nascimento as comemorações seguiram-se
por todo o Estado.
De fato, o mito contribuía para formar um aparato
ideológico da nova realidade republicana, em
uma relação positiva com a Itália,
de onde provinham muitos filhos do Rio Grande. Quando
se aventuraram a denegrir a imagem de Garibaldi, foram
os próprios imigrantes a defender o herói,
e encontraram o apoio do povo rio-grandense.
É necessário dizer que os companheiros
de Garibaldi foram bem mais esquecidos, por essa simplificação
dos eventos históricos que os reconduzem a um
herói, somente por sua natureza. Cabe também
reconhecer o mérito de Garibaldi de ter ligado
a sua figura, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul,
à de uma brasileira, Anita. Salienta-se até
a existência de um Garibaldi brasileiro, o primeiro
filho de Garibaldi e Anita, nascido em Mostardas, em
1840, em condições dignas da epopéia.24
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24 Para Menotti, o Garibaldi brasileiro, destaca-se
a obra de Elma Sant’Anna, de Porto Alegre, divulgada
em várias publicações. Elma Sant’Anna
é também artífice da irmandade
entre Mostardas e Carano, a cidade onde viveu Menotti
com sua família.
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pastores, os condutores das boiadas e dos cavalos da
campanha romana, com suas grandes capas e chapéus
de abas largas. O poeta vê neles os gaúchos
no meio dos quais nasceu, e que vieram a escoltá-lo
para levá-lo onde os horizontes são ainda
mais amplos.
A própria figura de Bento Gonçalves é
relevante para aquela parte do mito de Garibaldi que
se formou no Brasil, porque ele foi o caminho entre
a sua terra e a elite dos italianos: Garibaldi, mas,
antes dele, Zambeccari, que levava a Cuneo e a Rossetti.
A escolha de Zambeccari como secretário, por
parte de Bento Gonçalves, diz alguma coisa a
respeito da cultura e a distinção do espírito
deste oficial, rico proprietário, expressão
elevada da cultura da sua terra. Ele é a imagem
perfeita do caudilho na qual Garibaldi sempre se inspirará,
homem livre e iluminado, herdeiro direto do grande Bolívar.
A casa de Caprera é, para mim, a realização
de um sonho de proprietário de uma estância,
livre na sua ilha, e onde, como diria Garibaldi, “Daqui
contemplo o infinito”, como nas imensas terras
americanas, de quem Caprera reúne muito da infinita
beleza.
Mas os protagonistas italianos da Revolução
Farroupilha não entraram, até agora, no
mito, que parece ter-se concentrado todo em Garibaldi,
herói romântico. Pode-se esperar que desse
importante encontro se sobrassaia a realidade de um
grupo de personalidades excepcionais, todas indispensáveis
ao intento. Somente através de sua ação
coletiva – homens e idéias – se explica
que um homem que tinha respirado por 14 anos o ar do
Brasil e do Uruguai possa ter sido, justamente graças
a isso, um dos maiores artífices da unificação
da Itália.
A Revolução Farroupilha
e o Uruguai 1
Enrique Mena Segarra
_________________________________________________
Historiador, Diretor do Museu Histórico Nacional
do Uruguai
Ao iniciar, quero dizer que meu ponto de vista é
o uruguaio. Creio que minha melhor contribuição
para este seminário é transmitir-lhes
algumas noções sobre a história
de meu país, a partir de um enfoque conceitual,
às vezes cronológico. Pelo que li, trata-se
de uma história um pouco alterada e maltratada
em alguns textos brasileiros.
Há uma relação dialética
entre o Rio Grande do Sul e o Uruguai dada pela história.
São povos vinculados pela geografia, pelo regime
econômico e pelos costumes. No Rio Grande do Sul,
há uma história luso-brasileira. No Uruguai,
transparece o lado hispano e rio-pratense. Uma terra
de fronteiras que encostam umas nas outras, mas também
se chocam, e que a história por vezes une.
Quando começou a Revolução Farroupilha,
o governo do Uruguai era presidido pelo general Manuel
Oribe. Recordemos que o país tinha apenas sete
anos de independência e cinco de vida constitucional.
Mas, vamos aos antecedentes imediatos, de 1835. Refiro-me
à revolução de Artigas, que começou
em 1811, e teve como meta a implantação
do federalismo, ou seja, a organização
das províncias emancipadas da Espanha, em pé
de igualdade e com laços federativos. A revolução
oriental conduzida por Artigas, entretanto, derivou
rapidamente ao radicalismo.
Iria Artigas querer uma independência das terras
que depois seriam chamadas de República Oriental
do Uruguai? Jamais. Esse nunca foi seu desejo. Além
disso, quando foi estabelecida a República, e
ele, em seu longo exílio paraguaio de 30 anos,
foi convidado a voltar para sua pátria, essa,
então isolada, já não era a pátria
que ele almejara.
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1 Texto transcrito e traduzido do espanhol para
o português da conferência proferida no
Seminário Internacional “170 Anos da Revolução
Farroupilha – o Legado de Bento Gonçalves,
Garibaldi e Anita” e revisado pelo autor.
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Artigas projetou a união federal de todas as
províncias. Provavelmente, contava-se entre elas
o Rio Grande. Sabemos que Artigas tinha aliados no Rio
Grande. Mas estamos muito mal informados com relação
às entidades envolvidas e a profundidade dessas
relações. Isso deve valer como um simples
ponto de referência que permanece em aberto para
pesquisas mais aprofundadas.
No ano de 1815, no plano social e econômico, concretizou-se
o regulamento da Província Oriental para a repartição
das terras. Isso era uma novidade para a revolução
hispano-americana e só encontra parâmetro
na primeira etapa da revolução mexicana,
na época de Hidalgo. Cabe dizer que, quando ocorre
a invasão lusitana, no ano de 1816, o temor à
expansão desse republicanismo radical na região
não era apenas um pretexto: era uma causa real.
Outras causas são também conhecidas. Uma
delas era o velho desígnio português de
chegar ao Rio da Prata, considerado como fronteira natural,
se é que existe realmente algo natural em matéria
de fronteiras. Eu penso que não. Mas, somando-se
a isso, surge o temor do contágio através
de uma ideologia que alterava as próprias bases
da estrutura social. Em pouco tempo, o general Carlos
Frederico Lecor, à frente de suas tropas, tomou
Montevidéu. Começa, então, o período
Cisplatino, chamado assim na história uruguaia,
que compreende a etapa de 1817 a 1828, durante o qual
a Província Oriental teve primeiro o governo
português e, depois, o brasileiro, como resultado
da independência do Brasil.
Como foi recebida a invasão portuguesa? Aqui
nós temos um fator principal: o general Lecor
e seus homens são bem-vindos a Montevidéu,
apesar da intensa resistência a eles na Campanha.
Por que foram bem recebidos? Porque a classe alta sentia-se
afetada pela revolução radical na base
de sua subsistência, que era a propriedade de
terras. Quando essa revolução começa
a distribuir terras, nenhum proprietário se sente
seguro, dadas as limitações que essas
divisões acarretariam. E, além disso,
esse patriciado, como se chamava a classe alta em Montevidéu,
alimentava grandes esperanças em uma abertura
comercial que possibilitasse o protagonismo nas trocas
com a Europa. Isso quer dizer que, inicialmente, havia
colaboração da classe alta, enquanto que,
na Campanha, no campo oriental do Uruguai, muitos patriotas
combatiam os portugueses em uma guerra sangrenta.
O término dessa guerra permitiu o surgimento
de um personagem determinante durante um quarto de século
ou mais, a figura de Fructuoso Rivera. Ele foi o último
dirigente militar, o último caudilho de fato,
que manteve a resistência oriental. Ele se rende
a Lecor, mas de uma forma negociada, mediante um pacto.
O acordo se deu na Convenção de Tres Arboles,
que foi seguida pelo encontro de Guadalupe, no qual
ele mesmo ficou cara-a-cara com Lecor para consolidar
as bases pactuadas.
Mas que bases eram essas? Por um lado, a promessa dos
portugueses de respeitar a situação rural
da forma como se encontrava. Por outro, havia a posição
pessoal de Rivera. Por quê? O caudilho inseria-se
entre o governo português e o povo “criollo”
da Campanha. Esse caudilho comandaria em nome do rei
de Portugal, e, dessa forma, estenderia sua proteção
aos proprietários que receberam terras de Artigas.
Como é possível perceber, essa proteção,
porém, era condicionada à fidelidade ao
novo caudilho, Rivera. Aquele que não acatasse
sua autoridade, não teria sua proteção.
O elemento protetor é essencial na relação
entre o caudilho e a massa.
O processo da etapa Cisplatina levou a uma grande reticência,
que foi crescendo entre o patriciado de Montevidéu,
que não encontrou os benefícios que almejava.
Os historiadores uruguaios e rio-grandenses podem me
corrigir se eu estiver errado, mas o fato é que,
ao começar a invasão portuguesa, havia
13 estaleiros no Rio Grande do Sul. Já no ano
de 1825, havia 120. Isso demonstrava uma grande drenagem
do gado oriental em direção ao Rio Grande.
Os benefícios comerciais que o patriciado de
Montevidéu achava que poderia encontrar, portanto,
não se concretizaram.
Hoje sabemos bem como eram as relações
entre Portugal e a Grã-Bretanha. A praça
foi dominada pelos comerciantes ingleses, e não
pelos orientais e uruguaios, nem sequer pelos portugueses.
Criou-se, então, um ambiente propício
para a cruzada dos “33”, que começou
com um desembarque, em abril de 1825. Qual era o objetivo?
Aqui está um ponto-chave, que até no Uruguai
às vezes é mal compreendido, sobretudo
do ponto de vista das festas e comemorações
patrióticas. O que buscavam essas pessoas em
1825? Quem era o alvo de suas proclamações?
Lavalleja, no ato de pisar as terras de sua pátria,
se dirige aos “argentinos orientais”, ou
seja, “argentinos do leste”. O objetivo
da Revolução de 1825 concretizou-se nas
leis ditadas pela Assembléia de Florida, no dia
25 de agosto do mesmo ano. Ao meu ver, é algo
que se considera erroneamente em meu país como
o Dia da Independência Nacional. Foi uma independência,
mas provinciana, e não nacional.
Em ato simultâneo, nessa sessão da Assembléia,
ditou-se uma primeira lei que é a de independência.
Independência do rei de Portugal, imperador do
Brasil, ou de qualquer outro soberano do universo? O
Brasil, obviamente, já era independente, de modo
que havia uma alteração na ordem política.
Mas, estávamos, de certa forma, sob a égide
da independência brasileira.
A segunda lei é a da união com as Províncias
Unidas do Rio da Prata, a que “sempre pertenceu
em nome dos laços mais sagrados que o mundo conhece”.
Esse era o pensamento da Assembléia, não
um mero fingimento como alguns sempre falavam –
a verdadeira independência provincial. É
através de cada uma delas que se dá a
integração original nas Províncias
Unidas do Rio da Prata. Primeiro veio a batalha de Rincón,
em que Rivera derrotou dois oficiais brasileiros. E,
depois, a grande batalha “criolla” de Sarandi,
no dia 12 de outubro de 1825, em que Lavalleja e Rivera
derrotaram Bento Gonçalves e Bento Manuel Ribeiro,
que, então, combatiam sob o pavilhão brasileiro.
Esse acontecimento militar motivou o Congresso de Buenos
Aires a aprovar a lei de incorporação
da Província Oriental às Províncias
Unidas, aceitando, assim, as leis de 25 de agosto. O
fato provocou uma guerra entre as Províncias
Unidas e o Império. O exército que se
formou sob o comando de Martín Rodriguez, para
atuar na campanha contra o Brasil, ganhou o nome de
Exército Republicano, não por casualidade.
Esse exército disseminou o ideário republicano
no Rio Grande do Sul e, dessa maneira, durante o transcurso
da guerra, Lavalleja e o sacerdote José Antonio
Caldas, brasileiro republicano, vincularam-se aos dirigentes
liberais rio-grandenses, civis e militares. O que buscava
Lavalleja com essas vinculações, com esses
nexos? Ele queria provocar a secessão da Província
do Rio Grande, certamente para integrá-la sob
o laço federal. Isso se confirmaria no ano de
1828.
Rivera, por sua vez, apegou-se à revolução
de 1825 de uma forma até anedótica, pitoresca.
Ele sempre manteve a “sua independência”.
Até o ponto que fugiu da Província Oriental
e refugiou-se em Entre Ríos, na Argentina. Tanto
Lavalleja como o governo portenho supunham que Rivera
convivia de alguma forma com os imperiais. E realmente
havia uma convivência, mas não era com
eles e sim com os rio-grandenses. Por um lado, Lavalleja;
por outro, Rivera, procuravam a mesma coisa, embora
cada um a seu modo.
Quando, em 1828, Rivera invade as missões orientais
e as ocupa, reúne um congresso em São
Borja, que declara sua independência e incorporação
às Províncias Unidas do Rio da Prata.
Ou seja, o mesmo modelo político que havia sido
utilizado no ano de 1825 na Província Oriental.
Naquele momento, Rivera supunha que esse exemplo poderia
se estender a todo o Rio Grande. Confirmando essa idéia,
o diplomata britânico Lord Ponsonby informava
a George Canning que “a maioria dos rio-grandenses
estava ansiosa por se insurgir contra o imperador”.
Não houve plebiscito para saber quem desejava
se integrar às Províncias Unidas ou se
tornar independente, se a maioria ou a minoria. Embora
rivais entre si, os dois caudilhos principais do Uruguai
concordavam com o propósito de propiciar a secessão
do Rio Grande. E isso por razões permanentes,
que iam além da conjuntura bélica que
encontraram. Havia o temor em relação
à enorme magnitude do Brasil e, portanto, de
sua influência incontestável sobre os países
vizinhos. Isso ocorria pela facilidade de trânsito
entre as províncias brasileiras e a oriental,
de forma que uma expansão brasileira seria, em
primeiro lugar, meridional.
Tanto foi assim que, muito posteriormente, no ano de
1864, em que mais uma vez ocorreram crises nas relações
entre o Uruguai e o Brasil, foi publicado, em Montevidéu,
um folheto de 47 páginas intitulado “Verdadeiro
perigo das Repúblicas do Prata”. Em sua
maior parte, esse texto é uma explicação
histórica que sublinha o risco de ter uma fronteira
com o império brasileiro, e insiste na conveniência
de incentivar a independência do Rio Grande. Essa
idéia, portanto, perdurou por décadas.
Mas, como reflexo de uma complexa relação
de poder militar e equilíbrio de forças,
a diplomacia britânica trabalhava para obter a
paz e terminar com o conflito que obstaculizava o desenvolvimento
de seu comércio. Isso levou à Convenção
Preliminar de Paz, de 28 de agosto de 1828, que teve
como parte fundamental a independência de um novo
Estado, que foi chamado de Estado de Montevidéu,
mas que, na Constituição de 1830, seria
chamado de Estado Oriental do Uruguai e, depois, pelo
uso, de República Oriental. Foi um Estado que
nasceu em circunstâncias anormais. E, quero frisar
bem: sem limites estabelecidos, isto é, com uma
indeterminação geográfica. Não
se sabia onde acabava a soberania oriental e onde começava
a soberania dos vizinhos. Isso não era problema
com as Províncias Unidas, com a Argentina, porque
ali estava o Rio Uruguai como delimitador.
Mas, onde era o limite terrestre com o Brasil? Não
estava fixado. A Convenção Preliminar
de Paz não definia isso. Portanto, a nascente
diplomacia uruguaia tinha como objetivo essencial estabelecer
um favorável tratado de limites. Mas até
que ponto isso seria possível? Até que
linha? Até a linha de Santo Ildefonso? Definir
os limites era o objetivo da diplomacia uruguaia. Esse
mesmo fato complicou nossas relações além
das fronteiras porque não era possível,
então, pensar apenas em relações
bilaterais com o Brasil. O Rio Grande detinha personalidade
e interesses próprios que o convertiam em fator
que sempre deveria ser levado em conta.
Tais fatos nos conduzem a outro ponto crucial para nossa
história: nascemos para a vida independente sem
um sentimento de nacionalidade. Claramente, em toda
a região, os estados precederam as nações.
Existia um sentimento nacional em todo o Brasil, desde
o Pará até o Rio Grande, desde Pernambuco
até o Mato Grosso? Suspeito que não. E
garanto que tampouco havia um sentimento de nacionalidade
na Argentina, e menos ainda no Uruguai. Deu-se ali um
fenômeno próprio daquela epoca: as alianças
entre partidos mais ou menos afins em suas orientações,
que passavam por cima de fronteiras puramente teóricas,
quando não inexistentes.
Em 1842, em plena Guerra Grande, quando era de se supor
que nosso país, independente há 14 anos,
tivesse uma nacionalidade mais consolidada, Rivera,
o presidente do Uruguai, e o governador da Província
de Corrientes, Pedro Ferré, em troca de correspondência,
dão-se mutuamente o tratamento de “estimado
compatriota”. Poderia um presidente do Uruguai
se dirigir a um hierárquico argentino como compatriota?
Claro que não! E mais, em 1835, quando Oribe
assumiu o poder, escreveu ao coronel Correa Morales,
que era agente do governo de Rosas em Montevidéu,
dizendo-lhe: “Você sabe que sou federal
de coração”. Referia-se ao federalismo
do partido argentino. Seria como mesclar soberanias
e simpatias políticas num coquetel totalmente
insosso, que não poderia ser ingerido. Isso era
o que acontecia. Não havia um sentimento nacional
generalizado.
Dessa maneira, a época nos dá um estranho
espetáculo das alianças partidárias
trans-fronteiriças. Alianças de farrapos
com orientais, de caramurus e orientais, ou federalistas
argentinos e “blancos” orientais, de unitários
argentinos e “colorados” orientais, segundo
as divisões e orientações que existiam
também dentro do nosso país. Ou seja,
um entrecruzamento de lealdades, passando por cima das
fronteiras hipotéticas.
Desde o princípio, porém, existia desconfiança.
Em março de 1829, encontramos uma carta de Pedro
Trápani, que se dirigia a Lavalleja. Mas, antes
de falar dela quero dizer uma palavra sobre Trápani.
Ele era o cérebro de Lavalleja, o seu guru político.
Lavalleja não era um homem de muita visão
e nem de largos horizontes. Era, sim, um grande guerreiro,
que lutava com bravura. Mas Trápani pensava politicamente
por ele. No sentido ideológico, foi o verdadeiro
pai da independência oriental, fato que, lamentavelmente,
é tão esquecido em nosso país.
Trápani escreveu para Lavalleja sobre um reforço
de tropas imperiais dirigidas ao Rio Grande e Santa
Catarina. Diziam, no Rio de Janeiro, “que o imperador
sabia que Fructuoso e Tomás García de
Zúñiga seguiam seu plano de agregar as
províncias de São Pedro e Rio Pardo ao
Estado Oriental. Não sei se isso era verdade
ou apenas conversa”.
Pouco depois, Trápani insiste no mesmo tema:
“essas tropas (...) embora algum dia pudessem
servir contra nós, agora servem para conter seus
próprios súditos em ordem, guardar suas
fronteiras e evitar que a anarquia se introduza em seus
domínios, pois sempre esperam que logo os orientais
se tornarão anárquicos e montoneros. Deus
queira que tal coisa não aconteça”.
Mas aconteceu, lamentavelmente.
A grande habilidade política de Rivera permitiu-lhe
assumir a primeira presidência constitucional
do Uruguai. Quase ocorreu uma guerra civil, quando a
Constituição ainda não havia sido
jurada. Então, termina a disputa do chamado “pacto
dos compadres”, porque Lavalleja e Rivera eram
compadres entre si. Rivera foi padrinho de casamento
de Lavalleja.
Conforme o acordo dos generais, em 18 de julho de 1830,
foi promulgada a Constituição da República.
Lavalleja, então, ficou como governador provisório
até que entrassem em jogo as instituições
determinadas pela Constituição. Rivera
ficou como comandante-geral da Campanha. Quem ganhou
foi Rivera, pelas condições e forma como
as eleições ocorriam naqueles tempos.
Tanto é assim que os deputados do interior sempre
eram mais numerosos que os de Montevidéu por
razões constitucionais. Se os deputados de Montevidéu
eram por Lavalleja, os do interior eram por Rivera.
Os do interior, por pressão, foram escolhidos
a partir do compromisso de apoiar Rivera. Então,
ele foi escolhido pela Assembléia Geral. Essa
dicotomia entre o campo e a cidade se mantém
até hoje.
Durante sua gestão na presidência, Rivera
privilegiou aqueles que, como ele, haviam servido ao
Império, o chamado Círculo Imperial, ou
Assembléia Imperial, na etapa Cisplatina. Desta
forma, foram marginalizados os patriotas de 1825, que
reconheciam Lavalleja como caudilho. Ele, então,
insurgiu-se em armas, em 1832, e, a partir deste momento,
restabeleceu seus contatos com os liberais do Rio Grande.
Formulou uma série de promessas que somente poderia
cumprir se vencesse Rivera, o que não sucedeu.
De qualquer modo, encontrou no Rio Grande base logística
e apoio armado.
Do outro lado do Rio da Prata, crescia, de maneira avassaladora,
a influência daquele que seria a figura de proa
nos acontecimentos futuros, o governador de Buenos Aires,
Juan Manuel de Rosas. Rivera, por sua vez, mantinha
íntimos laços com os emigrados unitários
de Lavalle. Quando Lavalleja volta a invadir, em 1834,
seu exército é chamado de “Restaurador”.
Cumpridos os quatro anos do mandato presidencial, que
terminaram em outubro de 1834, surgiu um lapso de tempo
que resultou do fato de que o presidente deveria ser
escolhido em uma sessão da Câmara no dia
1° de março de 1835. Nesse interregno, Rivera
se fez designar comandante-geral da Campanha, cargo
que o convertia em verdadeiro presidente paralelo, já
que controlava todas as tropas que estavam fora de Montevidéu.
Verdadeiramente havia um outro mandatário.
No dia 1º de março de 1835, o general Manuel
Oribe foi eleito por unanimidade da Assembléia
Geral como o segundo presidente da República.
Não é verdade que devesse sua eleição
à influência de Rivera, como este pretendeu
depois. Oribe venceu porque o patriciado que integrava
as câmaras queria um governo de ordem, sem revoluções
e, além disso, um governo honesto.
Entretanto, com uma mistura de carisma e idoneidade,
Rivera nunca soube diferenciar entre os fundos do Estado
e os seus próprios fundos. Na época, um
tribunal de contas encontrou 174 motivos para ações
contra a gestão financeira de Rivera.
Oribe foi o primeiro presidente que assumiu o governo
do Uruguai com um plano orgânico para um país
independente, ou seja, com uma idéia, uma arquitetura
própria. Para isso, era necessário que
o Uruguai se desligasse dos conflitos que agitavam a
Argentina e o Brasil. Ele reorganizou as finanças
que estavam em estado desastroso desde a gestão
de Rivera. A aposentadoria, a universidade, tudo necessitava
ser organizado no país. Mas isso dependia de
duas circunstâncias que não se concretizaram.
A primeira era a unidade do poder. E ali estava Rivera.
A segunda, manter-se neutro nos conflitos de fronteira.
Nada disso foi possível.
A ampla maioria da opinião pública uruguaia
simpatizava com a Revolução Farroupilha.
Em setembro ou outubro de 1835, Lavalleja escreveu ao
presidente Oribe: “Confesso a V. que sou muito
amigo do Coronel Bentos [como se diz no Uruguai, ele
se refere a Bento Gonçalves,] que celebrarei
infinitamente o êxito da revolução
que ele empreendeu. Em primeiro lugar, porque com isso
deve ganhar a causa da liberdade e o sistema americano;
em segundo, porque teremos como vizinho um estado pequeno,
igual às nossas forças, ao qual não
podemos temer. Não (seria) assim se o império
permanecesse de pé, pois sempre haveria ambiciosos
que quisessem nos colocar sob o jugo, que à força
de tantos sacrifícios soubemos romper. É
por isso que não tenho porque negar a minha opinião,
pois eu acho que deve ser a de todos os meus compatriotas.
Já que não é dado proteger a uma
porção de americanos que querem ser
livres, deixemos que eles conquistem então o
precioso bem. E não vamos nos intrometer em suas
questões, e guardemos a neutralidade que nos
convém.”
Assim mesmo, Lavalleja continuava com seus contatos
rio-grandenses. Isso ele demonstrava numa carta de dezembro
de 1835, que recebeu do rio-grandense José Gonçalves
de Vasconcelos Jardim, que dizia:
“As reflexões de Vossa Excelência
sobre os acontecimentos ocorridos nesta capital, o modo
de pensar de Vossa Excelência acerca deles, os
seus sentimentos, tudo patente ao caráter ilustre
do americano que arrancou das garras do despotismo o
brioso Estado Oriental do Uruguai. Sim, meu bom amigo,
eu me congratulo com Vossa Excelência pelo triunfo
que alcançou a causa da liberdade nesta provincia,
tanto tempo vítima do despotismo e caprichos
de dois perversos à toda prova.”
Oribe, cujo distanciamento com Rivera era cada vez maior,
por razões já mencionadas, pretendeu sinceramente
manter a neutralidade. Naquela época, porém,
manter a neutralidade era impossível. Como controlar
uma fronteira de centenas de quilômetros, mais
do que flutuante e pouco habitada? Ele precisaria de
milhares de soldados para isso. Uma das medidas de Oribe
havia reduzido o exército para economizar recursos
do orçamento militar. Além disso, Oribe
não tinha nenhuma relação com os
caudilhos rio-grandenses. Tampouco era um caudilho.
Ele sugeriu, então, a Almeida Vasconcellos, encarregado
de negócios do Brasil em Montevidéu, que
os governos legais do Uruguai e do Rio Grande ajudassem
um ao outro diante das tentativas revolucionárias
de ambos os lados.
Em outubro, Oribe marchou pessoalmente à fronteira
de Cerro Largo pois, naturalmente, desconfiava das intenções
de Rivera e de Lavalleja. Lá, encontrou-se com
o comandante-geral da Campanha. Uma testemunha, que
depois seria o famoso Andrés Lamas, secretário
de Rivera, disse que pareciam dois acampamentos inimigos
porque Rivera, na época, andava revivendo velhos
sonhos regionalistas. Alimentava a idéia de uma
regionalização que tivesse como eixo o
Estado Oriental, com seu porto de Montevidéu,
e que abrangesse o Rio Grande do Sul e a Mesopotâmia
argentina, as provincias de Entre Ríos e Corrientes.
E não falava de Missiones, porque havia perdido
seu caráter de província nos últimos
anos.
Em meados de 1836, Rivera levantou-se em armas contra
o governo de Oribe. Recebeu a cooperação
armada dos unitários argentinos exilados, liderados
pelo general Lavalle. Assim, surgem as duas bandeiras,
a branca, por Oribe, e a vermelha, por Rivera. Foi na
batalha de Carpinteria que, pela primeira vez, enfrentaram-se
em combates as duas divisas, em setembro de 1836. Rivera
e Lavalle refugiaram-se no Rio Grande, acompanhados
de 400 homens, que, então, entraram para o serviço
imperial. Mas Rivera sempre jogou com duas cartas, de
forma que voltou a entrar em contato com os dirigentes
farrapos, sobretudo quando Bento Manuel Ribeiro
abraçou a causa revolucionária. Em Piratini,
o coronel argentino Martiniano Chilavert, delegado de
Rivera, negociou com José Mariano de Mattos uma
fórmula de cooperação militar (junho
de 1837). E não devemos esquecer que grupos de
combatentes farrapos entravam e saiam permanentemente
do territorio uruguaio.
Na mesma época, aproximadamente, o governo de
Oribe resolveu estabelecer negociações
com o governo do Rio de Janeiro, enviando para lá
Carlos G. Villademoros. Suas instruções
encaminhavam para a assinatura de um tratado de limites
que reconhecesse os direitos territoriais do Uruguai,
até pelo menos a linha do Rio Ibiqüí,
se não fosse possível atingir a linha
de Santo Ildefonso. Posteriormente a este, poderiam
assinar um tratado de aliança que estabeleceria
a colaboração de ambos os governos, uruguaio
e brasileiro, contra os seus respectivos revolucionários.
Esse tratado de aliança era o que interessava
ao chanceler imperial. Ou seja, existia uma inversão
de prioridades. Para o Uruguai, primeiro o tratado de
limites e depois o tratado de alianças. Para
o Brasil, primeiro o tratado de alianças e depois
o tratado de limites. As negociações foram
árduas.
Abria-se a possibilidade de um acordo quando chegou
ao Rio de Janeiro uma notícia horrível.
Rivera não somente havia invadido o Uruguai,
mas também havia derrotado as forças do
governo de Oribe na batalha de Yucutujá, em 1837.
Isso marcava a instabilidade do governo uruguaio, que
provocou, logicamente, o desinteresse do governo imperial
na negociação, prevendo que o governo
uruguaio pudesse cair a qualquer momento.
Por outro lado, a aliança entre Rivera e os farrapos
pareceu se consolidar em agosto de 1838, com a assinatura
de um tratado redigido pelo mesmo Andrés Lamas,
firmado por Chilavert e de Mattos, representantes das
partes, no arroio Cangüé, no acampamento
de Rivera. Pelos termos, a República Rio-grandense
reconhecia o sublevado Rivera como única autoridade
existente no Uruguai. Por sua vez, Rivera reconhecia
a independência do Rio Grande e se manifestava
em estado de guerra contra seus inimigos. Não
era pouco. Rivera prometia, além disso, que faria
imediatamente um tratado de aliança ofensivo
e defensivo com o governo de Piratini. Foram acrescentadas
várias cláusulas de ordem militar, que
“arrumavam” as fronteiras que juridicamente
nem existiam, dado que permitiam a passagem, sem obstáculos,
do exército de Rivera para o Rio Grande, e do
exército farrapo para a República Oriental.
É provável que, naquela data, grande parte
da Campanha já estivesse sob o controle de Rivera.
Mas existiam dois artigos secretos adicionais no acordo
com os farrapos. O segundo deles dizia o seguinte: “O
general-em-chefe defensor da Constituição
[assim se intitulava Rivera] obriga-se por si, para
o povo e o exército a quem representa, a não
descer jamais da cadeira da Presidência nos termos
marcados pela lei sem passar imediatamente a ocupar
o lugar de comandante-geral da Campanha da República
Oriental com as atribuições conferidas
até aqui legalmente a este emprego e nunca menos,
a fim de que possa suceder, ao seu turno, o seu próprio
sucessor na cadeira da Presidência quando este
dela descer; e assim sucessivamente passará de
presidente a comandante-geral da Campanha a presidente,
por todo o tempo que durasse a atual guerra gloriosamente
sustentada pelo povo rio-grandense.”
Aqui surge o conceito de Rivera sobre poder político,
um conceito patrimonial. Ele se considerava o governante
natural do Uruguai, e não queria violar demais
a Constituição, porque as violações
repetidas são mal vistas. Ele colocava vários
fantoches que manipulava e se intitulava como General
da Campanha.
Na batalha de Palmar, no ano de 1838, Oribe foi derrotado
por Rivera e Lavalle, e se viu reduzido a Montevidéu.
Ali recebeu um último e inesperado golpe. A França
estava em conflito com o governador Rosas, de Buenos
Aires. A frota do almirante Leblanc precisava de uma
base com rapidez. Então, ele estava impedido
de estabelecer a Argentina como base de suas operações,
que não poderia ser outra senão Montevidéu.
De maneira agressiva, Leblanc exigiu que o presidente
Oribe lhe permitisse utilizar o porto de Montevidéu
para suas operações militares. Oribe não
concordou.
Se Oribe tivesse cedido, seu governo teria se salvado.
Mas negou-se a trair a causa americana com a qual estava
profundamente envolvido, em troca de uma possível
ajuda francesa contra Rivera. A causa americana, entretanto,
acabava resultando em muitos benefícios para
o imperialismo europeu. Na ocasião, a França
seguia a saga da Inglaterra, e passara a acentuar suas
ações coloniais desde 1830, quando conquistou
a Argélia. Em 1838, combateu com o México
na chamada Guerra dos Pastéis e, no mesmo ano,
atacou a Confederação Argentina.
Assim, os franceses, ao desembarcarem em Montevidéu,
provocaram a queda de Oribe, que se refugiou em Buenos
Aires, onde Rosas o reconheceu como presidente legal,
em outubro de 1838. A França financiou Rivera,
que ocupou o poder, acompanhado de seus aliados: os
unitários, os franceses e os farrapos. Os
unitários estavam dentro do seu exército
formando as unidades melhor organizadas ao mando de
Lavalle. Além disso, os militares e civis argentinos
sustentavam em Montevidéu a chamada Comissão
Argentina, que tinha muita influência na imprensa
e nos meios políticos do Partido Colorado, formado
por Rivera. Os franceses mantinham a frota dentro de
Montevidéu. Se quisessem, teriam destruído
a cidade, e, além disso, sustentavam Rivera financeiramente.
Ele conseguiu extrair dos franceses a fabulosa soma
de 100 mil francos. Poderia romper com os unitários?
Não. Poderia romper com os franceses? Não.
Poderia romper com os farrapos? Sim! Assim o fez, começando,
em seguida, uma tratativa com o governo imperial para
deles se desligar.
Contudo, as pressões dos franceses e dos unitários
foram muito fortes sobre Rivera. Em fevereiro de 1839,
ele teve que declarar guerra ao governador Rosas, em
conflito com a França, assim intervindo diretamente
nas guerras civis da Confederação Argentina.
Rivera, entretanto, sempre quis fazer a paz. Ele não
tinha nenhum interesse verdadeiro na guerra contra Rosas.
O Uruguai já havia limitado suas ambições
em relação ao tema. Mas Rivera acabou
atingido por uma desgraça, porque Lavalle organizara-se,
em Montevidéu, para atacar Rosas, contando com
a conivência de importantes políticos.
Tal manobra foi chamada por Rivera, em uma carta indignada,
de “a famosa manganeta do perverso Lavalle”.
“Manganeta” significa um ardil, o famoso
engano de Lavalle, que, antigamente, era tão
seu amigo e colaborador. A guerra transferiu-se para
o território argentino. Novamente surgia uma
outra contradição, porque o general Oribe,
que continuava ostentando a condição de
presidente da República Oriental do Uruguai,
foi designado por Rosas como comandante-em-chefe do
Exército Unido de Vanguarda da Confederação
Argentina.
Era a Guerra Grande. Outra vez enfrentavam-se Rivera
e Oribe. Curiosamente, dois homens que se intitulavam
presidentes do Uruguai combatiam no território
argentino, situação que perdurou até
a terrível batalha de Arroyo Grande, em dezembro
de 1842. Foi uma epopéia trágica para
Lavalle. Perseguido por Oribe, derrotado nas batalhas
de Quebracho Herrado e de Famaillá, na Província
de Tucumán, Lavalle fugiu e morreu, de uma forma
que nunca ninguém conseguiu esclarecer. Com tudo
isso, a atenção se desviou dos acontecimentos
do Rio Grande, enquanto havia um outro cenário
em primeiro plano.
Um acontecimento pessoal, nesse período, vinculou
a cidade de Montevidéu com os fatos rio-grandenses.
No início de 1842, Giuseppe Garibaldi chegara
a Montevidéu e se colocara à disposição
do governo Colorado. Vinha acompanhado por Anita e pelo
pequeno Menotti. Ele já havia visitado as costas
orientais em 1837, quando exercia sua carta de corsário
em nome da República de Piratini.
Em fevereiro de 1843, o exército de Oribe, composto
por uruguaios e argentinos, no começo mais argentinos
que uruguaios, estabeleceu o sítio de Montevidéu.
Naquele momento, os farrapos já estavam na defensiva
e em seu ocaso. Não mais poderiam influenciar
no Rio da Prata, nem sua aliança era desejável
para nenhum dos lados em choque. No entanto, a convivência
econômica continuava. Como exemplo, o governador
de Entre Ríos, Urquiza, grande latifundiário
e fiel a Rosas, vendia gado aos farrapos por meio de
um representante em Montevidéu. Em troca, pedia
charque, que passava por Montevidéu antes de
chegar ao seu destino final, que era alimentar o exército
imperial. Esse era um negócio muito próspero.
Assim, o futuro protagonista da influência brasileira
no Rio da Prata será o império. Mas com
uma ressalva, como anunciou no Rio de Janeiro, em 1844,
o ministro uruguaio Francisco Magariños: “O
governo brasileiro não se atreve a se comprometer
no exterior sem haver terminado a luta na Província
de São Pedro”. Isso significava que, para
o governo no Rio de Janeiro, era necessário vencer
em definitivo a resistência farroupilha. Depois
sim, teriam o caminho livre, para reunificar todo o
território do Brasil, sob o mando do governo
carioca. O império se preparava para influenciar
sobre os conflitos platinos, como em pouco tempo passou
a ocorrer.
Os farrapos negros e
a política da escravidão
Spencer L. Leitman
__________________________________________________
Bacharel em História pela Universidade
do Estado de Nova York,
mestre e PhD em História pela Universidade do
Texas
O tema subjacente desta conferência é fundamental
para a compreensão do desenvolvimento histórico
brasileiro, visto que a escravidão e suas conseqüências,
assim como nos Estados Unidos, são as contradições
centrais do que foi o início do governo republicano
constitucional. Os pais fundadores da nascente República
do Piratini, porém, expressando as novas idéias
de republicanismo, infundidos com os conceitos de egalité
e fraternité, ignoraram e, portanto, maltrataram
aqueles que se haviam tornado seus irmãos na
guerra.
Infelizmente, não temos documentação
escrita dos farrapos negros e de outros escravos da
época dos farroupilhas. Na falta de seus pensamentos
e experiência, precisamos confiar nos materiais
daqueles que foram seus senhores. Não podemos
ter mais do que esperança de dar alguma forma
às sombras deixadas para trás pelos farrapos
e escravos negros. Em parte, há uma responsabilidade
histórica de produzir, ou pelo menos proporcionar,
uma visão de como suas vidas podem ter sido,
assim como as daqueles que os subjugaram.
Talvez os farrapos negros, ao entrarem nas fileiras
da Revolução Farroupilha, acreditassem
que as funções de combate seriam os primeiros
– embora pequenos – passos rumo à
igualdade.
O general, ao analisar o tratado recentemente assinado
dando fim à Revolução, interpretou
seu significado como o de que todos os ex-escravos que
haviam sido libertados – resultado da união
às forças oposicionistas – seriam
devolvidos a seus proprietários originais, incluindo,
talvez, seus próprios fugitivos. Os antigos escravos
que haviam recebido sua liberdade para lutar contra
os revolucionários estavam, então, acampados
na cidade do porto, e o general queria que eles fossem
entregues a seus oficiais; claramente agitado por causa
do seu iminente prejuízo econômico, ele
deu prioridade à questão em seu quartel-general
antes de visitar seus pares militares derrotados. Entretanto,
não conseguiu convencer seu visitante a devolver
seus soldados negros. A lógica do general derrotado
provou ser forte demais. Ele disse que aqueles homens
já não estavam mais escravizados, pois
haviam sido libertados durante o curso da Revolução,
antes que o tratado dando fim ao conflito fosse assinado.
Além disso, precisava honrar a promessa de libertação
do seu monarca. Foram, então, embarcados em um
navio para serem mandados embora.1
Tudo isso pode parecer familiar à primeira vista,
mas neste elenco de personagens da cena histórica
acima não estavam os generais Caxias, Canabarro
ou Bento Gonçalves. Tudo ocorreu sessenta e dois
anos antes, no quartel-general do general George Washington,
em Tappan, Nova York, em 1783. Washington, comandante
das forças vitoriosas da Revolução
Americana, e que logo depois seria o presidente dos
Estados Unidos da América, estava lamentando
a ação britânica de transferir seus
soldados negros libertos, inclusive os que poderiam
ter sido sua propriedade, à Nova Escócia,
muito longe do seu alcance e do alcance do seu país.
Colocar ex-escravos e homens libertos em uniformes também
foi controverso e politicamente sensível no Brasil.
Os planos para a sua disposição após
o final da Revolução Farroupilha deveriam
ter provocado questões morais, constitucionais
e pessoais profundas. Mas isso não aconteceu.
A discussão sobre a escravidão foi limitada.
As idéias de liberalismo dos farrapos não
eram incompatíveis com as tradições
autoritárias da época. Na América
do Norte, os revolucionários haviam retirado
da mesa essa questão ameaçadora e potencialmente
divisória. A escravidão estava claramente
em oposição aos princípios fundadores
da Revolução Americana. Em primeiro lugar
vinha a proteção da nova união.
Os riscos de enfrentar questões que penetravam
no tecido econômico e social da nação
agora independente eram muito arriscados naquele momento.
Também no Rio Grande do Sul nunca houve de fato
a questão de “fazer a revolução
e a democracia ao mesmo tempo”.2
____________________________________________________________
1HOCHSCHILD, Adam. Bury the Chains. Boston, 2005,
pp. 101-103.
2 ELLIS, Joseph J.. Founding Brothers. Nova York, 2002,
pp. 116-117; PICCOLO, Helga Iracema Landgraf. A guerra
dos farrapos e a construção do estado
nacional. In: PESAVENTO, Sandra (org.). A Revolução
Farroupilha: história & interpretação.
Porto Alegre, 1985, p. 59. Os melhores estudos sobre
a escravidão no Rio Grande do Sul são
as obras de Mário Maestri, em particular O escravo
no Rio Grande do Sul e A charqueada e a gênese
do escravismo gaúcho (Caxias do Sul, 1984); e
O escravo gaúcho: resistência e trabalho
(Porto Alegre, 1993). Outro trabalho interessante, especificamente
sobre a escravidão durante o período farroupilha
é de Margareth Marchiori Bakos, A escravidão
negra e os farroupilhas, In: A Revolução
Farroupilha, pp. 79-97.
____________________________________________________________
Na sessão parlamentar de 1845,
o paulista Alves Machado respondeu aos fracos questionamentos
do representante de uma minoria sobre rumores relativos
a emissários secretos da Corte e expedições
governamentais disfarçadas rumando para o sul
na conclusão da Revolução Farroupilha,
o que ia contra o direito de propriedade. Apesar de
a oposição estar atrás de respostas
e detalhes que cercavam os acertos finais e os custos
dos farrapos negros libertados com o Tratado do Ponche
Verde, os dois grupos parlamentares estavam de acordo
em relação à inviolabilidade da
propriedade privada.
No entanto, ao conceder à oposição
o direito de questionamento, Alves Machado não
queria qualquer discussão ou investigação
no programa de pacificação que estava
ocorrendo no Rio Grande do Sul: “… acha
que o que for justo mais tarde, agora não o é.”
Exatamente como o general britânico havia respondido
a George Washington, Machado Alves argumentou que os
escravos já haviam sido libertados em 1838: “os
escravos entregues pela Revolução foram
libertados graças ao que estatui o aviso de 19
de novembro de 1838, cuja cláusula 3 mandou que
todos os escravos militarizados pelos rebeldes que se
apresentassem às forças legais fossem
avaliados e postos em liberdade, avaliados para pagá-los
a seus donos”.
Houve um precedente histórico na Bahia durante
o período de independência. Caxias, então,
segundo Machado Alves, estava executando as palavras
do imperador. Em resumo, Machado Alves fechou para sempre
a questão da alienação dos farrapos
negros ao dizer: “Não é bom que
sejam chamadas todas estas cousas a exame; porque o
que se lucra hoje com isto? Nada: nada há que
ganhar e muito há a perder.” A maioria
aplaudiu. Com efeito, o governo imperial honrou e estendeu
a interpretação do aviso de 1838, que
concedia liberdade aos farrapos negros desertores. Alves
Machado minimizou os números para que sua audiência
mais solidária suavizasse o impacto da inviolabilidade
dos direitos de propriedade, dizendo “que os escravos
da revolta não tornam ao poder dos senhores e
não excedem a 200, inclusos na soma os 120 que
David [Canabarro] entregou no ato da Paz”.3
____________________________________________________________
3 VARELLA, Alfredo. História da grande revolução:
o ciclo farroupilha no Brasil. (Porto Alegre, 1933),
vol. VI, pp.507-509; ver também LEITMAN, Spencer
L. The Black Ragamuffins, In: The Americas, vol. XXX111,
janeiro de 1977, n.3, pp.504-518.
____________________________________________________________
Não importou o discurso histórico
acalorado décadas depois sobre a Surpresa de
Porongos e o Tratado de Ponche Verde, nem os papéis
desempenhados pelo Barão de Caxias e por David
Canabarro. É quase certo que os farrapos negros,
lanceiros e da infantaria, e muitos outros que haviam
servido como escravos, e que permaneceram como tais
durante a Revolução Farroupilha, foram
involuntariamente colocados de volta em posições
de reduzida autonomia. A escravidão era um sistema
incrivelmente adaptador, centrado no trabalho, na coerção
e no controle. Talvez os farrapos negros, com o fim
da revolução, tenham sido levados de navio
a outras províncias para trabalharem em empreendimentos
do Império, ou tenham sido divididos e colocados
nas fileiras da Cavalaria Ligeira de Caxias. Com medo
da doutrinação política dos farrapos
e da inquietação dos escravos, eles não
foram devolvidos aos seus proprietários anti-separatistas.
Esta era a questão de direitos de propriedade
que o legislador minoritário queria trazer à
baila à frente de Alves Machado.4
O conceito de liberdade no sistema escravista brasileiro
é ambíguo.
Diferentemente do que aconteceu nos Estados Unidos,
onde as linhas divisórias entre liberdade e escravidão
eram bem definidas, aqui no Brasil, em 1845, corriam
rumores abafados no Rio de Janeiro e cochichos no Rio
Grande do Sul. Havia pouca pretensão no que diz
respeito ao destino dos farrapos negros uma vez que
a situação militar estava resolvida e
eles tinham sido removidos, isolados ou colocados em
um ambiente militar. Nem todos eram livres e iguais.
Os farrapos negros eram tidos, por todos, como socialmente
inferiores, além de potencialmente perigosos.
As contradições e falsas promessas eram
correntes e visíveis, e constituíam uma
ideologia tradicional aceita, confirmadas por considerações
econômicas e sociais. Apesar de quase todos se
beneficiarem com esse resultado, os escravos e farrapos
negros, é claro, recebiam menor autonomia. Nem
os antigos farrapos, nem os legalistas vitoriosos queriam
o retorno de soldados negros politizados. No fim, para
os farrapos estancieiros, que eram brancos, e tinham
sido derrotados, o banimento dos farrapos negros deve
ter servido, de certa forma, como vingança em
relação aos seus competidores provinciais,
de quem eles haviam sido tomados.5
___________________________________________________________
4 Como exemplo desse debate, ver: VARELLA, Alfredo.
História da grande revolução. Porto
Alegre, 1933, seis volumes; SPALDING, Walter. A epopéia
farroupilha: pequena história da grande revolução.
Rio de Janeiro, 1963 (com farta documentação
da época de 1835-1845); e DOCCA, E.F. de Souza.
O sentido brasileiro na Revolução Farroupilha.
Porto Alegre, 1935. Sobre os farrapos negros, ver BENTO,
Claudio Moreira. A Revolução Farroupilha:
corpo dos lanceiros negros farroupilhas. In: www.resenet.com.br.
5 BENTO, Claudio Moreira. O negro e descendentes na
sociedade do Rio Grande do Sul, 1635-1975. Porto Alegre,
1976. A posição final dos farrapos negros
permanece obscura. Caxias, em ofício de 4 de
março de1845, ordenou que os farrapos negros
ainda em armas fossem agregados aos Corpos de Cavalaria
de Linha. Entretanto, ainda restavam dúvidas
em relação ao destino final de todos aqueles
que haviam servido. Manoel Felisardo de Souza e Mello,
May 24, 1848, Arquivo Nacional, IJ 6471. Ver os vigorosos
e aviltantes comentários de Caxias, em 1846,
então um Conde, quando escreveu: “a última
classe da sociedade, desgraçada de todas as luzes
da religião e da civilização e
por causa tão animais, e mesquinhas, como a inteligência
dos bugres selvagens, e dos escravos africanos que as
cometem,” In: BAKOS, Margareth Markiori. A escravidão
negra e os farroupilhas. p. 96.
___________________________________________________________
A Revolução Farroupilha
fluiu no tempo e no espaço geográfico.
Parecia se mover a passos descansados, com erupções
repentinas, mas infreqüentes, que se transformavam
em batalhas significativas. A maioria dos encontros
militares ficou na categoria de escaramuças.
Mestres da insurgência, as forças farrapas
recorreram a ataques flexíveis no estilo guerrilha,
manobras evasivas e conhecimento do terreno, o que permitiu
que sobrevivessem. Com seus movimentos longos, especialmente
nos últimos anos da guerra, eles operaram a maioria
das vezes na campanha, usando técnicas para importunar
e provocar o inimigo, concentrando seus esforços
em acumular recrutas e suprimentos essenciais de cavalaria.6
A existência militar dos farrapos foi profunda
e continuamente dependente da disponibilidade de soldados
negros, fossem escravos ou não. Ataques a estâncias
e charqueadas legalistas eram fontes certas de escravos,
homens libertos e vagabundos. Farrapos brancos da Guarda
Nacional podiam receber dispensa para voltar para casa
e sustentar suas famílias e fortunas, enquanto
os soldados negros eram mobilizados como tropas da primeira
linha.
Além disso, a resposta dos rebeldes rio-grandenses
a essa constante necessidade de obter homens, cavalos
e gado era a de que servia para expandir as operações
dentro do Rio Grande do Sul. Eles também desenvolveram
contatos com estados vizinhos, províncias e caudilhos
do outro lado da longa fronteira. Afastados dos portos
de Porto Alegre, Norte e Rio Grande, e das lagoas e
sistemas fluviais, os farrapos contavam com apoio importante
da Banda Oriental, Entre Ríos e Corrientes. Em
troca de roupas, mosquetes, pistolas, espadas e, é
claro, cavalos, os farrapos entregavam gado capturado.
Da mesma forma, tais acordos também provaram
ser negócios privados lucrativos. A vasta campanha
servia de refúgio e força para os rebeldes.
____________________________________________________________
6 A melhor abordagem breve sobre os farroupilhas
continua sendo a de Walter Spalding, em “A epopéia
farroupilha: pequena história da grande revolução”.
Entretanto, a mais completa, embora mais tortuosa e
mais controversa, é a dos vários trabalhos
de Alfredo Varella, incluindo o monumental estudo de
seis volumes, “História da grande revolução”.
____________________________________________________________
Ao final da revolução, talvez
mais de 5.000 ex-escravos e homens libertos haviam servido,
estavam ainda na ativa, ou se encontravam potencialmente
disponíveis para a resistência. Sua presença
em si, como uma força motriz formidável,
causava ansiedade entre os estrategistas legalistas.
Muitos comandantes farrapos acreditavam que poderiam
resistir indefinidamente, ou, pelo menos, forçar
o Rio de Janeiro a uma paz honrada, o que lhes permitiria
manter suas posições, terras e escravos.
A Surpresa dos Porongos provou ser uma solução
mais fácil e organizada.7
Escravos eram um bem necessário, mas sacrificável,
para os rebeldes. O Rio Grande do Sul teve percentuais
elevados de negros e escravos, em sua maioria homens
de menos de quarenta anos. Parecia sempre haver mais
para fins militares, apesar de que, na prática,
os farrapos protegiam seus próprios escravos
do serviço militar ou estadual. Os principais
alvos militares eram as charqueadas anti-separatistas
em Pelotas, Piratini e redondezas, e suas estâncias
por toda a província. Pelotas tinha a maior concentração
de escravos, a maioria deles em idade de combate, na
época estimados em 5.000. Estabelecimentos pré-industriais,
fisicamente exigentes e cuidadosamente regulados, onde
o trabalho era socialmente diferenciado por tarefas,
incluíam carneador, servente, salgador, tropeiro,
graxeiro, carpinteiro, marinheiro, campeiro e outros.
Essa mão-de-obra treinada rendia tropas boas
e disciplinadas.8
A escravidão, no contexto das charqueadas, era
indescritível: o ambiente exigente e severo dentro
das fazendas, a brutalidade do trabalho, o abuso físico,
chances mínimas para a vida em família,
humilhação desumanizante, além
do constante medo e uso do chicote. Charqueadas legalistas
continuaram a operar durante a guerra, e guarnições
legalistas eram posicionadas a fim de mantê-las
a qualquer custo. Tal manufatura e comércio eram
a base da vida econômica e fiscal da província.
Os farrapos, privada e publicamente, negociavam gado
com o inimigo, como faziam mais regularmente com Montevidéu.
Para minorar as dificuldades comerciais inerentes à
guerra, em Pelotas, e seu escoadouro para o mar, Rio
Grande, estancieiros farrapos organizaram suas próprias
charqueadas no distrito baluarte de Jaguarão,
que lhes permitia pontos alternativos de embarque em
Rio Grande e Montevidéu.
____________________________________________________________
7 Claudio Moreira Bento, em “O negro”
(p.160), seguindo Antônio José Gonçalves
Chaves, em “Memórias economo-políticas
sobre a administração pública do
Brasil” (1822), reeditado por J.B. Hafkemeyer,
na Revista do Instituto Histórico e Geográfico
do Rio Grande do Sul, 11:11-111, 1922, pp.3-185, calculou
o número de pretos e mulatos na Província,
livre ou escravos, como algo em torno da metade da população
total ou um pouco mais de 50.000, dos quais 18.000 eram
escravos. Após a revolução, o tenente-coronel
José Gomes Portinho escreveu anotações
sobre o trabalho de Tristão de Alencar Araripe,
“Guerra civil do Rio Grande do Sul: memória
acompanhada de documentos”, (Revista do Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro, XL111:2,
1880,115-364; XLV:1,1882,35-236; XLV1:2,1883,165-564;
XLV11:1,1884, 47-238.) Ver as anotações
paralelas de Portinho marginal notation, in Alfredo
Varela Collection, Arquivo Historico do Rio Grande do
Sul, LXX11 (1880, p.192, p.86). Portinho reivindicou
que os rebeldes rio-grandenses poderiam ter erguido
um exército de cerca de 6.000 libertos.
8 Ver WEIMER, Gunter. O trabalho escravo no Rio Grande
do Sul. Porto Alegre, 1991; e LIMA, Solimar Oliveira.
Triste pampa: resistência e punição
de escravos em fontes judiciárias no Rio Grande
do Sul 1818-1833. Porto Alegre, 1997.
____________________________________________________________
As novas charqueadas de Jaguarão
necessitavam, então, de mão-de-obra. O
reabastecimento de escravos, mesmo nas melhores épocas,
era difícil. Os mercadores de escravos do Rio
de Janeiro sempre haviam colocado a província
esparsamente povoada em último lugar na sua lista
de clientes preferenciais. A fim de proteger seus investimentos
e assegurar produção constante, os donos
de charqueadas encontraram métodos adicionais
de cobrar a cooperação dos escravos através
de tarefas rotativas. Não devemos, de forma alguma,
subestimar ou tentar entender os horrores das charqueadas.
Escapar para a vida militar nas linhas farrapas tinha
que ser melhor. Armados e movendo-se no interior do
Estado, as perspectivas de deserção e
liberdade aumentaram.9
A vida nas estâncias, para os escravos, apresentava
vantagens em relação às charqueadas.
Nestas, eles recebiam alguma autonomia dentro dos limites
do regime escravista. O trabalho na campanha sempre
teve pouca demanda. Os estancieiros desenvolveram esquemas
de trabalho em suas propriedades que usavam trabalhadores
escravos, livres e semilivres. Como a caça ao
gado e as fronteiras das fazendas iam invadindo áreas
ao norte da Banda Oriental, especialmente durante épocas
de ocupação e conflito, os estancieiros
agressivamente organizavam operações com
suas grandes famílias, agregados, escravos e
capital. Como a era do gerenciamento de terras, dedicada
a uma melhor procriação de gado, instalação
de cercas e pastos melhorados, ainda estava por vir,
rio-grandenses sedentos por gado procuraram terras melhores
para pastagens na Banda Oriental.10
____________________________________________________________
9 Ver LEITMAN, Spencer L. Slave cowboys in the cattle
lands of southern Brazil, 1800-1850. In: Revista de
História, n.101, São Paulo, 1975, pp.167-177.
10 MAESTRI, Mário. O escravo, pp.36-39.
____________________________________________________________
Listas de donos de terras rio-grandenses,
em 1840, na Banda Oriental, mostram que quase a totalidade
deles tinha escravos. Nem todos desempenhavam as atividades
típicas do gaúcho; alguns cuidavam do
trabalho doméstico, trabalhavam em pequenas plantações
de mandioca, milho e trigo, ou faziam tarefas gerais.
Um dos primeiros especialistas brasileiros em assuntos
platinos, naquela época, escreveu enfaticamente
que a produtividade dos fazendeiros rio-grandenses no
Uruguai dependia de escravos. A vida dos estancieiros
estava mais harmonizada aos ritmos naturais e menos
regimentais da tradicional agricultura de plantação.
Quando os farrapos arremetiam contra as fazendas legalistas,
os escravos levados não eram considerados aliados
em potencial a serem transformados em soldados chefiados
por líderes republicanos progressivos, mas sim
como instrumentos de luta. A liderança e o caráter
dos farrapos podiam ser definidos pelo modo como seus
novos recrutas eram tratados.11
Com efeito, os farrapos estavam desenvolvendo um sistema
duplo de recrutamento. Um deles, fragmentário
e difícil de supervisionar, era apoiado pelo
governo; o outro permitia aos comandantes pegarem tudo
que necessitassem. Escravos confiscados eram uma “solução
baseada no direito da guerra”. Explorados como
a “Estância do Império”, os
rebeldes rio-grandenses mostrariam ao Rio de Janeiro
como fariam uso de seus recursos e escravos, o que eles
tinham em quantidade suficiente.12
Algumas áreas onde a rebelião havia se
movido em fluxos e refluxos estavam agora totalmente
despovoadas de escravos. Apelando à generosidade
patriótica de seus cidadãos, o governo
republicano esperava que os estancieiros farrapos entregassem
voluntariamente seus próprios escravos para uso
militar. Mas eles estavam hesitantes em fazê-lo.
Um bem-sucedido estancieiro/charqueador foi o ascendente
Domingos José de Almeida, talvez ele mesmo um
mulato. Ministro do Tesouro dos farrapos e patrocinador
do jornal rio-grandense O Povo, Almeida levou muitos
de seus habilidosos escravos para Montevidéu,
onde esperava montar novas operações.
Isso protegeria as propriedades recebidas como prêmios
durante a guerra e, ao mesmo tempo, colheria benefícios,
já que cada vez mais gado confiscado era levado
a Montevidéu. Esses acordos de negócios,
que envolviam seu devedor principal e seu cunhado, eram
“cheios de contingências” em função
de sua posição dentro do governo farrapo.
Seus planos falharam e, ao final da guerra, ele havia
perdido quase todos os escravos.13
____________________________________________________________
11 O diplomata brasileiro era Duarte da Ponte Ribeiro,
em “As relações do Brasil com as
repúblicas do Rio da Prata de 1829 a 1843”
(Rio de Janeiro, 1936).
12 Rascunho de um official encarregado do recrutamento,
Coleção Varella, VC, XXXV.
13 Ver LEITMAN, Spencer L. The Black Ragamuffins. In:
The Americas, vol. XXX111, janeiro de 1977, n.3.
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O decreto militar farrapo de 20 de abril
de 1838, que criava o Depósito Geral do Recrutamento,
mostrou a dificuldade de se juntarem grupos social e
racialmente diferentes. Objetivos contraditórios
e totalmente irrealistas alimentaram ressentimentos
e insatisfação entre os novos e oprimidos
recrutas. Acima de tudo, o decreto exigia dos comandantes
de campo “inspirar nos recrutas, por todos os
meios ao seu alcance, o amor e a adesão à
causa sagra da da Independência e Liberdade
de sua Pátria”. Novos recrutas aderiam
às escolas de cavalaria, infantaria e artilharia.
Os instrutores ensinavam a arte da guerra, virtudes
morais, cívicas e militares. Inicialmente, os
membros da Guarda Nacional recusaram-se a se associar
às tropas de negros da primeira linha, temendo
a perda de autoridade e da habilidade de entrar e sair
da vida militar conforme suas necessidades econômicas.
Recrutas brancos que haviam aderido voluntariamente
e faziam parte de uma classe mais alta podiam se juntar
a qualquer corporação. Uma segunda seleção
dos mais qualificados entre índios, escravos
e homens libertos entrava para o famoso 1º Corpo
de Lanceiros Negros, que foi completamente segregado
e provido com todos os oficiais brancos. Assim como
outras tropas farrapas, eles eram pobremente alimentados,
vestidos e armados. Em 1839, dos cerca de 4.500 soldados
nos exércitos farrapos, em torno de 1.000 eram
negros. Aqueles considerados inferiores na escala social,
ou menos capazes, serviriam nos “Corpos de Infantaria
e Caçadores”.14
A maioria dos escravos confiscados das fazendas,
portanto, ia para o Corpo de Lanceiros, enquanto a maior
parte daqueles tirados das charqueadas, geralmente sem
habilidades com cavalos, era alistada na infantaria.
Conforme a guerra se arrastava, o percentual de escravos
e homens libertos no exército sem dúvida
aumentava; os outros componentes militares tornavam-se
menos ativos, desertavam ou trocavam de lado.
Durante o longo curso da Revolução, a
administração farrapa, decreto após
decreto, espalhava a retórica da liberdade, mas
criava uma mistura inflamada de vingança, ganância,
ressentimento social e racial e patriotismo mal-colocado.
Tais atos fizeram com que os legalistas perdessem seus
direitos à propriedade e seus privilégios,
degradando, também, a propriedade humana. Antigas
desavenças tornaram-se atos de represália,
fazendo com que o gado confiscado fosse levado para
além da fronteira de Montevidéu, ou de
volta às charqueadas próximas dos portos
lacustres através de linhas legalistas.
Alguns comandantes farrapos participavam do empreendimento
da Revolução como guerreiros mercadores.
“Nada há que contenha os traficantes, sendo
o único ideal ganhar dinheiro.”15
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14 BENTO, Claudio Moreira. O exército farrapo
e os seus chefes. Rio de Janeiro, 1993, v 2.
15 VARELLA, Alfredo. História da grande revolução:
o ciclo farroupilha no Brasil. Porto Alegre, 1933, vol.VI,
p.467.
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Além disso, o decreto de 12 de
novembro de 1836 ajudou a formar a consciência
revolucionária e também, em parte, a diferenciar
os amigos dos inimigos ao adotar o laço nacional
tricolor. As cores serviam para distinguir e separar
seguidores farrapos dos legalistas, bandidos e desertores
do exército. Homens libertos também usavam
o laço tricolor. Os escravos confiscados das
propriedades legalistas, mas que não eram levados
às frentes de guerra, não o usavam.
Os farrapos valorizavam os ideais de governo sólido
e eficiente. Como a mais fidedigna depositária
da liberdade, a Guarda Nacional espelhou o entusiasmo
e o heroísmo de 20 de setembro de 1835, quando
o comandante da Guarda Nacional da província,
Bento Gonçalves da Silva, entrou triunfantemente
em Porto Alegre. A Guarda servia de instrumento para
a construção, a conservação
e a expansão do apoio político local.
Em teoria, era composta de cidadãos comuns de
todas as camadas sociais, e que faziam a sociedade funcionar;
mas, é claro, excluía os escravos. A administração
ficou sob a jurisdição do ministro da
Justiça, apesar de que, em tempos de guerra,
suas unidades poderiam ser incorporadas ao exército,
como aconteceu com o sistema de milícia que substituíra
em 1831. Tornou-se a maneira que os liberais parlamentares
do Rio de Janeiro tinham para conter o exército
indisciplinado dos idos de 1820, e um modo de exercer
controle social no interior. Sob a proteção
de seus comandantes, os pobres e sem-posses seriam mantidos
fora de suas fileiras e retidos como mão-de-obra
local. Além disso, a Guarda Nacional criava cidadãos-soldados
que sustentavam o compromisso cívico, protegiam
a liberdade individual e garantiam a responsabilidade
política. Havia uma ligação essencial
ao fato de carregarem armas e aos privilégios
da cidadania. Pensadores liberais temiam que a manutenção
de exércitos enfraquecesse a liberdade.16
____________________________________________________________
16 Sobre a Guarda Nacional e a política brasileira,
ver o excelente trabalho de BARMAN, Roderick J. Brazil,
the forging of a Nation, 1798-1852. Stanford, 1988.
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Mais adiante, o decreto farrapo de 4 de
outubro de 1837, considerava que homens para o alistamento
na Guarda Nacional eram “cidadãos de boa
conduta, robustez, patriotismo e adesão à
causa republicana”. Apesar de problemas evidentes
em levantar tropas, isenções constituíam
a ordem do dia e eram dadas àqueles que apresentavam
como substitutos ao serviço “um escravo
alforriado”. Também ficavam isentos filhos
de mulheres viúvas, administradores de fazendas
com mil cabeças ou mais sob sua responsabilidade,
administradores de fazendas e oficinas com mais de seis
escravos, arrieiros, e outros pequenos artesãos
que possuíam lojas. Para melhor proteger suas
extensas estâncias, isenções eram
dadas aos peões, conforme o tamanho de seus rebanhos.
Este número variava de um a quatro peões
para rebanhos que tinham entre uma e 3.000 cabeças,
até sete a doze peões com rebanhos entre
oito e 20.000 cabeças. Para os legalistas, sua
terra, sua propriedade, seus bens, e, acima de tudo,
seus escravos estavam desprotegidos, e conseqüentemente,
considerados caça justa e aberta. Recrutadores
e dignitários farrapos procurando substitutos
usavam armas, ameaças e vinganças pessoais
para expandirem suas fileiras.
Até 1838, os dignitários da Guarda Nacional
haviam sido eleitos e vinham dos setores econômicos
mais influentes da província. Normalmente, eles
eram estancieiros importantes que freqüentemente
substituíam ou dominavam oficiais civis em função
de que seus poderes políticos e econômicos
estavam aumentando. A organização apresentava
a estratificação social tradicional, conexões
familiares e políticas. Já que a Guarda
era dividida em duas categorias distintas, ativos e
da reserva, permitindo que o excedente de homens mais
respeitáveis se tornassem oficiais da reserva.
A longa lista de dispensas os protegia do serviço
de forma que pudessem melhor atender a seus interesses,
sem negar-lhes os privilégios que a posição
oferecia.17
Os estancieiros receberam bem a instituição
da Guarda também por outros motivos. Talvez,
até mais do que em outros lugares do Império,
os estancieiros rio-grandenses enfrentassem condições
desfavoráveis que poderiam acabar em desordem
social. Há anos, o Rio Grande do Sul estava à
disposição de Portugal, e depois do Brasil,
para armas e tropas na defesa das fronteiras. Má
administração e má apropriação
de recursos do exército, entre outras formas
de corrupção, prejudicaram a capacidade
de os estancieiros controlarem por si mesmos o interior.
Durante as Guerras Cisplatinas, um longo serviço
de guerra havia incorporado a milícia ao exército
regular, o que a manteve distante de seu próprio
propósito. O prestígio e o poder associados
à Guarda deram aos comandantes precedência
sobre a administração civil, embora muitos
simplesmente usurpassem todos os poderes, conforme a
necessidade, em suas jurisdições.
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17 Ver debates em LEITMAN, Spencer L. The Black
Ragamuffins, e BENTO, Claudio Moreira. O exército
farrapo e os seus chefes.
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Já que o estancieiro exigia uma
força de trabalho compatível, e um sistema
ordeiro de vida política, a Guarda lhe dava a
oportunidade de usar uma opção militar
para controlar os gaúchos legalmente libertos,
outros vagabundos indisciplinados e os arrieiros –
estes essenciais, mas de idéias independentes.
Eles, por sua vez, para proteção, se ligaram
a estancieiros importantes como seus patrões.
A capacidade de os comandantes distribuírem posições
dentro desta estrutura recentemente formalizada fortificou
sua base de clientes e lhes permitiu entrelaçá-los
em suas ligações familiares e pessoais.
Isso resultou em uma força política dinâmica
às vésperas da revolução
e chegou a ajudar na ignição das aspirações
políticas de homens como Bento Gonçalves
e Bento Manuel Ribeiro.
Em outubro de 1836, a fim de proceder à guerra
mais completamente, embora Bento Gonçalves tivesse
sido preso após a derrota em Fanfa, o governo
republicano inicialmente tentou desenvolver um exército
mais estruturado sob a direção de João
Manoel de Lima e Silva e José Mariano de Mattos,
os quais tinham treinado anos antes na Academia Real
Militar do Rio. Quatro brigadas foram criadas. José
Mariano de Mattos comandou a 3ª Brigada, que incluía
o 1º Corpo de Lanceiros Negros da primeira linha.
Porém, três anos mais tarde, em outubro
de 1839, sob pressão militar, o exército
foi novamente reorganizado para refletir melhor sua
ligação com a força fundadora da
Revolução, a Guarda Nacional, e com o
tipo de guerrilha sendo praticada.
A cavalaria da Guarda Nacional estava completamente
dominada, composta principalmente por homens e oficiais
dos distritos do interior. Neste exército mais
móvel, ocorreriam as depredações
militares dos farrapos. Nem todos os oficiais farrapos
fizeram a aposta cega do novo governo, e nem todos foram
leais, o que se demonstra pelas deserções
de Bento Manoel Ribeiro. No entanto, ficou visível
nos últimos estágios da Revolução
que os oficiais da Guarda Nacional estavam mais leais
a seus distritos locais, onde tinham interesses econômicos
e sociais tradicionais, do que ao governo em Piratini,
o qual estava cada vez mais sob ataque. Ao final da
guerra, muitos aproveitaram novas oportunidades oferecidas
por Caxias e pelo Rio de Janeiro.
A unidade militar dos farrapos era tênue. Circulares
militares solicitavam que os oficiais contivessem abusos.
Entretanto, não havia uma prestação
de contas estruturada. Em dezembro de 1837, o governo
republicano tentou evitar o uso particular de escravos
confiscados, os quais deveriam ter sido entregues ao
exército regular. O ministro farrapo da guerra,
José da Silva Brandão, buscou regularizar
procedimentos e dar força ao novo governo. Suas
razões eram dúbias: primeiramente, ele
não queria que os comandantes lutassem entre
si pelos restos da guerra; em segundo lugar, queria
convencer os legalistas e os neutros dos benefícios
a serem obtidos com o governo republicano.18
De alguma forma, havia uma hierarquia (ou sistema) de
autoridade em cascata, com os níveis mais baixos
da administração farrapa aptos a defenderem-se
das solicitações, exigências e ordens
de seus superiores imediatos. Às vezes, o governo
não era informado do que ocorria localmente.
Ninguém, por sua vez, nos níveis (postos,
cargos) mais altos da liderança farrapa, tinha
controle absoluto e inconteste sobre a administração
e o exército, à exceção,
talvez, de Bento Gonçalves no estágio
eufórico inicial da Revolução.
Os legalistas rotularam as ações farrapas
como arbitrárias e opressivas. Mas eles precisavam
encontrar estratégias para responder ao recrutamento
forçado, aparentemente bem-sucedido, empregado
pelos republicanos. Os legalistas precisavam manter
a lealdade e o suporte militar local e dos poucos que
ainda estavam em cima do muro. Uma série de contramedidas
foram tomadas, especificamente direcionadas aos farrapos
negros. Escravos lutando pelos rebeldes, capturados
em combate, sofreram muitas chibatadas e foram expulsos
da província e, ao final da Revolução,
devolvidos aos seus proprietários de direito.
Motivado também por medo de agitação
social, o governo imperial decidiu libertar escravos
farrapos em armas se eles se apresentassem às
autoridades legais. Não se permitiria que permanecessem
na província.19
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18 José da Silva Brandão para Serafim
Gonçalves Moreira, 28 de fevereiro de 1838 (cópia
de circular), Coleção de Alfredo Ferreira
Rodrigues, Arquivo Histórico do Rio Grande do
Sul, “Documentos para a história da revolução
de 1835,” v.11.
19 Bernardo Pereira da Vasconcellos para Antônio
Elisiario de Miranda e Brito, Rio de Janeiro, 19 de
novembro de 1838, AHRGS, Avisos da Justiça. A
tentativa legalista de parar e punir os farrapos conduziu
os rebeldes rio-grandenses a um forte decreto de resposta,
em 11 de maio de 1839, em Caçapava. Em suma,
ele demonstrava o quanto os farrapos precisavam desesperadamente
manter seus soldados e, em particular, a importância
dos farrapos negros. “Libertar os cativos aptos
para a profissão das armas, oficinas e colonização,
a fim de acelerar, de pronto, a emancipação
dessa parte infeliz do gênero humano.” O
decreto prosseguia: “O presidente da República,
para reivindicar os direitos inalienáveis da
humanidade, não consentira que o homem livre
rio-grandense de qualquer cor com que os acidentes da
natureza o tenham distinguido sofra impune e não
vingado, o indigno, bárbaro, aviltante e afrontoso
tratamento.” Já o decreto de 16 de maio
de 1839, de Caçapava, avisava os farrapos negros
que eles retornariam à servidão caso tentassem
desertar.
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A Revolução Farroupilha
produziu alguns militares extraordinários, mas
também exigiu pensadores que pudessem gerar idéias
novas e excitantes e escritores que pudessem explicá-las
lucidamente. O movimento possuía republicanos
notáveis locais e do exterior. Zambeccari, Rossetti,
Mariano de Mattos e Luiz José dos Reis Alpoim
estavam entre os nascidos fora da província.
Entre os ativistas da província, estavam Sá
Britto, Pedro José de Almeida, Marciano Pereira
Ribeiro e Bento Gonçalves, que serviram como
a expressão ideal da Revolução
Farroupilha. Antes de setembro, a província possuía
diversos jornais combativos, os quais continham materiais
e opiniões avançadas sobre republicanismo
e federação. Farrapos iluminados antes
e durante a revolução desafiaram as alegações
de superioridade econômica e intelectual do Rio
de Janeiro e do Império, dessa forma, implicitamente,
levantando a questão da igualdade de todos os
homens, o que deveria incluir negros e mulatos. Na verdade,
os mulatos gravitavam em números na direção
do incipiente e mais liberal Partido Farroupilha no
início da década de 1830. 20
Na Convenção Constitucional farrapa em
1841, José Mariano de Mattos decidiu que, se
os republicanos quisessem vencer a guerra, precisariam
de tropas em massa ou estariam lutando por uma causa
perdida. Ele apresentou uma proposta para a abolição
total da escravidão, tentando traduzir em prática
o liberalismo e o republicanismo que havia herdado.
Sua proposta foi derrotada. Uma minoria barulhenta na
Convenção, liderada por Antonio Vicente,
considerava José Mariano de Mattos um mulato
vil e fraco. Além disso, achavam, ele e seu amigo
miserável, Bento Gonçalves, dois demônios
desprezados por todos os homens decentes. A abolição
teria “o fim sinistro de tudo confundir para,
no início da geral consternação,
roubar-nos mais amplamente e evadir-se para o país
vizinho”.21
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20 “Manifesto do coronel Bento Gonçalves
da Silva justificando a arrancada de 20 de setembro
de 1835” In: SPALDING, Walter. A epopéia
farroupilha: pequena história da grande revolução.
Rio de Janeiro, 1963. pp.283-291. Bento Gonçalves
apresentou os argumentos mais abrangentes sobre o porquê
de os farrapos acreditarem que eram forçados
a se rebelar. Nesses manifesto, ele especificamente
se refere à violação das sagradas
garantias de habeas corpus de Mariano de Mattos e a
“escandalosa introdução de africanos.”
Apesar do aparente ataque ao comércio de escravos,
(mas não à escravidão propriamente),
Bento Gonçalves não explora mais esse
tema e junta, na mesma frase, um ataque à introdução
de dinheiro do cobre, que era um grande tema em todo
o Brasil na década de 1830. Indiretamente, Bento
Gonçalves estava atacando o que muitos acreditavam
ser a influência da classe portuguesa no Rio de
Janeiro (ver SPALDING, Walter. A epopéia farroupilha:
pequena história da grande revolução.
p.85). Portanto, parece que ele estava se referindo
à manipulação do tráfico
comercial do Rio de Janeiro em vez da do Rio Grande
do Sul, ou à ascendência do Rio em todos
os assuntos comerciais. Para mais, ver, LEITMAN L. Spencer.
A Brazilian urban system in the nineteenth century:
Pelotas and Rio de Janeiro. In: Urbanization in the
Americas from its beginnings to the present, eds. Richard
P. Schaedel et. al., The Hague, 1978, pp. 491-503.
21 VARELLA, Alfredo. História da grande revolução:
o ciclo farroupilha no Brasil. Porto Alegre, 1933, vol.VI,
p.17.
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Embora o projeto constitucional da República
Rio-grandense fosse um documento progressista para sua
época, com referências a novas práticas,
proteções, linguagens e instituições,
ele não incluía novos participantes. Entretanto,
o governo farrapo e sua tentativa constitucional valiam
mais do que o exposto pela condenação
histórica de Araripe muitos anos depois: “Tudo
estava subordinado à turbulência, e essa
república não passava de um arraial ambulante
militar”. Os líderes farrapos, tanto os
de mentalidade militar, quanto os de fortes ideais republicanos,
provavelmente concordariam com uma solução
que lhes permitisse serem obedientes ao Rio de Janeiro
se tivessem tido um reino mais livre localmente, apoiado
por garantias constitucionais. Como parte de um movimento
político mais amplo, o projeto constitucional
não ofuscou líderes individuais fortes
que estavam no campo junto às tropas. Os que
podiam votar e servir segundo a nova constituição
proposta tinham propriedades e escolaridade. Os homens
libertos estavam especificamente excluídos do
voto. A Convenção Constitucional fracassou
ao final em decorrência de discordâncias
internas sobre a questão delicada do confisco
de propriedades legalistas.22
Sem reforços dramáticos no número
de escravos, ou assistência militar substancial
de caudilhos uruguaios não confiáveis,
a Revolução estava se transformando em
uma série de encontros esporádicos, tentando
se evadir de um exército legalista revigorado
sob o comando apto do Barão de Caxias. Caxias
foi o primeiro dos generais-presidentes da província
a exercer uma liderança militar e política
eficaz no Rio Grande do Sul. Ele demonstrou um compromisso
político com os legalistas da região,
levando o exército ao campo para desgastar as
cada vez mais fracas forças farrapas. Distanciando-se
de maneira arrojada dos que lhe haviam precedido, Caxias
aplicou pressão constante para evitar que os
farrapos reabastecessem a revolução através
da fronteira, ao mesmo tempo construindo suas próprias
reservas de homens, materiais e, em particular, cavalos.
Além disso, Caxias cultivou um relacionamento
forte com o Ministério da Guerra, no Rio de Janeiro.
Ele percebeu que o poder provincial não era puramente
militar, mas fiscal. O governo no Rio, por sua vez,
aceitou ter encontrado em Caxias sua última melhor
esperança para derrotar a Revolução
Farroupilha, concordando com suas constantes solicitações
de financiamento.
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22 RUSSOMANNO, Victor. História constitucional
do Rio Grande do Sul: esboço (1835-1930), Pelotas,
1932, p. 82.
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No início de 1844, Caxias conhecia
as dificuldades que os farrapos tinham em fomentar uma
guerra de confronto. Ele já havia recebido diversas
súplicas de paz e realizado trocas de prisioneiros,
tinha informações sobre as divisões
internas e intrigas entre os líderes farrapos,
e conhecia suas disputas com os caudilhos uruguaios.
O mais acessível, David Canabarro, era então
o general-comandante dos farrapos, removendo os primeiros
heróis da Revolução, Bento Gonçalves
e Sousa Netto, a papéis mais secundários.
Com base em notícias mandadas por Bento Manoel,
agora lutando pelo Império na zona de operações
de Alegrete, Caxias sabia que Canabarro tinha somente
“400 negros e esses mal-montados”.23
A força de guerra e as reservas de cavalos dos
farrapos estavam gradualmente se esvaindo, e esses sinais
positivos eram motivo para continuar com a campanha.
Mas Caxias era um estudante de guerrilha e contra-revolução.
Muito embora ele tivesse seis mil tropas no campo, controlasse
todos os portos, as guarnições militares
ao longo da fronteira e as pequenas cidades da Campanha,
e estivesse perseguindo Canabarro, Caxias ainda precisava
de um único golpe para esclarecer a todos os
farrapos que eles não podiam mais manter suas
forças cambaleantes. Havia farrapos cansados
e impacientes com vontade de voltar à vida provincial
sob o Império, se recebessem garantias de local
e posição, especialmente de reintegração
ao exército.
A resposta foi a Surpresa de Porongos, após a
qual veio a assinatura da Paz de Ponche Verde, em 1º
de março de 1845. O artigo 4 libertou escravos
farrapos que haviam lutado por rebeldes recentemente
derrotados. Surpreendentemente, a Corte havia recompensado
escravos que haviam tomado armas contra o Império
e que tinham sido capturados entre os mais leais ao
Rio de Janeiro. Araripe deu aos farrapos crédito
por não terem abandonado seus compatriotas negros
e, ao mesmo tempo, elogiou o senso de justiça
do Rio ao concordar com esta perigosa cláusula
que determinava um precedente, atacava a propriedade
privada e a base do sistema escravista brasileiro.
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23 De Caxias ao ministro da Guerra, em 2 de Janeiro
de 1844, em ARARIPE, Guerra civil, XLVII: 2, p. 179.
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Deve-se compreender que os líderes
farrapos viviam em uma sociedade predominantemente não
branca: escravos, homens libertos, índios, mulatos
e mestiços. Assim, embora buscassem poder local
e a remoção do que consideravam impostos
regionalmente injustos e onerosos, eles não necessariamente
queriam cortar laços com o Rio de Janeiro, até
porque, depois de tudo, esta cidade e o Império
eram e permaneceriam seus principais parceiros comerciais.
Desde o início, os rebeldes mantinham a instituição
da monarquia em grande respeito. Para alguns, o problema
ainda estava na influência regressiva inaceitável
de Portugal sobre a Corte. Além disso, os farrapos
temiam mudanças radicais, as quais poderiam alterar
a ordem hierárquica social.
Embora a retórica da revolução
parecesse radical, democrática e às vezes
separatista, os rebeldes rio-grandenses realmente queriam
um forte poder local. Talvez eles não tivessem
iniciado uma revolta se o Rio de Janeiro tivesse enviado
presidentes provinciais que defendessem e apoiassem
os partidários do poder local. No início
da década de 1830, os rio-grandenses haviam visto
uma série de reformas políticas serem
paralisadas com a chegada de presidentes provinciais
empenhados em exercer os poderes do Governo central.
Após a abdicação de D. Pedro I,
em abril de 1831, em favor de seu jovem filho, para
que este fosse supervisionado por uma regência
mais aberta a interesses regionais, o Rio de Janeiro
havia entrado em um período de relativa reforma.
Foram criados o Código de Processo Criminal,
dando funções policiais e judiciais aos
juízes de paz, e a Guarda Nacional. Além
disso, houve o Ato Adicional de 1834, que pareceu centralizar
o poder nas assembléias provinciais, as quais,
à época, pela primeira vez, defendiam
melhor os interesses regionais. No entanto, os presidentes
destas assembléias ainda eram nomeados no Rio
de Janeiro.
A Revolução Farroupilha não levou
novas classes sociais à política nem ofereceu
expectativas à população escrava.
Pouco ou nada foi dito sobre o tratamento e a incorporação
dos negros, e inclusive dos indígenas, em um
sistema mais democrático e humano. Deve-se ressaltar,
entretanto, a força e a perseverança da
política local. Mesmo assim, esperava-se mais
do Rio Grande do Sul, com suas características
e história ímpares: individualismo endurecido
pela fronteira, casas maçônicas, jornais
republicanos, alguns com editores em cujas terras não
havia escravidão, e oficiais que lutaram junto
com os farrapos negros. Quando homens lutam juntos por
sua nação sob a mesma bandeira, eles devem
se tornar uma fraternidade.
Mesmos os mazzinianos italianos, com seu fervor ideológico,
ignoraram os escravos e outros povos sem posses. Garibaldi
apontou com orgulho suas habilidades de luta, mas silenciou
sobre seu espaço e futuro na sociedade. Nem os
seguidores da Jovem Itália perturbaram as tradições,
costumes e história brasileiros. O espaço
dos farrapos negros foi resultado de circunstância,
e não de crença ideológica. As
atividades e técnicas dos Zambeccaris e Rossettis
ampliaram o espírito revolucionário farrapo
e o conectaram a tendências revolucionárias
então atuais na Europa. Desde o início,
no Prospecto Nº1, Vol. 1, o porta-voz revolucionário
“O Povo” afirmou que “o poder que
dirige a revolução tem que preparar os
ânimos dos cidadãos aos sentimentos de
fraternidade, modéstia, igualdade e desinteressado
e ardente amor da Pátria”. Os italianos,
escrevendo, aconselhando, atuando como soldados e servindo
como intermediários comerciais eram mais nacionalistas
que revolucionários sociais. Sua posição
combinava nacionalismo romântico com liberalismo
constitucional. Sua interpretação para
o poderoso significado de irmandade era para homens
da mesma cor e classe. Havia pouco ou nada escrito sobre
a inclusão de escravos ou outros grupos na nova
ordem republicana que nascia na Campanha.24
Os italianos estavam combatendo a monarquia com seu
legado de tirania. A Revolução Farroupilha
seria a chama nacionalista que se incendiaria e se espalharia
às outras províncias dominadas opressivamente
pelo Rio de Janeiro, criando um estado republicano federalista.
Eles confiavam no apelo emocional da pátria e
da virtude republicana. Em um editorial de “O
Povo” foi publicado o seguinte: “Não
somos uma horda de salteadores (...) Aqui o direito
de propriedade é garantido, os bens dos próprios
dissidentes são respeitados, há amor à
ordem e à liberdade individual”, referindo-se
às diferenças entre rio-grandenses e cabanos
de Panelas de Miranda e Jacuípe.25
Os farrapos estavam apelando tanto a seus próprios
seguidores quanto aos outros na província. A
Guerra dos Cabanos e a Cabanagem haviam rapidamente
se transformado de feudos partidários em movimentos
de agitação social. Seria necessário
resguardar-se destes e de outros movimentos que continham
insurreição racial, como o Male, em Salvador.
Expressões típicas de Mazzini, de nacionalismo
de estado-nação, coincidiam perfeitamente
com o respeito farrapo pelo poder local e por seus interesses
econômicos. Os emigrantes italianos e os farrapos
conheciam os perigos inerentes aos levantes em massa
de negros.
____________________________________________________________
24 Sobre os italianos, ver CANDIDO, Salvatore. Giuseppe
garibaldi: corsaro riograndense. Turim, 1964; e LEITMAN,
Spencer L. Italian Revolutionaries in the Empire of
Brazil. In: Italian Americana, v.2, n.2, 1976, pp. 143-156.
25 O Povo, v.1, n.21 (editorial).
____________________________________________________________
Há um legado histórico nas
experiências dos farrapos negros. Ideologicamente,
eles poderiam ser considerados parte de um período
heróico onde não há vencedores
nem vencidos. O louvor, tanto a legalistas quanto a
farrapos, continua firme até hoje. A maioria
lembra da Guerra dos Farrapos como uma revolução
popular que promoveu expressões modernas de republicanismo
e federalismo. Tendências separatistas foram sumariamente
derrotadas. Mesmo com as mortes e todo o sofrimento,
a revolução não chegou a excessos
fratricidas de outras guerras regionais e civis. Se
os farrapos negros deixaram a servidão, fizeram-no
da mesma forma como seus ancestrais nela haviam entrado,
com quase nada além das roupas nas suas costas,
ou talvez um novo uniforme militar dado pelo Império,
ou trabalhando como escravos privilegiados nas fazendas
imperiais de Santa Cruz.
A cláusula da Paz de Ponche Verde, entretanto,
pelo menos do modo como foi escrita, transformando escravos
em homens libertos, integrou uma tendência na
história brasileira, a da criação
de uma ampla classe de negros livres como parte do sistema
multirracial do país. Além disso, facilitou
ao Rio de Janeiro a libertação de 20 mil
escravos para que esses lutassem na Guerra do Paraguai,
de 1865 a 1870. Para ter tropas e entrar na guerra,
o governo nacional precisou oferecer a promessa de liberdade.
O exército, em oposição crescente
ao sistema escravista, passou a ter números consideráveis
de negros e mulatos nas fileiras inferiores. Tal oposição
começou a se infiltrar na classe nacional de
oficiais, o que acelerou o processo da abolição
no Brasil, em 1888.
Revolução Farroupilha:
significado regional e nacional 1
Helga Iracema Landgraf Piccolo
____________________________________________________
Doutora em História Social pela Universidade
de São Paulo,
professora da Universidade Federal do Rio Grande do
Sul
Inúmeras abordagens da Guerra dos Farrapos
são possíveis. Como pesquisadora da história
política do Rio Grande do Sul no século
XIX, sempre me preocupei com a ênfase no caráter
regional da guerra, que, por vezes, degenerou em uma
profissão de fé, de um provincialismo
inconseqüente. Lembro disso sempre que abordo este
tema: nem todo o Rio Grande do Sul foi farroupilha.
É quase impossível quantificar quantos
foram farroupilhas e quantos não foram.
Não há dúvida de que foi uma revolução
regional, mas não é esse o aspecto que,
no meu entendimento, dá o grande significado
político que a Guerra dos Farrapos obteve em
termos nacionais. Lembro as alianças políticas
com lideranças platinas que, já antes
de 1835, assustavam o Governo Imperial, sem esquecer
o Quadrilátero Artiguista, que incluía
o Rio Grande do Sul.
A chamada Revolução Farroupilha não
foi só uma sucessão de lutas, de combates
com vitórias de ambos os lados que se confrontaram.
Ela produziu textos historicamente importantes e que
mostram o seu significado nacional. Destaco o manifesto
de 29 de agosto de 1838, subscrito por Bento Gonçalves
da Silva e Domingos José de Almeida, e a troca
de correspondência havida em março de 1840,
entre Bento Gonçalves e Gaspar Menna Barreto,
este último, comissionado pelo então presidente
da Província, Saturnino de Sousa Oliveira, que
vai levar ao conhecimento do Governo Central, em maio,
essa correspondência, acompanhada de um ofício
onde coloca a leitura que ele, como presidente da Província,
faz das considerações apresentadas por
Bento Gonçalves.
____________________________________________________________
1 Texto transcrito da palestra proferida no Seminário
Internacional “170 Anos da Revolução
Farroupilha – o Legado de Bento Gonçalves,
Garibaldi e Anita” e revisado pela autora.
____________________________________________________________
Cabe registrar também um discurso
pronunciado na Câmara dos Deputados por Miguel
Calmon, deputado pela Bahia, ligado ao Partido Conservador,
no dia 19 de maio de 1837. Para ele, o 20 de Setembro
não era uma questão provincial, mas sim
nacional, uma questão de princípios, o
que, segundo ele, ameaçava a integridade do Império,
o que era confirmado pela proclamação
da República de Piratini, como era então
chamada a República Rio-grandense.
Entendo ser necessário fazer algumas considerações
sobre o contexto político nacional quando o deputado
baiano fez esse pronunciamento. É um momento
de grande instabilidade política, não
só no Rio Grande do Sul, mas em toda a América
Latina, relacionada com as independências, a organização
política dos estados e a construção
das nações que surgiram de antigas colônias
das duas monarquias ibéricas. Entretanto, essa
instabilidade política pode ser atestada não
só no Brasil e na América do Sul. Lembro,
por exemplo, da França, que sempre foi um modelo
utilizado por aqui. Quando eclode no Rio Grande do Sul
o que nós chamamos de Guerra dos Farrapos, ela
surge em um momento da história da França
que se situa entre duas grandes revoluções:
a de 1830 e a de 1848, ambas relacionadas com os desdobramentos
da Revolução Francesa de 1789.
Entendo que a Guerra dos Farrapos ainda tem que ser
explicada a partir do processo de descolonização
que se operou no Brasil. Ela é, para mim, um
desdobramento da independência do Brasil, que
foi institucionalizada pela Carta Constitucional de
março de 1824, e que tem a sua grande reforma,
que foi o Ato Adicional de 1834, exatamente às
vésperas da Guerra dos Farrapos. Nem a Carta
Constitucional de 1824, nem o Ato Adicional de 1834
evitaram o surgimento e a divulgação de
uma série de projetos políticos que contestavam
exatamente a organização política
consubstanciada nos textos constitucionais citados.
No caso específico brasileiro, estávamos
numa conjuntura em que as elites dirigentes, que governavam
a partir do Rio de Janeiro, encontravam-se preocupadas
com a construção da Nação.
Basta ler os discursos pronunciados na Câmara
dos Deputados. Nessas manifestações, percebia-se
claramente como era complexo construir uma Nação
tendo como base uma sociedade escravista. Assim, diversos
projetos políticos para a organização
do Estado e da Nação foram elaborados.
A questão nacional estava no centro dos debates
e de todos os projetos políticos, pensados a
par da existência de um texto constitucional.
Em 7 de abril de 1831, dia da abdicação
do nosso primeiro imperador, o governo do Brasil ainda
não se não nacionalizara. O abrasileiramento
pensado e desejado era limitado pela influência
portuguesa, que persistia. Em todos os seus pronunciamentos,
Bento Gonçalves bate constantemente na tecla,
ou seja, a influência portuguesa permanece e ela
é responsável pela crise política.
Quando do discurso de Miguel Calmon, em 1837, aproximava-se
o final da primeira regência una brasileira, exercida
pelo Padre Feijó, acusado de conivente com os
farrapos. O grande problema, que hoje não é
tomado muito em consideração, foi que
no mesmo momento também havia eclodido no outro
extremo do Brasil, no Pará, a Cabanagem. Esta
tinha um outro significado em termos sociais. Aqui,
as lideranças farroupilhas integravam o que se
pode chamar de uma elite proprietária regional.
Bem diferente era o perfil dos combatentes na guerra
que se travava na Amazônia.
É evidente que o Império não dispunha
de recursos suficientes para enfrentar esses dois movimentos,
um no norte e outro no sul, e Feijó preferiu
concentrar suas preocupações no norte.
A regência de Feijó foi extremamente conturbada.
Basta recordar que, em menos de dois anos em que ele
foi regente, sucederam-se quatro gabinetes. Isso já
era indício de que havia uma crise institucional.
A Guerra dos Farrapos, sem dúvida alguma, contribuiu,
tal como outros movimentos que ocorreram no período
regencial, para a instabilidade política que,
segundo os discursos da elite dirigente, ameaçavam
a estabilidade institucional do Brasil.
O fato levou outro deputado baiano, Antônio Ferreira
França, a apresentar na Câmara, em 13 de
maio de 1837, um projeto de lei interessantíssimo,
mas que praticamente não é citado na historiografia
sobre a Revolução Farroupilha. Era um
projeto de lei que emanciparia o Rio Grande do Sul caso
a Assembléia Provincial, em caráter extraordinário,
declarasse que o Rio Grande do Sul não mais queria
fazer parte do Brasil. Caso a Assembléia Provincial
declarasse que desejava continuar unida ao Brasil, e
às demais províncias, então, segundo
Ferreira França, deveriam ser tomadas algumas
providências. O presidente da Província
não mais seria diretamente nomeado pelo Governo
Central, como até então. Ele passaria
a ser escolhido em lista tríplice (como se escolhiam
os senadores) enviada ao Governo Central que escolheria
um dos nomes. O mais significativo, diante de uma luta
armada, era que esse presidente da Província
nomearia o comandante das armas da própria Província.
Quer dizer, isso daria uma configuração
muito diferente do que estava previsto no texto da Constituição
de 1824 e no Ato Adicional de 1834.
Não é preciso dizer que tal projeto mostrava
o quanto se preferia que o Rio Grande do Sul se separasse
a persistir a instabilidade política da qual
era acusado. Portanto, o separatismo não era
só defendido por lideranças farroupilhas.
O projeto foi rejeitado. Um ano depois, em 1838, houve
o famoso manifesto, que, para mim, é um dos documentos
mais importantes da Guerra dos Farrapos, assinado por
Bento Gonçalves e Domingos José de Almeida.
Sobre o manifesto quero sublinhar que, nele, se visualiza
a defesa de uma nova organização política
para o Brasil, ou seja, uma confederação
das províncias.
Com Feijó afastado, o poder caiu nas mãos
do Partido Conservador, o mesmo que, pela força,
não conseguira acabar com a guerra no Rio Grande
do Sul. Foi nos estertores do seu domínio, isto
é, em março de 1840 (seu domínio
duraria até julho, às vésperas
da maioridade de Dom Pedro II), que surgiu a citada
correspondência entre Bento Gonçalves da
Silva e Gaspar Menna Barreto.
Trata-se de um documento no qual Bento Gonçalves
teorizava sobre o movimento, os princípios que
nortearam a Revolução, fazendo uma profissão
de fé do “Direito das Gentes ou princípios
da Lei Natural aplicados à condução
e aos negócios das nações e dos
soberanos”, conforme Emmerich von Vattel.
Eu gostaria de lembrar essa troca de correspondências
com o Governo Central em que a palavra mais freqüentemente
usada pelo próprio presidente da Província
era conciliação. Para Gaspar Menna Berreto,
conciliação significava perdão
e esquecimento dos crimes cometidos pelos farrapos.
Para Bento Gonçalves, conciliação,
nesse sentido, não servia. Na verdade, conforme
o presidente da Província, o que Bento Gonçalves
queria era uma meia separação do Brasil,
algo inadmissível para a dignidade da Nação
e do trono.
Em uma linguagem que mostrava a influência maçônica,
Bento Gonçalves começa por acentuar a
influência nefasta da intriga dos lusitanos em
nossos destinos. Ele não aceita que os farroupilhas
fossem chamados de rebeldes.
Diz: “O que fizemos não foi uma rebelião
e sim estamos fazendo uma resistência legítima”.
E, por isso mesmo, enfatiza Bento Gonçalves,
o que há é uma guerra civil, e a ele foi
conferida a alta missão de libertar os sul rio-grandenses.
O Rio Grande do Sul farrapo, ou melhor, a República
Rio-grandense, tinha um governo independente, um povo
independente. Diz ele: “Não tem juiz nem
superior sobre a terra”. E é isso que Menna
Barreto questiona ao se dirigir a Bento Gonçalves.
Permito-me ler trechos da troca de mensagens, porque
são páginas que dignificam a guerra. Diz
Bento: “Nem eu nem os rio-grandenses desejamos
nos desligar absolutamente do Brasil. A mesma religião,
a mesma linguagem, os mesmos usos, os mesmos costumes,
vínculos de sangue, laços de amizade,
e, finalmente, as mais ternas simpatias inclinam o nosso
coração a favor de um povo que consideramos
irmão. Gozando de uma absoluta independência
no regime dos nossos negócios internos e peculiares,
não duvidaríamos quanto ao mais submeter-nos
a um Governo Geral que velasse sobre os interesses da
União”.
Respondendo a Menna Barreto, diz Bento Gonçalves:
“Vós me argüis de querer que nos tratem
como um governo, como um povo independente que não
tem juiz nem Superior sobre a terra. E, com ufania,
o senhor me pergunta: de onde veio este Direito das
Gentes? Responderei: é de Vattel. É ele
quem nos diz que o uso dá o nome de guerra civil
a toda guerra que se faz entre os membros de uma mesma
Sociedade Política. Se estão de um lado
os cidadãos e, de outro, o soberano com aqueles
que lhe obedecem, basta que os descontentes tenham alguma
razão de tomar as armas para que se chame a esta
desordem guerra civil e não rebelião.
O príncipe não deixa de chamar rebeldes
todos os súditos que lhe resistem abertamente.
Mas quando estes são assaz fortes para resistir-lhe,
para obrigá-lo a fazer a guerra regularmente,
é indispensável que ele a considere como
guerra civil. A guerra civil rompe os laços da
sociedade e do governo, ou pelo menos suspende a sua
força e efeito. Ela dá nascimento, em
uma nação, a dois partidos independentes
que se olham como inimigos e que não reconhecem
algum juiz comum”.
Ora, é evidente que estava sendo escrito um discurso
em que se defendia que o Rio Grande do Sul era uma nação
à parte do Brasil, o que, evidentemente, não
podia deixar de assustar. Isso permite que se entenda
a fala de Antônio Pereira Rebouças, outro
baiano, que dizia na Câmara dos Deputados, em
março de 1843: “É preciso acabar
com a rebelião do Rio Grande do Sul, ainda que
seja como for, porque ou se acaba com ela, ou ela acaba
com o Brasil”. E perguntava: “Seria desonroso
admitir a separação do Rio Grande do Sul
para evitar o sacrifício do todo?”
Ainda em 1843, um personagem que os farrapos abominavam
por sua atuação no Rio Grande do Sul como
juiz, nas vésperas da guerra, Pedro Rodrigues
Fernandes Chaves, mais conhecido como Barão de
Quarai, na Câmara dos Deputados, representando
a Paraíba, dizia: “Separado o Rio Grande
do Sul, o Brasil se despedaçará”.
Naquele ano de 1843, havia sido apresentado o anteprojeto
da República Rio-grandense. Não era uma
Constituição original porque sofrera inúmeras
influências, inclusive do próprio texto
da Constituição Imperial, e também
da Constituição dos Estados Unidos, no
que concerne ao Senado. Entretanto, a maior influência
foi a da Constituição uruguaia de 1830.
O anteprojeto de Constituição farroupilha
não chegou a ser discutido no plenário
da Assembléia Constituinte. Como o próprio
professor Spencer Leitman já nos disse, aquela
Assembléia foi extremamente tumultuada. Briga
entre a maioria e a minoria, briga entre os “fontouristas”
e os “gonçalvistas”. Mas, para mim,
a importância desse projeto está exatamente
no fato de que representou uma alternativa de construção
do Estado Nacional Brasileiro.
1835: a ordem e o horizonte utópico
Miguel Frederico do Espírito Santo
___________________________________________________________
Mestre em História, membro do Ministério
Público do Estado do Rio Grande do Sul
“Camaradas! Nós que compomos a 1ª
Brigada do Exército Liberal devemos ser os primeiros
a proclamar, como proclamamos, a independência
desta província, a qual fica desligada das demais
do Império, e forma um Estado livre e independente,
com o título de República Rio-grandense
(...)”.
General Neto, em 11 de setembro de 1836, diante das
forças revolucionárias, no Campo de Menezes.
A ruptura institucional, subseqüente à proclamação
de Neto, à epígrafe, e à ata declaratória
da independência, datada do dia seguinte, firmada
no acampamento volante na costa do Rio Jaguarão,
reafirmando os termos da proclamação e
anunciando uma próxima Assembléia Nacional
Constituinte e Legislativa, foi corroborada pela Câmara
Municipal de Jaguarão, dias após, a 20
de setembro, ao aderir à secessão.
A Câmara Municipal de Jaguarão, em sessão
extraordinária de 20 de setembro de 1836, aprovou,
por unanimidade, “a deliberação
da maioria da Província a respeito a ficar desligada
da família brasileira e instituindo um governo
republicano”. Aprovou, também, que fosse
dada publicidade ao ato por editais e oficiado a Bento
Gonçalves,
“mostrando-lhe a deliberação
que tomou este corpo municipal e pedindo-lhe queira
dirigir interinamente o timão do governo deste
Estado, como chefe e protetor da República e
liberdade rio-grandense, devendo marcar o dia em que
se deve proceder à eleição dos
deputados, para a Assembléia Constituinte, na
mão de quem deve depositar os poderes, que ora
inteiramente se lhe confiam para este os transmitir
a quem achar conveniente”1.
___________________________________________________________
1 VARELLA, Alfredo. Revoluções Cisplatinas.
Porto: Chardron, 1915, v. 2, pp. 840 a 841.
___________________________________________________________
O desastre do Fanfa2, de 4 de outubro,
estimulou fosse logo dado caráter definitivo
à República, com a organização
do seu governo, tendo a Vila de Piratini como centro
das operações, devendo para lá
rumarem não só os pró-homens da
revolução como todo cidadão que
quisesse participar dos atos programados. Em Piratini,
todos os vereadores de sua Câmara eram republicanos
e, na sessão preparatória do dia 5 de
novembro de 1836, pelo presidente Vicente Lucas de Oliveira
foi proposta:
“a independência e a república,
com a cláusula de poder o novo estado ligar-se
pelos laços da federação àquelas
das Províncias do Brasil que adotassem o mesmo
sistema de governo”3.
No dia 6, a Câmara de Piratini voltou a
se reunir para presidir a eleição dos
primeiros magistrados da nova República, anunciando
expressamente aos presentes que:
“nesta sessão se havia de proceder
à eleição do presidente e vice-presidente
constitucional da República, cumprindo ao mesmo
convocar, logo que o permitam as circunstâncias,
uma Assembléia Geral Legislativa Constitucional
da República Rio-grandense para formar a Constituição
da República, em cujo seio depositará
os poderes que se lhe delegam e governará, finalmente,
este Estado pelas leis em vigor”4.
Embora João José de Oliveira Guimarães
tivesse sido indicado pelo comandante do Exército
Republicano, general João Manoel de Lima e Silva,
o povo reunido elegeu Bento Gonçalves presidente
da República Rio-grandense e vice-presidentes
Antônio Paulo da Fontoura, José Mariano
de Mattos, Domingos José de Almeida e Inácio
José de Oliveira Guimarães. Face à
ausência do presidente escolhido, então
submetido à prisão do Império,
foi eleito, para substituí-lo, enquanto durasse
seu impedimento, José Gomes de Vasconcellos Jardim,
que tomou posse imediatamente.
____________________________________________________________
2 A batalha do Fanfa durou de 2 a 4 de outubro.
Os revolucionários tiveram 120 mortos, deixaram
15 canhões e 900 prisioneiros, entre os quais
Bento Gonçalves, Onofre Pires e Zambeccari.
3 ASSIS BRASIL, Joaquim Francisco de. História
da República Rio-Grandense. Porto Alegre: ERUS,
1982, p. 186.
4 Ata da sessão de 6 de novembro de 1836 da Câmara
de Piratini in VARELA, Alfredo. Revoluções
Cisplatinas. Porto: Chardron, 1915, v. 2.
____________________________________________________________
Piratini foi feita a capital do novo Estado.
Bento Gonçalves foi recolhido em 26 de agosto
de 1837 ao Forte do Mar, na Bahia, de onde fugiu em
7 de outubro seguinte. Chegou a Piratini e assumiu a
presidência da República Rio-grandense
em 16 de dezembro de 1837.
A República deveria dar forma a si própria,
cumprindo os desígnios de sua fundação,
segundo as pautas do liberalismo e, mais precipuamente,
de sua expressão jurídica, o constitucionalismo.
Na impossibilidade da convocação da Assembléia
Constituinte do Estado, o presidente Bento Gonçalves
da Silva, através de decreto de 18 de setembro
de 1838, convocou um Conselho de Procuradores Gerais
dos Municípios,
“ao qual o presidente da República
possa consultar nas suas deliberações
a fim de que estas apareçam com o cunho da retidão
que tanto anela” e determinando que as Câmaras
Municipais, imediatamente, “passem a nomear um
Procurador Geral que, para os fins indicados e no Conselho
referido represente o seu município”.
Foram nomeados procuradores-gerais em Piratini, Jaguarão,
Rio Pardo, São Borja, Alegrete, Cachoeira, Cruz
Alta, Caçapava, Triunfo e Setembrina. O Conselho
só foi instalado em 21 de dezembro de 1839, em
Caçapava, então precária capital
do Estado. Realizou sessões nos dias 21, 22 e
23 de dezembro. Sua proposta mais significativa foi
a da pronta instalação da Assembléia
Geral Rio-grandense, constituinte e legislativa, com
trinta e seis deputados. Opinou, também, favoravelmente,
ao seqüestro dos bens dos portugueses e brasileiros
dissidentes da causa republicana5.
Em atenção ao que havia proposto o Conselho
de Procuradores Gerais dos Municípios, Mariano
de Mattos, no exercício da presidência
da República, no impedimento de Bento Gonçalves,
por decreto de 10 de fevereiro de 1840, estabeleceu
que se procedesse à eleição dos
deputados constituintes e, além desses, de vereadores
e juízes de paz e marcou o dia 30 de abril daquele
ano para a instalação da Assembléia,
em Caçapava. Na mesma data foram baixadas as
instruções “Para se proceder às
eleições da Câmara de Deputados
à Assembléia Constituinte e Legislativa
do Estado Rio-grandense, dos membros das Câmaras
Municipais e dos Juízes de Paz”.
____________________________________________________________
5 LAYTANO, Dante de. História da República
Rio-Grandense. Porto Alegre: Sulina, 1983, 2. ed., pp
163 a 166.
____________________________________________________________
As eleições só puderam
ser realizadas em outubro de 1840. A Assembléia
Geral Constituinte e Legislativa da República,
entretanto, só pôde se reunir em 1842,
em Alegrete, graças ao empenho de Bento Gonçalves
que, em Cacequi, a 13 de julho daquele ano, transferiu
o comando do exército republicano para Souza
Netto e lançou uma proclamação
na qual prometia a imediata convocação
da Assembléia Constituinte:6
“Rio-grandenses! A época da liberdade
e da justiça vai ser marcada em nossa história.
(...), o governo da República Rio-grandense vai
quanto antes convocar o Congresso Nacional para estabelecer
as leis fundamentais, por que tanto almejam os verdadeiros
republicanos”.
“Para levar a efeito tão grandiosa obra,
eu vou dirigir o leme do governo. (...) Viva a liberdade!
Viva a futura Assembléia do Rio Grande!”
Convocada por decreto de 3 de agosto de 1842, realizou
sessões preparatórias em 29 e 30 de novembro
daquele ano, com a presença de vinte e dois deputados.
Foi presidente das sessões preparatórias
o deputado vigário apostólico Francisco
das Chagas Martins d’Ávila e Souza, o candidato
mais votado nas eleições para a Constituinte,
e primeiro e segundo secretários os imediatos
em votos, entre os presentes, deputados Silvano José
Monteiro de Araújo e Paula e Francisco de Sá
Brito7.
Para evitar um vácuo constitucional, a Constituição
do Império foi adotada, provisoriamente, na República
Rio-grandense.8
Em 24 de setembro de 1842, começou a circular,
em Alegrete, “O Americano”, periódico
oficial da República Rio-grandense, publicação
bi-semanal, que foi veiculado até 1º de
março de 1843. Domingos José de Almeida
era seu redator principal. No editorial de seu número
inaugural vem afirmada a orientação do
jornal em explicitar “certos princípios
de direito público, princípios que formam
nosso credo político ou doutrina republicana
que professamos de coração”.9
____________________________________________________________
6 RUSSOMANO, Victor. História Constitucional
do Rio Grande do Sul, 2. ed. Porto Alegre: Assembléia
Legislativa, pp. 106 a 107.
7 Ata da 1ª Sessão preparatória da
Assembléia Nacional. O AMERICANO, nº 20,
v. 1, 10 dez 1842 in Documentos Interessantes para o
Estudo da Grande Revolução 1835 –
1845, 2 v. Porto Alegre: Museu Júlio de Castilhos/Globo,
1930, p. 271.
8 O Americano, nº 2, v. 1, 28 set 1842, p. 1, in
Documentos Interessantes para o Estudo da Grande Revolução
de 1835 – 1845, 2º vol, Museu Júlio
de Castilhos, Porto Alegre, 1930, p. 197.
9 O Americano, nº 1, v. 1, 24 fev 1842, in Documentos
Interessantes para o Estudo da Grande Revolução
de 1835 – 1845, 2º vol, Museu Júlio
de Castilhos, Porto Alegre, 1930, p. 193.
____________________________________________________________
Assim, como preparação do
povo para os embates da Assembléia Constituinte,
“O Americano” suscitou a discussão
sobre temas fundamentais do constitucionalismo, divulgando,
precipuamente, o magistério de Benjamin Constant10.
As publicações de 28 de setembro, de 1º,
5, 8 e 13 de outubro de 1842 versam sobre “A Soberania
do Povo”; as publicações de 19 e
22 de outubro de 1842 versam sobre “o poder representativo
e o modo de o exercer”; as publicações
de 2, 5, 9, 12, 16 e 19 de novembro, sobre “o
modo de formar-se a representação nacional”;
a publicação de 23 de novembro traz algumas
noções sobre a Constituição
do Estado de Massachussets; as publicações
de 26 de novembro, 10 e 14 de dezembro de 1842, apresentam
o que é uma constituição, do que
ela deve conter em geral e como se deve compor; as publicações
de 17 e 21 de dezembro de 1842 discutem a necessidade
de uma constituição política; as
publicações de 21, 28 e de 31 de dezembro
de 1842 e de 4 e 14 de janeiro de 1843 versam sobre
os Direitos Individuais.
O discurso liberal dos rio-grandenses, no mesmo diapasão
do liberalismo brasileiro, preconizava a necessidade
de ordenação do poder nacional, com base
no federalismo11 e a emancipação do povo
de uma ordem absolutista, que se traduzia como a afirmação
do indivíduo perante o Estado e a definição
dos direitos e garantias individuais.
A Assembléia Constituinte foi instalada no dia
1º de dezembro de 1842. A fala da abertura foi
proferida por Bento Gonçalves:
“Senhores representantes da nação
rio-grandense:
(...), se aproxima o dia em que, banida a realeza da
terra de Santa Cruz nos havemos de reunir para estreitar
os laços federais à magnânima nação
brasileira, a cujo grêmio nos chama a natureza
e nossos mais caros interesses.
(...), começam os vossos trabalhos e cessa desde
já o poder discricionário, de que fui
investido pelas atas da minha nomeação.
Cumprindo, pois, as condições com que
fui eleito, eu o deponho em vossas mãos.
____________________________________________________________
10 Benjamin Constant (1767-1830) foi o modelo da
geração de pensadores políticos
que organizou o estado brasileiro depois da independência.
Braz Florentino anota que Constant até certo
tempo foi o publicista europeu mais vulgarizado em nosso
país, parece ter sido duas vezes legislador no
Brasil: na Constituição e no Código
Criminal (...) SOUZA, Braz Florentino Henriques de.
Lições de Direito Criminal. Recife: S/E,
1872, p. 205, n 1. Arinos acrescenta que Constant foi,
para a geração dos fundadores do Império,
aquilo que mais tarde foi Comte para os fundadores da
República. Por isso encontramos em todo o pensamento
político dos fundadores do Império a marca
de Benjamin Constant. MELLO FRANCO, Afonso Arinos de.
As Idéias Políticas no Brasil in O Som
do Outro Sino, Rio de Janeiro: EdUB/Civilização
Brasileira, p. 155.
____________________________________________________________
A primeira necessidade do estado é
uma constituição política baseada
sobre os princípios proclamados no memorável
dia 6 de novembro de 1836.
Bem penetrados da importância da nossa missão
e das circunstâncias excepcionais em que nos achamos,
a vós cumpre decretar os meios, recursos e elementos
com que deve contar o governo para o bom desempenho
das suas funções.
Senhores representantes da nação rio-grandense!
A felicidade e a sorte da República está
hoje em vossas mãos. (...).
Está aberta a sessão.12"
____________________________________________________________
Iniciados os trabalhos, para a mesa da
Assembléia, foram eleitos como presidente o padre
Hildebrando de Freitas Pedroso e, para vice-presidente,
Serafim dos Anjos França.
Na sessão do dia 2 de dezembro de 1842, foi constituída
a comissão especial, de cinco membros, os deputados
José Pinheiro de Ulhoa Cintra, Francisco de Sá
Brito, José Mariano de Matos, Serafim dos Anjos
França e Domingos José de Almeida, para
apresentar o projeto de Constituição.
Na sessão de 17 de janeiro de 1843, realizou-se
a cerimônia da fala da deputação
constituinte, em resposta ao discurso da abertura do
presidente da República, na qual a Assembléia
aceitou a devolução dos poderes de que
o presidente, ao ser eleito, fora investido. Bento Gonçalves,
então, comprometeu-se a continuar concedendo
os meios, recursos e faculdades indispensáveis
ao bom desempenho do governo e a fazer os maiores esforços
para organizar a constituição política
do Estado.
Em 8 de fevereiro de 1843, a comissão especial
apresentou à Assembléia o projeto de Constituição.
Seu proêmio tinha a seguinte redação:
____________________________________________________________
11 Nesse sentido, Demétrio Ribeiro assinala
que “Após a campanha da Cisplatina, o ânimo
rio-grandense afez-se a reconhecer, resoluto, a peremptória
desvantagem do regímen centralizador com que
fora inaugurada a Independência de 1822. Mil vezes
corria, de rancho em rancho, a houvessem fundado na
autonomia, racional e prática, dos elementos
livremente componentes do Brasil, para assegurar-lhe
a unidade do território inquebrável e
necessária. É que desde então,
a descentralização das províncias,
ou a federação a constituir-se por todas
elas, predominou na terra dos gaúchos e foi-lhe
o supremo ideal político, mais e mais estimulada
pela abdicação do primeiro Imperador,
e logo adiante, pela promulgação do Ato
Adicional, conquistas eméritas do liberalismo
descentralizador” in RIBEIRO, Demétrio
(Gaúcho Velho). O Republicanismo Gaúcho,
Revista do IHGRGS, ano XXIII, n. 90, Porto Alegre: Imprensa
Oficial, 1943 P. 195 a 203.
12 RUSSOMANO, Victor. Op. cit., pp. 113 a 115.
____________________________________________________________
“Em nome da Santíssima
Trindade, nós representantes do povo da república
Rio-grandense, reunidos em Assembléia Geral,
devidamente autorizados por nossos constituintes para
fixar as regras fundamentais do estado, e estatuir uma
forma de governo adequado a seus costumes, situação
e circunstâncias, que proteja com toda a eficácia
a vida, a honra, a liberdade, a segurança individual,
a propriedade e a igualdade, bases essenciais dos direitos
dos homens, desejando satisfazer a vontade de nossos
concidadãos, firmar a justiça, promover
a felicidade pública e assegurar o gozo de todos
estes bens para nós e nossa posteridade, estabelecemos,
decretamos e sancionamos a Constituição
do teor seguinte (...).”
Dez títulos lhe configuravam. O primeiro
versava sobre a forma de governo, território
e religião; o segundo, sobre a cidadania rio-grandense;
o terceiro, sobre a soberania, poderes e representação
nacionais; o quarto, sobre o Poder Legislativo; o quinto,
sobre o Poder Executivo; o sexto, sobre o Poder Judiciário;
o sétimo, sobre o governo e a administração
interior dos municípios; o oitavo, sobre as disposições
gerais e as garantias dos Direitos Civis e Políticos
dos cidadãos rio-grandenses; o nono, sobre a
observância das leis antigas e o décimo,
sobre a publicação, juramento, interpretação,
reforma e observância da Constituição.
Dois dias depois de apresentado o Projeto de Constituição,
a Assembléia dissolveu-se pela pressão
do exército legalista, já às portas
de Alegrete, e das dissenções internas.
Os deputados ao Congresso Constituinte formaram duas
correntes mediadas por um abismo. Uns queriam que Bento
Gonçalves mantivesse os poderes discricionários;
outros queriam a limitação desses poderes.
A minoria não dava quorum. A confusão
estava instalada. O 1º vice-presidente da República,
líder da minoria e contestador de Bento Gonçalves,
foi assassinado. O assassinato foi atribuído
a Gonçalves, que foi desafiado por Onofre Pires
a duelar. No duelo Pires pereceu. Do esfrangalhamento
da Assembléia Constituinte e do desmoronamento
da República permaneceu o Projeto da Constituição.
O preâmbulo que introduz o projeto, com a invocação
da Santíssima Trindade e o artigo 5º do
Título I, que define a religião Católica
Apostólica Romana como a do estado, permitindo
às demais o culto doméstico ou particular,
em casas sem forma exterior de templo, anula os propósitos
da separação da Igreja do estado, reivindicação
liberal de natureza estruturante. O Estado de cariz
liberal não é confessional, é neutro,
agnóstico, na dicção de Sampay13,
e deve reconhecer a equivalência ideal de todas
as cosmovisões religiosas. A separação
da Igreja do Estado é o corolário da liberdade
de consciência, liberdade esta que é o
primeiro pressuposto para a conversão do homem
de servo do absolutismo estatal em indivíduo
espiritual14. A opção pelo Estado confessional
católico, quando o Rio Grande do Sul já
tinha uma avultada percentagem de acatólicos
significa, no mínimo, uma limitação
do projeto. Não se pode esquecer, no entanto,
a forte influência do clero que, embora liberal,
não se afastava do dogma católico.
Sobre o princípio federativo, que era o grande
objetivo liberal rio-grandense15, no âmbito da
ordenação do poder nacional, não
só não houve nenhuma definição,
como o documento ofereceu uma estrutura de poder de
cunho centralizador. A descentralização
não se coadunava com a guerra e a guerra adiava
o federalismo.
A afirmação do indivíduo frente
ao Estado e o reconhecimento das garantias de seus direitos
civis e políticos filia, sem sombra de dúvidas,
o projeto ao movimento constitucionalista. Um dos vieses
do constitucionalismo era a desconstrução
do antigo regime e a proposta de Constituição,
no artigo 208, ao proibir a fundação de
morgados e de bens vinculados e a concessão de
títulos de nobreza, honras ou distinções
hereditárias e, no artigo 214, ao proibir as
corporações de ofícios, seus juízes,
escrivães e mestres tem, claramente, esse endereço.
O projeto de Constituição assegurando
o acesso à propriedade em igualdade de condições,
por exemplo, proibindo os morgadios16 e as corporações
de ofício, é de sua época. Não
discrepa do espírito que presidiu a fatura do
Código Napoleônico, que, em 1809, ao instituir
a partilha forçada estabeleceu a igualdade dos
quinhões hereditários, alterou a estrutura
familiar e extinguiu a propriedade absoluta, limitando
o velho amplo poder de disponibilidade do pai sobre
os bens submetidos a seu domínio.
____________________________________________________________
13 SAMPAY, Arturo Enrique. La Filosofía del
Iluminismo y La Constitución Argentina de 1853,
Buenos Aires: Depalma, 1944, p. 10.
14 Sobre o tema, entre outros: BARROS, Roque Spencer
Maciel de. Introdução à Filosofia
Liberal. São Paulo: EdUSP/Grijalbo, 1971.
15 PICCOLO, Helga. Considerações em torno
do Projeto de Constituição da República
Rio-Grandense, Separata do n. LII da Revista de História.
São Paulo: Revista de História, 1974,
p. 198.
16 Morgado tanto designa o filho primogênito titular
do morgadio quanto os bens que o integram.
____________________________________________________________
O Projeto não se converteu em Lei,
mas nele se contêm as raízes do nosso direito
constitucional republicano e consubstancia o maior esforço
que o movimento constitucionalista, de cariz liberal
e democrático, logrou em nosso país, na
primeira metade do século XIX, prenunciando as
conquistas republicanas das vésperas do século
XX.
Para se entender o movimento constitucionalista dos
farroupilhas rio-grandenses deve-se ter presente que,
quando o Brasil se fez Reino, em 1815, no mundo ocidental
cristão, duas tendências opostas disputavam
o espaço de Napoleão. Uma, afirmadora
da liberdade burguesa, do constitucionalismo, da independência
nacional, pelo prosseguimento do que a Revolução
Francesa havia começado e que, na metade do caminho,
foi desviado pelo então prisioneiro de Santa
Helena. A outra, tentando restabelecer o status
quo anterior à Revolução, o Antigo
Regime17, com a política de gabinete, o regime
patriarcal, o despotismo ilustrado18.
Para opor-se à corrente liberal revolucionária,
Metternich, no Congresso de Viena, nesse mesmo ano de
1815, formulou um novo sistema de equilíbrio
europeu de poder, no qual a Áustria e a Prússia
constituíam um centro forte e a Rússia
e a França dois extremos igualmente fortes. Surgiu
a Santa Aliança, cognominando a liga das monarquias
absolutas, para defender o princípio da legitimidade
dos reis contra as aspirações liberais
e constitucionalistas, propugnando pelo retorno ao Antigo
Regime. Reafirma o direito divino dos monarcas, atribuindo
a Deus o princípio da autoridade real e se comprometendo
com a manutenção da fé católica.
No Brasil, uma ramificação declarada da
Santa Aliança foi o “Apostolado da Nobre
Ordem dos Cavaleiros de Santa Cruz”, de vida efêmera,
vigindo de 2 de junho de 1822 a 15 de maio de 1823.
____________________________________________________________
17 ANTIGO REGIME é o nome dado, na historiografia
da Revolução Francesa, ao regime político
vigente na França, até aquele momento:
uma monarquia absoluta, na qual o soberano concentrava
em suas mãos, de forma irrestrita, todos os poderes
da soberania do Estado; daí passou a designar
as monarquias absolutas da Europa Ocidental, cuja sociedade
se dividia em três estados, o clero, a nobreza
e a burguesia.
18 LUCKWALDT, Friedrich. La Época de la Restauración,
in STERN, Alfredo et alii. La Revolución Francesa,
Napoleón y la Restauración (1790-1848),
in GOETZ, Walter. História Universal, t. VII,
6 ed. Madrid:Espasa-Calpe, 1962, p. 410.
19 A Congregação do Oratório foi
fundada em Roma, por São Felipe Nery em 1564
e estabeleceu-se em Portugal no século XVII.
Os oratorianos, modificando o currículo tradicional,
enfatizavam as matemáticas e as ciências
na preparação de seus alunos para o mundo
dos negócios, in GAY, Peter. The Enlightement
– The science of freedom, v. 2, N.Y. – London:
W. W. Norton, 1977, p. 507 – 508. “(...)
singularizou-se, entre nós, no século
XVIII pela sua afeição à Filosofia
Natural conforme era tratada pelos Modernos”:
CARVALHO, Rômulo de. A Física experimental
em Portugal no Século XVIII. Lisboa: ICLP, 1982.
Esteve presente no Brasil de meados do século
XVII até 1830, quando foi oficialmente extinta.
____________________________________________________________
O despotismo ilustrado português
continha as contradições que iriam prostrá-lo
e que vinham do início do século XVIII,
quando D. João V abriu as portas para o Iluminismo,
e os oratorianos19 substituíram os jesuítas
no Coléio das Artes e na Universidade de Coimbra,
com o propósito de afastar o pesado legado medieval.
O consulado pombalino, sob as luzes josefinas, reforçou
a cunha modernizadora cravada no Antigo Regime e facilitou
a formação de uma geração
de inspiração iluminista e de orientação
liberal20.
Uma das expressões dessa geração,
o grupo da Casa Literária do Arco do Cego, criada
sob o influxo da ação renovadora do pombalismo,
patrocinado por Rodrigo de Souza Coutinho e coordenado
pelo Padre José Mariano da Conceição
Veloso, reunia, entre outros, Hipólito José
da Costa, Martim Francisco e Antônio Carlos Ribeiro
de Andrada e José Feliciano Fernandes Pinheiro,
o futuro Visconde de São Leopoldo21.
No Brasil, em Olinda, o Seminário de D. José
Joaquim de Azeredo Coutinho, fundado em 1798, foi um
grande centro de reflexão, formação
de quadros e difusão de idéias liberais22.
D. José Joaquim compôs parte do quadro
docente do Seminário com oratorianos23. O ensino
da Congregação do Oratório de Recife,
que atuava como filial da Casa de Lisboa, era de excelência24.
A Congregação estava presente no Brasil,
mais particularmente em Pernambuco, desde meados do
século XVII e sua adesão às idéias
liberais era notória, tanto que, em 1710, quando
foi deflagrada a “Guerra dos Mascates”,
conflito armado entre os nobres da terra de Olinda e
os comerciantes burgueses de Recife, os oratorianos
não só se alinharam com os recifenses,
como o Pe. João da Costa, do Oratório,
foi um dos líderes dos mascates e chamado de
“Congregado-Mor dos levantados”25. A Congregação
do Oratório amanhou a seara e o Seminário
de Azeredo Coutinho cultivou os frutos do pensamento
liberal.
____________________________________________________________
20 Como luzes josefinas nos referimos ao período
entre 1750 e 1777, em que reinou D. José, sucessor
de D. João V, no qual o absolutismo ilustrado
atingiu seu ponto culminante em Portugal e esse país
foi preparado para a revolução liberal
do século XIX (a Revolução Constitucionalista
do Porto).
21 LYRA, Maria de Lourdes Viana. A Utopia do Poderoso
Império. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1994,
p.83 a 88. A autora apresenta a Casa Literária
do Arco do Cego como um centro de arregimentação
do saber, onde se reuniam estudantes de Coimbra, chegados
do Brasil e que servia, também, com “centro
de ocupação providencial àqueles
estudantes que precisavam aumentar seus recursos pecuniários”.
22 Idem, ibidem, p. 88 a 95. A autora trata o Seminário
de Olinda como um centro de instrução
e divulgação do saber alinhado com o reformismo
ilustrado. Sobre o Seminário de Olinda, consultar
ALVES, Gilberto Luiz. O pensamento burguês no
Seminário de Olinda. Campo Grande: UFMS, 2001.
23 LIMA, Ebion. A Congregação do Oratório
no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1980, p.134.
24 Idem, ibidem, p. 135, 136: “por provisão
de 15 de março de 1755 consentiu o rei que os
alunos da Madre de Deus (do Oratório) pudessem
entrar na Universidade de Coimbra sem prestarem exames
de admissão” e “A Rainha Dona Maria
I, em 1787, por provisão, integrou a Cadeira
de Filosofia mantida pela Congregação
do Oratório, em Recife, no sistema oficial de
ensino, cujo professor passou a ser remunerado pelos
cofres públicos”.
25 LIMA, Ebion. A Congregação do Oratório
no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1980, p. 123.
____________________________________________________________
A Europa da Santa Aliança ou de
Metternich, o chanceler que personificou a reação
das dinastias contra o espírito da revolução,
foi a Europa de 1815 a 1848. Esse período entrou
na história como a “Época da Restauração”.
Para o movimento constitucionalista, ao qual a Santa
Aliança se opunha, a constituição
escrita era “a expressão de um sistema
que tinha no individualismo e no liberalismo as bases
naturais da estrutura governativa das sociedades humanas”.26
O constitucionalismo se sedimentou, basicamente, sob
o magistério de John Locke e o pensamento de
Montesquieu e Rousseau. A Constituição
Norte-americana de 1787 foi o “modelo que correspondeu
ao anseio geral de fazer constar de um certo número
de normas solenes e imutáveis, compendiadas em
documento especial, as bases do governo do Estado”.27
Não se deve entender por Estado constitucional
ou liberal aquele cujo ordenamento jurídico-político
parte de um documento básico, de uma Constituição
escrita, erigida como pedra angular do sistema jurídico,
mas aquele em que se encontra reconhecida e garantida
uma esfera de liberdade ao indivíduo frente ao
poder público. Tal liberdade é o traço
decisivo que caracteriza o Estado liberal-burguês,
qualquer que seja a estrutura política de seu
governo. Responde a uma valoração do indivíduo,
que só no Estado liberal-burguês alcança
uma plasmação político-institucional.
Essa valoração do indivíduo, que
adquire plasmação política no Estado
liberal, tem sua origem no Renascimento28.
Na sociedade que se delineia nos anos terminais do Antigo
Regime, os direitos individuais, quando presentes na
subjetividade de seus portadores, ainda não tinham
meios de se fazer valer e adquirir consistência
objetiva e atuante frente ao poder absoluto do monarca.
O movimento constitucionalista visava construir os meios
formais de proteção do indivíduo
contra o Estado opressor, encarnado no rei absolutista,
dando validade e eficácia aos direitos individuais.
____________________________________________________________
26 MELLO FRANCO, Afonso Arinos de. O Constitucionalismo
de D. Pedro I no Brasil e em Portugal. Brasília:
Ministério da Justiça, 1994, p. 7.
27 Idem, ibidem, p. 9.
28 AYALA, Francisco. El Problema del Liberalismo. México:
Fondo de Cultura Económica, 1941.
____________________________________________________________
A doutrinação liberal em
Pernambuco, com o Seminário de Olinda, com o
Aeropago de Goiana, de Câmara Arruda, “onde
o livro de Reynal sobre a revolução americana
era de leitura de todos; a Declaração
dos Direitos do Homem”, e “o almanaque do
Père Gerard, traduzidos para o português,
eram especialmente difundidos”29 logo daria seus
frutos. Foi o 6 de março de 1817. A insurreição
Pernambucana de 1817 era constitucionalista. Buscava
a desconstrução do Antigo Regime. Sustentava
o primado do indivíduo e afirmava o princípio
da soberania popular, “que reside no Povo inteiro,
e cada cidadão tem direito igual de concorrer
para o seu exercício”, conforme a Declaração
dos Direitos Naturais, Civis e Políticos do Homem.
Pretendia inaugurar um regime de igualdade e de respeito
ao direito de propriedade individual e propugnava pela
independência e pela república. De março
a maio de 1817, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande
do Norte formaram uma república liberal. A convocação
de uma Constituinte para o mês de abril foi uma
das primeiras decisões administrativas tomadas
pelos dirigentes da nova República. A junta de
governo da Revolução era chefiada pelo
padre João Ribeiro Pessoa de Mello e nela se
destacavam os padres José Martiniano de Alencar
e José Inácio Ribeiro de Abreu e Lima,
o Padre Roma. Amaro Quintas observa que uma
das vertentes da Revolução de 1817 foi
o Seminário de Olinda, que tinha no Padre João
Ribeiro seu maior representante: “A potencialidade
revolucionária a Danton de Domingos João
Martins e o intelectualismo daquela geração
educada no enciclopedismo e nos princípios do
Contrato Social iam, com o apoio da oficialidade profundamente
nativista, provocar o 6 de Março”30. No
Conselho figurava o Ouvidor de Pernambuco, Antonio Carlos
Ribeiro de Andrada, em cuja casa, em Olinda, funcionava
um dos clubes políticos, a Universidade Democrática.
Mesmo que de passagem, quando se trata da Revolução
de 1817, não pode deixar de ser mencionado o
Monsenhor Francisco Muniz Tavares, egresso das aulas
da Madre de Deus, dos oratorianos, que foi capitão
de guerrilhas da Revolução e depois representante
de Pernambuco nas Cortes constituintes; deixou uma “História
da Revolução de Pernambuco de 1817”
e na apreciação de Motta “constitui-se
em ponto de referência fundamental para que se
possa compreender não apenas as vicissitudes
e as peculiaridades do liberalismo brasileiro mas também
o nacionalismo emergente às vésperas da
Independência”31.
____________________________________________________________
29 BONFIM, Manoel. O Brasil, nova edição,
Brasiliana v. 47. São Paulo: CEN, 1940, p. 102.
30 QUINTAS, Amaro. A Revolução de 1817.
2 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1985, p.
102.
31 MOTTA, Carlos Guilherme. Nordeste 1817. São
Paulo: Perspectiva, 1972, p. 244; o autor trata especificamente
sobre “Muniz Tavares e a visão liberal
da revolução” da p. 245 a 281.
____________________________________________________________
Não foi o exemplo de 1817, entretanto,
o mais próximo desencadeador do processo de constitucionalização
no Brasil. O marco desse processo foi a Revolução
Constitucionalista do Porto. A Inconfidência Mineira,
a Revolução de 1817, a pregação
dos oratorianos, a atuação das lojas maçônicas,
o magistério do Seminário de Olinda, entre
outros momentos da construção do processo
liberal-burguês, desde a Guerra dos Mascates em
1710, foram relevantes para a preparação
de um ambiente propício ao êxito do esforço
de constitucionalização.
A situação portuguesa, em 1820, era de
crise em todos os planos da vida nacional:
a) crise política, causada pela
ausência do rei e dos órgãos do
governo, transferidos para o Brasil;
b) crise ideológica, nascida
da progressiva difusão de idéias que consideravam
a monarquia absoluta um regime opressivo e obsoleto;
c) crise econômica, resultante
da emancipação econômica do Brasil;
d) crise militar, originada pela presença
dos oficiais ingleses nos altos postos do exército
e pela emulação dos oficiais portugueses
que se viam preteridos nas promoções.
A situação econômica era de depressão
geral: o vinho estava em decadência pela abertura
dos portos do Brasil aos vinhos de todas as nações;
a indústria paralisou-se com a livre entrada
em Portugal e no Brasil da mão-de-obra inglesa,
com cujos preços não pôde competir;
o comércio decaiu extraordinariamente, não
só pela abertura dos portos do Brasil, que privou
Portugal do exclusivo mercantil, mas pela concorrência
de todas as nações marítimas; para
o Brasil vinha, todos os anos, uma porção
considerável das rendas de Portugal.
À situação interna de Portugal
somava-se a situação política da
Espanha. Durante o período das lutas napoleônicas,
os resistentes liberais espanhóis aprovaram uma
Constituição32 que estava em vigor quando,
após a queda de Napoleão, o rei Fernando
VII pôde regressar à Espanha. A Constituição
foi suspensa e Fernando VII governou como rei absoluto.
Em 1820, um pronunciamento militar em Cádiz,
secundado por muitas províncias, obrigou o rei
a voltar ao regime constitucional.
Foi nessa conjuntura que eclodiu a Revolução
portuguesa de 182033. A iniciativa partiu de um pequeno
grupo de liberais que fundaram, em 1818, o Sinédrio,
agrupamento político cujo objetivo era discutir
a evolução do processo político
em Portugal e Espanha. A figura mais notável
do grupo era Fernandes Tomás que, na primeira
reunião do Sinédrio, em seu discurso,
condensou as causas diretas da revolução:
ausência do rei; economia depauperada; intromissão
inglesa e exemplo espanhol.
____________________________________________________________
32 Constituição de Cádiz, de
1812.
33 Segundo Euclides da Cunha “Na revolta portuguesa
o que aparece no primeiro plano é a corrente
generalizada do constitucionalismo, que ia assoberbando
a Europa depois da Restauração. Mas os
seus reagentes eram outros. Resumiam-se na circunstância
de haver-se deslocado o trono para o Brasil, instituindo,
aqui, a autonomia econômica” in CUNHA, Euclides.
Da Independência à República in
À Margem da História. São Paulo:
Lello Brasileiro, 1967, p. 182.
____________________________________________________________
O Sinédrio obteve a adesão
de muitos militares das guarnições do
Norte. Em 24 de agosto de 1820, aproveitando-se da ausência
do regente Marechal Beresford34, um regimento de artilharia
saiu de seu quartel, ouviu missa campal debaixo de formatura
e, com uma salva de vinte e um tiros, anunciou que estava
feita a revolução. Um dos coronéis
leu uma proclamação que dizia:
“Vamos com os nossos irmãos de armas
organizar um governo provisional que chame as cortes
a fazerem uma constituição, cuja falta
é a origem de todos os nossos males”.
Em 15 de setembro, as tropas de Lisboa revoltaram-se,
aderindo ao movimento. A revolução não
encontrou qualquer resistência e despertou um
enorme entusiasmo. “Depôs a regência,
criou um governo provisório, proclamou a constituição
espanhola de Cádiz e convocou um congresso para
estabelecer a constituição do reino”.35
Acreditava-se que se entrava em uma nova era na história
e via-se na futura constituição a solução
miraculosa de todos os problemas portugueses.
As primeiras notícias da revolução,
enviadas pela regência a D. João VI, chegaram
em 17 de outubro de 182036, anunciando-lhe haver convocado
as antigas cortes e anistiado os militares. As notícias
de que a tropa jurara fidelidade ao rei, às cortes
e à futura constituição chegaram
em 12 de novembro de 182037.
____________________________________________________________
34 O regente Beresford estava no Rio de Janeiro,
onde fora pedir a D. João VI maiores poderes
pessoais para conter os conspiradores.
35 LIMA, Alcides. História Popular do Rio Grande
do Sul. 2 ed. Porto Alegre: Globo, 1935, p. 164, 165.
36 Pelo bergantim Providência.
37 Pelo brigue de guerra Infante D. Sebastião.
____________________________________________________________
A revolução foi recebida
com entusiasmo no Brasil. Brasileiros e portugueses
estavam unidos em apoio à revolução
liberal. Eclodiram revoltas liberais no Pará,
na Bahia e no Rio de Janeiro. O primeiro território
brasileiro a aderir à revolução
constitucionalista foi o Pará, jurando, em 1º
de janeiro de 1821, a constituição que
as Cortes decretassem. No Rio de Janeiro, a revolta
partiu da guarnição militar portuguesa.
O Príncipe D. Pedro serviu de mediador entre
o rei e as tropas revoltadas. O rei, no dia 24 de fevereiro
de 1821, jurou que aceitaria a constituição
que as Cortes de Lisboa viessem a decretar, qualquer
que ela fosse.
Através do decreto de 26 de fevereiro de 1821,
D. João VI determinou que, em todo o país,
fosse prestado juramento às bases da constituição
que fosse decretada pelas Cortes de Lisboa. Em princípios
de abril, esses fatos e o decreto já eram conhecidos
no Rio Grande do Sul, e como as autoridades não
lhe davam cumprimento, a guarnição da
Vila do Rio Grande sublevou-se, depondo o sargento-mor
Mateus da Cunha Telles.
Em Porto Alegre, ausente o Capitão-Mor Conde
da Figueira, o governo era exercido por um triunvirato
composto pelo Tenente-General Manuel Marques de Souza,
ouvidor Joaquim Bernardino de Sena Ribeiro da Costa
e pelo vereador Antônio José Rodrigues
Pereira. O estalo deu-se no dia 26 de abril de 1821.
Alcides Lima conta o que se passou38:
“A tropa e o povo amotinam-se
e exigem, em altos brados, o juramento imediato da constituição.
Pelas duas horas da madrugada, estavam na praça,
em frente à residência do governo, o batalhão
de infantaria e artilharia armado e municiado de pólvora
e balas, conduzindo duas bocas de fogo. Ao som do rebate
reuniram-se-lhe, imediatamente, todos os corpos existentes
em Porto Alegre e fizeram comparecer à sua presença
o ouvidor da Comarca, o juiz de fora, o cônego
vigário-geral e o desembargador Luiz Corrêa
Teixeira de Bragança. E, depois, obrigando-os
a irem trazer o governo interino, a câmara e o
clero fizeram jurar a constituição no
meio da praça, ao raiar da aurora, que foi salvada
com vinte e um tiros. Inaugurava-se, assim, por um ato
de energia popular, o desmoronamento do antigo regime”.
Segundo o testemunho de Saint-Hilaire, o pronunciamento
não foi obra do povo e sim das tropas estimuladas
pelos comerciantes, quase todos europeus. Já
para Homem de Mello, o principal motor do tumulto de
26 de abril foi o padre José Rodrigues Malheiros
Trancoso Soutomaior que, por isso, foi preso e remetido
para o Rio de Janeiro a 21 de maio seguinte.
____________________________________________________________
38 LIMA, Alcides. História Popular do Rio
Grande do Sul. 2 ed. Porto Alegre: Globo, 1935, p. 167.
____________________________________________________________
O pensamento liberal foi introduzido no
Rio Grande do Sul pelo clero, pelos militares e pelos
comerciantes.
As Cortes de Lisboa promulgaram, em 18 de abril de 1821,
um decreto que dispôs sobre a instalação
de juntas governativas nas capitanias brasileiras. Esse
decreto não foi logo observado no Rio Grande
do Sul, embora tivesse havido tentativa de fazê-lo
cumprir39.
Em 20 de agosto de 1821, João Carlos de Saldanha40,
tomou posse como capitão-general do Rio Grande
do Sul. Saldanha, de acordo com Saint-Hilaire, denunciou
a existência de liberais exaltados entre os oficiais
portugueses da guarnição rio-grandense:
“Parece, desgraçadamente, que as idéias
ultra-liberais têm assaz penetrado entre eles”.
Mais adiante, consigna: “Foi-me fácil perceber
quanto as idéias revolucionárias se tinham
infiltrado no seio das tropas européias”.41
Saint-Hilaire, entretanto, admite que o próprio
Saldanha não estava longe de partilhar essas
idéias.
Antero José Ferreira de Brito e Antônio
Manuel Corrêa da Câmara, oficiais do exército
e liberais exaltados, em 16 de outubro reagiram contra
a posse de Saldanha, por entenderem que ela contrariava
o decreto de 18 de abril e “dirigiram-se aos notáveis
de Porto Alegre e aos comandantes da tropa, com o anúncio
de que o senado da câmara, autoridade eclesiástica,
todos os corpos de linha e milicianos e uns trezentos
homens do povo, armados, estavam prontos para, na madrugada
seguinte, proclamarem um novo governo na praça
pública”.42
Já em 1821, no Rio Grande do Sul, os liberais
dividiam-se em moderados e exaltados. Varella43 afirma
que os constitucionais exaltados sempre desconfiados
e prevenidos contra o governo do general, chegaram a
estar determinados à criação da
junta. Afinal, prevaleceu a opinião dos moderados
que, fundados na reputação de Saldanha,
apoiaram seu governo.
____________________________________________________________
39 No Rio Grande do Sul, a junta governativa só
foi instituída em 22 de fevereiro de 1822.
40 João Carlos de Saldanha de Oliveira e Daun,
depois Duque de Saldanha, era, pela via materna, neto
do Marquês do Pombal. Era filho do 1º Conde
do Rio Maior.
41 VARELLA, Alfredo. Revoluções Cisplatinas,
v. 1. Porto: Chardron, 1915, p. 136.
42 VARELLA, Alfredo. Revoluções Cisplatinas,
v.1. Porto: Chardron, p. 135.
43 Idem, ibidem. A afirmação é
feita com apoio em carta de Antonio Bernardes Machado,
de 10 de setembro de 1821.
____________________________________________________________
A orientação exaltada era
corrente entre os militares rio-grandenses, que a difundiam
com base no prestígio que obtiveram nos cinco
anos da guerra contra Artigas, então recém
finda e da qual retornaram cobertos de glória
e aclamados pelo povo. Manuel Marques de Souza, José
de Abreu (já cognominado de o Anjo da Vitória),
Chagas Santos, Felix de Mattos, Antero de Brito, Corrêa
da Câmara, Bento Gonçalves, Bento Manoel
e outros militares eram conhecidos e apontados como
modelos de virtude e patriotismo. A propósito,
Lima destaca que:
“A classe militar era a mais respeitada, a
mais conceituada mesmo. Fortes com a estima da província
e orgulhosos de seus feitos de armas e de sua fama,
começaram os militares mais prestigiosos a comunicar
entre si idéias exaltadas e foram formando núcleos
dirigidos a um novo regime político. Por essa
ocasião chega à Província a notícia
da rebelião do Porto. Em breve ela percorre todas
as classes e na confusão que naturalmente envolveu
a todos, os militares põem-se à frente
do povo dirigindo o movimento”.44
A pregação liberal no Rio Grande do Sul
foi reforçada pelo padre José Antônio
Caldas45. Em 1826, o padre Caldas era Cura de Cerro
Largo, tendo antes sido Presidente da Junta Econômica
e Administrativa de Mello. Na fronteira com o Brasil
encontrou Bento Gonçalves, Alencastro e um grupo
de jovens oficiais em cujo espírito semeou idéias
de liberalismo e democracia. Porto põe em relevo
que “do 4º Regimento de Cavalaria, sediado
em Cerrito, só se opõe às idéias
de Caldas o capitão José Rodrigues Barbosa.
Os outros todos, inclusive o Marechal Sebastião
Barreto se deixam influenciar”46. Diversos membros
do clero rio-grandense orientavam-se pela opção
liberal.
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44 LIMA, Alcides. História Popular do Rio
Grande do Sul. 2 ed. Porto Alegre: Globo, 1935, p. 166.
45 Caldas nasceu em Alagoas, em 1783. Oriundo do Seminário
de Olinda, desde cedo destacou-se na pregação
das idéias liberais. Foi eleito, por sua Província,
deputado à Constituinte de 1822. Após
a dissolução da Constituinte consagrou-se
à intensa ação subversiva, tendo
sido preso. Recolhido inicialmente na fortaleza da ilha
das Cobras, foi transferido, depois, para as prisões
de São João, Lage e finalmente Santa Cruz,
de onde se evadiu para o Prata em janeiro de 1825. No
Prata, foi mentor de Lavalleja. Integrou o exército
de Alvear e, como capelão do exército
das Províncias Unidas, participou da batalha
de Ituzaingó.
46 PORTO, Aurélio. O Processo dos Farrapos, in
Publicações do Archivo Nacional XXXI,
Rio de Janeiro: Archivo Nacional, 1935, p. 521 a 528.
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Com destacada atuação política,
tiveram relevo os Padres Francisco das Chagas Martins
Ávila e Souza, conhecido como Padre Chagas e
Juliano de Faria Lobato. Ambos integraram uma sociedade,
Chagas como presidente e Lobato como secretário,
mantenedora de um gabinete de leitura que publicava
o jornal “O Compilador”, em Porto Alegre,
veiculador de idéias liberais, que circulou entre
outubro de 1831 e novembro de 193247. Importante, também,
foi a ação dos padres Antônio Vieira
da Soledade, João de Santa Bárbara, Hildebrando
de Freitas Pedroso e Antonio Pereira Ribeiro48.
O Rio Grande do Sul, no período, na ótica
de Carlos Dante de Moraes49, vivia um momento de grande
abastança e prosperidade:
a) a criação de gado, a indústria
da carne e a exportação de produtos bovinos
incrementavam-se consideravelmente;
b) as guerras contra Artigas propiciaram a pilhagem
de enormes rebanhos nas estâncias orientais;
c) a Província tinha cento e vinte mil habitantes
e o rebanho bovino era de cinco milhões de cabeças
e o cavalar de um milhão;
d) em conseqüência das lutas platinas, que
criaram embaraços ao intercâmbio de Buenos
Aires e Montevidéu, o centro do tráfego
mundial de carne seca deslocou-se para o porto do Rio
Grande.
A acumulação de capital propiciou que
negociantes pudessem dispensar os serviços do
governo, contratassem a dragagem, por conta própria,
do canal do Rio Grande e fizessem obras públicas.
Nesse período foi lançada ao São
Gonçalo a primeira barca a vapor, significativamente
batizada de Liberal, iniciando a navegação
a vapor entre Rio Grande e Pelotas. A barca foi fabricada
nos estaleiros do arroio Santa Bárbara e a máquina
a vapor foi importada dos Estados Unidos pelos comerciantes
Domingos José de Almeida, Antônio José
Gonçalves Chaves, José Vieira Vianna e
Bernardino José Marques Canarim50.
Ante esse surto de prosperidade, a Corte respondia com
os métodos obsoletos e estreitos da máquina
oficial. Entre o espaço que se desenvolvia e
a estrutura estatal emergiam graves dessintonias. Anunciava-se
uma ruptura e a humilhação e o fracasso
de Ituzaingó e a journées des dupes
de 7 de abril de 1831, foram seus epicentros mais flagrantes.
____________________________________________________________
47 BARRETO, Abeilard. Primórdios da Imprensa
no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Corag, 1986, p.
37.
48 O padre Antonio Pereira Ribeiro era tio de Marciano
Ribeiro, que foi médico pela Universidade de
Edimburgo (Escócia) e presidente da Província
do Rio Grande do Sul.
49 MORAES, Carlos Dante. O Povo Rio-Grandense nas Vésperas
de 35, in Figuras e Ciclos da História Rio-Grandense,
Porto Alegre: Globo, 1959, p. 91 a 124.
50 RODRIGUES, Alfredo Ferreira. Vultos e Fatos da Revolução
Farroupilha. Brasília: Imprensa Nacional, 1990,
p.
____________________________________________________________
O movimento constitucionalista dos farrapos
não discrepava de sua matriz brasileira e, mesmo,
se apresentava como regenerador das revoluções
da independência e da abdicação.
Nesse sentido Apolinário Porto Alegre lemra que
“o Rio Grande salvou em 93 a revolução
de 15 de novembro, como em 35 salvara a de 7 de abril”.51
Bento Gonçalves, em seu manifesto de 25 de setembro
de 1835, afirmou como um dos objetivos maiores da Revolução
de 20 de setembro “sustentar em sua pureza os
princípios políticos que conduziram a
Nação ao sempre memorável Sete
de Abril, considerado o da regeneração
e total independência do Brasil”.52
Tentaram!
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51 PORTO ALEGRE, Apolinário. Cancioneiro
da Revolução de 1835. Porto Alegre: ERUS,
1981, p. 31. 7 de abril de 1831 é a data da abdicação
de D. Pedro I.
52 OSÓRIO, Fernando Luiz. A Guerra Civil dos
Farrapos. Porto Alegre: Globo, 1935, p. 15.
A relação entre Revolução
Farroupilha e maçonaria
Eliane Lucia Colussi
_____________________________________________________
Professora do Curso de História
da Universidade de Passo Fundo
A Revolução Farroupilha é considerada
um dos episódios mais importantes e simbólicos
da história política e cultural do Rio
Grande do Sul. Entre os aspectos que freqüentemente
justificam a sua grandeza está a vinculação
com a construção da identidade regional.
Os diversos episódios em torno da revolução
sustentam as teses, com algumas variações,
das diferenças de “ser gaúcho”.
Porém, a temática “farroupilha”
somente passou a ser foco de estudos mais aprofundados
e sistemáticos nas primeiras décadas do
século XX. As comemorações do “Centenário
da Revolução”, em 1935, inauguraram
a entrada da Guerra dos Farrapos no discurso historiográfico
e na própria história do Rio Grande do
Sul1.
Os aspectos mais relevantes na descrição
e na interpretação da revolução
residem na centralidade do descontentamento de setores
da elite socioeconômica sul-riograndense com a
política centralista imperial. Nesse sentido,
pretendo propor algumas reflexões que possam
contribuir para o debate sobre o papel da revolução
na história do Brasil meridional. A abordagem
principal focaliza os farrapos e a provável influência
da maçonaria no decorrer da guerra. Antecipo
meu posicionamento a propósito da questão:
tal influência não foi fundamental e nem
decisiva. Contudo, frente à complexidade da realidade
social do Rio Grande do Sul no contexto, a maçonaria
esteve presente e, em alguma medida, contribuiu para
os resultados daquele movimento político histórico.
____________________________________________________________
1 A valorização da temática sobre
a Revolução Farroupilha deve muito aos
intelectuais do Instituto Histórico e Geográfico
do Rio Grande do Sul, que, no caso das comemorações
do Centenário Farroupilha, organizaram um importante
congresso de estudos e, posteriormente, publicaram na
forma de anais o debate ali ocorrido. Ver: Anais do
I Congresso de História e Geografia Sul-Rio-Grandense.
IHGRGS. Porto Alegre, 1936.
____________________________________________________________
Considero relevante que não se perca de vista,
ao analisar o quadro histórico do Rio Grande
do Sul nas primeiras décadas do século
XIX, as suas peculiaridades em comparação
ao resto do Brasil. Na conjuntura em que eclodiram os
movimentos de contestação ao colonialismo,
a Província de São Pedro cumpriu, na minha
opinião, um papel coadjuvante. Tal situação
não poderia ser diferente, pois a tardia incorporação
ao território brasileiro e sua localização
de fronteira projetou, em muitos aspectos, uma condição
periférica. Os protagonistas do movimento emancipacionista,
com forte influência das idéias iluministas
e liberais das correntes francesas, residiam ou atuavam
próximos aos centros econômicos e políticos
de maior envergadura. O processo que culminou com a
independência do Brasil teve, evidentemente, a
adesão, mesmo que tardia, também da elite
política e intelectual sul-riograndense. O movimento
maçônico, que crescera juntamente com a
difusão dessas idéias, chegou ao Rio Grande
do Sul três décadas depois que nas regiões
centrais do Brasil.2
A maçonaria, a Revolução
Farroupilha
e as narrativas historiográficas
A historiografia sul-riograndense dedicou pouco
espaço ao estudo sobre a presença da ordem
maçônica na história do Rio Grande
do Sul. Sobre as narrativas historiográficas
vinculadas ao tema, recorri a um trabalho já
realizado anteriormente e específico sobre a
maçonaria no Rio Grande do Sul. No referido trabalho,
utiliza-se uma classificação das narrativas
historiográficas a partir da análise de
dois grupos de autores: a historiografia não-acadêmica
e a historiografia acadêmica. 3
Neste texto, darei ênfase apenas às
questões envolvendo a maçonaria e a Revolução
Farroupilha. A maçonaria freqüentemente
é mencionada por historiadores não-acadêmicos,
que quase sempre abordam a temática valorizando,
de forma exagerada, a participação maçônica
nos acontecimentos relativos à Revolução
Farroupilha. É comum que se explique o espírito
associativo, as academias e sociedades literárias
como tendo sido o berço da maçonaria no
Rio Grande do Sul.4
____________________________________________________________
2 O presente artigo é inspirado em outro
trabalho de minha autoria: COLUSSI, Eliane Lucia. A
maçonaria gaúcha no século XIX.
3. ed. Passo Fundo: Ediupf, 2003.
3 Idem.
4 Esta constatação confirmaria um fenômeno
cultural e político ocorrido em esfera internacional
nos séculos XVIII e XIX. O nascimento, divulgação
e recepção do pensamento “burguês”
ou iluminista e liberal encontrou nessas sociedades
literárias um espaço de sociabilidade
fundamental.
____________________________________________________________
Na década de 1830, a elite intelectual gaúcha
aderiu mais intensamente e quantitativamente ao pensamento
iluminista e liberal, especialmente de origem francesa.
Mesmo que alguns autores acreditem haver indícios
da existência de atividades maçônicas
na província antes da década de 1830,
não há, até o momento, comprovação
documental dessas atividades. Com base nessa constatação,
é possível relacionar Revolução
Farroupilha e movimento maçônico pois eles
são, no mínimo, concomitantes e conectados
no campo das idéias.
Em termos da abordagem encontrada entre historiadores
não-acadêmicos, destaca-se o trabalho de
João Pinto da Silva. Ao tratar do ambiente intelectual
do Rio Grande do Sul às vésperas da Revolução
Farroupilha, o autor explica a difusão das sociedades
e clubes literários e secretos como fundamentais
na vida política e cultural da província.
As dificuldades econômicas enfrentadas pelo Rio
Grande do Sul em razão de sua condição
periférica, e de economia voltada para o mercado
interno, teriam estimulado a resistência às
políticas do poder central. Tal situação
coincidia com um ambiente cultural propício à
difusão de associações de “lojas
misteriosas”. Entre as sociedades secretas, a
de maior destaque, na perspectiva da organização
maçônica, foi o gabinete de leitura “O
Continentino”, instalado na cidade de Porto Alegre.5
Na visão da maioria dos autores desse grupo historiográfico,
o clima de radicalização política
que opunha “caramurus” e “liberais
nativistas” havia sido, em muito, intensificado
pela ação dos maçons gaúchos.
A maior parte dos liberais gaúchos assumira a
opção farroupilha em razão dos
privilégios centralizadores do Império
brasileiro, que desenvolvia uma política econômica
vinculada à provável influência
da instituição no campo cultural, isto
é, na difusão do ideário que mais
tarde seria assumido discursivamente pelos líderes
farroupilhas.6
Um episódio extremamente valorizado por historiadores
desse grupo, e que confirmaria a relação
entre maçonaria e farrapos é o da fuga
de Bento Gonçaves do presídio na Bahia.
Walter Spalding dedicou um capítulo de seu trabalho
à descrição desse episódio
e aos detalhes da articulação maçônica
que teria permitido a libertação do líder
Bento Gonçalves.7 Bento Gonçalves foi
aprisionado em 1836 e enviado, inicialmente, para o
presídio Fortaleza da Lage, no Rio de Janeiro.
Pouco tempo depois, foi transferido para o Forte de
São Marcelo, na Bahia.
____________________________________________________________
5 SILVA, João Pinto da. A Província de
S. Pedro (interpretação da história
do Rio Grande). Porto Alegre: Globo, 1930, p. 121.
6 ANTUNES, Deoclécio Paranhos. Os partidos políticos
no Rio Grande do Sul: gênese e desdobramento histórico
desde a proclamação da independência
à república. In: Anais do I Congresso
de História e Geografia Sul-Rio-Grandense. IHGRGS.
Porto Alegre: Globo, 1936. v. 2. p. 217.
7 SPALDING, Walter. Farrapo. Porto Alegre: Sulina, s/d,
p. 134.
____________________________________________________________
Interessante em relação ao episódio
da fuga do líder farroupilha é a menção
que se fez da existência de uma trama maçônica
com a finalidade de libertar Bento Gonçalves.
Segundo alguns autores, a intervenção
maçônica se efetivou a partir do momento
em que Bento foi identificado como “irmão”.
Com efeito, não se pode deixar de considerar
o fato de que, efetivamente e de forma surpreendente,
Bento Gonçalves retornou ao Rio Grande do Sul
em setembro de 1837. Se tal complô se deveu à
ação de maçons ou de liberais simpáticos
aos farrapos é, ainda, uma questão em
aberto.
Entre os historiadores não-acadêmicos encontram-se,
também,,as obras publicadas por historiadores
maçons. Essas narrativas são as que mais
divulgaram a idéia de que a maçonaria
foi fundamental para a eclosão e para o desenrolar
da Guerra dos Farrapos. Deve-se considerar que, quantitativamente,
o grupo não produziu um grande número
de obras.
Entretanto, deve-se levar em conta que muitos intelectuais
maçons integraram instituições
culturais importantes, como, por exemplo, o Instituto
Histórico e Geográfico do Rio Grande do
Sul e, dessa forma, direta ou indiretamente, produziram
e influenciaram a divulgação de interpretações
que valorizaram a temática maçônica.
Selecionei dois autores que considero fundamentais para
a tentativa de construção de uma história
da maçonaria gaúcha. Nos dois casos, a
inclusão do tema “Revolução
Farroupilha” aparece com destaque.
Morivalde Calvet Fagundes é autor de inúmeros
trabalhos sobre a maçonaria gaúcha. Um
de seus méritos refere-se ao cuidado de comprovar
suas afirmações com evidências documentais.
Freqüentemente, o autor transcreve parte de documentos
por ele localizados, o que sustentaria em muito suas
explicações. Um exemplo é quando
transcreve documentos do período farroupilha
que confirmam a ocorrência de rituais de iniciação
maçônica de Thomas Ferreira Valle, em 1839,
na cidade de São Gabriel, e de David Canabarro,
em 1841, na cidade de Alegrete. Evidentemente que, para
o autor, o fato de vários líderes farrapos
terem sido maçons confirmaria a influência
da instituição naquele contexto.8
____________________________________________________________
8 FAGUNDES, Morivalde Calvet. Revelações
da história da maçonaria gaúcha.
Hoy es historia, Montevidéu, ano 4, n. 20, 1989.
p. 42-43.
9 Trata-se da obra DIENSTBACH, Carlos. A maçonaria
gaúcha: história da maçonaria e
das lojas do Rio Grande do Sul. Londrina: A Trolha,
1993. (4. v.).
____________________________________________________________
O segundo historiador maçom escolhido para
este trabalho foi Carlos Dienstbach, autor que publicou
uma importante obra sobre a maçonaria gaúcha.9
Entre um grande universo de informações,
dados e documentos apresentados pelo autor, destaca-se,
também, a questão da influência
da maçonaria no processo revolucionário.
Entre os documentos que reforçam suas convicções,
ele aponta, em especial, um documento que conferia a
Bento Gonçalves a missão de regularizar
e filiar lojas e maçons nos locais percorridos
pelos revolucionários. Muitas lojas maçônicas
teriam suas raízes nessa modalidade de instalação.10
Quanto ao segundo grupo historiográfico em análise,
e que denominei de acadêmico, aparecem poucas
obras disponíveis que abordem temáticas
relacionadas à participação da
maçonaria na história do Rio Grande do
Sul. Entretanto, destaco dois trabalhos que tratam do
tema deste artigo: o de Spencer Lewis Leitman e o de
Moacyr Flores. O primeiro autor explicou a relação
entre maçonaria e Revolução Farroupilha
com inserções como a que segue: “Na
fronteira, Bento Gonçalves organizou lojas maçônicas
aprendendo rapidamente todos os meandros da organização,
e usando o serviço postal maçônico
como uma alternativa para sua correspondência
secreta. Alguns anos depois, um de seus filhos afirmou
que Sucre, o codinome maçônico de seu pai,
era prova suficiente de sua intenção de
estabelecer uma república antes do dia 20 de
setembro de 1835”.11
Moacyr Flores tratou dessa questão em capítulo
específico de sua obra sobre o modelo político
e as idéias que influenciaram os farrapos.12
O autor discorda que a Revolução Farroupilha
tenha sofrido influência maçônica.
Contudo, debruçou-se sobre algumas questões
episódicas e outras de cunho interno da maçonaria.
No caso dessas abordagens, considero a obra de Flores
exemplar de um modelo historiográfico tipicamente
do seu tempo. O autor procurou argumentar seus pontos
de vista informando conceitos, informações
e explicações de cunho interno da ordem
maçônica.13
____________________________________________________________
10 Idem, p.479.
11 LEITMAN, Spencer Lewis. Razões socioeconômicas
da Guerra dos Farrapos: um capítulo da história
do Brasil no século XIX. Rio de Janeiro: Edições
Graal, 1979. p. 61.
12 FLORES, Moacyr. Modelo político dos farrapos:
as idéias políticas da Revolução
Farroupilha. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982.
13 Idem, p. 40.
____________________________________________________________
Será que a maçonaria foi importante
para a Revolução?
Não há, por certo, como responder
de forma conclusiva a essa questão. As fontes
documentais e bibliográficas disponíveis
não falam o suficiente para que se chegue a uma
conclusão plausível. Levando em conta
esse ponto de vista, suspeito que, no caso de ter que
se chegar a uma resposta, a Revolução
Farroupilha foi mais importante para a maçonaria
do que o contrário. Para pontuar essa perspectiva,
lembro que as primeiras lojas maçônicas
já estavam sendo implantadas em território
brasileiro desde pelo menos o ano de 1800.
Por outro lado, somente três décadas depois
se tem notícia oficial da instalação
de loja no Rio Grande do Sul, a loja Filantropia e Liberdade,
fundada em 25 de dezembro de 1831, na cidade de Porto
Alegre.
A estreita vinculação entre a primeira
loja maçônica e o gabinete de leitura da
“O Continentino”, caracteriza uma das primeiras
formas de atuação da maçonaria
no Rio Grande do Sul. Os integrantes de lojas maçônicas
atuavam discretamente em razão do caráter
sigiloso da própria instituição.
Também buscavam se proteger da perseguição
política ou religiosa que por ventura pudesse
se desenvolver.14
Volto à questão das origens da maçonaria
gaúcha salientando que os liberais gaúchos,
que já haviam aderido à causa emancipacionista
em 1822, ganharam a adesão de setores descontentes
com a política centralista da monarquia recém
instalada no Brasil. Aliado a isso, havia o descaso
para com as necessidades, sobretudo econômicas
e fiscais, das províncias periféricas.
A abdicação do imperador, em 1831, assim
como as primeiras medidas dos governos regenciais, suscitaram
um aumento da frustração por parte da
elite gaúcha em relação ao governo
central, e foram os integrantes dessa vertente política,
muitos deles participantes de sociedades secretas, os
responsáveis pela organização do
movimento revolucionário de 1835. Nesse ponto,
podemos, de alguma forma, ligar maçonaria e Revolução
Farroupilha, pois as oficinas maçônicas
eram, no entanto, um espaço privilegiado de debate
e de aglutinação dos liberais radicalizados.
As primeiras lojas foram, certamente, de iniciativa
de um pequeno número de maçons, familiarizados
com os “segredos” da ordem no centro do
país, ou mesmo no exterior, e que criaram ou
encontraram espaços de atuação
nos clubes ou sociedades de cunho liberal. O exemplo
mais expressivo e já mencionado anteriormente
foi, sem dúvida, “O Continentino”,
cuja ênfase, dada neste trabalho, se deve ao fato
de ser o mais bem documentado; com isso, não
descartamos que outras sociedades ou gabinetes de leitura
tenham sido embriões maçônicos.
____________________________________________________________
14 Sobre esta questão ver o trabalho de MOREL,
Marco. Sociabilidades entre luzes e sombras: apontamentos
para o estudo histórico das maçonarias
da primeira metade do século XIX. Estudos Históricos.
Rio de Janeiro, n. 28, p. 3-22, 2001.
____________________________________________________________
No decurso dos confrontos da revolução
não existiam condições regimentais
mínimas para que as lojas maçônicas
ou prosseguissem com suas atividades ordinárias
e extraordinárias. O clima geral de instabilidade
política e social tornava difícil a regularidade
das cerimônias e a observância sobre a correção
que deveria existir para a realização
dos rituais e dos procedimentos administrativos previstos
nas constituições e regulamentos. Assim,
em condições excepcionais, a ordem maçônica
buscou alternativas de funcionamento para que a sua
incipiente situação não retrocedesse.
Nessa mesma perspectiva, cito duas situações
de lojas maçônicas que se posicionaram
como aliadas das tropas imperiais: a loja União
Geral, situada na cidade de Rio Grande, e que fora fundada
no ano de 1840, portanto, em meio à revolução.
Foi numa cerimônia no templo maçônico
pertencente a essa loja que se deu a iniciação
do Marquês do Herval, Manuel Luis Osório.
Para que se entenda o posicionamento de Osório
é importante lembrar que, na primeira fase revolucionária,
ele compunha as forças farroupilhas. Entretanto,
suas divergências vieram à tona quando
da Proclamação da República Rio-grandense,
em 1838, quando então aderiu às tropas
imperiais15.
Outra situação similar ocorreu em São
Leopoldo, na loja União e Fraternidade. Um dos
maçons de destaque da loja, e que assumiu a posição
política favorável às forças
centralistas imperiais, foi o líder da comunidade
alemã, João Daniel Hillebrand. Entre os
aspectos biográficos que credenciam sua figura
na história regional estão o fato de ter
sido considerado um médico humanitário,
presidente da Câmara dos Vereadores de São
Leopoldo, fundador da Companhia de Voluntários
Alemães e chefe geral da Colônia. Nos dois
casos, fica evidenciado que a ordem maçônica
não ficava imune aos confrontos e disputas políticas
e ideológicas inerentes a cada realidade histórica.
____________________________________________________________
15DIENSTBACH, Carlos. Op. Cit., p. 518-519.
____________________________________________________________
Consideração final
Esses e outros exemplos historiográficos
me fazem acreditar que a Revolução Farroupilha
contribuiu decisivamente para a expansão de um
tipo de pensamento político que aproximou parcela
da elite regional à causa maçônica.
Em sentido contrário, essa mesma revolução
impediu a expansão maior da maçonaria,
pois foi um obstáculo para a consolidação
das estruturas administrativas maçônicas.
A maçonaria encontrava-se em fase de instalação
na província quando eclodiu a revolução.
Dessa maneira, dificilmente teria a força, o
prestígio, o sentimento conspirativo e liberal
necessário para influenciar ou interferir decisivamente
num episódio da proporção da Guerra
dos Farrapos. Que alguns líderes farrapos
tenham sido iniciados na maçonaria no período
anterior à eclosão da mesma, ou no transcorrer
da guerra civil, não restam dúvidas. Contudo,
esse argumento por si só não garantiria
sustentação nas teses de que a maçonaria
foi fundamental na organização ou desenlace
da guerra.
Lembro, ainda, que o debate sobre a questão da
identidade regional deve levar em conta que a sociedade
gaúcha se encontrava dividida política
e ideologicamente. De um lado, lutavam homens identificados
com a causa farroupilha e, de outro, os segmentos que
combatiam com as tropas imperiais. Assim, importante,
nesse contexto, é assinalar a presença
de maçons em ambos os lados do conflito. Reitero
o meu posicionamento assumido no início deste
artigo, qual seja, acreditar que a influência
da maçonaria no desenrolar da Revolução
Farroupilha não foi fundamental e nem decisiva.
Entretanto, a instituição contribuiu,
e isso não é pouco relevante, na difusão
das idéias liberais no seio da elite política
e cultural na Província de São Pedro do
Rio Grande do Sul.
Referências bibliográficas
ANTUNES, Deoclécio Paranhos. Os partidos
políticos no Rio Grande do Sul: gênese
e desdobramento histórico desde a proclamação
da independência à república.
In: Anais do I Congresso de História e Geografia
Sul-Rio-Grandense. IHGRGS. Porto Alegre: Globo, 1936.
v. 2. p. 215-266.
COLUSSI, Eliane Lucia. A maçonaria gaúcha
no século XIX. 3. ed. Passo Fundo: Editora
da UPF, 2003.
DIENSTBACH, Carlos. A maçonaria gaúcha
- história da maçonaria e das lojas do
Rio Grande do Sul. Londrina: A Trolha, 1993. (4.
v.).
FAGUNDES, Morivalde Calvet. Revelações
da história da maçonaria gaúcha.
Hoy es Historia, Montevidéu, ano 4, n. 20, p.
41-50, 1989.
FLORES, Moacyr. Modelo político dos
farrapos: as idéias políticas da Revolução
Farroupilha. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982.
LEITMAN, Spencer Lewis. Razões socioeconômicas
da Guerra dos Farrapos: um capítulo da história
do Brasil no século XIX. Rio de Janeiro:
Edições Graal, 1979.
MOREL, Marco. Sociabilidades entre luzes e sombras:
apontamentos para o estudo histórico das maçonarias
da primeira metade do século XIX. Estudos
Históricos, Rio de Janeiro, n. 28, p. 3-22, 2001.
SILVA, João Pinto da. A Província
de S. Pedro (interpretação da história
do Rio Grande). Porto Alegre: Globo, 1930.
SPALDING, Walter. Farrapo. Porto Alegre:
Sulina, s/d.
Memória, mito e identidade:
farroupilhas e italianos
no Rio Grande do Sul
Núncia Santoro de Constantino
________________________________________________________
Doutora em História Social, docente e pesquisadora
do Programa de Pós-graduação
em História da Pontifícia Universidade
Católica do Rio Grande do Sul
É bem conhecida e faz parte da História
Regional a participação de italianos na
Revolução Farroupilha. Tal participação,
entretanto, está praticamente restrita à
narrativa da presença de Garibaldi, Anzani, Rosseti
e Zambeccari, sendo que, no primeiro, estão condensadas
as maiores atenções, personagem de primeira
grandeza na memória coletiva, verdadeiro mito
e símbolo de uma identidade étnica entre
imigrantes também no Brasil meridional.
Desde 1840, há traços de italianos na
Província. Por volta de 1870, formam comunidade,
pois os membros de uma comunidade têm um projeto
comum, como explica Basbaum.1 Assim, desejam auxiliar-se
mutuamente e preservar traços culturais da origem
comum; por isso fundam associações em
várias cidades rio-grandenses, sendo a primeira
sociedade estabelecida em Bagé, no ano de 1871.
Mas, quem eram esses senhores italianos que fundavam
sociedades para o mútuo socorro e quais os fatores
que impulsionaram sua vinda para o Rio Grande do Sul?
Diz Spencer Leitman que, desde a década de 1830,
os italianos controlavam o sistema de navegação
interna do Rio da Prata e eram membros fixos das tripulações
dos barcos de cabotagem na América do Sul.2
Avé-Lallemant, lembrando o ano de 1858, escreve
que se deslocava de Itaqui para Uruguaiana, sendo comodoro
do barco “(...) um velho marinheiro italiano de
Livorno que, por quase quarenta anos, navegava o Rio
Uruguai, conhecendo suas particularidades.”3
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1 BASBAUM, Leôncio. História e Consciência
Social. São Paulo: Global, 1982. p.145-50.
2 LEITMAN, Spencer. “Revolucionários Italianos
no Império do Brasil”. In: PESAVENTO, Sandra
et al. A Revolução Farroupilha: história
e interpretação. Porto Alegre: Mercado
Aberto, p.100-101.
3 AVÉ-LALLEMANT, Robert. Viagem pela Província
do Rio Grande do Sul: 1858. Belo Horizonte: Itatiaia,
1981. p.292.
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Muitos dos italianos, cuja presença registrava-se
no Brasil meridional, eram lígures, súditos
dos príncipes de Savóia, do Piemonte,
e foram se estabelecendo como comerciantes nos núcleos
urbanos fronteiriços. Escrevendo sobre a invasão
das forças paraguaias a São Borja, o Cônego
Gay, testemunha ocular, registra as violências
sofridas pelo comerciante genovês Francisco Bergallo.4
Costa Franco, desenvolvendo estudo sobre os italianos
da fronteira do Rio Grande, afirma que essa presença
foi registrada bem antes de 18755. Naquele ano, começaram
a ser ocupadas as colônias demarcadas por ordem
do governo, seja imperial, seja provincial. O mesmo
autor registra que as relações comerciais
de fronteira sempre representaram forte atrativo para
os estrangeiros, que encontravam amplas possibilidades
em comunidades enriquecidas com a pecuária ou
com a indústria do charque, mas onde faltavam
praticamente todos os produtos de consumo, em zonas
que demandavam cada vez mais esses produtos porque rapidamente
se urbanizavam.6
O Conde D’Eu dirigia-se a Uruguaiana, para a rendição
dos paraguaios, finda a Guerra da Tríplice Aliança.
Em diário de viagem, narra sua passagem por Santana
do Livramento, em outubro de 1865. Lembra que ali havia
cerca de 2.000 habitantes; só a metade eram brasileiros;
no mais, eram uruguaios, argentinos e europeus. Dentre
os europeus, pareceu-lhe predominarem os italianos que,
em suas lojas, exibiam bustos do Rei Vittorio Emanuelle,
que recém unificara a Itália com seus
exércitos piemonteses. Onde havia um bilhar,
em Santana, o Príncipe leu a tabuleta “Hotel
Garibaldi”, não deixando dúvida
quanto à origem do seu proprietário.7
Também sabemos que foram muitos os militares
ou elementos militarizados italianos que participaram
da Revolução Farroupilha e que acabaram
por fixar-se na Província.
Segundo Spencer Leitman, a participação
na revolução desenvolveu-se a partir da
Congrega Giovane Italia, fundada no Rio de
Janeiro por republicanos italianos, em torno de 1830.
Também Buenos Aires e Montevidéu possuíam
núcleos importantes de italianos, exilados políticos,
soldados e comerciantes.8
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4 GAY. João Pedro. Invasão paraguaia
na fronteira brasileira do Uruguai. Porto Alegre: IEL/
EST; Caxias do Sul: Universidade de Caxias do Sul, 1980.
p. 39.
5 FRANCO, Sérgio da Costa. “Imigração
Italiana na Fronteira Rio-Grandense”. In: Boletim
da Biblioteca Pública do Estado, Porto Alegre,
n.1,v.2, 1975. p.11.
6 Id. Ibid.
7 CONDE D’EU. Viagem Militar ao Rio Grande do
Sul. Belo Horizonte: Itatiaia, São Paulo: Universidade
de São Paulo, 1981. p. 126.
8 LEITMAN, Spencer. Op. Cit. p.100-101.
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Logo, desde o início do século XIX, registrou-se
efetivamente uma presença italiana no sul do
Brasil, tornando-se mais notada na década de
1830, a partir da Revolução Farroupilha.
Além de Garibaldi, Rossetti ou Zambeccari, sabe-se
que foram muitos os italianos envolvidos no movimento
revolucionário. Matru, Cuneo, Carniglia, Valerini,
Staderini, Torrisan, entre outros, deixaram registro
de sua passagem em território rio-grandense.
Muitos permaneceram na Província, como Azzarini
ou Obino, companheiros de Garibaldi.
A fixação destes peninsulares nas cidades
rio-grandenses deveu-se, em grande parte, ao processo
de urbanização que se verificava nessas
cidades e, especialmente, em Porto Alegre.
Na década de 1870, apareceram, na capital, nítidos
sinais de modernização. Introduzidos o
transporte público e a iluminação
pública a gás, fez-se a ligação
com a zona de colonização alemã,
com a construção do primeiro trecho de
estrada de ferro na Província.
Herbert Smith, naturalista norte-americano, deixaria
impressões sobre a cidade, correspondentes ao
ano de 1881. Causaram-lhe admiração as
ruas largas, limpas e bem pavimentadas, o grande número
de estabelecimentos comerciais, que considerou comparáveis
aos de Nova Iorque. Quanto à produção
de manufaturas, acreditou ser mais importante do que
a de qualquer outra cidade brasileira.9
Na década de 1880, outra inovação
foi implantada na capital: a Companhia Telefônica
inaugurou seus serviços, empreendida com capitais
rio-grandenses. Porto Alegre crescera muito, praticamente
duplicara a população entre 1872 e 1900,
aumento que, em grande parte, resultou do ingresso de
estrangeiros que, no período, foram predominantemente
italianos. Havia uma crescente demanda para imigrantes
que desempenhavam atividades tipicamente urbanas, como
artistas, artesãos, artífices, além
de comerciantes.
Sendo assim, é possível afirmar que, em
grande maioria, os italianos que se encontravam nas
cidades gaúchas, e que fundavam associações,
eram comerciantes ou proprietários de pequenas
manufaturas; havia alguns artistas, como músicos,
pintores e escultores; havia muitos fotógrafos
também. Fundaram uma sociedade em Porto Alegre,
em 1877, a Vittorio Emanuelle II, homenageando o rei.
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9 ENCICLOPÉDIA DOS MUNICÍPIOS BRASILEIROS.
Rio de Janeiro, IBGE, 1959. v. XXXIV. p.68.
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Um movimento pela Unidade Italiana iniciara já
na primeira metade do século XIX, de tendência
republicana e liberal. Giuseppe Mazzini, do exílio,
conclamava os italianos e recomendava sucessivas insurreições.
A sociedade clandestina que fundara, Giovine Itália,
expandia-se e possuía representantes na cidade
do Rio de Janeiro.
O jovem Garibaldi esteve entre os propagandistas da
primeira hora; tentou inclusive a malograda insurreição
de Gênova. Derrotados os mazzinianos, Garibaldi
foi condenado à morte aviltante e, foragido em
Marselha, decidiu atravessar o oceano. Seu destino é
o Rio de Janeiro, onde encontrará muitos companheiros
de luta.
O decênio seguinte coincide com a presença
de Cavour junto aos soberanos do Piemonte, tecendo uma
complicada política externa que resultou na proclamação
do Reino da Itália, em 1861.
Revolucionário no Brasil e no Uruguai, Garibaldi
retornara à Itália dois anos antes, em
1859. Roma vive, então, sua breve temporada republicana,
mas Mazzini e Garibaldi são derrotados. Em seguida,
aliado e com a cumplicidade de Cavour, Garibaldi organiza
a chamada “Expedição dos mil”,
cujos soldados voluntários ficaram conhecidos
como os “camisas vermelhas”.
A massa popular esteve ausente do movimento de unificação,
constituído por intelectuais, comerciantes, estudantes
universitários que “(...) foram os primeiros
a unir-se aos voluntários de Garibaldi.”10
Porque Garibaldi, representando a facção
de esquerda, tomava conta da cena. Mas, antes que se
verificasse a anexação de Roma pela direita,
Garibaldi já está retirado em Caprera.
Em setembro de 1877, dessa ilha, escreve uma mensagem
para o Brasil, para o Rio Grande do Sul:
“Miei cari amici,
Grazie per il pregiato titolo di vostro presidente onorario.
Riccordo con gratitudini l’ospitalità ricevuta
tra la generosa popolazione del Rio Grande. Sempre vostro,
G. Garibaldi.”11
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10 SMITH, Mack. Storia d’Italia. Roma-Bari:
Laterza, 2000. p. 17.
11 Cinquentenario della Colonizazione Italiana nello
Stato del Rio Grande del Sul: 1875-1925. Porto Alegre:
Globo; Roma: Ministerto degli Affari Esteri d’Italia,
1925. p.365.
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Agradecia aos membros da diretoria da Sociedade “Vittorio
Emanuele II” que o nomearam Presidente Honorário.
Alguns desses membros eram remanescentes dos batalhões
farroupilhas, outros da Legião Garibaldina no
Uruguai: Viale, Ratto, Raffo, Piccardo, Azzarini, Obino.
Competia a esses homens liderar a construção
de uma italianidade, assumiam a responsabilidade
pela imagem da Nuova Italia no Brasil meridional.
A idéia do “herói dos dois mundos”
foi ganhando força. Se o culto garibaldino prosperou,
se até o republicanismo norte-americano encontrava
um símbolo para imigrantes em Garibaldi, imagine-se
entre uruguaios e brasileiros do sul que puderam contar
com ele ao vivo e a cores.
Sabe-se da importância das agremiações
na construção de uma identidade étnica.
O grupo representado pela sociedade italiana acionava
estratégias.12
As grandes concentrações embandeiradas
fizeram visível o grupo étnico, como acontecia
nas festividades de 20 de setembro, data nacional italiana.
Neste primeiro momento, há predominância
de um nacionalismo militar-patriótico entre os
expoentes da comunidade.
A Vittorio Emanuelle II, como outras sociedades italianas,
reforçou traços culturais através
de símbolos, como o general Garibaldi, cujo nome
já estava glorificado na Itália. Torna-se
a figura predileta nas comunidades de imigrantes, representado
com a farda de general ou com o uniforme dos “camisas
vermelhas”.
É uma primeira representação, e
o ateliê fotográfico de Calegari vende
quadros com a fotografia de Garibaldi pintada a óleo,
multiplicando sua imagem com a camisa vermelha. O quadro
estará na parede da casa dos italianos, como
símbolo de patriótica italianidade, pois,
então, os imigrantes têm finalmente uma
pátria-mãe.
Lançada a pedra fundamental de sua mais antiga
associação, o edifício próprio
da “Vittorio” seria inaugurado em 1904.
Imponente construção neoclássica,
com mármore na fachada e sacadas de ferro. As
três portas de cima guarnecidas por bustos do
rei Vittorio Emanuelle, de Mazzini e de Garibaldi, heróis
do Ressurgimento.
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12 OSPITAL, María Silvia & CONSTANTINO,
Núncia Santoro de. Construção da
Identidade e associações Italianas: La
Plata e Porto Alegre (1880-1920). Porto Alegre: Estudos
Ibero-Americanos, 1999, v. XXV, n.2. p.131-146.
13 CALDRE E FIÃO, José Antonio do Vale.
A Divina Pastora. Porto Alegre: RBS, 1992. p. 42-3.
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uma outra identidade, diante de novas realidades que
surgiam.
Ao tempo da Guerra do Paraguai, precisamente em 1868,
um grupo de intelectuais fundara o “Partenon Literário”.
Iniciou-se a exaltação da temática
gauchesca, houve apologias aos heróis da Revolução
Farroupilha, que, de movimento bárbaro e sedicioso,
“dissensão civil de traidores que dilacerava
a pátria”, como escreveu Caldre e Fião13,
passou a ser narrado, no final do século, como
gesta de heróis. O Partenon veiculava um movimento
romântico e tardio, valorizava o gaúcho
como figura do nativo puro, na trilha de José
de Alencar, que publica o romance “O Gaúcho”,
idealizando o “centauro dos pampas”.14
Enquanto isso, era feita a República e, antes
que eclodisse a Revolução de 1893, surgiram
sérias questões envolvendo súditos
italianos.
O cônsul vai relatando tais questões e
solicita providências a Roma. Comenta a ação
do Correio Católico, que “há muito
tempo costumava publicar artigos desfavoráveis
à Itália e às suas instituições.
Em outubro de 1892, chamou Garibaldi de cão,
afirmando que a Itália estava reduzida a uma
espelunca de ladrões”.15 O cônsul
adverte sobre a violenta tomada de posição
pela “colônia” e sobre a hostilidade
de grande parte dessa “colônia” contra
o Partido Republicano.16
____________________________________________________________
14 OLIVEN, Rubem Jorge. A parte e o todo: a diversidade
cultural no Brasil-Nação. Petrópolis:
Vozes, 1992. p. 51.
15 “Da molto tempo era solito inserire articoli
sfavorevoli all’Italia e alle sue istituizioni.
Nell’ottobre del 1892 diede l’appellativo
di cane a Garibaldi, sostenendo che l’Italia era
ridotta ad una spelonca di ladri”
16 Serie Politica P, Brasile, pacco 279 (1881-1920)
busta 280. Roma: Archivio Storico Ministero degli Affari
Esteri.
17 Tribunal do Juri 1884-85. Arquivo Público
do Rio Grande do Sul.
18 PINTO, Celi Regina. Um projeto político alternativo
(RS: 1889-1930). Porto Alegre: L&PM, 1986. p.36.
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Em setembro de 1895, o “Volksblatt”, publicado
em alemão e dirigido por jesuítas, está
insultando a Itália na sua data nacional, como
“(...) país desprezível, decadente,
torpe, miserável...”. Os italianos são
chamados de “(...) bandidos, homens sem moral,
guiados por instintosvis”. Afinal, a data nacional
festejava a perda de Roma pelo Papa e o clero católico
posicionava-se. Alguns líderes da “colônia”
organizam uma marcha no centro de Porto Alegre, com
centenas de trabalhadores italianos descalços
e esfarrapados gritando “morras” aos jesuítas
e ao Papa; a turba enfurecida empastela a gráfica
que publicava o jornal, na Rua dos Andradas.
Abre-se um processo judicial. Antigas testemunhas oculares
foram mudando os depoimentos registrados na Polícia;
a ação foi considerada improcedente por
falta de provas.17 Os tempos eram outros, e bem outros.
A Revolução Farroupilha terminara e Castilhos
estava no governo. Ideólogo do Partido Republicano,
seguia Comte quando defendia “pequenas pátrias”,
para melhor organizar a sociedade. “(...) provisoriamente
organizadas sob uma federação...”18
Antes da proclamação da República,
já defendia a celebração do dia
20 de setembro, eclosão da Revolução
Farroupilha, como o “Dia do Gaúcho”.
Ao promulgar uma Constituição Estadual,
definiu como insígnias oficiais aquelas “(...)
do pavilhão tricolor da malograda República
Rio-grandense”.19
Italianos e gaúchos festejavam a mesma data por
razões diferentes.
____________________________________________________________
19 OLIVEN, Rubem. Op.Cit. p. 73.
20 DE BONI, Luís A. & COSTA, Rovilio. Os
Italianos do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: EST; Caxias
do Sul: Universidade de Caxias/ Correio Riograndense,
1984. p. 68.
21 OLIVEN, Rubem. Op. Cit,p P.70.
22 CINQUANTENARIO DELLA COLONIZZAZIONE. Op. Cit. p.
407.
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Em 1898, Castilhos foi substituído por Borges
de Medeiros, que, ao tomar posse, deixou claras as suas
intenções de reativar a imigração,
com parecer favorável aos imigrantes italianos.
As antigas colônias do interior passaram a ser
cuidadosamente protegidas e incentivadas pelo governo
estadual. Verificou-se um rápido desenvolvimento
na região colonial. Costa e De Boni escrevem
que Borges de Medeiros foi o responsável pelos
melhores períodos da colonização;
ordenou a abertura de estradas e a construção
de escolas, e favoreceu a ocupação de
terras novas.20
A inspiração regionalista logo se faz
notar nessas colônias. Em 1890, as duas primeiras
são desmembradas de Montenegro, formando o município
de Bento Gonçalves. Em 1900, a outra colônia
mais antiga, Conde D’Eu, é emancipada como
município de Garibaldi.
Fora exaltada a temática gaúcha pelos
literatos do Partenon Literário. E, logo no final
do século XIX, surgiria a primeira agremiação
tradicionalista: o Grêmio Gaúcho de Porto
Alegre, criado em 1898 por Cezimbra Jacques.21
A Revolução Farroupilha assumia o primeiro
plano na narrativa histórica rio-grandense, com
destaque a Garibaldi. No herói dos dois mundos
demonstrava-se a magnitude dos ideais farroupilhas e
a profunda ligação dos italianos com o
Rio Grande.
Em 1883, fora aberto o trecho inicial da Rua Garibaldi.
Em 1907, no dia do centenário de nascimento de
Garibaldi, a antiga Praça da Concórdia,
na Cidade Baixa, recebeu o nome do general. Em 1913,
estava inaugurado, na mesma praça, o monumento
erigido com fundos da campanha liderada por expoentes
do grupo italiano.22 A representação de
Garibaldi já não está sendo feita
com a farda habitual. Garibaldi agora é o revolucionário
farroupilha e já aparece na companhia de Anita,
a mãe corajosa, a mulher guerreira.
Grandes festejos marcaram o cinqüentenário
da colonização no Rio Grande do Sul, em
1925. Um álbum recebeu financiamento do Governo
italiano e foi publicado na Editora Globo, cujo proprietário
era o italiano Bertaso. Nas primeiras páginas,
estampam-se as mensagens de Borges de Medeiros e de
Benito Mussolini; o então ministro do Exterior
do Reino d’Itália desenvolvia uma intensa
ação diplomática, buscando cooptar
imigrantes, que, em larga medida, ascendiam socialmente.
____________________________________________________________
23 FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder.
Rio de Janeiro: Graal, 1993. p. 244-255.
24 GUTFREIND, Ieda. Historiografia rio-grandense. Porto
Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 1992. p.11, 23.
25 OLIVEN, Rubem. Op. Cit. p. 60.
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Organiza o álbum Mansueto Bernardi, autor do
primeiro texto. O título é: “Gli
Italiani e la Republica di Piratiny”. Na verdade,
Mansueto era um intelectual a representar italianos,
pois nascera na Itália, de onde viera com três
meses de idade e crescera em Veranópolis. Foi
um dos fundadores da Revista do Globo; dedicou-se ao
estudo de escritores gaúchos; era membro destacado
do Partido Republicano Riograndense, num tempo de nacionalismo
exacerbado.
Em plena década dos vinte, depois da Semana de
Arte Moderna, havia um certo “espírito
de época”, ou aquilo que Foucault chamou
de “dispositivo”, definido como um conjunto
de estratégias que sustentam diferentes tipos
de saber, e que são por esses sustentadas.23
Nesse dispositivo há uma concepção
de regionalismo tradicionalista como manifestação
modernista.
Lembra Gutfreind que, apesar de ser limitado o ambiente
cultural no Rio Grande do Sul, notou-se no período
uma certa efervescência cultural, sendo que o
mais importante acontecimento foi a refundação
do Instituto Histórico e Geográfico, logo
em 1920, aglutinando importante grupo de intelectuais.24
Em todos os sentidos, as mudanças se aceleravam
desde o final da Primeira Guerra. A Revolução
de 30 é uma forma de expressão desse conjunto
de transformações; explode no sul, mais
precisamente em Porto Alegre, e seu líder é
um gaúcho. O “Rio Grande em pé pelo
Brasil” foi a frase proferida por Getúlio
Vargas, ao final do discurso que inaugurava a revolução.
E continuou sempre salientando a liderança do
Rio Grande na regeneração do Brasil.25
____________________________________________________________
26 GUTFREIND, Ieda. Op. Cit. p.115.
27 Segundo Flores, Garibaldi entra em contato com os
revolucionários em 1836, já deflagrada
a guerra. Anita conheceu-o em 1839, quando da invasão
de Laguna. Os lanchões Seival e Farroupilha foram
construídos sob a fiscalização
do irmão de Bento Gonçalves, o juiz de
paz José. Esses lanchões subiram o Rio
Capivari, de onde foram puxados por juntas de bois até
a barra do Rio Tramandaí, em percurso de cerca
de 50 milhas. O Seival, comandado por Grigs, fez-se
ao largo, mas o Farroupilha, comandado por Mutru, levando
a bordo Garibaldi, sossobrou, morrendo muita gente,
como recorda Garibaldi nas suas memórias autobiográficas.
28 ROSA, Othelo. Vultos da Epopéia Farroupilha.
Porto Alegre: Globo, 1935. LAYTANO, Dante. História
da República Rio-Grandense (1835-1845). Porto
Aegre: Globo, 1936. DOCCA, Emilio de Souza. O Sentido
Brasileiro da Revolução Farroupilha. Porto
Alegre: Globo, 1935. SPALDING, Walter. Os Farrapos.
Porto Alegre: Sulina, s/d.
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Ficava, portanto, reforçada a tendência
regionalista. O lançamento da obra de Alfredo
Varella sobre a Revolução Farroupilha,
em 1933, alimenta essa tendência, mesmo que estivesse
isolada, em matriz que defendia a influência platina
na formação cultural do Rio Grande. Predominava
uma corrente contaminada pelo nacionalismo, representada
por Souza Docca, Othelo Rosa e Aurélio Porto,
ganhando força à medida que se aproximava
o centenário da Revolução Farroupilha,
festejado com grandiosidade em 193526. No antigo Campo
da Redenção, construiu-se o parque que
receberia a exposição internacional e
que passou a se chamar Parque Farroupilha.
As abordagens em torno de Garibaldi e de sua trajetória
no Rio Grande do Sul serão recorrentes, para
exaltar a amplitude dos ideais farroupilhas. Seu esforço
no comando da estropiada esquadra farroupilha é
descrito com entusiasmo pelos membros do Instituto Histórico,
na década de 1930. Othelo Rosa exalta o personagem,
descreve a passagem de Garibaldi pelo Rio Grande como
epopéia; Dante de Laytano, filho de italianos,
enaltece o idealismo garibaldino e destaca a famosa
travessia dos lanchões por terra.27
Até mesmo Souza Docca, mais contido, descreverá
essa travessia dos barcos Seival e Farroupilha, desde
Camaquã até Tramandaí. Ele reconhece
heroísmo em Garibaldi, mas traz alguns elementos
novos, criticando autores como Antonio Pereira Pinto,
Américo Brasiliense ou Vittorio Buccelli, por
excesso laudatório. Em outras palavras, busca
depurar aspectos lendários, na trilha da tradição
positivista. Spalding vai ainda mais além, apontando
razões econômicas que motivaram Garibaldi
a abandonar a revolução: em 1841, sai
da cena farroupilha, depois de acertar as contas com
os chefes revolucionários. Retira-se para o Uruguai,
transpondo a fronteira com grande tropa de gado que
recebeu como pagamento por serviços prestados.28
É inaugurado o monumento a Bento Gonçalves,
em Porto Alegre, durante 1935; surge o obelisco comemorativo
à Revolução Farroupilha, em Garibaldi;
o busto de Garibaldi na mesma cidade fora inaugurado
anteriormente, em 1932, obra de Antonio Caringi.
____________________________________________________________
29 CONSTANTINO, Núncia Santoro de. “Tempo
de Guerra e Narrativa”. In: História: debates
e tendências. Passo Fundo: Universidade de Passo
Fundo, 2004.
30 CERVO, Amado Luiz. “As relações
diplomáticas entre o Brasil e a Itália
desde 1861”. In: DE BONI, Luis A.(Org) A presença
Italiana no Brasil. Porto Alegre; Torino: EST; Fondazione
Giovanni Agnelli, 1990. p.29.
31 OLIVEN, Rubem. Op. Cit. p. 99.
____________________________________________________________
Com variações, a imagem de Garibaldi
permanece no primeiro plano da historiografia rio-grandense.
A declaração de guerra ao Eixo, em fevereiro
de 1942, não altera tal imagem e beneficia o
grupo italiano no Rio Grande do Sul. Sabe-se que os
italianos aqui foram tratados com certa “amabilidade”,
se comparados aos alemães.29
Finda a guerra, as medidas para recompor a amizade estremecida
não tardam. Mesmo antes da assinatura dos tratados,
um decreto libera os bens confiscados aos italianos.
Em outubro de 1946, já se encontrava assinada
a Declaração de Amizade e de Cooperação
entre Brasil e Itália.30 Tanto a guerra foi um
acidente de percurso que, entre 1941 e 1950, a imigração
italiana no Brasil aumentava cinco vezes. E a imagem
de Garibaldi continuava sendo mantida como aquela do
herói de dois mundos, inclusive do nosso.
Nos recentes anos setenta, percebe-se um movimento revisionista
que destaca um Garibaldi corsário. Mas, nos anos
oitenta, festejou-se o sesquicentenário da Revolução
Farroupilha, com importante movimento para reviver tradições
regionais, com o surgimento de centenas de entidades
tradicionalistas, de festivais de música nativista,
com consumo de cantores e discos, livros, bailões;
com a publicidade fazendo referência a valores
gaúchos.31 Tal movimento invade as cidades, onde
os jovens reaprendem a tomar mate e vestem o poncho.
A Revolução Farroupilha está sendo
novamente narrada, desta vez em perspectiva bem mais
crítica, em trabalhos de natureza acadêmica,
acompanhando os programas de pós-graduação
que vêm sendo implantados. Garibaldi é
herói multifacetado, humano, insinuante, conquistador,
a cara do ator Tiago Lacerda no seriado “A casa
das sete mulheres”, veiculado pela Rede Globo
de TV.
Uma das novidades surgidas nos últimos tempos
diz respeito à incorporação de
Anita nas narrativas históricas, como um capítulo
à parte, resultado da ampla discussão
possível a partir dos progressos do feminismo
ou da história de gênero. Anita passa a
ser contada com os olhos do presente, tão diferente
da companheira dos anos trinta, cheia de lacunas reveladoras
do preconceito.
Hoje há movimento que reforça a italianidade.
Milhares de oriundi buscam o passaporte italiano.
O Brasil transforma-se em país de emigração.
São estes emigrantes que dançam a chimarrita
na piazza, que até vendem churrasco na Itália.
Como fizeram seus avós, reconstroem uma identidade
no país de imigração. Garibaldi
está sendo “repaginado” para dizer
novamente que lutou pela democracia com os brasileiros
meridionais. Que vestiu poncho e que reconheceu nos
gaúchos homens valentes e hospitaleiros.
Como últimas palavras, lembro que somente personagens
de grande porte servem a diferentes propósitos
sociais, em diferentes tempos. Garibaldi é forte
e viveu intensamente; por isso continua como referência
e resistirá ao esquecimento.
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do Rio Grande do Sul: 1858. Belo Horizonte: Itatiaia,
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OLIVEN, Rubem Jorge. A parte e o todo: a diversidade
cultural no Brasil
Os italianos no Rio Grande do Sul:
130 anos de história
Luiza Horn Iotti
_____________________________________________________
Doutora em História do Brasil, professora
do Departamento
de História e Geografia da Universidade de Caxias
do Sul
O fenômeno migratório que, no final
do século XIX e início do século
XX, movimentou milhares de europeus em direção
à América, vinculou-se às mudanças
estruturais que ocorriam “no mundo ocidental,
em decorrência da expansão do capitalismo,
e às novas formas de produção que
então serão adotadas.”1 A imigração
italiana, ocorrida no Rio Grande do Sul, a partir de
1875, inseriu-se nesse contexto. Foi um movimento populacional
que se encadeou a interesses, tanto do governo brasileiro
quanto do italiano.
No caso do Brasil, a vinda de imigrantes italianos relacionou-se
ao processo de substituição da mão-de-obra
escrava e à política de imigração
e colonização do governo brasileiro. Núncia
Santoro de Constantino ressalta que,
“A inserção da economia brasileira
no mercado internacional viria proporcionar, entre outras
coisas, a maciça imigração durante
o século XIX. Tornou-se necessário um
suprimento de mão-de-obra diversificada para
alimentar o crescimento verificado no setor comercial
e financeiro, tanto sob o aspecto quantitativo, como
sob o aspecto da qualificação. Foi preciso
prover os espaços vazios que surgiram em decorrência
do rápido processo de urbanização,
prover a mão-de-obra para a crescente lavoura
do café que se ressentia da escassez do elemento
escravo. Era necessário, ainda, povoar e colonizar
diversas áreas improdutivas, especialmente na
região sul do país onde se encontrava
o principal eixo econômico [...]”.2
____________________________________________________________
1 GIRON, Loraine. A imigração italiana
no Rio Grande do Sul: fatores determinantes. IN: LANDO,
Aldair M. et al. RS: imigração & colonização.
Porto Alegre: Mercado Aberto, 1980, p. 47.
2 CONSTANTINO, Núncia Santoro de. O italiano
da esquina: imigrantes na sociedade porto-alegrense.
Porto Alegre: EST, 1991, p. 53.
____________________________________________________________
No caso da Itália, a emigração
vinculou-se, inicialmente, ao descarte do excedente
populacional, expulso do processo produtivo, em função
do desenvolvimento de relações capitalistas
de produção, efetivado pelo recém
instaurado Estado unitário. No século
XIX, a unificação italiana e a incorporação
da península ao sistema capitalista não
incluíram as camadas populares. Os camponeses
foram expulsos da terra. O pequeno artesanato foi parcialmente
destruído. A indústria mostrou-se incapaz
de absorver a mão-de-obra disponível.
Assim, uma parcela significativa da população
italiana foi buscar, em outros países, as condições
de vida que sua pátria lhe negava. No total,
24 milhões de peninsulares partiram da Itália,
entre 1869 e 1962, para diferentes regiões do
mundo.
O governo dos dois países, como forma de garantir
o sucesso do empreendimento e o atendimento dos seus
interesses, procurou acompanhar e controlar as atividades
dos imigrantes aqui estabelecidos.
O acompanhamento do governo italiano realizou-se através
dos representantes diplomáticos, adidos do Ministério
dos Negócios Exteriores da Itália. Diplomatas,
embaixadores, cônsules e agentes consulares constituíram
os nexos, a mediação entre o governo italiano
e os emigrantes estabelecidos no exterior. Foram responsáveis,
entre outras coisas, pela execução da
política emigratória traçada pelo
Estado italiano. Por política emigratória
entende-se “o conjunto de normas e de atos, e
os princípios que os inspiram, através
dos quais o Estado interfere no processo de transferência
de pessoas em busca de trabalho no exterior”.3
O acompanhamento do governo brasileiro efetivou-se,
sobretudo, a partir da promulgação da
Lei de Terras, de 18 de setembro de 1850, que garantiu
ao Estado o controle do “processo da legalização
e legitimação da terra, bem como o da
aplicação de recursos na introdução
de imigrantes”4. Até a República,
em 1889, o Império monopolizou a direção
do processo colonizador. E, apesar de subsidiar empreendimentos
particulares, não abria mão do controle
geral do mesmo. Importante ressaltar que a política
imigratória brasileira, na maior parte das vezes,
oscilou entre a colonização e a importação
de braços para a lavoura, sendo enfatizada ora
uma, ora outra, conforme o grupo social que estivesse
no poder.
____________________________________________________________
4 IANNI, Constantino. Homens sem paz. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1972, p. 194.
5 GIRON, Loraine; BERGAMASCHI, Heloísa. Colônia:
um conceito controverso. Caxias do Sul: EDUCS, 1996,
p. 26.
____________________________________________________________
A imigração italiana para o Rio Grande
do Sul foi iniciativa do governo imperial brasileiro.
O movimento tinha como objetivo “importar mão-de-obra”
européia e vender as terras devolutas do Império,
visando aumentar tanto a população como
a produção agrícola. A passagem
da Europa ao Rio Grande do Sul era financiada pelas
autoridades brasileiras. Os lotes e os eventuais subsídios
governamentais – ferramentas, sementes, alimentos
etc. – deveriam ser pagos no prazo de cinco a
dez anos.
Inicialmente considerada pouco expressiva, a imigração
italiana se intensificou a partir de 1882, conforme
pode ser observado no quadro a seguir.
Imigrantes italianos entrados no RS entre 1882
e 18895
Ano |
Total imigrantes |
Italianos |
% Italianos |
| 1982 |
3.549 |
3.205 |
90,30 |
| 1983 |
4.402 |
3.735 |
84,89 |
| 1984 |
1.985 |
1.345 |
67,75 |
| 1985 |
8.286 |
7.600 |
91,72 |
| 1986 |
3.354 |
2.352 |
70,12 |
| 1987 |
5.326 |
4.362 |
81,90 |
| 1988 |
4.927 |
4.241 |
86,07 |
| 1989 |
9.787 |
7.578 |
77,43 |
| Total |
41.616 |
34.418 |
82,70 |
|
Fonte: CENNI, Franco. Italianos no Brasil. 3.ed.
São Paulo: Editora da Universidade de São
Paulo, 2003, p. 174.
A partir dos dados apresentados, pode-se constatar
que, de 1875 a 1889, o Rio Grande do Sul recebeu, aproximadamente,
40 mil imigrantes, provenientes sobretudo da Lombardia,
do Vêneto e do Tirol, atraídos ao Novo
Mundo pelo sonho da terra. Conde D’Eu (Garibaldi),
Dona Isabel (Bento Gonçalves) e Caxias foram
as três primeiras colônias italianas no
Rio Grande do Sul. Em 1877, foi organizada uma quarta
colônia, Silveira Martins, em terras próximas
a Santa Maria, na região central do Estado.
A maioria dos imigrantes chegados ao sul do Brasil partiu
do porto de Gênova. A travessia, que durava pouco
mais de um mês, era feita em navios sobrecarregados.
As doenças eram freqüentes e a mortalidade
elevada6. Do Rio de Janeiro, após a
quarentena na Casa dos Imigrantes, os viajantes eram
transportados em vapores para Porto Alegre, numa viagem
de dez ou mais dias. Ao chegarem à capital, eram
alojados em um prédio precário ou dormiam
nas ruas e praças próximas7. A seguir,
os que se dirigiam a Dona Isabel, Conde D’Eu e
Caxias, partiam da capital em pequenas embarcações,
que navegavam pelo Caí por sete e mais horas.
Os destinados a Silveira Martins faziam boa parte da
viagem de trem8. No final da viagem, os recém-chegados
eram alojados no barracão dos imigrantes, ou
enviados aos lotes coloniais, se já demarcados9.
As medidas básicas das colônias eram a
légua, o travessão e o lote rural10. A
légua era um quadrilátero de 5.500 metros
de lado, cortado no sentido longitudinal por caminhos
estreitos e irregulares de uns 6 a 13 km, abertos no
meio da mata – os travessões11 ou linhas.
A medição e a demarcação
das colônias e dos lotes coloniais eram feitas
por engenheiros agrimensores. O regulamento da Lei de
Terras, de 1854, ordenara a demarcação
dos lotes coloniais. Em geral, as léguas possuíam
132 lotes12, irregulares quanto ao tamanho, de 5 a 60
ha., à fertilidade, ao acesso aos mercados e
à água.
Todas as colônias possuíam demarcadas suas
sedes coloniais, onde se localizavam a administração
e os serviços e artesanatos necessários
à economia rural. Eram erguidas no centro da
colônia, se possível em um terreno plano
e elevado13. Para tal, abria-se uma clareira na mata,
quando necessário. Em Caxias, aproveitou-se uma
clareira aberta pela população indígena
da região. A área das sedes era dividida,
em xadrez, por avenidas e travessas perpendiculares.
Os quarteirões, de 100 metros, eram ocupados
pelas praças e logradouros públicos ou
divididos em lotes urbanos (20 x 50 ou 40 x 60 metros).
Deve-se ao mesmo padrão de fundação
dos diversos núcleos coloniais a semelhante paisagem
urbana das cidades da região.
____________________________________________________________
5 Segundo Cenni (2003, p. 175), “faltam elementos
correspondentes aos sete primeiros anos, de 1875 a 1881,
que fonte alguma registra”.
6 MANFROI, Olívio. A colonização
italiana no Rio Grande do Sul: implicações
econômicas, políticas e culturais. Porto
Alegre: Grafosul, Instituto Estadual do Livro, 1975,
p. 101- 106; DE BONI, Luis A.; COSTA, Rovílio.
Os italianos no Rio Grande do Sul. 3. ed. Caxias do
Sul: UCS/EST, 1984, p. 96-98; DE BONI; COSTA. Far la
Mérica. Porto Alegre: Riocell, 1991, p. 92-100.
7 MANFROI, op. cit., p. 108-110.
8 DE BONI; COSTA, op. cit., p. 102-105.
9 Ibid., p. 105.
10 Ibid., p. 53.
11 “Um travessão podia ter somente 36 lotes
(dezoito de cada lado da estrada) como no Vitor Emanuel,
da 7ª Légua [da colônia Caxias], ou
114 lotes como no seu vizinho Thompson Flores, da 9ª
Légua: neste as terras eram consideradas melhores
e, por isto, fracionadas em unidades menores, isto é,
do mesmo cumprimento porém mais estreitas e,
pois, de menor superfície. E é por essa
razão que num mesmo núcleo colonial os
lotes variavam de tamanho ou superfície [...]”.
(AZEVEDO, Thales de. Italianos e gaúchos: os
anos pioneiros da colonização italiana
no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: A Nação/Instituto
Estadual do Livro,
1975, p. 169)
12 Ibid., p. 62.
13 MANFROI, op. cit., p. 114.
____________________________________________________________
Os imigrantes, ao chegarem ao seu lote, dedicavam-se
à abertura de clareiras nas matas e construíam
abrigos provisórios de pau-a-pique, cobertos
de galhos. Era um momento difícil. O pinhão,
a caça e a coleta ajudaram os colonos nos primeiros
tempos. Algumas vezes, a venda da madeira e, eventualmente,
o trabalho assalariado, durante quinze dias por mês,
na abertura de estradas e caminhos, financiaram os colonos
até a primeira colheita. O imigrante Paulo Rossato,
de 27 anos, recém-chegado à sua colônia,
escreveu, aos seus familiares italianos, em 24 de abril
de 1884, uma carta descrevendo os primeiros trabalhos
na sua colônia:
“Inicialmente toma-se uma foice de cabo comprido
e cortam-se os caniços e as plantas pequenas.
[...] Depois, cortam-se todas as árvores maiores.
E, depois de cortadas, deixam-nas lá por um mês,
após o qual é posto fogo. Queimam-se as
folhas, os caniços e os ramos mais finos. As
toras menores e os galhos são então colocados
em montes e queimados. [...] Depois, semeia-se o trigo
entre as toras, cobrindo-o com a enxada [...]”.14
O imigrante construía uma casa provisória
para abrigar sua família nos primeiros tempos.
Posteriormente, uma maior de pedra, madeira ou alvenaria.
As coberturas eram de tabuinhas de pinheiro –
scàndole –, inicialmente e, a
seguir, de telhas ou de zinco. Às vezes, decoravam-nas
com lambrequins – ornato de recortes
de madeira para beira de telhados. Para diminuir o isolamento,
a residência era erguida junto à linha,
à beira do caminho. Paulo Rossato, sete meses
depois de chegar ao Brasil, já em sua colônia,
iniciou o desmatamento de parte de suas terras e a construção
de residência, escrevendo sobre ela, aos seus
pais, afirmava:
“[...] agora estou eu mesmo fazendo uma casa,
e espero mudar-me para ela a 20 de agosto. Construo
em minha colônia, na qual atualmente estou fazendo
a derrubada do mato para semear bastante milho. [...]
Haverei de construir a casa com quatro metros de largura
por cinco de comprimento, pois não posso mais
do que isso [...] e depois construiremos outra maior”.15
Ibid., p. 58.
____________________________________________________________
14 DE BONI, 1977, op. cit., p. 35.
15 Ibid., p. 58.
____________________________________________________________
O lote era a unidade de base da economia familiar colonial.
Praticava-se uma divisão etária, sexual
e familiar das tarefas. Os homens responsabilizavam-se
pelos trabalhos ligados à agricultura e ao trato
dos animais de maior porte. As mulheres, das tarefas
caseiras e do cuidado da pequena criação.
Entretanto, elas intervinham, ativamente, ao lado dos
homens, nos trabalhos agrícolas. Segundo suas
forças, as crianças trabalhavam desde
os oito anos. Havia igualmente tarefas artesanais masculinas
e femininas.
A área dos lotes coloniais era ocupada pelo potreiro;
pelo parreiral – localizado nas encostas, próximo
à residência –; e pelas terras agricultáveis.
Alternava-se o plantio do milho com culturas de inverno,
como centeio, cevada, trigo. Plantava-se arroz, batata,
feijão, aveia. Criavam-se galinhas e porcos.
Uma pequena produção de vinho, cachaça,
graspa, banha, toucinho, salame, presunto, manteiga
e queijo abasteciam a família e os centros urbanos
próximos.
Árvores frutíferas eram plantadas em todo
o lote: pereiras, laranjeiras, bergamoteiras, caquizeiros,
marmeleiros, figueiras. Os frutos eram consumidos “in
natura” ou transformados em geléias e compotas.
Parte dessa produção podia ser escoada
para o mercado local. Os instrumentos básicos
de trabalho eram o arado e a enxada. Uma carroça,
uma junta de bois, uma mula ou cavalo, uma slita
– meio de transporte, sem rodas, semelhante a
um trenó –, uma vaca leiteira eram igualmente
imprescindíveis à economia colonial. Mudas
trazidas da Itália ou obtidas em São Sebastião
do Caí permitiram que parreirais fossem plantados
ali, onde era possível. Muito logo, os imigrantes
contaram com um vinho de discutível qualidade
para consumo próprio. As pipas eram armazenadas
nos porões e mantinham-se cheias apenas durante
os primeiros meses do ano, devido ao desconhecimento
das técnicas de conservação. A
seguir, cresceu a qualidade dos varietais e dos vinhos,
devido a uma crescente e rendosa produção
para o comércio16.
____________________________________________________________
16 PELLANDA, op. cit., p. 53-54; RAMBO, Balduino.
A zona de colonização italiana - estudo
geográfico. IN: Álbum comemorativo do
75 aniversário da colonização italiana
no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Globo, 1950, p.
143- 144.
17 Encontro social entre vizinhos, que se realizava
à noite, depois da reza do terço, onde
se contavam histórias, conversava, trabalhava
e cantava.
____________________________________________________________
O isolamento era rompido quando se reuniam para rezar.
Rezavam o rosário sob uma árvore ou na
casa de algum morador, por ocasião de uma festa
ou de um enterro ou, ainda, na cozinha quando se encontravam
para o filó17. Em todas as linhas, os moradores
reuniram-se em mutirões e construíram
capelas de madeira, pedra ou alvenaria, que decoravam
primorosamente: altares e imagens em madeira, janelas
com vidros coloridos, alfaias de metal e até
um sino de bronze no campanário. O fantasma da
solidão no meio da mata foi se distanciando.
De uma maneira geral, o imigrante italiano era católico
e religioso. As igrejas, escolas, seminários,
capelas e jornais clericais foram as principais instituições
culturais e políticas, sobretudo no mundo rural.
A capela congregava. Cada uma delas era consagrada a
um santo padroeiro. Uma vez por ano, os moradores da
região reuniam-se para homenageá-lo. Eram
as sagras. São Roque, São Valentim, São
Pedro, São Marcos, Santa Justina, Santa Corona
e tantos outros. Os colonos organizavam-se em comunidades
em torno das capelas e elegiam diretorias, os “fabriqueiros”,
que coordenavam as atividades religiosas e sociais das
linhas.
Na fase inicial, o isolamento das colônias fez
com que se produzisse quase tudo o que era necessário
para o consumo local. O comerciante vendia o que o colono
não produzia - sal, ferramentas, tecidos, etc.
- e comprava o excedente colonial, distribuindo-o em
mercados próximos e distantes. Em cada travessão,
em cada núcleo colonial surgiram ferreiros, seleiros,
funileiros, pedreiros, oleiros, sapateiros, alfaiates,
marceneiros. Serrarias e moinhos foram levantados para
beneficiarem grãos e madeiras. Mascates percorriam
as linhas, levando mercadorias e novidades; tropeiros
e carreteiros, com suas mulas bruaqueiras e carretas,
levavam e traziam produtos entre os centros consumidores
e os portos fluviais, personagens conhecidos neste mundo
medido em estações, em safras. O contato
com os gaúchos possibilitou trocas de mercadorias,
de conhecimentos e de costumes.
A casa de comércio da linha, o baratilho ou venda,
articulava-se com o comércio de maior porte dos
centros urbanos regionais e estes “exportavam”
para centros urbanos maiores. Os agricultores entregavam
suas reservas monetárias aos comerciantes das
linhas, em troca de juros baixos. As grandes casas comerciais
realizaram o que os colonos não conseguiram,
isto é, acumular capitais.
A vitivinicultura transformou-se: o vinho produzido
artesanalmente, na cantina caseira, passou a ser fabricado
por estabelecimentos vinícolas, que foram montando
verdadeiro complexo de atividades, desde parreirais
até tanoarias, vidrarias, empalhamento de garrafões.
Os pais dotavam os filhos com terras e as filhas com
o enxoval, que consistia em uma máquina de costura,
uma arca com roupas, uma vaca ou uma mula. O costume
do minorato18, aliado ao constante fluxo de entrada
de imigrantes, esgotou rapidamente os lotes disponíveis.
Logo, a economia colonial atravessou o rio das Antas
em direção ao norte do Estado surgindo
novos núcleos, entre eles, Antônio Prado,
Alfredo Chaves, Guaporé, Encantado.
A migração foi intensa nas primeiras décadas
do século passado. Inicialmente, dentro do próprio
Rio Grande do Sul e, posteriormente, para o oeste de
Santa Catarina e norte do Paraná. Os netos e
bisnetos dos que fizeram a longa viagem não pararam
por aí, alguns chegaram até a Amazônia.
As vilas transformaram-se em cidades, em municípios;
o telégrafo, o telefone e as estradas de ferro
ligaram-nas ao século XX. Os caminhos percorridos
por carretas e mulas foram melhorados e neles puderam
transitar caminhões e automóveis, levando
e trazendo mercadorias. Balsas, pontes e túneis
superaram as barreiras impostas pela natureza.
Os lampiões foram substituídos pelas lâmpadas
elétricas e as vozes do rádio ecoaram
livremente. O ruído dos motores e a fumaça
lançada ao ar pelas chaminés das fábricas
anunciavam novos tempos.
Em julho de 1910, a ligação de trem entre
Caxias e Porto Alegre ensejou as melhores condições
para o desenvolvimento econômico da região,
pondo fim ao problema dos transportes, que estrangulava
o comércio e a produção colonial.
A acumulação comercial de riquezas produzidas
pela economia agrícola e artesanal financiou
a industrialização da região.
A Iª Guerra Mundial (1914-18) propiciou o nascimento
de empresas de maior porte, devido à interrupção
da importação de peças e ferramentas
para a produção local. Na década
de 20, a Região Colonial encontrava-se integrada
à economia nacional e internacional.
Os primeiros imigrantes italianos chegaram há
pouco mais de cem anos. Cultivaram campos, criaram gado,
construíram fábricas, multiplicaram-se.
Seus descendentes estão presentes em todos os
municípios do Rio Grande do Sul, junto com os
alemães, os poloneses, os portugueses, os índios,
os negros, os espanhóis, os judeus e as outras
etnias que constituíram o povo gaúcho.
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18 Costume consuetudinário, através do
qual o filho homem mais moço herda a propriedade,
em troca do cuidado dos pais.
Garibaldi e a Revolução
Farroupilha
Alvaro Bischoff e Cíntia Vieira Souto
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Historiadores do Memorial do Ministério Público
do Estado do Rio Grande do Sul
A Revolução Farroupilha insere-se no contexto
das revoluções liberais ocorridas no Brasil
no período regencial — iniciado com o fim
do primeiro reinado, em 7 de abril de 1831, até
a “maioridade” de D. Pedro II, em 1840.
Considerado por muitos contemporâneos como marco
efetivo da independência nacional, o 7 de abril,
episódio da abdicação do autocrata
Pedro I, teve origens1 na Revolução Francesa
de 1830, que depôs Carlos X, um Bourbon, iniciando
a monarquia “burguesa” de Luís Felipe:
“A Revolução de 1830 na França,
tendo produzido um efeito de choque elétrico
no país, inspirou, como uma solução
de transação que foi, uma reformulação
dos planos dos revolucionários brasileiros que
tornasse possível, sob a bandeira nativista,
uma composição com os amplos setores,
que iam do monarquista liberal ao constitucionalista
conservador”2.
Na França, a revolução teve como
objetivo consolidar o poder burguês ao mesmo tempo
em que continha os radicalismos populares, daí
o seu caráter de “transação”;
no Brasil, a deposição de Pedro I estava
envolta em questões que diziam respeito à
consolidação da independência e
à formação do Estado nacional.
Abria-se, dessa forma, um período comumente conhecido
como o “avanço liberal” — medidas
que aumentaram, por um lapso de tempo, a autonomia local
das províncias. Faziam parte desse período
o Código de Processo Criminal — que será
importante, posteriormente, na atuação
dos juízes de paz na Revolução
Farroupilha —, a criação da Guarda-Nacional
e o Ato Adicional de 1834.
O Código de Processo Criminal, publicado em 29
de novembro de 1832, foi um dos mais importantes instrumentos
da descentralização:
____________________________________________________________
1 Trata-se de influências no plano das idéias.
Para uma análise das estruturas econômicas,
que fogem ao escopo deste trabalho, leia-se, por exemplo,
NOVAIS, Fernando A. Portugal e Brasil na crise do antigo
sistema colonial : 1777-1808. 4. ed. São Paulo:
Hucitec, 1986.
2 HOLANDA, Sérgio Buarque. História Geral
da Civilização Brasileira: Dispersão
e Unidade. Tomo II, 2º vol. 5º ed., p.9.
____________________________________________________________
“Tornava a autoridade judiciária
independente do poder administrativo, submetendo-a à
eleição. Estendia a jurisdição
criminal à competência dos juízes
de paz, também eleitos. O promotor, o juiz municipal
e o juiz de órfãos – que até
então tinham sido nomeados pelo governo central
– passaram a ser escolhidos a partir de uma lista
tríplice proposta pela Câmara Municipal”.3
A criação da Guarda-Nacional, ato contínuo
ao 7 de abril, tinha inspiração claramente
francesa. A lei da Guarda-Nacional francesa foi promulgada
em 22 de março de 1831, e “já a
9 de maio do mesmo ano o projeto oferecido ao legislativo
[brasileiro], será em linhas gerais o aprovado
em agosto”. 4
Conforme Castro:
“A Guarda-Nacional, como corporação
paramilitar, atuou como reforço do poder civil,
tornando-se o sustentáculo do governo instaurado
com o 7 de abril, e é a Aurora Fluminense, como
jornal de situação que proclama: a Guarda-Nacional
é inteiramente filha da Revolução
de 7 de abril”.5
Por fim, o Ato Adicional — mudanças constitucionais
aprovadas pela Lei de 12 de outubro de 1832, mas somente
levadas a efeito pela legislatura de 1834-1837 —
trazia como principais alterações a supressão
do Conselho de Estado e a criação das
Assembléias Legislativas Provinciais, com poderes
legislativos.
Conforme registrou o presidente deposto pelos revolucionários
farroupilhas na província do Rio Grande do Sul,
Fernandes Braga, “pode-se dizer, sem medo de errar,
que Bento Gonçalves fez a revolta com os juízes
de paz, o código do processo e a lei da guarda-nacional6”.
Aos três elementos mencionados, acrescentaríamos
a criação das Assembléias Provinciais.
____________________________________________________________
3 COSTA, Emília Viotti da. Da Monarquia a
República: Momentos Decisivos. 7ª ed. São
Paulo: Fundação Editora da Unesp, 1998,
p.153.
4 HOLANDA, Sérgio Buarque de Holanda. In: CASTRO,
Jeanne Berrance de. A Milícia Cidadã:
A Guarda-Nacional de 1831 a 1850. São Paulo:
Ed. Nacional, 1979, p.XIX.
5 CASTRO, Op. cit., p. 18.
6 Citado por WIEDERSPAHN, Henrique Oscar. O General
Farroupilha João Manuel de Lima e Silva (1835-1837).
Porto Alegre: Escola Superior de Teologia São
Lourenço de Brindes, 1984.
____________________________________________________________
Reforçando a tese, Bento Gonçalves,
bem como diversas lideranças farroupilhas, era
deputado na Assembléia Provincial e, ainda, comandante-geral
da Guarda-Nacional no Rio Grande do Sul; a deposição
do presidente Fernandes Braga e a denegação
de posse de seu substituto José de Araújo
Ribeiro foram levadas a efeito pela Assembléia
Legislativa com o concurso dos juízes de paz:
“(...)Veio à Mesa um ofício
do Juiz Municipal e Chefe de Polícia interino
desta cidade, participando que, em todos os distritos
da mesma, se estavam reunindo os seus moradores, pedindo
aos juízes de paz respectivos que se suste a
posse do bacharel José de Araújo Ribeiro,
nomeado Presidente da Província, até que
o Governo Central aprove a Resolução de
20 de setembro e confirme as medidas tomadas depois
dela”.7
Iniciada em 20 de setembro de 1835, os revolucionários
farroupilhas consideravam sua revolução
como continuidade do 7 de abril. Em proclamação
datada de 25 de setembro de 1835, apregoava Bento Gonçalves:
“ (...) correstes enfim às armas para
sustentar em sua pureza os princípios políticos
que nos conduziram ao sempre memorável sete de
abril, dia glorioso da nossa regeneração
e total independência8.
Com a entrada das tropas farroupilhas em Porto Alegre
e a fuga do então presidente da província
Fernandes Braga para a cidade de Rio Grande, em 20 de
setembro de 1835, a revolta se estenderia, com interregnos
militares, até fevereiro de 1845.
Dessa forma, não deixa de parecer irônico
o fato de a descentralização promovida
pelas reformas liberais terem instrumentalizado as revoltas
regenciais, em especial a Revolução Farroupilha,
cujo argumento fundamental sempre foi a excessiva centralização
do governo central!
O elemento impulsionador das reformas ocorridas no Brasil
a partir do 7 de abril foi, como já referido,
a Revolução de Julho de 1830 na França.
A mesma revolução que seria o elo que
ligou o destino de Giuseppe Garibaldi à América
do Sul e, em especial, ao Rio Grande do Sul:
____________________________________________________________
7 Ata da Assembléia Provincial de 09/12/1835.
8 Coletânea de documentos de Bento Gonçalves
da Silva 1835-1845. Arquivo Histórico do Rio
Grande do Sul, Porto Alegre: Comissão Executiva
do Sesquicentenário da Revolução
Farroupilha, 1985, p. 268.
____________________________________________________________
“(...) a revolução
parisiense de julho, que conduz ao trono Luís
Felipe, a revolução belga de agosto e
a da Polônia em novembro reanimam o tradicional
centro revolucionário de Paris, que volta a ser
a capital de todos os exilados”9.
De fato, a queda de Carlos X em julho de 1830 —
era o representante da restauração de
1815 — provocou uma onda revolucionária
na Europa, atingindo a Itália em fevereiro de
183110. Foi também a revolução
na França que inspirou os seguidores de Mazzinni
e da “Jovem Itália”, com promessas
não cumpridas de Luís Felipe, na sua primeira
tentativa de libertar a Itália do domínio
austríaco. É o próprio Garibaldi,
em suas “Memórias”, que atesta:
“Minha ventura foi ainda maior naquele instante
em que ouvi pronunciada a palavra pátria, em
que vislumbrei no horizonte um primeiro faro aceso pela
Revolução Francesa de 1830.
Existiam, então, homens que dedicavam-se à
redenção da Itália!”11 (grifos
nossos)
Após a revolução, a ordem. O esperado
apoio do governo francês não ocorreu. Para
evitar uma radicalização, a França
apoiou a Áustria: “No exterior a França
deseja a paz: a sua lealdade repulsa injustas desconfianças:
ela não é agressiva, mas não consentirá
ser atacada em seus direitos”12.
Diversas sociedades secretas foram fundadas por ex-revolucionários
franceses em apoio às “revoluções
irmãs”, logradas pela atitude reacionária
de Luís Felipe. Tais sociedades recebiam exilados
políticos de outros países, em especial,
os carbonários italianos, entre eles Garibaldi13.
O dilema enfrentado pela regência no período
pós-revolução no Brasil era o dilema
francês, vejamos:
____________________________________________________________
9 GALLO, Max. Garibaldi – A Força do
Destino. São Paulo: Scritta, 1996, p. 52
10 BERGERON, Louis, et al. História Universal
Siglo XIX – La época de las revoluciones
europeas 1780-1848. V.26 Século XIX. Madri: Espanha
Editores, 1976, p. 253.
11 DUMAS, Alexandre. Memórias de Garibaldi. Porto
Alegre: L&PM, 2002, p. 33.
12 O Observador, Rio Grande, 24/04/1833, nº93.
Transcrição de matéria publicada
no Jornal Aurora Fluminense do Rio de Janeiro sobre
a situação política na França
no ano de 1833.
13 GOUBERT, Pierre. História Concisa da França.
V.2. Portugal: Publicações Europa-América,
1996, p. 63.
____________________________________________________________
“A França está
fatigada de conspirações: ela tem em horror
o despotismo e a anarquia; quer os verdadeiros princípios
da revolução de Julho que apartam ao mesmo
tempo as tradições de uma república,
e as doutrinas de uma restauração, que
repele com igual energia”14.
Garibaldi percebia com clareza o estreitamento do regime
de julho:
“Na França de 1833, clamores como este
[de Mazzini] não eram lançados impunemente.
Pouco tempo depois de eu ter-lhe sido apresentado e
de haver-lhe afiançado a minha adesão,
Mazzini, o eterno proscrito, foi forçado a abandonar
a França e a buscar exílio em Genebra”15.
Garibaldi, condenado à morte em sua terra natal,
fugiu para a França, onde acabou preso. Conseguindo
evadir-se do cárcere e embarcou para o Brasil.
O ano era 1834. Iniciava, dessa forma, em terras americanas,
a sua jornada de aventureiro, corsário e guerreiro.
Foi na capital do Império brasileiro que Garibaldi
entrou em contato com a Revolução Farroupilha.
O líder farroupilha, Bento Gonçalves,
e seu secretário Tito Zambeccari, foram aprisionados
no Rio Grande do Sul, após a batalha de Fanfa,
em 1836, e levados ao Rio de Janeiro. Ambos estavam
recolhidos ao forte Santa Cruz. Zambeccari, à
semelhança de Garibaldi, era mais um italiano
exilado no Brasil. A aproximação entre
os dois foi inevitável. Por sua prática
como marinheiro no Mediterrâneo, Garibaldi recebeu
uma carta de corsário farroupilha - uma autorização
para o apresamento de navios, civis e militares, da
Marinha brasileira. Em terras americanas, Garibaldi
iniciava sua vida de revolucionário:
“Eu vi corpos de tropas mais numerosos, batalhas
mais disputadas, mas nunca vi em nenhuma parte homens
mais valentes nem cavaleiros mais brilhantes que os
da cavalaria Rio-grandense, em cujas fileiras comecei
a desprezar o perigo e a combater dignamente pela causa
sagrada das gentes!”16
____________________________________________________________
14 O Observador, Rio Grande, 24/04/1833, nº93.
Transcrição de matéria publicada
no Jornal Aurora Fluminense do Rio de Janeiro sobre
a situação política na França
no ano de 1833.
15 DUMAS, Alexandre. Memórias..., 2002, p.35.
16 Carta de Garibaldi a Domingos José de Almeida,
datada de 10 de setembro de 1859. In: Correio do Povo,
Porto Alegre, 20/09/1975.
____________________________________________________________
Em que pese ter atuado também como
soldado da infantaria, foi como comandante da esquadra
rio-grandense que ficaram celebrizados os principais
episódios da participação de Garibaldi
na Revolução Farroupilha. Para mencionar
alguns: o transporte de barcos – lanchões17
– por terra até a foz do Rio Tramandaí,
já que a saída para o mar pela Lagoa dos
Patos estava sob o domínio dos imperiais; a tomada
de Laguna; a anexação de Santa Catarina
e fundação da República Juliana,
seu romance com Ana Maria de Jesus Ribeiro, futuramente
Anita Garibaldi; concluindo sua participação
em 1841, quando se retirou para o Uruguai.
O maior historiador da Revolução Farroupilha,
Alfredo Varella, assim definiu a atuação
de Garibaldi na Revolução Farroupilha:
“Em verdade, parece que, com a presença
de Garibaldi, menos tivemos a de um egrégio mortal,
do que a de um desses benignos deuses do paganismo,
cultuado antanho”.18
De fato, em todos os festejos cívicos que anualmente
celebram a Revolução Farroupilha, Garibaldi
é lembrado com veneração, colocado
lado a lado com Bento Gonçalves, Antônio
de Souza Neto e David Canabarro. No Rio Grande do Sul
e em Santa Catarina há clubes e centros de tradição
gaúcha em homenagem a Garibaldi; em todas as
cidades, praticamente, há uma rua com o seu nome
em homenagem a sua atuação na revolução
farroupilha.
Serão homenagens merecidas ou há algum
exagero nisso tudo? Em outras palavras, terá
tido, realmente, tamanha importância a atuação
de Garibaldi na Revolução Farroupilha?
Onde acaba a história e onde começa o
mito? Para responder a essa pergunta, algumas considerações
são necessárias.
Primeiramente, o jovem Garibaldi, com então menos
de trinta anos, era um entre centenas de outros estrangeiros
que tomaram parte na Revolução Farroupilha.
Muitos morreram, anônimos, no campo de batalha,
outros logo caíram no esquecimento. Em geral,
os estrangeiros, que lutaram em ambas as facções,
quando aprisionados pelos inimigos eram logo “passados
em armas”, pela sua condição de
mercenários.
No caso particular da marinha rio-grandense —
provavelmente a maior fragilidade dos revoltosos —
o “engajamento” era, na maior parte, forçado.
Uma espécie de pena imposta a criminosos19.
____________________________________________________________
17 Lanchão: barco de pequeno calado.
18 VARELLA, Alfredo. História da Grande Revolução:
o ciclo farroupilha no Brasil. Porto Alegre: Ed. Globo,
V.5, 1933, p. 292.
19 MARKUN, Paulo. Op. cit, p.113.
____________________________________________________________
O que, então, diferenciou Garibaldi
dos demais estrangeiros, incluindo muitos italianos,
que lutaram ao lado dos farroupilhas? Garibaldi abandonou
a Revolução Farroupilha no ano de 1841,
emigrando para o Uruguai. Ao retornar para a Europa,
em 1849, retomou sua luta para a unificação
da Itália. Já em 1860 conquistou Nápoles
e a Sicília, tornando-se mundialmente famoso.
A esse tempo, Garibaldi já não era um
mero corsário, mas, sim, um general.
Dessa forma, o herói Garibaldi, por muitos venerado,
não é o corsário farroupilha, mas,
sim, o general da unificação italiana.
Outro elemento que diferenciou Garibaldi dos seus demais
companheiros foi o fato de ter escrito seu livro de
“Memórias”, que recebeu diversas
edições, dentre as quais, a mais famosa
foi a publicada por Alexandre Dumas, de 1860. Assim,
os diversos estudos acerca da atuação
de Garibaldi, que serviram para criar a sua imagem heróica,
têm como principal fonte suas próprias
memórias! Acrescente-se a isso que a versão
editada por Dumas foi, em muitos aspectos, romanceada,
não correspondendo os relatos aos fatos ocorridos.
Isso fica mais claro quando comparamos os documentos
da Revolução Farroupilha, disponíveis
no Arquivo Histórico do Estado do Rio Grande
do Sul, com aquilo que é narrado em suas “Memórias”.
Vejamos, por exemplo, como Garibaldi relata sua relação
com Bento Gonçalves, o chefe farroupilha:
“No dia em que nos encontramos pela primeira
vez, convidou-me para o seu banquete frugal; e conversávamos
com tanta familiaridade como se fôssemos companheiros
de infância e iguais em posição”.20
Os chefes civis e militares farroupilhas, em sua maioria,
eram estancieiros e escravocratas. Não havia
espaço, nos postos de comando, para outros segmentos
sociais. Garibaldi, um entre tantos estrangeiros a se
bater por um causa que não era a sua, não
era visto como um igual. A situação dos
estrangeiros foi muito bem descrita por outro italiano,
amigo de Garibaldi, a pegar em armas na Revolução
Farroupilha:
“O General Canabarro escreveu ao Ministro
José Mariano de Matos, lastimando que
Garibaldi fosse o Comandante da Esquadrilha
e eu o Secretário do Governo. Os guerreiros
estimam que o estrangeiro combata ao seu lado, mas os
letrados não gostam de ver um estrangeiro sentado
ao mesmo escritório”.21 (grifos
nossos)
____________________________________________________________
20 DUMAS, Alexandre. Memórias de Garibaldi. Estado
do Rio Grande do Sul, 1907, p. 70.
21 Carta de Luigi Rossetti a Domingos José de
Almeida, datada de 11/08/1839. Arquivo Histórico
do RS, Coleção Alfredo Varela, maço
51, Caixa 15.
____________________________________________________________
Outro episódio, ainda que historicamente
pouco relevante, mas significativo ao demonstrar como
Garibaldi era visto com desconfiança pelos chefes
farroupilhas, foi o namoro de Garibaldi com Manoela,
sobrinha de Bento Gonçalves. Assim lemos nas
“Memórias”:
“Uma dessas jovens, Manoela, era a senhora absoluta
do meu coração: sem esperança de
poder possuí-la, ainda assim não poderia
deixar de a amar. Era desposada de um dos filhos de
Bento Gonçalves”.22
Bento Gonçalves não permitiu o romance,
disse a Garibaldi que Manoela estava prometida ao seu
filho Joaquim. Não era verdade. Bento Gonçalves
recebia Garibaldi em sua casa, mas considerava-o um
aventureiro, um homem indigno de desposar uma sinhazinha
de família tradicional como Manoela. Uma carta
de Otacílio Ferreira, sobrinho de Manoela esclarecia
a situação:
“O suposto noivado com seu primo, filho de Bento
Gonçalves, não passou de um pretexto de
seus pais para recusarem o pedido de Garibaldi, pois
embora o recebessem em seu lar e o cumulassem de gentilezas
não deixavam de considerá-lo como aventureiro,
motivo pelo qual opuseram-se ao casamento”.23
Manoela de Paula Ferreira morreu solteira, aos 84 anos,
em Pelotas. Era conhecida como “a noiva de Garibaldi”.
Mais adiante, em suas “Memórias”,
Garibaldi destacou a valentia e honradez de seus companheiros
marinheiros:
“Durante todo o tempo que fui corsário
dei ordem à minha gente para a vida, honra e
fortuna dos passageiros ser respeitada... ia dizer debaixo
de pena de morte, mas não devo dizer tal, porque
não tendo até hoje ninguém infringido
as minhas ordens, não tenho tido ninguém
que punir.”24
____________________________________________________________
22 DUMAS, Alexandre. Memórias de Garibaldi.
Estado do Rio Grande do Sul, 1907, p. 76.
23 Cincoentenário da morte de José Garibaldi.
Revista do Instituto Histórico e Geográfico
do Rio Grande do Sul. II trimestre, ano XII. Porto Alegre:
Livraria do Globo, 1932, p. 254-256.
24 DUMAS, Alexandre. Memórias de Garibaldi.
Estado do Rio Grande do Sul, 1907, p.48.
____________________________________________________________
Uma carta de José da Silva Brandão,
datada do ano de 1839, ao ministro da Fazenda da República
Rio-Grandense, Domingos José de Almeida, apresenta
uma situação bastante diferente:
“Exmo. Patrício, Amigo e Sr. O Garibaldi
tem-se visto em apuros com a canalha que tem por marinheiros,
que estão em uma escandalosa insubordinação
e com planos de traição para se passarem
para o inimigo, pois pretenderam, em uma noite
em que ele se achava doente, agarrá-lo, metê-lo
a bordo de um lanchão e levarem-no de presente
ao inimigo (...)” 25 (grifos nossos)
Episódio significativo da passagem de Garibaldi
na Revolução, por todos enaltecida, foi
a travessia dos lanchões, Seival e Farroupilha,
da Lagoa dos Patos até as praias de Tramandaí,
para então auxiliar David Canabarro que marchava
por terra para tomar Santa Catarina:
“Os habitantes gozaram então de um
espetáculo curioso e desusado, isto é,
verem dois navios em cima de duas carretas, e puxados
por duzentos bois, atravessarem cinqüenta e quatro
milhas, isto é, dezoito léguas, sem a
menor dificuldade, sem o mais pequeno incidente”.26
Contudo, a travessia dos lanchões, como de resto
praticamente toda a atividade corsária de Garibaldi,
muito pouco contribuiu para a consolidação
da República Rio-grandense. O barco comandado
por Garibaldi foi a pique poucas horas após chegar
ao mar, causando prejuízos aos projetos farroupilhas
em Santa Catarina. É o que relatou David Canabarro
a Bento Gonçalves:
“Garibaldi perdeu as instruções
e mais papéis que o acompanhavam, quando felizmente
pode só escapar na praia, onde os restos do ‘Farroupilha’
indicam seu desastroso fim; é preciso pois que
mandeis instruções para a Marinha, cartas
de corso e decretos que marcam a repartição
das presas”.27
____________________________________________________________
25 Carta de J. S. Brandão a Domingos José
de Almeida, datada de 1839, Anais do Arquivo Histórico
do RS, vol.5, CV-2980.
26 DUMAS, Alexandre. Memórias de Garibaldi. Estado
do Rio Grande do Sul, 1907, p.83.
27 Carta de David Canabarro a Bento Gonçalves,
datada de 14/08/1839. AAHRGS, vol. 6, CV - 3340.
____________________________________________________________
“Garibaldi já fez quatro
presas mas desafortunadamente duas delas foram separadas
do [barco] Caçapava, que os conduzia por um temporal
e uma foi retomada pelo inimigo”.28
Malograda a expedição a Santa Catarina,
que em novembro de 1839 foi retomada pelos imperiais,
Garibaldi retornou ao Rio Grande do Sul. Trazia junto
Ana Maria de Jesus Ribeiro, que, abandonando o marido
para seguir o aventureiro italiano, passou à
história com o nome de Anita Garibaldi. Nas “Memórias”,
Garibaldi omite o fato de Anita ser casada quando ele
a conheceu.
Em 1841, com o declínio da Revolução
Farroupilha, Garibaldi resolve abandonar o campo de
batalha e emigrar para o Uruguai, alegando em suas “Memórias”
ter ganho dispensa pelo presidente da República,
bem como cerca de 900 cabeças de boi pela sua
participação na revolução:
“(...) numa estância, chamada Curral de
Pedras, com o beneplácito do ministro das Finanças,
eu conseguira reunir, em cerca de 20 dias e à
custa de um indizível esforço, algo em
torno de novecentos animais – que eram completamente
selvagens”.29
Não há evidências de que Garibaldi
tenha recebido de fato autorização para
deixar a revolução. Aliás, na bibliografia
e documentos pesquisados não encontramos menção
a esse tipo de autorização, quer seja
para estrangeiros ou nacionais. Também é
pouco crível que, em função das
dificuldades financeiras por que sempre passou a República
Rio-grandense, fossem destinadas 900 cabeças
de bois para quem estivesse deixando o campo de batalha.
Uma interpretação possível para
esse episódio é que as tais mil cabeças
de bois seriam destinadas a Fructuoso Rivera em pagamento
pelo fornecimento de bens, provavelmente armas, enviados
do Uruguai aos Farroupilhas:
____________________________________________________________
28 Carta de Luigi Rossetti a Domingos José
de Almeida, datada de 30/10/1839. Arquivo Histórico
do RS, CV-8.044, maço 51.
29 DUMAS, Alexandre. Memórias de Garibaldi. Estado
do Rio Grande do Sul, 1907, p. 143.
____________________________________________________________
“Para D. Fructuoso Rivera. São
Gabriel, 6 de abril de 1841. Respeitável Sr.
de meu maior apreço. Ao conduto do Capitão-tenente
José Garibaldi segue para essa uma tropa de mil
reses de saladeiro que V.Exa. se servirá mandar
receber e dispor para seu produto, e, depois de pagas
as despesas de condução, a aplicar para
pagamento de parte da importância dos objetos
entregues ao Capitão Joaquim Pereira Fagundes;
esta tropa vai em nome do dito Capitão-tenente
por me parecer não devê-lo fazer diretamente
a V. Exª. Pelo Sr. Matos, próximo a partir
para essa, serei mais extenso. De V. Ex.ª amigo
o mais obrigado”.30
Garibaldi, conforme os relatos de suas “Memórias”,
nunca entregou os bois a Rivera. Chegando ao Uruguai,
Garibaldi teria ainda se dirigido à legação
brasileira de Montevidéu pedindo anistia ao Imperador
Dom Pedro II, mesmo havendo pedidos dos farroupilhas
para que este retornasse ao Rio Grande do Sul31.
No ano de 1845 o tratado de Ponche Verde colocou fim
à Revolução Farroupilha, encerrando
uma luta que durante aproximadamente 10 anos dividiu
o Rio Grande do Sul entre farroupilhas e imperiais.
Garibaldi, a esse tempo, ainda estava no Uruguai onde
permaneceria até 1849, ano em que retornou a
Europa para finalmente lutar pela unificação
de sua Itália, ficando mundialmente conhecido
como o condottiere.
____________________________________________________________
30 Carta de Domingos José de Almeida a Dom
Fructuoso Rivera, datada de 06/04/1841. AAHRGS, V.3,
CV-1598.
31 Anais do III Congresso Sul-riograndense de História
e Geografia. Porto Alegre: o Globo, 1940, 3º vol.pp.1515-1517.
____________________________________________________________
A consolidação do Segundo
Reinado com o Imperador D. Pedro II, fez com que episódio
farroupilha entrasse em esquecimento. Somente em fins
do século XIX, com o movimento republicano, a
Revolução Farroupilha e a República
Rio-grandense foram novamente trazidas a lume; dessa
vez, como forma de propaganda. Os jovens republicanos
do Partido Republicano Rio-grandense (PRR) apresentaram-se
como seguidores dos ideais farroupilhas. Surgiram, então,
os primeiros estudos sobre a Revolução
Farroupilha, em editoriais dos jornais republicanos,
como “A Federação”, ou através
de livros, como “A História da República
Rio-grandense” (1881) de Joaquim Francisco de
Assis Brasil e “A Revolução de 1835
no Rio Grande do Sul” (1882), de Ramiro Frota
Barcellos, ambos republicanos históricos. Nessa
mesma época a imigração italiana
para o Rio Grande do Sul se acentuava; importantes cidades
floresciam na zona colonial italiana, cuja influência
econômica e política rapidamente se acentuava.
Era preciso estabelecer um elo entre o novo regime,
a República, e o imigrantes italianos. Garibaldi
foi o elo perfeito. Garibaldi passou, então,
da condição de mero coadjuvante da revolução
à condição de herói, lado
a lado, como já referimos, no panteão
dos revolucionários, com Bento Gonçalves,
Antônio de Souza Neto e David Canabarro.
Analisando o contexto político do final do século
XIX, associada à importância da imigração
italiana no Rio Grande do Sul fica bastante evidente
o processo de construção do mito Garibaldi,
como um instrumento de propaganda política. Como
exemplo mais evidente dessa junção temos
o jornal republicano do município de Caxias do
sul, em que aparecem, na primeira página, no
alto, Bento Gonçalves ao lado de Garibaldi, ambos
segurando um coroa de flores com o dístico: “A
união faz a força”, na parte de
baixo a figura do então governador Borges de
Medeiros. Surgia, dessa maneira, o mito do herói
dos dois mundos.
Bibliografia
Anais do III Congresso Sul-Riograndense de História
e Geografia. Porto Alegre: O Globo, 1940, 3º vol.
BERGERON, Louis, et al. História Universal
Siglo XIX – La época de las revoluciones
europeas 1780-1848. V.26 Século XIX. Madri:
Espanha Editores, 1976.
Cincoentenário da morte de José Garibaldi.
Revista do Instituto Histórico e Geográfico
do Rio Grande do Sul. II trimestre, ano XII. Porto Alegre:
Livraria do Globo, 1932.
Coletânea de documentos de Bento Gonçalves
da Silva 1835-1845. Arquivo Histórico do Rio
Grande do Sul, Porto Alegre: Comissão Executiva
do Sesquicentenário da Revolução
Farroupilha, 1985.
COSTA, Emília Viotti da. Da Monarquia a República:
Momentos Decisivos. São Paulo: Fundação
Editora da Unesp, 1998, 7ª ed.
DUMAS, Alexandre. Memórias de Garibaldi.
Porto Alegre: L&PM, 2002.
DUMAS, Alexandre. Memórias de Garibaldi.
Estado do Rio Grande do Sul, 1907.
GALLO, Max. Garibaldi – A Força do
Destino. São Paulo: Scritta, 1996.
GOUBERT, Pierre. História Concisa da França.
Portugal: Publicações Europa-América,
1996, V.2.
HOLANDA, Sérgio Buarque. História
Geral da Civilização Brasileira: Dispersão
e Unidade. Tomo II, 2º vol. 5º ed.
HOLANDA, Sérgio Buarque de Holanda. In.: CASTRO,
Jeanne Berrance de. A Milícia Cidadã:
A Guarda-Nacional de 1831 a 1850. São Paulo:
Ed. Nacional, 1979.
MARKUN, Paulo. Anita Garibaldi, a heroína
brasileira. São Paulo: Senac, 2003.
VARELLA, Alfredo. História da Grande Revolução:
o ciclo farroupilha no Brasil. Porto Alegre: Ed.
Globo, 1933, V.5.
WIEDERSPAHN, Henrique Oscar. O General Farroupilha
João Manuel de Lima e Silva (1835-1837).
Porto Alegre: Escola Superior de Teologia São
Lourenço de Brindes, 1984.
Fontes
Atas da Assembléia Provincial do Rio Grande do
Sul
Carta de Domingos José de Almeida a Dom Fructuoso
Rivera, datada de 06/04/1841. Anais do Arquivo Histórico
do Rio Grande do Sul, V.3, Coleção
Alfredo Varela-1598.
Carta de J. S. Brandão a Domingos José
de Almeida, datada de 1839, Anais do
Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, vol.5,
CV-2980.
Carta de David Canabarro a Bento Gonçalves, datada
de 14/08/1839. Anais do Arquivo Histórico do
Rio Grande do Sul, vol. 6, CV-3340.
Carta de Luigi Rossetti a Domingos José de Almeida,
datada de 11/08/1839. Arquivo Histórico do Rio
Grande do Sul, Coleção Alfredo Varella,
maço 51, Caixa 15.
Carta de Luigi Rossetti a Domingos José de Almeida,
datada de 30/10/1839.
Arquivo Histórico do RS, CV-8.044, maço
51.
Jornal Correio do Povo – Porto Alegre –
RS – (Museu de Comunicação Social
Hipólito José da Costa – MCSHJC)
Jornal O Observador – Rio Grande – (MCSHJC)
Mazzini, Garibaldi, Verdi
e a Unificação Italiana
Voltaire Schilling
___________________________________________________________
Diretor do Memorial do Rio Grande do Sul
Introdução
A unificação nacional italiana, alcançada
depois de uma luta de quase trinta anos (1831-1861),
sonhada por tantos homens e mulheres ilustres do passado,
foi um movimento político e cultural sui
generis na medida em que contou com a participação
das mais diversas personalidades daquela época,
entre elas, um intelectual, um extraordinário
homem de ação e um grande compositor:
os três Giuseppi: Mazzini, Garibaldi e Verdi.
Esse episódio da luta pela unificação,
que muitos consideram como as mais belas páginas
da Itália Moderna, foi chamado de Il Risorgimento,
o Renascimento ou o Ressurgimento, ocasião em
que o antigo espírito nacional dos povos peninsulares,
que formavam a Itália, em uníssono, voltou
a reclamar por sua independência e liberdade.
Giuseppe Mazzini, o profeta da Itália
Nascido em Gênova, em 22 de maio de 1805,
em meio a uma família estreitamente vinculada
aos carbonários, os jacobinos italianos do início
do século 19, Giuseppe Mazzini, ao longo da sua
vida de patriota, empunhou a bandeira da unificação
da Itália, país que então era apenas
uma expressão geográfica, religiosa e
cultural, mas não um estado poderoso como a França
ou a Espanha. Em 1831, no exílio em Marselha,
ele fundou o movimento Giovine Italia, a Jovem Itália,
com a intenção de mobilizar a opinião
dos seus concidadãos para a nobre causa de constituir
uma nação “Una, Independente,
Libera, Repubblicana”. Compôs, com
os outros dois Giuseppi, seus contemporâneos,
Verdi e Garibaldi, o músico e o revolucionário,
a trindade que encarnou a paixão por uma Itália
livre, enfim, do controle do Imperador estrangeiro e
independente do Papa católico.
A primeira unidade: a romana
Em tempos remotos, alguns séculos antes
de Cristo, a península italiana foi unificada
pela primeira vez por Roma, depois de uma série
de batalhas travadas pelos filhos da “loba”
contra seus vizinhos (sabinos, volscos, etruscos, samnitas,
celtas, gregos etc...). Estima-se que esse processo
de integração tenha encerrado ao redor
do ano 262 a.C., ao final das guerras movidas contra
as cidades gregas da Itália meridional, quando
o Senado romano pôde proclamar-se “Senhor
da bota”.
O nome “Itália”, que até então
somente servia para designar as terras do sul, difundiu-se
por toda a península. Junto com a vitória,
o idioma do Lácio, o verso de Virgílio
e Ovídio, a fala latina, tornaram-se a língua
dominante por toda parte, reforçando ainda mais
a sensação de integração
entre os peninsulares. Esse fator de coesão interna
foi fundamental para explicar o sucesso dos romanos
na guerra contra Cartago, quando a península
viu-se invadida por Aníbal Barca, em 216 a.C.,
durante a Segunda Guerra Púnica, ocasião
em que o general cartaginês, com todo o seu gênio
militar, quase nenhum auxílio obteve dos vizinhos
de Roma para alcançar submetê-la.
A soberania de Roma estendeu-se, então, do vale
do Rio Pó, ao norte, até Brundisium, bem
ao sul, tendo enquadrado todos os povos itálicos,
ou promovendo alguns deles à posição
de aliati, situação reforçada
ao final da República, quando boa parte dos peninsulares
foi promovida à cidadania romana. Tal iniciativa
foi tomada, por primeiro, ainda que de forma modesta,
no tempo da ditadura de Júlio César (50-44
a.C.), reafirmada e ampliada pela Constituo Antonina
(ou Édito do imperador Caracala), de 212, que
fizera de todos os habitantes do império cidadãos
com iguais direitos aos dos romanos.
Durante os sete séculos seguintes –
do III até o V a.C. – graças à
integração cultural, jurídica e
política capitaneada por Roma, e reforçada
pelo Edictum Perpetuum do imperador Adriano,
de 131, a península reconheceu basicamente a
autoridade legal dos Césares sobre todo o território
itálico, até que as invasões bárbaras
que assolaram Roma, entre 410 e 476, determinaram-lhe
o fim da unidade.
O espelho estraçalhado
O desaparecimento do Império Romano provocou
uma involução política na península.
Todo o território itálico, a partir do
século V, fragmentou-se como se fora um espelho
caído, estraçalhado. Cada região,
por minúscula que fosse, para desespero de tantos
patriotas do futuro, tornou-se então um paese,
um país, indiferente ou hostil ao que se passava
com seus vizinhos. A península inteira
voltou, assim, aos tempos pré-romanos, reforçando
ainda mais aquilo que chamaram “a mentalidade
do campanário”, a não ser senão
“uma expressão geográfica”,
como a definiu o príncipe Metternich.
Nem mesmo com as agressões externas comandadas
pelos sarracenos, normandos ou germanos, durante a Idade
Média, nem mais tarde, no Renascimento, ocasião
em que, desde 1494, na época da geração
de Maquiavel, viu-se palco infeliz de disputas entre
os poderosos reis da França e da Espanha, a Itália
foi capaz de fazer uma frente nacional para expulsar
os estrangeiros. Ao contrário, cada célula
que compunha aquele corpo político pulverizado,
cada comuna ou cidade, cada condado ou principado, procurava
tirar proveito da presença dos estranhos para
usá-los contra seus rivais mais próximos.
Milão opunha-se à Veneza; esta, à
Gênova. Florença estranhava-se com Pisa.
Chegou-se, por várias vezes, ao extremo de algum
tirano ou de uma família patrícia apoiar-se
num invasor para fazê-lo agir contra seus próprios
concidadãos, como, certa vez, foi o caso dos
Médicis, de Florença.
Palco de eternas rivalidades
Tal instituição da cizânia
colaborou em muito para fazer da península a
terra mais invadida da Europa, atraindo, para dentro
de si, as forças da cobiça e da rapinagem
internacional, que promoveram o vale do Rio Pó
como a região preferencial para que batalhas
memoráveis fossem lá travadas. Nada mais
fácil, aos invasores, do que penetrarem em um
território dividido entre 60 cidades que se intrigavam
sem parar umas contra as outras.
Agravou-se, ainda mais, a situação de
fraqueza interna pelo fato de haver ainda, ao longo
do Medievo, duas forças cosmopolitas
tentando imperar sobre a Itália: o Sacro Império
Romano-germano (fundado por Otão, o Grande, em
962) e a Igreja Católica (reconhecida como oficial
por Teodósio, em 390), pois tanto o imperador
como o papa da Igreja Universal rivalizavam-se na liderança
da república da cristandade. A coroa e a mitra,
o poder secular e o poder espiritual, nesse momento
em acordo, a maior parte em desacordo, travaram uma
longa guerra, nem sempre diplomática, pela hegemonia
da Itália e sobre o restante da cristandade européia.
A rivalidade foi tão intensa que se traduziu
na formação dos dois grandes partidos
dos tempos medievais: os guelfos (a favor do
Papa) e os gibelinos (seguidores do Imperador).
O Papado, na contramão da pregação
de Cristo, se viu constrangido a recorrer às
armas para defender o trono de São Pedro de usurpadores
e aventureiros impostos de fora pelo imperador ou qualquer
outro rei. Portanto, durante séculos a fio, a
Itália viu-se assim fragmentada, atomizada, não
somente pelos pequenos corpos políticos –
a rivalidade entre as cidades-estado –, como também
entre os grandes corpos institucionais daquela época,
o Império e o Papado.
O desespero da inteligência italiana
Evidentemente, tal situação causava
desespero e desânimo entre os pensadores, artistas
e intelectuais da Itália daqueles tempos. Dante,
exilado e desconsolado com sua pátria natal,
implorou, por carta, que o imperador alemão Henrique
IV, que marchava em direção à Itália,
em 1314, estendesse suas operações até
a Toscana, com o objetivo de restabelecer o poder dos
seus partidários. Chegou até a redigir
um ensaio político, “Da Monarquia”,
escrito entre 1310-14, propondo o acerto entre o Império
e o Papado para que, sob a hegemonia do poder secular,
a Itália voltasse a gozar de paz e tranqüilidade
com um comando forte, ainda que fosse de um imperador
estrangeiro. Tudo inútil.
Tempos depois, em 1347, foi a vez de Petrarca aproximar-se
do tribuno romano Cola di Rienzo, na expectativa
de que seu plano, de formação de uma confederação
de tiranos, viesse a dar uma forma qualquer de unidade
à península. Petrarca, imbuído
pelo patriotismo, propôs-se, num primeiro momento,
a celebrar a grandeza romana passada, como uma emulação
para o presente infeliz, escolhendo para personagem
símbolo de um possível renascer italiano
o general romano Cipião, o africano (poema “África”),
desaparecido no século II a.C., o homem que afastara
o perigo de Roma cair em mãos inimigas e que
derrubara Anibal na batalha de Zama, em 202 a.C. Num
outro, Petrarca, por igual, enalteceu a pátria
na “Canzone all´Italia”,
de 1346.
A mesma preocupação moveu Maquiavel,
o vigoroso e tido por amoral escritor florentino, na
sua expectativa exposta no derradeiro capítulo
do Il Principe (O Príncipe, de 1513),
de que surgisse na Itália, invadida e humilhada
da sua época, um príncipe resoluto, um
líder corajoso e varonil que a unisse para resgatá-la
dos “barbari”, como ele denominava
os reis vindos de fora que faziam da sua pátria
um palco de destruições, rapinagens, saques
e atrocidades sem fim. Segundo suas próprias
palavras:
“Não se deve, pois, deixar passar essa
ocasião, a fim de que a Itália conheça,
depois de tanto tempo, um seu redentor. Nem posso exprimir
com que amor ele seria recebido em todas aquelas províncias
que têm sofrido por essas invasões estrangeiras,
com que sede de vingança, com que obstinada fé,
com que piedade e com que lágrimas... Que italiano
lhe negaria um favor? A todos repugna esse bárbaro
domínio.”
Maquiavel encerra o célebre texto com a chave
de ouro de um patriótico verso de Petrarca, que
dizia:
“Virtude contra furor/Tomará armas;
e faça o combater curto/ Que o antigo valor/
Nos itálicos corações inda não
é morto”.
Todos eles, esses impressionantes nomes das letras itálicas,
frustraram-se porque a unificação, o tão
esperado abraço fraterno entre os italianos,
clamado em prosa e verso, somente terminou por ocorrer
séculos depois de seu desaparecimento. O melancólico
Giacomo Leopardi, ainda em 1818 (no canto All´
Itália), em tom de desconsolo, dizia ver
“os muros, o arco, a coluna, a estátua
e o ermo/as torres dos antepassados” – os
visíveis símbolos da magnitude da Roma
antiga –, “mas não via mais a
glória nem os louros e os ferros em que tinham
sido forjados os nossos antigos antepassados”.
Os tempos se passaram e a Itália que, segundo
Francesco Fiorentino, filósofo falecido em 1884,
esboçara o seu primeiro Risorgimento
no século 15, pelas artes (Botticelli, Leonardo,
Alberdi, Miguel Ângelo etc.) e, depois, no século
16, pela ciência (Bruno, Telésio e Galileu),
estava ainda bem distante de chegar à unificação,
visto que este Risorgimento dei Umanismo não
conseguiu ser alcançado pela política.1
A Revolução Francesa e a
idéia nacional
Precisou a Itália esperar pelos efeitos
da Revolução Francesa de 1789, para que
seus anseios de liberdade e unificação
se vissem renascidos. Adormecido por séculos,
sonho de poetas, o legítimo sentimento de voltar
a formar uma pátria foi reavivado pelos feitos
espetaculares de um jovem general republicano de apenas
27 anos, nascido na Córsega, de família
italiana, Napoleone Buonaparte (que, mais tarde, ao
estudar em Paris, afrancesou para Napoleon Bonaparte),
que se tornara o comandante-em-chefe dos exércitos
franceses do fronte da Itália.
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1 Conforme Prota, o Risorgimento possuía
objetivo altamente civil, político e educativo:
pôr a cultura a serviço da independência
e liberdade da Itália, formar nos italianos uma
consciência nacional e política, dar-lhes
um sentido das virtudes civis. Valendo-se de um diálogo
profundo com Hegel, Spaventa, Croce e Gentile, notabilizaram-se
pelas reflexões elaboradas sobre a temática
do espírito, que constitui o eixo peculiar do
pensamento filosófico italiano.
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Derrotando os austríacos em combates memoráveis
no Piemonte e na Lombardia, durante sua campanha de
1796-1797, tomando Milão, onde mandou hastear
a bandeira republicana tricolor (verde-branca-vermelha),
Napoleão incendiou a imaginação
italiana como ninguém mais o fizera até
então.
“Guerreiro invencível” – disse
dele o poeta Ugo Foscolo, na sua ode a Napoleão
–, “Venceu e a Itália gritou
sua liberdade”. Foscolo viu no general francês
o punhal de Bruto erguendo-se contra a tirania de César
(o imperador austríaco).
No ano de 1797, Bonaparte fundou, entre tantas
outras, a República Cisalpina (formada pela Lombardia
e partes dos estados pontifícios). Rebatizou-a,
mais tarde, como a República Italiana, situação
que durou até 1804. Essa ação fez
com que a região se tornasse o futuro embrião
do Estado Nacional Italiano.
Ainda que, bem depois, em 1815, Napoleão fosse
derrotado, o sincero desejo de reconquistar a autonomia,
a semente do nacionalismo havia sido deixada encravada
fundo na alma de muitos italianos, particularmente dos
que habitavam as regiões do Norte: os da Lombardia
e do Veneto, devido à situação
de ocupação que viviam, sendo súditos
do monarca de Viena (o Sacro Império Romano-germano,
cujo soberano era o imperador austríaco, havia
assegurado “seus direitos” sobre boa parte
do norte da Itália desde o Tratado de Rastatt,
de 1714).
Por outro lado, o culto à idéia de uma
comunidade unida em torno de uma mesma língua,
religião e cultura, cujo arremate final conduziria
à formação de um inquebrantável
Estado-nacional, já começara a ser celebrada
pelos intelectuais românticos, ainda no século
18. Foi sobre essa base que se sedimentou o princípio
político dos revolucionários de 1789,
preocupados em constituir uma nação unida
e soberana que espelhasse a vontade geral popular, substituindo
as antigas divisões e hierarquias feudais que
ainda pairavam na geográfica política
da Europa. O mito do estado étnico, como observou
Ernst Cassirer, foi a principal contribuição
do romantismo político, e sua manifestação
mais radical deu-se durante a Revolução
de 1848. Não sem motivos chamada de “a
Primavera dos Povos”, já que se tornou
a sementeira da formação futura dos estados
da Polônia, Tchecoslováquia, Hungria, e,
claro, da Itália.
Mazzini agitador e revolucionário
Ao longo de sua vida como agitador e insuflador
de rebeliões patrióticas, poucas vezes
Giuseppe Mazzini pôs os pés na Itália.
Tanto assim que seus seguidores o denominaram de
L´Esule, o Exilado. Desde o momento em que
foi condenou à morte, em ausência, quando
souberam que instigara um levante militar na Sardenha,
em 1833, ele tomou a precaução de viver
bem longe da pátria, de preferência
em Londres, onde se aproximou muito de Thomas Carlyle
e dos socialistas lá refugiados. A essência
do mazzinismo e do Partito d´Azione,
o Partido da Ação, liderado por ele, era
provocar uma insurreição popular que levasse
rapidamente à queda do regime dos reis e dos
padres e que se implantasse, na Itália, uma república
soberana. Um dos seus lemas era o dito carbonário
“Anima di fuoco in tempra di ferro”
(Alma de fogo temperada no ferro).
Ainda que incansável, nunca se preocupou muito
com a organização dos complôs que
planejava ou estimulava através dos seus escritos.
Parecia acreditar na combustão popular espontânea,
desde que ativada por um pequeno e seleto grupo de homens
decididos. De certo modo, ainda que bem mais cauteloso,
ele foi a versão italiana do blanquismo (do revolucionário
Louis Blanqui, que sempre que podia, mal saído
de uma prisão, se alçava contra os governos
da França).
Talvez fosse isso, sua aposta na improvisação
e na intuição revolucionária, que
o levou a polemizar, em diversas ocasiões, com
Marx e Engels, no seu exílio em Londres, pois
estes, como bons alemães, acreditavam na organização
e na demorada preparação antes de se lançarem
nas tarefas da insurreição. Viu-se ele
como um profeta crente nas virtudes do voluntarismo
e no efeito místico da pátria. Todavia,
o desentendimento maior entre Mazzini e Marx deu-se
por ocasião da fundação da 1ª
Internacional Socialista (1864-1871), pois o alemão
resolveu “refazer” o Estatuto Primeiro,
dando-lhe um cunho “classista”, o que desgastou
a posição de Mazzini a favor da integração
da classe média no movimento. Em represália,
Engels exortou os trabalhadores italianos a se afastarem
do mazzinismo, do que nada de efetivo resultou.
Com os episódios dramáticos que se seguiram
à Revolução de 1848, Mazzini pôde
voltar à Itália para cair bem em meio
ao tumulto provocado pela fuga do Papa Pio IX e a proclamação
da República Romana, em 1849. Participou na elaboração
da Constituição e foi eleito para o Parlamento
Nacional como representante de Turim.
Entrementes, o papa apelou aos regimes católicos
da Europa para que interviessem militarmente para restaurá-lo
no trono em Roma. Um exército francês,
sob comando do general Oudinot, desembarcando em Óstia,
cercou então a capital, forçando Garibaldi
a organizar uma heróica, mas inútil resistência.
Desmantelada a república, Mazzini viu-se obrigado
a retornar a Londres para mais uma longa temporada de
exílio. As duas outras tentativas de acertar
um golpe republicano, visando a reverter a perda de
Roma, uma em Mántua (1852) e outra em Milão
(1853), fracassaram.
Todavia, o derradeiro esforço para obter sucesso
pela via revolucionária acabou numa tragédia
de grandes proporções. Em 2 de julho de
1857, o mazzinista Carlo Pisacane, que, vindo de Gênova
e passando por Ponza, desembarcara no Mezzogiorno,
na costa napolitana, com 300 seguidores, para surpreender
as autoridades bourbônicas com uma ação
revolucionária, foi cercado e trucidado pelos
camponeses da região, num lugarejo chamado Sanza,
suspeitando que eles fossem bandidos “Eran
trecento eran giovani e forti e sono morti...”,
disse deles num poema da época. Dele, então,
escreveram dois dos opositores do Profeta: Il profeta
ha perduto l´ultima scintilla Del suo fatale prestigio.
A Mazzini politico si può cantare il Requiem
aeternam” (O profeta perdeu sua última
centelha do seu fatal prestígio. Ao Mazzini político
pode-se cantar o Requiem aeternam).
Cavour supera Mazzini
Com o desastre que acometeu Pisacane, encerraram-se
as possibilidades de os mazzinistas servirem como a
vanguarda do processo nacional italiano. O insucesso
da política de Mazzini e o exílio forçado
de Garibaldi em Nova York, em 1850, abriram as portas
para a política do Conde de Cavour, primeiro-ministro
do Piemonte e funcionário da Casa Sabóia.
Por meio do Partido Moderado, Cavour liderou o processo
seguinte da unificação nacional. Cavour,
ao contrário de Mazzini, tinha um estado por
detrás e não grupos desorganizados de
patriotas.
Aos republicanos e democratas italianos do Partido da
Ação só restaram duas alternativas:
colocar-se a reboque da estratégia de Cavour
(uma complicada articulação de uma frente
interclassista com apoio de potências estrangeiras
antiaustríacas, alternando batalhas com negociação)
ou, simplesmente, isolar-se de tudo.
A tão estimada esperança dell´
Ideale, da Causa, depositada numa rebelião
popular, tão ao gosto do socialismo romântico,
um só golpe que abalasse o rei e o papa, teve
que ceder à prioridade da unificação
acima de tudo, feita por quem fosse, pois, para ele,
Roma era o motor da história italiana vocacionada
a ambições universais, visto que a Itália
seria a herdeira direta da grandeza dos tempos dos Césares.
Porém, tal ressurreição da Itália
não se faria através de um império
opressor, mas colocando-a “unida, republicana
e libertada”, como um centro exemplar, um facho
luminoso ao redor do qual os demais povos da Europa,
todos convertidos ao ideal republicano, deveriam formar
uma confederação de estados livres.
Mazzini nunca foi um nacionalista de horizontes estreitos,
já que enxergara sempre o movimento italiano
no quadro geral da emancipação daqueles
ainda submetidos por impérios estrangeiros.
Com a adesão de Garibaldi – que até
então era o mais audaz condottiero dos
republicanos – à causa do Vitório
Emanuel II e de Cavour, em 1859, a sorte fora lançada.
Em nome da primazia da unificação sobre
a importância do regime político que a
Itália adotaria no futuro, o Partido da Ação
concordou em acatar os Moderados.
Solidão e glória de Mazzini
Quando finalmente foi eleito para o Parlamento
nacional, criado em seguida à vitória
do Piemonte na 2ª Guerra de Independência
Italiana (1859), Mazzini, em fidelidade aos seus princípios
republicanos, renunciou à deputação
por se negar a ter que prestar juramento de fidelidade
ao monarca da Itália (Vitório Emanuel
II do Piemonte tornara-se o Vitório Emanuel I
da Itália). Os herdeiros do mazzinismo tiveram
que esperar por mais de 80 anos para que a Itália
se convertesse numa república, fato que somente
ocorreu ao término da Segunda Guerra Mundial,
em 1946. Mazzini – o Grande Conspirador –
que morreu solitário e frustrado em Pisa, em
10 de março de 1872, hoje goza do respeito dos
italianos e é tido como o verdadeiro pai da pátria.
Quando ocorreu a celebração do centenário
da curtíssima República Romana, a de 1849,
ergueram-lhe um estupendo monumento em Roma.
Garibaldi, o homem-vulcão
Giuseppe Garibaldi, “o herói
de dois mundos”, como mundialmente consagrou-se,
foi um dos mais notáveis líderes de homens
do século 19, e o mais famoso italiano que se
conhece na história contemporânea. Dotado
de uma coragem pessoal assombrosa, nada lhe parecia
ser impossível. Fugido da Europa em 1836, no
Brasil, lutou na Revolução Farroupilha
(1837-1840) e, no Uruguai, comandou a Legião
Italiana durante o longo cerco de Montevidéu
(1845-1851). Retornando a sua velha pátria, ainda
desunida, com seus companheiros camisas vermelhas, lutou
por sua unificação, alcançada somente
em 1861.
Escapando da Europa
“Na América eu servi – e servi
sinceramente – à causa dos povos. Assim
fui adversário do Absolutismo.”
Giuseppe Garibaldi – Memórias, 1859.
Uma epidemia de cólera em Marselha, na
França, e a existência de uma sentença
de morte do monarca do Piemonte pesando sobre ele, fez
com que Giuseppe Garibaldi resolvesse tomar outros ares.
Bom marinheiro, militante carbonário, admirador
de Mazzini e do movimento Jovem Itália, partindo
de Nantes, a bordo do Nautonier, não
demorou em desembarcar no Rio de Janeiro, em 1836. De
imediato, deixou-se subjugar, como Saint-Hilaire antes
dele, pelo impressionante espetáculo da baía
da Guanabara, maldizendo não ser poeta. Encontrou
por lá uma ativa colônia de exilados italianos,
uma das tantas que existiam espalhadas pelas cidades
da América, depois do insucesso do levante nacionalista
contra o domínio austríaco e das monarquias
ultraconservadoras da Itália. No meio deles,
exilados, estava Luiggi Rossetti, um carbonário
que fazia as vezes de jornalista e corsário,
combinação comum naqueles tempos. Foi
Rossetti quem levou Garibaldi a fazer uma visita a Tito
Livio Zambeccari, um preso ilustre, homem de sete instrumentos,
ajudante de Bento Gonçalves, ambos encarcerados
na Fortaleza de Santa Cruz no Rio de Janeiro, após
a derrota dos farrapos na ilha do Fanfa, no Rio Jacuí,
no Rio Grande do Sul. Além das afinidades itálicas,
cabe ressaltar que os carbonários eram bastante
próximos dos maçons, doutrina seguida
por Zambeccari, formando um mundo de contatos subterrâneos,
devido às suas inúmeras lojas espalhadas
pelos quatro cantos, muito úteis nas conspirações
anti-absolutistas.
Corsário farroupilha
Decidiram os dois, com o consentimento de Zambeccari,
arrumar um barco e, a partir de janeiro de 1837, lançar-se
ao mar como corsários. O que conseguiram foi
uma sumaca de dois mastros, que batizaram de “Mazzini”,
dedicada à interceptação dos que
navegavam sob a bandeira do Império Austríaco,
inimigo dos italianos irredentos. Caçados pela
marinha imperial, navegaram para o Rio da Prata em busca
de abrigo. Foi dali, partindo das vizinhanças
de Montevidéu, que a dupla Rossetti e Garibaldi,
cavalgando em vinte corcéis, alcançou
Piratini, sede da revolução das lanças.
Sua adesão aos gaúchos insurretos contra
o regime dos Braganças parecia-lhes a continuidade,
em outro país, em outro continente, da luta que
moviam ao absolutismo dos Habsburgos na Europa.
Na ausência de Bento Gonçalves, de
quem depois ficariam amigos, encantaram-se com a figura
de Domingos José de Almeida, o cérebro
que organizava a República Sul-rio-grandense.
Nenhum dos dois, porém, perdeu tempo. Trazendo
alguns operários da Banda Oriental, eles trataram
de construir, num estaleiro, nas beiras da Lagoa dos
Patos, uma minúscula flotilha para poder, pelo
menos, atazanar os Caramurus pró-Império,
comandados por Greenfell, cuja superioridade nas águas
era abrumadora. Os farroupilhas, gente do campo, da
estância e do laço, viam o mar com estranheza.
Coube, assim, a Garibaldi, guerreiro anfíbio,
bom na terra, melhor na água, assumir o papel
de almirante da revolução.
Garibaldi, almirante da revolução
Sua missão era abrir um fronte, bem mais ao norte,
nas águas de Santa Catarina, para apoiar a causa
republicana em outras paragens. Deu-se, então,
o grande feito de transportar os lanchões, por
terra, da área da lagoa até o mar, de
Capivari à Lagoa Tomás José, próximo
a Tramandaí. Atreladas aos duzentos bois que
o general Canabarro requisitara, as enormes carretas
de dois eixos e doze rodas, atravessando os baixios
alagados assolados pelos ventos da região, por
seis dias, num trajeto de 104 quilômetros, arrastaram
o Seival e o Farroupilha até o oceano. Dali em
diante, no mar, onde uma boa parte dos marinheiros afogou-se
num infeliz naufrágio, Garibaldi atingiu Laguna,
para integrar-se à República Juliana do
general Canabarro (proclamada em julho de 1839), afundar
navios do Império, e encontrar o amor da bravíssima
Anita, no Morro da Barra, mulher que largou tudo a fim
de seguir aquele corsário doido.
Esmorecida a revolução no pampa, o infatigável
condottiero emigrou de volta ao Uruguai, continuando
lá, na chamada Grande Guerra, a lutar contra
Oribes, um aliado da tirania do portenho Juan Manuel
Rosas. Arregimentando uns 400 patrícios seus,
organizou a Legião Itália, uma tropa de
choque uniformizada com uma camicia rossa (a cor vermelha
era usada nas charqueadas para atenuar a má impressão
visual do sangue dos animais). Quando ele retornou a
Itália, na esteira dos acontecimentos revolucionários
de 1848, já fixara o seu uniforme: botas, poncho
e a camisa vermelha, o símbolo mor das brigadas
garibaldinas, os Mille, os heróis do
Risorgimento na luta pela emancipação
definitiva da península.
O guerreiro aposentado
Quando a nação italiana conquistou sua
unidade, em 1861, sentindo-se com a missão cumprida,
como se fora um vulcão cuja lavra secara depois
de incontáveis erupções, Garibaldi
retirou-se em direção à pequena
ilha de Caprera. Lá faleceu, em 1882, sete anos
antes de a república ser afinal proclamada no
Brasil. Nunca, todavia, Garibaldi esqueceu das aventuras
passa das em meio às temeridades machas da cavalaria
rio-grandense, “a melhor do mundo”, como
ele testemunhou, a brava gente que, certa vez, lamentou
não dispor na Itália – de “uns
300 deles” – a fim de pôr mais facilmente
os opressores dos povos a correr.
Garibaldi e a Legião Italiana
No ano de 1843, formou-se em Montevidéu, por
empenho do condottiero Giuseppe Garibaldi que lá
se encontrava exilado, um singular corpo revolucionário:
a Legião Italiana. Tratava-se de uma pequena
força de 400 homens, todos eles voluntários,
que, fugidos da Itália, haviam procurado abrigo
no Rio da Prata. Cinco anos depois, uma parte deles,
liderados por Garibaldi, embarcou de volta para a Itália,
com o objetivo de participar da revolução
de 1848, a “Primavera dos Povos”. Poucos
grêmios militares tiveram destinos tão
estranhos, aventureiros e gloriosos como os que fizeram
parte da Legião Italiana.
Garibaldi em Montevidéu
“L’insofferenza delle popolazioni italiane
al dominio straniero, che fosse al colmo, già
era manifesto in tutte le corrispondenze che giungevano
nel Plata. L’idea del ritorno in patria e la speranza
di poter offrire il nostro braccio alla sua redenzione
da molto tempo facevan palpitare l’anime nostre”.(Que
o sofrimento do povo itálico submetido ao domínio
estrangeiro tivesse chegado ao seu limite, já
se encontrava manifesto em toda a correspondência
que chegava ao Prata. A idéia de um retorno à
pátria e a esperança de poder oferecer
o nosso braço a sua redenção, há
muito tempo fazia palpitar a nossa alma.)
Giuseppe Garibaldi – Memórias
Licenciando-se da Revolução Farroupilha
em abril de 1841, ocasião em que Bento Gonçalves
cedeu-lhe, em agradecimento pelos serviços prestados,
uma partilha de 900 bois, Giuseppe Garibaldi e sua mulher,
Anita, puseram-se, a duras penas, a tropear a manada
por 650 quilômetros a caminho de Montevidéu.
O casal, inexperiente no ofício, após
50 dias de cavalgada, chegou à capital uruguaia
com somente 300 couros. Em pouco tempo estavam reduzidos
à pobreza, morando nos limites da modéstia.
Garibaldi, já precedido por sua fama de homem
legendário, não tardou a enturmar-se com
a numerosa colônia de exilados italianos que por
lá se encontravam e o tratavam como herói.
Provisoriamente, aceitou uma colocação
de professor, mas teve também que se atarefar
na venda de bugigangas para, batendo de casa em casa,
reforçar o magro orçamento doméstico.
Paradoxalmente, sua situação alterou-se
quando a cidade de Montevidéu foi posta a sítio
pela marinha argentina. Parecia que as guerras saíam
ao encalço de Garibaldi onde ele estivesse. A
armada inimiga, comandada pelo Almirante Brown, atravessando
o Rio da Prata, viera em auxílio do caudilho
Manuel Oribe, chefe do partido blanco e inimigo do presidente
Fructuoso Rivera, cacique dos colorados (dois partidos
que viviam envolvidos às turras em guerras civis).
Era o início do período que, na história
uruguaia, ficou conhecido como a Grande Guerra (1843-1851),
o longo conflito entre blancos e colorados pelo controle
político da República Oriental do Uruguai,
que recém se tornara independente, em 1831. Uma
guerra que opôs os dois caudilhos, Oribe e Rivera,
ensangüentando o pampa uruguaio com a morte dos
patriotas. Estando a capital ameaçada, pois a
cavalaria e a infantaria de Oribe mantinham-na cercada
por um cinturão de acampamentos e bivaques, não
demorou para que o governo uruguaio, sabedor dos feitos
de Garibaldi na travessia do Capivari e na tomada de
Laguna, lhe oferecesse um elevado posto na marinha nacional
(praticamente inexistente).
Líder de homens, agradecido pela acolhida dos
orientais, o famoso guerrilheiro não podia se
negar a colocar-se ao lado do governo que o prestigiara
e que estava passando por maus bocados. Em pouco tempo,
arregimentou seus conterrâneos e formou a Legião
Italiana, que se tornaria lendária na história
do Prata e da própria Itália 2. Para uniformizar
a sua gente, ele recorreu a um lote de camisas vermelhas
(camicia rossa) que seria enviado às charqueadas
argentinas e que terminaria parando nas docas do porto
de Montevidéu. Desde então, aquela cor
imortalizou os combatentes garibaldinos.
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2 A Legião Italiana, grupo de homens unidos ao
redor de um líder, lutando por uma causa em comum,
fez escola. Reforçou a idéia, defendida
pelo revolucionário francês Auguste Blanqui,
por Lênin e por Che Guevara, dos que afirmavam
que o sucesso de uma revolução depende
muito mais da decisão de uns poucos homens do
que da vontade das massas.
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Guerreiro anfíbio, Garibaldi saía-se
bem no leme dos barcos e empunhando o sabre nas cargas
de cavalaria. Os combates que a Legião Italiana
travou na Grande Guerra dos uruguaios, como se deu na
batalha do Salto de Santo Antônio, devido ao número
escasso de gente que a compunha (de 400 a 600 homens
no máximo), serviram mais de diversionismo para
aliviar a pressão sobre a capital do que como
um resultado efetivo que pudesse alterar as posições
de Oribe ou o rumo da guerra.
Quando arrefeceu um pouco a pressão sobre a capital,
Garibaldi recebeu a notícia, vinda da Itália,
de que os povos europeus estavam se insurgindo por todas
as partes. Convencendo Anita a embarcar, prontamente
ajuntou os seus magros pertences para, atravessando
o Oceano Atlântico, ir aderir ao movimento rebelde,
desejando fazer parte da Revolução de
1848. Entrementes, enquanto Garibaldi lutava na Itália,
a Grande Guerra uruguaia seguiu até 1851, quando
o Império do Brasil declarou guerra ao ditador
Rosas (que apoiava Oribe), intervindo abertamente no
conflito.
Derrotada a coligação Oribe-Rosas, uma
paz temporária foi acertada entre os blancos
e os colorados do Uruguai.
De volta à Itália
Pouco tempo depois de seu desembarque em Gênova,
Garibaldi, vestindo a camisa vermelha e bombachas (pantal
turchin), tendo um poncho branco sobre elas, acompanhado
por um reduzido núcleo de 86 camisas-vermelhas
da Legião Italiana, os montevideanos,
rumou para Roma, onde foi eleito deputado da Assembléia
Nacional, a primeira a reunir italianos de todas as
partes. Foi um dos instigadores da República
Romana, aclamada em 9 de fevereiro de 1849, visando
pôr fim ao poder secular que o papado exercia
sobre uma parte das terras italianas – os estados
pontifícios. Até um triunvirato, com a
presença do incansável líder republicano
Giuseppe Mazzini, foi eleito para dirigir a nova república.
A plataforma, inspirada no lema “Igualdade, Liberdade,
Humanidade”, era unificar a Itália, afastar
o poder clerical dos assuntos civis e livrar a nação
da ingerência estrangeira (os austríacos
ocupavam o norte da Itália, as províncias
da Lombardia e do Vêneto, e também a Toscana).
Logo, porém, a situação se inverteu.
As forças da repressão comandadas pelos
austríacos lideraram um contra-ataque ao Reino
do Piemonte (a cabeça do projeto de uma Itália
unificada), derrotando o seu exército na batalha
de Novara, em março de 1849, ação
que terminou por sepultar as esperanças dos patriotas
italianos. Todas as conquistas obtidas entre 1848 e
1849 mostraram-se nuvem de fumaça, evaporando-se
na presença dos canhões e dos mosquetes
da contra-revolução.
O Papa Pio IX, por sua vez, lançara um manifesto
reclamando a devolução dos seus territórios
expropriados pela república revolucionária.
Atendendo ao seu apelo, a França de Luís
Napoleão, o sobrinho de Bonaparte, enviou, em
abril de 1849, um exército com 30 mil homens
para ocupar Roma, com a missão de desfazer a
república e devolver o poder ao papa. Garibaldi
e seus homens da Legião Italiana foram os únicos
a resistir dentro da cidade. Na praça de São
Pedro, ele arenga aos seus homens perfilados na sua
frente:
“Onde nós estivermos, estará
Roma. Mas lembrem-se de que vocês não terão
nem suas casas confortáveis, nem seus cafés,
nem seus jantares. Vocês dormirão freqüentemente
sob as estrelas, e algumas vezes sob a chuva... Saio
de Roma. Aquele que quiser continuar a guerra contra
o estrangeiro venha comigo. Não ofereço
nem salário, nem acantonagem, nem provisão.
Ofereço fome, sede, marchas forçadas,
batalhas e morte.”
(Garibaldi, a força do destino, de Max Gallo,
p. 149.)
Fuga e novo exílio
Seguido por 1.500 combatentes, Garibaldi, para não
ter que se render ao general Oudinot, que entrara em
Roma em junho de 1849, decide pela retirada para o norte,
em direção à Veneza. Acompanha-o
a sua inseparável Anita, grávida de cinco
meses. Perseguidos pelos franceses e austríacos,
escalando os montes Apeninos, refugiam-se na minúscula
República de San Marino, que lhes dá asilo.
Nada o detém. Tomando fôlego, escapa do
cerco e navega num barco pesqueiro pelo Mar Adriático
até o pequeno porto de Magnavacca, na embocadura
do Rio Pó, triste local onde Anita vem a falecer
no dia 1º de agosto de 1849.
Garibaldi, então viúvo, engendra outra
fuga espetacular. Vários dos seus homens da Legião
são capturados e fuzilados, enquanto ele, cruzando
a Itália a pé, do Adriático ao
Tirreno, caminha por 37 dias, escapando dos inimigos
até conseguir novamente partir rumo ao exílio.
Tenta ir para Tunis, na África do Norte, mas,
visto como “homem-do-diabo”, ninguém
quer dar-lhe abrigo. Em 1850, ele decide rumar para
os Estados Unidos (curiosamente, embarca num navio chamado
Waterloo, a batalha final de Napoleão).
Quando o guerreiro deu as costas para as terras da Europa,
era um homem derrotado, um fora-da-lei. Perdera Anita,
sua companheira de ideais e de lutas, enquanto que seus
três filhos ficaram ao encargo da mãe dele,
em Nice, cidade onde nascera em 1807. Os seus companheiros
camisas-vermelhas, por sua vez, estavam dispersos, presos
ou mortos. Decepcionado com a falta de entusiasmo do
povo miúdo da Itália, a negativa dos humildes
em combater a seu lado para implantar um regime melhor,
nacional e democrático, recordou-se da bravura
dos cavaleiros farroupilhas, dos guerreiros rio-grandenses
que pareciam não temer nada, nem a morte.
No campo da política italiana, tudo regressara
à situação anterior. O papa voltara
a assumir o poder temporal, os austríacos e os
franceses continuaram mandando na Itália, e o
país permanecia tão dividido como antes
de 1848. Toda a luta dos patriotas revelara-se infrutífera.
Tudo parecia ter-se acabado.
Garibaldi não tinha mais os 28 anos de quando
atravessou o oceano pela primeira vez para chegar ao
Brasil e, em seguida ir lutar com os Farroupilhas. Era
um homem maduro, um viúvo de 43 anos, cheio de
cicatrizes, e que não sabia direito o que iria
fazer na América. No entanto, o destino novamente
buscou Garibaldi do exílio distante para alçá-lo
em aventuras ainda maiores. No dia em que desembarcou
em Nova York, a edição do NY Times
de 30 de julho de 1850, registrou:
“neste dia chegou , vindo de Liverpool, o
Waterloo com Garibaldi a bordo, personalidade de renome
mundial, herói de Montevidéu e defensor
de Roma. Todos aqueles que conhecem o seu caráter
cavalheiresco e os serviços que prestou à
causa da liberdade lhe reservarão a acolhida
que lhe é devida.”
Verdi e a unidade italiana
Num pesado dia do inverno de Milão, 27 de janeiro
de 1901, o povo saiu às ruas para prestar uma
das mais belas e espontâneas homenagens ao maior
compositor italiano de todos os tempos. Giuseppe Verdi
morrera aos 87 anos. Com lágrimas nos olhos,
naquela data infeliz, milhares de pessoas, sentindo-se
na orfandade, vendo o féretro desfilar, cantaram
em coro uma das suas mais celebradas passagens: Va,
pensiero. Com ele, sepultou-se também uma
das mais comoventes e heróicas páginas
da história da Itália Moderna.
A Itália sofrida
“E chegará um dia em que já
não se falará de melodia, de harmonia,
de escola italiana ou alemã, do futuro ou passado
etc. Então, talvez, poderá estabelecer-se
o reino da música.”
Maquiavel, ao encerrar o Il Principe (O Príncipe,
cap.XXVI, 1521), livro que o perpetuou, exortou para
que surgisse na Itália do seu tempo - invadida
por forças estrangeiras e dilacerada por brigas
internas entre as cidades rivais - um príncipe
forte, um bravo, “um redentor”, que, além
de afastar “os bárbaros”, restituísse-lhe
a integridade perdida desde os tempos dos romanos. Ninguém
atendeu ao seu apelo.
Ainda na metade do século 19, mais de trezentos
anos após sua morte, a ditosa pátria de
Dante e de Petrarca encontrava-se praticamente na mesma
situação, a de ser “uma expressão
geográfica” dominada por um império
estrangeiro (o dos Habsburgos austríacos, que
controlavam parte das províncias do norte), por
uma dinastia estrangeira (a dos Bourbons espanhóis,
que reinavam sobre as do sul) e pelo papado (chefe de
uma instituição universal, a Igreja Católica,
que mantinha a podestá, o domínio,
sobre as províncias centrais, os ditos Estados
Pontifícios).
Um patriotismo tribal
Além disso, na intrincada geografia político-cultural
itálica, predominavam o paroquialismo, o campanilismo,
a crença arraigada da população
de que o seu paese, o verdadeiro país, era o
lugarejo onde nasciam, no qual batizavam seus filhos,
o do dialeto que falavam, e de onde tiravam o sustento.
Era-lhes indiferente o destino dos vizinhos, o que facilitava
a continuidade da hegemonia estrangeira. Tal atitude
levou o historiador napolitano Luigi Blanch a dizer
que o patriotismo dos italianos lembrava o dos gregos
antigos, parecendo-se mais com um “patriotismo
tribal” do que algo próximo à moderna
devoção à pátria.
Somente nos seus poros, aqui e ali, como no reino do
Piemonte, fronteiro à França, onde o Conde
de Cavour suspirava por uma Itália liberta, havia
o desejo de alinhar o país aos demais estados
europeus, unificados há muito tempo atrás.
Divisão política da Itália
pré-1861
Estado |
Capital |
Siuação
política |
Reino do Piemonte |
Turim |
Reino do Piemonte (Victor Emanuel I, Conde
de Cavour como 1º ministro) |
Lombardia |
Milão |
Província do império Austro-
húngaro (Dinastia Habsburgo) |
República de
Veneza |
Veneza |
Governo dos Doges, tutelada pelo império
Austro-húngaro |
Reino das Duas Sicílias |
Nápoles |
Reino dos Bourbons
(ramo espanhol) |
Estados Pontifícios
|
Roma |
Governo do Papado |
Grão-ducado da
Toscana |
Florença |
Grão-duque d’Áustria |
Ducado de Parma |
Parma |
Duque de Parma |
Ducado de Módena |
Módena |
Duque de Módena |
|
Os três Giuseppi
Ocorreu que o tão esperado e valoroso príncipe,
o restaurador da integridade italiana perdida (descartando-se
a inadequada e anti-heróica figura do Conde de
Cavour), não tomou corpo num homem só.
Em termos simbólicos, pode-se dizer que o messias
da Itália contemporânea assumiu, isso sim,
a forma de três Giuseppi (Josés): Giuseppe
Mazzini (1805-1872), Giuseppe Garibaldi (1807-1882)
e Giuseppe Verdi (1813-1901). Um pelas idéias,
outro pelas armas e o último por meio da música,
dotaram o povo peninsular da teoria, da espada e do
hino, para que, nas esteiras do Risorgimento,
vissem concluído o sonho da unificação
nacional.
Foi a ação dos três, em campos distintos,
mas complementares, que inspirou os italianos a se recomporem,
depois de quatorze séculos de divisionismo, para
virem a formar um só corpo político.
O Risorgimento 3
A idéia de que a Itália deveria, de algum
modo, livrar-se do destino cativo que a infelicitava
desde a época de Maquiavel, começou a
tomar vulto no final do século 18 e princípio
do 19. Os ideais da Revolução Francesa
de 1789 – com sua proposta de um estado-nação
constituído pela soberania popular, oposta ao
reino dos príncipes – chegaram à
Itália junto com os bivaques do exército
do general Napoleão Bonaparte, que ocupou o norte
do país em 1796 e 1797. Mesmo com a derrota posterior
do império francês, em 1815, a semente
da independência dos italianos havia sido lançada.
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3 A popularização da palavra Risorgimento
decorreu da fundação do jornal “Il
Risorgimento”, em Turim, em 1847, tendo como um
de seus redatores-chefe o Conde de Cavour.
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A guerra desencadeada pelas choupanas contra os palácios
(como, metaforicamente, designou-se a luta do liberalismo
moderno, nacional e democrático, contra o conservadorismo
absolutista), mesmo com a frustração gerada
pelas expectativas maiores da Revolução
Francesa, estava longe de se encerrar. O risorgimento
foi o resultado disso.
Se o primeiro renascimento, o dos séculos 15
e 16, emancipara o homem italiano da estética
medieval, desembaraçando-o da arte dos godos,
o segundo renascimento (denominado Risorgimento)
foi um movimento político que ambicionava livrá-lo
do domínio estrangeiro (dos Habsburgos da Áustria
e dos Bourbons da Espanha). Se os tutores do primeiro
renascimento foram artistas como Leonardo da Vinci,
Miguel Ângelo e Rafael Sanzzio, os do segundo
renascimento foram homens como Mazzini, Garibaldi e
Verdi.
A Itália cindida
A terra de Dante, ainda no século 19, estava
cindida não só em dois grandes campos
histórico-culturais distintos (o norte urbano-industrial,
“europeizado” e liberal-progressista, oposto
ao sul agrário, camponês, bizantino-sarraceno,
e tradicionalista), mas também em torno de qual
estratégia política deveria ser adotada
a fim de alcançar a unificação.
O Conde de Cavour, o primeiro-ministro do Reino do Piemonte
(1852-1860), e mola propulsora da unificação,
acreditava que a integração nacional dependia
de uma complicada operação de engenharia
diplomática-militar, na qual mesclavam-se medidas
visando a obter apoio internacional para a unificação,
com operações militares de vulto (participação
do Piemonte na Guerra da Criméia ao lado das
potências ocidentais em 1855, seguida da guerra
contra o Império Austro-húngaro, em 1859-60).
O universo de Cavour era o das embaixadas e gabinetes
palacianos, em conluios secretos com generais, bispos
e outros chefes de estado, tendo ao seu lado a burguesia
não muito numerosa, nem muito empenhada da Itália
da época. Como regime ideal a ser adotado no
futuro Reino da Itália, o ardiloso ministro piemontês
projetava aquele já existente no seu próprio
reino (uma estável monarquia amparada num parlamento
e no rei Vitório Emanuel II).
O mazzinismo
Oposto ao projeto de unificação constituído
“de cima”, tramado pela elite liberal-conservadora
liderada por Cavour, havia um outro, “vindo de
baixo”, defendido pelo líder patriota,
o professor Giuseppe Mazzini. Este grande devoto da
unificação era um ex-integrante da sociedade
dos carbonários, que, a exemplo dos jacobinos
franceses na época da Primeira República
da França (1792-1794), esperava que a futura
unificação resultasse de um grande levante
popular, se bem que estimulado e dirigido pela intelligentsia
italiana. O seu mundo, bem ao contrário do de
Cavour, era o dos conchavos clandestinos nas “catacumbas
republicanas”, dos pátios das universidades,
das redações dos jornais radicais, freqüentados
por escritores, advogados, estudantes e professores,
que seguiam Mazzini com devoção apostólica,
certos da ação definitiva de il popolo.
A Giovine Italia
Como fator catalisador, agregando a juventude e a intelligentsia
em seu projeto, ele fundara, em 1831, a Giovine
Italia (em Marselha, na França), que, além
de substituir os Carbonários (organização
patriótica secreta), teria a função
de agitar o ambiente peninsular para a causa unitarista.
O regime político de sua preferência, como
não poderia deixar de ser, era uma república
democrática, o que fez com que Mazzini fosse
visto como um radical extremista. Isso levou a outra
facção dos unitaristas, a liberal-conservadora
de Cavour, a condená-lo à morte. Observa-se
que o mazzinismo não deve ser visto apenas no
seu contexto peninsular, porque ele, adepto à
causa da Europa, imaginava uma confederação
de estados europeus convertidos ao republicanismo popular,
do qual a Giovine Italia era apenas uma célula,
que, gradativamente, iria incorporar outros movimentos
até atingir a unidade final do Velho Mundo.
Oscilando entre ambos, entre Cavour (a quem detestava)
e Mazzini (de quem desconfiava), achava-se Garibaldi,
o condottiero da unificação,
líder dos mille, sempre metido em aventuras,
misturado com seus companheiros camisas-vermelhas em
acampamentos militares, bem longe dos gabinetes ou das
redações, e cuja preferência política
pessoal, dada sua impaciência para com os procedimentos
parlamentares, era por uma ditadura popular com matizes
socialistas, que ele, afinal, terminou por não
levar a cabo.
Alternativas políticas dos unitaristas
Conde de Cavour |
Giuseppe Mazzini |
Giuseppe Garibaldi |
Monarquia |
República democrática. |
Ditadura popular. |
Constitucional-
parlamentar. |
|
|
Unificação
obtida por meio de acordos diplomáticos
e guerras localizadas. |
Unificação
resultante de um levante nacional-popular. |
Unificação
consolidada por ações militares
espetaculares. |
|
O nascer de um patriota
De certa forma, vendo-se em retrospecto, dos citados
ninguém poderia ser mais patriota do que Giuseppe
Verdi. Quando veio ao mundo, em Roncole di Busseto,
um lugarejo de nada no Ducado de Parma, em 9 de outubro
de 1813, o seu registro de nascimento foi lavrado com
um nome francês (Joseph Fortunin François)
porque a região ainda estava dominada pela administração
napoleônica. Nem um ano tinha quando sua frágil
existência esteve seriamente ameaçada,
em 1814, pois a soldadesca austro-russa, expulsando
os franceses de Parma, invadira a sua aldeia natal entregando-se
ao massacre da população civil. Luísa,
sua mãe, com o bebê Pepe no colo, conseguiu
salvar-se, refugiando-se no alto de uma torre.
Portanto, foi em meio aos registros de franceses em
fuga, seguida de tiros e espadas de tedescos e de russos,
que Verdi, filho de um modesto taberneiro local, veio
ao mundo, assumindo, logo que teve consciência,
a tarefa de livrar a Itália dos estrangeiros
que tanto a desgraçavam, com as estranhas armas
do bel canto e da batuta de maestro.
A música e o nacionalismo
O século 19, mais do que qualquer outro,
viu o espírito nacionalista adonar-se da música,
especialmente naquelas regiões e culturas da
Europa que se encontravam oprimidas ou entregues à
confusão. Confluíram para essa politização
da música, as estéticas românticas
que, desde os tempos do filósofo alemão
Herder (morto em 1803), mandava os artistas procurarem
inspiração nas raízes da cultura
popular (abandonando os cânones da cultura clássica)
e a ideologia liberal, que só
reconhecia como governo legítimo àquele
que viesse do apoio ou do consentimento do povo (e não
mais das dinastias).
Chopin na Polônia, Liszt na Hungria, Smetana na
Boêmia, Wagner na Alemanha e Verdi na Itália,
foram as maiores expressões musicais desse despertar
dos sentimentos populares que repudiavam os impérios
multiculturais e étnicos que governavam a Europa
de então (os dos Romanov, Habsburgos, Bourbons,
e outros menores). Muitos desses compositores e concertistas
fizeram das óperas autênticos comícios
patrióticos, procurando, com isso, agitar a opinião
pública ou incitá-la à rebelião.
Ópera e política
“A ópera séria é quase
sempre política por natureza e uma interpretação
política das mudanças estilísticas...”
Charles Rosen, “A Geração Romântica”,
São Paulo, 2000
Diga-se que, nessa politização da música
erudita, os compositores foram auxiliados pela significativa
alteração ocorrida na ópera. No
transcorrer do século 19, verificou-se a sua
transformação, de uma arte eminentemente
aristocrática (que passou todo o século
18 exaltando o absolutismo e a magnificência da
corte), numa forma popular, entregue a enaltecer a proeminência
do mundo burguês. A Revolução Liberal
de 1830, a que depôs o último dos Bourbons
em Paris, assinalou o momento histórico da ruptura
do gênero com as temáticas que antes eram
tão ao gosto da nobreza. Um dos casos mais extremados
dessa simbiose, entre ópera e a política
da época, aconteceu em Bruxelas, na estréia
da “La multe de Portici” (A muda de
Portici) de Auber. Na noite de 25 de agosto de
1830, ao ver no palco os napolitanos em franca rebeldia,
o público não deixou por menos: bastou
ser encerrado o acorde final para que, tomado de entusiasmo,
o povo saísse pelas ruas da capital, num insurgente
tumulto, a reclamar a independência da Bélgica.
A trombeta de Josué
Enquanto Richard Wagner, por exemplo, abeberou-se nas
antigas lendas germânicas da época pré-cristã,
encontrando nelas um denominador comum entendido e aceito
por todos os alemães, Verdi recorreu ao Antigo
Testamento (Nabucco), a feitos dos tempos das Cruzadas
(Os Lombardos na primeira cruzada), a heroínas
nacionais de outros países (Joana d’Árc)
ou à literatura de Shakespeare (Othelo, Mcbeth,
Fallsfat) e de Victor Hugo (Rigoletto). Ao dar vida
musical a uma série de libretos, procurou sempre
acentuar uma conotação política
por meio dos excepcionais recursos artísticos
de que era dotado. Verdi, ainda que seguindo a trilha
de Bellini, mais do que nenhum outro compositor daquele
século, fez da ópera um instrumento de
combate pela libertação nacional, recheando
suas composições com apelos à luta
direta (como no “Di quella Pira”, no
Il Trovatore).
Metaforicamente, poderia dizer-se que seus vigorosos
e comoventes corais, grandiosos, heróicos, foram
as trombetas de Josué com que ele esperava reconquistar
a prometida terra itálica das mãos profanas
dos reis estrangeiros, o que fez com que a censura saísse
em seu encalço por toda parte.
A ópera e o teatro grego
Deste modo, graças a Verdi e à agitação
do Risorgimento, as casas de espetáculo
da Itália inteira ativaram-se, como que substitutas
das assembléias populares, nas quais a burguesia
e o povo, os camarotes, o mezanino e a platéia,
em uníssono, confraternizavam no repúdio
ao cativeiro. Os grandes espetáculos musicais
de efeito mágico que ele orquestrou, reproduziam,
de certa forma, o clima do antigo teatro grego, o da
tragédia ática, que, conforme se sabe,
também serviu de recurso para que a comunidade
dos cidadãos discutisse o seu futuro (A força
do destino,1862). Ele foi o principal responsável
– na esfera operística – por criar
um clima propício à difusão dos
ideais de uma Itália unificada, ganhando, dessa
maneira, o coração do povo. Despertou,
por todo o país, explorando o conflito entre
a afetividade extremada e a harmonia e o autodomínio,
recorrendo à rudeza e à “vulgaridade
e insensatez”, o sentimento de italianità,
de italianidade, necessário a que cada paisano
superasse o sentimento paroquial em favor do nacional.
Va pensiero, hino da unificação
Depois de alguns fracassos iniciais como compositor,
acompanhados de situações de aviltada
pobreza (em dois meses perdeu a mulher e dois filhos
pequenos), a partir de 1839, o jovem ex-organista e
maestro di cappella da aldeia de Roncoli di
Busseto conseguiu afirmar-se na regência do famoso
Teatro La Scala, de Milão, onde pulsava um intenso
sentimento pró-independência. A Lombardia,
província italiana do império austro-húngaro,
aspirava à liberdade. Eis que o sinal da futura
insurreição dos italianos foi dado por
umas poucas estrofes inspiradas no Velho Testamento,
que narram os sofrimentos do povo judeu durante o cativeiro
da Babilônia (um curto, sentimental e poético
trecho que o povo consagrou como Va, pensiero!). Verdi
disse, bem depois do sucesso alcançado, que fora
por puro acaso que vira aqueles versos. Ao ter deixado
cair o libreto Nabuchodonosor, de Solera, seu
autor, sobre uma mesa, ele abrira-se
justamente na passagem do Coro dos Hebreus, cujo saudoso
e belo lamento tocou tão fundo os italianos (e
em todos aqueles que, pelo mundo afora, sentiam sua
pátria espezinhada).
A “Marselhesa” dos italianos
Houve, desde o princípio, uma imediata associação
entre as desgraças dos judeus no Eufrates (escravizados
pelo rei Nabucodonossor da Babilônia), com as
que a maioria dos italianos sofria naquele momento.
No dia da estréia da ópera Nabucco,
o 9 de março de 1842, encerrado o último
verso (IIIª Parte, cena IV), no qual os prisioneiros
pediam inspiração para resistir com coragem
as aflições, a Itália sentiu que
ali nascia uma versão muito própria, totalmente
sua, da “Marselhesa”.
Desde então, Va, pensiero consagrou-se como hino
da unificação italiana, enquanto o nome
de Verdi circulou entre os patriotas como um anagrama
(Vittorio Emmanuel Rè d’Italia).
A meta unitária, afinal, somente atingiu êxito
dezenove anos depois, em 1861, quando Vitório
Emanuel II, do Piemonte, foi proclamado rei da Itália
(Roma somente integrou-se a ele em 1871, depois da retirada
das tropas francesas que protegiam o papa).
Letra do Va, pensiero.
Ópera “Nabuco” (1842)
Parte Terza
Scena IV:
Le sponde dell’Eufrate. Ebrei incatenati e
costretti al lavoro.
Coro (Ebrei)
a, pensiero, sull’ali dorate,
Va, ti posa sui clivi, sui colli
Ove olezzano tepide e molli
L’aure dolci del suolo natal!
Del Giordano le rive saluta,
Di Sïon le torri atterrate...
Oh mia patria sì bella e perduta!
Oh membranza sì cara e fatal!
Arpa d’ôr dei fatidici vati
Perchè muta dal salice pendi?
Le memorie nel petto raccendi,
Ci favella del tempo che fu!
O simìle di Solima ai fati
Traggi un suono di crudo lamento,
O t’ispiri il Signore un concento
Che ne infonda al patire virtù,
che ne infonda al patire virtù,
che ne infonda al patire virtù, al patire virtù!
Nas margens do eufrates. Hebreus acorrentados e obrigados
a trabalhar.
Hebreus
Vai, pensamento, em asas douradas,
Vai, pousa nos declives, nas colinas,
Onde exalam mornas e suaves
As auras doces do solo natal!
Do Jordão saúda as margens,
De Sïon as torres destruídas...
Oh pátria minha, tão bela e perdida!
Oh lembrança tão querida e fatal!
Harpa de ouro dos fatídicos vaticínios
Porque muda do salgueiro pendes?
As memórias no peito reaivas,
Nos falas de um tempo que se foi!
Ou semelhante a Solima nos fatos,
Suscites um som de lamento cru,
Ou te inspire o Senhor uma melodia
Que infunda virtude no padecer.
Que infunda virtude no padecer
Que infunda virtude no padecer, ao padecer virtude!
Verdi è morto!
No final de 1900, Verdi, com 87 anos, queixando-se
da solidão e das amarguras da velhice, deixou
a sua propriedade de Santa Agnes no interior e hospedou-se
em Milão. Provavelmente, intuindo a aproximação
de seus dias finais, quis estar perto do teatro Scala,
onde, mais de 60 anos antes, iniciara sua espetacular
carreira. A polícia providenciou para que o trânsito
de charretes e carroças não o perturbasse
no seu descanso no Grand Hotêl et de Milano,
no qual ele veio a falecer depois de cinco dias de coma,
em 27 de janeiro de 1901. Morte que provocou uma comoção
nacional: Verdi è morto! Verdi è morto!
O grito ecoou por toda a Itália, deixando em
todos a sensação de orfandade, pois o
pai da unificação já não
estava mais entre eles. A consagração
maior deu-se em seguida. A passagem do féretro,
levando o corpo de Verdi pelas ruas de Milão,
atraiu uma multidão fantástica (estimou-se
em 200 mil pessoas). Na sua marcha solene para a Casa
di Reposo, onde ficaria sepultado com sua esposa
Giuseppina Streponi, o povo inteiro em lágrimas
pôs-se a cantar Va, pensiero, sull’ali
dorate.... Vai, pensamento, nas asas douradas...
As obras de Verdi
Primeiras obras
Oberto, 1839 (Milan)
Un Giorno di Regno, 1840 (Milan)
Nabucco, 1842 (Milan)
I Lombardi alla prima Crociata, 1843 (Milan)
Ernani, 1844 (Venice)
I Due Foscari, 1844 (Rome)
Giovanna d’Arco, 1845 (Milan)
Alzira, 1845 (Naples)
Attila, 1846 (Venice)
Macbeth I, 1847 (Florence)
I Masnadieri, 1847 (London)
Jérusalem (I Lombardi revised), 1847 (Paris)
Il Corsaro, 1848 (Trieste)
La Battaglia di Legnano, 1849 (Rome)
Luisa Miller, 1849 (Naples)
Stiffelio, 1850 (Trieste)
Rigoletto, 1850 (Venice)
Il Trovatore, 1853 (Rome)
La Traviata, 1853 (Venice)
Obras intermediárias
Les Vepres Siciliennes, 1855 (Paris)
Simon Boccanegra I, 1857 (Venice)
Aroldo (Stiffelio revised), 1857 (Rimini)
Un Ballo in Maschera, 1859 (Rome)
La Forza del Destino I, 1862 (St. Petersburg)
Macbeth II, 1865 (Paris)
Don Carlos, 1867 (Paris)
La Forza del Destino II, 1869 (Milan)
Aida, 1871 (Cairo)
Simon Boccanegra II, 1881 (Milan)
Don Carlo II, 1884 (Milan)
Obras tardias
Otello, 1887 (Milan)
Falstaff, 1893 (Milan)
Dois herdeiros de Verdi
Dois outros grandes artistas italianos no
nosso século foram seus herdeiros: Federico Fellini
e Bernardo Bertolucci (parmesão como Verdi).
Cada um ao seu modo, são os sucessores de Verdi,
ainda que na cinematografia, arte que nascia no mesmo
momento em que o grande maestro faleceu. Expressaram
ambos, nos seus inúmeros filmes, o sentido plástico
de magnificência e sentimentalismo do velho Verdi.
Essa ligação estética e emocional
deles com o compositor é a razão de Fellini
encenar o coro do Va, pensiero num período apreemiante
de pátria em perigo do La Nave Va (A nave vai),
e de Bertolucci iniciar o seu monumental Novecento
(1900) com a cena do sofrido lamento: Verdi è
morto! Verdi è morto! Em verdade, ele não
morreu. Verdi perpetuou-se para sempre nas vozes do
seu povo e de boa parte da memória do mundo.
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WERFEL, Franz. Verdi, o romance da ópera.
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Anita e Giuseppe Garibaldi
na Revolução Farroupilha
Yvonne Capuano 1
____________________________________________________
Pesquisadora de História e escritora,
autora dos livros “De sonhos e utopias –
Anita e Giuseppe Garibaldi” e “Garibaldi
– o leão da liberdade”
Meu interesse por Garibaldi vem de minha família.
Sou descendente de italianos, que chegaram ao Brasil
fugidos da miséria do sul da Itália, em
1890, mas que vinham com uma grande esperança,
trazendo uma bandeira e um nome: Garibaldi. Cresci entre
as histórias de Garibaldi. Meus familiares me
falavam das lutas de Garibaldi na Itália e ainda
completavam: ele era casado com uma brasileira, Anita
Garibaldi. Quando resolvi pesquisar sobre eles, fui
desencorajada por grandes historiadores, meus amigos,
que me disseram: “Mas você vai estudá-los?
Eles foram uns mercenários. Não merecem
sua atenção.” Porém, como
sou teimosa e muito ligada às histórias
dos heróis, resolvi estudá-los mesmo assim.
As diversas opiniões a favor e contra a atividade
política do casal levaram-me a procurar diversas
fontes, entre elas, jornais da época, depoimentos
de participantes dos episódios da época,
memórias deixadas por combatentes, ordens do
dia, cartas, ou seja, documentos que também foram
usados, possivelmente, por outros autores. Não
esperava encontrar tantas obras espalhadas pelo mundo
inteiro, que narrassem a participação
dos dois no Brasil, no Uruguai e na Itália, em
todos os locais onde defenderam seus ideais.
Acreditei, então, que seria fácil analisá-los,
mas as discordâncias entre os escritores, pesquisadores
e historiadores me deixaram, de início, um tanto
perdida. O material que recolhi proporcionou-me dados
para que eu escrevesse os livros “De sonhos e
utopias - Anita e Giuseppe Garibaldi” e “Garibaldi:
o leão da liberdade”. Ao estudar os dois
personagens, a comparação de opiniões
divergentes ou semelhantes, como é comum que
ocorra a todas as figuras que se destacam, permitiu
que eu os compreendesse e os analisasse segundo a época
em que viveram e em que lutaram. Certos juízos
implacáveis, apresentados por alguns historiadores,
não me convenceram.
____________________________________________________________
1 Texto transcrito da palestra proferida no Seminário
Internacional “170 Anos da Revolução
Farroupilha – o legado de Bento Gonçalves,
Garibaldi e Anita”, em 16 de setembro de 2005.
____________________________________________________________
Assim, estudando fatos passados e confrontando-os
com os fatos presentes, pude, então, defini-los:
idealistas, heróis e guerreiros universais.
Vou me referir a algumas passagens para que possa provar
o que estou afirmando. Em uma ocasião, Garibaldi
transportou para Constantinopla, no navio Clorinda,
12 prisioneiros políticos liderados por Émile
Barrault. Eles iam para a Turquia porque eram seguidores
das idéias socialistas de Saint-Simon, teorias
perigosas para a monarquia, o que resultava sempre na
perseguição dos adeptos.
Barrault dizia o seguinte: “O homem que defende
a sua pátria, ou que ataca a dos outros, é
no primeiro caso um soldado piedoso, e injusto no segundo;
mas o homem que, tornando-se cosmopolita, adota a todas
por pátria, e vai oferecer a sua espada e o seu
sangue ao povo que luta contra a tirania, é mais
que um soldado, é um herói.” Garibaldi,
naquele momento, estava predisposto a adotar todas as
nações que fossem ameaçadas, tornando-se,
assim, um cosmopolita, um herói.
O papel de Anita e Garibaldi na Revolução
Farroupilha deve ser analisado segundo o contexto e
as circunstâncias da época. A América
do Sul era um laboratório revolucionário
gerado pelos antecedentes das lutas e revoluções
na América espanhola. Os confrontos ao longo
das fronteiras, as guerras Cisplatinas, muito contribuíram
para o cenário armado no Rio Grande do Sul. O
descaso da Corte em relação à província
atiçou o descontentamento que culminou com a
Revolução Farroupilha.
Os italianos, nessa ocasião, eram bastante ativos
no Brasil, principalmente no Rio de Janeiro. Muitos
revolucionários foragidos, ou comerciantes bem-sucedidos,
auxiliavam os farroupilhas nas lutas, no transporte
de cabotagem, vendendo gado, ou como coletores das taxas
nas zonas controladas pelos rebeldes.
Em 1834, Giuseppe Stefano Grandona fundou a Congrega
della Giovine Italia, com o intuito de reunir exilados
políticos, divulgar as idéias de Giuseppe
Mazzini e os princípios republicanos entre italianos
e brasileiros. Pouco depois, em fins de 1835, início
de 1836, não se sabe ao certo, chegou Garibaldi
ao Rio de Janeiro, após um levante com Giuseppe
Mazzini, quando, delatados e condenados à morte,
foram obrigados a fugir. Ao chegar ao Brasil, Garibaldi
encontrou-se com Luigi Rossetti. Iniciaram um comércio
de cabotagem com um pequeno barco fornecido por outro
italiano bem-sucedido, Giacomo Picasso, passando também
a conhecer Tito Livio Zambeccari.
Tomam conhecimento que Zambeccari e Bento Gonçalves
estavam presos em um forte no Rio de Janeiro, desde
a Batalha do Fanfa. Rossetti e Garibaldi vão
visitá-los e se impressionam vivamente com a
causa da Revolução Farroupilha.
Há autores que defendem até a influência
do Risorgimento italiano na Revolução
Farroupilha, mas isso é contestado por outros
que afirmam serem as idéias democráticas
contrárias aos princípios liberais dos
farrapos. Entre esses autores vou citar um dos grandes,
Moacyr Flores, a quem respeito.
Moacyr Flores afirma que, do ponto de vista ideológico,
foi nula a influência dos italianos, e que Zambeccari
teve influência apenas na fase preparatória
do movimento, até porque foi preso logo no início,
e não mais retornou ao Rio Grande do Sul. Diz
também que Rossetti contribuiu à causa,
mas mais como administrador e soldado do que como jornalista
doutrinário, uma vez que suas idéias não
encontraram receptividade entre os rio-grandenses. Sobre
Garibaldi, afirma que formou e comandou a Marinha farroupilha,
marcando sua participação com muitos atos
de heroísmo, mas os efeitos desses atos se desfazem
no andamento da guerra. O que vou tentar demonstrar
aqui é o contrário.
A participação de Garibaldi na Revolução
Farroupilha será sempre discutida, pois, ao mesmo
tempo em que encontramos personagens e protagonistas
que atestam sua participação, alguns historiadores
desclassificam seu empenho, não somente o seu,
mas o da maioria dos italianos que lutaram na revolução.
Na obra “Modelo político dos farrapos”,
do historiador Moacyr Flores, ele escreveu: “Quando
os mercenários italianos chegaram à fazenda
do Brejo, às margens do Camaquã, de propriedade
de Antônia Gonçalves, irmã de Bento
Gonçalves da Silva, já encontraram dois
lanchões em construção, sob a orientação
do norte-americano John Griggs. (...) A maior contribuição
de Garibaldi ao movimento farroupilha foi a sua atuação
como corsário, coadjuvando David Canabarro e
Teixeira Nunes na tomada de Laguna. De acordo com sua
carta de corso, dada por Canabarro, tocaria três
quartas partes da presa ao navio corsário, cabendo
deste total a metade ao comandante que era Garibaldi.”
Realmente, Garibaldi encontrou-se com João Griggs.
Mas, em suas “Memórias”, Garibaldi
referiu-se às dificuldades de sua tarefa na construção
desses barcos, porque até o ferro tinham que
forjar. O Governo farroupilha estava bastante preocupado
com o atraso na construção das embarcações,
fato que Garibaldi comunicou a Rossetti, que imediatamente
entrou em contato com Luigi Carniglia, em Montevidéu,
para que viessem auxiliá-los com alguns italianos.
Confirmando este fato, o jornal O Povo, de 7 de novembro
de 1938, traz a notícia: “Expediente pela
Repartição da Guerra e Marinha, outubro,
26: ao capitão-tenente Giuseppe Garibaldi, comunicando-lhe
haver sido despachado Edoardo Mutru para a Marinha Republicana,
o qual marcha nesta data a reunir-se-lhe”.
Portanto, os barcos necessitavam de auxílio para
serem concluídos. Quando Garibaldi recebeu ordens
para dirigir-se à Laguna, já existiam
quatro barcos, dois operando na Lagoa dos Patos, sobre
as ordens do marinheiro Zeferino Dutra, e mais dois
que foram para Laguna, o Seival e o Farroupilha. Garibaldi
efetivamente auxiliou John Griggs na construção
do barco.
Quanto à divisão das cargas da embarcação
mineira que eles apreenderam, em 26 de agosto de 1838,
citada pelo historiador, foi dividida em oito partes
por ordem de Domingos José de Almeida, o encarregado
do Tesouro republicano. Quatro partes deveriam ficar
para o Estado, uma para Garibaldi, uma para os oficiais,
duas para a tripulação. Eram 20 sacos
de arroz, 20 sacos de feijão, um saco de salitre,
artigos dessa natureza. Como era comum na época,
a divisão de produtos apreendidos pelos farroupilhas
sempre foi feita de acordo com práticas adotadas
desde a Guerra Cisplatina. Garibaldi não foi
nenhuma exceção ao receber sua parte.
Mas, podemos avaliar seu procedimento pela narrativa
que ele deixou nas “Memórias”: “No
meio de todos aqueles pequenos acontecimentos, tomamos
um barco ricamente carregado, que foi conduzido para
a costa ocidental da Lagoa, junto a Camaquã,
onde o queimamos, depois de haver retirado tudo que
era aproveitável. Foi esta a primeira proeza
que fizemos, que valeu o trabalho e alegrou bem a nossa
Marinha. Todos tiveram a sua parte e eu, com um fundo
reservado, mandei fazer uniformes para todos os meus
bravos”.
Garibaldi também pode ser considerado um estrategista.
Foi o que ele nos demonstrou quando recebeu a ordem
para levar os barcos Seival e Farroupilha para Laguna,
com o objetivo de proclamar a República Catarinense,
com David Canabarro e Joaquim Teixeira Nunes. Não
podendo sair pela Lagoa dos Patos, porque a barra do
Rio Grande estava impedida pelos imperiais, Garibaldi
teve que ir por terra. Mandou construir duas carretas
grandes puxadas por bois, e, em cada uma delas, colocou
um barco. E foi até as margens das praias de
Tramandaí.
Sobre esse fato, cito um depoimento de Walter Spalding,
que escreveu a obra “A Revolução
Farroupilha”: “Este memorável projeto
executado por Garibaldi - o transporte dos barcos Seival
e Farroupilha por terra, desde a Lagoa dos Patos, na
foz do Capivari, até as praias de Tramandaí
- tornou-se célebre não tanto pelo transporte
em si, pois nada de novo nele havia (...) mas pela audácia
do feito, desorientando completamente os imperiais,
que o julgavam perdido pelo bloqueio que lhe faziam
no saco do Capivari, e pela rapidez do transporte de
um a outro ponto.”
Foi em Laguna que Garibaldi encontrou Anita, mas as
controvérsias continuam: local de nascimento
de Anita, seu nome, casamento, e o encontro com Garibaldi,
dados sobre os quais não há consenso.
Alguns historiadores questionam ainda sua participação
na Revolução Farroupilha. Anita, a heroína
silenciosa, mãe sofrida, amante apaixonada, figura
esboçada apenas por suas ações
concretas, pelos depoimentos dos que com ela conviveram,
e por algumas cartas deixadas, contrasta com Garibaldi,
que legou aos historiadores um tesouro autobiográfico
em suas “Memórias”. Ficaríamos
também restritos por vagas descrições
se não fosse um retrato, o único, feito
em 1845, em Montevidéu, pelo pintor ítalo-uruguaio
Gaetano Gallino, que era o artista predileto das damas
e dos militares, e a quem Garibaldi pediu para que pintasse
um medalhão aquarelado dele e de Anita. Este
é o único retrato que temos dela.
Embora considerada por muitos como símbolo da
mulher guerreira no Brasil, há raras opiniões
destoantes sobre Anita, como é o caso da historiadora
Hilde Flores, que escreve o seguinte:
“Nem china de soldado, nem guerrilheira, nem
heroína. Pensamos nós, o essencial é
colocar Ana de Jesus no contexto social de sua época,
moral rígida, casamento por vontade paterna.
Sem amor, a mulher ia arrastando a vida a rezar e a
gerar muitos filhos para povoar esta terra sem fim.
No momento em que a mulher do sapateiro sonhou com uma
vida melhor, e deixou-se levar pelo turbilhão
de seus sentimentos dando as costas ao marido, decretou
sua sorte. Quebrados os austeros preconceitos sociais,
estava marginalizada em sua pacata comunidade. Grávida,
só lhe restou seguir o guerreiro que lhe inspirou
tantos sentimentos contraditórios, não
importava para onde ele a levasse. No fundo, foi uma
pobre mulher desvalida que comeu o pão que o
diabo amassou.”
Tentarei contestar tal descrição.
Anita não acompanhou Garibaldi por estar grávida,
mesmo porque eles se encontraram poucos dias depois
de proclamada a República Catarinense, que foi
em 22 de julho de 1839. E ela deu a luz a Menotti, seu
único filho brasileiro, em 16 de setembro de
1840.
Então, uando foi embora com Garibaldi, ela não
estava grávida, seguiu-o porque quis. Segundo,
ela não deixou o marido, porque logo depois que
estourou a Revolução Farroupilha, ele
se inscreveu na Guarda Nacional, sumiu e ninguém
mais soube dele. Assim, quando Garibaldi encontrou-se
com Anita, ela estava só.
Discordo também de um grande amigo que tive,
um dos primeiros historiadores de Anita Garibaldi, Valentim
Valente, que dizia que Anita fora uma grande heroína
por amor. Anita realmente teve um amor inexplicável
por Garibaldi, mas ela era uma heroína de fato,
todos os atos posteriores ao seu encontro com Garibaldi
demonstram esse fato: o batismo de fogo de Imbituba,
as travessias que fez em um pequeno barco, levando armas
durante o ataque da esquadra de Frederico Mariath, quando
perdem Laguna. Garibaldi pede para que ela vá
para a praia procurar auxílio, pensando que ela
ficaria lá. Mas Anita volta para dizer que não
tinha encontrado a ajuda de ninguém, e ainda
se propôs a levar todas armas para a praia para
que não caíssem em mãos dos imperiais.
E isso ela faz inúmeras vezes no pequeno barco,
até o final, quando Garibaldi incendeia os barcos
farroupilhas, e parte juntamente com ela. Sobre o assunto,
há uma correspondência de Frederico Mariath
ao Império do Brasil contando os feitos de Garibaldi
e Anita.
Quando Anita é presa em Curitibanos, depois de
muito tempo, o coronel que a prendeu, Antônio
de Melo Albuquerque, o Melo Manso, em uma carta que
manda ao marechal Leite de Castro, faz a seguinte declaração:
“Quando o combate tornou-se mais renhido, via-se
que era Anita quem mais animava os soldados do seu marido
a serem valentes. Os meus oficiais, especialmente os
que estavam na vanguarda, me referiram que era a combatente
com a espada em punho e com seus lindos cabelos flutuantes
que mais se expunha às nossas balas; que mais
trabalhava pela vitória de seu marido, tendo
por vezes posto em dúvida a sorte de minhas forças.
Finalmente, vendo reduzido o número de seus bravos
soldados, pela morte de muitos e ferimentos de outros,
como vendo-se completamente cercada por meus comandados,
deixou-se aprisionar, seguida de alguns combatentes.
Quando me foi apresentada estava mal vestida, desgrenhada,
bem como com voz embargada, devido à tremenda
luta e ao fato de ficar separada de seu marido; via-se
que ela padecia horrivelmente, tendo por tudo conquistado
a minha admiração, como a de meus comandados,
por nunca termos pensado em ver uma mulher tão
valorosa, tendo-nos enchido de maior orgulho porque
era uma catarinense, uma compatriota que dava ao mundo
tão sublimes provas de valor e intrepidez. Apesar
de todo conforto que lhe forneci, apesar de todas as
garantias de vida que lhe concedi com a melhor boa vontade,
apesar de lhe haver dado todo o acampamento por menagem,
ficando assim em plena liberdade; apesar, ainda mais,
da promessa que lhe fiz de restituí-la a seu
esposo na primeira oportunidade, a denodada Anita com
uma pasmosa coragem conseguiu fugir em noite tenebrosa.
Quando este fato teve lugar e chegou ao meu conhecimento,
fiquei penalizado por não possuí-la mais
como prisioneira, mas tendo desejado que ela encontrasse
o seu marido, e tirasse também da dolorosa situação
em que se achava, julgando nunca mais vê-lo para
sua desgraça. Ainda agora, apesar da passagem
de vinte anos, quando me recordo do seu pasmoso heroísmo,
dos seus cruéis sofrimentos, das suas angústias,
sinto ensoberbecer-me, por haver sido Anita minha gloriosa
prisioneira, o mais honroso título da minha longa
vida e o principal enfeite da minha fé de ofício.”
Realmente a presença de Anita na Revolução
Farroupilha foi comprovada por todos os seus atos de
bravura e de efetiva atuação. Em 1841,
o casal resolveu partir, convencido da inutilidade da
continuação da luta entre os irmãos.
Entretanto, aqui também há controvérsia.
Muitos dizem que Garibaldi foi embora para o Uruguai
e se fez pagar por 900 cabeças de gado. Garibaldi
registrou em suas “Memórias” que
decidiu ir a Montevidéu, temporariamente, pedindo
licença ao presidente Bento Gonçalves
“e que me concedesse uma tropa de bovinos para
pagar as despesas”, lembrou ele. O pesquisador
da Revolução Farroupilha, Alfredo Varella,
admite que Garibaldi foi a Montevidéu em missão
farroupilha, e que levou 900 cabeças de gado
para vender uma parte e transformá-la em subsídios
para a Revolução Farroupilha.
Portanto, pelas pesquisas por mim realizadas, não
há dúvida de que foi efetiva a participação
de Anita e Garibaldi na Revolução, porém,
creio, será sempre contestada de alguma forma.
Mas, temos também o depoimento do ministro farroupilha
Domingos José de Almeida, transcrita no jornal
O Povo, que era uma publicação republicana,
e que prova, da mesma forma, o quão profícua
foi essa participação. Quando procurado
para acertar um pagamento, ele escreveu uma declaração
no jornal, dizendo: “Os senhores engenheiros e
artilheiros têm tido um procedimento que não
se compadece com os defensores de princípios,
cuidam que nadamos em ouro. Não é fácil
encontrarmos muitos Zambeccaris, Rossettis e Garibaldis.”
Para finalizar, e tentar explicar os desencontros de
opiniões, lembrarei as palavras ditas por Garibaldi
para o seu amigo Candido Vecchi, já na Itália.
Garibaldi dividia os seres humanos em dois grupos. Os
egoístas, que nunca sacrificam nada pelo bem
comum, e os verdadeiros patriotas que, voluntariamente,
sacrificam o que têm de mais caro em benefício
de outros. Esses últimos são sempre mal
interpretados, insultados e arrastados pela areia, enquanto
os primeiros governam o mundo. Tenho sempre a pretensão
de, com as pesquisas que faço sobre Anita e Garibaldi,
alcançar defendê-los para que nunca sejam
mal interpretados ou esquecidos através da história.
Os Garibaldi como símbolo
de integração entre a América
do Sul e a Europa Mediterrânea
Elma Sant’Ana
____________________________________________________
Geógrafa, pós-graduada em Ecologia
Humana
e Folclore, fundadora do Piquete das Anitas
A imensa bibliografia que existe sobre a vida
e a obra de Giuseppe Garibaldi, herói de dois
mundos e unificador da Itália, talvez não
tenha sido suficiente para ressaltar, na Europa, perante
seus atuais admiradores, a importância de seu
trabalho como guerreiro e articulador político
na América, especialmente no Estado do Rio Grande
do Sul, justamente aquele que faz fronteira com a Argentina
e o Uruguai.
Quando Giuseppe Garibaldi chegou ao Brasil, no final
de 1835, mais precisamente a 25 de novembro (em 17 de
agosto de 1835 partiu de Marselha direto ao Rio de Janeiro),
era um jovem marinheiro, idealista e sonhador, corajoso
e ousado, mas praticamente inexperiente. Sua militância
era exclusivamente marinheira, pelos portos do Mediterrâneo
e até um pouco mais longe. O fator determinante,
o divorcium aquarium, a mudança radical,
a virada na trajetória do herói, o encontro
com seu destino, vai se dar exatamente com essa viagem
ao Brasil, que foi o caminho definitivo de uma aventura
que marcaria luminosamente a vida do italiano nascido
em Nice.
Naquela época, a corte do Rio de Janeiro era
um mundo de intrigas. A Banda Oriental se constitui
em um Estado independente, com o nome de República
Oriental do Uruguai (depois de ser província
brasileira por muitos anos). E a Província do
Rio Grande do Sul vive duramente a luta entre liberais
e conservadores. Os primeiros sofrendo a infiltração
da maçonaria de inspiração republicana.
Tais maçons e muitos líderes políticos
militares, descontentes com o que chamavam de caos na
“corte do imperador menino”, no Rio de Janeiro,
tramavam abertamente a independência da Província
que seria a República Rio-grandense.
A 20 de setembro de 1835, explode uma revolução
na Província de São Pedro do Rio Grande
do Sul: os liberais, liderados por Bento Gonçalves
da Silva, contra os conservadores, que tiveram vários
chefes ao longo dos dez anos que durou a luta armada.
Depois de um ano de revolução intransigente,
os farroupilhas desistiram da paz e proclamaram a República,
em 11 de setembro de 1836, separando o Rio Grande do
Sul do Brasil, com o nome de República Rio-grandense.
Tentaram, ao longo de nove anos, organizar a estrutura
de uma nação independente republicana,
assolada por muitos problemas, mas repleta de bravura,
buscando realizar um Estado completo, com os serviços
públicos, o Exército e a Marinha, porque
os tempos eram de guerra. Aí é que entra
Garibaldi.
O exército republicano teve, antes de mais nada,
forças de cavalaria, sendo, como são até
hoje os rio-grandenses, famosos como cavaleiros. Mais
tarde, na Itália, Garibaldi se lembrará
com saudades desses centauros, como Bento Gonçalves,
Antonio de Souza Netto, David Canabarro, Joaquim Teixeira
Nunes e os lanceiros negros.
O problema maior era a Marinha de Guerra. Os rio-grandenses
são homens do lombo do cavalo, não do
dorso das ondas do mar. Ademais, a costa atlântica
rio-grandense não tem portos naturais. Estaleiros
navais, só em Portugal. Garibaldi era um homem
do mar, e deveriam aproveitar a sua experiência.
Então, para o pequeno estaleiro que possuía
a República Rio-grandense, na foz do Rio Camaquã,
dirige-se Garibaldi. Em 1º de setembro de 1838,
Giuseppe Garibaldi é nomeado capitão-tenente,
comandante da Marinha Farroupilha. Começa a construção
dos dois lanchões: Farroupilha e Seival.
A ordem recebida por Garibaldi era difícil de
ser cumprida: apoiar com seus lanchões as forças
de David Canabarro, incumbidas de tomar Laguna, a fim
de ali estabelecer um porto, uma vez que a cidade de
Rio Grande estava em poder dos imperiais.
No dia 5 de julho de 1839, Garibaldi remonta o pequeno
Rio Capivari, onde não podem manobrar os pesados
barcos do Império, puxando sobre rodados, para
a terra, os dois lanchões artilhados, com 100
juntas de bois, atravessando ásperos caminhos,
em direção à Barra do Tramandaí,
sob o Oceano Atlântico.
Em 29 de julho, em Santa Catarina, Garibaldi e os farrapos
proclamaram a República Juliana, na gloriosa
imprudência de quem sonhava transformar todas
as províncias do Império Brasileiro em
repúblicas autônomas, porém federadas.
Em Laguna, Garibaldi conheceu Anita e o mundo inteiro
sabe o que aconteceu. O amor foi imediato e fulminante.
Perduraria sem estremecimentos nos poucos anos que viveram
lado a lado. Por dez anos esse amor iluminou a história
de dois continentes, igualando-se aos grandes romances
da História Universal. Em março de 1840,
os farrapos voltam ao Rio Grande do Sul. Garibaldi e
Anita vêm com eles.
Em 16 de julho, há o combate em São José
do Norte, na luta por um porto. Garibaldi participa
sob o comando de Bento Gonçalves.
No dia 16 de setembro de 1840, nasce o filho gaúcho
de Anita e Garibaldi – Domenico Menotti Garibaldi,
na localidade de São Simão, em Mostardas,
na casa da família Costa. A primavera chegara
mais cedo para os farrapos. Giuseppe e Anita terão
outros filhos mais tarde, mas apenas Menotti terá
o solo rio-grandense como berço. Diziam que quando
falava na nacionalidade dos garibaldinos – muito
variada, naturalmente – ele mesmo, Menotti Garibaldi,
quando não seu próprio pai, o herói,
não deixava de dizer que entre eles havia um
brasileiro, condição que jamais esquecera.
Garibaldi e Anita assumem o compromisso de pai e mãe
sem dar trégua à epopéia. Somente
depois do nascimento de Menotti, Garibaldi sente a necessidade
de dar, à Anita e ao filho, uma outra vida. São
eles que se convencem, provavelmente sem palavras, de
que a romântica revolução acabara
e de que era necessário estabelecer a paz entre
os farrapos e o Império. Além disso, as
privações sofridas por Anita, a pobreza
em que viviam e as dificuldades enfrentadas desde o
nascimento do filho, fizeram Garibaldi tomar a decisão
da partida para o Uruguai. Ao atravessar a fronteira,
Giuseppe Garibaldi levava a futura heroína dos
dois mundos – Anita, um filho de oito meses, uma
formação de guerrilheiro, uma boiada minguada
e a sugestão de uma lenda. Após 50 dias,
percorrendo aproximadamente 800 km, Garibaldi chega
a Montevidéu com a família. Estava encerrada
sua participação na Guerra dos Farrapos,
no dia 17 de junho de 1841.
Garibaldi e Anita saíram da história para
dar nome a ruas, praças, escolas, museus, centros
de tradições, piquetes de cavalaria. Monumentos
levam seus nomes. No Rio Grande no Sul, Garibaldi; em
Santa Catarina, Anita Garibaldi. São dois municípios
que, respectivamente, em 1961, passaram a levar o nome
dos heróis farroupilhas. A cidade gaúcha
de Garibaldi orgulha-se de ter o herói como patrono
numa justa homenagem àquele italiano que antecede
a vinda dos imigrantes para nossa terra, sobretudo pela
grandeza e universalidade dos seus ideais. Se o Estado
de Santa Catarina é o berço de Anita,
o nascimento de Menotti é patrimônio do
Rio Grande.
Como símbolo de integração entre
Mostardas, no Rio Grande do Sul, e Aprilia, na Itália,
onde está sepultado Menotti, foi assinado um
acordo de “gemellaggio” (cidades irmãs)
entre essas duas cidades, tendo como justificativa a
importância da família Garibaldi, o elo
comum a unir esses dois municípios, estabelecendo
uma identidade gêmea, através de documento
oficial, para que as gerações futuras,
no Sul da América e na Europa Mediterrânea
saiam mais engrandecidas com o conhecimento da trilha
luminosa que a família Garibaldi riscou no mapa
do mundo.
Para registrar este acontecimento, há na entrada
das duas cidades, Mostardas e Aprilia, uma placa de
bronze, doação do “sindaco”
Gianni Cosmi, com o registro do documento assinado em
26 de abril de 1996, na ocasião em que a cidade
italiana, onde repousam os restos mortais do mostardense
Menotti, comemorava 60 anos de fundação.
Também em Aprilia foi inaugurada uma praça,
a Piazza Mostardas, onde foi plantada uma muda de figueira,
com um punhado de terra da localidade de São
Simão, selando um acordo de amizade entre essas
duas cidades, através do nome de Menotti, como
símbolo de integração.
No balneário mostardense, uma escola leva o nome
da heroína Anita Garibaldi. Uma rua e um parque
levam o nome de seu filho Menotti.
Capivari do Sul, um município de 4 mil habitantes,
é outro exemplo de integração através
da família Garibaldi. O rio Capivari foi o cenário
da odisséia dos lanchões Farroupilha e
Seival. O pequeno e jovem município de Capivari
do Sul projetou essa odisséia num grande evento
artístico, cultural e turístico, sendo
apresentado em importantes solenidades, revivendo a
saga garibaldina e promovendo a auto-estima daquela
comunidade, que tem como base econômica a pecuária,
a agricultura e o reflorestamento. Essa cidade está
integrada à cidade italiana de Mentana através
de um acordo de cidades irmãs. Também
foram inauguradas duas ruas, Mentana e Garibaldi, pelo
projeto aprovado pela Câmara Municipal.
Em Mentana (Itália), foi também inaugurada
uma via – Via Capivari – Anita Garibaldi.
Também possui uma escola com o nome de Giuseppe
Garibaldi, que foi visitada em 1999 por uma delegação
oficial de Capivari do Sul. Na ocasião os jovens
estudantes puderam conhecer os usos e costumes do povo
gaúcho, através de conferências
e documentário fotográfico. Experimentaram,
pela primeira vez, o chimarrão.
Em São José do Norte, para homenagear
e lembrar o combate de 16 de julho de 1840, um dos feitos
mais notáveis da Revolução Farroupilha,
realiza-se todos os anos uma encenação
com cavalaria no centro da cidade. A memória
de Garibaldi está perpetuada em São José
do Norte através de um busto de bronze que se
encontra na praça principal e que foi oferecido
pela colônia italiana. No Instituto Histórico
e Geográfico, existe uma placa de mármore
com uma inscrição homenageando Garibaldi.
Em 2002, foi acesa a chama crioula em Laguna (SC) partindo
esta em direção a São José
do Norte no navio-balizador da Marinha do Brasil, Comandante
Varella. Era a primeira Chama Ultramarina da Integração
relembrando o feito dos homens da pequena esquadra rio-grandense
e, em especial, Giuseppe Garibaldi, depois levada a
todas as cidades do Rio Grande do Sul.
A cidade italiana de Velletri está ligada ao
nome de Menotti Garibaldi. Os méritos adquiridos
por ele durante a sua grande atividade parlamentar como
deputado de Velletri (20 anos) e cercanias são
realmente notáveis. Entre tantas realizações
podemos ressaltar: a construção das ferrovias
Velletri-Terracina e Roma-Segni. Mas a mais relevante
foi a Cantina Experimental, uma das mais importantes
da Itália, instituída em Velletri, em
1891. Em 2002, o Rio Grande do Sul recebeu a visita
da representante dessa cidade italiana, que iniciou
um projeto de integração com os municípios
de Torres e Bento Gonçalves, buscando a união
das comunidades e intercâmbio cultural e turístico.
Velletri é conhecida como a cidade do vinho,
assim como Bento Gonçalves, com seu famoso Vale
dos Vinhedos. O projeto entre essas duas cidades faz
parte de uma iniciativa sócio-cultural. Busca-se
ressaltar as raízes étnicas comuns, com
a promoção de políticas de interesse
comum. Também integrou-se ao projeto a cidade
de Garibaldi.
Em 20 de outubro de 1992, foi fundado o Piquete Anita
Garibaldi. Fui uma das fundadoras desse projeto que
hoje foi transformado em instituto. Trata-se de uma
organização não-governamental que
tem como objetivo, entre outros, promover e incentivar
pesquisas e trabalhos visando pesquisar a história
de Anita e Giuseppe, assim como a de seus descendentes
que tiveram participação na formação
histórica de suas nações, bem como
incentivar a criação de centros de estudos
sobre a participação da mulher na região
sul do Estado, integrando-se cidades, estados, países
que desenvolvam a cultura e a história garibaldina
rio-grandense. Atualmente existem núcleos em
Mostardas, Capivari do Sul, São Jerônimo,
Vacaria, Rosário do Sul. O Piquete Anita Garibaldi
desfilou em 1994, em Caprera (Itália), nas homenagens
a Garibaldi, em 2 de junho.
O nome Giuseppe Garibaldi tornou-se uma lenda mundial,
talvez a maior de sua época. Não foi apenas
um herói nacional para seu povo, ele amou a humanidade.
“Em seus pronunciamentos e escritos políticos
externou pensamentos e escritos que o situavam 100 anos
à frente da maioria de seus contemporâneos”,
analisa o grande escritor Wolfgang Ludwig Rau.
O carisma pessoal de Giuseppe Garibaldi perpetua-se
além de sua morte física. Milhares de
indivíduos, isoladamente ou em agremiações,
pelo mundo afora, movidos por afinidades e identidades
de conceitos filosóficos, que renascem em novas
gerações, continuam hoje a cultivar as
tradições garibaldinas. Comprovam, dessa
maneira, sua importante participação na
nossa América, em especial no período
da Guerra dos Farrapos, na República Catarinense,
nas lutas libertárias do Uruguai e na luta pela
reunificação da Itália. Faz parte
da Memória Nacional.
A Revolução Farroupilha
e os italianos:
o federalismo e a fronteira
Maria Medianeira Padoin
____________________________________________________
Doutora em História pela Universidade
Federal do Rio Grande do Sul,
professora adjunta do Departamento de História
e vice-coordenadora do Mestrado em Integração
Latino-americana da Universidade Federal de Santa
Maria (UFSM).
A Revolução Farroupilha é
o fato histórico que maior atenção
mereceu pela historiografia regional, tanto de caráter
tradicional como revisionista ou crítica. Desta
forma, a produção histórica,
desde o final do século XIX, esteve especialmente
sob influência do Instituto Histórico
e Geográfico, do Partido Republicano Rio-grandense
(PRR) e do Movimento Tradicionalista Gaúcho,
caracterizando-se, até meados dos anos 80,
do século XX, pela continuidade da visão
positivista e pelo enaltecimento do nacionalismo (brasilidade)
do povo rio-grandense, procurando negar ou omitir
a relevância que teve a participação
de estrangeiros nesse movimento e as relações
permitidas e motivadas pelo fato de o território
do Rio Grande localizar-se no espaço fronteiriço
platino.
Essa visão está relacionada ao processo
de implantação e consolidação
da República no Brasil e do estado nacional
moderno brasileiro, no qual a pacificação
e a definitiva posse das terras do sul e de seus limites
políticos, bem como do controle e subjugação
de seus habitantes a um “único”
poder central eram fundamentais. Essa preocupação,
demonstrada e acentuada especialmente no período
do governo de Getúlio Vargas1 (1930-45 e 1950-52),
em que sua política nacionalista influenciou
na produção histórica (e em sua
divulgação) como forma ideológica
de convencimento e atrelamento do poder regional ao
projeto nacional.
____________________________________________________________
1 Getúlio Vargas formou-se na estrutura
política do Partido Republicano Rio-Grandense
(PRR); pertence à segunda geração,
onde o positivismo estava presente com um discurso
e prática da conciliação, do
centralismo e do nacionalismo.
____________________________________________________________
Com isso, compreende-se, de certa forma,
a pouca preocupação, nos estudos históricos,
em privilegiar a atuação e a influência
de personagens não brasileiros, como também
a intensidade das relações políticas
vivenciadas no espaço fronteiriço platino
(território que abarca, principalmente hoje,
o Rio Grande do Sul, o Uruguai, Buenos Aires e as
províncias litorâneas da Argentina),
pois, de certa forma, admiti-las reforçaria
o caráter separatista e internacional dos movimentos
transcorridos no sul, como foi o caso da Revolução
Farroupilha. Assim, “desqualificaria-se”
o rio-grandense no palco da construção
da identidade nacional e na conseqüente participação
dos benefícios oriundos do poder central brasileiro.
Afirma-se, então, que ser gaúcho2 é
ser brasileiro em primeiro lugar, por opção
ou por raízes portuguesas-açorianas
e não platinas (entendidas como espanholas)3.
Porém, mesmo sem ater-se ou dar maior atenção
à participação de estrangeiros,
ou ao “internacionalismo” característico
dos diversos movimentos políticos do século
XIX, principalmente os que ocorreram em espaços
fronteiriços, como o platino, os autores tradicionais4
trazem dados, indicações de fontes documentais
e preciosos indícios que podem ser averiguados
e investigados pelos historiadores, permitindo o aprofundamento,
a reflexão, o debate e a revisão histórica.
Nesse sentido, principalmente os estudos realizados
a partir da década de 80, do século
XX, possibilitaram a revisão e o surgimento
de novos elementos e visões históricas,
nos quais a temática da Revolução
Farroupilha também foi privilegiada. Isso decorre,
principalmente, da criação e desenvolvimento
dos cursos de Pós-Graduação no
Brasil, em que, no Rio Grande do Sul, foram priorizadas
as temáticas regionais que permitiram maior
acesso às fontes e ao incentivo à pesquisa
em arquivos brasileiros e de outros países,
como os da Argentina e do Uruguai.
Ao trabalharmos a Revolução Farroupilha,
a partir de um olhar que a explica como sendo mais
uma variável do processo emancipacionista no
século XIX, no espaço fronteiriço
platino, destacamos um personagem que também
está presente na documentação
(correspondências, diários), nos jornais
da época e nos livros sobre o tema, ou seja,
o italiano Tito Lívio Zambeccari, especialmente
nos anos que precederam e iniciaram a referida revolução.
____________________________________________________________
2 Termo que, no século XX, passou a designar
todo o nascido no Rio Grande do Sul, ou seja, o rio-grandense.
Porém, tem sua origem no personagem ou elemento
social que se dedicava à caça e trabalho
com o gado na região dos pampas uruguaios,
rio-grandenses e argentinos.
3 Aqui tem-se como exemplo os autores: Moyses Vellinho,
Dante de Laytano, Coelho de Souza Neto, Moacyr Flores,
entre outros.
4 Exemplos: Dante de Laytano, Moacyr Flores, Morivalde
Cavet Fagundes, Coelho de Souza e Walter Spalding.
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A atuação e presença
de italianos no Rio Grande do Sul, em especial no
período da Revolução Farroupilha,
ainda é um tema de estudo a ser mais investigado.
A partir disso, pretende-se, com este ensaio, demonstrar
qual o espaço reservado na historiografia sobre
Tito Lívio Zambeccari e quais as informações
trabalhadas. Assim, apresentar-se-á um breve
relato sobre o contexto histórico e a inserção
de Tito Lívio na história brasileira,
para passar para a revisão e síntese
bibliográfica.
Do final do século XVIII ao final da primeira
metade do século XIX, o Brasil vivenciou diversos
movimentos de caráter liberal com pretensões
autonomistas ou emancipacionistas. A independência
política do Brasil de Portugal, em 1822, e
a convocação de uma Assembléia
Constituinte motivaram o surgimento de expectativas,
especialmente das elites liberais, na organização
de um estado monárquico federal. Porém,
a outorga da Constituição brasileira,
em 1824, como também a evolução
dos acontecimentos, demonstraram a preponderância
de um centralismo político-administrativo,
concentrando-se as decisões da construção
do novo estado de acordo com os interesses da elite
regional do Rio de Janeiro e São Paulo.
Na tentativa de amenizar as insatisfações
regionais, foi elaborado o Ato Adicional de 1834,
que procurou permitir uma maior autonomia administrativa
para as províncias. Mas a decepção
com tais medidas e o crescimento das exigências
fiscais e de impostos pelo centro, levou, por exemplo,
a elite sulina a unir-se, em 1835, e declarar guerra
ao Império brasileiro, bem como, em 1836, a
proclamar a independência, através da
constituição da República Rio-Grandense.
Tal movimento, segundo Alfredo Varella5, teve características
semelhantes aos movimentos emancipacionistas ocorridos
no Vice-Reino do Prata, especialmente na região
banhada pela Bacia Platina.
A elite farroupilha, composta por estancieiros, charqueadores,
militares, comerciantes e sacerdotes, nascidos ou
não no Rio Grande, no início da guerra
manteve-se unida, porém, nos anos 40, demonstrou
divergências internas na disputa pelo poder
regional, constituindo-se em duas tendências:
o grupo da maioria e o da minoria. O primeiro foi
comandado por Bento Gonçalves da Silva, Domingos
José de Almeida e Mariano Mattos; o segundo
era representado por David Canabarro e Antônio
Vicente da Fontoura.
____________________________________________________________
5 Política Brasileira – interna e
externa. Porto: Chardrox, 1929.
____________________________________________________________
O grupo da maioria possuía um
projeto de construção de um estado republicano
federal, admitindo vincular-se ao Brasil e demais
províncias ou estados vizinhos (Uruguai e províncias
litorâneas da Confederação Argentina)
através de uma Confederação,
garantindo, desta forma a sua independência
política. Já o grupo da minoria, que
esteve no comando da revolução e da
República Rio-grandense a partir de 1843, propunha
uma reforma no estado monárquico brasileiro,
defendendo um federalismo entendido enquanto maior
autonomia provincial, ou seja, propunham uma efetiva
descentralização administrativa e não
o fim da Monarquia.
A divisão dessa elite regional foi muito bem
explorada pelo Império, representado especialmente
na figura de Caxias, que propõe uma paz aos
farrapos, e que foi aceita pelo grupo da minoria.
O tratado de Ponche Verde, assinado em fevereiro de
1845, é construído como um fato glorioso
na história do Rio Grande do Sul, pois os farrapos
aceitaram o acordo de paz, isto é, a paz não
foi decorrência da derrota nos campos de batalha.
Desta forma, essa visão é trabalhada
e explorada pela historiografia como comprovação
de que os rio-grandenses não eram separatistas
e sim patriotas brasileiros acima de tudo. Segundo
os escritos do autor Dante de Laytano: “...
fomos independentes sem o querermos ser (1983, p.84);
“... os revolucionários farroupilhas
eram brasileiros em primeiro lugar” (1983, p.83),
e no de Coelho de Souza: “A separação
era um meio e não foi por isso que o Rio Grande
do Sul foi menos brasileiro que antes.” (1972,
p.68)
O tratado de paz entre o Império e os farroupilhas
vem demonstrar o interesse de manutenção
e/ou expansão dos limites fronteiriços
do Império brasileiro em relação
ao sul, que necessitava da elite rio-grandense e de
seus agregados como soldados, pois esse período,
que se estenderá por quase todo o século
XIX, é de constante instabilidade e guerras
no espaço platino.
A partir disso, observa-se que é de vital importância,
ao se estudar a história do Brasil e, mais
especificamente a do sul, levar-se em consideração
que o Rio Grande do Sul pertence a um espaço
fronteiriço, que é entendido como espaço
social e economicamente construído, que adquiriu
um perfil de região, não homogênea,
enquanto espaço de circulação
de homens, de idéias, de culturas e de mercadorias;
ou seja, adquiriu um sentido “transnacional”,
pois não se associa a meras delimitações
físicas e políticas. Ao estudar a região
ou espaço fronteiriço platino, leva-se
em consideração a abrangência
territorial, o tempo e o contexto histórico.
O espaço fronteiriço caracterizava-se
pela entrada e saída de mercadorias, de pessoas,
e assim também de livros, favorecendo a formação
de uma mentalidade ou cultura resultante da divulgação,
propagação e frutificação
de idéias oriundas das universidades européias
– especialmente as de Coimbra e de Salamanca
-, e também das universidades, faculdades,
colégios, seminários do continente americano.
Os sacerdotes, os leigos juristas, os biólogos,
os diplomatas e os maçons6, sendo que muitos
desses fundem-se na mesma pessoa, foram verdadeiros
mentores e divulgadores dos ideários de liberdade,
igualdade e fraternidade, dos ideários autonomistas,
separatistas e também centralistas na região,
bem como do Direito das Gentes.
Assim sendo, o espaço fronteiriço platino
possibilitou a consciência de autonomia, de
liberdade e de necessidade da força e da proteção,
aspectos presentes na vida da campanha rio-grandense,
que se constituíram em fatores que colaboraram
na adesão às idéias federalistas
no conturbado processo de construção
dos estados nacionais. Foi um espaço, por excelência
e não exclusivo, de fermentação
de projetos federalistas, que apresentaram propostas
de organização de um Estado Federal
(monárquico ou republicano), de Confederação
de Estados, ou ainda como mero discurso ideológico
contra o centralismo do Estado Unitário. Nesse
sentido, os jornais “O Continentino”,
“O Republicano” e “O Povo”
foram divulgadores dessas idéias, e possuem
textos dos italianos Tito Lívio Zambeccari
e Rosseti.
A emigração política para o continente
americano está vinculada aos acontecimentos
históricos da Europa entre o fim do século
XVIII e o início do século XIX. As revoluções
italianas tiveram início depois da queda de
Napoleão e perduraram de 1820 a 1860, até
a unificação italiana de 1861 e a incorporação
de Veneza, em 1866, e de Roma, em 1870. Nesse período
tiveram atuações especiais as sociedades
secretas de inspiração carbonária
e mazziniana.
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6 Podiam ser comerciantes, militares que traziam
livros, periódicos etc. Eram verdadeiros divulgadores
de seus ideais iluministas. Mas é necessário
fazermos uma ressalva: a maçonaria não
é una, especialmente quando tratamos de ideários
políticos.
7 CANDIDO, Salvatore. La emigración política
italiana a la América Latina (1820-1870). In:
JAHRBUCH fur Geschichte von Staat, Wirtschaft und
gesellschaft Lateinamerikas, n.13, 1976, p.220.
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Nos anos 20, do século XIX, Bernardino
Rivadavia, um liberal “argentino” apaixonado
pela Revolução Francesa, como ministro
de Guerra e das Relações Exteriores
do presidente Martín Rodríguez (1821-1824),
e depois como presidente (1826-27), incentivou a imigração
italiana como uma forma de fazer frente à força
“montonera gaucha” (exércitos irregulares
provinciais vinculados a chefes locais) e com o fim
de trazer da Europa “cerebros para la naciente
Universidad de Buenos Aires y las actividades culturales
argentinas”7, ou seja, queria fazer de
Buenos Aires um centro cultural como as grandes cidades
européias. Os vínculos maçônicos
fizeram que os encontrassem mais facilmente, especialmente
entre os exilados políticos. Vieram muitos
italianos na chamada “imigração
política”: médicos, químicos
e artistas contratados para organizar a vida cultural
portenha8.
Quase todos esses contratados por Rivadavia eram exilados
políticos, porém, entraram muitos outros
entusiasmados com a possibilidade de construir uma
nova vida e de colocar em prática seus ideais
políticos em um contexto de nascentes e/ou
novos estados. Segundo Spencer Leitman,9 outro motivo
que teria atraído tantos italianos fugitivos
políticos foi a motivação recebida
através de cartas e a divulgação
do sucesso econômico obtido por outros italianos
que viviam no espaço platino. E é nessa
imigração espontânea que se encontra
o nome de Lívio Zambeccari.
Imigrantes italianos são encontrados em Buenos
Aires, Montevidéu e no Rio de Janeiro, em núcleos
consideráveis. Já no início dos
anos 30, os italianos controlavam o sistema de navegação
interna do Rio da Prata e eram membros fixos das tripulações
dos barcos de comércio costal de cabotagem
da América do Sul. Devido ao número
de italianos, especialmente nessas regiões
portuárias, Leitman informa que, no Rio de
Janeiro, havia a “Congrega della Giovane Itália”,
organizada por Giuseppe Stefano Grandona com o fim
de auxiliar os exilados políticos. Tal associação
estava relacionada às operações
marítimas e ao comércio portuário,
facilitando o contato entre os exilados e a sua circulação
nas regiões de Buenos Aires e Montevidéu.
Assim, através das atividades marítimas,
circulavam informações, idéias,
projetos com influência, especialmente das idéias
de Mazzini.
A emigração política organizada
ou espontânea ocorreu para toda a América
e também se destacará no Brasil, quando,
por exemplo, em torno de 60 homens, que participaram
de movimentos revolucionários na Itália
e foram presos na fortaleza de “Civita Castelhana”,
aceitaram a proposta de virem para o Brasil para trabalharem
em uma colônia agrícola na Bahia, chegando
em 9 de fevereiro de 1837, alguns acompanhados de
familiares. Muitos desses participaram do movimento
de 1838, contra o governo imperial brasileiro, querendo
tornar a Bahia um estado livre (CANDIDO, 1976, p.224).
E na Revolução Farroupilha, segundo
dados coletados de autores que trabalham essa temática,
assim como nas fontes encontradas no Arquivo Histórico
do Rio Grande do Sul, calcula-se que participaram
em torno de 50 italianos.
____________________________________________________________
8 Alguns nomes citados por Luce Fabbri Cressatti:
Pedro Carta Molino, Carlo Enrico Pellegrini, Pedro
de Angelis, Carlos Jose Ferrarris, Mossotti, entre
outros.
9 Revolucionários Italianos no Império
do Brasil. In: PESAVENTO, Sandra Jatahy (org.). A
Revolução Farroupilha : história
& interpretação. Porto Alegre: Mercado
Aberto, 1985. pp.98-109.
____________________________________________________________
Muitos italianos, como Luigi Nascimbene,
Napoleone Castellini e Natalio Rusca, eram comerciantes
de gado e de seus derivados junto aos rio-grandenses
e uruguaios para os portos de Montevidéu e
do Rio de Janeiro. Segundo Spencer Leitman, “sem
os italianos, especialmente aqueles bem relacionados
em Montevidéu, seria muito difícil praticar
o extremamente necessário comércio de
gado com o Uruguai, os rebanhos de gado eram trocados
por suprimentos de guerra”,10 referindo-se sobretudo
ao período da Revolução Farroupilha.
Pode-se observar que o século XIX foi um período
de intenso movimento migratório e político
também na América do Sul, onde o processo
emancipacionista e de construção dos
novos estados atraía a atenção
e a participação de personagens oriundos
dos mais diversos locais, engajados na defesa de ideais
e projetos políticos. Assim, a circulação
de homens, no Brasil e na região platina, ocorria
não só por interesses econômicos
e/ou de mercados, mas por interesses ideológicos
e/ou crenças ou vínculos políticos,
religiosos e/ou maçônicos. Como já
foi afirmado, Lívio Zambeccari foi um exemplo
disso.
O Conde Lívio Zambeccari (30.6.1802 –
30.4.1862) nasceu em Bolonha, descendente de família
nobre, e possuía uma formação
superior que o levou à simpatia pelo pensamento
político liberal. Quando tinha 18 anos, ocorreu
o movimento de Riego, em Cádiz, provocando
revoltas em diversas regiões italianas. Bolonha
pertencia aos estados Pontifícios e vivenciava
um movimento de caráter conspiratório,
porém, mais ameno que em outras regiões.
Nessa época, Zambeccari, recém filiado
à carbonária, é enviado ao reino
de Nápoles. Com a derrota desse movimento em
Piemonte, e a perseguição a todos os
participantes, inclusive com penas que previam a morte,
Zambeccari foge para a Espanha, local que ainda permanecia
sublevado, com carta de recomendação
da Carbonária.
Com a derrota desses movimentos, que propagavam a
liberdade e a independência dos regimes tirânicos
frente às forças da Santa Aliança,
Zambeccari foi para a Inglaterra e a França,
onde, mesmo tendo curso superior na área jurídica,
resolveu dedicar-se ao estudo das ciências naturais,
especialmente a mineralogia. Assim, fugindo de sua
condenação por participar de tais movimentos
e de apoiar as idéias de Mazzini11, passou
então pela Espanha, Inglaterra, França
e foi, em 1826, para a América do Sul. Viveu
em Buenos Aires, Montevidéu e, posteriormente,
no Rio Grande do Sul.
____________________________________________________________
10 LEITMAN, Spencer, op. cit., p.104.
11 Segundo Mazzini (apud Nascimbene, 1986, p.27),
“Era necessário que o impulso para que
houvesse um Risorgimento da Itália não
se limitasse à ação (...) política
e militante (...) de poucos indivíduos ou de
estratos sociais restritos, se não que fora
uma corrente ampla e profunda de renovação
espiritual, de caráter religioso e moral antes
de tudo, fundamentada sobre uma fé sólida
e profunda em Deus e na Humanidade, depositária
da lei divina do progresso, fé que devia investir
e arrastar a todo o povo”. [Tradução
nossa do espanhol]
____________________________________________________________
Segundo Luce Fabbri Cressatti12, Zambeccari
chegou ao porto de Montevidéu em 1826, com
carta de apresentação para Oribe, que
lhe encaminhou para a cidade de Durazno, onde se encontrou
com Juan Lavalleja e permaneceu por alguns meses,
antes de partir para Buenos Aires. Nesse período,
a Banda Oriental ou a Cisplatina, que pertencia ao
Império do Brasil, estava sublevada e dividida
entre os que apoiavam o Império e os que desejavam
a independência ou a união às
Províncias Unidas do Rio da Prata. Como a Banda
Oriental resolve, no Congresso de Florida, somar-se
às províncias Unidas, o Império
do Brasil declara guerra aos mesmos. Nesse intento,
Lavalleja comandou os 33 Orientais com o apoio de
Fructuoso Rivera e do presidente Rivadavia pelas Províncias
Unidas do Rio da Prata. Porém, o conflito evoluiu
para a independência da Banda Oriental, em 1828.
Zambeccari ficou encarregado de organizar a comunidade
italiana, que vivia em Buenos Aires, para arrecadar
fundos para as famílias dos mortos ou feridos,
como também festejos de apoio ao governo através
de apresentação teatral e de cantos.
Desta forma, a letra do “Inno alla Libertá”
ou “Himmo a la Libertad”, em italiano
(e, após, traduzido para o espanhol), com letra
de Zambeccari e música de Estevan Massini,
inspirado no canto de Vincenzo Monti (escrito em 1799,
por ocasião da execução de Luís
XVI),13 foi vendido entre a população.
Transcreve-se o Hino a seguir:
INNO ALLA LIBERTÁ.
Libertade bel dono de Numi
Liberta che deI Cielo sei figIia,
I imortali tu guida, e consiglia
L’orbe accendi dcl sacro tuo ardor,
Ma del Plata le spoode ridenti
Fian per sempre tua gloria e tuo regou
Ed éterno Luo templo ben degno
Sia de figli del sud, l’alto cuor.
____________________________________________________________
12 Italianos en Brasil y en el Plata en tiempo
de Garibaldi. in: Revista Garibaldi. Montevidéu:
Asociación Cultural Garibaldina de Montevideo,
n.3, 1988., pp.94-95.
13 Informação encontrada em CRESSATTI,
Luce Fabbri, op.cit.
____________________________________________________________
Invan s’adira, e freme
Lo stuol de rei tirauni
Indarno a nostri danni
L’ira gli presta ardir:
Vengan, vedran qual altro
Sveglia valor nel petto,
Di patria un dulce affetto
Di gloria un bel desir.
Vili Sechiavi, si invano tentate
Brandir l’armi né campi di morte
Solo avezzo a portar te ritorte,
Vostro braccio, trattarle non sá:
Ramentate di Sparta i guerrieri
Ramentate di Persia le genti,
Ugual fato v’attende, o strumenti
Del Tiranno che leggi vi dá.
Patria adorata e cara,
I figli tuoi nó mai
Impallidir vedrai
Degli empi al minacciar:
Per Libertade, o morte
Pugnano e fra ruine.
Di nuovi allori il Crine
Sapranno coronar.
Dellefurie sull’are temute
Gli argentini snudondo l’acciaro,
Odio eterno ai tiranni giuraro,
E quel giuro ripetono ognor:
Nasceranno le spiche nel Cielo,
Star vedrasi pria stabile il vento,
Ma nó mai che né petti fia spento
E que odio, c di patria l’amor.
L. Zambeccari14
____________________________________________________________
14 CRESSATTI, Luce Fabbri. Italianos en Brasil y en
el Plata en tiempo de Garibaldi. In: Revista Garibaldi.
Montevidéu, n.3, 1988, p.97.
____________________________________________________________
Observa-se, na letra do Hino, a presença
de idéias liberais, onde a defesa da igualdade
e da liberdade tem caráter internacionalista
e humanitário; portanto, acreditava-se que
deveria ser propagado em todos os cantos da Terra
e assumido como uma missão “moral universal”.
Lívio Zambeccari, por ocasião da posse
de Rosas (1829), no poder da Província de Buenos
Aires, partiu para o Rio Grande do Sul, onde foi recebido
por Bento Gonçalves da Silva, amigo de Juan
Lavalleja. Porém, continuou mantendo contato
através de viagens constantes entre o porto
de Buenos Aires e o Rio Grande do Sul, que, conforme
Ferratti, eram explicadas por seus negócios
e estudos na área das ciências naturais.
Ficou mais permanentemente no Rio Grande do Sul, em
especial em Porto Alegre, a partir de 1833.
Salvatore Candido, salientando a importância
da presença de Zambeccari no amadurecimento
político da elite rio-grandense, especialmente
daqueles diretamente vinculados com o início
da Revolução Farroupilha (1835-1845),
afirma:
... donde con fecunda y conciente actividad periodística
llegaría a ser uno de los inspiradores y teóricos
de la revolución republicana que levantaría
aquella província en la encarnizada lucha contra
el Imperio por su libertad e independencia .Volverá
después a Italia y participará hasta
1860 [...] en guerras y revoluciones ...15
___________________________________________________________
15 CANDIDO, Salvatore, Op.cit., pp.222.
16 Correspondência de Manuel Alves da Silva
Caldeira a Alfredo Varela, 5 de maio de 1895, Arquivo
Histórico do Rio Grande do Sul, CV-3099, pp.334-335.
___________________________________________________________
Entre suas atividades, Zambeccari participou
de medições de terras realizadas na
colônia alemã de São Leopoldo,
tornando-se amigo de Hermann Von Salish, que muito
auxiliou os farroupilhas na Revolução.
Autores como Calvet Fagundes, Dante de Laytano e Yvonne
Capuano, mesmo sem se aprofundarem sobre a atuação
de Zambeccari, afirmam que ele foi o intelectual de
maior influência na época, pois não
só atuou na organização de estratégias
políticas do início da revolução
e da guerra, como realizou traduções
de autores europeus, principalmente através
de seus escritos nos jornais, como “O Continentino”,
vinculado à Loja “Filantropia e Liberdade”,
e, mais tarde, no jornal “O Republicano”.
Também desenhou mapas cartográficos
da cidade de Porto Alegre e pintou quadros e aquarelas
com cenários rio-grandenses, especialmente
dos combates. Segundo Alfredo Varella, Zambeccari
ainda projetou a bandeira tricolor dos republicanos
farroupilhas (verde, amarela e vermelha), em Buenos
Aires. Tal afirmação também encontra
base no documento pertencente ao Processo dos Farrapos,
no depoimento de Manuel Lobo Ferreira Barreto:
Estando em Buenos Aires no mês de outubro de
1835, ali falara com um espanhol morador naquela cidade,
onde ele mesmo testemunha, estivera hospedado, de
nome Dom Carlos Huergo, e que lhe dissera a ele testemunha
que naquela cidade, antes da revolução
de 20 de setembro, se havia preparado uma bandeira
para a República que os Revolucionários
pretendiam estabelecer na Província do Rio
Grande e que essa bandeira lhe afirmava, a ele testemunha,
o dito Dom Carlos e outros membros da família,
que tinha sido mandada fazer delineada por um italiano
de nome Lívio Zambeccari, o qual se intitulava
visconde e que este mesmo italiano sabe ele testemunha
viera e fora conduzido a esta Província pelo
mesmo Francisco Modesto Franco, em sua embarcação
denominada Bela Angélica, para dirigir como
sempre dirigiu a revolução desta Província,
desde o dia 20 de setembro de 1835 até 4 de
outubro de 1836, em que ele, dito Zambeccari, foi
preso junto com o Coronel Bento Gonçalves,
de quem o mesmo italiano foi sempre inseparável17.
____________________________________________________________
17 In: Processo dos Farrapos, v.1, pp.226-227.
____________________________________________________________
Entre os autores traduzidos por Zambeccari
e que irão influenciar a elite farroupilha,
estão Padre Lamennais (“As palavras de
um crente”, publicada na França em 1834,
e traduzida em 1835), Juan Sismondi (“Novos
princípios da economia política”)
e Mazzini. Zambeccari defendia a liberdade através
da república e da federação,
e proclamava a soberania dos “povos” (províncias,
local, no mesmo sentido do termo espanhol “pueblos”)
contra a tirania dos governantes, ideais que aparecem
nas correspondências, proclamações
e textos dos pertencentes ao grupo da maioria farroupilha,
chefiado por Bento Gonçalves da Silva e Domingos
José de Almeida.
Morivalde Calvet Fagundes18 (1984, p.66) registra
que o Jornal “O Recopilador Liberal”,
que pertencia a Manuel Ruedas, Calvet e Zambeccari,
já em 1832 pregava os ideais federalistas:
... o Continentista, de Sá Brito e de Calvet,
publicou um longo artigo de fundo, defendendo o sistema
federativo com uma linguagem violentamente revolucionária,
onde, com fundamentos ideológicos democráticos,
defendia os princípios pelos quais fora feita
a Revolução de 20 de setembro. Esse
trabalho foi atribuído por alguns a Zambeccari
...19
Nos Anais do Arquivo Histórico do Rio Grande
do Sul, Coleção Varela20, também
encontramos um relato do farroupilha Manuel Alves
da Silva Caldeira, tratando da organização
do plano da revolução. Diz que: “...
Zambeccari, Bento Gonçalves, Onofre e Calvet
é que tratavam do assunto da república,
sendo Zambeccari a primeira cabeça que planejava
a marcha que se devia ter mais tarde [sobre Porto
Alegre]...”. E, mais adiante, continua “(...)
era um homem muito científico e um perfeito
republicano”, referindo-se a Zambeccari.
A presença atuante de Zambeccari e sua participação
como elemento pertencente à liderança
farroupilha poderá ser averiguada por ocasião
de sua prisão junto a Bento Gonçalves
da Silva e Onofre Pires na Ilha de Fanfa: “(...)
que os liberais detidos em Porto Alegre viram, pela
manhã de 7 de outubro, baixar pela escotilha
aos infectos porões da Presiganga, onde se
achavam, o ex-comandante da Divisão do Norte
(Onofre), o secretário de Bento Gonçalves,
Zambeccari ...”21.
____________________________________________________________
18 CALVET FAGUNDES, Morivalde, op. cit, pp. 66.
19 Ibidem., pp. 106-107.
20 Correspondência de Manuel Alves da Silva
Caldeira para Alfredo Varela, 5 de maio de 1895, CV-3099,
v.5, p. 336.
21 CALVET FAGUNDES, Morivalde, op. cit, pp.170
____________________________________________________________
Fagundes Calvet informa que Lívio
Zambeccari, na prisão (de Santa Cruz passou
para a de São João e por fim a de Lages),
elaborou uma carta geográfica do Rio Grande
do Sul, a partir de outros mapas já existentes,
acrescidos de seu conhecimento oriundo das muitas
viagens feitas, especialmente com Bento Gonçalves.
Tal mapa foi impresso na “litografia Larrée,
então existente à rua do Ouvidor, 66,
com impressão de J.L. Coelho”22. Também
na prisão trabalhou em traduções
e na escrita de matérias para folhetos ou jornais
liberais do Rio de Janeiro.
Zambeccari também foi quem, na prisão
de Santa Cruz, convidou Rossetti e Giuseppe Garibaldi
a prestarem serviços à causa republicana
dos farroupilhas no Rio Grande do Sul, apresentando
os mesmos a Bento Gonçalves da Silva.
Os rio-grandenses presos conseguiram fugir da prisão,
com apoio da maçonaria. Zambeccari, porém,
por problemas de saúde e por não saber
nadar, conforme registros da época, não
conseguiu esse intento, permanecendo mais três
anos na prisão. Foi liberto em 2 de dezembro
de 1839, por anistia concedida pelo governo imperial,
na condição que logo que saísse
da prisão abandonasse o país. Do Brasil
vai para a Inglaterra e, de lá, para a França
e a Itália, onde continuou a luta por seus
ideais e em defesa da república.
Destacando a participação de Zambeccari,
como as de Rossetti e Garibaldi na Revolução
Farroupilha, tem-se citação de um dos
líderes da Revolução, Domingos
José de Almeida, transcrita do Jornal “O
Povo”: “Os senhores engenheiros e artilheiros
têm tido um procedimento que se não compadece
com os defensores de princípios; cuidam que
nadamos em ouro; não é fácil
encontrarmos muitos Zambeccaris, Rossettis e Garibaldis...”
Podemos observar, portanto, que a experiência
européia da luta pela valorização
das regiões, que poderiam se unir por suas
aproximações culturais, através
de laços que garantissem a sua liberdade ou
a sua autonomia (federalismo), e não a centralização,
encontraram eco nas lutas pela independência
das províncias e regiões no Continente
Americano. Com isso, tais realidades aproximaram e
motivaram os sonhos e ideais de muitos homens, nos
quais destacamos os italianos, que para cá
vieram e participaram, nesse momento, do processo
de construção dos estados nacionais
na América, e nesse espaço fronteiriço
platino.
____________________________________________________________
22 CALVET FAGUNDES, Morivalde, op. cit, pp.176.
____________________________________________________________
Assim, percebe-se que a temática
que envolve a emigração para a América
do Sul, e nesse caso para a região platina
e para o Brasil, neste ano de 2005, em que se completam
os 130 anos da imigração italiana para
o sul do Brasil (enquanto projeto político
do governo do Império brasileiro de criar colônias)
e os 170 anos da Revolução Farroupilha,
merece ainda mais atenção, por marcar
tanto o processo histórico de formação
do Rio Grande do Sul como o de sua identidade cultural
e regional, percebidos na denominação
de municípios de regiões de colonização
italiana, com personagens da Revolução
Farroupilha, como Bento Gonçalves, Garibaldi
e Caxias.
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Porto Alegre sitiada
Sérgio da Costa Franco 1
____________________________________________________
Procurador de Justiça aposentado
e historiador
Com alguma surpresa, porque a Revolução
Farroupilha não é um assunto de
minha preferência, fui convidado para este
painel. Tenho pesquisado mais sobre a vida republicana
do Rio Grande do Sul, a Revolução
Federalista, a Velha República e, depois,
a história urbana de Porto Alegre. Entretanto,
minha atenção foi despertada para
um capítulo pouco estudado da Revolução
Farroupilha, que foi o sítio ao qual a
cidade de Porto Alegre foi submetida durante quatro
anos. Rigorosamente, foram três sítios
com duas interrupções, mas que tiveram
marcante influência na vida da cidade, cujo
desenvolvimento foi paralisado de 1836 até
1840. É um capítulo pouco estudado.
E por quê? Especialmente porque tivemos,
na história da Revolução
Farroupilha, uma história de glorificação
dos farrapos. É curioso, mas essa parte
da historiografia gaúcha é marcada
pelo mito, pelo imaginário, pelo interesse
político. Cabe aqui fazer uma análise
dos motivos.
Fim da Revolução Farroupilha. Em
1845, fez-se a paz. Foi muito hábil a pacificação
realizada por Caxias, de extrema eficácia,
porque, em seguida, as fileiras se misturaram.
Farrapos que tinham sido até ministros
da República Rio-grandense passaram para
o partido dos conservadores, e velhos legalistas
com tradição, como o Conde de Porto
Alegre, foram integrados depois ao partido dos
liberais. O Partido Liberal teve como chefe de
uma de suas facções no Rio Grande
do Sul o Conde de Porto Alegre e, de outra, o
General Osório. Ambos lutaram na Revolução
Farroupilha ao lado dos imperiais.
___________________________________________________________
1 Texto transcrito da palestra proferida no Seminário
Internacional “170 Anos da Revolução
Farroupilha
– o Legado de Bento Gonçalves, Garibaldi
e Anita” e revisado pelo autor.
___________________________________________________________
Salvo os generais, Caxias manteve
todos os oficiais do exército da República
Rio-grandense em seus postos, pagaram-se as dívidas
contraídas por ela e, de um modo geral,
os atos praticados pela República foram
respeitados. Quem estudar a história da
Assembléia Legislativa Provincial verá
que se fez silêncio depois da pacificação
em 1845, ninguém mais falou da Revolução
Farroupilha, e isso durante 30 anos, de 1845 até
1875, aproximadamente. A Revolução
Farroupilha foi um capítulo arquivado.
Quem foi o autor do primeiro livro que surgiu?
Tristão de Alencar Araripe, um legalista.
A obra era “A guerra civil do Rio Grande
do Sul”, o autor era um cearense, funcionário
do Governo, que veio ao Rio Grande do Sul e o
conheceu como presidente da província.
Havia uma espécie de contrição
pela longa e desastrosa guerra civil.
Foram os jovens estudantes da faculdade de Direito
de São Paulo, Julio de Castilhos, Alcides
Lima, Assis Brasil e outros que começaram
a manifestar interesse pela história da
República Rio-grandense e pela história
farroupilha. Há uma carta muito interessante,
que está no arquivo do Instituto Histórico,
dirigida pelo então estudante Julio de
Castilhos, ainda em São Paulo, para Apolinário
Porto Alegre, pedindo a ele que estudasse e divulgasse
a história da Revolução Farroupilha.
Lá, eles fundaram o Clube 20 de setembro,
com esse interesse específico. Em 1880,
quando é publicado um livro de Assis Brasil
sobre a história da República Rio-grandense,
começa a nascer o interesse político
por sua história. Mas não era um
interesse científico, com a devida preocupação
de objetividade que deve ser o aspecto dominante
da historiografia.
O estudo sobre a Revolução Farroupilha
nasceu em função da propaganda republicana
e da fundação do Partido Republicano.
Quando vitoriosa a República, o hino, a
bandeira e as armas da República Rio-grandense
passaram a ser oficiais. Então, o Rio Grande
do Sul incorporou oficialmente o patrocínio
da história da República Rio-grandense,
um caso raro. A outra exceção, creio,
foi Pernambuco, que tem como bandeira a da Confederação
do Equador. Mas, de todos os pensamentos federalistas
que surgiram durante a Regência apenas o
do Rio Grande do Sul se consolidou no imaginário
regional e se oficializou, por assim dizer.
Surgiu, então, uma história oficial
de culto aos farrapos, mas ignorando o lado dos
adversários, que não foi inexpressivo.
Porto Alegre, Rio Grande, Pelotas e São
José do Norte mantiveram-se fiéis
à integridade do Império, e não
acompanharam e secundaram os líderes da
Revolução Farroupilha. O fato se
explica porque todo o comércio do Rio Grande
do Sul se dirigia ao Brasil, e não podia
perder o mercado brasileiro sob o ponto de vista
econômico. Em conseqüência, a
fundação da República Rio-grandense
é um paradoxo, já que não
tinha fundamento nem objetividade econômica.
Isso traduz toda essa digressão e responde
à pergunta de porque o sítio de
Porto Alegre é um assunto arquivado em
nossa historiografia. Além disso, temos
aqui o estranho caso de cultuar como heróis
justamente aqueles que atacaram a cidade com violência.
O general Neto, que assestou seus canhões
sobre ela e a bombardeou repetidamente durante
vários meses, hoje é nome de rua
em Porto Alegre. O general Bento Gonçalves,
que também bombardeou a cidade e tentou
atacá-la várias vezes, também
é nome de rua.
Já Francisco Pedro de Abreu, o Barão
do Jacuí, que muitas vezes salvou Porto
Alegre da fome, trazendo gado para abastecer a
cidade quando estava sitiada, não tem seu
nome em uma rua sequer dentro de Porto Alegre.
Francisco Pedro de Abreu foi exemplo de um dos
maiores combatentes de toda a guerra civil, de
grande habilidade tática e especialista
em surpresas.
Derrotou, individualmente, todos os comandantes
rebeldes com suas incursões, e terminou
sepultando a Revolução Farroupilha
no combate de Porongos. Da mesma forma, o major
Jorge Mazarredo, comandante do 8º Batalhão
de Caçadores, que morreu em combate na
Várzea (hoje Parque Farroupilha), mostrou
valentia e muito brio. Ambos não receberam
qualquer homenagem da cidade. Por sua vez, o coronel-brigadeiro
Francisco Xavier da Cunha, que comandou a cidade
durante longo tempo, e depois morreu no Passo
de Santa Vitória, na divisa com Santa Catarina,
nunca foi lembrado na capital. Tive o cuidado
de olhar todo o elenco das ruas de Porto Alegre
para ver se aparecia alguma menção
aos comandantes legalistas. Apenas o Conde de
Porto Alegre, que depois foi chefe político,
líder do Partido Liberal, é tratado
diferentemente, e isso explica a homenagem que
lhe foi feita. Foi a primeira pessoa que recebeu
uma estátua em praça pública
em Porto Alegre.
Os fatos mostram quanto a nossa historiografia
é distorcida. Ela é decididamente
inclinada a enfeitar a memória dos farroupilhas
e denegrir a memória dos legalistas. Mas
o assunto não me interessava tanto sob
esse aspecto, não sou afeiçoado
à história militar, mas sim pelo
ponto de vista da história da cidade.
Porto Alegre foi conquistada pelos farroupilhas
em 20 de setembro de 1835, mas mantiveram-na apenas
por nove meses, até junho de 1836. Em seu
domínio, mostraram-se inábeis e
atritaram-se logo com o comércio da capital.
Em certos meios, havia uma obsessão anti-lusitana,
no que pontificava Pedro Boticário, que
era um agitador muito demagogo e chegou a apresentar
um projeto para expulsar todos os portugueses
de Porto Alegre. Isso representava expulsar todo
o comércio da época, que ainda não
tinha sido dominado pelos alemães, e se
mantinha como um comércio decididamente
português.
Ocorreu, então, que a Câmara Municipal
se esvaziou, porque havia, pelo menos, três
vereadores que eram fortes comerciantes portugueses
ameaçados de expulsão. Eles trataram
de tirar férias em Rio Grande, onde era
mais tranqüilo. As agitações
e, sobretudo, o clima de radicalismo criado por
Pedro Boticário e sua facção
terminaram indispondo a capital, ou grande parte
da população, contra seus ocupantes.
Isso explica a facilidade com que os legalistas
retomaram Porto Alegre em junho de 1836.
Os oficiais que estavam presos articularam-se
com alguns que estavam em liberdade, retomaram
o quartel do 8º Batalhão de Caçadores,
dominaram a guarnição e tomaram
conta da cidade. Os farroupilhas procuraram reconquistá-la
imediatamente, mas não conseguiram. Já
nos últimos dias de junho, Bento Gonçalves
dirigiu uma proclamação, ameaçou
severamente a guarnição legalista
e a cidade, mas ela não se assustou. Porto
Alegre já estava sob o comando de alguns
velhos marechais bastante experientes, como Francisco
das Chagas Santos e João de Deus Mena Barreto,
com longo tirocínio na guerra da Cisplatina,
alguns desde a expedição de Dom
Diogo de Souza, em 1812. Eram militares testados,
não se assustaram com a intimação
e resistiram, mesmo com grande inferioridade numérica.
A cidade tinha aproximadamente 300 homens em armas,
mas desde logo abriram-se trincheiras. Ainda que
sem artilharia, a população ajudou
a resistência e, apesar do violento ataque
no dia 30 de junho, os farroupilhas não
conseguiram retomá-la. O primeiro sítio
prosseguiu até setembro de 1836, durou
três meses, sendo que os ataques mais severos
foram em 30 de junho e 20 de julho, mas em ambos
os casos Porto Alegre resistiu.
O bloqueio não era apenas por terra, mas
também pelo setor do lago, no Guaíba.
Os farrapos trouxeram embarcações,
e com elas obstaculizaram o comércio da
cidade através da Lagoa dos Patos, ao fortificarem
o estreito de Itapuã. Em conseqüência,
até fins de agosto, Porto Alegre ficou
completamente isolada do sul da Província,
sem poder receber recursos bélicos e auxílio
militar de Rio Grande, que mantinha contato com
o resto do Brasil.
Mas, em agosto, organiza-se a retomada de Itapuã.
Caiu então o fortim que os farrapos tinham
estabelecido. Também a ilha do Junco, onde
haviam se fortificado, foi retomada pelos legais
e, com isso, foi restabelecida a comunicação
com a Lagoa dos Patos e com o porto de Rio Grande.
Em fins de julho, chegara um reforço importante:
Bento Manoel Ribeiro, que começara como
farrapo e depois aderira aos legalistas. Ele surgiu
defronte à cidade, onde hoje é Guaíba,
com uma força de 800 homens. Socorreu Porto
Alegre que, naquele momento, encontrava-se numa
situação difícil. Trouxe
armas, gente, munição e alimentos.
Naquele momento havia grande escassez de carne
na cidade, as dificuldades de abastecimento já
se fizeram sentir desde o primeiro sítio.
Com a chegada do Bento Manoel, Bento Gonçalves,
que dirigia o cerco à cidade, pretendeu
escapar de uma possível marcha de flanco
e de um envolvimento pela retaguarda, e então
retirou-se e aliviou o sítio. Na retirada,
ele tentou passar o Rio Jacuí, rumo ao
sul da Província, e, na batalha de Fanfa,
foi vencido e aprisionado, juntamente com grande
parte da cúpula dos farroupilhas, em 4
de outubro de 1836.
Deu-se, então, um intervalo de cerca de
oito meses, em que a cidade ficou livre de cerco.
Até maio de 1837, foram oito meses de intervalo
do sítio, mas isso não representou
o fim dos problemas. A cidade já tinha
cavado trincheiras, e daí foi estabelecido
um sistema de entrincheiramento. Duas plantas,
de 1836 e 1837, mostram a cidade sitiada e seu
sistema de defesa.
O segundo sítio estendeu-se de fins de
abril de 1837 até fevereiro de 1838. Um
pesado ataque farroupilha ocorreu em 20 de junho
de 1837. A cidade tinha recebido reforços
e artilharia, e estabelecido cerca de 22 bocas
de fogo. Foram montados 15 baluartes. A cidade
nunca teve muralha, o que havia eram trincheiras,
valas profundas de quatro metros de profundidade.
Nos intervalos estavam os baluartes artilhados,
com um ou dois canhões em cada um deles.
Os baluartes começavam na rua Coronel Vicente,
na esquina com a Voluntários da Pátria,
subiam até o alto da Santa Casa, passavam
por trás da Santa Casa, onde é a
Rua Avaí. Hoje, a cidade está toda
desfigurada pela abertura da Perimetral, mas as
fortificações seguiam em direção
ao Pão dos Pobres, onde estava o limite
extremo da linha de entrincheiramento.
Após o intervalo do sítio, que levou
oito meses, os farrapos voltaram a atacar a capital.
Houve, na ocasião, um cerco bem mais agressivo
porque o general Antônio Souza Neto trouxe
artilharia de campanha e chegou com 1.400 homens,
que atacaram repetidamente a cidade. A defesa
era composta por 700 infantes, 250 cavalarianos
e os civis, voluntários, que tiveram grande
importância porque, a qualquer sinal de
ataque, os paisanos locais apareciam nas trincheiras
e se apresentavam para a luta.
Uma das principais fontes que utilizei em meu
estudo foi uma espécie de diário
de um paisano, um português que era comerciário
e foi, em certos momentos, vice-cônsul do
Reino da Sardenha. Seu nome era Antônio
Barreto de Queirós. Ele produziu um manuscrito
interessante, minucioso ao extremo. Acredito que
ele dava ao texto um caráter jornalístico
e mandava para o Jornal do Comércio do
Rio de Janeiro, como um diário de todos
os acontecimentos ocorridos no interior da cidade
sitiada. Embora muito prolixo, o diário
apresenta observações sobre o caráter
da política local, sobre os comandantes,
e o que ele entendia serem erros de tática
ou estratégia, além de muitas observações
e comentários de natureza política.
Era um antiliberal declarado, mas, apesar disso,
seu diário é bem interessante e
informativo.
Num ataque, em 20 de junho de 1837, sete pessoas
morreram e 15 casas foram arruinadas, algumas
destruídas, outras incendiadas. A verdade
é que a artilharia, tanto a dos rebeldes
quanto a dos legalistas, era pouco eficiente.
Registrei algo interessante nesse diário.
O autor observava que, às vezes, não
convinha atirar com os canhões de defesa
da cidade porque as balas era reaproveitadas pelos
atacantes, já que eram do mesmo calibre.
Confirmei a afirmação através
de uma correspondência do capitão
da guarnição, que dizia ser interessante
usar apenas os obuses que eram de maior calibre
e não correspondiam à artilharia
dos farrapos, e, portanto, os projéteis
não podiam ser reaproveitados.
A artilharia era fraca, mas produzia alguns danos
materiais. A população escondia-se,
fugia do ponto de alcance dos canhões rebeldes
e, assim, evitavam-se males maiores. O número
de mortos e feridos sempre foi pequeno, mas ocorreram
vários ataques. Na ocasião, o general
Neto tinha convicção de que era
importante tomar Porto Alegre, mas ele foi ineficaz
nesse ponto e nunca conseguiu vencer as defesas
dos legalistas. Como base de apoio aos ataques,
manobras e incursões, ele fundou um forte,
uma construção fortificada em um
agrupamento de casas, onde instalou seu grupo
de atacantes.
Esse foi o único vestígio que ficou
incorporado à linguagem da cidade de Porto
Alegre, que é a estrada do Forte, uma ligação
do Passo da Areia com a Avenida Protásio
Alves, na Vila Jardim. Ali, na Rua Saturnino de
Brito, numa pequena elevação, existia
o forte construído pelo general Neto. Restaram
apenas as marcas verbais, e aparentemente nenhum
vestígio material. Arqueólogos talvez
descubram alguma coisa nos locais onde esses baluartes
foram montados, mas até hoje não
me consta que tenham encontrado coisa alguma.
Mas o forte do general Neto legou o nome à
Estrada do Forte, que hoje é a Avenida
do Forte. Mas, para escapar a uma manobra de flanco
planejada pelos legalistas, que contornaria suas
forças e cortaria sua retirada, os farroupilhas
deixaram suas posições no cerco,
dando uma trégua no sítio à
cidade no período de fevereiro a junho
de 1838.
O terceiro sítio, de junho de 1838 a dezembro
de 1840, foi o mais longo e mais frouxo porque
foi um cerco praticado à distância,
primeiro por Bento Gonçalves, e depois
por David Canabarro. Eles mantinham seus quartéis
em Gravataí, São Leopoldo e Viamão,
portanto relativamente distantes de Porto Alegre.
Do período, fica a impressão de
que a tomada da cidade deixara de ser um objetivo
estratégico, e fora substituída
pela preocupação em reter as forças
legalistas em Porto Alegre. Como a revolução
se deslocara mais para o interior do Estado, parece
que, para os rebeldes, o mais importante era manter
uma força numerosa em Porto Alegre, evitando
que se deslocasse para o interior da Província
no enfrentamento das forças farroupilhas.
E alcançaram esse objetivo porque os legais
permaneceram aqui em grande número.
Mais de 2.000 homens vieram para cá, incluindo
batalhões da Bahia, Pernambuco e Rio de
Janeiro. Na época, a guarnição
de Porto Alegre teria, segundo Tasso Fragoso,
1.350 homens de infantaria, 131 de cavalaria,
94 de artilharia, mais 500 homens das guarnições
das trincheiras, nas baterias que, em geral, eram
servidas pelo batalhão provisório
e por voluntários.
No terceiro sítio não ocorreram
ataques frontais à cidade, ao entrincheiramento.
Ao contrário, foram os legais que partiram
para o combate fora das trincheiras. Os sitiados
promoveram várias incursões, combates
na Azenha, na Chácara das Bananeiras, na
região da Aparício Borges, dos atuais
quartéis da Brigada Militar, e em Viamão,
onde Luigi Rossetti morreu em combate. Ele foi
o grande jornalista da Revolução
Farroupilha, e redigiu o jornal “O Povo”.
Daí em diante, até dezembro de 1840,
quando se retiram as forças de David Canabarro,
que tratou de enfrentar a incursão do general
Labatut, que vinha pela Serra, e depois as de
Bento Gonçalves, a revolução
se aproximou mais da paz. O presidente Alvares
Machado e Bento Gonçalves trataram uma
conferência de pacificação,
e o cerco tornou-se mais simbólico do que
outra coisa. O período dos sítios
de Porto Alegre terminou em dezembro de 1840.
O que temos a destacar nesse período: primeiro,
as dificuldades de abastecimento da cidade, a
escassez de carne, de charque (disso há
várias queixas repetidas na Câmara
Municipal, daí a necessidade de racionamento
e as encomendas especiais). Além disso,
as reclamações dirigidas a Rio Grande
para que mandasse os navios, que tinham que vir
em comboio.
Isso representava uma grande dificuldade, porque
os comboios deveriam ser guarnecidos por embarcações
da Marinha. Os barcos de Garibaldi, corsários
farroupilhas, atuavam na Lagoa dos Patos e tinham
sua base na foz do Camaquã. Havia, também,
severos controles da navegação fluvial,
para reprimir o contrabando, porque o comércio
era feito clandestinamente, através de
sitiados em acordo com os farrapos. Eram necessários
inúmeros documentos de controle, por exemplo,
para que um barco saísse da cidade. Era
preciso levar um salvo conduto assinado pelo chefe
da polícia, e esse foi outro fato marcante
no período dos cercos.
Porto Alegre foi, de certa forma, salva por São
Leopoldo, que abastecia regularmente a população
da cidade através do Rio dos Sinos. Os
farrapos desde logo perderam seus barcos, já
no primeiro sítio. Depois, eles, que tinham
se adonado de algumas embarcações,
perderam o controle do rio e de seus acessos,
e isso permitiu a ligação com São
Leopoldo, quando o abastecimento melhorou.
Cabe notar que a imprensa esteve em grande atividade
durante todo o período do sítio.
Inúmeros jornais – todos favoráveis
ao Governo – foram publicados na época
legalista. Havia também uma cultura dos
manifestos, nossos arquivos estão cheios
de proclamações. Cada oficial, ao
assumir o comando da guarnição,
baixava uma proclamação; os governadores,
quando assumiam, também baixavam suas proclamações,
que circulavam dentro e fora das trincheiras.
Quanto à atividade política, deve-se
dizer que a Assembléia Legislativa Provincial
não funcionou em 1838 e 1839, por não
ter havido eleições até 1846.
Mas, em 1840, houve vários julgamentos
do Tribunal do Júri, quando o cerco ainda
não havia cessado. Encontrei sessões
do Júri, de setembro de 1840, momento em
que a cidade ainda estava sob sítio, mesmo
que um tanto distante, frouxo, mas sob sítio.
Assim defendida, a cidade viveu até findar
a Revolução Farroupilha. O término
do sítio, sob o ponto de vista da história
de Porto Alegre, foi um acontecimento, porque
logo a cidade começaria a se expandir e
iniciaria a regularização da Avenida
Independência, da Cristóvão
Colombo, da Azenha. Foi uma grande expansão
urbana que a cidade viveu a partir de 1844, depois
de ter sido reprimida durante quatro anos. Nesse
momento, ela começa a se projetar para
fora da área das trincheiras, que finalmente
foram desfeitas.