Madison, WI, EUA – Domingo, oito horas da manhã. A cama preguiçosa resiste a deixar meu corpo levantar-se. Lembranças de um interior cravado no peito, quando era tempo, abençoado pela mãe e pelo pai, de sair da cama, comer um lanche rápido até uma hora antes da missa e merecer a comunhão da hóstia na igreja apertada de gente, confusa para o cachorro que nela insiste em entrar, inacabada aos olhos dos homens e talvez, quem sabe, de Deus.
Preparo um café. A campainha toca. Vou ver: duas senhoras com expressões que a vida difícil, mais que o tempo, marcou; roupas rotas mas limpas, compostas, conservadas. À frente uma branca alta de olhos foscos azuis, cabelos de palha cinza com reflexos de outro tom distante, esmaecido. Pouco atrás a negra, como uma escrava da primeira, olhos esbugalhados sobre a boca fechada e mãos cruzadas sobre uma bíblia amarrada com um lenço. A branca tem nas mãos seu livro aberto e é ela quem pergunta se posso dispor de um tempinho para Deus, anunciando-se como “testemunhas”.
Com a água fervendo na memória do fogão, resolvo ser rápido e digo que Deus já está em nossa casa, que é cheia d’Ele. A branca, rapidamente, estoca: “O senhor é muçulmano?” Sentindo o preconceito, resolvo contra-atacar pela direita e disparo “que não, que respeito os orixás do Candomblé” e explico, desrespeitando a História, que é uma religião afro-brasileira trazida pelos yourubas, gês e nagôs e antes que os olhos da negra saltem das órbitas emendo que minha esposa é judia. Satisfeitas ou não, as duas balbuciam alguma coisa, agradecem, desejam bom dia e se retiram. Domingo é dia de ortodoxos, eu penso.
No MacBook vejo os e-mails e leio alguns jornais. Massacre no Irã dos sacerdotes xiitas! Entre as mensagens recebidas, notícias me pasmam pela segunda vez no dia incomum. Fiéis católico(a)s da Capela de N.S. de Fátima, projetada por Niemeyer na Quadra 307/8 Sul, em Brasília, entram em protesto pelo que chamam de profanação pela obra mural do artista Francisco Galeno na carinhosamente chamada Igrejinha da 307/8 Sul, em processo de restauração pelo Iphan. Sessenta e oito assinantes de um pretenso manifesto, onde se lê ao fundo o cajado de algum pastor insatisfeito, reiteram que a pintura – a arte – é profana, sacra, pagã e que a igreja não é museu. Rezam missa pelo lado de fora. Profanam a pintura nas paredes internas, pintura linda, coerente, volpiana, brasileira. Pecam em nome de um deus pequenino, mesquinho, vendadas pelo medo e pela moral atrasada, maniqueísta, dominadora, escravagista, como minhas duas visitantes matinais.
Carolices à parte, ninguém merece o desrespeito. E esse com certeza não está na obra de Galeno, nascido no dia de N. S. de Fátima e que por isso foi batizado de Francisco de Fátima Galeno. Sua pintura colocou-se como alternativa ao desrespeito anterior praticado por párocos e fiéis de má-fé, que no alvorecer da “Redentora”, como chamam o golpe militar de 1964, encobriram os afrescos de Volpi nas paredes da Capela, tombada como Patrimônio Cultural da Humanidade. Com gesso, tinta e estuque mandaram para a escuridão da estupidez humana a pintura existente, imagens cheias de compaixão entre bandeirolas e balões da santa que apareceu em Portugal para três crianças, que passaram a viver pelos restos de suas vidas com um segredo inexplicável e massacrante.
Querem, as carolas do atraso espiritual, fazer a história repetir-se, fortalecer talvez o estigma da ignorância como patrimônio cultural do povo brasileiro. Com todas as chances, é claro, de sucesso, não fossem os artistas e a população de Brasília, que conclamam todos para o abraço à Igrejinha (sábado, dia 27 de junho, às 16 horas) e à denúncia constante do ato escabroso de censura ao pensamento e à arte.
É preciso impedir que o obscurantismo torne-se marca de nossa cultura, tão rica e tão variada. É preciso que o Ministério da Cultura e até quem sabe o Carlos Minc, tão afoito no meio do ambiente, imponham um ponto final e obriguem a quem de direito (o Bispo?) a pagar por qualquer dano que venha a ocorrer na obra de arte, que a Igreja, de fato separada do Estado, seja tratada com a mesma pouca fé com que o são os pichadores. É preciso um basta ao desrespeito.
À tarde, vou com a família à Parada das Espécies, uma comemoração local dos 200 anos de nascimento de Charles Darwin. Festa engraçada, sem ritmo mas muito colorida e animada. Várias pessoas vestidas de si mesmas ou de animais, muitas máscaras e bonecos enormes como nos carnavais de Olinda e Recife. No estacionamento, um carro ostenta no para-choque a frase-síntese do meu domingo: “Deus, livrai-me dos Seus seguidores”.
27/6/2009
Fonte: ViaPolítica/O autor
Paulo Campos Andrade, 55, colaborador permanente de ViaPolítica, escreve desde os Estados Unidos. Designer gráfico e artista plástico, nascido em Minas Gerais, estudou no Rio de Janeiro, e radicou-se em Brasília na década de ‘70, onde participou dos principais movimentos culturais da cidade. Partiu para Nova York nos anos ‘80, de onde retornou nos ‘90. Em 2006 e 2007 morou na Paraíba. Hoje vive em Madison, Wisconsin, EUA. Além de pintor e mestre-cuca, foi editor de jornais e livros.
E-mail: paulocamposandrade@hotmail.com